Main (Para Nova York, com amor #4) Simplesmente Nova York

(Para Nova York, com amor #4) Simplesmente Nova York

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Às vezes, a melhor maneira de encontrar o amor é parando de procurá-lo.Molly (ou Aggie, nas redes sociais) é a colunista de relacionamentos mais famosa de Nova York, e seu livro sobre como encontrar a pessoa certa vendeu milhões de exemplares. Pena que ela não consegue seguir os próprios ensinamentos. Depois de um término traumático que a levou de Londres para Nova York, Molly decide que relacionamentos não são para ela, e que o único amor de sua vida vai ser seu dálmata, Valentine.Daniel (ou Rottweiler, para os inimigos) é o advogado especialista em divórcios mais famoso de Nova York, e sabe que sentimentos são a pior coisa que alguém pode trazer para um relacionamento. Um pouco de diversão, porém, não machuca ninguém, e é por isso que ele não vê nada de mais em pegar um cachorro emprestado para conhecer a linda mulher que cruza seu caminho toda manhã no Central Park.Molly e Daniel acham que sabem tudo sobre relacionamentos. No entanto, à medida que a química poderosa entre eles os aproxima, começam a descobrir que ainda há muito o que aprender sobre o amor...Após Amor em Manhattan, Pôr do sol no Central Park e Milagre na 5ª Avenida, Sarah Morgan está de volta com mais um romance para renovar sua fé no amor."
Year:
2020
Language:
portuguese
File:
PDF, 1.65 MB
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1

Magasin général 4 - Confessions

Year:
2010
File:
PDF, 47.21 MB
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2

Magasin général 3 - Les Hommes

Year:
2010
File:
PDF, 41.98 MB
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Para o Washington Romance Writers,
um divertido e fantástico grupo de pessoas.
Obrigada por me convidarem para seu retiro.
Alguns de meus melhores companheiros
foram cachorros e cavalos.
— Elizabeth Taylor

Capítulo 1
Prezada Aggie, comprei para minha namorada uma cafeteira caríssima de aniversário. Ela
chorou e depois vendeu o presente na internet. Não entendo as mulheres.
Atenciosamente, Sr. Descafeinado
Prezado Sr. Descafeinado, a pergunta mais importante a se fazer em qualquer
relacionamento é: o que sua parceira quer? O que a deixa feliz? Sem saber os detalhes
precisos é impossível saber ao certo por que ela chorou e vendeu a cafeteira, mas a primeira
coisa que me vem à cabeça é: sua namorada bebe café?

Molly parou de digitar e olhou para a cama.
— Você está acordado? Escuta essa. Está na cara que ele gosta de café e que o presente, na
verdade, foi para ele mesmo. Por que os homens fazem isso? Tenho tanta sorte de ter você.
Óbvio que eu mataria você se algum dia vendesse minha cafeteira na internet, mas não vai ser
esse o conselho que vou postar.
O corpo nem se mexeu na cama, mas isso não surpreendia, levando em consideração a
quantidade de exercício que tinham feito no dia anterior. As horas que passaram juntos
deixaram-na suada e exausta. O corpo de Molly doía, prova de que, apesar de ela ter melhorado
em muito sua forma física desde quando se conheceram, ele ainda tinha mais pique do que ela. A
energia implacável dele era uma das muitas qualidades que Molly admirava. Quando ficava na
tentação de pular uma sessão de exercícios, bastava um olhar dele para que ela fosse correndo
buscar seus tênis de corrida. Foi por causa dele que Molly emagrecera desde sua chegada a Nova
York, três anos atrás. Alguns dias, ela se olhava no espelho e mal conseguia se reconhecer.
Estava mais magra e definida.
Melhor ainda, ela parecia feliz.
Se alguém do seu passado a visse agora, provavelmente não a reconheceria.
Não que fosse provável que alguém do passado aparecesse em sua casa.
Três anos haviam se passado. Três ; anos, e Molly finalmente conseguira reconstruir sua
reputação despedaçada. Profissionalmente, tinha voltado ao eixo. Pessoalmente? Ela lançou
outro olhar à cama e sentiu algo amolecer no peito. Nunca poderia imaginar que se permitiria se
aproximar de alguém de novo, com certeza não perto o bastante para deixá-lo entrar em sua vida,
em sua casa e, o mais surpreendente, em seu coração.
E lá estava ela, apaixonada.
Molly deixou o olhar se demorar sobre as linhas perfeitas do corpo atlético dele antes de voltar
a atenção ao e-mail. Tinha sorte de tantos homens lutarem para compreender as mulheres. Se não

fosse assim, estaria desempregada.
Seu blog, Pergunte a Ela, conseguira atrair um volume grande de usuários e isso, por sua vez,
chamou a atenção de uma editora. Seu primeiro livro, Parceiro para a vida: Ferramentas para
encontrar o companheiro perfeito, chegou à lista dos mais vendidos nos Estados Unidos e Reino
Unido, o que lhe rendeu um segundo contrato. Seu pseudônimo, Aggie, garantia anonimato e
segurança financeira. Molly transformou em ouro seu azar no amor. Bem, talvez não em uma
fortuna, mas o bastante para morar de maneira confortável em Nova York e não ter que voltar de
mãos abanando para Londres. Ela deixou uma vida por outra, como uma cobra que troca de pele.
Finalmente, seu passado estava onde deveria estar. Atrás dela. E Molly fazia questão de nunca
olhar pelo retrovisor.
Feliz, ajeitou-se confortavelmente em sua poltrona predileta e voltou a se concentrar no
computador.
— Muito bem, Descafeinado, vou mostrar onde você errou.
E voltou a digitar.
Uma mulher quer que o homem a compreenda, e um presente deve demonstrar essa
compreensão. Não se trata do preço, mas do sentimento. Escolha algo que mostre a ela que você
a conhece e que escuta o que ela diz. Escolha algo…
— E essa é a parte importante, Descafeinado, por isso preste atenção — disse baixinho.
…que nenhuma outra pessoa pensaria em comprar para ela, pois ninguém a conhece como
você. Faça isso e garanto que sua namorada nunca vai se esquecer desse aniversário. Nunca vai
esquecer você.
Confiante de que o rapaz teria chances de agradar à mulher amada se ouvisse seu conselho,
Molly alcançou o copo d’água e checou as horas. Estava na hora de sua corrida matinal. E ela
não ia correr sozinha. Não importava quão ocupado estivesse seu dia, os dois sempre passavam
esse momento juntos.
Desligou o computador, levantou-se e se espreguiçou, sentindo o rumor da seda roçando-lhe a
pele. Havia passado uma hora digitando quase sem se mexer, e agora seu pescoço doía. Ainda
tinha uma montanha de dúvidas masculinas para responder, mas daria um jeito naquilo mais
tarde.
Olhou pela janela e viu a escuridão derreter-se lentamente, dando lugar aos raios de sol. Por um
instante, a vista ficou repleta de listras douradas brilhando contra o vidro dos prédios. Era uma
cidade cortante e de possibilidades vertiginosas cujo lado sombrio era mascarado pelo brilho do
sol.
Todas as outras cidades estariam acordando àquela hora, mas aquela era Nova York. Ninguém
pode acordar o que nunca dorme.
Molly se vestiu rapidamente, trocou a camisola por uma camiseta de algodão, calça de
ginástica e seu par de tênis de corrida predileto, na cor roxa. Por fim, pegou um moletom, pois
apenas uma camada de roupa poderia não dar conta das primeiras horas da manhã de primavera
na cidade.
Prendendo o cabelo em um rabo de cavalo despretensioso, pegou uma garrafa d’água.

Ainda não havia nenhum movimento na cama. Ele continuava emaranhado no edredom, de
olhos fechados, imóvel.
— Ei, bonitão. — Ela o cutucou de forma bem-humorada. — Finalmente consegui cansar você
ontem? Isso é novidade.
Ele estava em seu ápice. Em boa forma e incrivelmente lindo. Quando corriam juntos no
parque, várias cabeças se viravam para olhá-los com inveja, o que a envaidecia. Os outros
podiam até olhar, mas quem voltaria para casa com ele seria Molly.
Neste mundo em que é quase impossível encontrar a pessoa certa, Molly conseguira achar
alguém cuidadoso, leal e afetuoso… e todo seu. Sentia no fundo de seu coração que poderia
contar com ele. Tinha certeza de que ele a amaria na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza,
na alegria e na tristeza, mesmo sem fazer votos de casamento.
Ela era incrivelmente sortuda.
O que eles tinham era livre dos estresses e desafios que costumam estragar os relacionamentos.
O que dividiam era perfeito.
Molly ficou observando, com o coração repleto de amor, quando ele finalmente bocejou e se
espreguiçou devagarzinho.
Seu olhar encontrou os olhos escuros dele.
— Você — disse ela — é insanamente lindo e tem tudo que eu sempre quis em um
companheiro. Já falei isso para você?
Ele pulou da cama com o rabo abanando, pronto para a ação, e Molly se agachou para abraçálo.
— Bom dia, Valentine. Como vai o melhor cão do mundo?
O dálmata deu um único latido e lambeu o rosto de Molly, o que a fez sorrir.
Mais um dia amanhecia em Nova York, e ela estava pronta para arrasar.

k
— Deixa eu ver se entendi direito. Você quer pegar um cachorro emprestado para ir em um
encontro com uma moça que gosta de cães? Você não tem vergonha na cara?
— Nem um pingo. — Ignorando a desaprovação da irmã, Daniel tirou de forma cuidadosa um
pelo de cachorro do paletó. — Mas não vejo conexão entre esse fato e meu pedido.
Ele pensou na moça do parque, com suas pernas enormes e um impecável rabo de cavalo preto
balançando como um pêndulo enquanto corria. Desde a primeira vez que a vira, embrenhando-se
com seu cachorro por um dos muitos caminhos verdejantes que serpenteiam pelo Central Park,
ficou arrebatado. Não foi apenas o cabelo ou aquelas pernas incríveis que haviam chamado sua
atenção. Foi o ar de confiança. Confiança era uma coisa que atraía Daniel, e aquela mulher
parecia levar a vida em uma coleira, com absoluto controle.
Ele sempre gostou de fazer corridas matinais. Ultimamente, seu hábito tinha adquirido uma
nova dimensão. Começou a planejar suas corridas para coincidirem com as dela, mesmo que para
isso chegasse atrasado no trabalho. Apesar desses sacrifícios de sua parte, até o momento ela não
tinha lhe dado muita bola. Isso o surpreendia? Sim. Em relação às mulheres, Daniel nunca

precisou se esforçar muito. Sempre chamou a atenção delas. A moça do parque, no entanto,
parecia inusitadamente focada na corrida e no cachorro, e ele resolvera que era hora de usar a
criatividade e fazer algum esforço.
Mas primeiro Daniel tinha que convencer uma de suas irmãs, e, até aquele momento, a situação
não parecia muito promissora. Inicialmente, tinha esperanças de conseguir algo com Harriet, mas
em vez disso teve que apelar para Fliss, que era um pouco mais difícil de enrolar.
Imóvel à sua frente, ela estreitou os olhos e cruzou os braços:
— Sério mesmo? Você vai fingir que tem um cão para dar em cima de uma mulher? Você não
acha isso forçado? Ou desonesto?
— Não é desonesto. Não vou fingir que sou o dono. Só vou passear com ele.
— Atitude que sugere certo amor pelos animais.
— Não tenho problema nenhum com animais. Será que preciso lembrá-la que fui eu quem
salvou aquele bichinho no Harlem mês passado? Na verdade, ele seria ótimo para a ocasião. Vou
pegá-lo emprestado. — A porta se abriu e Daniel recuou quando um labrador cheio de energia
entrou correndo na sala. Ele não tinha nenhum problema com animais até eles ficarem pegajosos
e chegarem perto demais de seu terno predileto. — Ele não vai pular em mim, não é?
— Que grande amante dos animais você é. — Fliss segurou o cão pela coleira com firmeza. —
Esta é a Poppy. Harriet está cuidando dela. Repare bem no “dela”. Ela é fêmea, Dan.
— Isso explica por que ela me acha irresistível. — Escondendo a risada, ele baixou a mão e fez
carinho na cabeça de Poppy. — Oi, lindona. Que tal um passeio romântico no parque? A gente
pode ver o nascer do sol juntos.
— Ela não quer passear no parque nem nada disso. Você não faz o tipo dela. Ela passou por
poucas e boas e fica nervosa perto de gente, especialmente homens.
— Eu levo jeito com mulheres nervosas. Mas, se não faço o tipo dela, então avisa para ela não
deixar seus pelos caírem no meu terno. Principalmente os loiros. Preciso estar no tribunal em
duas horas. O juiz vai dar uma sentença. — Daniel sentiu o celular vibrar, tirou-o do bolso e
conferiu a mensagem. — O dever me chama. Preciso ir.
— Pensei que você fosse ficar para o café da manhã. Não nos vemos há séculos.
— Andei ocupado nos últimos tempos. Pelo visto, meia Manhattan decidiu se divorciar. Então,
posso passar para buscar um cachorro amanhã às seis da manhã?
— Não é porque uma mulher corre sozinha que ela é solteira. Talvez ela seja casada.
— Ela é solteira.
— E…? — Fliss fez uma careta. — Mesmo que ela seja solteira, isso não significa que queira
alguém. Me tira do sério quando os homens acham que uma mulher só está solteira porque está à
espera de um homem. Caiam na real.
Daniel observou a irmã:
— Você levantou de qual lado da cama hoje?
— Levanto do lado que quiser. Estou solteira.
— Me empresta um cachorro, Fliss. E nada de um pequenininho. Precisa ser de um tamanho
considerável.

— E eu crente de que você estava seguro de sua masculinidade. Um marmanjo desses… Você
tem medo de ser visto com um cachorrinho pequeno, é isso?
— Não. — Ocupado em digitar a resposta à mensagem no celular, Daniel não levantou os
olhos. — A mulher pela qual estou interessado tem um cachorro grande, por isso preciso estar à
altura. Não quero precisar carregar o bicho no colo enquanto corro. Você tem que admitir que
seria meio ridículo, além de desconfortável para o animal.
— Ah, pelo amor… Tira os olhos desse celular! Vou te dar uma dica, Dan. Se você quer um
favor meu, pelo menos preste atenção em mim enquanto pede. Seria um sinal de amor e
consideração.
— Você é minha irmã. Cuido dos seus assuntos com a Justiça sem cobrar um centavo. Essa é
minha forma de demonstrar amor e consideração. — Ele respondeu mais um e-mail. — Não seja
dramática. Só estou pedindo um cachorro fofinho. Do tipo que faça uma mulher parar o que está
fazendo para fazer carinho. O resto é comigo.
— Você nem sequer gosta de cachorros.
Daniel franziu a testa. Ele gostava de cachorros? Isso era algo que ele nunca havia se
questionado antes. Cachorros eram complicações e ele mantinha sua vida livre delas.
— Não é porque não tenho um que não goste deles. Não tenho tempo para cachorros na minha
vida, é só isso.
— Que desculpinha. Muitas pessoas que trabalham têm cachorros. Se não tivessem, eu e
Harriet estaríamos desempregadas. A Guardiões do Latido está crescendo…
— Sei bem que vocês estão crescendo. Posso listar cada número da folha de balanço da
empresa de vocês. Meu trabalho é esse.
— Você é especialista em divórcios.
— Mas cuido dos negócios das minhas irmãs. E sabe por quê? Porque é uma demonstração de
amor e consideração. E sabe como? Trabalhando cem horas por semana. Para um ser humano,
isso não pode ser considerado “vida”. Com certeza não é para um cão. Além disso, devo frisar
que o crescimento surpreendente de vocês foi resultado da nova parceria com a promissora
empresa de serviços e eventos, a Gênio Urbano, que arranjei por intermédio do meu amigo Matt.
De nada.
— Às vezes você é tão arrogante que tenho vontade de te dar um soco.
Daniel sorriu, mas não tirou os olhos do celular.
— E aí, vai me ajudar ou não? Se não, vou pedir para a Harry. Sei que ela vai dizer sim.
— Eu sou a Harry.
Daniel por fim ergueu o olhar. Ele estudou a irmã cuidadosamente, perguntando a si mesmo se
tinha se enganado, mas então balançou a cabeça.
— Não, você é a Fliss.
Era um jogo que as gêmeas tinham feito com ele centenas de vezes ao longo da vida: Que
gêmea é?
Ele tinha cem por cento de acerto. Elas não conseguiram enganá-lo uma vez sequer.
Ela deixou os ombros dela caírem, desapontada.
— Como você consegue?

— Dizer quem é quem? Para além do fato de você ser mais espinhosa do que um baiacu, eu
sou o irmão mais velho. Tenho bastante prática. Faz vinte e oito anos que brinco disso. Vocês
duas nunca conseguiram me enganar.
— Um dia a gente consegue.
— Isso não vai acontecer. Se você quiser mesmo fingir que é a Harriet, precisa pegar mais leve
na atitude. Tente ser mais delicada. Desde o berço, você sempre foi aquela que gritava.
— Delicada? — Seu tom de voz era cortante. — Você está dizendo para eu ser delicada? Que
comentário mais machista, a gente sabe que “delicadeza” não leva ninguém a lugar algum.
— Não é machismo e não estou dizendo para você ser delicada. É um conselho sobre como
imitar a Harriet caso queira enganar alguém. Alguém que não seja eu, no caso.
A porta se abriu e Daniel levantou o olhar.
— O café da manhã está pronto. Fiz seu prato favorito. Panquecas com bacon torradinho.
Harriet entrou na sala trazendo uma bandeja. Seu cabelo era igual ao da irmã, de um loiro
suave, cor de manteiga, mas ela o usava casualmente preso para trás, como se o único objetivo
fosse que ele não atrapalhasse seu dia. Fisicamente, eram idênticas. Tinham os mesmos traços
delicados, os mesmos olhos azuis, o mesmo rosto em formato de coração. Quanto ao
temperamento, não poderiam ser mais diferentes. Harriet era atenciosa e calma. Fliss era
impulsiva e intensa. Harriet gostava de ioga e pilates. Fliss preferia kickboxing e caratê.
Sentindo um clima estranho, Harriet se deteve e olhou para os dois.
— Vocês dois já brigaram? — perguntou ela com o cenho franzido.
Como três irmãos de uma mesma família podiam ser tão diferentes?, perguntou-se Daniel.
Como duas gêmeas, que visualmente eram indistinguíveis, podiam ser tão distintas por dentro?
— Nós? Brigando? Nunca. — A voz de Fliss estava carregada de sarcasmo. — Você sabe
quanto adoro nosso irmão mais velho.
— Detesto quando vocês brigam. — A ansiedade no olhar de Harriet fez Daniel se sentir
culpado, e ele e Fliss trocaram um olhar. Os dois haviam trocado aquele olhar milhões de vezes
na vida. Era um acordo tácito para que suspendessem as hostilidades enquanto Harriet estivesse
presente.
Cada um desenvolveu métodos próprios para lidar com o conflito. Harriet se escondia. Quando
criança, ia para debaixo da mesa para fugir da gritaria rotineira em sua família. Certa vez, Daniel
tentou puxá-la, para tirá-la do meio do caos. Seus olhos estavam fechados e ela tapava os
ouvidos com as mãos, como se acreditasse que, caso não visse ou ouvisse, nada daquilo estaria
acontecendo.
Recordando-se de sua constante impaciência, Daniel sentiu uma pontada de culpa. Eles eram
todos tão autocentrados, seus pais inclusive, que ninguém prestava atenção no que estava
acontecendo com Harriet. A situação fora exposta de tal maneira que mesmo agora, vinte anos
depois, Daniel não conseguia pensar naquela noite na escola sem começar a suar.
À primeira vista, Harriet não parecia ser muito durona, mas ele e Fliss haviam descoberto que
existem diferentes tipos de resistência. Apesar das aparências, Harriet era de ferro.
Ele a observou apoiar a bandeja e colocar cuidadosamente os pratos e guardanapos da mesa.

Guardanapos. Quem se preocupa com guardanapos em um café da manhã em família
despretensioso?
Harriet se preocupava. Ela era a responsável por todo o conforto doméstico no apartamento que
dividia com a irmã gêmea.
Às vezes ele se perguntava se os três ainda seriam uma família caso Harriet não existisse.
Quando criança, ela era obcecada com sua casinha de bonecas. Com a insensibilidade de um
garoto de 8 anos, Daniel achava aquilo uma brincadeira de menina sem importância. Agora,
porém, entendia que na época Harriet estava construindo algo que não tinha, que se agarrava a
uma imagem de lar e família enquanto a sua desmoronava. Havia encontrado alguma medida de
estabilidade em seu mundo particular, enquanto Daniel e Fliss descobriram outras maneiras de
contornar os buracos e o horizonte instável do casamento dos pais.
Quando as gêmeas se mudaram para aquele apartamento, Harriet foi a responsável por
transformá-lo num lar. Pintou as paredes com um tom iluminado de amarelo e escolheu um
tapete em tons opacos de verde para suavizar o chão de madeira. Foram suas mãos que
arrumaram as flores na mesa, preencheram os sofás com almofadas e cultivaram as plantas
reunidas em uma verdadeira profusão florestal de verde.
Fliss nunca escolheria ter plantas. Como o irmão, não queria se responsabilizar por algo que
demandasse atenção e cuidado. Era por isso que nenhum dos dois tinha interesse em
relacionamentos duradouros. A diferença era que Fliss havia tentado. Uma única vez, mas o
bastante para sentir que tinha razão em sua escolha. Dera a cara a tapa e viu do que se tratava.
Nenhum dos dois falava sobre o assunto. Os irmãos Knight aprenderam que a única maneira de
sobreviver a um dia ou a um ano ruim era seguindo em frente.
— A gente não estava brigando. — Daniel manteve o tom lento e tranquilo. — Eu estava
dando um conselho de irmão, só isso.
Fliss estreitou os olhos.
— Quando, algum dia, eu precisar do seu conselho, vou pedir. Aliás, esse dia vai chegar
quando o inferno tiver congelado pelo menos oito vezes.
Daniel roubou um pedaço de bacon do prato e Harriet deu um tapinha suave na sua mão.
— Espere até eu ter posto a mesa. E antes que eu me esqueça, Fliss, a Gênio Urbano nos
mandou mais dois trabalhos. Vamos ter um dia cheio.
— Assim como o Daniel. — Fliss também roubou um pedaço de bacon. — E ele não vai ficar
para o café da manhã.
— Não vai? — Harriet entregou-lhe um guardanapo. — Pensei que era esse o motivo da sua
visita.
Daniel franziu a testa com a sugestão de que só as visitava quando queria comida. Era verdade?
Não. Ele as visitava porque, apesar — ou talvez por causa — de sua relação conflituosa com
Fliss, gostava de ver as irmãs. E gostava de ficar de olho em Harriet. Mas era verdade que suas
visitas quase sempre coincidiam com refeições. Contanto que a comida fosse feita por Harriet,
ele estava feliz. Fliss não sabia nem ferver água.
— Recebi uma mensagem do escritório, por isso minha visita vai ser relâmpago. Mas foi bom
ver vocês duas.

Por impulso, levantou-se e abraçou Harriet.
— Isso, boa, use seu afeto. A Harry vai cair nessa — disse Fliss baixinho.
— Tenho direito de abraçar minha irmã.
Ela lhe lançou um olhar atravessado:
— Sou sua irmã e você nunca me abraça.
— Não tenho tempo para passar o resto do dia tirando os espinhos da pele.
— Cair no quê? — perguntou Harriet enquanto retribuía o abraço, e Daniel sentiu uma onda de
instinto protetor. Sabia que a irmã havia encontrado o trabalho perfeito, mas ainda assim se
preocupava com ela. Se Fliss tivesse algum problema, Manhattan inteira saberia em poucos
minutos. Já Harriet mantinha as coisas para si.
— Como você está?
Fliss bufou.
— Lá vem o charme. Ele quer algo da gente, Harry. — Fliss espetou com força um pedaço de
bacon do prato. — Vá direto ao assunto, Dan, de preferência antes que eu vomite minha comida.
Daniel a ignorou e sorriu para Harriet.
— Preciso de um cachorro.
— Claro que precisa. — Contente, ela retribuiu o sorriso. — Sua vida é tão focada no trabalho,
tão vazia emocionalmente… Há anos digo que o que você precisa é de um cachorro. Ele vai ser
uma constante na sua vida, algo com que você possa se conectar e amar de verdade.
— Ele não quer um cachorro por um motivo digno. — Com a boca cheia de bacon, Fliss
gesticulou com o garfo. — Ele quer um cachorro para se dar bem.
Harriet pareceu intrigada:
— E como um cão pode ajudar com isso?
Fliss engoliu.
— Boa pergunta, mas, como estamos falando de nosso irmão mais velho, você já pode
imaginar do que se trata. Ele quer um adereço. Um adereço canino. Ele grita “Pega!” e o
cachorro traz a garota. — Fliss espetou outro pedaço de bacon. — Mesmo que você consiga a tal
mulher com seu plano, nunca vai conseguir mantê-la. E quando convidá-la para ir a sua casa e
ela descobrir que o cachorro não vive com você? Não pensou nisso?
— Nunca convido as mulheres para irem na minha casa, então isso não vai ser um problema.
Meu apartamento é uma área livre de cães, mulheres e estresse.
— Ainda assim, mais cedo ou mais tarde ela vai descobrir que você não gosta de cães e então
vai abandoná-lo.
— Até que isso aconteça, tenho certeza de que já vamos estar fartos um do outro, então me
parece uma boa. As duas partes vão tomar seus rumos.
— Seu galinha. Você não se sente culpado por deixar um rastro de mulheres soluçando por
Manhattan?
Daniel soltou Harriet do abraço.
— Eu não deixo ninguém soluçando. As mulheres com quem saio são exatamente como eu.
— Insensíveis e estúpidas?

— Ele não é insensível — disse Harriet, tentando manter a paz. — Ele tem medo de
compromisso, só isso. Que nem a gente. Daniel não está sozinho nessa.
— Eu não tenho medo de me comprometer — disse Fliss despreocupada. — Sou muito
comprometida comigo mesma, com minha felicidade e meu crescimento pessoal.
— Eu também não tenho medo de nada. — Daniel sentiu o suor brotar-lhe na nuca. — Sou
cauteloso, porque trabalho com isso. Sou do tipo de cara que…
— …faz uma mulher querer continuar solteira? — completou Fliss, pegando outra panqueca.
— Eu não quero ser solteira — disse Harriet. — Quero amar e ser amada por alguém. Só não
sei muito bem como fazer isso acontecer.
Daniel captou o olhar de Fliss. Nenhum dos dois estava em posição de oferecer conselhos
quanto a isso.
— Dado que gasto minha longuíssima semana de trabalho desemaranhando a vida de pessoas
que não escolheram ficar solteiras — disse ele —, diria que as mulheres deveriam estar me
agradecendo por mantê-las livre desse tipo de compromisso. Quem não casa não se divorcia.
— Bem, está aí uma visão positiva. — Fliss colocou xarope de bordo sobre a panqueca. —
Mais dia, menos dia, alguma garota bem esperta vai ensinar umas lições sobre mulheres para
você. Estão deliciosas, Harry. Você deveria abrir um restaurante. Eu ajudo.
Harriet enrubesceu.
— Eu me confundiria toda com os pedidos e, mesmo te amando, não deixaria você chegar
perto da cozinha. Não seria justo com o corpo de bombeiros de Nova York.
— Não preciso aprender nada sobre as mulheres. — Daniel roubou um pedaço de bacon do
prato de Fliss. — Já sei tudo que é preciso.
— Você acha que sabe tudo sobre as mulheres, o que o torna dez vezes mais perigoso do que
um homem que admite não fazer ideia.
— Não tenho como não saber. Crescer com vocês duas foi um curso intensivo sobre o que as
mulheres pensam e sentem. Por exemplo, sei que, se eu não sair correndo daqui, vocês duas vão
explodir. Por isso, vou me despedir enquanto ainda somos amigos.
— Não somos amigos.
— Você me ama. E, quando não está mal-humorada, eu também te amo. E Fliss tem razão —
disse sorrindo para Harriet —, você é uma cozinheira incrível.
— Se você me amasse — disse Fliss entredentes —, ficaria para o café da manhã. Você me usa
da mesma forma que usa todas as mulheres.
Daniel alcançou o paletó.
— Eis uma dica de como funciona a mente dos homens. Deixe de ser tão brava ou nunca vai
conseguir um encontro. — Daniel viu o rosto da irmã ficar vermelho.
— Sou solteira por opção — gaguejou. Em seguida, suspirou e encarou o irmão. — Você está
me enrolando. Por que sempre demoro para perceber? Você me tira do sério até eu não conseguir
mais pensar. É uma das suas táticas, sei disso, mas mesmo assim sempre me deixo levar. Você é
irritante desse jeito no tribunal também?
— Lá sou pior ainda.

— Não é à toa que sempre vence. Os advogados da outra parte devem querer distância de você
o mais rápido possível.
— Em parte, é isso. E, só para deixar registrado, eu não uso as mulheres. Deixo que elas me
usem. De preferência à noite. — Daniel se inclinou para beijar a irmã, pensando em quanto
provocá-la era seu segundo jogo favorito, depois do pôquer. — Então, que horas posso vir buscar
o cachorro?

Capítulo 2
Prezada Aggie, se os homens são de Marte, quando é que vão voltar para lá?
Atenciosamente, Terráquea

Antes de qualquer coisa, ela notou o cachorro dele. Era um pastor alemão tão forte e atlético
quanto o dono. Havia visto os dois ao longo de toda a semana, logo depois do nascer do sol.
Permitiu-se uma olhadinha ou outra, pois… Bem, não era de ferro. Como qualquer outra mulher,
sabia apreciar a forma masculina, ainda mais um modelo tão bom quanto aquele. Além disso, seu
trabalho consistia em estudar as pessoas.
Como tantas outras pessoas no parque naquele horário, ele estava usando roupa de corrida, mas
algo em seus movimentos dizia que, fora daquelas trilhas, devia usar terno e ser o comandante de
algum império. Seu cabelo era escuro e curto. Médico? Banqueiro? Contador? A julgar pelo ar
de confiança que exalava, era muito bom no que fazia. Se tivesse que adivinhar algumas de suas
características, diria que era extremamente focado em seus objetivos, trabalhava muito e tinha
dificuldades em demonstrar suas fraquezas. Ele tinha fraquezas, é claro, todo mundo tem. Por ser
inteligente, provavelmente sabia quais eram as suas, mas as escondia, pois a fraqueza não era
algo a ser compartilhado. Era o tipo de cara que, se soubesse o que ela fazia da vida, daria risada
e mostraria surpresa por alguém precisar de conselhos em algo tão simples como
relacionamentos. Um homem como ele não devia ter ideia de como é não se sentir confiante, não
conseguir chegar em uma mulher que achasse interessante e atraente.
Um homem exatamente como Rupert.
Ela franziu a testa. De onde aquele pensamento saíra? Sempre tinha o cuidado de não pensar
em Rupert. Molly era esperta o suficiente para saber que sua experiência com ele havia
transformado sua visão de mundo. Que tinha, em especial, influenciado sua visão sobre
relacionamentos. Provavelmente aquele homem não tinha nada a ver com Rupert.
A única informação que contrastava com sua impressão sobre ele era o cachorro. Ela nunca
acharia que um homem como ele quisesse se responsabilizar por um animal. O cachorro talvez
fosse de algum amigo que estava doente ou de algum parente falecido, mas, nesse caso, seria
provável que ele contratasse um serviço de passeadores como o que ela mesma usava de vez em
quando com Valentine. O Guardiões do Latido.
O cão era a peça do quebra-cabeça que impedia que a imagem que ela fazia daquele homem se
harmonizasse por completo.
Decidida a não ser flagrada o encarando, seguiu correndo num ritmo confortável que agora era
instintivo. Correr era uma forma de se testar. De sair da zona de conforto. De tomar consciência
da potência e da força que tinha no corpo. Correr lhe mostrava que, quando achava que não tinha
mais nada para dar, ainda era possível encontrar mais.

Era cedo e o parque ainda estava fechado para carros, mas o movimento já era intenso.
Corredores mesclavam-se a ciclistas para cima e para baixo pelas trilhas do Central Park. Em
poucas horas, dariam lugar a mães e pais com carrinhos de bebê e turistas explorando os 3,41
quilômetros quadrados de área verde que iam da rua 59 à rua 110 e de leste a oeste da 5ª Avenida
à Central Park West.
Molly não conseguia dizer qual estação preferia em Nova York, mas, naquele momento, tendia
para a primavera. As árvores estavam cheias de flores e lançavam ao ar um intenso aroma doce.
Macieiras-bravas, cerejeiras e magnólias banhavam o parque em um clarão de tons rosa e creme,
e pássaros exóticos da América do Sul e Central preparavam-se para a migração de primavera.
Ela contemplava aquele esplendor praticamente nupcial quando Valentine passou disparado,
quase a derrubando.
Ele parou diante do pastor alemão, que ficou tão empolgado que começou a ignorar o dono.
— Brutus! — A voz do homem trovejou pelo parque.
Molly diminuiu o passo. Sério? Ele batizou o cachorro de Brutus?
Brutus o ignorou. Nem sequer virou o rosto na direção do dono. Nenhum sinal de que um
conhecia o outro.
Molly pensou que, ou Brutus devia ser do tipo de cão que gosta de desafiar a autoridade, ou
não estava acostumado à presença de outros cachorros e ficava animado demais para obedecer a
qualquer ordem.
Era evidente que havia uma coisa que o poder não podia dominar: um cachorro desobediente.
Existe nivelador melhor?
Ela assoviou para Valentine, que se divertia com o novo amigo.
O cão levantou as orelhas e os dois se olharam à distância. Depois de um breve instante de
reflexão, Valentine veio correndo na direção de Molly, comprido e musculoso, gracioso como
um bailarino. Ela ouviu o som opaco das patinhas na grama macia e o ofegar rítmico de sua
respiração, até que o cão finalmente parou diante dela, com a bunda balançando a cada abanada
do rabo, o termômetro canino da felicidade.
Certamente não existe saudação mais animadora do que um rabinho balançando. Expressa
tantas coisas. Amor, carinho e reconhecimento incondicional.
Valentine foi seguido por seu novo amigo, o pastor alemão, que derrapou meio desajeitado
diante dos pés de Molly, mais para brutamontes do que para bailarino. Ele lançou para ela um
olhar esperançoso, em busca de aprovação.
Molly percebeu que, apesar de seu jeito malvado, ele era fofo. Mas também sabia que, como
todos os malvadões, exigia pulso firme e limites.
O mesmo deve valer para o dono.
— Mas como você é lindo! — Ela se agachou para fazer carinho no cachorro, alisando sua
cabeça e pescoço. Molly sentiu o calor do hálito contra a pele e as batidas do rabo na perna,
enquanto ele a circulava. Ele tentou subir com as patas em seus ombros, quase a derrubando de
bunda no chão. — Não. Senta.
O cão respondeu com um olhar de reprovação e se sentou, evidentemente questionando seu
senso de diversão.

— Você é fofo, mas isso não quer dizer que quero patinhas de lama em minha camiseta.
O homem parou ao seu lado.
— Ele se sentou quando você pediu. — Tinha um sorriso tranquilo, um olhar caloroso. — Ele
nunca senta quando eu peço. Qual é o seu segredo?
— Pedi com jeito. — Ela se levantou, consciente das mexas de cabelo suado grudadas na nuca
e irritada por se preocupar com isso.
— Parece que você tem o toque mágico. Ou talvez seja o sotaque britânico que tem esse efeito
sobre ele. Brutus… — O homem lançou um olhar severo ao cachorro. — Brutus.
Brutus nem sequer virou a cabeça. Era como se não soubesse que estavam falando com ele.
Molly ficou intrigada.
— Ele costuma ignorar você?
— Direto. Tem problemas de comportamento.
— Problemas de comportamento costumam dizer mais sobre o dono do que sobre o cachorro.
— Ai, essa doeu. Bem, agora você me colocou no meu lugar. — A risada dele era de uma
sonoridade rica e sedutora. Molly sentiu um calor lhe atravessar o corpo até desembocar no
ventre.
Sua expectativa era de que ele ficasse na defensiva. Em vez disso, foi ela quem ficou. Havia
construído muros e barreiras que ninguém conseguia transpor, mas sabia bem que aquele homem
com olhos azuis perigosos e voz sedutora estava acostumado a superar obstáculos. Molly se
sentiu avoada e sem ar, algo que não era comum.
— Ele precisa de treinamento, só isso. Não é muito bom em fazer o que mandam. — Ela tentou
se concentrar mais no cachorro do que no dono. Assim não teria que lidar com os olhos
sorridentes daquele homem insanamente atraente.
— Também nunca fui muito bom em fazer o que mandam, então não vou usar isso contra ele.
— Pode ser perigoso, para um cachorro, desafiar a autoridade.
— Não tenho medo de ser desafiado.
Isso não a surpreendeu. Molly soubera imediatamente que aquele era um homem que sabia o
que queria e que trilhava seu próprio caminho. Sentia também que as camadas delicadas de
charme e carisma escondiam um núcleo de aço. Somente um idiota o subestimaria. E Molly não
era idiota.
— Você não quer ser obedecido?
— Ainda estamos falando sobre cachorros? Pois estamos em pleno século vinte e um e me
considero um cara moderno.
Sempre que uma pessoa ou situação a desconcertava, Molly tentava se desprender e imaginar o
que Aggie aconselharia.
Ficar sem ar e sem palavras perto de um homem pode ser desconfortável, mas lembre-se de
que, por mais atraente que seja, ele também tem suas inseguranças, ainda que escolha não
mostrá-las.
Isso não a fez se sentir melhor. Molly começava a pensar que aquele homem não tinha uma
insegurança sequer.

Não importa como você se sinta por dentro, contanto que não mostre por fora. Sorria e aja
naturalmente e ele nunca vai saber que deixa suas entranhas com consistência de papinha de
bebê.
Sorria e aja naturalmente.
Parecia a melhor abordagem.
— Você devia levá-lo a aulas de adestramento.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Isso existe?
— Sim. Talvez ajude. Ele é um cachorro lindo. Você o comprou de um criador?
— Eu o adotei. Ele foi vítima de um caso terrível de divórcio no Harlem. O marido sabia que
Brutus era a coisa que a esposa mais amava no mundo, então lutou pela guarda dele no processo
de separação. Seu advogado era melhor do que o dela, ele ganhou, mas se viu dono de um
cachorro que não queria.
Molly ficou tão chocada que esqueceu a estranha sensação de estar derretendo por dentro.
— Quem era o advogado dele?
— Eu.
Advogado. Esquecera dessa opção em sua lista de possíveis empregos. Agora se perguntava
como, pois tudo se encaixava perfeitamente. Era fácil imaginá-lo intimidando seus adversários.
Ele era um homem acostumado a vencer todas as batalhas que lutava, ela tinha certeza disso.
— E por que ele não devolveu Brutus à esposa?
— Em primeiro lugar, porque ela voltou para Minnesota para morar com a mãe. Em segundo
lugar, porque a última coisa que ele queria era ver sua ex-mulher feliz e, em terceiro lugar,
porque, tanto quanto amava o cachorro, a ex o odiava. Ela queria dificultar sua vida ao máximo,
então o fez ficar com o cachorro.
— Que história horrível. — Molly, que já tinha ouvido muitas histórias ruins no trabalho,
estava em choque.
— Relacionamentos são assim.
— Isso foi um divórcio. Não representa todos os relacionamentos. Então você o adotou? —
Essa informação implodiu todas as suas ideias pré-concebidas sobre ele. Molly achara que ele
era do tipo que punha a si mesmo à frente de tudo e todos, que raramente devia se preocupar com
os outros, mas ele tinha salvado aquele cão lindo e vulnerável que havia perdido a única pessoa
que o amava. Podia até ser um sedutor com uma boa lábia, mas com certeza era uma boa pessoa.
— Isso foi bem legal da sua parte. — Ela fez carinho na cabeça de Brutus, triste por aquele
animal ter tido que pagar pelo fracasso dos humanos em lidar com suas diferenças. Quando um
relacionamento desmorona, o estrago vai longe. Molly sabia disso melhor que qualquer pessoa.
— Coitadinho. — O cachorro cutucou seus bolsos com o focinho, o que a fez sorrir. — Você
quer um biscoitinho? Ele pode?
— Pode, sim. Se você tiver sobrando.
— Sempre trago para o Valentine. — Ao ouvir seu nome, possessivo e protetor, Valentine se
aproximou imediatamente da dona.

— Valentine? — O homem a observou alimentar os dois cães. — Ele é substituto de algum
homem?
— Não. Até onde sei, ele é um cachorro.
Ele sorriu satisfeito.
— Pensei que você talvez tivesse desistido dos homens e se contentado com o amor de um bom
cachorro.
Essa afirmação estava mais próxima da verdade do que ele seria capaz de imaginar, mas Molly
não tinha a menor intenção de confessar isso a quem quer que fosse, menos ainda a alguém que
parecia ter o mundo a seus pés. O que ele sabia sobre ter suas fraquezas expostas publicamente?
Nada.
E não seria ela que explicaria.
Seu passado era seu, apenas seu. Mais privado do que uma conta bancária, seguramente
guardado por um sistema de segurança impenetrável. Se houvesse uma senha de acesso, seria
erro. Ou então erro enorme.
— Valentine não é substituto para nada nem ninguém. Ele é meu número um. Meu melhor
amigo.
O olhar de Molly colidiu com o dele e ela sentiu algo como um chacoalhão.
Molly estava impactada, e não se lembrava da última vez que sentira aquilo. Aqueles olhos. Ela
poderia apostar que eles já haviam levado uma quantidade considerável de mulheres a mandar a
prudência para o inferno. Em alguma parte daquele homem devia ter uma plaquinha dizendo use
com cuidado.
Ela tentou ignorar o que estava sentindo, mas seu coração tinha outros planos.
Ah não, Molly. Não, não, não. Sua caixa de mensagens estava lotada de perguntas de mulheres
querendo saber como lidar com homens exatamente como ele e, ainda que ótima dando
conselhos, sua expertise parava por aí.
Sentindo de alguma forma que era o assunto da conversa, Valentine balançava o rabo
freneticamente.
Molly o havia encontrado abandonado quando ele era apenas um filhote.
Ainda lembrava do olhar em seu rosto. Um pouco surpreso, bastante machucado, como se não
acreditasse que alguém pudesse querer abandoná-lo na sarjeta. Como se aquela atitude o tivesse
feito se questionar sobre tudo que sabia a respeito de si mesmo.
Molly conhecia aquele sentimento.
Foi um momento de encontro de almas, e eles criaram um vínculo instantaneamente.
— Eu o chamei Valentine em homenagem ao Dia dos Namorados, por causa do narizinho em
forma de coração. — Esse era o único detalhe que Molly estava preparada para compartilhar.
Hora de ir embora. Antes de dizer ou fazer algo que a botasse em um caminho que ela não queria
trilhar. — Boa corrida para você.
— Espera… — Ele estendeu a mão para detê-la. — Não é a primeira vez que vejo você por
aqui. Você mora perto?
Saber que ele a tinha observado enquanto ela mesma o havia notado elevou a frequência
cardíaca de Molly a outro patamar.

— Até que sim.
— Então devo vê-la novamente. Meu nome é Daniel. — Ele estendeu a mão, e Molly, cujo
corpo ignorava os avisos do cérebro, o cumprimentou. Sentiu os dedos dele se fecharem em volta
dos seus em uma pegada firme. Imaginou o que ele conseguiria fazer com aquelas mãos, e as
imagens que surgiram lhe trouxeram uma sensação ofegante que dificultava sua linha de
raciocínio.
Estava com dificuldades para se concentrar, mas ele a encarava, esperando a resposta.
— Vamos tentar de novo — murmurou ele. — Meu nome é Daniel e você é…
Seu nome. Ele estava esperando que ela dissesse seu nome. E, a julgar pela graça que seus
olhos refletiam, ele sabia exatamente por que Molly não conseguia dizer nada.
— Molly.
Às vezes, era estranho usar aquele nome, o que não fazia sentido pois aquele era seu nome. Ou
um deles. O fato de só ter começado a usá-lo depois de se mudar para Nova York não devia
importar.
Não concedeu a ele mais que isso, mas, mesmo assim, viu Daniel registrá-lo mentalmente e
soube que ele lembraria. Ele não parecia ser um homem de memória curta. Era inteligente. Mas
ainda que descobrisse seu sobrenome e a procurasse na internet, Daniel não encontraria muita
coisa. Ela mesma se certificara disso.
— Vamos tomar um café, Molly. — Daniel soltou-lhe a mão. — Conheço um lugar ótimo aqui
perto que serve o melhor café do Upper East Side.
Era algo entre um convite e uma ordem. Inteligente e delicado. Uma abertura desenvolta vinda
de um homem que desconhecia o sentido da palavra rejeição.
Mas ele estava prestes a aprender, pois de forma alguma ela iria com ele tomar um café ou o
que quer que fosse.
— Obrigada, mas tenho que trabalhar. Boa corrida para você e para o Brutus.
Ela não lhe deu oportunidade de argumentar, nem a si mesma uma chance de repensar sua
decisão. Saiu correndo na hora. Correu em meio à claridade furta-cor, ao aroma de flores, com
Valentine ao seu lado e a tentação beliscando seus calcanhares. Não virou a cabeça para olhar
para trás mesmo que a vontade chegasse a lhe machucar o pescoço. Aquele era o maior desafio a
seu autocontrole de que conseguia recordar. Ele a estava observando? Será que ficou
incomodado com a recusa?
Só quando chegaram ao que considerava ser uma distância segura que Molly diminuiu o ritmo.
Estavam perto de uma das muitas fontes baixinhas para cachorros, então ela parou para respirar e
deixar que o sedento Valentine se refrescasse.
Venha tomar um café comigo…
E depois?
E depois, nada.
Quando o assunto era relacionamentos, ela era ótima na teoria, mas péssima na prática. Quão
péssima era de conhecimento geral. Primeiro, o amor. Depois, a dor.
Você é especialista em relacionamentos, mas é um caso perdido em namoros. Tem noção da
loucura que é isso?

Ah sim, ela tinha noção. Ela e alguns milhões de estranhos. Era por isso que, nos últimos
tempos, escolhera ficar só na teoria.
E quanto ao belo advogado Daniel, pensou que bastariam uns cinco minutos para que ele
esquecesse aquele encontro com ela.

k
Ele não conseguia tirá-la da cabeça.
Irritado e um tanto intrigado pela novidade da experiência, Daniel apertou a campainha e
Harriet abriu a porta.
Ele sentiu o cheiro de café fresco e algo delicioso sendo assado no forno.
— Como foi sua corrida? — perguntou Harriet.
Ela trazia um chihuahua minúsculo nos braços e Daniel segurou firme a coleira de Brutus,
impedindo o entusiástico rompante de energia que estava prestes a lançar o cachorro porta
adentro.
— Sério mesmo que você vai deixar esses dois juntos? Brutus poderia comê-lo de uma bocada.
Harriet pareceu confusa.
— Quem é Brutus?
— Ele é o Brutus. — Daniel tirou a coleira e o pastor alemão entrou correndo no apartamento.
Seu rabo balançava tanto que acabou batendo em uma das plantas de Harriet, espalhando terra e
flores pelo chão.
Harriet pôs o cachorrinho no chão e recolheu a sujeira sem emitir uma palavra de reclamação.
— O nome dele é Xarope. E ele é grande demais para este apartamento.
— Eu me recusei a gritar “Xarope” no meio do Central Park, por isso o rebatizei. Esse cheiro é
de café?
— Você não pode rebatizar um cachorro.
— Posso sim, se alguém foi idiota o bastante para chamá-lo de Xarope. — Daniel entrou na
cozinha bem iluminada e pegou uma xícara de café. — Como é que você escolhe esse nome para
um cachorrão como ele? Ele vai ter crise de identidade.
— Foi o nome que deram a ele — respondeu Harriet com paciência. — É o nome que ele
conhece e ao qual responde.
— É o nome que o deixa com vergonha, isso sim. — Daniel deu um gole no café e checou as
horas. Ele tinha muitas coisas para fazer e, ultimamente, estava sempre sem tempo, em parte por
causa de sua corrida matinal prolongada.
— Você está mais atrasado do que o normal. Aconteceu algo? Ela finalmente conversou com
você? — Harriet jogou os cacos do vaso fora e desenterrou com cuidado o que sobrara de sua
planta.
Daniel sabia que, uma vez que fosse embora, ela arranjaria outro vaso e faria o que precisasse
para que a planta se recuperasse.
— Sim, nós conversamos. — Se é que aquelas poucas palavras que trocaram pudessem ser
chamadas de conversa. Ele fez algumas perguntas. Ela respondeu. Mas suas respostas foram

breves e pensadas para não encorajar outros movimentos. Molly deixou claro que estava mais
interessada em seu cachorro do que em Daniel, o que teria esmagado a moral de um homem mais
desavisado sobre relacionamentos.
Mas, mesmo sem qualquer indicação verbal, ela havia deixado pistas não verbais.
No breve instante antes de as barreiras terem se erguido, Daniel vira interesse da parte dela.
Agora se perguntava quem fora o responsável por aquelas barreiras. Um homem,
provavelmente. Algum relacionamento que deu errado. Daniel já vira muitos exemplos disso no
trabalho. Pessoas com casos extraconjugais, que se distanciam ou que simplesmente deixam de
amar. O amor é uma caixinha de surpresas com mágoas e catástrofes. Escolha o que quiser.
— Ela conversou com você? — O rosto de Harriet se alegrou. — O que ela disse?
Muito pouco.
— A gente está indo aos poucos.
— Em outras palavras, ela não está interessada. — Fliss entrou na cozinha. Vestia calça de
ginástica, moletom e um par de tênis de corrida pretos com detalhes em neon. Ela pegou as
chaves de cima do balcão. — Claramente, é uma mulher de bom senso. Ou você está perdendo o
jeito. Isso quer dizer que você não vai passear com o Xarope amanhã?
— Não estou perdendo o jeito e, sim, vou passear com o Brutus. Aliás, ele tem alguns
problemas de comportamento, em especial não atender quando é chamado.
— Deve ser uma experiência completamente nova para você.
— Que engraçadinha. Alguma dica?
— Não tenho nenhuma dica sobre relacionamentos a não ser, talvez, “não tenha”.
— Eu estava falando do cachorro.
— Ah. Bem, você poderia começar chamando-o pelo nome que ele conhece. — Fliss foi até a
porta. — E, se ele tem problemas de comportamento, pelo menos uma coisa vocês dois têm em
comum.

Capítulo 3
Prezada Aggie, se há tantos peixes no mar, por que minha rede está sempre vazia?

Molly entrou no apartamento, jogou as chaves no pote perto da porta e foi direto para o chuveiro.
Dez minutos depois, estava de volta ao computador. Valentine se encolheu em sua pequena
cama embaixo da mesa e apoiou a cabeça nas patas.
A luz do sol fluía janelas adentro, ressaltando o chão de carvalho polido e iluminando o tapete
artesanal que comprara em um ateliê de design que Molly tinha descoberto na Union Square. Em
um dos cantos do quarto, havia uma grande girafa de madeira que seu pai enviara de uma das
viagens que fizera para a África. Ninguém que passasse os olhos por suas estantes de livros
conseguiria dizer muito sobre sua personalidade. Biografias e clássicos aninhavam-se entre
suspenses e romances. Em uma das prateleiras, aliás, estavam algumas das cópias remanescentes
de seu primeiro livro, Parceiro para a vida: ferramentas para encontrar o companheiro perfeito.
Faça o que eu digo, não faça o que eu faço, pensou. Molly dedicara o livro a seu pai, mas
provavelmente devia tê-lo feito a Rupert. Para Rupert, pois sem ele este livro jamais teria sido
escrito.
Mas isso implicaria o risco de se expor, e ela não tinha intenções de deixar quem quer que
fosse descobrir a verdadeira identidade por trás da “Doutora Aggie”.
Não. Seu pai era a opção mais segura. Assim, garantiria que tudo que construíra ficasse de pé e
poderia mandar todo o episódio com Rupert, como dizia seu pai, para uma caixinha mental com
a etiqueta “Experiência de vida”.
Quando se mudou para Nova York, dividiu um quarto em um prédio sujo, sem elevador, nos
confins do Brooklyn, com outras três moças, que só queriam saber de beber e sair. Depois de seis
meses subindo 192 degraus — ela contou — e tendo que ir a Manhattan de metrô, Molly gastara
suas últimas economias em uma quitinete no segundo andar de um prédio a várias quadras do
Central Park. Apaixonou-se de primeira pelo apartamento e pelo prédio, com suas alegres portas
verdes e corrimãos de ferro.
Apaixonou-se também pela vizinhança. No térreo morava um jovem casal com um bebê. No
andar de cima deles vivia a sra. Winchester, uma viúva que morava no mesmo apartamento havia
sessenta anos. Ela tinha o hábito de perder suas chaves, então agora Molly mantinha uma cópia
de emergência. Logo acima de Molly moravam Gabe e Mark. Gabe trabalhava com publicidade
e Mark era ilustrador de livros infantis.
Ela os conhecera em sua primeira noite no apartamento, quando tentava consertar sua
fechadura. Gabe resolveu o problema e Mark fez um jantar. Eles se tornaram amigos. Novos

amigos, descobriu Molly, às vezes são mais confiáveis do que aqueles de longa data.
Quando sua vida ruiu, seus amigos de infância a abandonaram de uma vez só, com medo de
serem tragados pela areia movediça mortal de sua humilhação. No começo, Molly recebera
algumas ligações solidárias, mas a situação piorou, e o apoio e as amizades secaram até virar
nada. Eles se comportaram como se a vergonha de Molly fosse contagiosa. Como se ficar ao seu
lado pudesse contaminá-los.
De certa forma, ela não os culpava. Ela sabia do inferno que era ter jornalistas acampados no
lado de fora de sua casa e ver sua reputação sendo destruída na internet. Quem precisava
daquilo?
Muita gente quer fama e dinheiro, mas ninguém, aparentemente, quer ser um dos assuntos do
momento no Twitter.
Aquilo tudo tornara sua decisão de deixar Londres ainda mais fácil. Ela pôde começar uma
nova vida, com um novo nome. Em Nova York, conheceu novas pessoas. Desconhecidos que
não sabiam o que havia acontecido. As pessoas em seu prédio eram incríveis, bem como o Upper
East Side. Em meio às alamedas arborizadas e avenidas da região, descobrira um bairro inundado
de história e tradições nova-iorquinas. Molly adorava tudo aquilo, dos prédios ornamentados de
cooperativas anteriores à Segunda Guerra Mundial e casas de arenito marrom, até as mansões ao
longo da 5ª Avenida. Aquele era seu lar, e Molly tinha seus refúgios prediletos. Quando não
queria cozinhar, saía para buscar um panini ou algum salgado caseiro no Via Quadronno, entre a
Madison e a 5ª Avenida; e quando estava no clima de comemorar, ia à confeitaria Ladurée e se
presenteava com uma variedade de macarons.
Havia explorado Manhattan e descoberto clubes de salsa, de jazz e galerias de arte escondidas.
Perambulara pelas galerias, pelo Metropolitan Museum of Art, pela galeria Frick e pelo
Guggenheim. Mas seu lugar favorito era a imensidão do Central Park, a dez minutos de
caminhada de seu apartamento. Ela e Valentine passavam horas explorando juntos os cantos
secretos do parque.
Ela abriu o computador e alcançou a garrafa d’água enquanto esperava a máquina iniciar. Sua
mesa estava entulhada de coisas. Pilhas de papel, rabiscos, anotações e duas canecas de café
abandonadas. Quando estava trabalhando, Molly se concentrava tanto que conseguia ignorar a
bagunça.
Seu telefone tocou. Ela checou o número de chamada e respondeu imediatamente:
— Pai! Como você está?
Ouviu o pai contar sobre sua última aventura. Ele se mudara de Londres alguns meses antes de
Molly cair em desgraça, algo pelo qual ela seria eternamente grata. Depois de trabalhar a vida
inteira em uma empresa de eletrônicos, ele tinha se aposentado, comprado um trailer e saído em
uma viagem épica pelos Estados Unidos, explorando sua terra natal estado por estado. Em uma
cidade empoeirada e ensolarada do Arizona, conhecera Carly, e os dois estavam juntos desde
então.
Molly a havia visto uma vez e gostara dela, mas o que mais gostava em tudo isso era que seu
pai estava feliz. Recordava-se de quando havia tomado conta dele, ajudando-o a seguir em frente

depois que a mãe de Molly tinha ido embora, quando sua confiança afundara sob o peso de uma
rejeição monumental.
Molly não lembrava exatamente quando começou a incentivá-lo a namorar. Começou na época
da escola, em sua adolescência, quando percebeu que tinha mais interesse em observar o
relacionamento dos outros do que ter um para si. E observar revelou sua capacidade de juntar as
pessoas. Molly conseguia ver com muita clareza. Quem daria certo junto e quem não. Quais
relacionamentos durariam e quais romperiam contra as pedras ao primeiro sinal de tormenta.
Começaram a correr boatos de que ela tinha um dom. E ela adorava usá-lo. Por que não? Era
difícil encontrar a pessoa certa neste mundo louco e cheio de gente. As pessoas às vezes
precisam de um empurrãozinho.
Eles a apelidaram de Casamenteira. Bem melhor do que o nome que ganhou alguns anos
depois.
Na escola, grande parte do recreio e de suas tardes livres era dedicada a dar conselhos
amorosos. Por ter visto o pai se exaurir na tentativa de agradar à mãe, e fracassar, Molly sempre
encorajava as pessoas a ser elas mesmas. Se você não for amado por ser quem você é, seu
relacionamento não tem futuro. Ela sabia disso. Se você não bastasse para o outro desde o
começo, nunca bastaria.
Não importava quanto tentasse, seu pai nunca fora o suficiente para a mãe dela.
Molly tampouco.
A voz do pai disparou do outro lado do telefone, trazendo Molly de volta ao presente:
— Como vai minha garota?
— Estou bem. — Molly deletou alguns e-mails de spam com alguns cliques no mouse. — Na
correria. Trabalhando nas provas do meu próximo livro.
— Sempre ajudando os outros com relacionamentos. E os seus, como estão? Não estou falando
do Valentine.
— Estou cheia de homens na minha vida, pai. Minha agenda está lotada. Terça e sexta tenho
aula de salsa, às quintas tenho spinning, quarta é o curso de culinária e na segunda o grupo de
teatro… Tem homens em todos esses lugares.
— Mas você está solteira.
— Exato. E é justamente porque estou solteira que consigo fazer todas essas coisas.
— Se relacionar é importante, querida. Você sempre me disse isso.
— Tenho relacionamentos. Jantei com a Gabe e o Mark umas noites atrás. Mark está
frequentando aulas de culinária italiana. O tortellini dele é incrível, você deveria provar.
— Gabe e Mark são gays.
— E daí? São meus melhores amigos. — Ainda que nunca tivesse colocado aquela amizade à
prova, é claro. Molly descobrira com a própria experiência que o teste da amizade verdadeira era
a disposição de alguém de ficar ao lado de uma pessoa sendo difamada e humilhada. Ela
esperava nunca mais ter que testar ninguém. — Amizades são relacionamentos. Eles são
excelentes ouvintes e estão muito bem juntos. É bom estar por perto.
— Você sabe que é uma hipócrita? Por anos tentou me juntar com alguém e me disse para eu
assumir o risco, mas você mesma não faz isso.

— É diferente. Eu não gostava de ver o senhor sozinho. Você tem qualidades incríveis e estava
implorando para dividi-las com alguém especial.
— Você também tem qualidades incríveis, Molly. — Ele deu uma fungada. — Ainda é
estranho chamar você assim.
— É meu nome, pai.
— Mas não o que você usava antes de se mudar para Nova York. Você se sente Molly?
— Com toda certeza me sinto Molly. Gosto de ser a Molly. E divido as qualidades da Molly
com um monte de gente que as valoriza.
Um suspiro reverberou no telefone.
— Eu me preocupo com você. Acho que é tudo minha culpa. Eu me sinto responsável.
— Você não é o responsável.
Aquela era uma conversa que já haviam tido diversas vezes ao longo dos anos. Molly fizera o
possível para que o pai não a visse triste nas semanas e meses depois de sua mãe ter ido embora,
se escondendo no banheiro para chorar e fingindo que estava bem no restante do tempo, a fim de
não piorar o sofrimento dele. Era horrivelmente injusto, pensou, que ele se sentisse culpado por
algo sobre o qual não tinha controle.
— Carly leu seu livro. Ela acha que você tem complexo de abandono.
— Ela tem razão. Tenho mesmo. Mas me resolvi com isso há bastante tempo. — Molly pegou
uma caneta e começou a rabiscar em um bloquinho na mesa. Talvez ela devesse comprar um
livro para colorir. Era a última invenção antiestresse não medicinal. Ela olhou para Valentine. —
Talvez eu devesse comprar um canetão preto e me encher de pontinhos, que nem você.
— O quê? — Seu pai pareceu confuso. — O que você está planejando?
— Nada. É brincadeira. Pai, você precisa deixar de se preocupar comigo. Eu sou a psicóloga do
nosso relacionamento.
— Eu sei, e sei que as pessoas conversam sobre tudo com você. Mas com quem você conversa,
querida? Faça isso por mim. Saia com alguém. Por mim.
— Você tem alguém em mente? Ou devo agarrar o primeiro que aparecer? — Molly pensou no
homem do parque, com seus lindos olhos azuis e sorriso sedutor. Só de pensar nele seu coração
batia mais rápido.
— Se for preciso… Só vá para o mundo. Recupere sua confiança. Você está dizendo que, em
todos esses lugares que vai, não conheceu nenhum homem solteiro que tenha atraído sua
atenção?
— Nem um sequer. — Molly olhou para Valentine, grata que ele não pudesse falar. Se falasse,
a estaria chamando de mentirosa. — Então, aonde você e Carly vão agora?
— Para o norte de Oregon. Vamos fazer um pedaço de uma trilha que vai do México ao
Canadá, passando por montanhas.
— Divirtam-se e mandem fotos.
— Carly começou um blog. Se chama “Não há idade para a ousadia”.
— Vou dar uma olhada. Agora preciso ir, tenho muito trabalho a fazer. Vão lá, seus ousados.
Só tentem controlar essa ousadia toda em público. E mande um beijo para a Carly.
Com um sorriso, Molly encerrou a ligação e voltou para o computador.

Ela estava feliz solteira. E, se isso parecia estranho para uma especialista em relacionamentos,
ela não estava nem aí. Agora, separava sua vida profissional da pessoal.
Sua mente se voltou de novo para o cara no parque. Por alguns instantes secretos, imaginou
como seria estar com um homem como ele. Em seguida, arrastou-se de volta para o presente.
Ela sabia como seria estar com um homem como ele: traumatizante e problemático.
Molly não ia se achar covarde por não aceitar o convite para um café.
Não era covardia, era bom senso.
Ela aprendera com experiências passadas, e por isso que um convite para um café nunca parava
por aí. Era o começo, não o fim, e ela não estava no clima de começar nada. Principalmente com
um homem como Daniel. Daniel…? Molly percebeu que não sabia seu sobrenome.
Ela abriu o e-mail e leu uma pergunta.
Prezada Aggie, minha mãe escolheu lingeries sensuais para minha namorada, mas ela não
quer usar. Por quê?
Com um grunhido de desespero, Molly encostou-se na cadeira e alcançou a água.
Esse cara estava falando sério?
Porque nada é mais broxante do que lingerie escolhida pela sogra.
Alguns caras não têm noção.
Ela suspirou e começou a digitar.
Não apenas ganhava bem para fazer o que fazia, como também prestava um serviço à
sociedade.

k
No dia seguinte, não houve sinal dele.
Valentine corria em círculos, fungando o chão e o ar, com olhar esperançoso. Quando ficou na
cara que ia ter que brincar sozinho, lançou à dona um olhar de reprovação.
— Não é minha culpa. — Molly parou para respirar. — Ou talvez seja. Eu lhe dei um chegapra-lá. Mas vai por mim, foi a melhor coisa a fazer. Vamos embora.
Valentine se sentou, recusando-se a partir.
— Não temos motivos para ficar aqui, pois tenho certeza de que ele não vai aparecer. O que é
bom. Fico feliz que ele não esteja aqui. — Molly sentiu um tranco esquisito no estômago. —
Você tem muito o que aprender sobre relacionamentos. Eles são complicados. Até amizades.
Meu conselho é diminuir suas expectativas. As pessoas vão te decepcionar e deixar você na mão.
Imagino que seja a mesma coisa com cachorros. Ficar esperando o Brutus não é uma boa.
Valentine a ignorou e continuou fungando o chão, dispensando, na espera de coisa melhor, a
companhia de um elegante labrador e de um buldogue megaempolgado.
Sem fôlego para correr, Molly se alongou e então se sentou em um banco.
Aquilo que sentia não era decepção, não é? Os dois conversaram uma vez. Uma única vez.
Mas houve a troca de olhares ao longo da semana, olhares que viraram sorrisos e, então,
sorrisos de polidez que foram ficando íntimos. O resultado era a sensação de conhecê-lo havia
algum tempo.

Incomodada consigo mesma, ela se levantou e estava prestes a retomar a corrida com Valentine
quando ele latiu entusiasmado e deu um tranco na coleira.
Molly virou a cabeça e viu Daniel caminhando em sua direção com a coleira de Brutus em uma
mão e uma bandeja com quatro copos na outra.
Mesmo à distância, ele chamava a atenção. Uma corredora diminuiu a passada ao cruzar com
ele, virando a cabeça para ver se a vista traseira era tão boa quanto a frontal, mas Daniel não lhe
dispensou um olhar. Molly se perguntou se atrair as mulheres era algo tão comum para ele que
nem percebia mais.
Ou quem sabe não percebeu pois tinha o olhar preso em Molly.
Conforme ia se aproximando, o coração dela batia mais forte contra as costelas. Um desejo
dormente despertava de um longo sono e uma sensação lhe atravessou a pele, alojando-se em
algum lugar sob o ventre. A percepção de que o desejava veio acompanhada de um tremor de
espanto.
Trouxe lembranças de quando conhecera Rupert. Foi como encostar em uma cerca elétrica.
Cinco mil volts de pura energia sexual atravessaram-na, fritando seu cérebro e fundindo por
completo seu sistema de alerta. Sem sua proteção, Molly entrou cega no relacionamento,
esquecendo-se de suas limitações pessoais nesse tema. Percebeu mais tarde, com o benefício da
distância, que ficara deslumbrada.
Ela nunca se permitiu deslumbrar novamente. Bastava de corações partidos.
Querida Aggie, tem um cara de quem gosto muito, mas sinto que me envolver com ele é uma
má ideia. Por outro lado, ele me desperta sensações como ninguém mais. O que devo fazer?
Você deveria ouvir a voz que diz ser uma má ideia e sair correndo, pensou Molly. Em
disparada, nada de corridinha leve. Em disparada no sentido oposto.
Os últimos três anos foram dedicados inteiramente à reconstrução de sua carreira e de sua
confiança. Molly não faria nada que ameaçasse isso.
Algumas áreas do parque permitiam que os cachorros ficassem sem coleira por algumas horas
do dia. Eles estavam em uma delas. Assim, Molly soltou Valentine, que correu na direção de
Brutus, saudando-o com um balanço de rabo frenético.
Molly abriu a garrafinha d’água e tomou alguns goles apressados.
Ele a vira sentada? Achou que ela o estava esperando, na expectativa de vê-lo?
Molly quis ter continuado sua corrida.
Seu pai tinha razão. Ela era uma hipócrita. Se estivesse aconselhando, diria para suas leitoras
manterem distância dele, ou pelo menos ficarem alertas, mas lá estava ela, tão ansiosa em vê-lo
quanto Valentine por encontrar Brutus.
— Me desculpe o atraso.
O sorriso dele poderia iluminar uma noite escura. Molly sentiu algo palpitar-lhe por trás das
costelas.
Sua sorte é que era boa em resistir aos homens, caso contrário estaria perdida.
— Atraso? Que atraso? — Ela se esforçou para soar natural. Tranquila. Tudo em vão, pois o
sorriso dele dizia saber que ela estava esperando. E ansiosa.

Molly tinha certeza de que um homem como aquele estava habituado a ter as mulheres
esperando, ansiosas.
Quantos corações ele já destroçara? Quantos sonhos já despedaçara?
— Era para eu ter chegado aqui dez minutos antes, mas a fila estava maior do que de costume.
— Fila?
— Na cafeteria. Como você recusou meu convite para ir até lá, eu trouxe café para você.
Muito tempo atrás, Molly havia concluído que existem dois tipos de pessoa na vida. O tipo que
via um obstáculo e desistia, e o tipo como o dele… Pessoas que ignoravam os obstáculos e
simplesmente encontravam uma maneira diferente de atingir seus objetivos.
— Eu não bebo cappuccino.
— Por isso trouxe um chá. Você é britânica, tem que beber chá. — Ainda segurando Brutus,
Daniel se sentou. — English Breakfast ou Earl Grey? Isso eu não soube adivinhar.
— E qual trouxe?
— Os dois. Sou um cara que gosta de cuidar de todos os detalhes.
— Você é sempre assim persistente?
Ele sorriu, afrouxando um pouco a coleira de Brutus.
— A sorte não favorece quem cede ao primeiro obstáculo.
— O que é isso, um provérbio chinês?
— Americano. De minha autoria. Senta. Eu disse senta.
Molly ergueu as sobrancelhas.
— Eu ou o cachorro?
Os olhos dele brilharam.
— Ambos, mas acho que nenhum dos dois vai me ouvir. Minha vida tem sido assim.
Molly não se sentou, mas sorriu.
— E se eu dissesse que só bebo chá de hortelã?
— Nesse caso, me ferrei. — Ele tentou desenroscar a coleira da perna de Brutus. — Mas você
não me parece do tipo de mulher que só bebe hortelã. Pode até ser que não tome café, mas você
precisa de uma dose de cafeína.
— Bebo café, sim. Mas não cappuccino. E adoro Earl Grey.
— Vou tentar não ficar muito convencido. — Ele passou um dos copos para Molly. — Está
aqui seu Earl Grey. Com uma rodela de limão.
— Você está de brincadeira.
— Quando o assunto é bebida, eu nunca brinco, especialmente em uma semana como esta.
Cafeína é minha droga favorita, pelo menos durante o dia.
Molly observou Brutus e Valentine brincarem juntos.
— Podemos soltar os cães da coleira aqui.
— Ele não é muito bom em voltar quando chamado.
— Ele vai voltar enquanto Valentine estiver aqui.
Depois de avaliar o risco, Daniel soltou Brutus da coleira.
— É melhor que você esteja certa, pois, se não tiver, sinto que a próxima vez que o verei será
em Nova Jersey.

— Ele vai voltar. Olha só. Valentine!
Valentine ficou em posição de alerta e olhou para Molly. Em seguida, veio correndo em sua
direção, seguido por Brutus.
— Bom garoto.
Ela fez um carinho e o dispensou novamente.
— Todos os caras reagem assim com você?
— Todos. — Ela tirou a tampa do copo para esfriar o chá. — Não acredito que estou sentada
em um banco do Central Park bebendo Earl Grey com limão. — Ela se sentou ao lado de Daniel,
deixando espaço suficiente entre os dois para garantir que sua perna não roçasse por acidente na
dele. Se conversar com aquele homem já causava aquele efeito sobre ela, não queria correr o
risco de tocá-lo. — Você nunca aceita um “não” como resposta?
— Só quando “não” é a resposta que quero receber. E, neste caso, não era.
Os dois riram. Molly levantou o olhar e viu uma mulher em um longo vestido branco de noiva
abraçada com um homem de terno enquanto um fotógrafo fazia retratos. O casal encenou alguns
abraços íntimos e Molly desejou que os dois tivessem escolhido outro cenário para as fotos.
Aquela cena a deixava constrangida. Não era algo que gostaria de testemunhar, especialmente na
companhia de um estranho.
— Nunca entendi o sentido disso. — Daniel esticou as pernas, relaxado na mesma proporção
que Molly estava tensa. — Fotos montadas. Como se precisassem anunciar em público quão
felizes são.
— Talvez eles sejam felizes.
— Talvez. — Ele virou a cabeça para olhá-la. — Você acredita em finais felizes?
Havia algo na intensidade daquele olhar que tornava difícil para Molly lembrar de qualquer
coisa que ela acreditava.
— É claro. — Ela acreditava em finais felizes para os outros, não para si mesma. Felizes para
sempre era sua meta para as pessoas. Sua própria meta era ser feliz sozinha. E estava muito bem
com isso. — Acho que é uma boa época do ano para fotos de casamento. As flores estão lindas.
— Vamos torcer para que, daqui a cinco anos, não olhem para essas fotos e pensem: “Onde é
que a gente estava com a cabeça?”.
Era o tipo de comentário que ela mesma poderia ter feito, exceto que, em seu caso, teria
pensado em como os dois se conheceram e o que tinham em comum. Será que ia durar?
— Pelo visto você não é casado.
Molly bebeu um gole do chá pensando que era improvável que um homem como ele, que
poderia ter a mulher que quisesse, se prendesse a apenas uma.
— Não sou casado. E você? Deixou um cara satisfeito e exausto em casa?
— Deixei dez caras lá. Há chances de que eles nunca mais se recuperem. Se ainda estiverem lá
quando eu chegar, vou chamar uma ambulância.
Ele deu uma risada.
— Soube disso no momento em que vi você. Se estiver procurando um homem para substituir
esses dez, sabe onde me encontrar.
— Você tem a energia de dez homens?

— Quer testar?
— No momento, não. — Era o tipo de troca que deixava Molly confortável. Do tipo
superficial, que não levava a lugar algum. E Daniel era bom nisso. Bom nesse flerte arrebatador,
de tirar o fôlego, leve como uma borboleta, que muito dificilmente ficaria estagnado em um
único ponto. — E você? Tem dez mulheres esperando você em casa?
— Espero que não. Tenho certeza de que tranquei a porta.
Ele era tão sem-vergonha que era impossível não dar risada.
— Você não acredita em casamento?
Tão logo a pergunta lhe saiu dos lábios, Molly se arrependeu. Quis ter escolhido algum tema
impessoal, como a imprevisibilidade do clima ou o monte de turistas que surgira do nada nas
ruas da cidade. Qualquer coisa menos o tema íntimo de relacionamentos. Agora ele pensaria que
ela estava interessada no tema. Pensaria que, para ela, era mais que um chá em um banco de
parque, em uma ensolarada manhã de primavera.
— Já corri muitos riscos na vida… Pulei de paraquedas, fiz bungee jumping… mas nunca
casei. — Seu tom sugeria que não planejava mudar isso tão cedo.
— Você vê o casamento como um risco?
— É claro que é um risco. Se você consegue encontrar a pessoa certa, tenho certeza de que
casar é ótimo. Mas encontrar a pessoa certa… — Ele deu de ombros. — Essa é a parte difícil. É
mais fácil errar do que acertar. E você?
Os cachorros estavam correndo um atrás do outro em frente ao banco e Daniel se inclinou para
fazer um carinho em Brutus. Molly viu a camiseta dele se agarrar contra o ombro, moldando-se
aos seus músculos potentes.
— Nunca. — Ela o observou pegar um dos outros copos e beber um gole. — De quem é o
quarto copo?
— Meu.
— Você comprou duas bebidas para você? Tem dificuldade de escolher?
— Não. Tenho dificuldade de ficar acordado depois de trabalhar até as duas da madrugada.
Como disse, cafeína é minha droga favorita. Os dois cafés são para mim. E o que você faz,
Molly? Não… Deixa eu adivinhar. Seu cachorro é bem treinado, está na cara que você é
disciplinada, então poderia ser professora, mas acho que não. Imagino que, independente do que
faz, você é sua própria chefe. Está na cara que é inteligente, então imagino que seja dona de um
negócio. Trabalha em casa, talvez? Em algum lugar perto daqui. É escritora? Jornalista? Acertei?
— De certa forma. — Molly sentiu-se recuar instintivamente. Lembrou a si mesma que usava
um pseudônimo para trabalhar. Era como usar um disfarce. — Meu trabalho envolve escrever,
mas não sou jornalista.
— O que você escreve? Vou ter que adivinhar? É algo sacana? Se sim, com certeza vou querer
ler.
Molly conhecia bastante da natureza humana para saber que, se não lhe contasse o que era, o
assunto só ficaria mais interessante.
— Sou psicóloga.

— Então deve estar analisando meu comportamento. — Ele abaixou o copo. — Não nego que
isso é um pouco desconcertante. Agora me pego repassando mentalmente nossa conversa,
tentando lembrar o que eu disse. Por outro lado, você continua aqui sentada, então não deve ter
sido nada de muito ruim.
Ela estava mesmo sentada ali e ninguém estava mais surpreso com isso do que ela.
— Talvez eu ainda esteja sentada aqui pois vejo você como um caso perdido que precisa de
ajuda.
Ele confirmou com a cabeça.
— É exatamente o que sou. — Daniel observou Brutus e Valentine se sujarem enquanto
brincavam na grama. — Então você vai me aceitar?
— Como?
— Você disse que preciso de ajuda. Nada mais justo do que me oferecer esse cuidado. Se
quiser que eu visite você e deite em seu divã, por mim tudo bem.
— Você não caberia nele. Qual é sua altura? Um e oitenta?
— Um e noventa.
— Como eu disse. Alto demais.
Na verdade, ele era demais em todos os quesitos. Bonito demais. Charmoso demais.
Ameaçador demais para o equilíbrio dela.
E, para confirmar isso, ele sorriu para Molly. Derretendo-a como um lança-chamas contra gelo.
— Não vai fazer diferença se você sorrir para mim. Continua não cabendo no meu divã.
— Não precisa se preocupar. — Ele se inclinou e abaixou o tom de voz. — Prometo ser gentil
com você.
— Ah, pelo amor… Sério que você disse isso? — Como as mãos de Molly tremiam, ela
derramou um pouco de chá na calça de ginástica. — Ai!
Ela se levantou na hora e o sorriso de Daniel transformou-se em preocupação.
— Tira a calça, rápido.
— Não tem graça.
— Não estou tentando ser engraçado. É sério. Primeiros-socorros básicos para queimaduras. O
tecido vai continuar queimando sua perna.
— Não vou tirar a calça no parque.
Mas Molly puxou o tecido da pele, o que claramente diminuiu a dor.
— Me desculpe.
Ele pareceu genuinamente arrependido.
— Pelo quê? — Ela pegou um punhado de guardanapos e pressionou-os contra a coxa. — Fui
eu quem derramou o chá.
— Mas só porque deixei você nervosa. — Ele tinha a voz suave e o olhar íntimo, como se
estivesse dividindo algo pessoal.
— Você não me deixou nervosa — mentiu ela. — Não estou acostumada com insinuações
sexuais a essa hora da manhã. Nem com homens como você. Você é…
— Lindo? Irresistível? Interessante?
— Eu estava pensando mais em irritante, previsível e inconveniente.

O sorriso de Daniel prometia diversão, pecado e mil coisas que Molly não ousava pensar
enquanto estivesse com chá quente nas mãos.
— Eu a deixei nervosa. E abalada. Se fosse analisar você, diria que é do tipo de mulher que
detesta ambas as coisas.
Abalada? Ah sim, ele tinha a abalado. Estar perto dele deixava Molly avoada e tonta. Ela sentia
de forma agonizante cada detalhe dele, da masculinidade da barba por fazer ao brilho malicioso
de seus olhos. Por debaixo do senso de humor de Daniel, porém, morava um olhar atento para os
detalhes, e isso a preocupava mais que qualquer coisa.
Molly tinha a impressão de que ele era capaz de ver muito além do que a maioria das pessoas.
Era como se esconder em um armário, sabendo que alguém estava logo em frente à porta,
esperando você se revelar.
E isso já era perto demais para Molly. Ela jogou o copo fora e pegou a coleira de Valentine.
— Obrigada pelo chá.
— Espera. — Ele esticou o braço e segurou-lhe a outra mão. — Não vá embora.
— Preciso trabalhar. — Era verdade, mesmo que não fosse por esse motivo que estava indo
embora. Ela sabia disso. Ele sabia disso. Conversar, flertar de leve… estava bem assim. Ela não
queria que a situação evoluísse. — Adeus, Daniel. Um bom dia para você. — Molly assoviou
para Valentine, prendeu a coleira nele e saiu andando pelo parque sem olhar para trás.
Amanhã, tomaria um caminho diferente.
Sem chances de correr o risco de encontrá-lo outra vez.
Sem chances.

Capítulo 4
Seu dia não tinha sido dos melhores. Fora um dia longo, frustrante e cansativo durante o qual
Molly não saíra de sua cabeça. Daniel ficou se perguntando para onde ela fora depois de correr
no parque. Ficou pensando em quem seriam seus amigos e que tipo de vida levava. Tinha
milhões de perguntas sobre ela e pouquíssimas respostas.
Sobretudo, ficou pensando no que havia dito para que ela saísse correndo.
Daniel gostou das faíscas da conversa, do flerte. Era o equivalente verbal de esqui aquático:
deslizar e se equilibrar na superfície sem nunca mergulhar em águas profundas e obscuras. Isso
lhe convinha pois não tinha interesse em se aprofundar.
Imaginava que o mesmo valia para Molly.
Daniel sabia, só de olhá-la, que ela tinha questões em aberto. De sua mesa de trabalho, tinha
visto aquele mesmo olhar inúmeras vezes, então sabia reconhecer os sombreados de dor. Aquilo
não o preocupava. Jamais vira um ser humano com mais de 20 anos que não tivesse suas
questões. Isso era estar vivo. Se você estiver vivendo, mais cedo ou mais tarde terá algumas
cicatrizes para mostrar.
Perguntou-se quem teria sido responsável pelas cicatrizes de Molly.
Foi a necessidade de saber mais sobre ela que o levou ao parque na manhã seguinte com
Brutus, que esticava a coleira, ansioso. Não passou por sua cabeça que ela poderia não aparecer.
Para começo de conversa, ela teria que passear com Valentine, e algo dizia a Daniel que Molly
não mudaria seus hábitos somente para evitá-lo. Assim, com Brutus a seu lado, tomou o mesmo
caminho de antes.
Sem Valentine para mantê-lo na linha, havia grandes chances de Brutus não voltar, por isso
Daniel o deixou de coleira. Até gritou “Xarope” uma vez para ver se fazia diferença, mas apenas
confirmou o que já suspeitava: o cachorro não tinha problemas em reconhecer seu nome. Ele
tinha problemas em reconhecer autoridade.
Tendo ele mesmo, em sua juventude, sido questionador e desafiador, Daniel simpatizava com o
cão.
Estava tentando evitar que o cachorro enfiasse o focinho num lamaçal quando Valentine
apareceu.
Não havia sinal de Molly.
— Onde está ela? — Daniel se inclinou para fazer carinho no dálmata. Ele não era um grande
especialista no assunto, mas era visível que Valentine era um belo cachorro. E aquele narizinho
em forma de coração era bem bonitinho. — Talvez aí esteja meu erro. Preciso de um cachorro
com nariz em forma de coração para conquistá-la.
Estava se perguntando se deveria continuar segurando o animal ou soltá-lo quando Molly
apareceu, sem fôlego e irritada.
— Valentine! — Ela os alcançou e franziu a testa para o cachorro. — O que você pensa que
está fazendo?

Daniel teve a impressão de que Valentine sabia direitinho o que estava fazendo.
Ele suspeitou que a intenção de Molly não era pegar aquele caminho, mas que se dane. Lá
estava ela. Era isso que importava.
Ela estava com uma calça de ginástica colada ao corpo com uma estampa de espirais roxas e
pretas. Seu cabelo, preso em um rabo de cavalo impecável, curvava-se como um ponto de
interrogação sobre suas costas.
Daniel soltou a coleira de Brutus, que saiu correndo com Valentine.
— Sempre que o solto, tenho medo de que será a última vez que a gente vai se ver. Só faço isso
quando Valentine está por perto.
— Valentine nunca sai correndo. — Ela franziu a testa, olhando para o cão. — Não entendi o
que aconteceu.
— Acho que ele quis brincar com seu melhor amigo. Olha como os dois estão felizes. — A
aposta de Daniel era que, se Molly visse seu cachorro tão contente, não ia querer ir embora. A
julgar pelo sorriso dela, tinha razão. Ela já perdoara a transgressão de Valentine. — Então, como
você faz para um cachorro atender quando é chamado?
— É treino.
— E se não funcionar?
— Aí você se ferrou.
Daniel adorava a forma como os olhos dela se iluminavam. Adorava a covinha que surgia no
canto de sua boca. Adorava como seu cabelo balançava enquanto corria. Adorava sua maneira de
correr como se fosse dona do parque. Adorava como ela amava seu cachorro…
É, ele estava mesmo ferrado.
— Quer tomar um Earl Grey? Se quiser, é só dizer a palavra mágica.
Daniel não acreditava que estava oferecendo chá, quando o que queria de verdade era
champanhe, luz do luar e Molly sem roupa.
— Qual é a palavra mágica? Por favor?
— Pega!
O sorriso dela virou uma risada.
— Você “pegou” na última vez. Agora sou eu.
Ele gostou de como isso soou, como se fosse algo frequente, que aconteceria novamente.
— Mas, neste caso, eu precisaria cuidar dos cachorros, e você é a adulta responsável aqui.
— Você não é responsável?
Ele olhou para a boca de Molly.
— Tenho fama de ser irresponsável de vez em quando.

k
Molly se sentou no banco e observou os cachorros brincando. Irresponsável? Irresponsável era
ela, por estar ali sentada, esperando-o voltar em vez de terminar sua corrida e ir para casa.
Ela havia começado o dia de forma responsável. Pegara um caminho diferente para a corrida,
mas Valentine não tinha gostado. Ele saíra correndo e, pela primeira vez, se negara a voltar

quando Molly o chamara. E agora lá estava ela, no mesmo banco, esperando por Daniel.
Ainda é superficial, lembrou a si mesma. Ainda é leve e divertido.
Um coração não vai se machucar se não se envolver.
— Me conta sobre ele — disse a Brutus, mas o cachorro estava ocupado demais tentando
morder a orelha de Valentine e não prestou atenção.
Daniel chegou quando Brutus e Valentine estavam enroscados no chão.
— Imagino que você não seja psicóloga especializada em animais. Meu cachorro precisa de
ajuda.
Molly pegou o chá, tomando cuidado para não tocar os dedos de Daniel.
— Sou melhor em entender comportamentos humanos.
— Psicologia comportamental? Essa é sua linha?
— Sim. — Molly não via sentido em não ser honesta quanto a isso.
— E você prefere gente bem ou malcomportada? — A voz dele deslizou por dentro da pele de
Molly. Ela sentiu que aquele homem era capaz de fazer uma dose elevada de maldade quando lhe
convinha, provavelmente outro fator que o tornava magnético para as mulheres.
— A maioria das pessoas é uma mistura dos dois. Eu observo. Nunca julgo.
— Todo mundo julga. — Ele deu outro gole no café. — O que uma psicóloga comportamental
faz? Você dá conselhos amorosos de vez em quando?
— Sim.
Ele abaixou o copo.
— Bom, se você é psicóloga e estudou essas coisas, todos os seus relacionamentos devem ser
perfeitos.
Molly quase caiu na gargalhada, mas, ciente de que o som pareceria histérico, ela se segurou.
Era surpreendente a quantidade de gente que achava que seus relacionamentos deviam ser
perfeitos. Era como esperar que um médico nunca ficasse doente.
— Você tem razão. Meus relacionamentos são todos perfeitos.
— Mentirosa. O relacionamento de ninguém é perfeito. — Com o olhar, ele foi dela a
Valentine. — Você está todas as manhãs no parque com seu cachorro, o que me diz que ele é seu
relacionamento mais importante.
De alguma maneira, a conversa caminhara para temas pessoais. Molly recuou instintivamente.
— Concordo que o relacionamento de ninguém é perfeito. O melhor que se pode fazer é tornálo perfeito para você.
Relaxado e confortável, Daniel esticou as pernas.
— Perfeito, para mim, seria breve. Não gosto de me envolver a partir de certo ponto. A julgar
pela sua reação, o mesmo deve valer para você.
Ele acertou na mosca, e Molly não pôde evitar a curiosidade.
— Você tem medo de intimidade?
Por que ela estava tendo aquela conversa? Qual era seu problema? Molly devia estar tomando
seu chá e indo embora.
— Não tenho medo de intimidade. Só não tenho tempo para lidar com as demandas que vêm
com a intimidade. Meu trabalho exige muito e, nas horas que tenho para mim, não quero mais

complicações.
— Isso é comum em pessoas com comportamentos de fuga e evitação.
— Fuga e evitação?
— Você se afasta constantemente. — Ela percebeu que Valentine cheirava algo na grama e se
levantou para puxá-lo. — Pessoas que evitam intimidade costumam fazer isso pois têm medo de
se machucar. É um mecanismo de autoproteção. Normalmente, em seus relacionamentos, essas
pessoas não apresentam os parceiros para amigos e parentes, pois não acham que vai durar.
Usam uma série de técnicas de distanciamento. O problema não é o relacionamento atual, mas
algo que aconteceu no passado. De modo geral, a raiz do problema está na infância. Costumam
ser pessoas que não tiveram uma boa relação com os pais e vínculos saudáveis.
— Minha infância não poderia ser descrita como acolhedora, mas superei isso há muito tempo.
Se você está se perguntando sobre a origem de meus pontos de vista sobre relacionamentos,
posso garantir que não tem nada a ver com meus pais. Não sou do tipo de gente que gosta de
levar o passado para o futuro.
— Todo mundo carrega pelo menos um pouco de seu passado.
— Se é assim, o que você está carregando?
Ela caíra na armadilha direitinho. Até ajudara a armá-la.
— Estamos falando sobre você.
— Mas agora eu gostaria de falar um pouco sobre você. Ou você sempre desvia a conversa
quando fica muito pessoal?
— Não desvio nada. — Ela suspirou. — Está bem, talvez eu desvie. Às vezes. Você perguntou
se Valentine é meu relacionamento mais importante. A resposta é sim, no momento ele é. Estou
curtindo as coisas simples da vida.
— Está evitando intimidade, então? — Ele usou os termos de Molly, ao que ela retribuiu com
uma risada relutante.
— Com certeza. E nunca fui tão feliz.
— Se continuarmos a nos ver, você vai analisar cada movimento meu?
— A gente não vai continuar se vendo. Estamos conversando no parque, só isso.
— Você já me conhece melhor do que as últimas três mulheres com quem saí e vem me dizer
que é só isso?
Daniel sorriu, e Molly sabia que aquilo seria sua ruína. Aquele sorriso e uma noite inteira
atualizando o Pergunte a ela, o que a deixara cansada e sem defesas.
Muito de sua fraqueza vinha do déficit de sono.
Ela bebericou o chá, quase deixando cair quando Brutus veio roçar-lhe a perna.
— Senta. — Daniel lançou um olhar severo ao cachorro. — Esse bicho está fora de controle.
— Ele precisa saber quem manda.
— Ele acha que é ele quem manda. Estamos trabalhando nesse problema.
— Brutus! — Molly disse o nome com firmeza, mas o cachorro nem sequer virou a cabeça. —
Talvez não seja uma questão comportamental. Ele tem algum problema de audição?
— Não que eu saiba. Por quê?

— Porque ele parece não reconhecer o próprio nome. Não é normal um cachorro ignorar seu
nome, mesmo que não obedeça ao comando que recebeu. Ei… Brutus. — Ela tirou um
biscoitinho do bolso e o cachorro virou o rosto na hora. — Você sabe seu nome quando tem
comida na parada. Que surpresa… Há quanto tempo ele é seu?
— Não muito. Há quanto tempo você tem o Valentine?
— Há três anos.
— Foi quando você se mudou para Nova York?
Molly precisou lembrar a si mesma que milhares de pessoas se mudam para Nova York
diariamente. Ele não ia tirar uma foto dela e buscá-la no Google.
— Sim.
— O que a trouxe aos Estados Unidos?
Catástrofes românticas.
Humilhação pessoal e profissional.
Molly poderia fazer uma lista.
— Quis progredir na carreira. E tenho família aqui. Meu pai é americano, nasceu em
Connecticut.
— Carreira? Por um instante, achei que poderia ser um término. — Daniel estudou o rosto de
Molly. — Você acha que vai voltar para lá em algum momento?
— Não. — Ela manteve o sorriso no rosto e o tom de voz leve. — Amo Nova York. Adoro
meu emprego, meu apartamento e meu cachorro. Não tenho interesse em voltar.
— Que tal um jantar? — Daniel se inclinou e fez carinho na cabeça de Valentine. — Isso é do
seu interesse?
Fascinada, Molly observou aqueles dedos longos e fortes acariciarem seu cachorro. Seu
coração disparou. Seu estômago se revirou todo. Ainda assim, continuou assistindo a Daniel
seduzir seu cachorro com carícias suaves e acolhedoras.
Ele fez uma pergunta. O que era mesmo? Por que era tão difícil se concentrar perto dele?
Jantar. Era isso. Um jantar.
— Você está me convidando para jantar?
— Por que não? Sua companhia é agradável. Quero oferecer a você algo além de Earl Grey.
Tempos atrás, Molly teria ficado tentada. Com certeza, teria se sentido lisonjeada. Que mulher
não teria? Mas aquele tempo tinha passado.
— Ando muito ocupada. — Ela se levantou meio desajeitada e pisou no pé de Valentine. Ele
deu um grito revoltado e se afastou. — Desculpa. — Tomada de culpa, Molly se inclinou e
beijou-lhe a cabeça. — Me desculpa, bebê. Eu machuquei você? — Valentine balançou o rabo
em sinal de perdão. — Preciso ir.
Ela sabia que Daniel a observava com seus olhos azuis especulativos e com um toque de
humor.
— Imagino que você não tenha nenhuma alergia fatal a comida, então vou levar para o pessoal.
— Não saio com caras que conheço no parque.
— Qual é a diferença de sair com caras que conheceu em um bar?
— Também não saio com eles.

Daniel terminou a bebida e se levantou. Ele era quase trinta centímetros mais alto do que ela e
tinha os ombros largos e fortes. Seu cabelo brilhava sob o sol matinal.
— Do que você tem medo?
— Só porque recusei o convite você acha que estou com medo? Não é um pouco arrogante de
sua parte? Eu talvez só não queira jantar com você, simples assim.
— Talvez. Mas nesse caso tem a outra alternativa. De que você queira jantar comigo, mas está
assustada. — Brutus roçou-lhe a perna querendo brincar, mas Daniel manteve os olhos fixos em
Molly.
A tensão entrou fundo na pele dela.
— Não estou assustada.
— Ótimo. Você conhece um bistrô francês pequenininho a umas duas quadras daqui? Nós nos
encontramos lá às oito. É um lugar público, você vai poder satisfazer suas dúvidas quanto a eu
ser um tarado ou psicopata.
— Mesmo que eu quisesse, não posso. Hoje é terça. Terça é meu dia de salsa.
— Salsa?
— Sempre que estou livre, danço salsa nas terças e sextas à noite.
— Com quem você dança?
— Com qualquer pessoa. Com todo mundo. É bem informal. — E gostoso, suado, sexy e
divertido. Divertido e inofensivo. Nada muito profundo. Nada sério. Nada que a fizesse se sentir
como se sentia ao lado de Daniel.
— Para você tudo bem dançar com estranhos, mas não pode jantar comigo. Que tal amanhã?
— Amanhã é quarta-feira.
— E quarta-feira é dia de quê? Tango?
— Quarta é dia de aula de culinária italiana.
— Você está aprendendo culinária italiana?
— Comecei recentemente. Quero fazer tortellini tão bem quanto meu vizinho. Se você
experimentar, vai entender.
— Quinta-feira?
— Quinta é dia de spinning.
— Nunca entendi o sentido de pedalar um monte e não chegar a lugar algum. Sábado? Nem
precisa dizer… Aula de bordado.
As trilhas ao redor estavam ficando cheias de corredores, caminhantes e pessoas com carrinhos
de bebê, mas os dois não tiraram o foco um do outro.
— Eu deixo o sábado livre. Costumo sair com amigos.
— Ótimo. Às oito da noite no sábado, então. Se não quiser me encontrar no restaurante, você
pode cozinhar. Levo o champanhe. — Ele parecia tranquilo e confortável com a situação,
enquanto Molly tinha a sensação de estar se debatendo no fundo de uma enorme piscina.
— Se quiser jantar, pode vir comigo na aula de culinária italiana.
Decepcionado, ele balançou a cabeça em negativa:
— Sua aula de culinária italiana é na quarta, e quarta-feira é dia de pôquer.
— Você joga pôquer? É óbvio que sim.

— Por que é óbvio?
— Esse instinto assassino implacável combinado à habilidade de esconder suas emoções.
Aposto que você é bom.
— Sou bom, sim. — Seus olhos brilhavam com malícia. — Quer descobrir o quanto sou bom?
A boca de Molly secou. Ele estava flertando, e ela ia ignorar isso.
— Eu não jogo pôquer.
O sorriso de Daniel se alargou, mas ele deixou para lá.
— É mais uma desculpa para me encontrar com os amigos e beber. Não sou tão competitivo.
— Até parece.
Ele deu risada.
— Eu devia levar você comigo. Você poderia ler a mente deles e me dar dicas.
— Sou psicóloga, não vidente.
— Com essa agenda lotada, quando você marca encontros?
— Nunca. — Droga, ela não devia ter dito isso. Não somente pareceu patética, como um
homem do tipo dele tomaria isso como um desafio. — Quer dizer, pelo menos não agora. Estou
focada no trabalho. Adoro minha vida do jeito que ela é.
— Agora entendo por que você pratica tanto exercício.
— Gosto de me manter em forma.
— Não. É porque você não tem transado para valer. Precisa encontrar outro jeito de extravasar
sua frustração reprimida e liberar endorfina.
Molly bufou.
— Não estou frustrada! Não é todo mundo que pensa em sexo o tempo todo.
Pelo menos não até o dia em que o conhecera. Desde então, Molly praticamente só pensava
naquilo.
— Não o tempo todo, mas boa parte do tempo. Você deve saber disso, é psicóloga. Nós nos
escondemos por detrás de um véu de civilidade pois é o que a sociedade espera, mas, embaixo,
somos todos conduzidos pelas mesmas necessidades primitivas. Quer saber quais são? — Ele se
inclinou para perto e Molly viu que o brilho malicioso nos olhos de Daniel se intensificou. —
Procriar e pegar uma fatia melhor do que os outros.
— É por isso que nunca vamos jantar juntos.
— Não vamos jantar porque você está ocupada demais. E está ocupada porque substituiu sexo
por aulas de salsa e spinning.
— Prefiro fazer aula de spinning do que transar com você.
— Não seria mais sensato transar comigo antes de bater o martelo? — O sorriso de Daniel se
alargou e ele desceu o olhar para a boca de Molly. — Talvez você esteja dizendo não para a
melhor noite de sua vida, Molly-sem-sobrenome.
— Tenho sobrenome. Só não quero dividi-lo com você.
— Só um jantar. — A voz de Daniel era uma verdadeira tentação. — Se você ficar entediada,
nunca mais vou encher seu saco.
Entediada? Que mulher ficaria entediada com ele? Ficariam muitas outras coisas. Vulneráveis,
na maioria dos casos. Nenhuma arma masculina é mais letal do que o charme. E esse cara tinha

charme de sobra.
— Não, obrigada.
Ele lançou um olhar longo e perscrutador a Molly.
— Quem deixou você com tanto medo assim, Molly? Quem te fez escolher as aulas de salsa e
spinning em vez de sexo?
Ela estava tão acostumada a se esconder que ficou surpresa por Daniel enxergar através do
verniz.
— Preciso ir embora. Obrigada pelo chá. — Ela jogou o copo na lixeira, pegou Valentine e
saiu correndo pelo parque, tomando o atalho que a levava de volta para casa.
É óbvio que ele tinha razão.
Ela estava com medo.
Quando alguém cai, toma mais cuidado por onde pisa da próxima vez. E a queda de Molly
tinha sido feia.

Capítulo 5
— Daniel! Graças a Deus você voltou. Precisamos conversar sobre a confraternização de verão e
você precisa assinar esses documentos. — Marsha, sua assistente, encontrou-o ainda na porta,
com uma pasta cheia de papéis e uma lista em mãos. — A Elisa Sutton está em seu escritório.
— A Elisa? Ah, aliás, feliz aniversário.
— Feliz eu ficaria se passasse o dia em um spa. Mas aqui estou eu. — Ela empurrou a pasta
para as mãos dele. — Espero que reconheça minha fidelidade.
— Reconheço, e é por isso que um buquê de flores ridiculamente extravagante está a caminho.
Agora me fale da Elisa.
— Ela chegou há uma meia hora, desesperada para conversar com você. — Marsha baixou o
tom de voz. — Mandei comprarem mais lenços. Ela usou uma caixa e meia da última vez.
— Você também choraria uma caixa e meia de lenços se fosse casada com o marido dela.
— Ele é um cara para uma caixa e meia. Você é o único homem que conheço que leva jeito
com mulheres aos prantos. De onde conseguiu tanta paciência?
Daniel tinha muita experiência.
Uma visão de sua mãe lhe veio à mente, mas foi repelida na hora.
Não era homem de revirar o passado. Ele lidara com aquilo e seguira em frente. Por que diabo
aquela imagem lhe viera à mente naquele momento?
A resposta era: por causa de Molly.
Molly, buscando respostas sobre a infância dele.
Ela mexera em uma ferida que agora latejava.
Isso, pensou Daniel sombriamente, é o que acontece quando você vai além da superfície.
Quando não se conhece alguém direito, muita coisa pode ser dita.
Irritado consigo mesmo por deixar aquela situação invadir seu dia, concentrou-se no trabalho:
— Divórcio mexe com as emoções. Lidar com elas faz parte do meu trabalho.
— Também era o trabalho do Max Carter, mas ele acabou de deixar uma cliente que chorava
tsunâmis no escritório dele. Disse que ia dar um tempo para ela se “recompor”. Se eu não
soubesse que o cara é, na verdade, um advogado brilhante, não teria acreditado. Você se
incomoda por eu ter deixado a sra. Sutton entrar em seu escritório sem hora marcada? Pode me
demitir, se quiser.
— O dia em que você sair daqui, eu saio também. Vamos embora juntos, levando nossas
plantas mortas.
— Ei! Eu rego as plantas.
— Então precisa parar. São plantas de interior, estão morrendo.
— Quem sabe as clientes não andaram chorando nelas também? Ou talvez as plantas estejam
deprimidas. Se eu tivesse que escutar todas as histórias tristes que contam por aqui, também
estaria deprimida.

Marsha começou a trabalhar para Daniel quando sua filha mais nova largou a faculdade. No
mesmo dia, seu divórcio foi concluído. Daniel foi seu advogado na separação.
Seu jeito calmo, maturidade e senso de humor a tornavam inestimável.
— Você sabe por que a Elisa veio?
— Não. — Marsha olhou em direção à porta fechada e baixou o tom de voz. — Na semana
passada, veio chorar por causa daquele traidor preguiçoso e péssimo que é o marido dela, mas
hoje veio sorrindo. Você acha que ela o matou e ocultou o cadáver? Devo chamar algum colega
da área criminal?
Daniel deu um sorrisinho leve.
— Vamos esperar para dar o veredito.
— Talvez tenha vindo para dizer que arranjou um amante. Seria a melhor vingança.
— Talvez, mas isso tornaria a luta pela guarda dos filhos ainda mais complicada, então espero
que você esteja enganada. — Independentemente de qual fosse o motivo da visita repentina,
Daniel sabia que não seria algo bom. — Por que você quer conversar sobre a confraternização de
verão?
— Porque eu estou cuidando da organização, e a do ano passado foi um fiasco. Contratamos a
Estrela Eventos e tive que lidar com uma mulher horrível com complexo de superioridade. Não
lembro o nome dela. Cynthia, acho. Posso usar outra empresa?
— Pode usar a empresa que quiser. Contanto que a bebida role solta, não me importo.
— Tem uma empresa nova chamada Gênio Urbano…
— Criada por três jovens brilhantes que saíram da Estrela Eventos. Paige, Frankie e Eva. Boa
ideia. Pode acioná-las.
Marsha ficou boquiaberta.
— Você conhece todo mundo em Nova York?
— O Matt Walker, irmão mais velho de Paige, foi quem fez meu terraço da cobertura. A Gênio
Urbano deu muito apoio ao negócio de passeadores de cachorro das minhas irmãs. Além disso,
elas são competentes. E foram demitidas por aquela mulher horrível, então contratá-las é como
um carma.
— Você não acredita em carma.
— Mas você acredita. Pode contratar a empresa delas.
— Eu vou. — Ela riscou um item da lista. — Só mais umas coisinhas antes de você ir
conversar com a Elisa… Você foi convidado pela Editora Phoenix para uma noite de coquetéis
no Metropolitan, daqui a duas semanas. Invento alguma desculpa?
— Com certeza.
Riscou aquilo da lista também.
— A entrevista que você deu foi publicada hoje. Quer ler?
— Vou gostar do que vou ler?
— Não. Eles chamam você de destruidor de corações e o solteirão mais requisitado da cidade.
Deviam ter me entrevistado, isso sim. Eu teria dito que nenhuma mulher em sã consciência
deveria sair com você.
— Obrigado.

— De nada. E então, quer ler a entrevista?
— Não. Próximo.
— Próximo é a Elisa. E ah, parabéns.
— Pelo quê?
— Pelo caso Tanner. Você ganhou.
— É um caso de divórcio litigioso, ninguém sai ganhando. Todo mundo perde.
Marsha o estudou.
— Está tudo bem? Percebi agora que você chegou mais tarde do que o normal e que parece
diferente.
— Estou bem.
Pronto para mais um drama matrimonial, Daniel entrou no escritório. Havia muitos dias em
que se perguntava por que trabalhava com aquilo. Aquele era um deles.
Mas Elisa Sutton não estava chorando. Pelo contrário, parecia animada.
Mesmo Daniel, experiente em lidar com a montanha-russa emocional que vinha com o
divórcio, estava surpreso.
E desconfiado. Marsha estava certa? Será que Elisa arranjara um amante?
— Elisa? — Imaginando que ela confessaria algo de natureza sexual, Daniel fechou a porta. Se
sua cliente ia lavar a roupa suja em seu escritório, era preciso manter isso entre quatro paredes.
— Aconteceu alguma coisa?
— Sim. Nós voltamos!
— Como é? — Daniel colocou o laptop na mesa, tentando acompanhar a história. — Com
quem? Não sabia que você estava saindo com alguém. Nós conversamos sobre os riscos de se
envolver com alguém a esta altura do campeonato…
— Não é outra pessoa. É com o Henry. Nós voltamos. Você acredita nisso?
Não, Daniel não acreditava.
Elisa chorara tanto nos últimos meses que ele tinha considerado disparar o alerta de inundação
em Manhattan.
— Elisa…
— Você está usando seu tom sério de advogado. Se for me alertar de que não é uma boa ideia,
nem gaste a saliva. Já me decidi. No começo, quando ele me disse que ia mudar, eu não
acreditei, mas depois de algum tempo percebi que estava sendo sincero. Resolvi dar uma chance.
Afinal de contas, ele ainda é meu marido. — Lágrimas vieram-lhe aos olhos, e Elisa levou a mão
à boca. — Nunca imaginei que isso fosse acontecer. Fui pega de surpresa. Pensei que tivesse
acabado.
Daniel ficou imóvel. Também foi pego de surpresa. Pelo que tinha visto até então, o casamento
de Elisa e Henry era tão ruim que, se conseguissem engarrafar o veneno que saía deles, poderiam
ter intoxicado Nova Jersey inteira. Ainda que tivesse aprendido ao longo de sua carreira que em
um divórcio, em geral, as duas partes tinham sua parcela de culpa, mesmo que não igualmente,
naquele caso o carrasco era Henry, o homem mais frio e egoísta que Daniel conhecera na vida.
Para se defender durante o processo de separação, contratara um advogado agressivo como um
dobermann e o lançara contra a esposa, a mulher que supostamente amou um dia e com quem

teve dois antes felizes, agora traumatizados, filhos.
Por sorte, Daniel não tinha problemas em virar um rottweiler quando precisava.
Ele franziu a testa. Desde quando fazia analogias com cachorros?
Passear com Brutus estava o influenciando.
— Na semana passada, você estava aqui chorando — disse ele com cuidado. — Me disse que
não importava o custo, não queria vê-lo nunca mais.
Daniel manteve o tom sem emoções. Seus clientes traziam tantas emoções ao escritório dele
que aprendera a não contribuir com ainda mais.
— Isso foi na semana passada, quando achei que não tínhamos esperança. Ele me machucou.
— E você quer esse cara de volta?
— Acho de verdade que ele está comprometido em mudar.
Daniel sentiu um arrepio de desespero.
— Elisa, depois de certa idade é raro que as pessoas mudem, ainda mais da noite para o dia. —
Ele tinha mesmo que dizer essas coisas? As pessoas já não sabiam disso? — Você já deve ter
ouvido aquela história de que “pau que nasce torto nunca se endireita”.
Daniel esperou que Elisa reconhecesse o que ele dizia, mas foi ignorado.
— Já percebo a mudança dele. No sábado, ele voltou para casa com presentes. Presentes tão
atenciosos. — Os olhos dela se iluminaram. — Você sabia que, em todos esses anos de casados,
Henry nunca tinha me dado um presente de verdade? Ele é um cara prático. Ganhei coisas de
cozinha e um dia ele me deu um aspirador de pó, mas nunca tinha comprado algo pessoal ou
romântico para mim.
— O que ele comprou para você?
— Um par de sapatilhas de balé e ingressos para ver o Bolshoi.
Sapatilhas de balé? O que ela ia fazer com sapatilhas de balé? Para Daniel, era Henry quem
precisava delas para andar na ponta dos pés sobre o gelo fino em que estava.
Ele manteve a expressão neutra.
— E você gostou?
Elisa corou.
— Ele as comprou pois, durante a infância, eu adorava balé. Quando nos conhecemos, eu ainda
pensava em virar bailarina, mas fiquei muito alta. Não sei de onde ele tirou essa ideia. Foi tão
atencioso. Além disso, comprou rosas. Uma para cada ano de casamento. Ele tirou uma, por
conta do ano que ficamos separados.
Daniel esperou que Elisa comentasse sobre a ironia nisso, mas ela não disse