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Minha versão de você

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Year:
2017
Language:
portuguese
ISBN 13:
9788593911057
File:
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One man guy

Year:
2015
Language:
portuguese
File:
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Garoto encontra garoto

Year:
2014
Language:
portuguese
File:
EPUB, 986 KB
4.0 / 5.0
Hoo Editora Ltda.

Rua do Bosque, 1589 – Bloco 2 – Conj. 605

Barra Funda – Cep: 01136-001 – São Paulo/SP

Telefone/Fax: (11) 3392-3336

www.hooeditora.com.br

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Christina Lauren





Autoboyography

Copyright © 2017 by Christina Lauren © 2017 by Hoo Editora

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Diretor editorial: Luis Matos

Coordenadora chefe: Rayanna Pereira

Assistentes editoriais: Aline Graça e Letícia Nakamura

Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida, sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros. Tradução: Mauricio Tamboni

Preparação: Luis Fernando

Revisão: Jadson Gomes

Mariana Loreto

Capa: Rebecca Barboza

Diagramação: Vanúcia Santos (AS Edições)





Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Angélica Ilacqua CRB-8/7057



L412m

Lauren, Christina

Minha versão de você / Christina Lauren ; tradução de Mauricio Tamboni – São Paulo : Hoo Editora, 2017.

320 p.

ISBN: 978-85-93911-05-7

Título original: Autoboyography

1. Literatura norte-americana 2. Literatura erótica 3. Homossexualidade I. Título II. Tamborini, Mauricio.

17-1319 CDD 813.6





A Matty, porque este livro não existiria sem você.



A todos os adolescentes que já precisaram ouvir estas palavras: você é perfeito exatamente como é.



E amor é amor é amor é amor é amor é amor é amor é amor, não pode ser morto nem deixado de lado.



Lin-Manuel Miranda





O fim de nossas últimas férias de inverno parece ser quase o início de uma volta olímpica. Estamos no penúltimo semestre da nossa jornada no ensino médio, e falta um último – simbólico, francamente – semestre a vencer. Quero dar início às celebrações como um cara comum: com um momento de privacidade e algumas horas sem pensar em nada, navegando por aquela toca do coelho chamada YouTube. Infelizmente, porém, nada disso vai acontecer.;  Porque, do outro lado da cama, Autumn me lança um olhar fulminante, esperando a minha explicação.

Minha grade não está pronta, e as aulas começam em dois dias, e as vagas nas melhores disciplinas se esgotam rapidamente, e, Tanner, você é sempre assim.

Não que Autumn esteja errada. Eu sou mesmo assim. Mas não posso fazer nada se ela é a formiga e eu a cigarra nessa relação. Sempre foi assim.

– Está tudo bem.

– Está tudo bem. – Ela repete, jogando a caneta que segura. – Por que não estampa logo uma camiseta com essa frase?

Autumn é minha rocha, meu porto seguro, a melhor dos melhores. Mas, quando o assunto é a escola, ela se transforma em um verdadeiro purgante.

Viro-me de barriga para cima, olho para o teto do quarto. No começo do ensino médio – logo depois que me mudei para cá e Autumn me colocou debaixo de sua asa –, em seu aniversário, dei-lhe um pôster de uma gatinha mergulhando em uma piscina de bolinhas felpudas. Até hoje esse pôster continua firmemente pregado na parede. A gata é uma graça, mas acho que, no penúltimo ano, a doçura de sua inocência foi pouco a pouco manchada pela estranheza inerente. Então, acima da frase motivacional “Mergulhe, gatinha!”, colei quatro post-its com o que acredito que o criador do pôster queria dizer: NÃO SEJA TÃO MULHERZINHA!

Autumn deve estar de acordo com a minha edição, afinal, deixou os post-its exatamente onde eu os coloquei.

Viro a cabeça para olhar em sua direção.

– Por que está preocupada com isso? A grade de disciplinas é minha, afinal de contas.

– Não estou preocupada – garante, mastigando alguns biscoitos. – Mas você sabe que as vagas nas disciplinas legais estão se esgotando super-rápido. Não quero que termine na aula de Química de Hoye, porque ele passa o dobro de lição de casa, o que vai atrapalhar minha vida social.

Em parte, é verdade. Fazer Química com Hoye de fato atrapalharia a vida social de Autumn – sou eu que tenho carro e que a levo aos lugares na maioria das vezes. Mas o que ela realmente detesta é o fato de eu deixar as coisas para o último minuto e, mesmo assim, conseguir o que quero. Nós dois somos bons alunos, cada um do seu jeito. Ambos temos notas altas e arrasamos nas provas. Porém, quando o assunto é a lição de casa, Autumn mais parece um cachorro com um osso, ao passo que eu sou como um gato, deitado, em uma janela ensolarada. Se a lição está por perto e parece interessante, eu a faço com prazer.

– Bem, sua vida social é nossa prioridade. – Solto o peso do corpo de um lado a outro, recolhendo as migalhas de biscoito presas em meu antebraço.

Elas deixaram uma marca ali, entalhes vermelhos minúsculos na pele, como pedrinhas deixariam. Autumn bem que podia se levantar e colocar em prática, neste quarto, sua obsessão por limpeza.

– Autumn, meu Deus, você é uma porca. Olhe só como deixou esta cama.

Ela responde enfiando mais um punhado de Ritz na boca, deixando mais um caminho de migalhas no edredom da Mulher-Maravilha. Seus cabelos ruivos estão presos em um coque bagunçado sobre a cabeça e ela usa o pijama do Scooby-Doo que ganhou aos 14 anos de idade. Ainda serve... praticamente.

– Se você trouxer o Eric aqui, ele vai ficar horrorizado – provoco.

Eric é outro de nossos amigos e um dos poucos garotos do colégio que não é mórmon. Acho que, tecnicamente, Eric é mórmon – bem, pelo menos, seus pais são. São o que chamam por aí de “mórmon light”. Consomem álcool e cafeína, mas ainda mantêm uma relação considerável com a igreja. O melhor dos dois mundos, ele diz, embora seja fácil perceber que os alunos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que estudam em Provo High discordam. Quando falamos de círculos sociais, um “mórmon light” mais se parece com um não mórmon. Como eu.

Algumas migalhas de biscoito voam quando Autumn tosse fingindo repulsa ao ouvir minhas palavras.

– Não quero que Eric passe nem perto da minha cama.

E ainda assim, cá estou eu, deitado na cama dela. O simples fato de eu poder entrar em seu quarto é uma prova do quanto sua mãe confia em mim. Bem, pode ser que a senhora Green sinta que nada vai acontecer aqui entre mim e Auddy.

Já tentamos uma vez, durante as férias de inverno do nosso segundo ano. Eu vivia em Provo há apenas cinco meses, mas rolou uma química imediata entre nós – impulsionada por muitas disciplinas em comum e por um conforto mútuo produzido por nosso status de não mórmons em um colégio tomado pelos mórmons. Infelizmente, a química se dissolveu para mim quando as coisas se tornaram físicas e, por um milagre, nos esquivamos daquela situação constrangedora do pós-amasso. Não vou arriscar outra vez.

Ela parece se tornar hiperconsciente de nossa proximidade no mesmo momento em que eu percebo, então se ajeita na cama e puxa o pijama para cobrir todo o torso. Eu me sento e apoio as costas na cabeceira: uma posição mais segura.

– Qual foi a primeira que você escolheu?

Autumn olha para sua planilha.

– Polo. Literatura Moderna.

– Eu também. – Roubo um biscoito e, como um humano civilizado, consigo comer sem derrubar uma migalha sequer. Deslizando o olhar e o dedo indicador pelo meu papel, sinto que esse último semestre parece promissor. – Francamente, meu cronograma não está nada ruim. Só preciso acrescentar alguma coisa aqui ou ali.

– Talvez pudesse fazer o Seminário – Autumn bate as mãos toda alegre.

Seus olhos são como faróis apontando sua emoção para dentro de uma sala empoeirada: ela quer fazer essa disciplina desde o primeiro ano.

O Seminário... Estou falando sério; quando a escola cita a disciplina em seus boletins de notícias ou anúncios, eles chegam a usar letras maiúsculas – tão pretencioso que chega a ser surreal. ESCREVA UM LIVRO EM UM SEMESTRE, o catálogo alegremente promete, como se isso só pudesse acontecer a quem faz essa disciplina. Como se uma pessoa comum não fosse capaz de reunir palavras suficientes em quatro meses. Quatro meses é toda uma vida.

Os candidatos ao Seminário precisam ter concluído, pelo menos, uma disciplina de Língua Inglesa avançada e ter tido uma média mínima no semestre anterior. Muito embora nosso grupo tenha setenta alunos no total, o professor só aceita matricular quatorze.

Dois anos atrás, o New York Times escreveu um artigo e definiu a disciplina como “um curso ambiciosamente brilhante, dirigido de forma séria e diligente por Tim Fujita, membro da equipe de bestsellers do NYT”. (Conheço essa citação palavra por palavra, porque ela foi impressa, ampliada cerca de cinco mil vezes e dependurada em uma moldura na entrada da escola. Minha maior crítica é o uso excessivo de advérbios, o que faz Autumn me achar petulante). No ano passado, um aluno do último ano chamado Sebastian Brother cursou o Seminário e uma importante editora adquiriu os direitos de seu manuscrito. Eu nem sei quem é esse tal Sebastian, mas já ouvi essa história pelo menos cem vezes. É o filho de um bispo! Escreveu um livro de fantasia! Aparentemente, era incrível. O senhor Fujita enviou o manuscrito a um agente, que vendeu a obra para um pessoal de Nova York. O que se seguiu foi uma espécie de esforço de guerra civilizado e boom!, o cara estava pronto para começar a estudar na Universidade Brigham Young, a BYU, mas vai ter que deixar o curso por um tempo para poder fazer um book tour e se tornar o próximo Tolkien. Ou o L. Ron Hubbard1. Embora eu ache que alguns mórmons possam não gostar dessa comparação. Eles não gostam de ser misturados com cultos como a Cientologia. Por outro lado, os seguidores da Cientologia também não gostam nada de serem misturados com os mórmons.

Enfim, depois disso, o Seminário é a única coisa (além da equipe de futebol da BYU e do mar de mórmons) que as pessoas citam quando falam de Provo.

– Você foi aceita? – pergunto sem estar surpreso.

Esse curso significa tudo para Autumn e, além de atender todos os verdadeiros pré-requisitos, ela vem devorando romances sem parar na esperança de ter uma chance de escrever seu próprio livro.

Auddy confirma com a cabeça. Seu sorriso se transforma e passa de um oceano a um oceano cintilante.

– Legal!

– Você também seria aceito se fosse conversar com o professor Fujita. – Ela garante. – Tem notas boas e escreve bem. E mais: ele adora os seus pais.

– Nem.

Estou na esperança de receber cartas de aceite de faculdades em qualquer lugar que não seja aqui – minha mãe me implorou para só me candidatar em outros estados. E o “sim” de qualquer uma dessas escolas depende das minhas notas neste último semestre. Não importa o quão fácil eu imagine que uma disciplina possa ser, não é hora de correr riscos.

Autumn cutuca sua unha.

– Porque, aí, você teria que, digamos, acabar alguma coisa?

– Eu acabei com a sua mãe mais cedo. Acho que você sabe do que estou falando.

Ela puxa os pelos da minha perna e eu deixo escapar um grito espantosamente feminino.

– Tanner. – Ela me chama, sentando-se. – Estou falando sério. Seria bom para você. Devia fazer essa disciplina comigo.

– Você fala como se eu quisesse fazer esse curso.

Lançando um olhar fulminante na minha direção, ela fecha uma carranca.

– É o Seminário, seu idiota. Todo mundo quer fazer esse curso.

Entendeu o que eu disse? Ela coloca esse curso em um pedestal e age de um jeito tão nerd que me faz querer proteger a Autumn do futuro, aquela que vai cair no mundo e enfrentar suas batalhas como uma Hermione Nerd. Ofereço o meu melhor sorriso.

– Sim, claro.

– Está preocupado em ter que criar algo original? – indaga. – Eu posso ajudar.

– Qual é? Eu me mudei para cá quando tinha 15 anos, e podemos concordar que essa idade é o pior momento na vida de qualquer pessoa para se mudar de Palo Alto, na Califórnia, para Provo, Utah, com aparelho nos dentes e sem nenhum amigo. Eu tenho histórias para contar.

Sem contar que sou um indivíduo queer e meio-judeu em uma cidade heteronormativa e mórmon.

Não digo essa última parte em voz alta, nem mesmo para Autumn. Não foi nenhum grande acontecimento em Palo Alto quando, aos 13 anos, percebi que gostava de beijar meninos tanto quanto de beijar meninas. Aqui, porém, isso seria um problema enorme. Autumn é a melhor das melhores, verdade seja dita, mas não quero correr o risco de contar a ela e descobrir que ela não passa de uma progressista em teoria, que não aceita um garoto queer em seu quarto.

– Nós todos usávamos aparelho, e você tinha a mim. – Ela solta o corpo outra vez na cama. – Além disso, todo mundo odeia ter quinze anos, Tanner. É um período em que ereções brotam na piscina, acne e raiva afetam os protocolos sociais... Posso garantir que dez em cada quinze alunos desse curso vão escrever sobre os perigos do ensino médio, porque falta a eles uma fonte mais abrangente de referências de ficção.

Uma rápida olhadela nos arquivos do meu passado faz uma sensação de defesa brotar em meu estômago, como se talvez ela estivesse certa. Talvez, eu não seja capaz de criar algo interessante e profundo, e uma obra de ficção tem de vir das profundezas do ser. Meus pais me apoiam – talvez me apoiem até demais –, minha família é um pouco louca, mas maravilhosa. Também tenho uma irmã que não é terrível, embora seja dramática e emo demais, tenho meu próprio carro... Não vivi muitas turbulências.

Então aceno uma negação enquanto belisco sua coxa.

– O que torna você tão profunda?

É uma brincadeira, obviamente. Autumn tem muito sobre o que escrever. Seu pai morreu no Afeganistão quando ela tinha apenas nove anos. Depois, sua mãe, tomada por raiva e mágoa, cortou os laços com a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o que, nesta cidade, é uma deserção com um peso enorme. Mais de 90 por cento das pessoas desta cidade são mórmons. Ser qualquer outra coisa automaticamente o deixa às margens do mundo social. Para piorar, o salário da senhora Green mal dá para a subsistência dela e da filha.

Autumn olha com apatia para mim.

– Eu entendo porque você não quer fazer o curso, Tann. Requer muito trabalho e você é preguiçoso.



Ela me fez morder a isca e acrescentar aquele curso idiota ao meu programa, e, agora, enquanto vamos de carro à escola, juntos, na segunda-feira depois das férias de inverno, Autumn está toda incomodada porque contei que me matriculei no tal Seminário.

Posso sentir seu olhar perfurante na lateral do meu rosto enquanto faço a curva para entrar na Bulldog Boulevard.

– Fujita simplesmente assinou a sua matrícula? – indaga. – Simples assim?

– Auddy, você é louca se estiver irritada com o fato de eu ter me matriculado. Sabe disso, não sabe?

– E... e aí? – Ela indaga, ignorando minha pergunta retórica e virando-se para olhar para a frente. – Você vai fazer o curso?

– Claro, por que não faria? – Entro no estacionamento dos alunos e busco uma vaga próxima à porta, mas é claro que chegamos tarde e não há nenhum lugar conveniente para deixar o carro por aqui.

Encosto em uma área atrás do prédio.

– Tanner, você se deu conta do que está em jogo nesse curso?

– Como eu poderia estudar neste colégio e não saber o que é o Seminário?

Autumn lança um olhar paciente, mas agressivo para mim, porque acabo de usar meu tom de gozação e ela detesta quando faço isso.

– Você vai ter de escrever um livro. Um livro inteiro.

Quando paro de zoar, o cenário é ligeiramente previsível: a porta do meu carro é empurrada de um jeito mais grosseiro do que o normal e o ar frio entra.

– Auddy, o que foi? Eu pensei que tivesse me chamado para fazer essa disciplina com você.

– Sim, mas você não deveria ter se matriculado se não quer fazê-la.

Ofereço meu melhor sorriso, aquele do qual ela mais gosta. Sei que não devia fazer isso, mas, ah, a gente usa as armas que tem à disposição.

– Então, você não devia ter me chamado de preguiçoso.

Ela deixa escapar um gemido selvagem, do qual acho que gosto.

– Você é tão sortudo e nem se dá conta disso!

Ignoro-a enquanto pego minha mochila no porta-malas. Autumn me deixa bastante confuso.

– Entendeu o que eu queria dizer antes? Que para você é muito fácil? – Ela corre atrás de mim. – Eu tive de me candidatar, passar pela entrevista com ele, tipo, suar muito a camisa. Você entrou no gabinete do professor e ele assinou a sua matrícula.

– Não foi exatamente assim. Eu fui ao gabinete, conversei um pouco com ele, falei sobre minha família e, só depois disso, ele assinou a minha matrícula.

Minhas palavras são recebidas com silêncio e, quando me viro, percebo que ela está andando na direção oposta, a caminho de uma entrada lateral.

– A gente se vê na hora do almoço, melhor amiga! – grito.

Auddy levanta o dedo do meio.

O calor dentro do prédio é paradisíaco, mas há muito barulho e o chão está encharcado com a terra e a neve derretida que escorre dos sapatos. Vou derrapando pelo corredor até meu armário, que fica entre o de Sasha Sanderson e o de Jack Thorne, duas das pessoas mais bonitas – e mais gentis – de Provo High.

Em termos sociais, aqui as coisas são mistas. Mesmo dois anos e meio depois, ainda me sinto um aluno recém-chegado, possivelmente porque a maioria dos alunos aqui estudam juntos desde o jardim da infância e frequentam os mesmos lugares – quero dizer, são da mesma congregação e provavelmente se encontram em um milhão de atividades da igreja fora do colégio. Eu, essencialmente, tenho Auddy, Eric e alguns outros amigos que são Santos dos Últimos Dias, mas legais, então eles não deixam a gente louco e seus pais não se preocupam com a possibilidade de podermos corromper seus filhos. Nos tempos de Palo Alto, quando eu era calouro, passei alguns meses mais ou menos saindo com um cara e tinha uns amigos que eu conhecia desde o jardim da infância e que não se escandalizavam quando me viam de mãos dadas com Gabe. Queria ter aproveitado mais aquela liberdade.

Aqui, as meninas flertam comigo, claro, mas a maioria delas é mórmon e jamais, de jeito nenhum, poderiam ficar comigo. A maioria dos pais que seguem essa religião têm a expectativa de que seus filhos se casem em seu Templo e eu, que não sou membro da igreja, simplesmente não posso fazer isso. A não ser que eu me converta, o que, digamos... nunca vai acontecer. Tomemos Sasha como exemplo. Sinto alguma coisa surgindo entre nós. Ela adora flertar e ter contato físico, mas Autumn insiste que essa relação não chegaria a lugar nenhum. O mesmo vale – em medida ainda maior – para as minhas chances com qualquer menino daqui, Santos dos Últimos Dias ou não. Não posso explorar nenhuma oportunidade aqui em Provo. Tenho uma queda por Jack Thorne desde o décimo ano, mas ele está fora dos meus limites por três importantes motivos: (1) homem, (2) mórmon, (3) Provo.

Antes de se irritar comigo hoje de manhã, Auddy me entregou, sem dizer nada, uma cartela de adesivos brilhantes de dinossauros. Então, sem questionar, enfiei-os no bolso; Autumn é conhecia por me entregar coisas que serão úteis em algum momento da vida, então eu as guardo. Quando abro meu armário, percebo sua motivação: sou notoriamente ruim em lembrar meus cronogramas A e B – aqui, adotamos a prática de ter as mesmas aulas em dias alternados, com as grades de um a quatro em alguns dias e as grades de cinco a oito no outro. Toda vez tenho que grudar minha programação no armário e toda vez me vejo sem fita adesiva.

– Você é brilhante. – Sasha elogia, aproximando-se por trás para ver melhor o que estou fazendo. – E, ah-meu-deus, que gracinha! Dinossauros! Tanner, você tem oito anos?

– Eu ganhei de Autumn.

Ouço a reação de Sasha em seu silêncio, nas palavras “esses dois estão ou não estão juntos” não verbalizadas. Todos se perguntam se Autumn e eu transamos casualmente.

Como sempre, deixo-a sem resposta. Sua suspeita é positiva para mim. Involuntariamente, Autumn tem sido meu escudo.

– Belas botas – digo a ela.

Botas que alcançam uma altura sugestiva: pouco acima do joelho. Eu me pergunto de quem ela quer atrair a atenção: dos garotos da escola ou de seus pais em casa. Dou-lhe um adesivo de dinossauro e um beijo na bochecha enquanto passo por ela, antes de atravessar o corredor, levando meus livros comigo.

Provo High não é, de modo algum, uma escola religiosa, mas, às vezes, parece ser. E se tem uma coisa sobre os mórmons que você aprende rápido é que eles focam no positivo: sentimentos positivos, ações positivas, feliz, felicidade, alegre, alegria. Mesmo assim, a disciplina Literatura Moderna com a professora Polo começa com uma notícia inesperada e, sem dúvida, infeliz: nossa primeira leitura será A Redoma de Vidro.

Sinto um leve burburinho se espalhando pela sala enquanto os alunos se mexem em suas cadeiras para trocar olhares furtivos tão dramáticos que seus esforços para serem discretos acabam se provando inúteis. A professora Polo – cabelos selvagens, saia fluida, anéis nos dedões, você conhece o tipo – ignora a comoção. Aliás, acho que está gostando das reações. Ela se agita em seus saltos, esperando que voltemos a nos concentrar no programa de estudos para descobrir o que mais nos aguarda.

A Bíblia Envenenada, de Barbara Kingsolver; Noite, de Elie Wiesel; A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera; O Castelo de Vidro, de Jeannette Walls, e assim por diante, passando por Sula, de Toni Morrison, até as memórias falsas de James Goddamn Frey. Talvez, o mais chocante seja Elmer Gantry, de Sinclair Lewis, um romance sobre o fanatismo religioso e um ministro assustador. Bastante apropriado. A professora Polo é atrevida e corajosa, e eu gosto muito de ver o chão dessa gente à minha volta tremer.

Autumn está sentada de olhos arregalados ao meu lado, ainda sem falar comigo. Já leu quase todos os livros da lista e, se a conheço bem, sei o que está pensando: Ainda dá tempo de pedir transferência e ir estudar Shakespeare com o professor Geiser?

Auddy se vira e me encara com olhos estreitos enquanto lê a minha mente. Resmunga outra vez, e não consigo segurar a risada que me escapa.

Também já li quase todos esses livros. Autumn insistiu para que eu os lesse.

Solto o corpo no encosto da carteira, entrelaço os dedos atrás da cabeça e lanço mais um sorriso para ela.

Moleza. Tenho um semestre tranquilo à minha frente.

Ron Hubbard foi o fundador da Igreja da Cientologia, religião que recebe influência do Hinduísmo e Budismo e acredita que as pessoas são seres imortais.





Quando chega a quarta aula, Autumn está toda nervosa. Animada para o Seminário, mas ainda irritada por eu ter sido aceito do jeito como fui. Simplesmente sigo-a pelo corredor e tento não a deixar me ver sorrindo, mesmo quando propositalmente me evita, já dentro da sala, aproximando-se de um grupo de carteiras, onde resta apenas uma vaga livre.

– Aqui, Auddy.

De pé na última fileira, guardo uma cadeira vazia para ela e outra para mim.

Ela tem a opção de assistir à aula comigo ou parecer misteriosamente petulante, mas logo se aproxima, resmungando:

– Você é uma peste.

– Eu te amo, mas só um pouquinho.

Auddy ri.

– Não estrague a minha experiência neste curso.

Aí está. Eu poderia arruinar sua experiência sendo um enorme incômodo no meio de algo pelo que ela tanto se esforçou. Será que ela acha que eu poderia querer fazer isso?

Do jeito que estou agindo, Auddy provavelmente pensa que sim.

– Não vou estragar.

Deslizo minha borracha pela mesa, aquela com uma ilustração antiga do He-Man impressa que ela me deu no Natal dois anos atrás. O que no passado fora um quadrado branco, agora não passa de uma bolinha acinzentada. O He-Man atual mal tem rosto e só lhe resta uma perna.

O nariz sardento de Autumn se repuxa enquanto ela me lança uma carranca meio desatenta. Estou perdoado.

O professor Fujita entra com uma pilha de livros nos braços. Desliza-os graciosamente pela mesa posicionada no centro do semicírculo de carteiras e os ignora quando eles caem em uma pilha bagunçada. Uma cópia de A Dança da Morte, de Stephen King, desaba duramente no chão, pousando virado para baixo e aberto. Ele ignora a cena; de canto de olho, posso ver Autumn ajeitando o corpo e sei que agora está extremamente preocupada com as páginas da enorme encadernação, que se tornam mais amassadas a cada segundo que ele passa ali.

– Bom dia! – O professor Fujita cantarola antes de olhar para o relógio na parede atrás da gente. – Ops! Boa tarde! Meu nome é Tim Fujita, mas todos me chamam de Fujita.

Sempre gostei muito do Fujita, mas o jeito como ele expõe seu próprio nome me faz gostar sete por cento menos.

Murmuramos nossos cumprimentos bem baixinho, não sei se porque nos sentimos intimidados ou porque estamos cansados depois do almoço. Ele sorri para nós, analisando nossos rostos, um a um. Olho para a organização da classe à nossa volta: Josh, Dustin, Amanda, Julie, Clive, Burrito Dave, Sabine, Dave do Futebol, Asher, Kylie, McKenna, James, Levi.

Todos são mórmons. Cabelos aparados, mangas curtas, boa postura. Na fileira mais atrás, Autumn e eu somos um par de árvores retorcidas pairando sobre um gramado exuberante.

Ao me ver, Fujita lança uma piscadela em minha direção. Ele considera minha mãe uma super-heroína. Ao meu lado, Autumn deixa escapar uma expiração comedida. Por causa da minha mãe (um gênio da computação) e meu pai (um cirurgião cardíaco muito reconhecido que, segundo os jornais, salvou o governador de Utah), venho recebendo tratamento especial dos professores desde que nos mudamos para esta cidade. Fujita ter me aceitado no Seminário é, sem dúvida, um exemplo desses privilégios.

– Bem-vindos, pessoal. – Ele estende a mão e desliza mais um olhar pela sala. – Onde está ele?

Ao notar nosso silêncio confuso, Fujita analisa outra vez a sala e então nos observa em busca de respostas.

– Quem? – Dustin, sentado à frente como de costume, enfim pergunta.

Fujita olha para o relógio de pulso como se quisesse confirmar que está no lugar certo.

– Eu esperava que tivéssemos uma surpresa legal, e acho que teremos, mas me parece que ele se atrasou um pouquinho.

Respondemos com um silêncio ansioso enquanto suas sobrancelhas lentamente se arqueiam.

– Teremos um assistente especial neste semestre – revela.

Posso imaginar que esteja esperando um rufar de tambores, mas, em vez disso, sua pausa dramática abre espaço para uma sensação desconcertante e anticlimática.

– Acho que vão ficar feliz em saber que Sebastian Brother vai ser o mentor de cada um de vocês!

Um coro de ruídos animados se espalha, vindo dos outros quatorze corpos na sala – um herói mórmon vai vir aqui e dedicar seu tempo a nós. Até Autumn chegou a levar a mão à boca. Para ela – Santo dos Últimos Dias ou não –, Sebastian é uma celebridade local.

Com os dedos entrelaçados à frente do corpo, Fujita apoia todo o seu peso nos calcanhares.

– Seb tem uma agenda muito cheia, obviamente. – Sinto minha mente gemer. Seb... – Mas ele e eu sentimos que essa experiência pode beneficiar todos vocês. Acredito que ele vai inspirá-los. Depois de fazer exatamente este curso, ele, que só tem dezenove anos, está construindo uma carreira literária de prestígio. – Baixando o corpo, Fujita acrescenta confidencialmente: – É claro que li o romance dele. É maravilhoso! Impressionante!

– Será que ele já ouviu falar de Christopher Paolini? – Sussurro para Autumn.

Com seu olhar congelante, ela basicamente me manda calar a boca.

Fujita puxa uma pilha de papéis de uma pasta rasgada e começa a distribui-los.

– Imagino que possamos deixar de lado a pergunta do porquê de vocês estarem aqui. Estão aqui para escrever um livro, certo? – Quase todo mundo assente com entusiasmo. – E farão precisamente isso. Quatro meses não é muito tempo, verdade, mas vocês vão escrever. Vão dar um jeito. É por isso que eu estou aqui. Vamos começar a trabalhar...

Ele anda pela sala enquanto continua falando:

– Sugeri uma lista de leituras e tenho uma variedade de fontes sobre como começar e quais tipos de processos de escrita existem por aí, mas, na verdade, a única maneira de escrever um livro é efetivamente escrevendo. Não importa como vocês fazem, cada um tem seu processo.

Olho para o programa de estudos e a programação da disciplina que ele colocou em minha carteira e sinto minha cabeça arder, sinto aquele formigar do pânico se arrastando por meu pescoço.

Eu tenho que ter uma ideia esta semana.

Uma semana.

Quando sinto a atenção de Autumn focada em mim, viro-me e lhe ofereço um sorriso tranquilo. Porém, parece que meu gesto não saiu tão tranquilo quanto eu esperava. O sorriso dela falha, repuxando-se para um lado.

– Você dá conta – ela diz baixinho, lendo minha reação.

Peça-me para diferenciar funções trigonométricas e eu arraso. Entregue-me um kit de modelagem molecular e sou capaz de criar o composto orgânico mais lindo que você já viu na vida. Mas pedir para eu extrair algo das minhas emoções e dividir com o mundo? Caos mental. Não sinto exatamente prazer em trabalhar, mas junto com isso vem meu pavor de entregar um trabalho ruim, independentemente do que seja. Nunca antes tentei ser criativo, e só me dei conta disso agora, sentado aqui.

Para piorar as coisas, Fujita acrescenta:

– Mas a experiência me fez aprender que a maioria de vocês já tem uma ideia em mente. Ao longo da próxima semana, Sebastian e eu os ajudaremos a aprimorar, a polir essa ideia. Depois, vocês mergulham de cabeça!

Não consigo sequer achar graça no fato de ele ter repetido o slogan motivacional no pôster de gatinho de Autumn porque, pela primeira vez em... bem, talvez pela primeira vez em toda a minha vida, sinto-me sobrecarregado pelas dificuldades.

Autumn coloca a borracha do He-Man na minha mesa e a usa como desculpa para apertar minha mão.

As portas laterais se abrem e as cadeiras se esfregam levemente no assoalho enquanto os alunos se viram. Todos sabemos quem é, mas, mesmo assim, olhamos.



A única vez que vi Autumn bêbada foi no verão passado. Também foi a única vez que ela admitiu estar apaixonada por mim. Pensei que tivéssemos chegado a um acordo depois de nossa sessão de amassos dois anos atrás, mas parece que não. Em algum momento, depois de beber quatro limonadas com álcool, mas antes de me acordar com fortes sacudidas no chão de sua casa e me implorar com hálito embriagado para esquecer tudo o que disse, ela balbuciou por uma hora sobre os sentimentos secretos que vinha alimentando nos últimos anos. Lembro-me de três frases claras pronunciadas em meio à confusão gerada por minha própria embriaguez e somada à bagunça de suas incoerências alimentadas pelo álcool:

Seu rosto faz sentido para mim.

Às vezes, tenho a estranha sensação de que eu não seria suficiente para você.

Eu te amo, mas só um pouquinho.

Sendo quem somos, a única maneira de vencer o profundo constrangimento que possivelmente surgiria em seguida foi fazer brincadeiras com o ocorrido ao longo de toda uma semana.

Eu te amo, mas só um pouquinho se tornou nosso novo mote de melhores amigos. Autumn tentou explicar a lógica de o meu rosto fazer sentido para ela algumas vezes, mas não conseguiu – tinha alguma coisa a ver com a simetria dos traços e como eles a agradavam em um nível instintivo. Mesmo assim, esse tornou-se um dos meus non sequiturs preferidos quando a vejo se estressando com alguma coisa. Apenas digo: “Auddy, fique calma, seu rosto faz sentido para mim”. E ela não se aguenta. Toda vez, começa a rir.

A segunda frase, às vezes, tenho a estranha sensação de que eu não seria suficiente para você, me afetou mais. Embora eu viesse tentando reunir a coragem necessária para me assumir para Auddy, depois que ela disse isso, mudei de ideia. Suas palavras fizeram brotar uma sensação destoante dentro de mim, o conflito interno sobre o que significa ser bissexual. É como o diabo em meu ombro, a percepção ignorante que recebo de todos os lados, tanto de dentro quanto de fora da comunidade queer. As pessoas dizem que a bissexualidade está ligada à indecisão, que os bissexuais não conseguem se satisfazer com uma única pessoa, que é um rótulo para não se comprometer com ninguém. E aí surge o anjo no outro ombro – no qual os livros e panfletos a favor da diversidade me fazem acreditar – dizendo que não, que significa que estou aberto a me apaixonar por qualquer pessoa. Fico feliz em ter um compromisso com alguém, mas as partes íntimas não importam tanto quanto a pessoa como um todo.

Todavia, como nunca me apaixonei e nunca senti aquela ardência feroz por ninguém, não sei se a pessoa certa vai ser um menino ou uma menina. Quando Autumn falou sobre não ser suficiente para mim, deixei passar e fingi ter esquecido suas palavras. O problema é que eu, de fato, lembro. Aliás, vivo obcecado por elas enquanto finjo não esperar dolorosamente o momento quando alguém vai me derrubar, me fazer ter certeza de que o quero tanto quanto nunca quis nada em toda a vida.

Então, quando Sebastian Brother entra na sala de aula e me vê e eu o vejo, tenho a sensação de que estou caindo da cadeira.

Estou embriagado.

E sei o que Autumn quis dizer sobre os traços do rosto.

Eu já o vi antes, nos corredores do colégio, mas nunca dei muita atenção: é um dos garotos perfeitos, uber mórmon. É filho de um bispo e, pelo que me consta, incrivelmente devoto.

Mas aqui me vejo incapaz de desviar minha atenção. Sebastian não é mais um garoto. Noto seu maxilar bem marcado e seus olhos amendoados, as bochechas avermelhadas e o pomo de Adão se movimentando ansiosamente enquanto ele engole em seco com o peso dos nossos olhares.

– Oi, pessoal – cumprimenta, acenando e andando apressadamente até o centro da sala para dar um aperto de mão em Fujita.

Os olhos de toda uma sala de aula miram nele como se fosse um alvo.

Fujita abre um enorme sorriso para nós.

– O que foi que eu disse?

Os cabelos de Sebastian são raspados na lateral, cheios na parte superior. Seu sorriso é tão enorme, e iluminado, e puro: ele é lindo pra caramba. Mas tem algo mais, alguma coisa em seu jeito de se movimentar que provoca a minha fascinação. Talvez seja o fato de seu olhar não repousar tempo demais em uma pessoa. Talvez seja o fato de eu sentir que ele está ligeiramente assustado com a gente.

Sebastian observa a classe a partir da primeira fila e seus olhos brilham ao encontrarem os meus – por uma pequena fração de segundo, e depois de novo, como um prisma refletindo a luz. Porque ele me olha outra vez. Essa fração de segundo é o suficiente para Sebastian perceber minha paixão imediata. Puta merda, ele nota muito rápido! Esse tipo de coisa deve acontecer com esse cara o tempo todo – um olhar de adoração vindo do outro lado da sala –, mas, para mim, estar tão instantaneamente apaixonado é totalmente estranho. No peito, meus pulmões são animais selvagens arranhando a jaula.

– Nossa, cara! – Autumn murmura ao meu lado. – O sorriso dele me deixa boba.

As palavras dela são um leve eco de meus próprios pensamentos: o sorriso do Sebastian me arruína. A sensação me deixa desconfortável, um golpe dramático me dizendo que preciso ter esse cara ou não vou conseguir ficar bem.

Ao meu lado, ela suspira desapontada, alheia ao meu colapso interno.

– Uma pena que seja mórmon.





Segunda-feira à tarde: estamos sem lição de casa. Minha mãe chega mais cedo e entende essa soma de fatores como um sinal de que precisa levar seus filhos às compras. Minha irmã, Hailey, fica feliz com a oportunidade de comprar mais roupas de funeral. Concordo em ir, embora sem nenhum entusiasmo, sobretudo, porque sei que, se ficasse sozinho com meus eletrônicos, passaria horas no laptop com múltiplas abas do navegador aberto em minhas tentativas de descobrir mais sobre Sebastian Brother.

Felizmente, Autumn vai com a gente. O superpoder de minha mãe parece ser sua misteriosa capacidade de encontrar as roupas mais horríveis para seus filhos. Autumn, portanto, é uma grande ajuda. Mas, infelizmente, ter as três à minha volta significa que a investigação sobre Sebastian precisa ser feita discretamente. Autumn pode lançar uma expressão esquisita se me pegar procurando fotos de homens bonitos no Google. Minha mãe e Hailey sabem que eu gosto de meninos, mas minha mãe, em especial, não ficaria nada contente em saber que o objeto do meu interesse atual é o filho de um bispo da cidade.

Religião organizada não é algo muito bem visto em nossa casa. Meu pai é judeu, mas não vai ao templo há anos. Minha mãe cresceu com os Santos dos Últimos Dias, alguns quilômetros ao norte daqui, em Salt Lake City, mas deixou a igreja aos 19 anos, quando sua irmã mais nova, minha tia Emily, na época uma estudante, saiu do armário e seus pais e a igreja a abandonaram. É claro que eu não existia na época, mas ouvi algumas histórias e vejo a veia na testa de minha mãe saltar sempre que qualquer assunto sobre a mentalidade fechada da igreja surge. Minha mãe não queria romper com seus pais, mas, como qualquer ser humano normal e com um pingo de compaixão, não conseguiu justificar abandonar alguém que amava por causa de uma série de regras registradas em um livro.

Talvez agora você esteja se perguntando por que estamos morando aqui, no lugar com a maior concentração de Santos dos Últimos Dias do mundo. E justamente com a minha mãe? Dois anos e meio atrás, uma startup de softwares bastante importante e enorme a seduziu a deixar seu emprego no Google, onde era a única engenheira de software sênior com genótipo XX (e basicamente mais competente do que todos os outros engenheiros à sua volta). A NextTech ofereceu a posição de CEO, mas ela pediu para ser diretora técnica, uma posição que vinha com o orçamento quase ilimitado para o desenvolvimento de tecnologia. Agora, sua equipe desenvolve softwares de representações holográficas 3D para a NASA.

Para qualquer outra família com dois salários de seis dígitos e mal conseguindo sobreviver em South Bay, a decisão teria sido muito simples. Um salto no salário em um lugar onde o custo de vida caberia em nosso menor armário de Palo Alto? Fechado. Todavia, por causa do passado da minha mãe, a decisão de mudar foi agonizante. Ainda lembro que ouvia meus pais discutindo esse assunto no meio da madrugada enquanto Hailey e eu deveríamos estar dormindo. Ele achava que ela não podia deixar essa oportunidade passar, que seria uma chance de ela estimular a imaginação. Minha mãe concordava, mas ficava preocupada com o modo que a vida em Utah poderia afetar negativamente seus filhos.

Em especial, ela se preocupava com o quanto a vida aqui me afetaria. Dois meses antes de a oferta surgir, assumi para os meus pais que era bissexual. Bem, “assumi” talvez signifique dar créditos demais para mim mesmo. Para sua monografia de pós-graduação, minha mãe criou um aplicativo indetectável que ajuda os empregadores a saberem o que seus funcionários estão fazendo. No fim das contas, a coisa era tão amigável ao usuário e tinha uma interface tão agradável que a versão para o consumidor foi criada e vendida para quase todas as casas com um computador nos Estados Unidos. Eu devia ter juntado dois e dois e percebido que meus pais também o usariam em casa, antes de pensar que podia assistir a filmes pornôs no celular.

Foi uma conversa constrangedora, mas, pelo menos, resultou em um acordo: eu podia entrar em certos sites e eles não me stalkeariam na internet, contanto que não visitasse lugares que, como minha mãe colocava, “me dariam expectativas não realistas de como o sexo deve ser ou de como nossos corpos devem ser”.

No fim das contas, meus pais, tão estridentes contra os Santos dos Últimos Dias, levaram a filha emo e o filho queer de volta ao País das Maravilhas dos Santos dos Últimos Dias. Para compensar sua culpa por eu ter de me proteger a todo custo (leia-se: ser muito, muito cuidadoso para quem eu me assumiria), meus pais transformaram a nossa casa em uma espécie de toca do orgulho gay, do orgulho muito gay. Autumn e eu passávamos a maior parte do nosso tempo juntos na casa dela, e Hailey odeia quase todo mundo (e nenhum dos seus amigos revoltados vem para cá), então artigos LGBTQ, panfletos da PFLAG e camisetas de arco-íris são entregues a mim em momentos espontâneos com um beijo e um olhar cheio de orgulho. Minha mãe ocasionalmente coloca um adesivo para carros debaixo da minha fronha, e eu só o encontro quando uma das pontas do papel rígido bate na minha bochecha à noite.

NADA SERIA IGUAL SE VOCÊ NÃO EXISTISSE!

CORAGEM É SER VOCÊ MESMO TODOS OS DIAS EM UM MUNDO

QUE LHE DIZ PARA SER OUTRA PESSOA.

O AMOR NÃO CONHECE LIMITES.

“NORMAL” É SÓ UMA OPÇÃO DA MÁQUINA DE LAVAR!

Autumn já encontrou alguns desses adesivos aqui e ali ao longo dos anos, mas apenas dá de ombros e sussurra: “São Francisco, cara”.

É engraçado imaginar adesivos colados no carro agora, enquanto olho escondido as fotos de Sebastian, porque começo a imaginar as mensagens sendo lidas para mim naquela voz profunda e suave dele. Ouvi Sebastian falar apenas três vezes hoje, mas o simples som de sua voz paira como uma abelha embriagada dentro da minha cabeça.

Oi, pessoal.

Ah, o livro sai em junho.

Estou aqui para ajudar no que precisarem, então podem me usar.

Quase perdi o controle quando ele disse essa última frase.

Uma pesquisa na internet não me diz nada que eu já não soubesse. A maioria dos resultados para “Sebastian Brother” traz informações sobre um restaurante em Omaha, links para artigos sobre o Seminário ou anúncios sobre seu novo livro.

O Google Imagens já é mais como ganhar na loteria. Vejo fotos dele jogando beisebol e futebol (sim, eu salvo uma das fotos) e algumas outras concedendo entrevistas para jornais da região. Clico para ler, mas suas respostas não revelam muito ao seu respeito – parecem bem genéricas. Mesmo assim, em várias fotos, ele está usando gravata. E a gravata combinando com aqueles cabelos? Estou prestes a criar a pasta Banco de Imagens de Sebastian Brother.

Sério, ele é o cara mais bonito que já vi pessoalmente.

O Facebook é um beco sem saída. A conta de Sebastian é trancada (claro que é), então não apenas não consigo ver suas fotos como também não consigo descobrir seu status de relacionamento. Não que eu me importe. Ele é uma espécie de colírio mórmon. Esse golpe de paixão não vai chegar a nada interessante. Eu não deixaria chegar – estamos em lados opostos de uma cerca muito espessa.

Fecho todas as janelas do navegador do meu celular, antes de ceder aos piores tipos possíveis de stalkeamento na internet: a busca inútil por seu Snapchat ou Instagram. Só de pensar em me deparar com uma selfie de um Sebastian sonolento e sem camisa, já sinto o caos se instalando em meu sistema nervoso.

No shopping, Autumn e eu seguimos minha mãe, que anda em meio às araras da seção de roupas masculinas da Nordstrom. Eu me transformo em manequim nas mãos delas. Minha mãe me leva à mesa onde estão as camisas, segura algumas delas na altura do meu peito, estreita os olhos, pede a opinião a Autumn, e as duas debatem antes de, sem dizer claramente, rejeitarem a maioria das peças. Eu não comento nada. A essa altura, já sei como essa dinâmica funciona.

Minha irmã não está por perto, está por aí atrás de suas próprias coisas, mas de vez em quando nos provoca, fruto de sua constante necessidade de brigar com a gente. Autumn e minha mãe se dão bem e, quando estão juntas, consigo um intervalo e não preciso prestar atenção em tudo o que todos estão dizendo; elas se mantêm entretidas uma com a outra.

Minha mãe segura uma camisa horrível, dessas de Velho Oeste, na altura do meu peito.

Não posso deixar essa peça ser aprovada:

– Não.

Ela me ignora e pede a opinião da Autumn. Mas Auddy é Time Tanner e repuxa o nariz em desgosto.

Erguendo a camisa, minha mãe pergunta a ela:

– Como está o seu cronograma do colégio esse semestre?

– Eu estou amando. – Auddy entrega uma camisa azul de mangas curtas da RVCA para minha mãe. Faço um sinal positivo com o polegar antes de ela prosseguir:

– Talvez eu tenha que trocar Literatura Moderna por Shakespeare, e Cálculo provavelmente será uma morte horrível, mas, fora isso, muito bom.

– Tenho certeza de que Tanner vai adorar ajudá-la em Cálculo – anuncia, e sinto Autumn virar os olhos para mim. – E você, querido?

Encosto-me a uma arara, cruzo os braços sobre uma barra prateada.

– Eu decidi fazer Biologia depois do almoço e agora vivo com muito sono quando chega a última aula.

Os cabelos loiros de minha mãe são leves e estão presos em um rabo de cavalo, e ela trocou as roupas de trabalho por calça jeans e suéter. Parece mais jovem vestida assim e, se Hailey deixasse de lado sua mania de querer ser Wandinha Addams, as duas mais pareceriam irmãs do que mãe e filha.

Como se estivesse lendo meus pensamentos, Hailey se materializa, surgindo atrás de mim e soltando uma pilha de tecidos pretos nos braços de nossa mãe.

– Não gostei de nenhuma calça, mas essas blusas são legais – comenta. – Podemos ir comer? Estou morrendo de fome.

Minha mãe olha para a pilha em seus braços. Posso vê-la mentalmente contando até dez. Se minha memória não falha, desde sempre meus pais nos encorajaram a ser nós mesmos. Quando comecei a questionar minha sexualidade, eles me disseram que seu amor por mim não dependia de onde eu enfiasse meu pau.

Está bem, eles não usaram exatamente essas palavras; só estou resumindo.

No ano passado, quando minha irmã chegou à conclusão de que queria começar a parecer um cadáver, eles se esforçaram para não falar nada e a encorajaram a se expressar como quisesse. Nossos pais são verdadeiros santos quando o assunto é paciência, mas estou começando a sentir que essa paciência está se esgotando.

– Três blusas. – Adverte minha mãe, devolvendo tudo a Hailey. – Eu falei três blusas e duas calças. Você já tem uma dúzia de blusas pretas, não precisa de outra dúzia. – Então, vira-se para mim, frustrando a tentativa de Hailey de responder. – Então, Biologia dá sono. O que mais?

– Auddy deveria continuar cursando Literatura Moderna. Vai tirar A facinho, facinho.

– Ah! O professor-assistente do Seminário é lindo – Autumn confessa a ela.

Como que por um instinto protetor, o olhar da minha mãe desliza na minha direção e depois outra vez para Auddy.

– Quem é?

Autumn deixa escapar uma expiração distraída.

– Sebastian Brother.

Atrás de nós, minha irmã resmunga, então nos viramos à espera do inevitável.

– A irmã dele, Lizzy, está na minha turma. Ela vive sempre tão feliz.

Fecho a cara ao ouvir as palavras.

– Um nojo, não é?

– Tanner! – Minha mãe exclama em tom de aviso.

Hailey empurra meu ombro.

– Cale a boca, Tanner.

– Hailey!

Autumn se esforça para acabar com o climão, voltando ao assunto sobre o qual falava:

– Sebastian fez essa disciplina no ano passado. Parece que seu livro ficou muito bom.

Minha mãe me passa uma blusa de lã tão horrenda que me recuso a pegá-la. Coloca a peça outra vez diante do meu peito, lançando para mim um daqueles olhares de mãe.

– Ah, ele vendeu os direitos, não foi? – pergunta a Autumn.

Minha amiga assente.

– Espero que seja adaptado para o cinema e que Sebastian tenha um papel no filme. Ele tem cabelos tão lindos e macios e um sorriso que... Meu Deus!

– Ele tem umas bochechas tão coradas que parece usar blush – lanço, antes de pensar duas vezes.

Ao meu lado, minha mãe enrijece. Mas Auddy não parece perceber nada de estranho em minhas palavras.

– É verdade.

Minha mãe ergue outra vez a blusa e dá uma risada apertada.

– Isso pode ser um problema.

Ela está olhando para Autumn enquanto pronuncia as palavras, mas sei, sem a menor dúvida, que está falando comigo.



Meu interesse pelos atributos físicos de Sebastian Brother não diminuiu quando chega a aula de sexta-feira. Pela primeira vez desde que me mudei para cá, estou me esforçando para passar despercebido. Se estivesse interessado em uma mulher assistente do professor, não seria nada demais alguém ocasionalmente me pegar encarando-a. Mas aqui, com ele, não posso. E, francamente, o esforço que tenho de fazer para parecer tranquilo me deixa exausto. Fujita e Sebastian sempre andam pela sala enquanto anotamos ideias do jeito que funciona melhor para nós – esboços, frases soltas, letras de música, desenhos. E eu estou basicamente desenhando espirais em uma folha em branco só para evitar olhar para ele. Ao meu lado, Autumn produz o que parecem ser mil palavras por minuto em seu laptop, sem parar sequer para respirar, e isso me distrai e me irrita. Irracionalmente, sinto que ela está, de alguma maneira, sugando minha energia criativa. Porém, quando começo a ir para o outro lado da sala em busca de espaço, quase trombo com Sebastian.

Peito com peito. Olhamos um para o outro por alguns segundos antes de darmos um passo para trás, os dois ao mesmo tempo.

– Desculpa – digo.

– Não, não, foi culpa minha.

Sua voz é ao mesmo tempo grave e baixa e tem uma cadência hipnotizante. Eu me pergunto se algum dia ele vai me dar sermões com aquela voz, se vai me julgar com aquela voz.

– Fujita falou para eu trabalhar mais de perto com você – conta, e agora me dou conta de que ele estava vindo conversar comigo. O rubor se espalha como tinta quente por suas bochechas. – Ele comentou que você estava meio, hum... Um pouco para trás na criação do enredo e que seria bom fazermos um brainstorming.

A energia defensiva e tensa cria uma coisa estranha em minhas veias. Só tivemos três aulas e já estou atrasado? E ouvir isso dele? Desse almofadinha que carrega a Bíblia por aí e que não sai da minha cabeça? Dou risada, alto demais.

– Não precisa se incomodar. Sério, vou aproveitar o fim de semana para me colocar em dia. Não quero que gaste seu tempo...

– Eu não me importo, Tanner.

Ele engole em seco e percebo, pela primeira vez, como sua garganta é longa, macia.

Meu coração acelera. Não quero ser tão afetado assim por ele.

– Eu preciso encontrar respostas na minha cabeça – digo e então passo mortificado por ele.

Eu esperava que Sebastian fosse só uma paixão que passaria rápido, só uma noite de fantasias, nada além disso. Porém, só de vê-lo andando pela sala, já fico abalado. Estar tão perto dele quase me deixou sem ar, em pânico. Ele toma conta do espaço que ocupa, mas não é só porque é um desses esportistas musculosos, não é aquela coisa de derramar energia de macho pela sala. A luz parece simplesmente iluminar seus traços de uma maneira diferente dos demais.

Alguns minutos depois, Autumn se aproxima de mim e coloca a mão em meu braço.

– Está tudo bem com você?

Absolutamente.

– Claro.

– Não precisa se preocupar se os outros estão mais adiantados.

Dou risada ao me lembrar de mais um estresse: o livro.

– Nossa, valeu, Auddy.

Ela geme, soltando a cabeça em meu braço, agora também dando risada.

– Eu não quis dizer isso.

Quando olho para o lado, vejo Sebastian pouco antes de ele desviar o olhar de nós. Auddy alonga o corpo e beija minha bochecha.

– Ainda está a fim de ir ao aniversário do Manny hoje à noite?

Laser tag para comemorar o aniversário de 18 anos. Só mesmo em Utah para ver algo assim, cara.

– Não sei.

Gosto do Manny, mas, francamente, não sei o quão humano consigo ser. Minha paciência para laser tags é muito limitada.

– Vamos, sim, Tann. Eric vai estar lá. Preciso de alguém para me acompanhar, para eu ter algo a fazer além de ficar constrangida diante dele.

Esse colégio é um espaço tão incestuoso. Autumn tem uma queda por Eric, que está interessado em Rachel, irmã da menina que beijei depois do Homecoming do ano passado e que tenho certeza de que saiu com o irmão da melhor amiga de Hailey. Aponte qualquer um aqui e podemos falar vários tipos de relação de vários graus.

Mas tenho coisas mais interessantes a fazer.



O barulho da música e dos aparelhos eletrônicos atravessam as portas duplas de vidro do Fat Cats. O estacionamento está lotado. Se estivéssemos em qualquer outra cidade, talvez me surpreendesse, mas é noite de sexta-feira; minigolfe, laser tag e boliche com luzes coloridas – isso é o mais atrevido que se pode ter aqui.

Autumn está ao meu lado e a luz de seu celular ilumina seu rosto enquanto ela faz seu melhor para digitar e, ao mesmo tempo, andar pela calçada congelada.

De braços dados, passamos por um grupo de alunos do ensino fundamental, que também estão com os olhos grudados no celular, e chegamos ao interior da casa.

No ano depois que nos mudamos para cá, a família Scott foi com o Prius do meu pai a Vegas para o casamento da minha tia Emily com sua noiva, Shivani. Hailey e eu ficamos de olhos arregalados a semana toda: painéis digitais, clubes de strip, bebida e pele exposta... Era um espetáculo para onde quer que olhássemos.

Aqui, apesar das diferenças óbvias, como o tamanho da casa noturna e a falta de garçonetes com pouca roupa servindo bebidas alcóolicas, existe o mesmo frenesi no ar. O Fat Cats é como Vegas para crianças e abstêmios. Clientes com olhos vidrados vão de uma máquina de jogo a outra na esperança de ganhar alguma coisa, qualquer coisa.

Avisto um grupo que conheço do colégio. Jack Thorne está jogando o que aposto ser skee-ball com um monte de tíquetes no chão, ao lado de seus pés. Dave do Futebol está jogando pinball com Clive e, como era de se esperar, tem uma bola de futebol presa entre os dois pés. O aniversariante, nosso amigo Manny Lavea, está brincando com alguns de seus irmãos perto de uma fileira de mesas ao fundo. E, para desgosto de Autumn, nem sinal do Eric.

Analiso as silhuetas diante das enormes telas de cinema suspensas sobre as pistas de boliche – foi mal, Thunder Alley – antes de desistir.

– Está trocando mensagens com ele? – pergunto, baixando o olhar e me deparando com uma Auddy que ainda olha atentamente para o celular.

– Não.

– Então por que está tão grudada assim no telefone esta noite? Você mal parou para respirar.

– Só estava digitando algumas notas – explica, segurando a minha mão e me levando até as mesas. – Para o livro. Você entende, pensamentos aleatórios que surgem em minha cabeça, ideias para diálogos. É uma boa maneira de registrar ideias. Fujita possivelmente vai querer que apresentemos alguma coisa na segunda-feira.

O estresse faz meu estômago pesar e eu mudo de assunto:

– Venha, Auddy. Vou ganhar alguma coisa para você.

Ganho um tigre gigante, o qual reconheço com culpa que, em breve, vai parar no lixão, e andamos outra vez até a área da festa, onde estão distribuindo comida. Uma mulher com aparência de muito cansada chamada Liz tenta estabelecer alguma ordem, antes de desistir e jogar uma bandeja de legumes e molho na mesa ao centro. Para dizer a verdade, já estivemos tantas vezes aqui que Liz poderia sair e fumar um maço de cigarros e passaríamos a noite tranquilamente bem.

Eric nos encontra enquanto a mãe do Manny distribui pratos de papel, e todo o nosso grupo – cerca de 20 pessoas no total – forma duas filas, uma de cada lado das longas mesas. Tem aquela combinação costumeira de pizza ruim e Sprite, já inclusa no preço, mas também me sirvo com alguns dos pratos que a mãe dele preparou. A família do Manny é tonganesa e, quando me mudei para cá, no primeiro ano do ensino médio, vindo da terra da diversidade que é South Bay, foi um enorme alívio encontrar uma pessoa negra naquele mar sorridente de rostos brancos. Em virtude dos esforços missionários no Havaí e nas ilhas do Pacífico, existe um número surpreendentemente grande de polinésios em Utah. Manny e sua família não são exceção, mas estão entre as famílias de Santos dos Últimos Dias que adoram pregar por aí. Manny é grande e hilário e quase sempre está sorrindo. Eu talvez tivesse uma queda por ele se não fosse tamanha perda de tempo. O cara é claramente heterossexual. E eu apostaria todas as minhas moedas de que será virgem até o casamento.

Vou ao lado de Autumn, abro a boca para provocá-la por só haver um gressino em seu prato, mas as palavras se desfazem em meu cérebro. Sebastian Brother está do outro lado do salão, conversando com dois dos irmãos do Manny. Meu pulso galopa violentamente.

Eu não sabia que ele viria à festa.

Auddy nos leva a um banco para nos sentarmos e distraidamente toma um copo de água. Agora que olho mais de perto, vejo que investiu em sua aparência esta noite: está com os cabelos escovados e usa um gloss brilhante. Tenho certeza de que sua blusa é nova.

– Por que não está comendo? – pergunto, puxando um guardanapo de papel do utensílio plástico.

Em um esforço para provar que não está olhando para Eric, faz um Snap de sua comida, examina a imagem e digita alguma coisa antes de virar o telefone para me mostrar. É a foto de um gressino sobre um prato de papel branco, com a legenda “jantar” logo abaixo.

Francamente.

– A pizza parecia gordurosa e as outras coisas estavam esquisitas. – Justifica, apontando para o meu prato. – Tinha peixe cru na salada.

Ergo outra vez o olhar e sutilmente olho por cima de seu ombro, e ali vejo que Sebastian se sentou na mesa ao lado da nossa. Há uma mochila no banco ao lado dele. Fico instantaneamente obcecado com a ideia de onde ele estava. Na escola? Na biblioteca? Ele mora no campus da BYU ou na casa dos pais?

Volto a olhar para a comida.

– É o mesmo ceviche peruano que comemos naquele restaurante em Park City. E lá você gostou.

– Não lembro de ter gostado. – Autumn estende a mão com o garfo e rouba um bocado. – A propósito, você viu quem está aqui?

Como se eu pudesse não ver.

Eric e Autumn jogam um pouco de conversa fora e, embora eu não esteja realmente ouvindo, estou prestando atenção o suficiente para perceber os momentos de desconforto em intervalos de poucos segundos. Qualquer um perceberia. A risada de Autumn é alta demais. Os silêncios se tornam mais longos e são interrompidos quando os dois falam ao mesmo tempo. Talvez Eric também esteja a fim dela e isso explique por que estão agindo como duas crianças do ensino fundamental. É ruim o fato de eu me sentir aliviado por ela estar a fim dele, muito embora isso possa dar errado e afetar a todos nós? Minha amizade com Auddy é o mais importante para mim e não quero que haja qualquer resquício de migalha romântica entre nós. Se as coisas voltarem de uma vez por todas ao normal, talvez eu possa contar tudo a ela em algum momento.

Talvez eu tenha alguém com quem conversar sobre esse dilema envolvendo Sebastian.

E, com isso, as orelhas felinas de meus pensamentos deram meia-volta, focando-se atrás de mim. É como se a simples presença de Sebastian emitisse um zumbido. Quero saber onde ele está a cada segundo. Quero que ele note minha presença.

Esse plano é prematuramente frustrado quando Manny arrasta alguns de nós para a arena de laser tag. Vou contra a minha vontade, seguindo-os para a sala onde nos darão instruções.

Autumn escolhe assistir da área de observação na sala ao lado, então estou com Eric e me perguntando se há uma maneira de escapar daqui sem ser notado antes de o jogo começar. Mas, quando vou na direção da porta, vejo Sebastian e Kole, irmão de Manny, entrando na arena. Quase engasgo com meu chiclete.

Não estou sequer fingindo ouvir quando o instrutor chega. Sou incapaz de afastar meu olhar de Sebastian e da maneira como seu maxilar, e seu rosto, e seus cabelos ficam sob essa luz. Ele também deve estar tendo dificuldades para prestar atenção, pois seu olhar desliza para analisar o salão e ele me observa.

Por um.

Dois.

Três segundos.

Ele me observa.

Sebastian me reconhece e esse reconhecimento se espalha por seu rosto. E, quando ele sorri, meu estômago afunda como se o chão tivesse se aberto debaixo de mim. Socorro.

Sorrio em resposta, uma bagunça instável.

– Meu nome é Tony e eu vou coordenar o jogo – o instrutor se apresenta. Pisco os olhos, forçando-me a virar para a frente. – Já temos os dois capitães das equipes?

Quando ninguém se oferece como voluntário, ele aponta para o canto onde Sebastian e Kole estão e gesticula para o seguirmos até o vestiário.

Em meio à movimentação, Eric vai parar no fim da fila e eu fico bem ao lado de Sebastian. Que Deus abençoe Eric. Em cada lado da sala, há duas fileiras de coletes equipados com sensores. Fazendo os gestos como um comissário de bordo antes da decolagem, Tony nos instrui para que coloquemos um sensor junto ao colete e guardemos o outro na parte da frente.

– Tirem uma arma da estação de carregamento e apertem o gatilho. – Prossegue. – Vocês verão um código aparecendo na tela de LED. Estão vendo?

Faço o que ele diz e vejo o nome “O Patriota” aparecer na telinha. Com uma discreta olhadela na arma de Sebastian, vejo o nome “Sargento Blue”.

– Memorizem esse nome. É com ele que vocês verão suas pontuações nas telas lá fora, depois do jogo. Para ganhar pontos e vencer, têm de abater seus oponentes da outra equipe. Podem atingi-los em seis pontos do corpo. – Tony pega a manga da blusa de Manny e o puxa para perto. – Aqui está onde devem mirar – esclarece, apontando dramaticamente para os pontos iluminados do colete. Então prossegue: – Se forem atingidos no ombro ou nas costas, seu colete vai acender e o tiro será contado. Se forem atingidos no peito, o colete vai acender e sua arma ficará travada. Vocês ainda poderão ser atingidos, mas não conseguirão atirar de volta. Estarão vulneráveis até chegarem às suas bases ou encontrarem um esconderijo e a arma voltar a funcionar.

Tony solta Manny e desliza o olhar pela sala.

– São duas equipes competindo na arena e o colete de cada uma terá uma cor diferente. – Apontando para o colete de Kole, diz: – Equipe vermelha. – Depois, aponta para o de Sebastian: – Equipe azul. Atirem na cor que não for a sua. A base de cada time é da mesma cor da roupa, e vocês ganham três pontos quando atingem e derrubam seus oponentes.

Ao meu lado, Sebastian se mexe e vejo-o olhando brevemente para mim, desde os joelhos até o rosto. Arrepios se espalham por minha pele.

– Agora, antes de darmos início à batalha, algumas regras – Tony prossegue. – Não vale correr para fora da arena porque podem trombar em algo ou alguém lá fora. Não vale deitar no chão, pois podem ser pisoteados. Não vale nenhum tipo de contato físico, e isso inclui dar uns amassos no escuro. Estaremos de olho.

Tusso e Sebastian se mexe ao meu lado.

Tony termina de dar os direcionamentos e nos diz para não batermos uns nos outros com nossas armas ou – que Deus nos proteja! – dizer palavrões, e então é hora de começar.

A luz no vestiário era fraca, mas ainda preciso de um instante para meus olhos se ajustarem à escuridão da arena. Nossas equipes se espalham entre as paredes que parecem feitas de tijolos de neon e eu avisto nossa base no centro. Luzes negras servem como iluminação, mas é difícil enxergar qualquer coisa. O som das armas sendo ligadas se espalha como uma onda pela arena, e então a contagem regressiva começa:

Cinco...

Quatro...

Três...

Dois...

Um...

Sirenes perfuram o ar. Avanço para perto de uma parede e depois outra. Está tão escuro que quase não consigo enxergar, mas as divisórias e o perímetro do salão são marcados com tinta neon e faixas de luzes coloridas. Um tanque verde parece brilhar no canto, e vejo uma luz vermelha e uma movimentação diante dela.

Atiro e o colete pulsa vermelho, registrando que acertei alguém. Meu colete acende quando sou acertado em um canto. “Alvo atingido” anuncia minha arma, mas deve ter sido no ombro porque, quando alguém se arrasta diante de uma parede, ainda consigo atirar, atingido o sensor em seu peito e garantido que sua arma se torne inútil.

Dois outros participantes vêm de lados opostos, e eu me viro e corro, avançando na direção da base. Está quente aqui, o ar não se movimenta. O suor escorre por minha nuca; meu pulso é frenético. Música e efeitos sonoros ecoam e, se eu fechar os olhos, seria fácil fingir que estamos todos em uma rave, e não correndo por uma sala escura, atirando uns nos outros com armas plásticas de laser. Atinjo mais dois oponentes e consigo dar uma série de tiros rápidos na base da equipe vermelha quando sou outra vez atingido, dessa vez nas costas.

Voltando pelo caminho de onde vim, encontro Eric.

– Tem um grupo perto do tanque. – Ele relata. – Estão lá esperando alguém se aproximar.

Faço que sim com a cabeça. Só consigo diferenciá-lo dos demais por causa da camiseta branca e das baterias em seu colete.

– Vou dar a volta – berro por sobre a música. – Tente cercá-los por trás.

Eric dá tapinhas em meu ombro e eu dou a volta em uma divisória.

A arena é um labirinto com rampas para pular e evitar tiros ou para subir e atirar melhor.

“Alvo atingido. Alvo atingido. Alvo atingido”, minha arma registra, e meu colete acende. Ouço passos acelerando atrás de mim. Quando ergo a arma para retribuir o tiro, sem sinal. Fui atingido no peito. Olho em volta, busco a base da minha equipe ou um lugar para me esconder, então sinto um corpo cair junto ao meu, alguém me puxando para um canto enquanto Kole e seus colegas de equipe correm.

– Santo... obrigado! – digo, passando a mão na testa.

– Não por isso.

Meu pulso avança. Tinha quase esquecido que Sebastian estava aqui. Ele expira esbaforido e uma onda de calor percorre minha espinha.

Aqui tem barulho demais para conversarmos, e estamos próximos demais para eu me virar e olhar para ele sem que a situação se torne constrangedora demais, íntima demais. Então, fico parado enquanto meu cérebro se torna histérico.

Ele segura meu colete e minhas costas fazem contato com a parte frontal de seu corpo. Menos de dez segundos se passam – o tempo de minha arma voltar a funcionar, mas juro que sinto cada tique-ta-que do relógio. Minha respiração soa escandalosa aos meus ouvidos. Posso sentir meu pulso, mesmo com a música alta. Também sinto a respiração de Sebastian bater quente em minha orelha. Meus dedos se repuxam, querendo que eu os leve para trás, querendo tocar a lateral do rosto dele, sentir se ele está enrubescendo aqui no escuro.

Quero ficar neste canto escuro para sempre, mas sinto o momento quando minha arma volta a funcionar. Ele não espera, agarra a lateral do meu colete para me puxar e gritar para que o siga em direção à base vermelha. Eric contorna um canto e avançamos.

– Vá! Vá! – Sebastian grita, e atiramos ao mesmo tempo.

Poucos segundos se passam e a base pisca vermelha e uma voz gravada anuncia:

“Base vermelha destruída. Game over!”.





Pela primeira vez em todo o colegial, não preciso ter meu horário de aulas preso com adesivos de dinossauros no armário para saber onde devo estar. Na primeira semana, o Seminário de Fujita foi na segunda, quarta e sexta. Nesta semana, será na terça e na quinta. E assim será a alternância até o fim do ano.

Posso ver a situação se desenrolando de três maneiras:

Primeira: eu posso amar as semanas de segunda, quarta e sexta porque tenho três oportunidades de ver Sebastian.

Segunda: eu posso odiar as semanas de segunda, quarta e sexta porque são três chances de ver Sebastian, mas ele só participa de uma das aulas.

Terceira: eu posso odiar as semanas de segunda, quarta e sexta porque tenho três chances de ver Sebastian e ele está lá o tempo todo, mas não me dá bola.

Neste último cenário, fico ressentido porque não consigo me desprender dessa paixão por um Santo dos Últimos Dias, então, vou começar a me afogar em batatas fritas com queijo e molho, ganhar uma pança enorme, fazer um trabalho ruim na aula e perder minha chance de ser aceito na faculdade dos meus sonhos em outro estado.

– Em que você está pensando? – Autumn aparece atrás de mim, encostando o queixo em meu ombro.

– Nada.

Bato a porta do armário, fecho o zíper da mochila. Na realidade, estou pensando que não é justo enxergar Sebastian como uma espécie de galã mórmon. Não sei explicar, mas ele parece muito mais do que isso.

Auddy bufa com uma leve irritação e se vira para seguir pelo corredor, a caminho do Seminário.

Eu a alcanço e desvio de um grupo de alunos do ensino fundamental que passam correndo, uns sobre as costas dos outros, pelo corredor. Fui bem treinado por minha amiga, então devolvo a pergunta:

– Em que você está pensando?

No mínimo, sua resposta, se for bem elaborada, vai me manter distante da loucura.

Autumn fica de braços dados comigo.

– Estava me perguntando a quantas anda o seu esboço.

Ah, claro, o meu esboço. O documento, o esqueleto do livro.

– Está indo bem.

Um... dois... três...

– Quer que eu dê uma olhada antes de entrarmos?

Abro um sorriso.

– Não precisa, Auddy, está tudo bem.

Ela para bem diante da porta da sala de aula.

– Você terminou?

– Terminou o quê?

A julgar pela dilatação de suas narinas, sei que minha melhor amiga está me imaginando morto e ensanguentado no chão.

– O esboço.

Uma imagem mental brota em minha cabeça: o documento do Word com duas linhas solitárias que eu não me atreveria a mostrar a ninguém: Um garoto queer, metade judeu, metade nada, se muda para uma cidade infestada de mórmons. Ele mal vê a hora de dar o fora.

– Não acha que você deveria olhá-lo?

Ofereço a ela uma única sobrancelha arqueada em resposta.

Ainda estamos na quarta aula e, apesar de toda a reputação venerada desta turma, parecemos já ter um ritmo, um certo conforto em sermos hooligans até Fujita aparecer. Dave do Futebol, com sua sempre presente bola de futebol, começa a chutá-la com pés alternados enquanto Burrito Dave conta quantas embaixadinhas ele faz sem deixar a bola cair no chão. Julie e McKenna falam alto sobre o baile de formatura enquanto Asher finge não perceber (McKenna e Asher foram um casal e o término brutal da relação nos deixou com muito material para fofocas). Autumn insiste que eu mostre o meu esboço – lembre-se de que ela é como um cachorro com um osso – e eu a distraio com um jogo de pedra, papel e tesoura porque, no fundo, nós dois ainda temos dez anos de idade.

Uma agitação se espalha pela sala e eu ergo olhar, esperando encontrar Fujita, mas Sebastian entra, trazendo uma pasta. O efeito de vê-lo é como unhas esfregando-se em meu cérebro e eu faço alguns gestos desconhecidos que mais parecem as garras de uma ave do que pedra, papel ou tesoura.

Ela me dá um soco no braço.

– Pedra vence seja lá o que for isso aí.

– E aí, pessoal? – Ele cumprimenta e ri enquanto coloca a pasta sobre a mesa.

A única pessoa que não está intensamente prestando atenção a ele é Autumn, que quer continuar jogando. Mas eu me vejo outra vez naquela arena de laser tag, com o corpo de Sebastian encostado ao meu. Ele avalia a sala com seu olhar calmo e distante.

– Não precisam parar de conversar quando eu entro.

McKenna e Julie fazem uma tentativa desanimada de retomar sua conversa, mas é difícil ser sutilmente escandaloso quando todos os demais estão tão silenciosos, e também é difícil diante da presença de Sebastian. Ele é tão... presente. É lindo, obviamente, mas também tem aquele ar de bondoso e é genuinamente uma pessoa boa. É uma daquelas pessoas que você percebe mesmo de longe. Sebastian sorri para todo mundo, tem aquilo que minha mãe certamente chamaria de boa postura, e eu poderia apostar toda a minha poupança que nunca falou – ou sequer pensou – no meu palavrão preferido, aquele que começa com F.

Um pensamento terrível me ocorre, então viro-me para Autumn.

– Você acha que ele usa aquelas roupas íntimas dos mórmons?

Se ela acha estranho eu perguntar se Sebastian usa aquelas roupas íntimas dos mórmons, aquelas que mais parecem bermudas, não demonstra.

– Você não usa aquelas peças até fazer a ordenança.

– Fazer o quê?

Minha mãe precisa educar melhor seus filhos.

Ela suspira.

– Até entrar para o Templo.

Tento soar casual, como se estivesse apenas falando bobagens.

– Então ele ainda não recebeu a tal ordenança?

– Imagino que não, mas como vou saber?

Autumn se abaixa para pegar alguma coisa na mochila.

Faço que sim com a cabeça, embora essa informação não me ajude, de maneira alguma. Tampouco posso questionar minha mãe sobre esse assunto, porque ela certamente vai querer saber o que me leva a perguntar.

Auddy se ajeita na cadeira e segura um lápis recém-apontado.

– Ele vai fazer isso quando estiver prestes a se casar ou embarcar em sua missão.

Bato a caneta no lábio, analisando a sala como se só a ouvisse distraidamente.

– Ah, tá.

– Duvido que seja casado – ela supõe, agora mais curiosa, assentindo para onde ele está.

Sebastian lê alguma coisa na frente da sala e, por uma fração de segundos, fico sem palavras ao me dar conta de que ele poderia ser casado. Acho que tem 19 anos.

– Não tem nenhuma aliança no dedo dele – ela prossegue. – E, também, ele não adiou a missão para lançar o livro?

– Adiou?

Ela olha para Sebastian e depois outra vez para mim. Olha para ele, depois para mim.

– Não estou acompanhando o que você está tentando me dizer.

– Ele está aqui. – Ela explica. – Você vai a outro lugar para cumprir sua missão. Por dois anos. Em geral, depois do ensino médio, ou nessa época da vida em que ele está.

– Então ele não está usando aquela roupa íntima?

– Santo Deus, Tanner! Você realmente se importa com que tipo de cueca o cara usa? Vamos falar sobre o seu maldito esboço!

Sabe aqueles momentos? Aqueles quando uma menina grita na lanchonete “eu estou menstruada!” ou quando um cara grita “eu pensei que fossem gases, mas borrei as calças!” e toda a sala fica em silêncio? Esses momentos acontecem. Aconteceu um bem agora. Em algum momento entre “então ele não está usando aquela roupa íntima” e “Santo Deus, Tanner”, Fujita entrou na sala e todos, menos Autumn, ficaram em silêncio.

Fujita dá risada e balança a cabeça na nossa direção.

– Autumn – ele a chama, mas com gentileza –, garanto que as roupas íntimas de nenhum homem são tão interessantes quanto você imagina.

Todos caem na risada, alegres com esse nível de escândalo digno da terceira série. Auddy abre a boca para rebater, para explicar que era eu quem estava perguntando sobre cuecas, mas assim que Fujita acena indicando que sim, que vamos discutir nossos esboços, a oportunidade passa. Sou passivamente levado para a esquerda quando Autumn empurra meu braço direito, mas estou distraído, indagando em silêncio o que ele está pensando sobre essa conversa toda. Por vontade própria, meus olhos piscam para Sebastian enquanto os seus apontam em outra direção.

Suas bochechas trazem aquele tom rosado irresistível.

Fujita nos pede para mostrar nossos esboços, e juro que parece que todo mundo pega um manuscrito longo, extremamente detalhado. Ouço uma pancada quando Autumn puxa uma encadernação enorme e a solta na mesa à sua frente. Nem sequer me importo em abrir meu laptop com os dois períodos esqueléticos do meu esboço. Em vez disso, puxo um caderno em branco e o coloco sobre a mesa, parecendo diligente.

– Tanner, quer começar? – Fujita convida depois que o barulho que eu fiz atraiu sua atenção.

– Hum. – Olho para baixo. Só Autumn consegue ver que não tem nada escrito nas páginas que eu finjo ler. – Ainda estou trabalhando na ideia geral...

– Não tem problema – Fujita responde animado, assentindo.

Um sinal de apoio entusiasmado.

– ... mas acho que será um romance sobre um garoto que chega à maioridade... – não digo que ele é queer. – Que se muda para, hum, de uma cidade maior para, hum... uma cidade de pessoas muito religiosas e....

– Excelente! Excelente! O enredo ainda está em formação, eu entendo. Você deveria conversar com Sebastian para ele ajudar, não acha?

Fujita já está assentindo para mim como se fosse eu quem tivesse sugerido. Não sei se ele quer me salvar ou me punir. Então, vira-se, analisa a sala e arrisca:

– Alguém mais tem um esboço que gostaria de dividir?

Todos erguem a mão, exceto Autumn. O que é curioso, considerando que seu esboço provavelmente é o mais detalhado. Ela vem trabalhando na peça há quase um ano. Mas também é minha melhor amiga e, nesse caso, não tenho dúvidas de que está tentando me poupar; se ela expusesse suas ideias depois da bagunça incoerente que acabei de apresentar, minha imagem ficaria ainda pior.

A classe é dividida em grupos menores e trocamos ideias, ajudando uns aos outros no desenvolvimento de seus arcos narrativos. Eu fico com Julie e McKenna e, como o livro de McKenna é sobre uma garota que é deixada pelo namorado e se transforma em bruxa e busca vingança contra o ex, passamos dez minutos discutindo ideias, antes de começarmos a falar sobre o baile de formatura e o término de seu relacionamento com Asher. Uma chatice tão grande que só consigo afastar minha cadeira delas e pegar meu caderno na esperança de um golpe de inspiração.

Escrevo a mesma palavra várias e várias vezes:

PROVO.

PROVO.

PROVO.

É ao mesmo tempo um lugar esquisito e um lugar de todo mundo. Como descendente de húngaros e suecos, não tenho muitos traços que, em outro lugar do país, gritaria “imigrante”, mas, em Provo, ter olhos e cabelos escuros é o suficiente para me tornar diferente. Em South Bay, a essa altura a maioria das pessoas não são mais de etnia branca do centro dos Estados Unidos, e eu não sou mórmon. Quer mais? Ninguém em minha cidade precisava explicar o que significa ser bissexual. Desde que tinha 13 anos, eu já sabia que me interessava por garotos. Mas, desde antes, eu também sabia que me interessava por meninas.

Lentamente, meu mundo se transforma, vira outra coisa, um rosto, um pensamento.

EU NEM TE CONHEÇO.

ENTÃO POR QUE SINTO QUE

POSSO TE AMAR?

(MAS SÓ UM POUQUINHO)

Olho para trás, preocupado com a possibilidade de Autumn talvez me ver usando nossa frase quando, na verdade, estou pensando em outra coisa – em outra pessoa –, mas minha respiração trava quando eu o vejo parado atrás de mim, lendo por sobre meu ombro.

Bochechas rosadas, sorriso inseguro.

– Como está indo com o esboço?

Dou de ombros, deslizando a mão sobre as quatro linhas de insanidade no papel.

– Sinto que todo mundo está muito mais adiantado. – Minha voz sai trêmula. – Na verdade, eu não esperava que tivéssemos que apresentar um esboço quando começamos. Eu imaginei que fôssemos criar o texto aqui.

Sebastian assente. Abaixa-se e diz baixinho:

– Quando fiz o curso, eu passei algumas semanas sem conseguir criar um esboço.

Arrepios percorrem meus braços. Ele tem um cheiro tão intenso de homem – a mistura de desodorante com aquela masculinidade tão difícil de explicar.

– Ah, é? – pergunto.

Ele se levanta, balança a cabeça.

– Sério. Eu vim parar nesse curso sem ter a menor ideia do que estava fazendo.

– Mas, no fim, escreveu algo brilhante, aparentemente. – Aponto para a minha folha praticamente em branco. – Não espero que caia um raio por ano nesta sala.

– Nunca se sabe. – Diz antes de sorrir. – Senti o Espírito comigo enquanto escrevia. E me senti inspirado. Nunca se sabe o que está guardado para você. Apenas esteja aberto para o que vier, e alguma coisa virá.

Ele se vira e vai atender o próximo grupo, e eu fico completamente confuso.

Sebastian sabe – só pode saber – que estou atraído por ele. Meus olhos deslizam impotentes por seu rosto, seu pescoço, seu peito, sua calça jeans, sempre que ele está na sala de aula. Ele leu o que eu escrevi? Será que percebe que foi ele a minha inspiração? Se sim, então por que citar o Espírito?

Estou sendo objeto de uma brincadeira?

Do outro lado da sala, Autumn me olha nos olhos e murmura: “o que foi?” Porque certamente pareço alguém que está se esforçando para resolver algum processo matemático extremamente complexo em minha mente. Aceno uma negação com a cabeça e afasto a mão, revelando outra vez as palavras escritas em meu caderno.

Alguma coisa se acende dentro de mim, a leve centelha de uma ideia, uma linha que se desenrolou daquela noite no quarto de Autumn até agora.

O garoto queer. O garoto mórmon.

– Sebastian – chamo-o.

Ele olha para mim por sobre o ombro e é como se nossos olhos estivessem ligados por alguma amarra invisível. Depois de alguns segundos, ele se vira e vem até mim.

Ofereço o meu melhor sorriso.

– Parece que Fujita está achando que preciso da sua ajuda.

Seus olhos me provocam.

– Você acha que precisa da minha ajuda?

– Eu consegui escrever duas frases até agora.

Ele dá risada.

– Então precisa.

– Provavelmente, sim.

Espero que sugira irmos até a mesa mais distante, perto da janela, ou que nos encontremos na biblioteca quando tivermos algum tempo livre. Não esperava que ele fosse dizer:

– Estou com tempo nesse fim de semana. Posso te ajudar.

Quando ele fala isso, é como se o restante da classe derretesse. E meu coração começa a bater frenético.

Essa provavelmente é uma péssima ideia. Sim, estou interessado nele, mas receio que, se eu escavar mais fundo, não vou gostar dele.

Mas seria melhor assim, não seria? Certamente não faria mal passar algum tempo fora desta sala de aula, chegar a uma resposta para as minhas perguntas: será que podemos ser amigos? será que podemos ser algo mais?

Deus, preciso pisar em ovos.

Ele engole em seco e eu observo o movimento de sua garganta.

– Pode ser? – pergunta, atraindo meu olhar outra vez para o seu rosto.

– Sim – respondo, também engolindo em seco. Dessa vez, é ele quem encara-a que horas?





No sábado, quando me levanto, encontro meu pai usando seu avental verde padrão, sentado ao balcão da cozinha com seu café da manhã. Vejo-o curvado sobre a tigela de aveia como se ali guardasse o grande segredo da vida. Apenas, quando me aproximo, percebo que está dormindo.

– Pai.

Ele dá um salto, fazendo a tigela deslizar pelo balcão antes de, desajeitadamente, pegá-la. Solta o corpo para trás e leva a mão ao peito.

– Você me assustou.

Passo a mão em seus ombros, engolindo uma risada. Meu pai está todo desgrenhado.

– Desculpa.

Sua mão aperta a minha. Como ele está sentado e eu estou de pé, sinto-me enorme. É tão estranho já ter a mesma altura dele. Não tenho nenhum dos traços de minha mãe. Puxei tudo de meu pai: cabelos escuros, estatura considerável e cílios. Hailey tem a altura, as cores de pele e cabelo e a insolência da minha mãe.

– Você só chegou em casa agora?

Ele confirma com a cabeça, empurrando a colher para dentro da tigela.

– Apareceu um paciente à meia-noite com a carótida perfurada, aí me chamaram para a cirurgia.

– Carótida perfurada? Ele conseguiu sobreviver?

Ele responde negando levemente com a cabeça.

Caramba. Isso explica essa postura curvada do meu pai.

– Que triste.

– Tinha dois filhos. E só 39 anos.

Inclino o corpo sobre o balcão, comendo meu cereal direto da caixa. Meu pai finge não ver.

– Como foi que ele...

– Acidente de carro.

Meu estômago afunda. Ainda no ano passado, meu pai contou para Hailey e para mim sobre a ocasião em que três de seus melhores amigos do ensino médio morreram em um acidente de carro, logo depois da formatura. Meu pai também estava no veículo, mas sobreviveu. Deixou Nova York para estudar em Los Angeles, na Universidade da Califórnia, e depois partiu para a pós-graduação em Stanford, onde conheceu e se casou com minha mãe, uma ex-mórmon – para o desgosto da mãe e da família estendida dele, que ainda vivia na Hungria. Todavia, mesmo depois de ter passado tanto tempo longe, sempre que meu pai visita o norte de Nova York, a perda dos amigos parece voltar a assombrá-lo.

É um dos poucos assuntos que o levou a brigar com minha mãe na nossa frente. Ela insistia que eu tivesse meu próprio carro; ele achava que eu poderia me virar sem. Minha mãe venceu. O problema de Provo é que não tem absolutamente nada para fazer, em lugar nenhum, e nunca dá para se deslocar a pé. O lado positivo é que a cidade é incrivelmente segura – ninguém bebe e todos dirigem como octogenários.

Só agora ele parece perceber que já estou vestido e pronto para começar o dia.

– O que está fazendo acordado tão cedo?

– Tenho um trabalho da escola com alguém de lá.

– Autumn?

Droga! Por que eu disse “alguém de lá”?

Devia ter dito “uma pessoa da classe”.

– Sebastian. – Diante da expressão incerta de meu pai, acrescento: – O assistente do Seminário.

– O rapaz que vendeu os direitos do livro?

Dou risada.

– Isso, o rapaz que vendeu os direitos do livro.

– Ele é Santo dos Últimos Dias, não é?

Olho à nossa volta como se a cozinha estivesse tomada por mórmons que não tomam o nosso café.

– Todo mundo nesta cidade é, não é?

– Nós somos judeus unitários liberados – anuncia minha mãe, entrando na cozinha com sua calça de yoga e cabelos presos em um coque alto e bagunçado.

Passa por meu pai e lhe dá um beijo nojento e demorado que faz meu rosto se afundar na caixa de cereal. Em seguida, corre para perto da cafeteira. Pega uma xícara enquanto conversa com ele.

– Paulie, a que horas você chegou em casa?

Ele estuda outra vez o relógio, piscando e apertando os olhos.

– Faz meia hora.

– Carótida perfurada. – Resumo para ela. – Não sobreviveu.

Meu pai me encara com um franzir de testa que denuncia sua desaprovação.

– Tanner! – enfim me censura, verbalmente, com uma voz grave.

– O quê? Eu só estava resumindo para ela, assim você não vai ter de explicar outra vez.

Minha mãe olha outra vez para ele, agora silenciosa, e envolve seu rosto com as mãos. Não ouço o que ela diz, mas o leve sussurro de sua voz também me faz sentir melhor.

Ao entrar na cozinha, Hailey é uma mancha composta por um pijama preto, cabelos tingidos de preto, que mais parecem um ninho de pombo, e uma carranca severa.

– Por que é que vocês têm que fazer tanto barulho?

É curioso ela ter escolhido o momento de maior silêncio para surgir com essa queixa.

– Esse é o som que humanos fazem quando estão em pleno funcionamento – respondo.

Hailey me dá um soco no peito e tenta convencer nossa mãe a lhe dar café. Como esperado, a resposta é negativa e a única oferta que minha irmã aceita é suco de laranja.

– Café atrapalha o crescimento – digo a minha irmã.

– Então é por isso que seu pênis é tão...

– Tanner vai sair para fazer um trabalho de escola – meu pai interrompe de propósito. – Com uma pessoa chamada Sebastian.

– Ah, sim, o cara de quem ele está a fim – Hailey lança.

A cabeça de minha mãe vira-se violentamente na minha direção.

Meu interior se repuxa em uma pontada imediata de pânico.

– Não é verdade, Hailey.

Ela me lança uma olhadela carregada de ceticismo.

– Cla-ro!

Agora mais desperto, meu pai curva o corpo para perto.

– Gostar de gostar?

– Não. – Nego também com a cabeça. – Gostar no sentido de que ele é uma pessoa gentil e disposta a me ajudar a tirar um A. Sebastian só é o assistente do meu professor.

Meu pai oferece um sorriso enorme, seu lembrete entusiástico de que, mesmo que eu não me sinta atraído pelo cara de quem estamos falando, Ele Não Tem Nenhum Problema Com a Minha Sexualidade. Só falta um adesivo de carro neste momento.

Com uma forte pancada, Hailey coloca seu copo de suco no balcão.

– Ele só é o assistente que a Autumn descreve como maravilhosamente lindo e você descreve como bochechas tão coradas que parece usar blush.

Minha mãe entra na conversa:

– Mas ele só está ajudando a escrever o seu livro, não é?

Confirmo, assentindo.

– Exato.

Qualquer um assistindo a esta troca de palavras poderia pensar que minha mãe está agitada por se tratar de um garoto, mas não. O incômodo é por ele ser mórmon.

– Certo – ela diz, como se tivéssemos fechado um acordo. – Ótimo.

Quando percebo a preocupação em sua voz, um fogo se acende em meu estômago, abre um buraco em mim. Pego o copo de Hailey e bebo seu suco de laranja para apagar as chamas. Ela olha por um instante para minha mãe, mas meus pais estão dividindo um momento daquela conversa silenciosa que, às vezes, eles têm.

– Estou curioso para saber se é possível um menino supermórmon e um menino super não mórmon serem amigos – explico.

– Então você está vendo a situação como uma espécie de experimento? – meu pai pergunta com cautela.

– É. Mais ou menos isso.

– Entendi, mas não brinque com ele – minha mãe alerta.

Só me resta bufar. Essa conversa está ficando um saco!

– Pessoal... – Atravesso a cozinha para pegar minha mochila. – É para fazer um trabalho do colégio. A gente só vai se dedicar ao esboço do meu texto.



SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO

SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO

SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO



Escrevo a frase cerca de dezessete vezes em meu caderno enquanto espero Sebastian aparecer onde combinamos de nos encontrar: na sala de escrita da Biblioteca Municipal de Provo.

Quando ele anotou seu endereço de e-mail com uma caligrafia perfeita, imaginei que fosse propor que nos encontrássemos no Shake Shack – e não na Starbucks, em nome de Deus! – para conversarmos sobre o meu trabalho. Porém, a ideia de estar com ele em público, em algum lugar onde qualquer pessoa da escola pudesse nos ver, pareceu-me excesso de exposição. Detesto admitir, mas e se alguém me visse e pensasse que eu estou me convertendo? E se alguém o visse e questionasse o que estava fazendo com um garoto não mórmon? E se esse alguém fosse Dave do Futebol e notasse meu olhar seguindo Sebastian na aula e o bispo perguntasse a algum contato em Palo Alto que lhe contasse que sou queer e depois o bispo contasse ao Sebastian, e Sebastian espalhasse para todo mundo?

Sem dúvida, estou pensando demais.



SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO

SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO

SÓ VAMOS TRABALHAR NO ESBOÇO



Ouço passos na escada, atrás de onde estou sentado, e só tenho tempo suficiente de me levantar e derrubar meu caderno no chão antes de Sebastian chegar, parecendo um anúncio de férias na Patagônia com sua jaqueta azul volumosa, calças pretas e botas de montanhismo.

Ele sorri. Seu rosto está rosado por causa do frio, mas sinto um soco no peito ao perceber o quanto gosto de olhar para ele.

Isso é tão, tão ruim.

– Oi. – Ele cumprimenta, ligeiramente sem fôlego. – Desculpa por estar atrasado. Minha irmã ganhou uma casa da Barbie gigante de aniversário e eu tive que ajudar meu pai a montar tudo antes de sair. Aquela coisa tinha, tipo, um milhão de peças.

– Não se preocupe – respondo, começando a estender o braço para oferecer um aperto de mão, antes de puxar meu braço outra vez para trás porque que diabos estou fazendo?

Sebastian percebe enquanto estende a mão, antes de também puxá-la para trás.

– Ignore – peço.

Ele ri, confuso, mas claramente achando graça.

– É como se fosse o seu primeiro dia com um braço novo.

Ai, meu Deus! Que terrível! Somos só dois caras se encontrando para estudar. Manos. Manos não ficam nervosos. Seja um mano, Tanner.

– Obrigado por se dispor a me encontrar.

Ele assente e se abaixa para pegar meu caderno, mas eu consigo puxar os papéis antes que ele leia as linhas e linhas que escrevi para tentar me acalmar e me convencer do que faríamos aqui, mas não sei se consegui. Sebastian não se dá conta, evita meu olhar e se concentra em uma sala vazia atrás de mim.

– Vamos ficar aqui? – pergunta.

Confirmo com a cabeça e ele me segue mais para o fundo da sala, inclinando-se para olhar pela janela. Nuvens carregadas de neve pairam sobre a Cordilheira Wasatch, formando uma bruma pesada, como fantasmas assombrando nossa cidadezinha tranquila.

– Sabe o que é mais estranho? – diz sem se virar para mim.

Tento ignorar o fato de a luz que entra pela janela iluminar seu perfil.

– O quê?

– Nunca estive aqui antes. Já fui lá onde ficam as prateleiras, nas nunca realmente visitei a biblioteca.

Um comentário é contido quando alcança a ponta da minha língua: é porque tudo que você faz fora da escola acontece na igreja. Mas engulo meu instinto. Ele está aqui para me ajudar.

– Quantos anos sua irmã tem? – pergunto.

Piscando para mim, ele sorri outra vez. Usa esse sorriso com tanta facilidade, com tanta constância.

– A que ganhou a casa da Barbie?

– Sim.

– Faith está com dez.

Sebastian dá um passo na minha direção e mais um e, com uma voz nada familiar, meu coração grita ISSO, VENHA CÁ. Mas, aí, me dou conta de que ele está apontando para irmos à mesa e começarmos a trabalhar.

Seja um mano, Tanner.

Viro-me e nos acomodamos à mesa que reservei logo que cheguei – embora pudéssemos escolher qualquer outra. Não tem mais ninguém na biblioteca às nove da manhã de um sábado.

Sua cadeira se arrasta estridente pelo assoalho e ele ri, desculpando-se baixinho. Com Sebastian tão perto de mim, consigo tragar mais uma vez seu cheiro e sinto que estou ficando entorpecido.

– Mas você tem outros irmãos, não tem?

Ele me olha de canto de olho, e me pego tentado explicar minha pergunta – não era para ser nenhum comentário ácido sobre o tamanho das famílias de mórmons; Hailey e Lizzy estão na mesma turma.

– Minha outra irmã, Lizzy, tem quinze – conta. – E tenho um irmão, Aaron, que tem treze, mas parece ter 23.

Dou uma risada educada com esse comentário. Por dentro, estou uma pilha de nervos, e nem sei por quê.

– Lizzy estuda em Provo High, certo?

Ele confirma.

– No ensino médio.

Eu já a vi pela escola, e Hailey não estava errada: Lizzy realmente não para de sorrir e com frequência ajuda o pessoal do colégio nos intervalos de almoço. Parece tão alegre que quase vibra.

– Ela parece ser uma pessoa legal.

– É sim. Faith também é uma graça. Aaron é... Digamos que goste de testar limites. É um bom garoto.

Faço que sim com a cabeça. Tanner Scott, o preguiçoso até a morte. Sebastian vira-se para me olhar; quase sinto seu sorriso.

– Você tem irmãos ou irmãs? – pergunta.

Está vendo? É assim que se faz, Tanner. Crie um ambiente para conversar.

– Uma irmã – conto. –, Hailey acho que ela está na turma de Lizzy. Hailey tem dezesseis anos e é uma cria do demônio. – Aí me dou conta do que acabei de dizer e me viro horrorizado para ele. – Ai, meu Deus! Não acredito que falei isso. Ou isso!

Sebastian bufa.

– Ótimo. Agora, depois de hoje, não posso mais voltar a falar com você.

Sinto minha expressão se contorcer, adotar um tom de desdém, e demoro demais para perceber que ele está brincando. Seu sorriso agora também desapareceu. Desapareceu assim que ele percebeu o quão profundamente confuso eu estava, quando percebeu que penso o pior de sua fé.

– Desculpa. – Ele diz, deixando sua boca se curvar. Não parece desconfortável, nem de longe. Aliás, parece estar se divertindo um pouquinho com a situação. – Eu estava brincando.

O constrangimento se espalha por meu sangue e me esforço para adotar outra vez o sorriso de alguém confiante, aquele que sempre me faz conquistar o que quero.

– Pegue leve comigo. Ainda estou aprendendo a falar mormonês.

Para meu profundo alívio, Sebastian deixa escapar uma risada sincera.

– Estou aqui para traduzir.

Com isso, olhamos para a tela do meu notebook, para ler a quantidade insignificante de letras ali.

Um garoto queer, metade judeu, metade nada, se muda para uma cidade infestada de mórmons. Ele mal vê a hora de dar o fora.

Sinto Sebastian ficar paralisado ao meu lado e, em um instante, percebo meu erro: eu não alterei o esboço. Meu coração salta.

Não me importo em contar para ele que não vejo a hora de deixar este lugar. Nem me sinto culpado por usar a expressão “infestada de mórmons”, muito embora devesse. O problema está em outra coisa, que se sobrepõe a tudo isso.

Esqueci de deletar a palavra “queer”.

Ninguém aqui – ninguém além da minha família, pelo menos – sabe de mim.

Tento discretamente avaliar sua reação. As bochechas estão rosadas e os olhos saltam outra vez para o início da linha, para reler.

Abro a boca para falar – para explicar – justamente quando ele diz:

– Então esse é o seu tema geral, certo? Você vai escrever sobre alguém homossexual vivendo em Provo?

O gelo do alívio toma conta da minha corrente sanguínea. É claro que ele não supôs que estou escrevendo um texto autobiográfico.

Só consigo assentir vigorosamente.

– Eu pensei em alguém bissexual. Sim.

– E ele acabou de se mudar para cá...

Confirmo outra vez com a cabeça e então me dou conta de que há algo pegajoso em sua voz, como alguém que se dá conta de algo. Se Sebastian já pesquisou qualquer coisa sobre Tanner Scott, sabe que eu me mudei para cá antes do décimo ano e que meu pai é um médico judeu em Utah Valley.

Talvez, até saiba que minha mãe foi excomungada.

Quando nossos olhares se encontram, ele sorri. Parece estar controlando cuidadosamente sua reação. Percebo que ele sabe. E agora meus medos sobre Dave do Futebol contar ao bispo e o bispo contar ao Sebastian parecem tão excessivamente complicados. É claro que a informação me escapou, sem qualquer obstrução.

– Ninguém mais sabe – conto abruptamente.

Ele balança a cabeça.

– Está tudo bem, Tanner.

– Eu quero dizer ninguém mesmo. – Esfrego a mão no rosto. – Era para eu ter deletado aquela palavra. É um dos motivos pelos quais não estou conseguindo desenvolver a história. Estou falando de um personagem bi e não sei como escrever este livro na aula. Não sei se Fujita quer que eu escreva essa história, nem meus pais.

Sebastian se aproxima, capturando meu olhar.

– Tanner, você deve se dar o direito de escrever o livro que quiser.

– Minha família é muito inflexível sobre eu não me assumir para ninguém daqui, a não ser que eu realmente confie na pessoa.

Não contei sequer à minha melhor amiga e agora estou entregando o segredo imediatamente à única pessoa a quem não devia contar.

Ele lentamente arqueia as sobrancelhas.

– Sua família sabe?

– Sabe.

– E eles aceitam numa boa?

– Minha mãe é... exuberante em sua aceitação, para dizer a verdade.

Depois de um silêncio pulsante, ele se concentra no computador.

– Acho uma ótima ideia colocar essa história no papel. – Diz baixinho. Estendendo a mão, deixa o indicador pairar diante da tela. – Tem muita coisa aqui em apenas duas frases. Muito coração, mas também muita mágoa. – Seus olhos encontram outra vez os meus. São de uma mistura insana de verde, castanho e amarelo. – Não sei quanto posso ajudar com esse assunto específico, mas fico feliz em conversar.

Sinto essas palavras se esfregarem dissonantes em mim e repuxo o nariz.

– Você seria tão útil quanto se eu estivesse escrevendo sobre dragões e zumbis, não é?

Sua risada está rapidamente se transformando no meu barulhinho preferido.

– Exatamente.

Minha frequência cardíaca precisa de uns vinte minutos para voltar ao normal, mas, nesse tempo, Sebastian fala. É quase como se estivesse consciente do meu ataque de pânico mental, como se intencionalmente me forçasse a isso, mas suas palavras parecem sair de sua boca com uma cadência tão fácil, tão hipnotizante.

Ele me diz que está tudo bem eu não ter nada além de uma ideia a essa altura. Explica que, para ele, todo livro começa com algo assim – uma oração, uma imagem, partes de um diálogo. O que tenho que decidir, ele explica, é quem é o protagonista e qual é o conflito.

– Concentre-se nesses dois aspectos da personalidade dele – aconselha, apontando para partes do texto. – Ele é antimórmon e...

Um segundo dedo paira livremente diante da tela.

– Queer – concluo para ele.

– Exato. – Sebastian engole em seco, recolhendo os dedos. – O garoto odeia todos os mórmons e planeja sua fuga para depois seus pais entrarem para a igreja e renegá-lo quando ele for embora?

– Não... – Parece que ele não entendeu tão bem assim a história da minha família. – A família vai apoiar, eu acho.

Pensativo, Sebastian ajeita o corpo nas costas da cadeira.

– O garoto odeia a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e acaba deixando a cidade só para se enfiar no meio de outra “seita religiosa”?

Analiso-o, penso em sua capacidade de ver sua fé a partir da perspectiva de um infiel, de conseguir ver o lado negativo com essa facilidade.

– Talvez – reflito, – mas, ao mesmo tempo, não sei se quero demonizar a igreja desse jeito.

Os olhos de Sebastian encontram os meus, antes de ele afastá-los.

– Qual é o papel que ser, hum, bissexual exerce no livro?

É a primeira vez que ele gagueja nessa conversa – seu enrubescer se espalha como se um mapa se desenhasse em seu rosto.

Tenho vontade de dizer a ele: quero saber se você poderia gostar de mim, se alguém como você poderia ser amigo de alguém como eu.

Mas ele já está aqui, já está sendo generoso e genuíno com alguém como eu. Esperava que viesse e fosse um bom tutor da disciplina, respondesse a algumas perguntas e me ajudasse a começar a escrever enquanto eu ficasse boquiaberto em sua presença. Não esperava que perguntasse sobre mim ou que fosse tão compreensivo. Não esperava gostar dele. Agora, o conflito parece óbvio e faz algo estável dentro de mim se curvar e golpear com ansiedade, porque ficou ainda mais assustador escrever sobre esse assunto.

– Pense melhor.– Aconselha baixinho, brincando com um clipe de papel. – Existem muitos caminhos para seguir com essa história e grande parte depende da jornada dele, das descobertas dele. Ele começa ressentido por estar onde está e sentindo-se sufocado pela cidade. Mas encontra a liberdade ficando nela ou saindo dela? Encontra algo que o faça mudar de ideia?

Faço que sim para a tela do computador porque agora não consigo olhar para ele sem meus sentimentos ficarem claramente projetados em meu rosto. Meu sangue ferve com o calor da paixão.

Lá fora, começa a nevar, e, ainda bem, vamos nos sentar nas poltronas perto da janela para assistir à neve, deixando o livro de lado por um tempo. Sebastian nasceu aqui, no final da rua. Seu pai é advogado fiscal e foi chamado para servir como bispo há quase dois anos. Sua mãe trabalhava com finanças na Vivint antes de ele nascer. Agora, é mãe em tempo integral e esposa do bispo, o que, explica Sebastian, meio que a transforma em uma protetora. Ela gosta disso, ele me conta, mas significa que ele e Lizzy tiveram que dar mais apoio a Faith e Aaron. Ele joga futebol e beisebol desde que tinha seis anos. Sua banda favorita é Bon Iver. Toca piano e violão.

Divido com ele os mesmos detalhes inócuos: nasci em Palo Alto. Meu pai é cirurgião cardíaco. Minha mãe é programadora. Ela se sente culpada por não passar mais tempo comigo, mas tenho muito orgulho dela. Minha banda favorita é Nick Cave and the Bad Seeds, mas não sei tocar instrumentos.

Não voltamos a discutir a minha sexualidade, mas sinto a presença desse assunto como uma terceira pessoa na sala, em um canto escuro, espreitando a conversa.

O silêncio marca o passo do tempo entre nós enquanto observamos a calçada acinzentada, logo abaixo da janela, lentamente sendo coberta por uma camada branca. O vapor se eleva da superfície do sistema de ventilação na calçada e, com o acelerar estranho e frenético do meu coração, surge a vontade de saber mais sobre Sebastian. Quem já amou, quem odeia, se é possível que se interesse por garotos.

– Você não me perguntou sobre o livro – enfim diz.

Está falando do livro dele.

– Putz... droga... Foi mal. – Digo. – Não foi minha intenção ser grosseiro.

– Não é grosseria. – Ele me encara e sorri como se guardássemos o mesmo segredo, um segredo exasperador. – Só falei isso porque todo mundo pergunta.

– Eu achei bem legal. – Coloco as mãos nos bolsos e alongo as costas na cadeira. – Quero dizer, é claro que é incrível. Im