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Sombra E Ossos - Trilogia Grisha

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Year:
2012
Edition:
Publisher:
Gutenberg
Language:
portuguese
Pages:
288
ISBN 10:
8582350635
File:
EPUB, 1.81 MB
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1

Sol e Tormenta (Trilogia Grisha)

Year:
2014
Language:
portuguese
File:
EPUB, 1.90 MB
2

Premi & punizioni

Year:
2002
Language:
italian
File:
EPUB, 214 KB
Copyright © 2012 by Leigh Bardugo

Copyright © 2013 Editora Gutenberg

Título original: Shadow and Bone



Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja cópia xerográfica, sem autorização prévia da Editora.





GERENTE EDITORIAL

Alessandra J. Gelman Ruiz

ASSISTENTE EDITORIAL

Felipe Castilho

TRADUÇÃO

Eric Novello

PREPARAÇÃO DE TEXTO

Lizete Mercadante

CAPA

Diogo Droschi

DIAGRAMAÇÃO

Christiane Costa

REVISÃO

Renato Potenza Rodrigues

PRODUÇÃO DO E-BOOK

Schaffer Editorial





Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Bardugo, Leigh

Sombra e ossos / Leigh Bardugo ; tradução Eric Novello. -- 2. ed. -- São Paulo : Editora Gutenberg, 2013. (Trilogia Grisha; 1)



Título original: Shadow and Bone

ISBN 978-85-8235-064-5



1. Ficção norte-americana I. Título. II. Série



13-06195

CDD-813



Índices para catálogo sistemático:

1. Ficção : Literatura norte-americana 813





EDITORA GUTENBERG LTDA.



São Paulo

Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I, 23º andar, Conj. 2.301

Cerqueira César . 01311-940

São Paulo . SP

Tel.: (55 11) 3034 4468



Belo Horizonte

Rua Aimorés, 981, 8º andar

Funcionários . 30140-071

Belo Horizonte . MG

Tel.: (55 31) 3214 5700



Televendas: 0800 283 13 22

www.editoragutenberg.com.br





Para meu avô:

Conte-me algumas mentiras.





SUMÁRIO





Agradecimentos



Antes

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Depois





Agradecimentos





Obrigada a minha agente e campeã, Joanna Stampfel-Volpe. Sou uma pessoa de sorte por tê-la ao meu lado, bem como esse time maravilhoso da Nancy Coffey Literary: Nancy, Sara Kendall, Kathleen Ortiz, Jaqueline Murphy e Pouya Shahbaz; ian.



Minha editora intuitiva e com olhos de águia, Noa Wheeler, que acreditou nessa história e sabia exatamente como deixá-la melhor. Muito obrigada ao excepcional pessoal da Holt Children’s e Macmillan: Laura Godwin, Jean Feiwel, Rich Deas e April Ward do design, e Karen Frangipane, Kathryn Bhirud e Lizzy Mason de marketing e publicidade. Também gostaria de agradecer a Dan Farley e Joy Dallanegra-Sanger. Este livro não poderia ter encontrado um lar melhor.

Aos meus generosos leitores, Michelle Chihara e Josh Kamensky, que me emprestaram seus cérebros de supergênios e me encorajaram com seu entusiasmo e sua paciência inabaláveis. Obrigada também ao meu irmão Shem por sua arte e abraços à distância, Miriam “Sis” Pastan, Heather Joy Kamensky, Peter Bibring, Tracey Taylor, os Apocalípticos (especialmente Lynne Kelly, Gretchen McNeil e Sarah J. Maas, que fizeram minha primeira resenha), meu amigo WOART Leslie Blanco, e Dan Moulder, que se perdeu no rio.

Eu culpo Gamynne Guillote por estimular minha megalomania e encorajar meu amor por vilões, Josh Minuto por me apresentar à fantasia épica e me fazer acreditar em heróis, e Rachel Tejada por tantos filmes assistidos depois da meia-noite. Hedwig Aerts, minha amiga rainha pirata, por participar de longas horas de digitação tarde da noite. Erdene Ukhaasai que diligentemente traduziu russo e mongol para mim no Facebook. A Morgan Fahey, pelos coquetéis e conversas deliciosas sobre a ficção. E a Dan Braun e Michael Pessah, por manterem o ritmo.

Muitos livros ajudaram a inspirar Ravka e trazê-la à vida, incluindo Natasha’s Dance: A Cultural History of Russia, de Orlando Figes; Land of the Firebird: The Beauty of Old Russia, de Suzanne Massie; e Russian Folk Belief, de Linda J. Ivanits.

E, finalmente, muito obrigada a minha família: minha mãe, Judy, por sua fé inabalável e por ter sido a primeira da fila a pedir seu kefta; a meu pai, Harve, que foi meu chão, e de quem sinto falta todos os dias; e a meu avô Mel Seder, que me ensinou a amar poesia, a procurar aventuras e a como dar um soco.





Os criados os chamavam de malenchki, fantasminhas, porque eles eram os menores e mais jovens, e porque assombravam a casa do Duque como fantasmas risonhos, entrando e saindo dos quartos, escondendo-se em armários para espiar, esgueirando-se pela cozinha para roubar o último dos pêssegos do verão.

O menino e a menina tinham chegado com um intervalo de semanas entre um e outro, mais dois órfãos das guerras na fronteira, refugiados de cara suja, arrancados dos escombros de cidades distantes e trazidos para a propriedade do Duque para aprender a ler e escrever, e para aprender uma profissão. O menino era baixinho e atarracado. Tímido, mas sempre sorridente. A menina era diferente e sabia disso.

Encolhida no armário da cozinha, ouvindo os adultos fofocarem, ela ouviu Ana Kuya, a governanta do Duque, dizer: “Ela é uma coisinha feiosa. Nenhuma criança deveria ter aquela aparência. Pálida e azeda como um copo de leite que fermentou”.

“E tão magra!”, a cozinheira respondeu. “Nunca termina de jantar.”

Agachado ao lado da menina, o menino se virou para ela e sussurrou: “Por que você não come?”.

“Porque tudo o que ela faz tem gosto de lama.”

“Eu acho gostoso.”

“Você comeria qualquer coisa.”

Eles curvaram as cabeças, encostando de novo as orelhas na fresta das portas do armário. Um momento depois, o menino sussurrou: “Eu não acho você feia”.

“Shhh!”, a menina chiou. Mas oculta pelas sombras densas do armário, ela sorriu.





No verão, eles aguentaram longas horas de tarefas seguidas de horas ainda mais longas de aulas em salas sufocantes. Quando o calor atingia seu pior nível, eles escapavam para as florestas para caçar ninhos de passarinhos ou nadar no riacho lamacento, ou se deitavam por horas no prado, vendo o sol passar vagaroso sobre suas cabeças, especulando onde construiriam suas fazendas leiteiras e se teriam duas ou três vacas brancas. No inverno, o Duque partiu para sua casa na cidade, em Os Alta. Conforme os dias ficaram mais curtos e mais frios, os professores foram se tornando negligentes com suas obrigações, preferindo sentar perto do fogo para jogar cartas e beber kvas. Entediadas e presas do lado de dentro, as crianças mais velhas distribuíam pancadas com mais frequência. Então o menino e a menina se escondiam nos quartos abandonados da propriedade, atuando para os ratos e tentando se manter aquecidos.

No dia em que os Examinadores Grishas vieram, o menino e a menina estavam empoleirados no batente da janela de um quarto empoeirado no andar de cima, na esperança de ver a carruagem de correspondências. Em vez disso, viram um trenó, uma troica puxada por três cavalos negros, entrar na propriedade passando pelos portões de pedra branca. Eles acompanharam seu progresso silencioso pela neve até a porta da frente da casa do Duque.

Três silhuetas surgiram vestindo chapéus de pele elegantes e keftas de lã pesados: um carmesim, um azul bem escuro e o outro roxo vibrante.

“Grishas!”, a menina sussurrou.

“Rápido!”, disse o menino.

Em um instante, eles tiraram os sapatos e dispararam silenciosamente pelo corredor, deslizando pela sala de música vazia e se lançando atrás de uma coluna na galeria que dava para a sala de estar onde Ana Kuya gostava de receber as visitas.

Ana Kuya já estava lá, parecendo um passarinho em seu vestido preto, servindo chá do samovar, seu chaveiro enorme tilintando na cintura.

“Então esse ano só há esses dois?”, uma mulher disse em voz baixa.

Eles olharam através da grade da varanda para a sala no andar de baixo. Dois dos Grishas se sentavam perto da lareira: um belo homem de azul e uma mulher de roupa vermelha, com um ar altivo e refinado. O terceiro Grisha, um jovem loiro, caminhava lentamente pelo cômodo, esticando as pernas.

“Sim”, confirmou Ana Kuya. “Um menino e uma menina, os mais jovens aqui já faz um tempo. Imaginamos que ambos tenham perto de 8 anos.”

“Imaginam?”, perguntou o homem de azul.

“Quando os pais estão mortos...”

“Nós entendemos”, disse a mulher. “Somos, é claro, grandes admiradores da sua instituição. Só gostaríamos que mais nobres prestassem atenção nas pessoas comuns.”

“Nosso Duque é um grande homem”, disse Ana Kuya.

No alto da varanda, o menino e a menina assentiram discretamente um para o outro. Seu benfeitor, o Duque Keramsov, era um grande herói de guerra e um amigo do povo. Ao voltar do front de batalha, transformara sua propriedade em um orfanato e uma casa para viúvas de guerra. Eles eram orientados a rezar por ele todas as noites.

“E como elas são, essas crianças?”, perguntou a mulher.

“A menina tem algum talento para desenhar. O menino é mais para tarefas domésticas, no pasto e com madeira.”

“Mas como elas são?”, repetiu a mulher.

Ana Kuya enrugou os lábios murchos. “Como eles são? São desobedientes, do contra, ligados demais um ao outro. Eles...”

“Estão ouvindo cada palavra do que dizemos”, disse o jovem de roxo.

O menino e a menina pularam, surpresos. Ele estava olhando diretamente para o esconderijo deles. Eles se encolheram atrás da coluna, mas era tarde demais.

A voz de Ana Kuya estalou como um chicote. “Alina Starkov! Malyen Oretsev! Desçam aqui de uma vez!”

Relutantes, Alina e Maly desceram pela estreita escada em espiral no final da galeria. Quando chegaram ao pé da escada, a mulher de vermelho se levantou e indicou com um gesto que se aproximassem.

“Vocês sabem quem nós somos?”, ela perguntou. Seu cabelo era cinza metálico. Seu rosto enrugado, mas bonito.

“Vocês são bruxos!”, Maly deixou escapar.

“Bruxos?”, ela resmungou. Ela se virou para Ana Kuya. “É isso que vocês ensinam nesta escola? Superstições e mentiras?”

Ana Kuya enrubesceu de vergonha. A mulher de vermelho se virou para Maly e Alina, seus olhos escuros luzindo. “Não somos bruxos. Somos praticantes da Pequena Ciência. Mantemos este país e este reino em segurança.”

“Assim como o Primeiro Exército”, disse calmamente Ana Kuya, um tom inequívoco de rispidez em sua voz.

A mulher de vermelho enrijeceu, mas após um momento respondeu: “Assim como o Exército do Rei”.

O jovem de roxo sorriu e se ajoelhou diante das crianças. Ele disse gentilmente: “Quando as folhas mudam de cor, vocês chamam isso de mágica? E quando você corta a sua mão e ela se cura? E quando você coloca uma caçamba de água no fogo e ela ferve, isso é mágica também?”

Maly balançou a cabeça, os olhos arregalados.

Mas Alina franziu a testa: “Qualquer um pode ferver água”.

Ana Kuya suspirou, exasperada, mas a mulher de vermelho riu.

“Você tem toda a razão. Qualquer pessoa pode ferver água. Mas nem todo mundo pode dominar a Pequena Ciência. É por isso que viemos testá-los.” Ela se virou para Ana Kuya. “Deixe-nos agora.”

“Espere!”, gritou Maly. “O que acontece se formos Grishas? O que acontece conosco?”

A mulher de vermelho os olhou de cima a baixo. “Se, por uma pequena chance, um de vocês for Grisha, então essa criança sortuda irá para uma escola especial onde os Grishas aprendem a usar seus talentos.”

“Vocês terão as melhores roupas, os mais refinados alimentos, o que o coração de vocês desejar”, disse o homem de roxo. “Vocês gostariam disso?”

“Este é o modo mais nobre de servir ao seu Rei”, disse Ana Kuya, ainda pairando pela porta.

“Uma total verdade”, concordou a mulher de vermelho, satisfeita e querendo selar a paz.

O menino e a menina olharam um para o outro. Como os adultos não estavam prestando muita atenção, não viram a menina apertar a mão do menino nem o olhar trocado entre eles. O Duque teria reconhecido aquele olhar. Ele havia passado longos anos nas fronteiras devastadas do norte, onde as aldeias estavam constantemente sob cerco e os camponeses lutavam em suas batalhas com pouca ajuda do Rei ou de qualquer outra pessoa. Ele tinha visto uma mulher, descalça e inabalável em sua porta, encarar uma fileira de baionetas. Ele conhecia o olhar de um homem defendendo o seu lar apenas com uma pedra nas mãos.





Parada à beira de uma estrada movimentada, olhei para baixo, na direção dos campos extensos e fazendas abandonadas do Vale de Tula, e tive meu primeiro vislumbre da Dobra das Sombras. Meu regimento estava a duas semanas de marcha do acampamento militar em Poliznaya e o sol do outono pairava quente sobre nossas cabeças, mas eu tremia no meu casaco enquanto olhava para o nevoeiro que se estendia como uma mancha suja no horizonte.

Um ombro pesado me golpeou pelas costas. Eu cambaleei e quase caí de cara na estrada lamacenta.

“Ei!”, gritou o soldado. “Preste atenção!”

“Por que não presta atenção nos seus pés gorduchos?”, rebati, e tive alguma satisfação com a surpresa que sua cara redonda demonstrou. Pessoas, particularmente homens grandes carregando rifles, não esperam discutir com uma coisinha esquelética que nem eu. Elas sempre parecem meio desorientadas quando isso acontece.

O soldado superou a novidade com rapidez e me deu uma olhada carrancuda enquanto ajustava a mochila nas costas. Depois, desapareceu no fluxo da caravana de cavalos, homens, carros e vagões sobre a crista da colina e rumo ao vale abaixo.

Apertei o passo, tentando acompanhar a multidão. Tinha perdido de vista havia horas a bandeira amarela do carro dos inspetores, e sabia que estava muito para trás.

Enquanto caminhava, respirei os aromas verdes e dourados de madeira do outono, a brisa suave às minhas costas. Nós estávamos em Vy, a estrada extensa que antigamente ia de Os Alta até as ricas cidades portuárias na costa oeste de Ravka. Mas isso foi antes da Dobra das Sombras.

Em algum lugar da multidão, alguém estava cantando. Cantando? Que idiota cantaria em seu caminho para a Dobra? Olhei de novo para a mancha no horizonte e tive que reprimir um arrepio. Eu já tinha visto a Dobra das Sombras em muitos mapas, um corte negro que separara Ravka de sua única área costeira e a deixara isolada do mar. Às vezes, ela era mostrada como uma mancha, outras como uma nuvem sombria e disforme. E também havia os mapas que mostravam a Dobra das Sombras apenas como um lago comprido e estreito, e o chamavam por seu outro nome, “o Não Mar”, um nome com o objetivo de tranquilizar soldados e comerciantes e de encorajar travessias.

Eu bufei. Aquilo poderia enganar algum mercador barrigudo, mas não me confortava nem um pouco.

Parei de dar atenção à névoa sinistra pairando ao longe e olhei para as fazendas arruinadas de Tula. O vale já tinha sido o lar de algumas das propriedades mais ricas de Ravka. No passado, um lugar onde os fazendeiros cuidavam de plantações, e ovelhas pastavam nos campos verdejantes. Mais tarde, um talho escuro aparecera na paisagem, uma faixa de escuridão quase impenetrável que crescera com o passar dos anos e se enchera de horrores. Onde os fazendeiros, seus rebanhos, suas plantações, seus lares e famílias tinham ido parar, ninguém sabia.

Pare com isso, disse para mim mesma. Você só está piorando as coisas. Pessoas têm cruzado a Dobra há anos... Geralmente com baixas em massa, mas mesmo assim. Respirei profundamente para me acalmar.

“Nada de desmaiar no meio da estrada”, disse uma voz próxima ao meu ouvido, enquanto um braço pesado pousava sobre meus ombros, e me dava um apertão. Eu olhei para cima para ver o rosto familiar de Maly, um sorriso em seus olhos azuis brilhantes, enquanto ele passava a andar ao meu lado. “Vamos lá”, disse ele. “Um pé depois do outro. Você sabe como é.”

“Você está interferindo no meu plano.”

“Ah é?”

“Sim. Desmaiar, ser atropelada e ficar com machucados graves por todo o corpo.”

“Parece um plano brilhante.”

“Ah, mas se eu ficar terrivelmente desfigurada, não serei capaz de atravessar a Dobra.”

Maly assentiu devagar. “Entendi. Eu posso empurrá-la embaixo de uma carroça, se for ajudar.”

“Vou pensar no assunto”, resmunguei, mas senti o meu humor melhorar. Apesar dos meus melhores esforços, Maly ainda tinha aquele efeito sobre mim. E eu não era a única. Uma menina loira e bonita passou pela gente e acenou, lançando um olhar de flerte por cima do ombro para Maly.

“E aí, Ruby”, ele chamou. “Vejo você mais tarde?”

Ruby deu uma risadinha e correu para o meio da multidão. Maly abriu um largo sorriso até me perceber revirando os olhos.

“O que foi? Achei que você gostasse da Ruby.”

“Na verdade, não temos muito sobre o que conversar”, respondi secamente. Eu realmente gostava de Ruby... No início. Quando Maly e eu deixamos o orfanato em Keramzin para treinar no serviço militar, na Poliznaya, eu estava nervosa quanto a conhecer novas pessoas. Mas muitas meninas tinham se mostrado animadas para se tornarem minhas amigas, e Ruby estava entre as mais ansiosas.

Essas amizades duraram até eu perceber que o único interesse delas em mim era a minha proximidade com Maly.

Agora eu o via alongar os braços de modo expansivo e virar o rosto para o céu de outono, parecendo perfeitamente feliz. Tinha dado até um pequeno salto ao andar, notei com certo desgosto.

“O que há de errado com você?”, sussurrei furiosamente.

“Nada”, disse ele, surpreso. “Eu me sinto ótimo.”

“Mas como você pode ser tão... confiante?”

“Confiante? Eu nunca fui confiante. E espero nunca ser.”

“Bem, então o que significa tudo isso?”, perguntei, balançando a mão para ele. “Parece que você está indo para um jantar muito bom em vez de uma possível morte e desmembramento.”

Maly riu. “Você se preocupa demais. O Rei enviou um grupo inteiro de Grishas pirotécnicos para proteger os esquifes, e até alguns daqueles Sangradores assustadores. Nós temos os nossos rifles”, disse ele, batendo naquele em suas costas. “Ficaremos bem.”

“Um rifle não fará muita diferença se houver um ataque mais pesado.”

Maly me olhou de um jeito preocupado. “O que está acontecendo com você? Está mais mal-humorada do que de costume. E sua aparência está péssima.”

“Obrigada”, eu me queixei. “Não tenho dormido muito bem.”

“E qual é a novidade?”

Ele estava certo, é claro. Eu nunca tinha dormido bem. Mas a situação tinha ficado ainda pior nos últimos dias. Os Santos sabiam que eu tinha um monte de boas razões para temer a ida à Dobra, razões que eu compartilhava com cada membro de nosso regimento azarado o suficiente para ser escolhido para a travessia. Mas havia algo mais, um sentimento profundo de mal-estar que eu não saberia nomear.

Eu olhei para Maly. Houve uma época em que poderia contar tudo a ele. “Eu só... estou com um pressentimento.”

“Pare de se preocupar tanto. Talvez eles coloquem o Mikhael no esquife. O volcra dará uma olhada naquela barriga grande e suculenta dele e nos deixará em paz.”

Uma lembrança me veio de modo espontâneo: Maly e eu sentados lado a lado em uma cadeira na biblioteca do Duque, folheando as páginas de um livro grande com capa de couro. Nós topamos com uma ilustração de um volcra: garras enormes e imundas, asas coriáceas e fileiras de dentes afiados para se banquetear em carne humana. Eles eram cegos devido a gerações vivendo e caçando na Dobra, mas a lenda dizia que podiam sentir o cheiro de sangue humano a quilômetros de distância. Eu havia apontado para a página e perguntado: “O que ele está segurando?”.

Eu ainda podia ouvir Maly sussurrar no meu ouvido. “Eu acho... acho que é um pé.” Nós fechamos o livro com uma batida e corremos gritando para o lado de fora, na segurança da luz do sol.

Sem perceber, eu tinha parado de andar e congelado no lugar, incapaz de sacudir a lembrança da minha mente. Quando Maly percebeu que eu não estava com ele, deu um grande suspiro de enfado e marchou de volta até mim. Ele repousou as mãos nos meus ombros e me sacudiu de leve.

“Eu estava brincando. Ninguém vai comer o Mikhael.”

“Eu sei”, eu disse, olhando para os meus pés. “Você é hilário.”

“Alina, sai dessa, nós vamos ficar bem.”

“Você não tem como saber disso.”

“Olhe para mim.” Eu me obriguei a erguer os olhos na direção dos dele. “Eu sei que você está assustada. Também estou. Mas nós vamos fazer isso e vamos ficar bem. Sempre ficamos. Certo?” Ele sorriu e meu coração bateu muito alto no meu peito.

Esfreguei meu polegar sobre a cicatriz que corria pela palma da minha mão direita e dei um suspiro inseguro. “Certo”, disse a contragosto, e até me peguei sorrindo de volta.

“O espírito da senhorita foi restaurado!”, Maly gritou. “O sol pode brilhar outra vez!”

“Afe, você vai calar a boca?”

Eu me virei para dar um soco nele, mas antes que conseguisse, ele me agarrou e me ergueu. Um estrépito de cascos e gritos cortou o ar. Maly me puxou para a lateral da estrada, no mesmo instante em que uma enorme carruagem negra passou rangendo, dispersando as pessoas diante dela que corriam para desviar dos cascos de quatro cavalos negros. Ao lado do condutor que empunhava o chicote, estavam dois soldados de casacos cinzentos.

O Darkling. Não havia como confundir sua carruagem negra nem o uniforme de sua guarda pessoal.

Outra carruagem, essa laqueada de vermelho, passou retumbante por nós, em um ritmo mais lento.

Eu olhei para Maly, meu coração acelerado por causa do quase acidente. “Obrigada”, sussurrei. Maly pareceu perceber de repente que seus braços estavam ao meu redor. Ele me soltou e, rapidamente, deu um passo para trás. Eu limpei o pó do meu casaco, na esperança de que ele não notasse que minhas bochechas estavam vermelhas.

Uma terceira carruagem passou por nós, laqueada de azul, e uma menina se inclinou pela janela. Seus cabelos eram negros e cacheados, e ela vestia um chapéu de raposa cinzenta. Ela analisou a multidão que a olhava e, de modo previsível, se deteve em Maly.

Você só estava sonhando acordada com ele, me repreendi. Por que uma Grisha maravilhosa dessas não faria o mesmo?

Os lábios dela se curvaram em um pequeno sorriso quando encontrou os olhos de Maly. Ela continuou a observá-lo por sobre os ombros até a carruagem sumir de vista. Maly arregalou os olhos com uma cara idiota por causa dela, sua boca ligeiramente aberta.

“Feche a boca antes que algo entre voando”, disparei.

Maly piscou, ainda embasbacado.

“Você viu aquilo?”, ouvi uma voz gritando. Eu me virei e avistei Mikhael trotando em nossa direção, uma expressão quase cômica de reverência. Mikhael era um ruivo enorme, com um rosto largo e um pescoço mais largo ainda. Atrás dele, Dubrov, um magrelo de cabelos escuros, corria para nos alcançar. Ambos eram rastreadores na unidade de Maly e nunca se distanciavam dele.

“Claro que vi”, disse Maly, sua expressão entorpecida evaporando em um sorriso arrogante. Eu revirei os olhos.

“Ela olhou diretamente para você!”, Mikhael gritou, dando um tapinha nas costas de Maly.

Maly sacudiu os ombros, incerto, mas seu sorriso aumentou. “Sim, ela olhou”, disse ele presunçoso.

Dubrov se remexeu nervosamente. “Eles dizem que meninas Grisha podem enfeitiçar você.” Eu bufei.

Mikhael olhou para mim como se nem tivesse notado a minha presença. “E aí, Graveto”, ele falou, e me deu um soco fraquinho no braço. Eu fiz uma careta ao ouvir o apelido, mas ele já tinha se virado de volta para Maly. “Você sabe que ela vai ficar no acampamento”, disse ele, com um olhar malicioso.

“Ouvi dizer que a tenda dos Grishas é grande como uma catedral”, Dubrov completou.

“Com um monte de cantinhos escuros”, disse Mikhael, mexendo as sobrancelhas para valer.

Maly gritou em comemoração. Sem me olhar uma segunda vez, os três se afastaram rapidamente, gritando e empurrando uns aos outros.

“Foi bom ver vocês, rapazes”, murmurei sob a respiração. Reajustei a alça da mochila pendurada em meus ombros e voltei a descer a trilha, me juntando aos últimos retardatários na colina e em Kribirsk. Não fiz questão de correr. Provavelmente me dariam uma bronca quando enfim chegasse à Tenda dos Documentos, mas eu não podia fazer nada a respeito.

Esfreguei meu braço onde Mikhael tinha me acertado um soco. Graveto. Eu odiava aquele nome. Você não me chama de Graveto quando está bêbado de kvas, tentando colocar suas patas em mim na fogueira da primavera, seu imbecil miserável, pensei de modo rancoroso.

Não havia muito para se olhar em Kribirsk. De acordo com o Cartógrafo Sênior, o local tinha sido uma cidade comercial sossegada nos dias antes da Dobra das Sombras, pouco mais do que uma praça central empoeirada e uma pousada para viajantes cansados a caminho de Vy. Mas agora tinha se tornado uma espécie de cidade portuária desmantelada, crescendo em torno de um acampamento militar permanente e das docas secas onde os esquifes terrestres esperavam para levar os passageiros através da escuridão até Ravka Oeste. Eu passei por tavernas, por pubs e pelo que, eu tinha razoável certeza, eram bordeis destinados a atender às tropas do Exército do Rei. Havia lojas vendendo rifles e bestas, lamparinas e tochas, e todo tipo de equipamento necessário para uma viagem pela Dobra. A pequena igreja com paredes caiadas e cúpulas reluzentes e em forma de cebola estava surpreendentemente bem-cuidada. Ou talvez não fosse uma grande surpresa, considerei. Qualquer um que pretendesse viajar pela Dobra das Sombras seria esperto de parar e rezar.

Fui até o local onde os inspetores estavam alojados, depositei a minha mochila em uma cama de lona e corri até a Tenda dos Documentos. Para meu alívio, o Cartógrafo Sênior não estava em nenhum lugar à vista, e eu consegui deslizar para dentro sem ser notada.

Ao entrar na tenda de lona branca, me senti relaxar pela primeira vez desde que avistara a Dobra. A Tenda dos Documentos era essencialmente a mesma em cada campo que eu tinha visto, cheia de luz brilhante e fileiras de mesas de desenhos nas quais os artistas e inspetores se debruçavam sobre seus trabalhos. Após o barulho e o empurra-empurra da viagem, havia algo de tranquilizador nos estalidos do papel, no cheiro da tinta e no arranhar macio dos bicos de pena e pincéis.

Tirei meu caderno de desenho do bolso do casaco e deslizei para uma bancada de trabalho ao lado de Alexei, que se virou para mim e sussurrou irritado: “Onde você esteve?”.

“Quase sendo atropelada pela carruagem do Darkling”, respondi, pegando uma folha de papel em branco e folheando meus rascunhos para tentar encontrar um adequado para copiar. Alexei e eu éramos assistentes juniores de cartógrafo e, como parte de nosso treinamento, tínhamos que enviar dois croquis terminados ou duas reproduções ao final de cada dia.

Alexei puxou o ar num susto. “Sério? Você o viu de verdade?”

“Na verdade, eu estava ocupada demais tentando não morrer.”

“Existem maneiras piores de partir.” A atenção dele se voltou para o desenho de um vale rochoso que eu estava prestes a começar a copiar. “Ugh. Esse não.” Ele folheou o meu caderno, parou em uma elevação de uma serra e a apontou com o dedo. “Esse aqui.”

Eu mal tive tempo de colocar a caneta no papel antes de o Cartógrafo Sênior entrar na tenda e descer pelo corredor, espiando o nosso trabalho enquanto passava.

“Espero que este seja o segundo desenho que você está começando, Alina Starkov.”

“É sim”, menti. “Sem dúvida.”

Assim que o Cartógrafo passou, Alexei sussurrou: “Me conte sobre a carruagem”.

“Eu tenho que terminar os meus desenhos.”

“Aqui”, disse ele, exaltado, deslizando um de seus desenhos para mim.

“Ele vai saber que o trabalho é seu.”

“Não é tão bom. Você deve conseguir passá-lo como um dos seus.”

“Agora sim. Esse é o Alexei que eu conheço e aguento”, resmunguei, mas não devolvi o desenho. Alexei era um dos assistentes mais talentosos e sabia disso.

Ele extraiu cada mínimo detalhe de mim sobre as três carruagens Grishas. Eu estava agradecida pelo desenho, então fiz o meu melhor para satisfazer a curiosidade dele enquanto terminava minha elevação da serra e trabalhava em medidas de polegar de alguns dos picos mais altos.

Quando terminamos, a noite estava caindo. Nós entregamos nosso trabalho e caminhamos até a tenda da bagunça, onde ficamos na fila para pegar um guisado amarronzado distribuído por um cozinheiro suado. Depois, nos sentamos junto de alguns dos outros inspetores.

Eu passei a refeição em silêncio, ouvindo Alexei e os outros trocarem fofoca de acampamento e conversarem ansiosos sobre a travessia do dia seguinte. Alexei insistiu para eu recontar a história das carruagens Grishas, o que gerou a mistura usual de fascínio e medo que acompanhava qualquer menção ao Darkling.

“Ele não é humano”, disse Eva, outra assistente. Ela tinha belos olhos verdes que pouco ajudavam a desviar a atenção de seu nariz de porco. “Nenhum deles é.”

Alexei fungou. “Por favor, nos poupe de sua superstição, Eva.”

“Foi um Darkling que fez a Dobra das Sombras, para começo de conversa.”

“Isso foi há centenas de anos!”, Alexei protestou. “E aquele Darkling era completamente louco.”

“E esse é tão ruim quanto.”

“Camponesa”, disse Alexei, e acenou fazendo pouco caso. Eva o olhou ofendida e se virou de costas em acinte para falar com os amigos dela.

Eu permaneci quieta. Eu era mais camponesa do que Eva, apesar de suas superstições. Só podia ler e escrever graças à caridade do Duque, mas por um acordo silencioso, Maly e eu evitávamos mencionar o Keramzin.

Como se esperasse a deixa, uma explosão de risadas roucas me arrancou de meus pensamentos. Eu olhei por sobre o ombro. Maly estava comandando um tribunal em uma mesa agitada de rastreadores.

Alexei seguiu o meu olhar. “Como vocês se tornaram amigos, aliás?”

“Nós crescemos juntos.”

“Vocês não parecem ter muito em comum.”

Eu dei de ombros. “Acho que é fácil ter muito em comum com alguém quando se é criança.” Como solidão, as lembranças dos parentes que deveríamos esquecer, e o prazer de fugir das tarefas para brincar de pique em nosso campo.

Alexei me encarou com tanto ceticismo que eu tive que rir. “Ele nem sempre foi o Incrível Maly, rastreador especialista e sedutor de meninas Grishas.”

Alexei ficou boquiaberto. “Ele seduziu uma garota Grisha?”

“Ainda não, mas tenho certeza de que irá”, balbuciei.

“Então, como ele era?”

“Ele era baixinho e atarracado, e tinha medo de banho”, eu disse com alguma satisfação.

Alexei olhou para Maly. “Pelo visto, as coisas mudam.”

Eu esfreguei meu polegar na cicatriz em minha palma. “Acho que sim.”

Nós limpamos nossos pratos e saímos da tenda da bagunça para a noite fria. No caminho de volta para o quartel, tomamos um desvio para podermos passear pelo acampamento Grisha. O pavilhão Grisha realmente tinha o tamanho de uma catedral, coberto de seda negra, com seus estandartes azuis, vermelhos e roxos voando lá no alto. Escondidas em algum lugar atrás dele ficavam as tendas do Darkling, protegidas pelos Corporalki Sangradores e pela guarda pessoal dele.

Quando Alexei se deu por satisfeito, nós tomamos o caminho de volta para nosso alojamento. Ele ficou calado e começou a estalar os dedos, e eu sabia que ambos pensávamos sobre a travessia da manhã seguinte. A julgar pelo clima sombrio no quartel, não estávamos sós. Algumas pessoas já estavam em suas camas, dormindo – ou tentando dormir – enquanto outras se amontoavam perto das lamparinas, conversando baixo. Algumas se sentaram segurando seus ídolos, rezando para seus Santos.

Eu estendi o meu saco de dormir em uma cama estreita, tirei as botas e pendurei o casaco. Então, me revirei embaixo das cobertas forradas com pele e olhei para o teto, esperando o sono. Fiquei daquela maneira por um longo tempo, até as luzes de todas as lamparinas terem se extinguido e os sons de conversas terem dado lugar a roncos suaves e ao ruído dos corpos.

De manhã, se tudo saísse conforme planejado, passaríamos com segurança por Ravka Oeste, e eu teria meu primeiro vislumbre do Mar Real. Lá, Maly e os outros rastreadores iriam caçar lobos vermelhos, raposas marinhas e outras criaturas cobiçadas que só podiam ser achadas a oeste. Eu permaneceria com os cartógrafos em Os Kervo para terminar meu treinamento e ajudar a desenhar qualquer informação que conseguíssemos juntar na Dobra. E, então, é claro, teria que cruzar a Dobra novamente para voltar para casa, mas era difícil pensar sobre algo tão lá na frente.

Eu ainda estava completamente desperta quando o ouvi. Tap, tap. Pausa. Tap. Então de novo: Tap, tap. Pausa. Tap.

“O que está havendo?”, Alexei murmurou sonolento da cama mais próxima à minha.

“Nada”, sussurrei, já saindo do meu saco de dormir e enfiando os pés nas botas.

Peguei meu casaco e me arrastei para fora do quartel tão silenciosamente quando pude. Enquanto abria a porta, ouvi uma risadinha, e uma voz feminina falou de algum lugar do quarto escuro: “Se for aquele rastreador, diga a ele para entrar e me aquecer”.

“Se ele quiser pegar tsifil, tenho certeza de que você será sua primeira parada”, respondi docemente, e escapei para a noite.

O ar frio pinicou minhas bochechas e enterrei meu queixo na gola, desejando ter tido tempo de pegar meu lenço e minhas luvas. Maly estava sentado nos degraus frágeis, de costas para mim. Atrás dele, eu podia ver Mikhael e Dubrov passando uma garrafa de um lado para outro, sob as luzes brilhantes da trilha.

Eu fechei a cara. “Por favor, não me diga que você só me acordou para avisar que irá à tenda Grisha. O que você quer, um conselho?”

“Você não estava dormindo. Estava deitada olhando o teto, se preocupando.”

“Errado. Eu estava planejando como me esgueirar para dentro do pavilhão Grisha e conseguir um lindo Corporalnik para mim.”

Maly riu. Eu hesitei na porta. Essa era a parte mais difícil de estar perto dele, sem contar o modo como ele fazia o meu coração dar piruetas desajeitadas. Eu odiava esconder o quanto as coisas estúpidas que ele fazia me magoavam, mas odiava ainda mais a ideia de que ele descobrisse. Pensei em simplesmente me virar e voltar para dentro. Em vez disso, engoli meu ciúme e me sentei ao lado dele.

“Espero que tenha me trazido algo legal”, eu disse. “Os Segredos de Sedução da Alina não saem barato.”

Ele sorriu. “Pode botar na minha conta?”

“Suponho que sim.”

“Mas só porque eu sei que você é boa nisso.”

Eu espiei na escuridão e vi Dubrov tomar um gole da garrafa e então guinar para a frente. Mikhael esticou os braços para firmá-lo, e os sons de sua risada flutuaram até nós no ar noturno.

Maly balançou a cabeça e riu. “Ele sempre tenta acompanhar Mikhael. Provavelmente terminará vomitando nas minhas botas.”

“Bem feito”, disse eu. “Então, o que você está fazendo aqui?” Quando começamos nosso serviço militar um ano atrás, Maly me visitava quase toda noite. Mas ele não aparecia havia meses.

Ele deu de ombros. “Não sei. Você parecia tão infeliz no jantar.”

Eu fiquei surpresa de ele ter notado. “Apenas pensando sobre a travessia”, disse com cuidado. Não era exatamente uma mentira. Eu estava apavorada de entrar na Dobra, e Maly definitivamente não precisava saber que Alexei e eu tínhamos falado sobre ele. “Mas me sinto tocada pela sua preocupação.”

“Ei”, ele disse com um sorriso largo, “eu me preocupo.”

“Se você tiver sorte, um volcra me comerá amanhã no café e você não terá mais que se lamuriar.”

“Você sabe que eu ficaria perdido sem você.”

“Você nunca esteve perdido em sua vida”, zombei. Eu era a cartógrafa, mas Maly podia encontrar o norte verdadeiro de olhos vendados e plantando bananeira.

Ele bateu o ombro dele contra o meu. “Você sabe o que quero dizer.”

“Sim”, eu disse. Mas não sabia. Não de verdade.

Nós nos sentamos em silêncio, vendo nossa respiração fazer vapor no ar frio.

Maly estudou suas botas e disse: “Acho que estou nervoso também”.

Eu o cutuquei com o cotovelo e disse com uma confiança que não sentia: “Se podemos encarar Ana Kuya, podemos lidar com alguns volcras”.

“Se eu me lembro bem, a última vez que cruzamos com Ana Kuya, você tomou uma bofetada nas orelhas e nós dois terminamos trabalhando nos estábulos.”

Eu me retraí. “Estou tentando ser reconfortante. Você podia pelo menos fingir que estou tendo sucesso.”

“Sabe o que é engraçado?”, ele perguntou. “Às vezes eu sinto falta dela, na verdade.”

Eu fiz o meu melhor para esconder o assombro. Nós tínhamos passado mais de dez anos de nossas vidas em Keramzin, mas geralmente eu tinha a impressão de que Maly queria esquecer tudo sobre o lugar, talvez até mesmo a mim. Lá ele tinha sido outro refugiado, outro órfão feito para se sentir grato por cada bocado de comida, cada par de botas usado. No exército, ele tinha conquistado um verdadeiro lugar para si, onde ninguém precisava saber que um dia fora um garotinho indesejado.

“Eu também”, admiti. “Poderíamos escrever para ela.”

“Talvez”, disse Maly.

De repente, ele esticou a mão e segurou a minha. Eu tentei ignorar o pequeno choque que passou por mim. “A esta hora, amanhã, estaremos sentados no porto de Os Kervo, olhando para o oceano e bebendo kvas.”

Olhei para Dubrov acenando para a frente e para trás e sorrindo. “Dubrov está acreditando?”

“Apenas você e eu”, disse Maly.

“Sério?”

“É sempre apenas você e eu, Alina.”

Por um momento, aquilo pareceu verdade. O mundo era aquele degrau, aquele círculo de luz da lamparina, nós dois suspensos na escuridão.

“Venha!”, Mikhael esbravejou da trilha. Maly se moveu de repente como um homem acordando de um sonho. Ele apertou minha mão uma última vez antes de soltá-la. “Tenho que ir”, disse ele, o sorriso insolente retornando. “Tente dormir um pouco.”

Ele pulou sutilmente dos degraus e correu para se juntar aos amigos. “Deseje-me sorte!”, gritou por sobre o ombro.

“Boa sorte”, eu disse automaticamente e então quis me chutar. Boa sorte? Tenha um encontro adorável, Maly. Espero que você encontre uma linda Grisha, se apaixone profundamente por ela e que vocês façam um monte de bebês maravilhosos e entediantemente talentosos.

Continuei sentada nos degraus, congelada, vendo-os desaparecerem pela trilha, ainda sentindo o calor da pressão da mão de Maly na minha. Ai, ai, pensei enquanto ficava de pé. Talvez ele caia em uma vala no seu caminho até lá.

Eu me esgueirei de volta para os alojamentos, fechei a porta com força atrás de mim, e me aconcheguei grata no meu saco de dormir. Será que aquela garota Grisha de cabelo preto tinha saído do pavilhão para encontrar Maly? Afastei o pensamento. Aquilo não era da minha conta e, na verdade, eu não queria saber. Maly nunca havia olhado para mim do jeito que olhara para aquela menina ou até mesmo do modo que olhava para Ruby, e nunca iria olhar. Mas o fato de ainda sermos amigos era mais importante do que tudo isso.

Mas por quanto tempo?, disse uma voz incômoda na minha cabeça. Alexei estava certo: as coisas mudam. Maly tinha mudado para melhor. Ele tinha ficado mais bonito, corajoso e masculino. E eu tinha ficado... mais alta. Suspirei e rolei de lado. Queria acreditar que Maly e eu sempre seríamos amigos, mas tinha que encarar o fato de que estávamos em caminhos diferentes. Deitada na escuridão, esperando pelo sono, me perguntei se esses caminhos apenas nos distanciariam cada vez mais, e se chegaria o dia em que seríamos estranhos um para o outro novamente.





A manhã passou num piscar de olhos: café da manhã, uma rápida viagem até a Tenda dos Documentos para empacotar tintas e papéis adicionais, e então o caos da doca seca. Eu fiquei com o restante dos inspetores, esperando nossa vez de embarcar em uma pequena frota de esquifes terrestres. Atrás de nós, Kribirsk ainda estava acordando e indo fazer suas coisas. Adiante, ficava a estranha e dinâmica escuridão da Dobra.



Animais eram muito barulhentos e se assustavam fácil demais para viajar pelo Não Mar, então as travessias eram feitas em esquifes terrestres, trenós rasos equipados com enormes velas que os permitiam deslizar quase silenciosamente sobre as areias mortas e cinzentas. Os esquifes estavam carregados com grãos, madeira de lei e algodão cru. Mas na viagem de volta, seriam abastecidos com açúcar, rifles e todo tipo de bens acabados que passassem pelos portos marítimos de Ravka Oeste. Olhando para o convés do esquife, equipado com pouco mais de um mastro e uma balaustrada frágil, tudo que eu conseguia pensar era que ele não oferecia lugar para se esconder.

No mastro de cada trenó, ladeados por soldados fortemente armados, estavam dois Etherealki Grishas, da Ordem dos Conjuradores, vestindo kefta azul escuro. O bordado prateado em seus punhos e nas bainhas de suas túnicas indicava que eram Aeros, Grishas capazes de aumentar ou diminuir a pressão do ar, e assim encher as velas dos esquifes com o vento que nos transportaria pelos longos quilômetros da Dobra.

Soldados armados com rifles e supervisionados por um oficial severo se alinhavam na balaustrada. Entre eles, encontravam-se mais Etherealki, mas suas túnicas azuis tinham as bordas vermelhas que indicavam a capacidade de criar fogo.

Ao sinal do capitão do esquife, o Cartógrafo Sênior guiou a mim, Alexei e ao restante dos assistentes no esquife para que nos juntássemos aos outros passageiros. Em seguida, ele assumiu seu lugar ao lado dos Aeros no mastro, onde poderia ajudá-los a navegar na escuridão. Ele tinha uma bússola na mão, mas o objeto seria de pouco uso quando estivéssemos na Dobra. Assim que lotamos o convés, vislumbrei Maly de pé com os rastreadores do outro lado do esquife. Eles também estavam armados com rifles. Uma fileira de arqueiros alinhava-se atrás deles, as aljavas em suas costas eriçadas com as pontas de aço Grisha das flechas. Eu toquei o cabo da faca militar enfiada em meu cinto. Ela não me dava muita confiança.

O contramestre deu um grito nas docas, e o grupo de homens corpulentos no solo começou a empurrar os esquifes na areia sem cor que marcava os confins da Dobra. Eles recuaram rapidamente, como se aquela areia morta e pálida pudesse queimar seus pés.

Então, chegou a nossa vez. Com um súbito solavanco, nosso esquife foi lançado para a frente, batendo contra a terra à medida que os trabalhadores da doca o arribavam. Eu segurei no balaústre para me firmar, meu coração batendo selvagemente. Os Aeros ergueram os braços. As velas se elevaram abertas com um forte estalo, e nosso esquife avançou para dentro da Dobra.

De início, foi como flutuar dentro de uma espessa nuvem de fumaça, mas sem o calor ou cheiro de queimado. Os sons pareceram amortecer, e o mundo ficou em silêncio. Eu assisti aos esquifes à nossa frente deslizarem para a escuridão, sumindo de vista um depois do outro. Percebi que não podia mais ver a proa do nosso esquife e, em seguida, nem a minha própria mão na balaustrada. Olhei para trás, por sobre meu ombro. O mundo vivo tinha desaparecido. A escuridão caiu ao nosso redor, negra, leve e absoluta. Estávamos na Dobra.

Era como estar no fim de tudo. Segurei firme no balaústre, sentindo a madeira afundar na minha mão, grata pela sua solidez. Concentrei-me naquilo e na sensação dos meus artelhos nas botas, agarrando o convés. À minha esquerda, podia ouvir Alexei respirando.

Tentei pensar nos soldados com seus rifles e nos Grishas pirotécnicos de túnica azul. A esperança era que atravessássemos a Dobra em silêncio, sem sermos percebidos. Nenhum tiro ecoaria, nenhuma chama seria conjurada. Mas a presença deles me confortava mesmo assim.

Eu não sei por quanto tempo seguimos naquela direção, os esquifes flutuando em frente, o único som o sussurro suave da areia em seus cascos. Pareceram minutos, mas poderiam ter sido horas. Nós vamos ficar bem, pensei comigo mesma. Nós vamos ficar bem. Então senti a mão de Alexei tatear a minha. Ele agarrou meu pulso.

“Ouça!”, ele sussurrou, e sua voz saiu rouca de medo. Por um momento, tudo que ouvi foi sua respiração irregular e o chiado contínuo dos esquifes. Então, de algum lugar na escuridão, veio outro som, fraco, mas implacável: o bater rítmico de asas.

Com uma das mãos, agarrei o braço de Alexei. Com a outra, segurei firme o punho da minha faca, meu coração batendo forte, meus olhos se esforçando para ver algo, qualquer coisa na escuridão. Ouvi o som de gatilhos sendo puxados, a batida de flechas sendo armadas. Alguém sussurrou: “Fiquem preparados”. Nós aguardamos. Ouvíamos o som de asas batendo no ar ficar mais alto conforme se aproximavam, como os tambores de um exército que se avizinha. Tive a impressão de poder sentir o vento se agitar contra minhas bochechas à medida que eles nos rodeavam, cada vez mais perto.

“Queimem!”, o comando soou, seguido pelo estalido da pedra de ignição e por uma lufada explosiva, enquanto flores ondulantes de chama Grisha irrompiam de cada um dos esquifes.

Olhei para o brilho repentino, esperando meus olhos se ajustarem. Na luz do fogo, eu os vi. Volcras deviam se mover em pequenos grupos, mas ali estavam eles... não em dezenas, mas centenas, planando e mergulhando no ar em torno do esquife. Eram mais assustadores do que tudo que eu tinha visto nos livros, mais do que qualquer monstro que eu tivesse imaginado. Tiros foram disparados. Os arqueiros lançaram as flechas, e os gritos dos volcras partiram o ar, um som alto e horrível.

Eles mergulharam. Eu ouvi um lamento estridente e vi com pavor um soldado ser suspenso e carregado pelo ar, chutando e se sacudindo. Alexei e eu nos aproximamos e ficamos abaixados contra a balaustrada, segurando nossas facas frágeis e murmurando orações enquanto o mundo se dissolvia em um pesadelo. Ao nosso redor, homens bradaram, pessoas gritaram, soldados entraram em combate com as formas maciças das bestas aladas se contorcendo, então a escuridão artificial da Dobra foi quebrada aos trancos e barrancos por explosões de chamas douradas dos Grishas.

Em seguida, um grito rasgou o ar ao meu lado. Eu ofeguei enquanto o braço de Alexei era arrancado do meu. Em um esguicho de fogo, eu o vi se agarrando na balaustrada com uma das mãos. Vi sua boca gritando, seus olhos arregalados e assustados, e a coisa monstruosa que o segurava em seus braços cinza e brilhantes, suas asas batendo no ar enquanto ela o arrancava do chão, suas garras grossas enfiadas profundamente nas costas dele, já molhadas com sangue. Os dedos de Alexei escorregaram no corrimão. Eu saltei para a frente e agarrei o braço dele.

“Aguente firme”, gritei.

Então a chama se foi, e senti os dedos de Alexei serem puxados dos meus na escuridão.

“Alexei!”, gritei.

Os gritos dele sumiram nos sons da batalha enquanto o volcra o levava para o breu. Outra explosão de chamas iluminou o céu, mas ele já tinha ido embora.

“Alexei!”, tornei a gritar, me inclinando sobre a lateral da balaustrada. “Alexei!”

A resposta veio na forma de uma rajada de asas quando outro volcra desceu sobre mim. Eu me inclinei para trás, evitando por pouco suas garras, minha faca estendida diante de mim com as mãos trêmulas. O volcra avançou, a luz da chama fazendo brilhar seus olhos cegos e leitosos, sua boca escancarada com fileiras de dentes negros, curvos e afiados. Com o canto do olho, vi um clarão de pólvora. Em seguida, ouvi um tiro de espingarda e o volcra cambaleou, gritando de raiva e de dor.

“Ande!” Era Maly, de rifle na mão, o rosto riscado de sangue. Ele segurou meu braço e me puxou para trás dele.

O volcra continuava vindo, arranhando seu caminho pelo convés, uma de suas asas pendurada em um ângulo arqueado. Maly estava tentando recarregar na luz das chamas, mas o volcra era muito rápido. Ele correu na nossa direção, garras cortando o ar e rasgando o peito de Maly. Ele gritou de dor.

Eu agarrei a asa quebrada do volcra e enfiei minha faca bem fundo entre os ombros dele. Sua carne musculosa pareceu viscosa em minhas mãos. Ele gritou de dor e se libertou da minha pegada ao se agitar violentamente. Caí para trás, atingindo o convés com força. Ele avançou até mim em um frenesi de fúria, suas enormes mandíbulas batendo.

Outro tiro ecoou. O volcra cambaleou e caiu em um amontoado grotesco, sangue negro vazando de sua boca. Na luz fraca, vi Maly baixando o rifle. Sua camisa rasgada estava escura de sangue. O rifle deslizou de seus dedos enquanto cambaleava e caía de joelhos. Então, ele tombou no convés.

“Maly!” Em um instante, eu estava do lado dele, minhas mãos pressionando seu peito em uma tentativa desesperada de parar o sangramento. “Maly!”, solucei, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

O ar estava denso com o cheiro de sangue e pólvora. Ao nosso redor, eu ouvia tiros de rifle, pessoas chorando... e o som obsceno de algo se alimentando. As chamas dos Grishas estavam ficando mais fracas e esporádicas e, o pior de tudo, percebi que o esquife tinha parado de se mover. Então é isso, eu pensei, sem esperanças. Eu me inclinei sobre Maly, mantendo a ferida pressionada.

Sua respiração estava pesada. “Eles estão vindo”, ele ofegou.

Olhei para cima e vi, na luz fraca e desvanecente do fogo Grisha, dois volcras mergulhando sobre nós.

Eu me encolhi sobre Maly, protegendo o corpo dele com o meu. Sabia que era inútil, mas era tudo que podia oferecer. Senti o cheiro fétido do volcra, senti as rajadas de ar de suas asas. Pressionei minha testa contra a de Maly e o ouvi sussurrar: “Te encontro na pradaria”.

Algo dentro de mim desabou, em fúria, em desesperança, com a certeza de minha própria morte. Eu senti o sangue de Maly em minhas palmas, vi a dor em seu rosto adorável. Um volcra gritou de triunfo quando suas garras afundaram em meu ombro. A dor disparou pelo meu corpo.

E o mundo ficou branco.

Fechei os olhos quando um fluxo repentino e perfurante de luz explodiu diante de minha visão. Aquilo parecia preencher minha cabeça, me cegando, me afogando. De algum lugar acima, ouvi um guincho terrível. Senti as garras do volcra se afrouxarem, e o baque quando caí para a frente e minha cabeça entrou em contato com o convés. Então, não senti nada mais.





Eu acordei no susto. Pude sentir o fluxo de ar no meu rosto e abri os olhos para ver o que pareciam ser nuvens escuras de fumaça. Eu estava deitada de costas, no convés do esquife. Levei apenas um momento para perceber que as nuvens estavam ficando mais rarefeitas, cedendo lugar a fiapos negros e, entre eles, à luz do sol outonal. Fechei os olhos novamente, senti o alívio passar por mim. Estávamos saindo da Dobra, pensei. De alguma forma, tínhamos passado por ela. Não tínhamos? Lembranças do ataque do volcra voltaram com tudo em um turbilhão assustador. Onde estava Maly?

Tentei me sentar e uma rajada de dor percorreu meus ombros. Eu a ignorei e me empurrei para a frente. Então, me peguei olhando para o cano de um rifle.

“Afaste esta coisa de mim”, gritei, golpeando-o de lado.

O soldado balançou o rifle para lá e para cá, apontando-o ameaçadoramente para mim. “Fique onde está”, ele ordenou.

Eu o encarei, aturdida. “Qual o seu problema?”

“Ela está acordada!”, ele gritou por sobre o ombro. Dois outros soldados armados se juntaram a ele, o capitão do esquife e uma Corporalnik. Com um tremor de pânico, vi que os punhos de seu kefta vermelho estavam bordados de preto. O que um Sangrador queria comigo?

Olhei ao redor. Um Aeros continuava no mastro, braços erguidos, nos impulsionando com um vento forte, um único soldado ao lado dele. O convés estava escorregadio com sangue espalhado. Meu estômago se revirou quando me lembrei do horror da batalha. Um Curandeiro Corporalki cuidava dos feridos. Onde estava Maly?

Havia soldados e Grishas de pé nos balaústres, ensanguentados, chamuscados, e em um número consideravelmente menor do que aquele que tinha partido. Todos me olhavam com cautela. Com um medo crescente, me dei conta de que os soldados e a Corporalnik estavam me vigiando. Como uma prisioneira.

Eu falei: “Maly Oretsev. Ele é um rastreador. Foi ferido durante o ataque. Onde ele está?” Ninguém respondeu. “Por favor”, implorei. “Onde ele está?”

Houve um baque quando o esquife chegou à costa. O capitão apontou para mim com o seu rifle. “De pé.”

Pensei em simplesmente recusar a me levantar até eles me contarem o que tinham acontecido com Maly, mas uma olhada para o Sangrador me fez reconsiderar. Fiquei de pé, me curvando devido à dor no ombro, então cambaleei enquanto o esquife voltava a se mover, puxado pelos funcionários da doca seca, em terra firme. Por instinto, estendi a mão para me reequilibrar, mas o soldado que toquei se encolheu para trás, como se eu estivesse pegando fogo. Dei um jeito de recuperar o equilíbrio, mas meus pensamentos estavam embolando.

O esquife parou de novo.

“Ande”, o capitão ordenou.

Os soldados me levaram pela embarcação, armas apontadas para mim. Eu passei pelos outros sobreviventes, altamente consciente de sua curiosidade e dos olhares assustados, e percebi o Cartógrafo Sênior cochichando animado com um soldado. Eu queria parar e dizer a ele o que tinha acontecido a Alexei, mas não me atrevi.

Assim que pisei na doca seca, fiquei surpresa de ver que tínhamos voltado a Kribirsk. Nós nem tínhamos atravessado a Dobra. Dei de ombros. Melhor marchar pelo acampamento com um rifle apontado para as minhas costas do que estar no Não Mar.

Mas não muito melhor, pensei, inquieta.

Conforme os soldados marchavam me escoltando pela estrada principal, as pessoas paravam seus trabalhos para me olhar. Minha mente estava zunindo à procura de respostas, sem encontrar nada. Eu tinha feito algo de errado na Dobra? Quebrado alguma espécie de protocolo militar? E, aliás, como nós tínhamos escapado da Dobra? As feridas pulsavam perto do meu ombro. A última coisa de que me lembrava era da dor terrível das garras do volcra perfurando as minhas costas, aquela explosão chamuscante de luz. Como tínhamos sobrevivido?

Esses pensamentos sumiram de minha mente quando dei de cara com a Tenda dos Oficiais. O capitão ordenou aos guardas que descansassem e seguiu para a entrada.

A Corporalnik esticou a mão para impedi-lo. “Isto é uma perda de tempo. Nós devíamos ir imediatamente para...”

“Tire suas mãos de mim, sangradora”, o capitão falou com rispidez e balançou o braço para se soltar.

Por um momento, a Corporalnik o encarou, os olhos dela perigosos, então ela sorriu friamente e fez uma mesura. “Da, kapitan.”

Senti os pelos dos meus braços se arrepiarem.

O capitão desapareceu dentro da tenda. Nós aguardamos. Olhei nervosa para a Corporalnik, que pelo visto tinha se esquecido de sua fleuma com o capitão e me analisava novamente. Ela era jovem, talvez mais jovem do que eu, mas aquilo não a tinha impedido de confrontar um oficial superior. Por que teria impedido? Ela poderia matar o capitão onde ele estava sem nem levantar uma arma. Esfreguei meus braços, tentando me livrar dos arrepios.

A borda da tenda se abriu, e fiquei assustada ao ver o capitão surgir seguido pelo rigoroso Coronel Raevsky. O que eu poderia ter feito que exigisse o envolvimento de um oficial sênior?

O coronel me olhou, seu rosto envelhecido e sombrio.

“O que você é?”

“Cartógrafa Assistente, Alina Starkov. Núcleo Real de Inspetores...”

Ele me interrompeu. “O que você é?”

Eu pisquei. “Eu... eu sou uma cartógrafa, senhor.”

Raevsky fez uma careta. Ele puxou um dos soldados de lado e lhe murmurou algo que fez o soldado voltar correndo para as docas secas. “Venha”, disse ele, lacônico.

Senti o golpe do cano de um rifle nas minhas costas e segui em frente. Tinha um pressentimento muito ruim sobre aonde estavam me levando. Não pode ser, eu pensei, desesperada. Não faz sentido.

Mas logo que a enorme tenda negra surgiu cada vez maior diante de nós, não restaram dúvidas sobre aonde estávamos indo.

A entrada para a tenda Grisha estava protegida por mais Corporalki Sangradores e oprichniki de roupas cinza, os soldados de elite que compunham a guarda pessoal do Darkling. Os oprichniki não eram Grishas, mas eram igualmente assustadores.

A Corporalnik do esquife se reuniu com os guardas à frente da tenda, e então ela e o Coronel Raevsky desapareceram dentro dela. Eu esperei, com o coração acelerado, consciente dos sussurros e olhares atrás de mim, a ansiedade cada vez maior.

Lá no alto, quatro bandeiras flutuavam com a brisa: azul, vermelha, roxa e, acima de todas, a preta. Na noite anterior mesmo, Maly e seus amigos estavam rindo e falando sobre tentar entrar nesta tenda, imaginando o que encontrariam dentro dela. E agora, pelo visto, quem iria descobrir era eu. Onde está Maly? O pensamento continuava retornando, o único pensamento claro que eu parecia capaz de formular.

Depois do que pareceu uma eternidade, a Corporalnik reapareceu e acenou para o capitão, que me levou para dentro da tenda Grisha.

Por um momento, todo o meu medo desapareceu, eclipsado pela beleza que me cercava. As paredes internas da tenda estavam cobertas com cascatas de seda cor de bronze que captavam a luz das velas brilhando nos candelabros reluzentes lá no alto.

Os pisos eram cobertos por peles e tapetes opulentos. Ao longo das paredes, divisores brilhantes de seda separavam os compartimentos onde os Grishas se agrupavam em seus kefta vibrantes. Alguns conversavam de pé, outros deitados em almofadas, bebendo chá. Dois estavam envolvidos jogando xadrez. De algum lugar, vinha a melodia de uma balalaica. A propriedade do Duque era linda, mas possuía uma beleza melancólica de quartos empoeirados e pintura descascando, o eco de algo que já tinha sido grandioso. A tenda Grisha não se parecia com nada que eu tivesse visto antes, um lugar vivo com poder e riqueza.

Os soldados me escoltaram por uma longa coxia acarpetada. No final dela, pude ver um pavilhão negro em uma plataforma elevada.

Um murmúrio de curiosidade se espalhou pela tenda enquanto passávamos.

Homens e mulheres Grisha interromperam suas conversas para me olhar embasbacados. Alguns até se levantaram para ver melhor.

Quando alcançamos a plataforma, a sala estava tudo, menos silenciosa, e eu sentia como se todos pudessem ouvir meu coração disparado no peito. Em frente ao pavilhão negro, alguns ministros vestidos com requinte usavam a águia dupla do Rei, e um grupo de Corporalki se agrupava em torno de uma longa mesa repleta de mapas. Na cabeceira da mesa ficava uma cadeira de encosto alto, esculpida de maneira ornamentada e feita do ébano mais escuro. Sentado nela, encontrava-se uma pessoa de kefta negro, o queixo apoiado em uma mão pálida.

Apenas um Grisha vestia preto, ou melhor, tinha a permissão de se vestir de preto.

O Coronel Raevsky ficou de pé atrás dele, falando em um tom baixo demais para que eu ouvisse.

Eu os observei, dividida entre o medo e o fascínio. Ele era muito jovem, pensei. Esse Darkling vinha comandando os Grishas desde antes de eu nascer, mas o homem sentado acima de mim na plataforma não parecia muito mais velho do que eu. Ele tinha um rosto bonito e severo, o cabelo negro e grosso, e olhos cinza-claro que brilhavam como quartzo. Eu sabia que os Grishas mais poderosos viviam vidas longas, e os Darklings eram os mais poderosos de todos eles. Mas senti algo de errado nisso e me lembrei das palavras de Eva: Ele não é humano.

Nenhum deles é.

Uma risada alta tilintou na multidão que se formou perto de mim na base do palanque. Reconheci a linda garota de azul, aquela na carruagem dos Etherealki que tinha sido tão simpática com Maly. Ela sussurrou alguma coisa para sua amiga de cabelos castanhos e ambas riram novamente.

Meu rosto ferveu enquanto imaginava qual seria a minha aparência com aquele casaco gasto e despedaçado, após uma jornada pela Dobra das Sombras e uma batalha com um bando de volcras famintos. Mas ergui o queixo e olhei a belezinha diretamente nos olhos. Ria o quanto quiser, pensei, sombria. Seja lá o que estiver sussurrando, eu já ouvi pior. Ela sustentou o olhar por um momento e então desviou.

Eu desfrutei de um rápido momento de satisfação antes de a voz do Coronel Raevsky me trazer de volta para a realidade da minha situação.

“Tragam-nos”, disse ele. Eu me virei e vi mais soldados levando um grupo exaurido e confuso de pessoas para a tenda e para cima da plataforma. Entre eles, identifiquei o soldado que tinha estado ao meu lado quando o volcra atacara e o Cartógrafo Sênior. Seu casaco geralmente impecável estava rasgado e sujo. Seu rosto, assustado.

Meu desconforto cresceu quando me dei conta de que eles eram os sobreviventes do meu esquife terrestre, e que tinham sido trazidos ao Darkling como testemunhas. O que tinha acontecido lá fora na Dobra? O que eles pensavam que eu tinha feito?

Prendi a respiração quando reconheci os rastreados do grupo. Primeiro vi Mikhael, seu cabelo vermelho desgrenhado balançando acima da multidão. Inclinando-se sobre ele, com ataduras penduradas para fora da camisa ensanguentada, estava Maly, com uma aparência pálida e muito cansada. Minhas pernas fraquejaram e pressionei a mão contra a boca para suprimir um soluço.

Maly estava vivo. Eu queria me embrenhar pela multidão e lançar meus braços ao redor dele, mas mal conseguia ficar de pé enquanto o alívio me invadia. O que quer que acontecesse ali, nós ficaríamos bem. Nós tínhamos sobrevivido à Dobra e sobreviveríamos a esta loucura também.

Olhei para o palanque e minha alegria murchou. O Darkling estava olhando diretamente para mim. Ele continuava a ouvir o Coronel Raevsky, sua postura tão relaxada quanto antes, mas mantinha um olhar concentrado e atento. Ele retornou sua atenção para o coronel e percebi que eu estava prendendo a respiração.

Quando o grupo de sobreviventes esfarrapados alcançou a base da plataforma, o Coronel Raevsky ordenou: “Kapitan, reporte-se”.

O capitão permaneceu em posição de sentido e respondeu com uma voz sem emoção: “Com aproximadamente trinta minutos de travessia, fomos cercados por um bando numeroso de volcras. Estávamos encurralados e sofrendo várias baixas. Eu estava lutando na face estibordo do esquife. Naquele momento, eu vi...”

O soldado hesitou e, quando falou novamente, sua voz soou menos certa. “Não sei exatamente o que vi. Uma explosão de luz. Brilhante como o meio-dia, mais brilhante. Foi como olhar para o sol.”

A multidão irrompeu em cochichos. Os sobreviventes do esquife estavam assentindo, e eu me vi assentindo com eles. Eu tinha visto a explosão de luz, também.

O soldado recuperou a concentração e continuou: “Os volcras se dispersaram e a luz desapareceu. Eu ordenei que voltássemos imediatamente para a doca seca.”

“E a garota?”, perguntou o Darkling.

Com uma pontada gélida de medo, percebi que ele estava falando de mim.

“Eu não vi a garota, moi soverenyi.”

O Darkling ergueu uma sobrancelha, virando-se para os outros sobreviventes. “Quem realmente viu o que aconteceu?” Sua voz era fria, distante, quase desinteressada.

Os sobreviventes entraram em uma discussão, murmurando uns com os outros. Então, devagar e timidamente, o Cartógrafo Sênior deu um passo à frente. Senti uma pontada de pena dele. Eu nunca o tinha visto tão desgrenhado. Seu cabelo castanho e escasso estava espalhado em todos os ângulos da cabeça, e os dedos depenavam nervosamente seu casaco arruinado.

“Diga-nos o que viu”, mandou Raevsky.

O cartógrafo lambeu os lábios. “Nós... nós estávamos sob ataque”, disse ele, trêmulo. “Havia luta em todo canto. Um barulho terrível. Muito sangue... Um dos rapazes, Alexei, foi levado. Foi terrível, terrível.” Suas mãos se agitaram como dois pássaros assustados.

Eu franzi a testa. Se o Cartógrafo tinha visto Alexei ser atacado, então por que não tinha tentado ajudar?

O velho pigarreou. “Eles estavam por toda parte. Eu vi um deles ir atrás dela...”

“Atrás de quem?”, perguntou Raevsky.

“Alina... Alina Starkov, uma das minhas assistentes.”

A bonitinha de azul sorriu e se inclinou para cochichar com a amiga. Eu travei minha mandíbula. Que agradável saber que os Grishas ainda podiam manter seu esnobismo no meio de um relato sobre um ataque de volcras.

“Prossiga”, Raevsky pressionou.

“Vi um deles ir atrás dela e do rastreador”, disse o Cartógrafo, apontando para Maly.

“E onde você estava?”, perguntei com raiva. As palavras escaparam de minha boca antes que eu pudesse pensar melhor sobre elas. Todos os rostos se viraram para mim, mas não me importei. “Você viu o volcra nos atacar. Você viu aquela coisa levar o Alexei. Por que você não ajudou?”

“Eu não podia fazer nada”, ele alegou, com as mãos bem abertas. “Eles estavam por toda parte. Foi um caos!”

“Alexei ainda poderia estar vivo se você tivesse mexido sua bunda magra para nos ajudar!”

Houve um sobressalto na multidão e então uma onda de risadinhas.

O Cartógrafo ficou vermelho de raiva e eu me arrependi na mesma hora. Se conseguisse escapar dessa confusão, estaria muito encrencada.

“Chega!”, estrondeou Raevsky. “Diga o que você viu, Cartógrafo.”

A multidão silenciou e o Cartógrafo lambeu os lábios novamente. “O rastreador caiu. Ela estava ao lado dele. Aquela coisa, o volcra, estava indo atrás deles. Eu o vi em cima dela e então... ela acendeu.”

Os Grishas irromperam em exclamações de descrença e escárnio. Alguns deles riram. Se não estivesse tão assustada e perplexa, me sentiria tentada a me juntar a eles. Talvez eu não devesse ter sido tão dura com ele, pensei, olhando para o Cartógrafo amarrotado. Claramente o pobre homem tinha levado uma pancada na cabeça durante o ataque.

“Eu vi!”, ele gritou sobre a balbúrdia. “Veio luz dela!”

Alguns Grishas agora zombavam dele abertamente, mas outros estavam gritando: “Deixem-no falar!”. O Cartógrafo olhou com desespero para seus companheiros sobreviventes em busca de suporte e, para minha surpresa, vi alguns deles concordarem. Todo mundo tinha ficado louco? Eles realmente achavam que eu tinha afugentado o volcra?

“Isso é um absurdo!”, disse uma voz na multidão. Foi a bonitinha de azul. “O que você está sugerindo, velhote? Que nós encontramos uma Conjuradora do Sol?”

“Não estou sugerindo nada”, ele protestou. “Só estou contando o que vi!”

“Isso não é impossível”, disse um Grisha corpulento. Ele vestia o kefta roxo de um Materialnik, um membro da Ordem dos Fabricadores. “Existem histórias...”

“Não seja ridículo”, a garota riu, sua voz áspera de desprezo. “O volcra abalou a sanidade do homem!”

A multidão começou a argumentar barulhenta.

Eu me senti subitamente cansada. Meu ombro latejava no lugar onde o volcra cravara suas garras em mim. Eu não sabia o que o Cartógrafo ou qualquer um dos outros no esquife pensavam ter visto. Só sabia que isso era algum tipo de engano terrível, e que no final dessa farsa, eu é que pareceria idiota. Eu me encolhi ao pensar no quanto caçoariam de mim quando tudo terminasse. E, com alguma esperança, isso terminaria logo.

“Silêncio.” O Darkling mal precisou levantar a voz, mas o comando atravessou a multidão e o silêncio se fez.

Eu suprimi um arrepio. Talvez ele não achasse essa piada tão divertida.

Eu só esperava que ele não me culpasse por ela. O Darkling não era conhecido por conceder perdão. Talvez eu devesse estar me preocupando menos em ser sacaneada e mais em ser exilada para Tsibeya. Ou um lugar pior. Eva contara que, uma vez, o Darkling tinha ordenado a um Curandeiro Corporalki que selasse de forma permanente a boca de um traidor.

Os lábios do homem foram enxertados juntos e ele morreu de fome. Naquela época, Alexei e eu rimos e consideramos essa mais uma das histórias malucas de Eva. Agora, eu não tinha mais tanta certeza.

“Rastreador”, disse o Darkling, suavemente, “o que você viu?”

De uma vez só, a multidão se virou para Maly, que olhou desconfortável para mim e de volta para o Darkling. “Nada. Eu não vi nada.”

“A garota estava do seu lado.”

Maly assentiu.

“Você deve ter visto alguma coisa.”

Maly olhou para mim novamente, seu olhar pesado de preocupação e cansaço. Eu nunca o tinha visto tão pálido, e me perguntava quanto sangue ele tinha perdido. Experimentei um surto de raiva inútil. Ele estava gravemente ferido. Poderia estar descansando em vez de estar de pé ali, respondendo perguntas ridículas.

“Basta dizer o que você lembra, rastreador”, ordenou Raevsky.

Maly deu de ombros sutilmente e estremeceu com a dor de suas feridas. “Eu estava caído de costas no convés. Alina estava perto de mim. Eu vi o volcra mergulhar e sabia que ele vinha atrás de nós. Eu disse algo e...”

“O que você disse?”, a voz fria do Darkling cortou a sala.

“Eu não me lembro”, respondeu Maly. Eu reconheci a posição inflexível de sua mandíbula e soube que ele estava mentindo. Ele se lembrava.

“Eu senti o cheiro do volcra, o vi descendo sobre nós. Alina gritou e então eu não pude ver mais nada. O mundo estava apenas... brilhando.”

“Então você não viu de onde vinha a luz?”, Raevsky perguntou.

“Alina não é... ela não poderia...” Maly balançou a cabeça. “Nós viemos da mesma... vila.”

Notei uma pausa sutil, a pausa do órfão.

“Se ela pudesse fazer qualquer coisa desse tipo, eu saberia.”

O Darkling olhou para Maly por um longo momento e então olhou de volta para mim.

“Todos temos os nossos segredos”, disse ele.

Maly abriu a boca como se fosse dizer algo mais, mas o Darkling ergueu a mão para silenciá-lo. A raiva cintilou pelos traços de Maly, mas ele calou a boca, os lábios pressionados em uma linha rígida.

O Darkling levantou de sua cadeira. Ele gesticulou e os soldados deram um passo para trás, me deixando sozinha para encará-lo. A tenda parecia assustadoramente silenciosa. Bem devagar, ele desceu os degraus.

Precisei lutar contra o desejo de me afastar dele quando ele parou na minha frente.

“Agora, o que você tem a dizer, Alina Starkov?”, ele perguntou, de um jeito agradável.

Engoli em seco. Minha garganta estava áspera e meu coração tombando de um batimento ao outro, mas eu sabia que precisava falar. Precisava fazê-lo entender que não tinha nada a ver com tudo aquilo.

“Deve ter havido algum tipo de engano”, falei, rouca. “Eu não fiz nada. Não sei como nós sobrevivemos.”

O Darkling pareceu considerar isso. Então, cruzou os braços e inclinou a cabeça para um lado. “Bem”, disse ele, sua voz preocupada. “Eu gosto de pensar que sei de tudo que acontece em Ravka, e que se houvesse uma Conjuradora do Sol vivendo no meu próprio país, eu saberia.” Murmúrios contidos de aquiescência brotaram na multidão, mas ele os ignorou, olhando-me bem de perto. “Mas algo poderoso parou os volcras e salvou os esquifes do Rei.”

Ele aguardou, como se esperasse que eu resolvesse esse enigma para ele.

Empinei o queixo de um jeito teimoso. “Eu não fiz nada”, insisti. “Nadinha mesmo.”

O lado da boca do Darkling se contraiu, como se ele estivesse reprimindo um sorriso. Ele me olhou da cabeça aos pés uma vez, depois outra. Eu me senti como algo estranho e reluzente, uma coisa qualquer que tinha sido levada até a margem de um lago, e que ele poderia chutar com sua bota.

“Sua memória é tão ruim quanto a do seu amigo?”, ele perguntou, e inclinou a cabeça na direção de Maly.

“Eu não...” Hesitei. Do que eu me lembrava? Terror. Escuridão. Dor. O sangue de Maly. Sua vida escorrendo dele sobre minhas mãos. A fúria que me dominou quando pensei no meu próprio desamparo.

“Estenda o seu braço”, disse o Darkling.

“O quê?”

“Já perdemos muito tempo. Estenda o seu braço.”

Uma pontada gelada de medo me percorreu. Olhei em volta, em pânico, mas ninguém me ajudaria. Os soldados olhavam para a frente, rostos impávidos. Os sobreviventes dos esquifes pareciam assustados e cansados. Os Grishas me observavam com curiosidade.

A garota de azul estava sorrindo. O rosto pálido de Maly parecia ter ficado ainda mais branco, mas não havia resposta em seus olhos preocupados.

Tremendo, estendi meu braço esquerdo.

“Puxe sua manga para cima.”

“Eu não fiz nada.” Eu queria dizer isso alto, proclamar isso, mas minha voz saiu assustada e baixa.

O Darkling olhou para mim, esperando. Eu suspendi a manga.

Ele abriu os braços e senti uma onda de terror passar por mim quando vi as palmas dele se encherem de algo preto que se aglomerou e rodopiou pelo ar como tinta em água.

“Agora”, disse ele naquele mesmo tom de voz agradável de conversa, como se nós estivéssemos sentados juntos, bebendo um chá, como se eu não estivesse tremendo na frente dele, “vamos ver o que você é capaz de fazer.”

Ele uniu as mãos e produziu um som como o de um trovão. Eu ofeguei quando a escuridão ondulante se propagou de suas mãos entrelaçadas, se derramando em uma onda negra sobre mim e a multidão.

Eu estava cega. A sala tinha sumido. Tudo tinha desaparecido.

Gritei de medo quando senti os dedos do Darkling segurarem meu pulso nu. Mas de repente, meu medo recuou. Ele ainda estava lá, encolhido como um animal dentro de mim, mas tinha sido colocado de lado por algo calmo, assertivo e poderoso, algo vagamente familiar.

Senti um chamado me alcançar e, para a minha surpresa, senti algo em mim se erguer para responder. Eu o empurrei para longe, depois para baixo. De algum modo, sabia que se aquela coisa se libertasse, ela me destruiria.

“Nada por aí?”, o Darkling murmurou. Eu me dei conta de quão perto de mim ele estava na escuridão. Minha mente em pânico se prendeu às suas palavras. Nada aqui. Isso aí, nada.

Nadinha mesmo. Agora, vá embora!

E, para o meu alívio, aquela coisa lutando dentro de mim pareceu recuar, deixando a pergunta do Darkling sem resposta.

“Não tão rápido”, ele sussurrou. Eu senti algo gelado pressionar o lado de dentro do meu antebraço. No mesmo instante em que percebi que aquilo era uma faca, a lâmina cortou a minha pele.

Medo e dor percorreram meu corpo. Eu gritei. A coisa dentro de mim rugiu até a superfície, indo veloz responder ao chamado do Darkling. Eu não podia me impedir. Eu respondi. O mundo explodiu em uma luz branca e resplandecente.

A escuridão se estilhaçou como vidro ao nosso redor. Por um momento, vi os rostos da multidão, suas bocas abertas em choque enquanto a tenda era preenchida por luz solar brilhante, o ar reluzindo com calor. Então o Darkling afrouxou seus dedos, e com o seu toque veio aquela sensação peculiar de certeza que tinha me invadido. A luz radiante desapareceu, deixando a luz de velas comuns em seu lugar, mas eu ainda podia sentir o calor e o brilho inexplicável da luz do sol na minha pele.

Minhas pernas fraquejaram, e o Darkling me segurou contra o seu corpo com um braço surpreendentemente forte.

“Pelo visto você só parece um ratinho”, ele sussurrou em meu ouvido, e então acenou para um de seus guardas pessoais.

“Leve-a”, disse ele, me passando para o oprichnik que esticou os braços para me amparar. Eu enrubesci com a indignidade de ser passada como um saco de batatas, mas me sentia muito debilitada e confusa para protestar. O sangue escorria do meu braço pelo corte que o Darkling tinha feito em mim.

“Ivan!”, gritou o Darkling. Um Sangrador alto correu da plataforma para o lado do Darkling. “Leve-a para a minha carruagem. Eu a quero cercada por uma guarda armada em tempo integral. Leve-a para o Pequeno Palácio e não pare por nada.”

Ivan assentiu.

“E traga um Curandeiro para ver os machucados dela.”

“Espere!”, protestei, mas o Darkling já estava se virando de costas. Eu agarrei o braço dele, ignorando o suspiro que ecoou da plateia Grisha. “Deve ter havido algum tipo de engano. Eu não... Eu não...” Minha voz foi sumindo conforme o Darkling se virava lentamente para me encarar, seus olhos de ardósia flutuando para onde minha mão agarrara sua manga. Eu o soltei, mas não ia desistir tão facilmente. “Eu não sou o que você pensa que eu sou”, sussurrei, em desespero.

O Darkling se aproximou de mim e disse, sua voz tão baixa que só eu podia ouvir: “Duvido que você tenha a mínima ideia do que é”. Em seguida, sinalizou para Ivan. “Vá!”

O Darkling me deu as costas e caminhou suavemente para o palanque elevado, onde foi cercado por um enxame de conselheiros e ministros, todos falando alto e rápido.

Ivan me segurou firme pelo braço. “Venha.”

“Ivan”, chamou o Darkling, “maneire seu tom. Ela é uma Grisha agora.”

Ivan corou de leve e fez uma pequena mesura, mas seu aperto no meu braço não abrandou enquanto ele me puxava pela galeria.

“Vocês têm que me ouvir”, falei ofegante, enquanto me esforçava para acompanhar seus passos largos. “Eu não sou uma Grisha. Eu sou uma cartógrafa. Nem mesmo uma boa cartógrafa.”

Ivan me ignorou.

Eu olhei para trás, procurando na multidão.

Maly estava discutindo com o capitão do esquife terrestre. Como se sentisse meus olhos sobre ele, ergueu a cabeça e nossos olhares se encontraram. Eu pude ver meu próprio pânico e confusão espelhados em seu rosto branco. Queria gritar por ele, correr até ele, mas no momento seguinte ele tinha sumido, engolido pela multidão.





Lágrimas de frustração escorreram de meus olhos enquanto Ivan me arrastava da tenda pelo sol do fim da tarde. Ele me puxou por uma colina baixa até a estrada onde a carruagem negra do Darkling já nos esperava, cercada por um círculo de Etherealki Grishas montados e ladeados por fileiras de cavalaria armada. Dois dos guardas de roupas cinza do Darkling esperavam na porta da carruagem com uma mulher e um homem loiro, ambos vestidos de Corporalki vermelhos.

“Entre aí”, Ivan ordenou. Então, parecendo se lembrar da ordem do Darkling, ele adicionou: “...por favor”.

“Não”, disse eu.

“O quê?” Ivan parecia genuinamente surpreso. O outro Corporalki olhou em choque.

“Não!”, eu repeti. “Eu não vou a lugar nenhum. Deve ter havido algum tipo de engano. Eu...”

Ivan me interrompeu, segurando meu braço com mais firmeza. “O Darkling não comete erros”, ele disse entre os dentes cerrados. “Entre na carruagem.”

“Eu não quero...”

Ivan abaixou a cabeça até seu nariz estar a apenas alguns milímetros do meu e praticamente me deu uma bronca: “Você acha que eu me importo com o que você quer? Em poucas horas, cada espião fjerdano e assassino Shu Han saberá o que aconteceu na Dobra, e eles virão atrás de você. Nossa única chance é levá-la até Os Alta, atrás dos muros do palácio, antes que alguém se dê conta do que você é. Agora, entre na carruagem”.

Ele me empurrou pela porta e me seguiu para dentro, se jogando no banco em frente ao meu, com desgosto.

Os outros Corporalki se juntaram a ele, seguidos pelos guardas oprichniki que se sentaram um de cada lado meu.

“Então eu sou uma prisioneira do Darkling?”

“Você está sob a proteção dele.”

“Qual a diferença?”

A expressão de Ivan era ilegível. “Reze para nunca precisar saber.”

Eu fechei a cara, caí de volta no assento almofadado e assoviei de dor. Tinha me esquecido das feridas.

“Cuide dela”, Ivan disse para a mulher Corporalnik. Os punhos dela estavam bordados com o cinza dos Curandeiros.

A mulher trocou de lugar com um dos oprichniki para poder sentar ao meu lado.

Um soldado enfiou a cabeça pela porta. “Estamos prontos”, disse ele.

“Ótimo”, respondeu Ivan. “Mantenha-se alerta e em movimento.”

“Só pararemos para mudar os cavalos. Se pararmos antes disso, você saberá que algo está errado.”

O soldado desapareceu, fechando a porta atrás dele.

O cocheiro não hesitou. Com um grito e o estalo de um chicote, a carruagem avançou. Senti uma vertigem gelada de pânico. O que estava acontecendo comigo? Pensei em simplesmente abrir a porta da carruagem e sair correndo. Mas para onde eu correria? Estávamos cercados de homens armados no meio de um acampamento militar. E mesmo se não estivéssemos, aonde eu poderia ir?

“Tire o seu casaco, por favor”, pediu a mulher ao meu lado.

“O quê?”

“Eu preciso ver as suas feridas.”

Eu pensei em recusar, mas para quê? Tirei desajeitadamente os ombros do meu casaco e deixei a Curandeira afrouxar a minha camisa. Os Corporalki eram a Ordem dos Vivos e dos Mortos.

Tentei me concentrar na parte dos vivos, mas nunca tinha sido curada por um Grisha e cada músculo do meu corpo retesava de medo.

Ela tirou algo de uma pequena bolsa de couro, e um forte cheiro químico tomou a carruagem. Eu me encolhi enquanto ela limpava as feridas, meus dedos enfiados nos joelhos. Quando ela terminou, senti algo quente pinicando entre meus ombros.

Mordi o lábio com força. A urgência de coçar as costas era quase insuportável. Por fim, ela terminou e colocou minha camisa de volta no lugar. Com cuidado, flexionei os ombros. A dor tinha ido embora.

“Agora o braço”, disse ela.

Eu já tinha quase esquecido do corte feito pelo Darkling com a faca, mas meu pulso e mão estavam grudentos de sangue. Ela limpou o corte e então ergueu o meu braço na direção da luz. “Tente mantê-lo firme”, disse ela, “ou ficará uma cicatriz.”

Fiz o que pude, mas o sacolejo da carruagem dificultava a missão. A Curandeira passou as mãos devagar sobre a ferida. Senti minha pele pulsar com calor. Meu braço começou a coçar furiosamente e, enquanto eu assistia maravilhada, minha carne parecia cintilar e se mover, enquanto os dois lados do corte se uniam e a pele era selada.

A coceira passou e a Curandeira se sentou novamente. Eu me estiquei e toquei meu braço. Havia um ligeiro relevo de cicatriz onde antes existia o corte, mas era só isso.

“Obrigada”, eu disse admirada.

A Curandeira assentiu.

“Dê seu kefta a ela”, Ivan disse-lhe.

A mulher franziu a testa, mas hesitou apenas um momento antes de tirar o kefta vermelho e passá-lo para mim.

“Por que eu preciso disso?”, perguntei.

“Apenas pegue-o”, ele resmungou.

Eu peguei o kefta da Curandeira. Ela manteve o rosto inexpressivo, mas eu percebi que abrir mão daquele traje era doloroso para ela.

Antes que pudesse decidir se ofereceria a ela ou não o meu casaco ensanguentado, Ivan bateu no teto e a carruagem começou a desacelerar. A Curandeira nem mesmo esperou o movimento cessar antes de abrir a porta e escapar para fora.

Ivan fechou a porta num puxão. O oprichnik voltou para o assento ao meu lado, e nós tornamos a seguir nosso caminho.

“Para onde ela foi?”, perguntei.

“Retornou a Kribirsk”, ele respondeu. “Nós viajaremos mais rápido com menos peso.”

“Você parece pesar mais do que ela”, murmurei.

“Vista o kefta”, disse ele.

“Por quê?”

“Porque ele é feito com miolo de Materialki. Pode barrar um tiro de rifle.”

Eu olhei para ele. Isso era mesmo possível? Havia histórias de Grishas aguentando tiros à queima-roupa e sobrevivendo ao que teriam sido feridas fatais. Eu nunca as tinha levado a sério, mas talvez o trabalho manual do Fabricador fosse a verdade por trás desses contos de camponeses.

“Todos vocês vestem isso?”, perguntei enquanto puxava o kefta.

“Quando estamos no campo”, disse o oprichnik. Eu quase dei um pulo. Fora a primeira vez que um dos guardas tinha falado.

“Só não tome um tiro na cabeça”, Ivan adicionou com um sorriso condescendente.

Eu o ignorei. O kefta era grande demais. Eu o sentia macio e desconhecido, o forro de pele quente contra a minha pele. Fiz um muxoxo. Não parecia justo oprichniks e Grishas usarem-no como roupa básica enquanto soldados comuns ficavam sem essa proteção. Nossos oficiais o vestiam também?

A carruagem ganhou velocidade. No tempo que levara para a Curandeira conduzir seu trabalho, já havia começado a escurecer e nós tínhamos deixado Kribirsk para trás. Eu me inclinei para a frente, me esforçando para olhar para fora da janela, mas o mundo ao redor tinha virado um borrão crepuscular.

Senti a ameaça das lágrimas novamente e pisquei para segurá-las. Poucas horas antes, eu era uma garota assustada no meu caminho para o desconhecido, mas pelo menos sabia quem e o que eu era. Com uma pontada de aflição, pensei na Tenda dos Documentos. Os outros inspetores deviam estar trabalhando naquele momento. Será que estariam de luto por Alexei? Ou falando de mim e do que tinha acontecido na Dobra?

Apertei o casaco militar amassado que agasalhava o meu colo. Sem dúvida, tudo tinha sido um sonho, alguma alucinação maluca causada pelos horrores da Dobra das Sombras.

Eu não podia estar de fato vestindo o kefta de um Grisha, sentada na carruagem do Darkling, a mesma carruagem que quase tinha me atropelado no dia anterior.

Alguém acendeu uma lamparina dentro do veículo e, na luz bruxuleante, pude ver melhor o interior de seda. Os bancos eram pesadamente forrados de veludo negro. Nas janelas, haviam cunhado o símbolo do Darkling no vidro: dois círculos sobrepostos, o sol em um eclipse.

Na minha frente, os dois Grishas me observavam com curiosidade assumida. Seus keftas vermelhos eram feitos da melhor lã, bordados ricamente de preto e forrados com pele negra. O Sangrador de cabelos claros era esguio e tinha um rosto comprido e melancólico. Ivan era mais alto, mais largo, com cabelo castanho ondulado e a pele bronzeada de sol. Agora que eu tinha me dado ao trabalho de olhar, tinha que admitir que ele era bonito. E sabia disso também. Um grande e bonito valentão.

Eu me mexia inquieta no meu assento, incomodada com seus olhares. Olhava para fora da janela, mas não havia nada para ver além da escuridão crescente e de meu próprio reflexo pálido. Tornei a encarar os Grishas e tentei suprimir minha irritação.

Eles me fitavam estupidamente. Lembrei a mim mesma de que esses homens poderiam fazer meu coração explodir no peito, mas uma hora não consegui mais suportar.

“Eu não faço truques, sabe”, disparei.

Os Grishas se entreolharam.

“Foi um belo truque o que você fez lá na tenda”, disse Ivan.

Eu revirei os olhos. “Bem, se eu tiver planos de fazer algo excitante, prometo avisar primeiro, então... tire um cochilo ou algo parecido.”

Ivan se sentiu afrontado. Experimentei uma pequena pontada de medo, mas o Corporalnik de cabelos claros deixou escapar uma gargalhada.

“O meu nome é Fedyor”, disse ele. “E esse é o Ivan.”

“Eu sei”, respondi. Então, imitando a cara de desaprovação de Ana Kuya, completei: “Muito prazer”.

Eles trocaram um olhar confuso. Eu os ignorei e me contorci no meu lugar, tentando ficar confortável. O que não era nada fácil com dois soldados altamente armados ocupando a maior parte do espaço.

A carruagem deu um solavanco e sacudiu para a frente.

“É seguro?”, perguntei. “Viajar à noite?”

“Não”, disse Fedyor. “Mas seria consideravelmente mais perigoso parar.”

“Por causa das pessoas que estão atrás de mim?”, falei com sarcasmo.

“Se ainda não estão atrás de você, estarão em breve.”

Eu bufei. Fedyor ergueu as sobrancelhas. “Por centenas de anos, a Dobra das Sombras tem feito o trabalho dos nossos inimigos, fechando nossos portos, sufocando-nos, tornando-nos fracos. Se você for uma verdadeira Conjuradora do Sol, então o seu poder poderia ser a chave para abrir a Dobra ou até mesmo destruí-la. Fjerda e o Shu Han não vão ficar lá parados e deixar que isso aconteça.”

Eu olhei para ele boquiaberta. O que essas pessoas esperavam de mim?

E o que fariam comigo ao perceber que eu não conseguiria atender às expectativas? “Isso é ridículo”, murmurei.

Fedyor me olhou de cima a baixo e então sorriu discretamente.

“Talvez”, disse ele.

Eu franzi a testa. Ele estava concordando comigo, mas ainda assim me senti insultada.

“Como você o escondeu?”, Ivan perguntou, abruptamente.

“O quê?”

“O seu poder”, ele disse, impaciente. “Como você o escondeu?”

“Eu não o escondi. Eu não sabia que ele existia.”

“Impossível.”

“E, ainda assim, aqui estamos”, retruquei, amarga.

“Você não foi testada?”

Uma lembrança turva cruzou minha mente: três figuras encapuzadas na sala de estar em Keramzin, uma mulher de rosto altivo.

“Claro que fui testada.”

“Quando?”

“Aos oito anos.”

“Muito tarde”, comentou Ivan. “Por que seus pais não testaram você mais cedo?”

Porque eles estavam mortos, pensei, mas não falei. E ninguém prestava muita atenção nos órfãos do Duque Keramsov. Eu dei de ombros.

“Isso não faz nenhum sentido.” Ivan franziu a testa.

“É o que eu estava tentando dizer a vocês!” Eu me inclinei para a frente, olhando desesperada de Ivan para Fedyor. “Eu não sou o que vocês pensam que eu sou. Não sou uma Grisha. O que aconteceu na Dobra... Eu não sei o que aconteceu, mas não fui eu.”

“E o que aconteceu na tenda dos Grishas?”, Fedyor perguntou calmamente.

“Eu não posso explicar aquilo. Mas não foi coisa minha. O Darkling fez algo quando me tocou.”

Ivan riu. “Ele não fez nada. Ele é um amplificador.”

“Um o quê?” Fedyor e Ivan se entreolharam mais uma vez.

“Deixa pra lá”, falei. “Eu não me importo.”

Ivan enfiou a mão por dentro da gola e puxou uma correntinha de prata com algo pendurado nela. Ele a segurou diante de mim para que eu a examinasse.

Minha curiosidade era o que eu tinha de melhor, e me inclinei para ver direito o objeto. Parecia ser um conjunto de garras pretas e afiadas.

“O que é isso?”

“Meu amplificador”, disse Ivan com orgulho. “As garras são da pata dianteira de um urso Sherborn. Eu mesmo o matei quando deixei o colégio e me juntei ao exército do Darkling.” Ele se inclinou para trás em seu assento e enfiou a corrente de volta na gola.

“Um amplificador aumenta o poder de um Grisha”, explicou Fedyor. “Mas o poder precisa já existir de início.”

“Todos os Grishas têm amplificadores?”, perguntei.

Fedyor ficou sério. “Não”, respondeu. “Amplificadores são raros e difíceis de conseguir.”

“Somente os Grishas favoritos do Darkling possuem um amplificador”, comentou Ivan, de modo presunçoso.

Eu me arrependi de perguntar.

“O Darkling é um amplificador vivo”, prosseguiu Fedyor. “Foi o que você sentiu.”

“Como as garras? É esse o poder dele?”

“Um deles”, corrigiu Ivan.

Apertei ainda mais o kefta ao meu redor, sentindo um frio repentino. Eu me lembrei da segurança que tinha me inundado com o toque do Darkling, e daquela sensação estranhamente familiar de um chamado ecoando em mim, um chamado que precisava de resposta. Aquilo tinha me assustado, mas me divertido também. Naquele momento, toda a minha dúvida e medo fora substituída por um tipo de certeza absoluta. Eu sempre tinha sido uma ninguém, uma refugiada de uma vila sem nome, uma menina magrela e desajeitada se movendo sozinha pela escuridão adensada. Mas quando o Darkling fechara seus dedos em volta do meu pulso, tinha me sentido diferente, algo mais. Fechei os olhos e tentei me concentrar, tentei me lembrar daquele sentimento de certeza e dar vida àquele poder perfeito e seguro. Mas nada aconteceu.

Suspirei e abri os olhos. Ivan parecia estar se divertindo muito.

A vontade de chutá-lo se tornou quase incontrolável.

“Vocês todos ficarão muito desapontados”, murmurei.

“Pelo seu próprio bem, espero que esteja errada”, disse Ivan.

“Para o bem de todos nós”, emendou Fedyor.





Perdi a noção do tempo. Noite e dia passaram pelas janelas da carruagem. Eu ficava a maior parte do tempo olhando a paisagem, procurando por pontos de referência para me dar algum senso de familiaridade. Esperava que tomássemos alguma trilha lateral, mas em vez disso nos mantivemos no caminho direto para o Vy, e Fedyor explicou que o Darkling tinha preferido a velocidade em vez de discrição. Ele esperava me colocar em segurança atrás das muralhas duplas de Os Alta antes do rumor do meu poder se espalhar e chegar aos espiões e assassinos inimigos que atuavam nas fronteiras de Ravka.

Nós mantivemos um ritmo brutal. Ocasionalmente, paramos para trocar de cavalos e tive permissão de esticar as pernas. Quando conseguia dormir, meus sonhos eram povoados por monstros. Uma vez, acordei de repente, com o coração acelerado, e dei de cara com Fedyor me observando. Ivan estava dormindo ao meu lado, roncando alto.

“Quem é Maly?”, ele perguntou.

Eu me dei conta de que devia estar falando enquanto dormia.

Sem graça, olhei para os guardas oprichniki me flanqueando. Um olhava de maneira impassível para a frente. O outro estava cochilando.

Do lado de fora, o sol da tarde brilhava através de um bosque de bétulas enquanto passávamos bramindo por ele.

“Ninguém”, eu disse. “Um amigo.”

“O rastreador?”

Eu assenti. “Ele estava comigo na Dobra das Sombras. Salvou a minha vida.”

“E você a dele.”

Abri a boca para discordar, mas parei. Eu tinha salvado a vida de Maly? O pensamento me veio de repente.

“É uma grande honra”, disse Fedyor. “Salvar uma vida. Você salvou muitas.”

“Não o suficiente”, murmurei, pensando no olhar assustado no rosto de Alexei quando ele fora puxado para dentro da escuridão. Se eu tinha mesmo esse poder, por que não tinha sido capaz de salvá-lo? Ou a qualquer um dos outros que tinham morrido na Dobra? Eu olhei para Fedyor.

“Se você realmente acredita que salvar uma vida é uma honra, então por que não se tornou um Curandeiro em vez de um Sangrador?”

Fedyor fitou o cenário que passava. “De todos os Grishas, os Corporalki têm o caminho mais difícil. Precisamos de mais treinamento e de mais estudo. No fim disso tudo, senti que poderia salvar mais vidas sendo um Sangrador.”

“Agindo como um assassino?”, perguntei, surpresa.

“Como um soldado”, Fedyor me corrigiu. Ele deu de ombros. “Matar ou curar?”, disse ele com um sorriso triste. “Cada um de nós tem seus próprios dons.” De repente, sua expressão mudou. Ele se sentou reto e socou Ivan na lateral. “Acorde!”

A carruagem parou. Eu olhei em volta, confusa.

“Estamos...”, comecei, mas o guarda do meu lado me cobriu a boca com a mão e colocou um dedo sobre os lábios.

A porta da carruagem abriu com força e um soldado colocou a cabeça para dentro.

“Tem uma árvore caída no meio da estrada”, informou ele. “Mas pode ser uma armadilha. Fiquem alertas e...”

Ele jamais terminou a frase. Um tiro foi disparado e ele caiu para a frente, com uma bala nas costas. De repente, o ar foi invadido por gritos de pânico, e pelo som de tiros de rifle de trincar os dentes enquanto uma saraivada de balas acertava a carruagem.

“Abaixe-se!”, o guarda ao meu lado gritou, protegendo meu corpo com o dele, enquanto Ivan chutava o soldado morto para fora de seu caminho e puxava a porta para fechá-la.

“Fjerdanos”, disse o guarda, espiando do lado de fora.

Ivan se virou para Fedyor e o guarda ao lado dele. “Fedyor, vá com ele. Você cobre esse lado. Nós iremos pelo outro. Custe o que custar, defenda a carruagem.”

Fedyor sacou uma faca enorme de seu cinto e me entregou. “Fique rente ao chão e quieta.”

Os Grishas esperaram com os guardas, agachados ao lado da janela, então, após um sinal de Ivan, eles saltaram um para cada lado da carruagem, batendo as portas atrás deles. Eu me encolhi no chão, apertando o punho pesado da faca, joelhos contra o peito, as costas pressionadas contra a base do assento. Do lado de fora, podia ouvir os sons de luta, metal contra metal, grunhidos e gritos, os cavalos relinchando. A carruagem balançou quando um corpo colidiu contra o vidro da janela. Vi apavorada que era um dos meus guardas. Seu corpo deixou um rastro vermelho no vidro conforme deslizava para fora do meu campo de visão.

A porta da carruagem foi aberta e um homem de rosto selvagem e barba amarela apareceu. Eu me arrastei para o outro lado, a faca erguida na minha frente. Ele gritou algo para os seus compatriotas em um idioma fjerdano estranho e segurou minha perna. Enquanto eu o chutava, a porta atrás de mim foi aberta e eu praticamente tombei em outro homem barbado. Ele me segurou por baixo dos braços e me puxou com força da carruagem enquanto eu gritava e sacudia a faca.

Devo tê-lo atingido, porque ele me xingou e afrouxou as mãos ao meu redor. Eu lutei para ficar de pé e corri. Nós estávamos em um vale arborizado onde Vy se estreitava para passar entre duas colinas inclinadas. Ao meu redor, soldados e Grishas lutavam contra homens barbados. Árvores explodiram em chamas, pegas na direção do fogo Grisha. Vi Fedyor esticar a mão e o homem na frente dele desabar no chão, apertando o peito, com sangue escorrendo da boca.

Corri sem direção, escalando a colina mais próxima, meus pés deslizando sobre as folhas caídas que cobriam o chão da floresta, minha respiração cada vez mais ofegante. Subi metade do declive antes de ser abordada por trás. Caí para a frente e a faca voou das minhas mãos, enquanto eu usava os braços para aparar a queda.

GIrei e chutei enquanto o homem de barba amarela agarrava as minhas pernas. Olhei desesperada para o vale, mas os soldados e os Grishas lá embaixo estavam lutando pela vida deles, claramente em menor número e incapazes de vir me ajudar. Lutei e me sacudi, mas o fjerdano era forte demais. Ele ficou em cima de mim, usando os joelhos para prender meus braços ao lado do meu corpo, e pegou sua faca.

“Eu vou estripar você aqui mesmo, sua bruxa”, ele rosnou com um sotaque fjerdano carregado.

Naquele momento, ouvi o barulho de cascos, e meu atacante virou a cabeça para olhar para a estrada.

Um grupo de cavaleiros bramia para dentro do vale, seus keftas intercalando vermelho e azul, suas mãos brilhando de fogo e relâmpagos.

O cavaleiro que os liderava estava vestido de preto.

O Darkling deslizou de sua montaria e estendeu as mãos bem abertas. Depois, as uniu provocando o som de uma explosão.

Novelos de escuridão dispararam de suas mãos entrelaçadas, serpenteando através do vale para encontrar os assassinos fjerdanos, e então deslizaram até seus corpos para envolver seus rostos na sombra agitada.

Eles gritaram. Alguns deixaram cair suas espadas, outros as sacudiram cegamente.

Com um misto de reverência e horror, assisti aos combatentes ravkanos aproveitarem a vantagem e cortarem com facilidade os homens cegos e indefesos.

O homem barbado em cima de mim murmurou algo que não compreendi. Pensei que poderia ser uma oração. Ele encarava o vazio, congelado com a chegada do Darkling, o terror palpável. Eu aproveitei a chance.

“Estou aqui!”, gritei na direção na encosta.

A cabeça do Darkling se virou. Ele ergueu as mãos.

“Nej!”, o fjerdano gritou, a faca mantida no alto. “Eu não preciso ver para enfiar minha faca no coração dela!”

Prendi a respiração. O silêncio tomou conta do vale, quebrado apenas pelos gemidos dos homens morrendo. O Darkling abaixou as mãos.

“Você deve ter percebido que está cercado”, disse ele, calmamente, sua voz conduzida por entre as árvores.

O assassino olhava da direita para a esquerda. Em seguida, olhou para o topo da colina, de onde soldados ravkanos iam surgindo, rifles prontos para disparar. Enquanto o fjerdano olhava de um lado para outro freneticamente, o Darkling avançou alguns passos pelo declive.

“Não chegue mais perto!”, o homem gritou.

O Darkling parou. “Entregue-a para mim”, disse ele, “e deixarei você correr de volta para o seu rei.”

O assassino deu uma risadinha louca. “Oh, não, não. Eu não acho que isso vá acontecer”, disse ele, sacudindo a cabeça, a faca mantida acima do meu coração acelerado, sua ponta cruel brilhando no sol. “O Darkling não poupa vidas.” Ele olhou para mim. Seus cílios eram louro claro, quase invisíveis.

“Ele não terá você”, ele murmurou suavemente. “Ele não terá a bruxa. Nem terá esse poder.” O homem ergueu a faca ainda mais alto e gritou: “Skirden Fjerda!”

A faca mergulhou em um arco brilhante. Eu virei a cabeça e apertei os olhos com medo. Ao fazer isso, vislumbrei o Darkling, seu braço cortando o ar na minha frente. Ouvi outro estalo como um trovão e depois... nada.

Devagar, abri os olhos e absorvi o terror diante de mim. Escancarei a boca para gritar, mas nenhum som saiu.

O homem em cima de mim tinha sido cortado em dois. Sua cabeça, seu ombro e seu braço direito repousavam sobre o solo da floresta, a mão branca ainda segurando a faca. O resto dele balançou por um instante sobre mim, um fiapo negro de fumaça sumindo no ar ao lado da ferida que percorria o comprimento de seu torso cortado.

Então, o que restava dele caiu para a frente.

Eu recuperei a voz e gritei. Rastejei para trás, me afastando do corpo mutilado, incapaz de ficar de pé, incapaz de desviar o olhar daquela visão horrível, meu corpo tremendo sem controle.

O Darkling percorreu a colina e ajoelhou ao meu lado, bloqueando minha visão do corpo. “Olhe para mim”, ele instruiu.

Tentei me concentrar em seu rosto, mas tudo que podia ver era o corpo cortado do assassino, seu sangue se acumulando nas folhas úmidas. “O que... o que você fez com ele?”, perguntei, com a voz tremendo.

“O que eu precisava fazer. Você consegue ficar de pé?”

Eu assenti, ainda tremendo. Ele pegou minhas mãos e me ajudou a levantar. Quando meu olhar escapou de volta para o corpo, ele pegou o meu queixo e atraiu meus olhos de volta para os dele. “Para mim”, ele ordenou.

Concordei e tentei manter meus olhos fixos no Darkling, conforme ele me conduzia para baixo da colina e gritava ordens para seus homens.

“Liberem a estrada. Eu preciso de vinte cavaleiros.”

“E a garota?”, gritou Ivan.

“Ela vai comigo”, disse o Darkling.

Ele me deixou com seu cavalo enquanto se reunia com Ivan e seus capitães. Fiquei aliviada de ver Fedyor com eles, segurando o braço, mas parecendo bem de resto. Bati no flanco suado do cavalo e respirei o cheiro de couro limpo da sela, tentando desacelerar os batimentos do meu coração e ignorar o que eu sabia estar atrás de mim na colina.

Alguns minutos depois, vi soldados e Grishas montando seus cavalos. Vários homens tinham terminado de tirar a árvore da estrada e outros cavalgavam, indo embora com a carruagem bastante avariada.

“Aquilo foi uma isca”, disse o Darkling, se aproximando pela lateral. “Nós tomaremos as trilhas ao sudeste. É o que deveríamos ter feito desde o início.”

“Então você comete erros”, eu disse sem pensar.

Ele parou de colocar as luvas e pressionei meus lábios, nervosa. “Eu não quis dizer...”

“É claro que cometo erros”, disse ele, com um meio sorriso. “Só não é algo frequente.”

Ele ergueu o capuz e me ofereceu a mão para me ajudar a subir no cavalo. Por um momento, hesitei. Ele continuou diante de mim, um cavaleiro negro, coberto de preto, seu rosto nas sombras.

A imagem do homem cortado surgiu em minha mente e meu estômago revirou.

Como se lesse meus pensamentos, ele repetiu: “Eu fiz o que precisava fazer, Alina.”

Eu sabia disso. Ele tinha salvado a minha vida. Além do mais, que outra escolha eu tinha? Coloquei a mão na dele e deixei o Darkling me ajudar com a sela. Ele deslizou atrás de mim e esporeou o cavalo para iniciar o trote.

Conforme deixávamos o vale, senti o peso da realidade do que tinha acabado de acontecer me abater.

“Você está tremendo”, disse ele.

“Eu não estou acostumada com gente tentando me matar.”

“Sério? Eu nem dou mais atenção.”

Eu me virei para olhar para ele. Ainda havia o traço de um sorriso, mas não estava totalmente certa de que ele estava brincando. Voltei a olhar para a frente. “E eu acabei de ver um homem ser cortado ao meio.” Mantive a voz baixa, mas não podia esconder o fato de que ainda tremia.

O Darkling passou as rédeas para apenas uma das mãos e tirou uma de suas luvas. Fiquei tensa quando o senti deslizar sua palma nua sob meu cabelo e repousá-la na minha nuca.

Minha surpresa deu lugar à calma quando a mesma sensação de poder e certeza me inundou. Com uma das mãos segurando minha cabeça, ele fez o cavalo passar para um galope. Fechei os olhos e tentei não pensar. Logo, apesar do movimento do cavalo e dos horrores do dia, caí em um sono conturbado.





Os dias seguintes passaram em uma mancha de desconforto e exaustão. Nós ficamos fora de Vy e seguimos por estradas laterais e trilhas estreitas de caça, nos movendo tão rápido quanto o terreno montanhoso e por v