Main Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo

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Year:
2014
Language:
portuguese
ISBN 13:
9788543800196
File:
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6 comments
 
theo
esse é simplesmente o livro mais lindo que eu já li , a amizade deles o amor e carinho que sentem um pelo outro é lindo demais
28 March 2021 (06:26) 
sarah
esse livro é tão perfeito, não vejo a hora do autor lançar o 2.
11 May 2021 (20:33) 
Will
Amaria ver a continuação deste livro, que é simples complexo entre duas personagens
22 July 2021 (12:23) 
Julia
Esse livro é absolutamente perfeito
09 August 2021 (07:36) 
augusta
amei o livro, apenas algumas coisinhas que nao me agradaram, mas nada que me fez desgostar do livro. Espero a continuação ansiosamente
12 August 2021 (00:24) 
mclaracd
ele tem uma escrita bem diferente de romances comuns, os capítulos são bem diretos, tem os diálogos, um pouco dos pensamentos dos personagens mas é bem sucinto. eu curti bastante, é bem emocionante
18 August 2021 (16:01) 

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1

A lógica inexplicável da minha vida

Ano:
2017
Idioma:
portuguese
Arquivo:
EPUB, 1,07 MB
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2

O dia em que o presidente desapareceu

Ano:
2018
Idioma:
portuguese
Arquivo:
EPUB, 770 KB
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BENJAMIN ALIRE SÁENZ



Tradução

CLEMENTE PEREIRA





A todos os garotos que tiveram de

aprender a jogar com regras diferentes.





Agradecimentos





Eu pensei duas vezes antes de escrever este livro. Na verdade, depois que terminei o primeiro capítulo, mais ou menos, quase decidi abandonar o projeto. Mas sou sortudo e abençoado o suficiente para estar cercado de pessoas comprometidas, corajosas, talentosas e inteligentes, que me inspiraram a terminar o que comecei. Este livro não teria sido escrito sem elas. Então aqui está minha pequena, e certamente incompleta, lista de pessoas às quais eu gostaria de agradecer: Patty Moosebrugger, ótima agente e amiga. Daniel e Sasha Chacon, pelo grande carinho e por acreditarem que eu precisava escrever este livro. Hector, Annie, Ginny e Barbara, que sempre estiveram ao meu lado. Meu editor, David Gale, que acreditou neste livro, e todo o time da Simon & Schuster, especialmente Navah Wolfe. Meus colegas do departamento de escrita criativa, cujo trabalho e generosidade continuaram a me desafiar a ser um escritor e uma pessoa melhor. E, finalmente, gostaria de agradecer aos meus alunos, antigos e atuais, que me lembram de que a língua e a escrita sempre vão importar. Minha gratidão a todos vocês.





POR QUE SORRIMOS? POR QUE DAMOS RISADA?

Por que nos sentimos sós? Por que somos tristes e confusos? Por que lemos poesia? Por que choramos ao ver uma pintura? Por que nosso coração se descontrola quando estamos apaixonados? Por que sentimos vergonha? O que é essa coisa no fundo das entranhas chamada desejo?





As diferentes regras

do verão


O problema da minha vida era que ela tinha sido

ideia de outra pessoa.





Um


CERTA NOITE DE VERÃO, CAÍ NO SONO DESEJANDO que o mundo fosse diferente quando eu acordasse. Quando abri os olhos de manhã, estava tudo igual. Afastei os lençóis e permaneci deitado, enquanto o calor entrava pela janela aberta.

Estendi o braço para sintonizar o rádio. Tocava “Alone”. Droga. “Alone”, de uma banda chamada Heart. Não era minha ; música favorita. Não era minha banda favorita. Não era meu assunto favorito. “Você não sabe quanto tempo…”

Eu tinha quinze anos.

Estava entediado.

Estava infeliz.

Por mim, o sol poderia ter derretido todo o azul do céu. Aí o céu seria tão infeliz quanto eu.

O locutor dizia coisas irritantes e óbvias, como “É verão! Faz calor lá fora!”, para depois chamar a vinheta antiga do Cavaleiro Solitário; ele gostava de tocar aquilo todas as manhãs, achava que era um bom jeito de acordar o mundo. “Aiô, Silver!” Quem contratou esse cara? Ele era péssimo. Acho que pensava que, ao escutarmos a abertura da ópera Guilherme Tell, imaginaríamos o Cavaleiro Solitário e o Tonto cavalgando pelo deserto. Talvez alguém devesse dizer àquele cara que já não tínhamos mais dez anos. “Aiô, Silver!” Droga. A voz dele preencheu de novo o ar: “Hora de acordar, El Paso! Segunda-feira, 15 de junho de 1987! 1987! Dá pra acreditar? Um grande ‘feliz aniversário’ a Waylon Jennings, que completa cinquenta anos hoje!”. Waylon Jennings? Aquilo era uma estação de rock, caramba! Mas o que o locutor disse em seguida deu a impressão de que talvez tivesse cérebro. Ele contou como Waylon Jennings tinha sobrevivido ao acidente de avião que matara Buddy Holly e Richie Valens, em 1959. Para finalizar o comentário, tocou a versão de “La bamba” de Los Lobos.

“La bamba.” Era tolerável.

Comecei a batucar o chão de madeira com os pés descalços. Enquanto balançava a cabeça no ritmo da música, imaginava o que Richie Valens teria pensado antes de o avião se espatifar no chão. Ei, Buddy! Acabou a música.

A música acabou tão cedo. A música acabou quando mal tinha começado. Era muito triste.





Dois


ENTREI NA COZINHA. MINHA MÃE PREPARAVA UM almoço para as amigas da igreja. Peguei um copo de suco de laranja.

Minha mãe sorriu.

— Não vai me dar bom-dia?

— Estou pensando no assunto — eu disse.

— Bom, pelo menos você conseguiu sair da cama.

— Foi preciso muito esforço.

— Por que meninos precisam dormir tanto?

— Somos bons nisso. — Ela riu da resposta. — Mas eu não estava dormindo. Estava ouvindo “La bamba”.

— Richie Valens — ela disse baixinho. — Tão triste.

— Igual Patsy Cline.

Ela concordou com a cabeça. Às vezes, quando a flagrava cantarolando aquela música, “Crazy”, eu abria um sorriso. Era como se compartilhássemos um segredo. Minha mãe tinha uma bela voz.

— Acidentes de avião — ela murmurou. Acho que estava falando mais para si mesma do que para mim.

— Talvez Richie Valens tenha morrido jovem… mas pelo menos ele fez alguma coisa. Quer dizer, ele realmente fez alguma coisa. E eu? O que eu fiz?

— Você tem tempo — ela disse. — Ainda tem muito tempo.

Eterna otimista.

— Bom, primeiro é preciso virar gente — eu disse.

Ela fez uma cara engraçada.

— Tenho quinze anos — completei.

— Sei quantos anos você tem.

— Com quinze anos você ainda não é considerado gente.

Minha mãe riu. Ela era professora de colegial. Eu sabia que em parte ela concordava comigo.

— E então? Por que essa grande reunião?

— Vamos reorganizar o banco de alimentos.

— Banco de alimentos?

— Para distribuir alimentos pra quem não tem.

Minha mãe se sensibilizava com a pobreza. Já fora pobre. Tinha passado por situações que eu jamais passaria.

— Entendi — comentei.

— Talvez você possa ajudar…

— Claro — concordei.

Eu odiava ser escalado para essas funções. O problema da minha vida era que ela tinha sido ideia de outra pessoa.

— O que você vai fazer hoje? — a pergunta soou como um desafio.

— Vou entrar em uma gangue.

— Não tem graça.

— Sou mexicano. Não é isso que a gente faz?

— Já disse que não tem graça.

— Não tem graça mesmo — eu disse, por fim. É, não tinha graça.

Precisava sair de casa. Não que tivesse algum lugar para onde ir.

Me sentia sufocado quando minha mãe convidava as amigas da igreja para ir em casa. Não era porque elas tinham mais de cinquenta anos… Não, não era. Nem por causa dos comentários sobre como eu estava virando homem tão rápido. Quer dizer, eu sabia que era besteira. E, dentre todas as besteiras possíveis, aquela era até simpática, inofensiva e carinhosa. Dava para suportar quando elas me pegavam pelos ombros e diziam: “Deixe-me olhar para você. Déjame ver. Ay, que muchacho tan guapo. Te pareces a tu papa”. Não que houvesse alguma coisa para ver. Era só eu. Tudo bem, eu era mesmo parecido com meu pai. Mas não achava aquilo grande coisa.

O que realmente me incomodava era o fato de minha mãe ter mais amigos do que eu. Tem coisa mais triste?

Resolvi ir nadar na piscina do Memorial Park. Uma ideia boba, mas pelo menos era minha.

Enquanto seguia em direção à porta, minha mãe pegou a toalha velha apoiada em meu ombro e trocou por uma melhor. O mundo da minha mãe tinha algumas regras que eu simplesmente não entendia. E as regras não paravam nas toalhas.

Ela encarou minha camiseta.

Eu sabia reconhecer um olhar de censura. Antes que ela me fizesse trocar de roupa, retribuí o olhar.

— É minha camiseta predileta — falei.

— Você não usou ontem?

— Sim — confirmei. — É do Carlos Santana.

— Eu sei que é — ela disse.

— Meu pai me deu de aniversário.

— Se bem me lembro, você não demonstrou tanta empolgação quando abriu o presente.

— Eu esperava outra coisa.

— Outra coisa?

— Sei lá, outra coisa. Uma camiseta de aniversário? — Olhei para ela e completei: — Acho que eu não entendo ele.

— Ele não é tão complicado, Ari.

— Mas ele não fala.

— Às vezes as pessoas falam, mas não dizem a verdade.

— Talvez — eu disse. — Só que agora eu gosto da camiseta.

— Dá pra notar — ela comentou, com um sorriso no rosto.

Eu também estava sorrindo.

— O papai me disse que comprou no primeiro show que ele foi.

— Eu estava junto. Lembro bem. Já está velha e gasta.

— Tem um significado sentimental.

— Ah, claro.

— Mãe, é verão.

— Sim — ela disse. — É verão.

— Regras diferentes — eu disse.

— É, regras diferentes.

Eu adorava as regras do verão. Minha mãe as tolerava.

Ela estendeu a mão e passou os dedos no meu cabelo.

— Só prometa que não vai usar de novo amanhã.

— Tudo bem. Prometo. Mas só se você prometer que não vai colocar na secadora.

— Talvez você mesmo devia lavar — ela disse, achando graça. — Só não vá se afogar.

Retribuí o sorriso.

— Se acontecer, não se desfaça do meu cachorro.

O negócio do cachorro era piada. Não tínhamos animais de estimação.

Minha mãe entendia meu senso de humor; e eu, o dela. Dava certo. Não que ela não tivesse seus mistérios. Mas uma coisa eu de fato entendia: por que meu pai tinha se apaixonado por ela. Já o porquê de ela ter se apaixonado por meu pai era algo que não me entrava na cabeça. Uma vez, quando eu tinha cinco ou seis anos, fiquei com muita raiva. Queria que ele brincasse comigo, e ele era tão distante. Parecia que eu nem estava lá. Com toda minha raiva infantil, perguntei à minha mãe:

— Como você pôde casar com esse cara?

Ela sorriu e passou os dedos no meu cabelo. Sempre fazia isso. Então me olhou bem nos olhos e respondeu tranquilamente:

— Seu pai era lindo.

Minha mãe nem sequer hesitou.

Fiquei com vontade de perguntar para onde tinha ido toda aquela beleza.





Três


DEBAIXO DAQUELE CALOR, ATÉ OS LAGARTOS SABIAM que não era dia de ficar rastejando por aí. Até os passarinhos estavam quietos. Os remendos de asfalto nas ruas derretiam. O céu tinha um azul pálido, e me veio a ideia de que talvez as pessoas tivessem fugido da cidade e do calor. Ou talvez tivessem morrido — como nos filmes de ficção científica —, e eu estava sozinho. Mas bem no momento em que essas coisas me passavam pela cabeça, um bando de moleques do bairro me ultrapassou de bicicleta, o que me fez desejar realmente estar sozinho. Riam e faziam bagunça, aparentemente se divertindo. Um dos caras gritou para mim:

— Ei, Mendoza! Passeando com seus amigos?

Acenei, fingindo levar na esportiva, ha, ha, ha. E depois mostrei o dedo do meio.

Um dos caras parou, deu meia-volta e começou a me cercar com a bicicleta.

— Faz de novo — ele desafiou.

Mostrei o dedo outra vez.

Ele parou a bicicleta bem na minha frente e tentou me intimidar com o olhar.

Não funcionou. Eu sabia quem ele era. O irmão dele, Javier, já tinha mexido comigo uma vez. E eu tinha socado a cara dele. Viramos inimigos. Não me arrependia. Bom, eu tinha personalidade difícil. Admito.

Ele fez uma voz de mau. Como se me assustasse.

— Não me provoca, Mendoza.

Mostrei o dedo mais uma vez, apontando para a cara dele como se fosse uma arma. Ele logo desceu da bicicleta. Eu tinha medo de muita coisa… mas não de caras como ele.

A maioria não mexia comigo. Nem mesmo os que andavam em bando. Eles passaram de novo por mim com suas bicicletas, gritando besteiras. Tinham entre treze e catorze anos. Mexer com garotos como eu era a diversão deles. Assim que as vozes ficaram distantes, comecei a sentir pena de mim mesmo.

Sentir pena de mim mesmo era uma arte. Acho que parte de mim gostava disso. Talvez tivesse a ver com o momento em que nasci. Não sei, acho que influía. Não me agradava o fato de ser pseudo filho único. Era assim que eu me via. Era filho único sem ser de verdade. Um saco.

Minhas irmãs eram gêmeas e tinham doze anos a mais do que eu. Doze anos era uma vida, sério. Sempre faziam que eu me sentisse um bebê, um brinquedo, um trabalho de escola ou um animal de estimação. Eu gosto de cachorros, mas às vezes tinha a sensação de que eu mesmo não passava de uma mascote da família. Em espanhol, é o termo para o cachorro de estimação: mascoto. Mascote. Ótimo. Ari, a mascote da família.

Meu irmão era onze anos mais velho. Ele era ainda mais inacessível que minhas irmãs. Eu não podia nem mencionar o nome dele. Afinal, quem gosta de falar de irmãos mais velhos que estão na cadeia? Meu pai e minha mãe não, com certeza. Menos ainda minhas irmãs. Talvez todo aquele silêncio sobre meu irmão mexesse comigo. Acho que sim. Não falar pode deixar alguém muito solitário.

Meus pais eram jovens e batalhadores quando minhas irmãs e meu irmão nasceram. “Batalhador” é a palavra favorita de meus pais. Em algum momento entre os três filhos e a tentativa de terminar a faculdade, meu pai se tornou fuzileiro naval. E então partiu para a guerra.

A guerra o transformou.

Nasci quando ele voltou para casa.

Às vezes, penso em todas as cicatrizes de meu pai. No coração. Na cabeça. Em toda parte. Não é fácil ser filho de um homem que já esteve na guerra. Aos oito anos, ouvi uma conversa da minha mãe com a tia Ophelia ao telefone.

— Acho que a guerra nunca vai acabar para ele.

Mais tarde, perguntei à tia Ophelia se aquilo era verdade.

— É — ela confirmou. — É verdade.

— Mas por que a guerra não deixa ele em paz?

— Porque seu pai tem consciência — ela respondeu.

— O que aconteceu com ele na guerra?

— Ninguém sabe.

— E por que ele não conta?

— Porque não consegue.

Era isso. Quando eu tinha oito anos, não sabia nada sobre guerras. Não sabia sequer o que era consciência. Tudo que sabia era que às vezes meu pai ficava triste. Eu odiava quando ele ficava triste. Aquilo me deixava triste também. E eu não gostava de tristeza.

Então eu era filho de um homem que tinha o Vietnã dentro de si. Sim, eram muitos motivos trágicos para sentir pena de mim mesmo. Ter quinze anos não ajudava. Às vezes achava que ter quinze anos era a pior tragédia de todas.





Quatro


EU PRECISAVA TOMAR UMA DUCHA ANTES DE ENTRAR na piscina. Era uma das regras. Pois é, regras. Odiava tomar banho com um bando de estranhos. Não sei por quê, simplesmente não gostava. É aquilo, alguns caras falam sem parar, como se fosse normal entrar no chuveiro com um monte de gente e contar da professora que você odeia, do último filme que você viu ou da garota de quem você está a fim. Eu não gostava; não tinha nada para falar. Caras no chuveiro. Não era minha praia.

Caminhei até a piscina, sentei na beirada da parte rasa e botei os pés na água.

O que você faz numa piscina quando não sabe nadar? Aprende. Acho que essa era a resposta. Eu tinha ensinado meu corpo a boiar na água. Sem perceber, aplicara um dos princípios da física. E o melhor é que tinha feito a descoberta por mim mesmo.

Por mim mesmo. Estava apaixonado por essa expressão. Eu não era muito bom em pedir ajuda, um mau hábito herdado do meu pai. E, além disso, os instrutores de natação que se consideravam salva-vidas eram uma droga. Não tinham o menor interesse em ensinar um pivete raquítico de quinze anos a nadar. Estavam mais interessados nas garotas que começavam a ter peitos. Eram obcecados por peitos. Essa era a verdade. Ouvi um dos salva-vidas conversar com outro enquanto deveria estar de olho num grupo de crianças pequenas.

— Uma garota é como uma árvore. Dá vontade de escalar e arrancar todas as folhas.

O outro salva-vidas riu.

— Você é um babaca — disse.

— Não, sou um poeta — reagiu o primeiro. — Um poeta do corpo.

E os dois caíram na gargalhada.

Sim, claro, aqueles dois eram os novos Walt Whitman. Pois é, meu problema com garotos é que eu não fazia a menor questão de ficar perto deles. Quer dizer, me causavam desconforto. Não sei por quê, exatamente. É que… Sei lá, eu não fazia parte daquele mundo. Acho que o fato de eu ser um deles me deixava absurdamente envergonhado. E a possibilidade de crescer e virar um daqueles babacas me deprimia. Uma garota é como uma árvore? Sim, e um cara é tão inteligente quanto um toco de madeira infestado de cupins. Minha mãe diria que era apenas uma fase. Logo teriam seus cérebros de volta. Ah, claro.

Talvez a vida fosse mesmo só uma série de fases — uma depois da outra. Talvez em alguns anos eu passaria pela mesma fase em que os salva-vidas de dezoito anos estavam. Não que eu acreditasse na teoria da minha mãe sobre fases. Aquilo não parecia ser uma explicação — estava mais para uma desculpa qualquer. Acho que minha mãe não entendia a fundo os garotos. Nem eu. E eu era um.

Tinha a sensação de que havia algo de errado comigo. Acho que eu era um mistério até para mim mesmo. Que saco. Eu tinha sérios problemas.

Uma coisa era certa: pedir para um daqueles idiotas me ensinar a nadar estava fora de questão. Melhor sofrer sozinho. Melhor morrer afogado.

Então fiquei boiando no canto. Não que fosse muito divertido.

Foi então que ouvi uma voz meio esganiçada.

— Posso ensinar você a nadar.

Fui até a lateral da piscina e fiquei de pé, os olhos quase fechados por causa do sol. Ele estava sentado na beirada. Encarei-o com desconfiança. Um cara que se oferece para ensinar alguém a nadar com certeza não tem nada melhor para fazer da vida. Dois caras sem nada para fazer da vida? Quão divertido poderia ser?

Eu tinha uma regra: melhor se entediar sozinho do que acompanhado. E quase sempre seguia essa ideia. Talvez por isso não tivesse amigos.

Ele me encarava. Esperando. Então, repetiu:

— Posso ensinar você a nadar, se quiser.

Por algum motivo, gostei da voz dele. Soava como se estivesse gripado, meio rouco.

— Você fala de um jeito esquisito — comentei.

— É alergia — ele disse.

— Alergia a quê?

— Ao ar — respondeu.

A resposta me fez rir.

— Meu nome é Dante — ele disse.

Seu nome me fez rir ainda mais.

— Desculpe — eu disse.

— Tudo bem. As pessoas costumam rir do meu nome.

— Não, não — acrescentei. — É que o meu é Aristóteles.

Seus olhos brilharam. Tipo, o cara estava disposto a escutar cada palavra que eu dissesse.

— Aristóteles — repeti.

Então ambos perdemos o controle. De tanto rir.

— Meu pai é professor de inglês em uma faculdade — ele disse.

— Pelo menos o seu nome tem uma explicação. Meu pai é carteiro. Aristóteles é o nome do meu avô.

E então pronunciei o nome do meu vô, caprichando no sotaque mexicano:

— Aristotiles. E, na verdade, meu primeiro nome é Angel. — Emendei em espanhol: — Angel.

— Seu nome é Angel Aristóteles?

— Sim. Esse é o meu nome de verdade.

Rimos de novo. Não conseguíamos parar. Perguntava a mim mesmo do que estávamos rindo. Era só dos nomes? Ou ríamos por estarmos aliviados? Felizes? O riso era outro mistério da vida.

— Eu costumava dizer às pessoas que meu nome era Dan. Sabe, só tirando duas letras. Mas parei de fazer isso. Não era verdade. E, no fim das contas, fui descoberto. Me senti um mentiroso idiota. Tive vergonha de mim mesmo por ter tido vergonha de mim mesmo. Não gostei de me sentir assim — explicou, dando de ombros.

— Todo mundo me chama de Ari.

— Prazer, Ari.

Gostei do jeito como disse “Prazer, Ari”. As palavras soaram sinceras.

— Tudo bem — eu disse —, me ensine a nadar.

Acho que pronunciei as palavras como se estivesse fazendo um favor a ele. Mas ele não percebeu ou não se importou.

Dante era um professor detalhista. Sabia nadar muito bem, entendia tudo sobre o movimento dos braços e das pernas e a respiração. Entendia como o corpo funcionava na água. Ele amava e respeitava a água. Compreendia suas belezas e perigos. Falava de nadar como um estilo de vida. Ele tinha quinze anos. Quem era aquele cara? Parecia meio frágil, mas não era. Era disciplinado, rígido e inteligente; e não fingia ser burro e comum. Não era nem um nem outro.

Era engraçado, focado e impetuoso. Quer dizer, podia ser im­petuoso. E não tinha nenhuma maldade. Eu não entendia como alguém podia viver em um mundo mau e não absorver um pouco dessa maldade. Como um cara era capaz de viver sem um pouco de maldade?

Dante se tornou mais um mistério em um mundo cheio de mistérios.

Durante todo aquele verão, nadamos, lemos quadrinhos e livros e conversamos sobre eles. Dante tinha revistas do Super-Homem que eram de seu pai. Ele adorava. Também gostava de Archie & Veronica. Eu odiava aquela merda.

— Não é merda nenhuma — ele reclamava.

Já eu gostava de Batman, Homem-Aranha e Hulk.

— Sombrio demais — Dante disse.

— Falou o cara que gosta de Coração das trevas, do Conrad.

— É diferente — ele rebateu. — Conrad escreveu literatura.

Eu sempre defendia que histórias em quadrinhos também eram literatura. Só que literatura era coisa séria para alguém como Dante. Não me lembro de ter ganhado uma discussão com ele. Ele argumentava melhor. E lia melhor. Li o livro do Conrad por causa dele. Quando terminei, disse que tinha odiado.

— Apesar de que é verdade. — comentei. — O mundo é um lugar sombrio. Nisso Conrad tem razão.

— Talvez o seu mundo, Ari. O meu não.

— Pois é — eu disse.

— Pois é — ele disse.

A verdade é que eu tinha mentido para Dante. Amei o livro. Achei a coisa mais linda que já tinha lido. Quando meu pai viu o que eu estava lendo, me contou que era um de seus livros prediletos. Tive vontade de perguntar se ele tinha lido antes ou depois do Vietnã. Mas não adiantava fazer perguntas ao meu pai. Ele nunca respondia.

Assumi que Dante lia porque gostava. Já eu lia porque não tinha nada melhor para fazer. Ele analisava as coisas. Eu apenas lia. Acho que precisava procurar mais palavras no dicionário do que ele.

Eu era mais escuro do que ele. E não falo apenas da cor da pele. Ele disse uma vez que eu tinha uma visão trágica da vida.

— É por isso que você gosta do Homem-Aranha.

— É que eu sou muito mexicano. O povo mexicano é trágico.

— Pode ser — ele falou.

— Você é o americano otimista.

— Isso é uma ofensa?

— Talvez — respondi.

Rimos. Sempre ríamos.

Dante e eu não éramos parecidos. Mas tínhamos algumas coisas em comum. Para começar, nenhum de nós tinha autorização para assistir TV durante o dia. Nossos pais não gostavam do que a TV fazia com a cabeça dos garotos. Ambos crescemos com discursos mais ou menos assim: “Você é um menino! Saia daí e vá fazer alguma coisa! Tem um mundo inteiro lá fora à sua espera…”.

Dante e eu fomos os últimos garotos dos Estados Unidos a crescer sem TV. Um dia, ele me perguntou:

— Você acha que nossos pais estão certos? Que tem um mundo inteiro lá fora à nossa espera?

— Duvido — foi minha resposta.

Ele riu.

Então, tive uma ideia.

— Vamos pegar um ônibus e ver o que tem lá fora.

Dante sorriu. Nós dois adorávamos andar de ônibus. Às vezes, passávamos a tarde inteira fazendo isso.

— Gente rica não anda de ônibus — falei para Dante.

— É por isso que a gente gosta.

— Talvez — eu disse. — A gente é pobre?

— Não — ele respondeu, abrindo um sorriso. — Mas, se fugíssemos de casa, nós dois seríamos pobres.

Achei a ideia muito instigante.

— Você teria coragem? — questionei. — Teria coragem de fugir de casa?

— Não.

— Por que não?

— Quer ouvir um segredo?

— Claro.

— Sou louco pela minha mãe e pelo meu pai.

Abri um sorriso sincero. Nunca tinha ouvido alguém falar assim dos pais. Quer dizer, ninguém era louco pelos pais. Exceto Dante.

Então ele cochichou no meu ouvido:

— Acho que aquela mulher dois bancos à frente está tendo um caso.

— Como você sabe? — cochichei de volta.

— Ela tirou a aliança assim que entrou no ônibus.

Concordei com a cabeça e sorri.

Nós inventávamos histórias sobre os outros passageiros.

Quem sabe eles não imaginavam histórias para nós.

Nunca fui muito próximo de ninguém. Eu era um solitário. Tinha jogado basquete, beisebol e passado pelos lobinhos e tentado ser escoteiro. Sempre mantendo distância dos outros garotos. Nunca, jamais me sentira parte daquele universo.

Garotos. Observava-os. Estudava-os.

No fim das contas, sempre achei a maioria dos caras desinteressante. Na verdade, os desprezava.

Talvez me sentisse um pouco superior. Não sei se “superior” era a palavra. Só não sabia como falar com eles, como ser eu mesmo perto deles. Andar com outros caras não me dava a sensação de ser mais inteligente. Andar com outros caras me dava a sensação de ser burro e deslocado. Era como se todos fizessem parte de um clube do qual eu não era sócio.

Quando cheguei à idade de entrar para os escoteiros, disse a meu pai que não queria. Não aguentava mais.

— Tente por um ano — meu pai falou.

Meu pai sabia que eu era meio briguento. Sempre me passava sermões sobre violência física. Ele queria me manter longe das gangues. Queria evitar que eu fosse como meu irmão e acabasse na cadeia. Assim, por causa do meu irmão, de cuja existência ninguém parecia se lembrar, eu precisava ser um bom escoteiro. Que saco. Por que precisava ser um bom menino só por ter um irmão maloqueiro? Eu odiava essa lógica dos meus pais.

Fiz a vontade do meu pai. Tentei por um ano. Odiei tudo, com exceção das aulas de primeiros-socorros. Quer dizer, eu não gostava nem um pouco da ideia de assoprar dentro da boca de alguém. Me dava desespero. Por algum motivo, porém, aquilo tudo me fascinava. Aprender como fazer o coração de alguém voltar a bater. Eu não entendia muito como era possível. Assim que ganhei uma insígnia por saber reanimar alguém, desisti. Voltei para casa e entreguei a insígnia para o meu pai.

— Acho que você está cometendo um erro — foi tudo o que ele disse.

Não vou acabar atrás das grades. Era isso que eu queria dizer. No entanto, apenas falei:

— Se você me obrigar a voltar lá, juro que começo a fumar maconha.

Meu pai me lançou um olhar estranho.

— A vida é sua — disse.

Como se fosse verdade. Outra característica do meu pai: ele nunca dava sermões. Não sermões de verdade. E isso me deixava louco. Ele não era mau. Também não era estourado. Soltava frases curtas: “A vida é sua”; “Tente”; “Tem certeza de que é isso que você quer?”. Por que não podíamos simplesmente conversar? Como eu o conheceria, se ele não deixava? Eu odiava isso.

Sobrevivi bem. Tinha colegas na escola. Mais ou menos. Não era popular. Como poderia ser? Para ser conhecido, era preciso fazer as pessoas acreditarem que você era divertido e interessante. E eu simplesmente não era um bom fingidor.

Havia dois garotos com quem eu costumava andar, os irmãos Gomez. Só que eles se mudaram. E duas garotas, Gina Navarro e Susie Byrd, tinham como passatempo infernizar minha vida. Garotas. Também eram um mistério. Tudo era um mistério.

Mas não sofri tanto. Talvez não fosse amado por todos, mas tampouco era um daqueles garotos que todos odiavam.

Eu era bom de briga. Por isso as pessoas me deixavam em paz.

Eu era praticamente invisível. Acho que gostava de ser assim.

Até que surgiu Dante.





Cinco


DEPOIS DA QUARTA AULA DE NATAÇÃO, DANTE ME chamou para ir à casa dele. Ele morava a menos de uma quadra da piscina, em uma casa grande e velha do outro lado do parque.

Ele me apresentou ao pai, que era professor universitário. Nunca tinha conhecido um americano de família mexicana que fosse professor do departamento de inglês em uma faculdade. Nem sabia que existiam. Para falar a verdade, ele nem parecia acadêmico. Era bonito e tranquilo; parecia que parte dele ainda era jovem. Tinha cara de ser um homem apaixonado pela vida. Muito diferente do meu pai, que sempre se manteve afastado do mundo. Meu pai tinha um ar sombrio que eu era incapaz de compreender. O pai de Dante não. Mesmo seus olhos negros pareciam cheios de luz.

Naquela tarde, encontrei o pai de Dante de jeans e camiseta, sentado em uma poltrona de couro no escritório, com um livro nas mãos. Nunca conhecera alguém que tinha um escritório em casa.

Dante caminhou até o pai e lhe deu um beijo na bochecha. Eu jamais faria isso. Jamais.

— Você não fez a barba hoje de manhã, pai.

— É verão — ele disse.

— Isso quer dizer que você não precisa trabalhar.

— Isso quer dizer que preciso terminar de escrever meu livro.

— Escrever não é trabalho.

O pai de Dante caiu na gargalhada ao ouvir aquilo.

— Você ainda tem muito o que aprender sobre trabalho.

— É verão, pai. Não quero nem ouvir falar de trabalho.

— Você nunca quer ouvir falar de trabalho.

Dante não gostou do rumo da conversa e tentou mudar de assunto.

— Você vai deixar a barba crescer?

— Não — ele riu. — Está calor demais. Além disso, sua mãe não vai querer me beijar se eu ficar mais um dia sem fazer a barba.

— Nossa, como ela é rígida.

— Aham.

— E o que você faria sem os beijos dela?

Ele deu um sorriso malicioso e se virou para mim.

— Como você aguenta esse cara? Você deve ser o Ari.

— Sim, senhor.

Fiquei nervoso. Não estava acostumado a conhecer os pais dos outros. E a maioria dos pais não tinha o menor interesse em falar comigo.

Ele levantou da poltrona e pôs o livro de lado. Então caminhou até mim e apertou minha mão.

— Meu nome é Sam — ele disse. — Sam Quintana.

— Prazer em conhecê-lo, sr. Quintana.

Prazer em conhecê-lo. Já tinha ouvido essa frase mil vezes. Ela tinha parecido real nos lábios de Dante. Mas quando eu dizia, me sentia idiota e sem criatividade. Tive vontade de me esconder.

— Você pode me chamar de Sam — ele falou.

— Não posso — redargui.

Meu Deus, como eu queria me esconder.

O pai de Dante acenou com a cabeça.

— Que bonito — disse. — E respeitoso.

A palavra “bonito” nunca atravessara os lábios de meu pai.

Ele lançou um olhar para Dante.

— O jovem aqui é respeitador. Talvez você pudesse aprender um pouco com ele, Dante.

— Quer que eu chame você de sr. Quintana?

Os dois se seguraram para não rir. O pai voltou novamente a atenção para mim.

— Como foi a natação?

— Dante é um bom professor — respondi.

— Dante é bom em várias coisas. Só não é muito bom em arrumar o quarto. Arrumar o quarto tem muito a ver com a palavra “trabalho”.

Dante o encarou.

— É uma indireta?

— Você é ligeiro, Dante. Puxou à mãe.

— Não banque o espertinho, pai.

— Do que você me chamou?

— Ficou ofendido?

— Não pela palavra. Pela atitude, talvez.

Dante torceu o nariz e foi sentar na poltrona do pai. Antes, tirou o tênis.

— Não fique à vontade demais — frisou o pai. — O seu chiqueiro fica lá em cima.

Achei graça da situação. O jeito como eles se tratavam, a maneira fácil e carinhosa de conversar, como se o amor entre pai e filho fosse simples e descomplicado. Às vezes, o relacionamento entre mim e minha mãe era fácil e descomplicado. Às vezes. Mas meu pai e eu não tínhamos isso. Comecei a imaginar como seria entrar em casa e dar um beijo no meu pai.

Subimos as escadas, e Dante me mostrou o quarto dele. Era grande, com pé-direito alto, piso de madeira e várias janelas velhas que deixavam a luz entrar. Havia coisas por toda a parte. Roupas espalhadas no chão, uma pilha de álbuns velhos, livros jogados, blocos de papel com alguns rabiscos, fotos polaroide, um par de câmeras, um violão sem cordas, partituras e um mural lotado de fotos e papéis.

Ele colocou uma música para tocar. Dante tinha uma vitrola. Uma verdadeira vitrola dos anos 1960.

— Era da minha mãe — explicou. — Ela ia jogar fora, acredita?

Botou Abbey Road, seu álbum favorito.

— Vinil — ele disse. — Vinil de verdade. Nada de fitas cassetes vagabundas.

— Qual é o problema com as cassetes?

— Não confio nelas.

Achei estranho ele dizer aquilo. Engraçado, mas estranho.

— Discos riscam fácil.

— Não se você tomar cuidado.

Corri os olhos pelo quarto bagunçado.

— Dá para ver que você toma cuidado mesmo.

Dante não ficou com raiva. Ele riu e me deu um livro.

— Toma. Você pode ler isso enquanto arrumo o quarto.

— Então, talvez fosse melhor eu ir embora… — parei antes de concluir a frase, para examinar novamente aquele quarto bagunçado. — É meio assustador aqui.

Dante achou graça.

— Não, não vá — ele disse. — Odeio arrumar o quarto.

— Talvez se você não tivesse tanta coisa…

— São só as minhas coisas.

Não falei nada. Eu não tinha minhas coisas.

— Se você ficar, não vai ser tão ruim.

Por algum motivo, me senti um intruso, mas…

— O.k. — eu disse. — Quer ajuda?

— Não. É minha função — ele disse, com ar resignado. — Como diria minha mãe, “é responsabilidade sua, Dante”. Responsabilidade é a palavra preferida dela. Ela acha que meu pai não me cobra o bastante. Claro que não. O que ela esperava? Meu pai não é de botar pressão. Ela casou com o cara. Será que não sabe como ele é?

— Você sempre analisa seus pais?

— Eles analisam a gente, certo?

— É a função deles, Dante.

— Vai me dizer que você não analisa seus pais?

— Acho que sim. Mas não serve de nada. Continuo não entendendo os dois.

— Bom, eu já conheço bem meu pai, mas minha mãe não. Ela é o maior mistério do mundo. Quer dizer, ela é previsível enquanto mãe. Só que de resto é inescrutável.

— Inescrutável.

Eu sabia que ao voltar para casa teria que procurar a palavra no dicionário.

Dante me encarou como se fosse minha vez de dizer algo.

— Eu conheço bem minha mãe — eu disse. — Mas meu pai também é inescrutável.

Me senti uma enorme fraude ao usar aquela palavra. Talvez fosse essa a questão: eu não era um garoto de verdade; eu era uma fraude.

Ele me passou um livro de poesias.

— Leia este — sugeriu.

Eu nunca tinha lido um livro de poesias antes; sequer sabia como ler um livro daqueles. Olhei para ele meio perplexo.

— Poesia — ele disse. — Não vai matar você.

— Mas e se matar? “Garoto morre de tédio ao ler poesia”.

Ele tentou não rir, mas não era bom em controlar o riso que vivia dentro de si. Ele balançou a cabeça e passou a juntar as roupas espalhadas no chão.

— Pode jogar aquelas coisas no chão e sentar — ele disse, apontando para a poltrona.

Peguei uma pilha de livros de arte e um caderno de desenhos e botei no chão.

— O que é isso?

— Um caderno de desenhos.

— Posso ver?

Ele fez que não com a cabeça.

— Não gosto de mostrar.

Interessante… Ele tinha seus segredos.

Ele apontou para o livro de poesia.

— Leia. Sério, você não vai se arrepender.

Dante passou a tarde toda limpando o quarto. E eu, lendo o livro de um poeta chamado William Carlos Williams. Nunca tinha ouvido falar dele, mas até aí nunca tinha ouvido falar de ninguém. E até que entendi alguma coisa. Não tudo, mas alguma coisa. E não odiei. Fiquei surpreso. O livro era interessante; não era idiota, bobo, pedante nem intelectual demais… nada do que eu pensava que poesia era. Alguns poemas eram mais fáceis que outros. Alguns eram inescrutáveis. Comecei a achar que talvez soubesse o significado dessa palavra.

Fiquei pensando que poemas são como pessoas. Algumas pessoas você entende de primeira. Outras você simplesmente não entende… e nunca entenderá.

Fiquei impressionado ao ver como Dante era sistemático na organização do quarto. Quando entramos, estava um caos absoluto. Quando ele terminou, cada coisa estava em seu lugar.

O mundo de Dante tinha ordem.

Ele tinha organizado todos os livros em uma prateleira ou sobre a escrivaninha.

— Deixo na escrivaninha os próximos que vou ler — explicou.

Uma escrivaninha. Uma escrivaninha de verdade. Quando eu precisava escrever, usava a mesa da cozinha.

Ele pegou o livro de poesia que estava comigo e começou a procurar um poema. O nome era “Morte”. Dante parecia tão em harmonia com seu quarto recém-organizado — o sol poente entrando pelas janelas e iluminando seu rosto, o livro em suas mãos como se ali fosse seu lugar: as mãos de Dante e somente as mãos de Dante. Gostei de sua voz ao ler o poema; parecia que ele mesmo tinha escrito aqueles versos.



Ele morreu

o cão não mais terá

que dormir sobre as batatas

para que não congelem



ele morreu

velho cuzão…



Dante sorriu ao ler a palavra “cuzão”. Eu sabia que ele a adorava porque era uma das palavras proibidas de usar, uma palavra banida. Mas ali, em seu quarto, podia ler e se apropriar dela.

Fiquei sentado na poltrona confortável do quarto de Dante a tarde inteira, enquanto ele, estirado em sua cama recém-arrumada, lia poemas.

Não me preocupei em entender. Não ligava para o que queriam dizer. Não ligava porque o importante era que a voz de Dante dava a sensação de ser real. E eu tinha a sensação de ser real. Antes de Dante, estar com alguém era a coisa mais difícil do mundo para mim. Mas, com ele, conversar e viver e sentir pareciam coisas perfeitamente naturais. No meu mundo não eram.

Voltei para casa e procurei a palavra “inescrutável”. Significava “o que não pode ser entendido facilmente”. Anotei todos os sinônimos em meu diário. “Obscuro”; “insondável”; “enigmático”; “misterioso”.

Naquela tarde, aprendi duas palavras novas. “Inescrutável”… e “amigo”.

As palavras ficam diferentes quando passam a morar dentro de você.





Seis


EM OUTRA TARDE, DANTE FOI À MINHA CASA E SE apresentou aos meus pais. Quem fazia esse tipo de coisa?

— Sou o Dante Quintana — ele disse.

— Ele me ensinou a nadar — completei.

Não sei por quê, mas precisei contar isso a eles. Em seguida, olhei para minha mãe e continuei:

— Você disse para eu não me afogar. Então encontrei alguém para me ajudar a cumprir a promessa.

Meu pai e minha mãe se entreolharam. Acho que sorriam. É, deviam estar pensando, ele finalmente arrumou um amigo. Odiei aquilo.

Dante apertou a mão do meu pai… e lhe entregou um livro.

— Trouxe um presente para o senhor — anunciou.

Fiquei ali, observando. Já tinha visto aquele livro na mesinha da sala dele. Era um livro de arte com obras de pintores mexicanos. Dante tinha um jeito tão adulto, nada a ver com um garoto de quinze anos. De certa forma, até o cabelo comprido despenteado contribuía para parecer mais velho.

Meu pai sorria enquanto examinava o livro, até que disse:

— Dante, isso é muito generoso da sua parte… mas não sei se posso aceitar.

Meu pai segurava o livro com cuidado, temendo estragá-lo. Ele e minha mãe trocaram olhares. Minha mãe e meu pai faziam muito isso. Gostavam de conversar sem palavras. Eu criava histórias sobre o que um dizia ao outro através desses olhares.

— É sobre arte mexicana — Dante insistiu. — O senhor tem que aceitar.

Quase dava para ver seu raciocínio elaborando um argumento convincente. Convincente e verdadeiro.

— Meus pais não queriam que eu viesse de mãos abanando. — Em seguida, olhando meu pai seriamente, completou: — Então o senhor tem que aceitar.

Minha mãe pegou o livro das mãos do meu pai e observou a capa.

— É lindo. Obrigada, Dante.

— Agradeça ao meu pai. Foi ideia dele.

Meu pai sorriu. Era a segunda vez em menos de um minuto que ele sorria. Não era algo comum. Meu pai não era muito fã de sorrisos.

— Agradeça a seu pai por mim, por favor, Dante.

Meu pai pegou o livro e sentou. Como se fosse um tesouro. Eu realmente não entendia meu pai. Nunca conseguia adivinhar como ele reagiria às situações. Nunca.





Sete


— NÃO TEM NADA NO SEU QUARTO.

— Tem uma cama, um rádio relógio, uma cadeira de balanço,

uma estante, alguns livros. Isso não é “nada”.

— Não tem nada nas paredes.

— Tirei os pôsteres.

— Por quê?

— Não gostava deles.

— Você parece um monge.

— Isso. Aristóteles, o monge.

— Você não tem um hobby?

— Tenho. Olhar para paredes vazias.

— Talvez você vire padre.

— É preciso acreditar em Deus para ser padre.

— Você não acredita em Deus? Nem um pouco?

— Talvez um pouco. Não muito.

— Então você é agnóstico?

— Sim. Católico agnóstico.

Minha resposta fez Dante rir.

— Não era pra ser engraçado.

— Eu sei. Só que é.

— Você acha que é ruim ter dúvidas?

— Não, acho que é inteligente.

— Não me acho muito inteligente. Não tanto quanto você, Dante.

— Você é inteligente, Ari. Muito inteligente. Aliás, ser inteligente não é tudo. Os outros só zoam você. Meu pai diz que tudo bem ser zoado pelos outros. Sabe o que ele me disse? “Dante, você é um intelectual. É o que você é. Não sinta vergonha disso.”

Notei seu sorriso um pouco triste. Talvez todo mundo fosse um pouco triste. Talvez.

— Ari, eu tento não sentir vergonha.

Eu sabia como era sentir vergonha. Mas Dante sabia o motivo. Eu não.

Dante. Eu gostava dele. Gostava muito dele mesmo.





Oito


FIQUEI OBSERVANDO MEU PAI FOLHEAR AS PÁGINAS. Era óbvio que tinha adorado o livro. E por causa daquele livro, aprendi algo novo sobre meu pai. Ele tinha estudado arte antes de se alistar como fuzileiro. Aquilo não se encaixava na imagem que eu fazia dele. Gostei da novidade.

Uma noite, ele me chamou enquanto dava uma olhada no livro.

— Veja isso — ele disse. — É um mural de Orozco.

Observei o mural reproduzido no livro, mas estava mais interessado no dedo dele, que batucava satisfeito na página. Aquele dedo havia puxado um gatilho na guerra. Aquele dedo havia tocado minha mãe de maneiras carinhosas que eu não compreendia. Eu queria conversar, dizer alguma coisa, fazer perguntas. Mas não consegui. As palavras entalaram na garganta. Então apenas concordava com a cabeça.

Nunca tinha pensado em meu pai como um homem das artes. Acho que só o via como um ex-fuzileiro naval que virou carteiro ao voltar do Vietnã. Um carteiro ex-combatente que não gostava de falar muito.

Um carteiro ex-combatente que voltou para casa depois da guerra e teve mais um filho. Não que eu achasse que esse tinha sido ideia dele. Sempre achei que foi minha mãe que me quis. Não que eu realmente soubesse de quem minha vida tinha sido ideia. Eu inventava muitas histórias na minha cabeça.

Podia ter feito um monte de perguntas ao meu pai. Podia. Mas algo em seu rosto, olhos e em seu sorriso torto me impediu. Talvez eu não acreditasse que ele quisesse que eu o conhecesse de verdade. Por isso, só coletei pistas. Observar meu pai com aquele livro foi uma pista. Algum dia todas as pistas se encaixariam. E eu resolveria o mistério que era o meu pai.





Nove


UM DIA, DEPOIS DE NADAR, DANTE E EU SAÍMOS andando por aí. Paramos em um 7-Eleven. Ele comprou coca e amendoim.

Eu comprei uma barrinha de cereal.

Ele me ofereceu um gole.

— Não gosto de coca — eu disse.

— Que estranho.

— Por quê?

— Todo mundo gosta de coca.

— Eu não.

— Do que você gosta?

— De café e chá.

— Que estranho.

— O.k., eu sou estranho. Agora cale a boca.

Ele riu. Continuamos andando. Acho que não queríamos voltar para casa. Conversamos sobre várias coisas. Coisas idiotas. Foi quando ele me perguntou:

— Por que mexicanos gostam de apelidos?

— Não sei. A gente gosta?

— Gosta. Você sabe como minhas tias chamam minha mãe? Chole.

— O nome dela é Soledad?

— Tá vendo, Ari? Você sabe. Sabe o apelido de Soledad. Está implícito. Por que isso? Por que não podem chamá-la simplesmente de Soledad? Que história é essa de Chole? De onde tiraram Chole?

— Por que isso o incomoda tanto?

— Não sei. É estranho.

— “Estranho” é a palavra do dia?

Dante riu e comeu alguns amendoins.

— Sua mãe tem apelido?

— Lilly. O nome dela é Liliana.

— Belo nome.

— Soledad também.

— Não muito. Você gostaria de se chamar “Solidão”?

— Também pode significar “solitário” — acrescentei.

— Viu? Que nome triste.

— Não acho triste. Acho um nome lindo. Acho que combina com a sua mãe — eu disse.

— Talvez. E Sam… Sam é perfeito para o meu pai.

— É.

— Qual é o nome do seu pai?

— Jaime.

— Gosto desse nome.

— O nome verdadeiro dele é Santiago.

Dante achou graça.

— Viu só o que eu disse sobre apelidos?

— Você se incomoda de ser mexicano, né?

— Não.

Olhei para ele.

— Sim, me incomodo.

Ofereci a barrinha. Ele deu uma mordida.

— Sei lá — ele disse.

— Incomoda — afirmei novamente. — Incomoda você, sim.

— Sabe o que eu acho, Ari? Acho que os mexicanos não gostam de mim.

— Estranho você dizer isso — comentei.

— Estranho — ele disse.

— Estranho — repeti.





Dez


EM UMA NOITE SEM LUA, OS PAIS DE DANTE NOS levaram ao deserto para usarmos o telescópio novo dele. No caminho, Dante e o pai foram cantando Beatles. Não eram muito afinados. Não que se importassem com isso.

Eles eram muito carinhosos entre si. Uma família pegajosa e beijoqueira. Sempre que Dante entrava em casa, beijava a mãe e o pai na bochecha ou era beijado por eles, como se esse carinho todo fosse perfeitamente normal.

Eu me perguntava o que meu pai faria se algum dia eu fosse até ele e beijasse sua bochecha. Não achava que gritaria comigo, mas sei lá…

Passamos bastante tempo no carro, percorrendo o deserto. Aparentemente, o sr. Quintana conhecia um bom lugar para observar estrelas.

Um lugar distante das luzes da cidade.

Poluição luminosa. Era o que Dante dizia. Dante parecia saber muito sobre poluição luminosa.

O sr. Quintana e Dante montaram o telescópio.

Fiquei observando os dois enquanto ouvia o rádio.

A mãe de Dante me ofereceu coca. Aceitei, apesar de não gostar.

— Dante diz que você é muito inteligente.

Elogios me deixavam nervoso.

— Não tanto quanto ele.

Então ouvimos a voz de Dante interrompendo a conversa:

— Pensei que já tínhamos falado sobre isso, Ari.

— O quê? — a mãe dele perguntou.

— Nada. Só que a maioria das pessoas inteligentes é uma merda total.

— Dante! — exclamou a sra. Quintana.

— Sim, mãe, eu sei. Nada de palavrões…

— Por que você gosta tanto de xingar, Dante?

— É divertido — ele respondeu.

O sr. Quintana riu.

— É divertido mesmo — ele concordou, para depois emendar: — só que esse tipo de diversão precisa acontecer quando sua mãe não está por perto.

A sra. Quintana não gostou do conselho.

— Que tipo de lição você quer ensinar ao menino, Sam?

— Soledad, eu acho…

Dante encerrou a discussão ao olhar pelo telescópio.

— Uau, pai! Olha isso! Olha!

Todos queríamos ver o que Dante estava vendo.

Em silêncio, ficamos ao redor do telescópio, no meio do deserto, esperando nossa vez de ver os corpos celestes. Quando olhei pelo telescópio, Dante começou a explicar o que era aquilo que eu via. Não escutei nenhuma palavra sequer. Alguma coisa aconteceu dentro de mim quando comecei a contemplar o vasto Universo. Através daquele telescópio, o mundo ficava mais próximo e maior do que eu jamais imaginara. Era tudo tão belo e estonteante e… sei lá, percebi que algo importante existia dentro de mim.

Ao me ver vasculhar o céu através das lentes de um telescópio, Dante cochichou:

— Um dia vou desvendar todos os segredos do Universo.

Achei graça.

— E o que você vai fazer com esses segredos, Dante?

— Saberei quando chegar a hora — respondeu. — Talvez mudar o mundo.

Acreditava nele.

Dante Quintana era o único ser humano que eu havia conhecido capaz de dizer algo assim. Eu sabia que ele nunca diria idiotices do tipo “uma garota é como uma árvore”.

Naquela noite, dormimos no quintal dos fundos da casa de Dante.

Como a janela estava aberta, dava para ouvir os pais dele conversando na cozinha. A mãe falava em espanhol, e o pai, em inglês.

— Eles fazem isso — ele disse.

— Os meus também — comentei.

Não conversamos muito. Só ficamos deitados olhando para as estrelas.

— Poluição luminosa demais — comentou.

— Poluição luminosa demais — repeti.





Onze


UM FATO IMPORTANTE SOBRE DANTE: ELE NÃO GOSTAVA de usar sapato.

Quando íamos andar de skate no parque, ele tirava o tênis e esfregava os pés na grama como se quisesse arrancar alguma coisa que tinha grudado ali. Quando íamos ao cinema, ele também tirava o tênis. Uma vez o esqueceu lá, e tivemos que voltar para buscar.

Perdemos o ônibus. Dante também tirou o sapato no ônibus.

Um vez, sentei ao seu lado na missa. Ele desamarrou o cadarço e tirou o sapato bem no banco da igreja. Eu o olhei indignado. Ele torceu o nariz, apontou para o crucifixo e sussurrou:

— Jesus não usa sapato.

Rimos.

Quando Dante ia à minha casa, deixava os sapatos na varanda da frente antes de entrar.

— Os japoneses fazem isso — dizia. — Não levam a sujeira da rua pra casa dos outros.

— É — eu replicava —, mas não somos japoneses. Somos mexicanos.

— Não somos mexicanos de verdade. Por acaso vivemos no México?

— Nossos avós vieram de lá.

— Tá, mas a gente sabe alguma coisa sobre o México?

— Falamos espanhol.

— Não muito bem.

— Fale por você, Dante. Seu pocho.

— O que é pocho?

— Um mexicano de meia-tigela.

— Tudo bem. Talvez eu seja um pocho. Mas o que quero dizer é que podemos adotar outras culturas.

Não sei bem por quê, mas começamos a rir. A verdade é que eu passara a gostar da guerra de Dante contra os sapatos. Um dia não aguentei e perguntei:

— Então, por que você tem esse problema com os sapatos?

— Não gosto deles. É isso. Simples assim. Sem grandes segredos. Nasci não gostando deles. Não há nada de complexo nisso. Bom, pelo menos não teria se não fosse minha mãe. Ela me força a usar. Diz que existem convenções. E depois fala das doenças que posso pegar. E depois afirma que os outros vão pensar que sou mais um mexicano pobre. Ela insiste que há meninos nas cidadezinhas mexicanas que morreriam por um par de sapatos. “Você pode comprar sapatos, Dante.” É o que ela diz. E você sabe o que eu sempre respondo? “Não, não posso. Eu lá tenho emprego? Não posso comprar nada.” E geralmente nessa parte da conversa ela começa a coçar a cabeça. E então diz: “Ser mexicano não significa ser pobre”. E eu tenho vontade de responder: “Mãe, não é questão de ser pobre. Nem questão de ser mexicano. Eu só não gosto de sapato”. Mas sei que toda essa história de sapato tem a ver com o jeito como ela foi criada. Então sempre acabo cedendo quando ela repete: “Dante, a gente pode comprar sapatos”. Sei que isso não tem nada a ver com “poder comprar”. Mas, sabe como é, ela sempre lança um olhar atravessado para mim. E eu devolvo o mesmo olhar. É assim que funciona. Eu, minha mãe e os sapatos não podemos discutir.

Como de costume, Dante passou a contemplar o céu quente da tarde. Era sinal de que estava pensando.

— Sabe, usar sapatos não é natural. Essa é minha premissa básica — disse, por fim.

— Sua premissa básica?

Às vezes, ele falava como um cientista ou um filósofo.

— Você sabe… O princípio fundamental.

— Princípio fundamental?

— Do jeito que você me olha parece até que eu sou doido.

— Você é doido, Dante.

— Não sou — ele disse. E repetiu: — Não sou.

Parecia zangado.

— O.k. — eu disse. — Você não é. Não é doido nem japonês.

Ele chegou perto e desamarrou meu cadarço, dizendo:

— Tire o sapato, Ari. Viva um pouco.

Fomos para a rua e começamos um jogo que Dante inventou na hora. Era uma disputa para ver quem atirava o tênis mais longe. Dante foi muito sistemático com as regras criadas na hora. Eram três rodadas, seis arremessos. Pegamos um pedaço de giz para marcar onde o sapato caía. Ele pegou a fita métrica do pai, que alcançava até dez metros. Não que fosse suficiente.

— Por que precisamos medir? — perguntei. — Não basta arremessar o sapato e marcar com o giz onde caiu? A marcação mais distante ganha. Simples.

— Precisamos saber a distância exata — ele disse.

— Por quê?

— Porque quando você decide fazer uma coisa, precisa saber exatamente o que está fazendo.

— Ninguém sabe exatamente o que está fazendo — rebati.

— Isso porque as pessoas são preguiçosas e indisciplinadas.

— Alguém já te falou que às vezes você parece um lunático com um inglês perfeito?

— Culpa do meu pai — ele disse.

— A parte do lunático ou do inglês? — Balancei a cabeça. — É só um jogo, Dante.

— E daí? Quando você joga, você precisa saber o que está fazendo, Ari.

— Eu sei o que estamos fazendo, Dante. Inventando um jogo. Jogamos os tênis na rua pra ver quem arremessa mais longe. É isso o que estamos fazendo.

— É uma versão do lançamento de dardo, certo?

— É, acho que sim.

— Eles medem a distância quando arremessam o dardo, não é?

— É, mas é um esporte de verdade, Dante. Isso aqui não.

— Isso aqui também é um esporte de verdade. Eu sou de verdade. Você é de verdade. Os tênis são de verdade. A rua é de verdade. As regras que a gente criou também são de verdade. O que mais você quer?

— Mas dá muito trabalho. Depois de cada lançamento, a gente tem que medir. Qual é a graça? A graça está em arremessar.

— Não — Dante discordou —, a graça está no jogo. No jogo todo.

— Não entendo. Arremessar o sapato é legal. O.k. Mas pegar a fita do seu pai e esticar no meio da rua dá muito trabalho. Não tem graça. Além disso, e se vier um carro?

— Saímos da frente. Aliás, a gente podia jogar no parque.

— A rua é mais legal — eu disse.

Dante me encarou.

Encarei-o de volta. Eu sabia que não tinha chance; sabia que acabaríamos jogando pelas regras dele. Mas a verdade é que aquilo era importante para Dante, não para mim. Assim, jogamos com nossos equipamentos: tênis, dois pedaços de giz e a fita métrica do pai dele. Criávamos as regras conforme jogávamos, e as mudávamos o tempo todo. No final, havia três sets — como num jogo de tênis. Cada set consistia em seis arremessos. Dezoito arremessos completavam uma partida. Dante venceu dois sets de três. Mas fui eu que fiz o melhor lançamento: catorze metros e quarenta e dois centímetros.

O pai de Dante apareceu na frente da casa e balançou a cabeça.

— O que vocês estão fazendo?

— Jogando.

— O que eu disse sobre brincar na rua, Dante? Tem um parque bem ali — ele disse, apontando para o parque. — E o que… — ele fez uma pausa para examinar a cena. — Vocês estão jogando o tênis pela rua?

Dante não tinha medo do pai. Não que Sam fosse temível. Ainda assim, pai é pai, e o dele estava ali diante de nós, nos desafiando. Dante nem se abalou, na certeza de que poderia se justificar.

— Não estamos simplesmente arremessando o tênis pela rua, pai. É um jogo. É a versão pobre de lançamento de dardo. Queremos ver quem joga mais longe.

O pai dele riu. Riu para valer.

— Você é o único garoto capaz de inventar um jogo para acabar com seu tênis.

E, ainda rindo, completou:

— Sua mãe vai adorar.

— Não precisamos contar pra ela.

— Sim, precisamos.

— Por quê?

— Nada de segredos. É a regra.

— Estamos jogando no meio da rua. Como pode ser segredo?

— É segredo se não contarmos a ela.

Ele abriu um sorriso irônico para Dante, não por raiva, mas por precisar agir como pai.

— Vá jogar no parque, Dante.

Encontramos um bom lugar no parque para continuar o jogo. Eu analisava o rosto de Dante, que se preparava para arremessar o tênis com toda a força. Seu pai estava certo: Dante tinha mesmo arranjado um jogo como desculpa para acabar com o tênis.





Doze


UMA TARDE, DEPOIS DE SAIR DA PISCINA, FICAMOS DE bobeira na varanda da casa de Dante.

Ele mantinha o olhar fixo nos próprios pés. Achei engraçado. Me perguntou por que eu sorria.

— Só estava sorrindo — expliquei. — Não se pode sorrir?

— Você não está falando a verdade — ele disse.

Ele tinha essa implicância sobre dizer a verdade. Era tão chato com isso quanto meu pai. A diferença é que meu pai guardava a verdade para si. Já Dante acreditava que a gente precisava comunicar a verdade em palavras. Em voz alta e para alguém.

Eu não era como Dante. Parecia mais com meu pai.

— Tudo bem — admiti. — Achei graça de você olhando para os próprios pés.

— É uma coisa curiosa de achar graça.

— É estranho — comentei. — Quem faz isso…? Quem olha para os próprios pés, além de você?

— Não é errado conhecer o próprio corpo — ele disse.

— Dizer isso também é estranho — emendei.

Não falávamos sobre nosso corpo em casa. Não era assim que as coisas funcionavam lá.

— Que seja — ele disse.

— Que seja — repeti.

— Você gosta de cachorro, Ari?

— Adoro cachorro.

— Eu também. Eles não precisam usar sapatos.

Caí na gargalhada. Comecei a pensar que uma de minhas missões na terra era rir das piadas de Dante. Só que ele não tinha a intenção de ser engraçado. Estava apenas sendo ele mesmo.

— Vou pedir um cachorro para o meu pai.

Ele disse essas palavras com algo no olhar, uma espécie de fogo. O que seria aquele fogo?

— Que tipo de cachorro você quer?

— Não sei, Ari. Quero adotar. Um cachorro que tenha sido abandonado.

— Sei. Mas como você vai escolher? Tem um monte de cachorros no abrigo. E todos querem ser resgatados.

— Culpa das pessoas, que são tão más. Deixam os cachorros na rua como se fossem lixo. Odeio isso.

Continuamos a conversar até ouvir um barulho. Uns moleques gritando na rua. Eram três. Talvez um pouco mais novos do que nós. Dois deles seguravam pistolas de ar e apontavam para um passarinho que tinham acabado de acertar.

— Pegamos! Pegamos! — gritava um deles, com a pistola na direção da árvore.

— Ei! — Dante gritou. — Parem com isso!

Antes de eu perceber o que estava acontecendo, ele já estava no meio da rua. Corri atrás.

— Parem! O que vocês têm na cabeça? — Dante estendeu a mão e fez sinal para os meninos pararem. — Dá aqui a pistola — ordenou.

— Nem morto que eu vou dar minha pistola de ar pra você.

— É ilegal — Dante disse, parecendo furioso. Furioso mesmo.

— E a segunda emenda? — disse o cara.

— É, a segunda emenda — disse o outro, segurando a arminha firme.

— A segunda emenda não se aplica a pistolas de ar, babaca. Aliás, armas não são permitidas em espaços públicos da cidade.

— E como você vai me impedir, seu merda?

— Vou fazer vocês pararem — Dante respondeu.

— Como?

— Chutando a bunda magrela de vocês até a fronteira do México — eu disse.

Acho que tinha medo de que aqueles caras machucassem Dante. Só disse o que senti que era necessário. Eles não eram grandes nem espertos. Eram moleques maus e idiotas, e eu sabia do que eram capazes. Talvez Dante não fosse mau o bastante para brigar. Mas eu era. Nunca me sentira mal por ter socado um cara que merecia.

Ficamos ali uns instantes, nos encarando. Pude ver que Dante não fazia ideia do próximo passo.

Um dos moleques parecia a ponto de mirar a pistola em mim.

— Eu não faria isso se fosse você, seu merdinha.

Mal terminei de falar e tomei a arma da mão dele num único movimento. Rápido e inesperado. Foi uma das coisas que aprendi sobre como agir em brigas: ser rápido, pegar os caras de surpresa. E lá estava eu, com a pistola de ar nas mãos.

— Você tem sorte de eu não enfiar isso no seu rabo — alertei em seguida.

Joguei a pistola no chão. Nem precisei mandar darem o fora. Eles simplesmente foram embora, murmurando palavrões pelo caminho.

Dante e eu olhamos um para a cara do outro.

— Não sabia que você gostava de brigar — falou.

— Não gosto. Não mesmo — repliquei.

— Ah — ele insistiu. — Você gosta, sim, de brigar.

— Talvez eu goste — eu disse. — E eu não sabia que você era pacifista.

— Talvez eu não seja pacifista. Talvez só ache que é preciso um bom motivo para sair por aí matando pássaros. — Dante examinou meu rosto. Não sei o que buscava. — Você também manda bem nos palavrões — completou.

— Pois é. Bom, Dante, não vamos contar pra sua mãe.

— Nem pra sua.

Olhei para ele.

— Tenho uma teoria sobre por que as mães são tão rígidas.

Dante esboçou um sorriso.

— Porque amam a gente, Ari.

— Isso é parte da resposta. A outra é porque querem que sejamos meninos para sempre.

— É, acho que isso faria minha mãe feliz… Ser menino para sempre.

Dante baixou o olhar para o passarinho morto. Há poucos minutos, estava com uma raiva enorme. Agora parecia prestes a chorar.

— Nunca tinha visto você com tanta raiva — falei.

— Também nunca tinha visto você com tanta raiva.

Ambos sabíamos que nossa raiva tinha motivos diferentes.

Passamos uns instantes ali parados, olhando para o pássaro morto.

— É só um pardalzinho — ele disse. E começou a chorar.

Eu não sabia o que fazer. Só fiquei ali, olhando.

Atravessamos a rua e sentamos na varanda. Ele arremessou o tênis para o outro lado da rua com toda a força e fúria. Depois, secou as lágrimas.

— Você ficou com medo? — perguntou.

— Não.

— Eu fiquei.

— E daí?

Mais uma vez se fez um silêncio. Eu odiava o silêncio. Então acabei fazendo uma pergunta imbecil:

— Por que os pássaros existem, afinal?

Ele olhou para mim.

— Você não sabe?

— Acho que não.

— Os pássaros existem para nos ensinar coisas sobre o céu.

— Você acredita nisso?

— Acredito.

Queria falar para ele não chorar mais, que aquilo que os moleques fizeram com o pássaro não importava. Mas sabia que, sim, importava. Importava para Dante. E, em todo caso, não adiantava falar para ele não chorar, porque ele precisava chorar. Era o jeito dele.

Ele finalmente parou. Respirou fundo e olhou para mim.

— Você me ajuda a enterrar o pássaro?

— Claro.

Pegamos uma pá na garagem da casa dele e andamos até o parque, onde o pássaro estava, caído na grama. Levantei-o com a pá e o levei para o outro lado da rua, para o quintal dos fundos da casa de Dante. Cavei um buraco sob um grande oleandro.

Acomodamos o pássaro no buraco e enterramos.

Nenhum de nós abriu a boca.

Dante voltou a chorar. Fiquei mal por não ter vontade de chorar. Não estava nem um pouco triste por causa do pássaro. Talvez ele não merecesse levar um tiro de um moleque idiota que só sabia se divertir atirando nas coisas. Mas, ainda assim, era só um pássaro.

Eu era mais frio que Dante. Acho que tentava esconder esse meu jeito porque queria que ele gostasse de mim. Mas agora ele tinha visto. Que eu era frio. Mas talvez tudo estivesse bem. Talvez ele pudesse gostar do meu jeito mais frio, assim como eu gostava de que ele não fosse desse jeito.

Contemplamos a cova do passarinho.

— Obrigado — ele disse.

— Não foi nada — respondi.

Eu sabia que ele queria ficar sozinho.

— Ei — falei baixinho. — Vejo você amanhã.

— Vamos nadar — ele disse.

— Vamos.

Uma lágrima escorria pela bochecha dele. A luz do sol poente fazia com que parecesse um pequeno rio.

Imaginei como era ser o tipo de cara que chora pela morte de um passarinho.

Me despedi com um aceno. Ele fez o mesmo.

No caminho para casa, pensei sobre pássaros e o sentido de sua existência. Dante tinha uma resposta. Eu não. Não fazia ideia de por que os pássaros existiam. Nunca sequer questionara isso.

A resposta de Dante fez sentido para mim. Se estudássemos os pássaros, poderíamos aprender a ser livres. Acho que era isso que ele queria dizer. Eu tinha nome de filósofo. Qual era minha resposta? Por que não tinha uma resposta?

E por que alguns caras eram capazes de chorar e outros não choravam de jeito nenhum? Garotos diferentes tinham lógicas di­ferentes.

Ao chegar em casa, sentei na varanda.

Assisti ao pôr do sol.

Estava me sentindo sozinho, mas não de um jeito ruim. Gostava de ficar sozinho. Talvez até demais. Talvez meu pai fosse assim também.

Pensei muito em Dante.

E me pareceu que seu rosto era o mapa do mundo. Um mundo sem qualquer escuridão.

Uau, um mundo sem escuridão. Não seria lindo?





Pardais que caem do céu


Quando eu era criança, costumava acordar achando

que o mundo ia acabar.





Um


NA MANHÃ SEGUINTE AO ENTERRO DO PASSARINHO, acordei queimando de febre.

Dores no corpo, na garganta, cabeça latejando como um coração pulsante. Eu ficava olhando minhas mãos; estava quase convencido de que pertenciam a outra pessoa. Ao tentar levantar, percebi que não tinha equilíbrio nem força. O quarto parecia girar. Tentei dar um passo, mas minhas pernas não suportavam meu peso. Caí de costas na cama e o rádio relógio se espatifou no chão.

Minha mãe apareceu no quarto e, por algum motivo, ela não parecia real.

— Mãe? Mãe? É você? — Eu tinha a sensação de que gritava.

Os olhos dela demonstravam dúvida.

— Sim — respondeu. Parecia tão séria.

— Caí — eu disse.

Ela falou alguma coisa, mas não consegui entender. Tudo estava tão estranho. Pensei que talvez fosse um sonho, mas o toque de sua mão em meu braço era real.

— Você está queimando de febre — ela disse.

Senti suas mãos em meu rosto.

Eu só queria saber onde estávamos, então perguntei.

— Onde estamos?

Ela me abraçou por uns instantes.

— Shhh.

O mundo estava tão quieto. Havia uma barreira entre mim e as coisas, e pensei por um momento que o mundo nunca tinha me querido e que agora aproveitava a oportunidade para se livrar de mim.

Olhei para cima e vi minha mãe parada. Em uma mão, duas aspirinas; na outra, um copo d’água.

Sentei, peguei os comprimidos e coloquei na boca. Ao segurar o copo, pude notar como minhas mãos tremiam.

Ela pôs um termômetro embaixo da minha língua.

Esperou o tempo necessário e pegou de volta.

— Quarenta graus — disse. — Precisamos baixar essa febre. — Balançando a cabeça, completou: — É culpa daquela piscina cheia de germes.

O mundo pareceu mais real por um instante.

— É só um resfriado — balbuciei, mas parecia que a voz era de outra pessoa.

— Acho que você está com gripe.

Mas é verão. As palavras estavam na ponta da língua, mas não consegui dizê-las. Não conseguia parar de tremer. Ela pôs outro cobertor em cima de mim.

Tudo girava, mas quando eu fechava os olhos, o quarto ficava imóvel e escuro.

E então vinham os sonhos.

Pássaros caindo do céu. Pardais. Milhões e milhões de pardais. Caíam como chuva, em cima de mim, e eu ficava todo coberto de sangue e não conseguia encontrar um lugar onde me proteger. Os bicos me rasgavam a pele como flechas. E o avião de Buddy Holly também estava caindo do céu, e eu ouvia Waylon Jennings cantar “La bamba”. Ouvia Dante chorar… e quando virei para ver onde ele estava, o vi carregar o corpo inerte de Richie Valens nos braços. E então o avião começou a cair em nossa direção. Tudo que vi foi a sombra e a terra em chamas.

E então o céu desapareceu.

Eu devia ter gritado, porque minha mãe e meu pai estavam no quarto. Tremia, e tudo estava empapado de suor. Então me dei conta de que estava chorando e não conseguia parar.

Meu pai me pegou e começou a me balançar na cadeira. Me senti pequeno e fraco. Quis abraçá-lo também, mas não tinha força nos braços. Quis perguntar se ele me abraçara assim quando eu era criança, porque não lembrava. Por que não lembrava? Comecei a pensar que talvez ainda estivesse sonhando, mas vi minha mãe trocar os lençóis da cama. Aquilo tudo era real. Menos eu.

Acho que eu murmurava alguma coisa. Meu pai me abraçou mais forte, mas nem seus braços nem seus sussurros foram capazes de evitar meus tremores. Minha mãe secou meu corpo suado com uma toalha e, junto com meu pai, trocou minha camiseta e minha cueca. E então eu disse a coisa mais estranha:

— Não jogue a camiseta fora. Meu pai que meu deu.

Eu sabia que estava chorando, mas não sabia o motivo; e eu não era de chorar. Pensei que talvez fosse o choro de outra pessoa.

Pude ouvir meu pai falar baixinho:

— Shhh, está tudo bem.

Ele me colocou na cama, de barriga para cima. Minha mãe sentou ao meu lado e me deu mais água e mais aspirina.

Vi a expressão no rosto do meu pai e percebi como ele estava preocupado. E fiquei triste por ser a causa da preocupação. Eu imaginava se ele tinha me abraçado mesmo e queria dizer que não o odiava, que apenas não o entendia, não entendia quem ele era, apesar de querer tanto. Minha mãe disse algo em espanhol para meu pai, e ele fez que sim com a cabeça. Eu estava cansado demais para prestar atenção ao que era dito em qualquer língua.

O mundo estava tão quieto.

Adormeci, e os sonhos voltaram. Chovia lá fora; eu estava cercado de relâmpagos e trovões. Conseguia ver a mim mesmo correndo na chuva. Gritava à procura de Dante, que estava perdido.

— Dante! Volte! Volte!

Em seguida, já não estava mais à procura de Dante. Estava à procura do meu pai e gritava por ele.

— Pai! Pai! Aonde você foi? Aonde você foi?

Quando acordei, estava de novo encharcado de suor.

Meu pai estava na cadeira de balanço, me olhando fixamente.

Minha mãe entrou no quarto. Olhou para o meu pai e depois para mim.

— Não queria assustar vocês.

Eu era incapaz de falar mais alto que um suspiro.

Minha mãe sorriu. Ela devia ter sido muito bonita quando jovem. Ela me ajudou a sentar.

— Amor, você está encharcado. Por que não toma uma ducha?

— Tive pesadelos.

Descansei a cabeça em seu ombro. Queria que nós três ficássemos assim para sempre.

Meu pai me ajudou a ir até o chuveiro. Eu estava fraco e abatido. Quando a água morna atingiu meu corpo, pensei nos sonhos… Dante, meu pai. Imaginei como meu pai era quando tinha a minha idade. Minha mãe contou que ele era bonito. Será que era tão bonito quanto Dante? Depois me perguntei por que pensei isso.

Voltei para a cama. Minha mãe tinha trocado os lençóis mais uma vez.

— A febre passou — ela disse, para depois me dar outro copo d’água.

Não queria, mas bebi tudo. Não tinha ideia da sede que sentia. Pedi mais água.

Meu pai ainda estava lá, sentado na cadeira de balanço.

Nos entreolhamos longamente enquanto eu deitava na cama.

— Você estava me procurando.

Olhei para ele.

— No sonho. Você estava me procurando.

— Estou sempre procurando você — suspirei.





Dois


QUANDO ACORDEI NA MANHÃ SEGUINTE, PENSEI QUE tivesse morrido. Sabia que não era verdade… mas aquilo me passou pela cabeça. Talvez parte de nós morra quando ficamos doentes. Não sei.

A solução da minha mãe para meu estado de saúde era me dar litros d’água para beber — um copo sofrido atrás do outro.

Depois de um tempo, fiz greve e me recusei a beber mais.

— Minha bexiga já está prestes a explodir.

— Isso é bom — ela disse. — Você está limpando o corpo.

— Chega de limpeza — retruquei.

A água não era a única coisa com que eu precisava lidar. Precisava lidar também com a canja de galinha. Aquela sopa virou minha inimiga.

O primeiro prato foi maravilhoso. Nunca tinha sentido tanta fome. Nunca. E a sopa estava bem rala.

A canja reapareceu no almoço do dia seguinte. Tudo bem, porque pude comer a galinha e os vegetais acompanhados de tortilhas de milho e arroz. Mas a canja retornou à tarde para o lanche. E de novo no jantar.

Estava cansado de água e canja de galinha. Estava cansado de ficar doente. Depois de quatro dias de cama, decidi que era hora de seguir em frente.

Fiz o anúncio à minha mãe.

— Estou bem.

— Não, não está — foi sua reação.

— Estou sendo mantido como refém.

Essa foi a primeira coisa que disse a meu pai quando ele chegou do trabalho.

Ele abriu um sorriso.

— Estou bem melhor, pai. De verdade.

— Você ainda está meio pálido.

— Preciso de sol.

— Espere mais um dia — ele disse. — Então você pode sair e arrumar todas as confusões que quiser.

— Tudo bem — cedi. — Mas chega de canja de galinha.

— Isso é entre sua mãe e você.

Ele foi em direção à porta, mas hesitou um instante.

— Teve mais algum pesadelo?

— Sempre tenho pesadelos — respondi.

— Mesmo quando não está doente?

— Sim.

Ele permaneceu parado sob o batente.

— Você está sempre perdido?

— Sim, na maioria dos sonhos.

— E sempre me procurando?

— Quase sempre estou à procura de mim mesmo, pai.

Era estranho falar com ele sobre algo assim. Estranho e assustador. Queria falar mais, só que não sabia exatamente como expressar o que havia dentro de mim. Baixei o olhar. Então olhei para ele e dei de ombros, como se dissesse nada de mais.

— Sinto muito — ele disse. — Sinto muito estar tão longe.

— Tudo bem.

— Não. Não está tudo bem.

Acho que ele ia continuar, mas mudou de ideia. Virou de costas e saiu do quarto.

Permaneci com os olhos cravados no chão. E então ouvi a voz dele de novo.

— Eu também tenho pesadelos, Ari.

Tive vontade de perguntar se os sonhos ruins eram sobre a guerra ou sobre meu irmão. Quis perguntar se ele acordava tão assustado quanto eu.

Tudo o que fiz foi sorrir. Ele tinha me dito algo sobre si.

Fiquei feliz.





Três


FINALMENTE ME DEIXARAM VER TV, MAS DESCOBRI algo sobre mim mesmo: eu não gostava de TV. Nem um pouco. Desliguei o aparelho e me vi diante da minha mãe, sentada à mesa da cozinha repassando alguns planos de aula antigos.

— Mãe?

Ela levantou o olhar para mim. Tentei imaginá-la de pé em frente à turma. Imaginei o que pensavam dela, como a viam. Será que gostavam dela? Ou odiavam? Será que a respeitavam? Será que sabiam que era mãe? E será que isso lhes importava?

— Em que você está pensando?

— Você gosta de dar aula?

— Sim — ela respondeu.

— Mesmo quando seus alunos não dão a mínima?

— Vou contar um segredo. Eu não tenho como controlar o que o estudo significa para eles. Esse valor tem que partir deles mesmos, não de mim.

— Então de que adiantam seus esforços?

— Não importa o que aconteça, Ari, minha função é me importar.

— Mesmo que eles não liguem?

— Mesmo que não liguem.

— Aconteça o que acontecer?

— Aconteça o que acontecer.

— Mesmo quando você dá aulas para garotos como eu, que acham a vida um tédio?

— É assim quando se tem quinze anos.

— É só uma fase? — perguntei.

— É só uma fase — ela riu.

— Você gosta de jovens de quinze anos?

— Você quer saber se gosto de você ou dos alunos?

— Dos dois, acho.

— Eu adoro você, Ari, você sabe.

— Sei, mas você adora seus alunos também.

— Está com ciúmes?

— Posso sair?

Eu sabia desviar das perguntas tão bem quanto ela.

— Você pode sair amanhã.

— Acho que você está sendo fascista.

— Essa palavra é séria, Ari.

— Graças a você, sei tudo sobre as diferentes formas de governo. Mussolini era fascista. Franco era fascista. E meu pai diz que Reagan era fascista.

— Não leve as piadas do seu pai tão a sério, Ari. Ele só queria dizer que o presidente Reagan tinha a mão pesada demais.

— Sei o que ele queria dizer, mãe. Assim como você sabe o que eu quero dizer.

— Bom, legal você achar que sua mãe é como uma forma de governo.

— Você é, um pouco.

— Entendi, Ari. Ainda assim, você não vai sair.

Havia dias em que desejava ter força para me rebelar contra as regras da minha mãe.

— Só quero sair. Estou entediado pra caramba.

Ela levantou. Segurou meu rosto entre as mãos.

— Hijo de mi vida — disse —, sinto muito por você achar que sou rígida demais com você. Mas tenho meus motivos. Quando você for mais velho…

— Você sempre diz isso. Já tenho quinze anos. Quantos anos preciso ter? Quanto tempo até você decidir que consigo entender, mãe? Não sou mais criança.

Ela tomou minha mão e a beijou.

— Pra mim, você é — falou em voz baixa.

As lágrimas rolavam em seu rosto. Alguma coisa não fazia sentido. Primeiro Dante. Depois eu. Agora minha mãe. Lágrimas para tudo quanto é lado. Talvez o choro fosse contagioso, como a gripe.

— Está tudo bem, mãe — sussurrei.

Abri um sorriso. Devia ter uma explicação para as lágrimas, mas não ia ser fácil arrancá-la.

— Você está bem? — perguntei.

— Sim — respondeu. — Estou.

— Não parece.

— Estou fazendo o máximo para não me preocupar com você.

— Por que se preocupar? A gripe já passou.

— Não é isso que eu quero dizer.

— O que é, então?

— O que você faz na rua?

— Coisas.

— Você não tem amigos.

Ao dizer essas palavras, ela ameaçou levar a mão à boca, mas se conteve.

Quis odiá-la por causa da acusação.

— Não quero amigos.

Ela me encarou, quase como se eu fosse um estranho.

— E como posso ter amigos se você não me deixa sair?

Recebi um daqueles olhares atravessados.

— Eu tenho amigos, mãe. Amigos da escola. E Dante. Ele é meu amigo.

— É — ela disse. — Dante.

— É — repeti. — Dante.

— Fico feliz com o Dante.

Concordei com a cabeça.

— Eu estou bem, mãe. Só não sou o tipo de cara que… — não sabia o que estava tentando dizer. — Só sou diferente.

Nem eu compreendi minhas palavras.

— Sabe o que eu acho?

Eu não queria saber o que ela achava. Não mesmo. Mas ia ouvir de qualquer jeito.

— Claro que sei — disse.

Ela ignorou.

— Acho que você não sabe o quanto é amado.

— Sei, sim.

Ela começou a dizer algo, mas mudou de ideia.

— Ari, só quero que você seja feliz.

Pensei em falar que a felicidade era difícil para mim. Mas acho que ela já sabia disso.

— Bom — eu disse —, estou naquela fase em que as pessoas esperam que eu seja infeliz.

Minhas palavras a fizeram rir.

Estávamos bem.

— Tudo bem se o Dante vier aqui?





Quatro


DANTE ATENDEU O TELEFONE NO SEGUNDO TOQUE.

— Você sumiu da piscina — sua voz soou com raiva.

— Estava de cama. Peguei gripe. Passei a maior parte do tempo dormindo, tendo pesadelos e tomando canja de galinha.

— Febre?

— Sim.

— Dor nos ossos?

— Sim.

— Suores noturnos?

— Sim.

— Que ruim — comentou. — Com o que você sonhou?

— Não quero falar sobre isso.

Ele não se incomodou.

Uns quinze minutos depois, apareceu na porta de casa. Ouvi a campainha. Pude ouvi-lo conversar com a minha mãe. Dante nunca teve problemas para puxar conversa. Provavelmente estava contando a história da sua vida à minha mãe.

Ouvi-o caminhar com os pés descalços pelo corredor. E logo lá estava ele, parado à porta do quarto, usando uma camiseta tão gasta que já estava quase transparente e um jeans surrado e rasgado.

— Oi — cumprimentou. Trazia um livro de poesia, um caderno de desenhos e alguns lápis.

— Você esqueceu o sapato — eu disse.

— Dei para os pobres.

— Acho que a calça jeans é a próxima.

— É.

Rimos.

Ele me olhou por um tempo.

— Você está um pouco pálido.

— Ainda assim, pareço mais mexicano que você.

— Todo mundo parece mais mexicano que eu. Reclame com quem me forneceu os genes — sua voz tinha algo diferente. Essa história toda de mexicano o incomodava.

— Tudo bem, tudo bem — eu disse.

“Tudo bem, tudo bem” sempre queria dizer que era hora de mudar o assunto.

— Então você trouxe seu caderno — desconversei.

— É.

— Vai me mostrar seus desenhos?

— Não. Vou desenhar você.

— E se eu não quiser?

— Como vou me tornar artista se não praticar?

— Os modelos não ganham para posar para os artistas?

— Só os bonitos.

— Então eu não sou bonito?

Dante sorriu.

— Não seja babaca.

Ele pareceu encabulado, mas não tanto quanto eu.

Senti que fiquei vermelho. Mesmo garotos de pele escura como eu ficavam corados.

— Então você vai mesmo ser artista?

— Claro — disse, para depois continuar, com os olhos fixos nos meus: — Não acredita em mim?

— Preciso de provas.

Dante sentou na cadeira de balanço, me olhando demoradamente.

— Você ainda parece doente.

— Obrigado.

— Talvez seja culpa dos sonhos.

— Talvez.

Eu não queria falar dos sonhos.

— Quando eu era criança, costumava acordar achando que o mundo ia acabar. Levantava da cama, olhava no espelho e via que meus olhos estavam tristes.

— Como os meus, você quer dizer?

— É.

— Meus olhos estão sempre tristes.

— O mundo não está acabando, Ari.

— Não seja idiota. Claro que não.

— Então não fique triste.

— Triste, triste, triste — eu disse.

— Triste, triste, triste — ele repetiu.

Abrimos um sorriso, tentando conter a risada. Só que não dava. Eu estava feliz por ele ter ido me visitar. Eu tinha ficado frágil, como se fosse quebrar. Não gostava de me sentir assim. Rir fazia eu me sentir melhor.

— Quero desenhar você.

— Tem algum jeito de eu impedir?

— Foi você quem disse que precisava de provas.

Ele jogou para mim o livro de poesia que trouxera.

— Leia. Você lê; eu desenho.

Dante ficou quieto. Seus olhos começaram a examinar o quarto inteiro: eu, a cama, os cobertores, os travesseiros, a luz. Fiquei nervoso, constrangido, envergonhado e desconfortável. E os olhos de Dante em mim… Não sabia se aquilo me agradava ou não. Só sabia que me sentia despido. Mas acontecia algo entre Dante e seu caderno de desenhos que me deu a sensação de invisibilidade. E eu relaxei.

— Quero sair bonito — pedi.

— Leia — ele disse. — Apenas leia.

Não demorei muito para esquecer que Dante me desenhava. Só li. Li, li e li. Às vezes, desviava o olhar para ele, que estava absorto no trabalho. Voltei ao livro de poemas. Li um verso e tentei entender: “não se pode tocar aquilo de que são feitas as estrelas”. Bonitas palavras, mas eu não captava o significado. Caí no sono, pensando no que aquele verso queria dizer.

Quando acordei, Dante não estava.

Não deixou nenhum desenho de mim. Mas deixou um desenho da cadeira de balanço. Era perfeito. Uma cadeira de balanço apoiada contra as paredes do quarto. Ele havia captado a luz da tarde inundando o quarto, o modo como as sombras recaíam sobre a cadeira, conferiam profundidade e a faziam parecer mais do que um objeto inanimado. Havia um quê de tristeza e solidão no desenho; eu me perguntei se era assim que ele via o mundo ou se era assim que ele via meu mundo.

Detive-me sobre o desenho por um bom tempo. Aquilo me assustava. Havia algo de verdadeiro naqueles traços.

Onde será que Dante aprendera a desenhar? Fiquei com inveja dele. Ele sabia nadar, desenhar, conversar. Lia poesia e gostava de si mesmo. Me perguntei como devia ser a sensação de gostar de si mesmo. E por que algumas pessoas gostavam de si mesmas e outras não. Talvez fosse assim mesmo.

Olhei para o desenho e depois para a cadeira. Foi quando vi o bilhete que ele tinha deixado:

Ari,

Espero que goste do desenho da cadeira. Sinto falta de você na piscina. Os salva-vidas são uns imbecis.

Dante

Após o jantar, peguei o telefone e liguei para ele.

— Por que você foi embora?

— Você precisava descansar.

— Desculpa por ter caído no sono.

Então ficamos os dois calados.

— Gostei do desenho — eu disse.

— Por quê?

— Porque é igualzinho à cadeira.

— Esse é o único motivo?

— Tem algo mais — eu disse.

— O quê?

— Emoção.

— Fale mais — Dante pediu.

— É triste. Triste e solitário.

— Como você — ele disse.

Odiei que ele visse quem eu era.

— Não sou triste o tempo todo — falei.

— Eu sei.

— Você vai me mostrar os outros?

— Não.

— Por quê?

— Não posso.

— Por que não?

— Pelo mesmo motivo que o impede de falar dos seus sonhos.





Cinco


PARECIA QUE A GRIPE NÃO QUERIA ME LARGAR. Naquela noite, os sonhos voltaram. Meu irmão. Ele estava do outro lado do rio, em Juarez; e eu, em El Paso. Podíamos nos ver. Gritei:

— Bernardo, venha pra cá!

Ele balançou a cabeça. Pensei que não tinha entendido, então gritei em espanhol:

— Vente pa’aca, Bernardo!

Achava que era só descobrir as palavras certas ou dizê-las na língua certa para que ele cruzasse o rio. E voltasse para casa. Se eu soubesse as palavras certas… Se eu falasse a língua certa… E então meu pai apareceu. Ele e meu irmão se encararam. Não fui capaz de suportar a expressão em seus rostos; parecia que ali estava a dor de todos os filhos e de todos os pais do mundo. Uma dor profunda, que ia além das lágrimas, e por isso o rosto de ambos estava seco. E então o sonho mudou, e meu pai e meu irmão sumiram. Eu estava de pé no mesmo lugar onde antes estivera meu pai, na margem de Juarez, e Dante estava do outro lado. Ele estava sem camisa e sem sapato. Quis nadar até ele, mas não saía do lugar. Ele então me disse algo em inglês, e eu não consegui entender. E eu lhe disse algo em espanhol, e ele não conseguiu entender.

E eu estava tão só.

E então toda luz foi embora, e Dante desapareceu na escuridão.

Acordei e me senti perdido.

Não sabia onde estava.

A febre tinha voltado. Pensei que nada no mundo voltaria a ser igual. Mas eu sabia que era apenas a febre. Adormeci novamente. Os pardais caíam do céu. E era eu quem os matava.





Seis


DANTE FOI ME VISITAR. EU SABIA QUE MEU NIMO NÃO estava dos melhores. O que ele logo percebeu. Aparentemente, isso não importava.

— Quer conversar?

— Não — respondi.

— Quer que eu vá embora?

— Não.

Ele leu uns poemas para mim. Pensei nos pardais caindo do céu. Enquanto ouvia a voz de Dante, imaginei como soaria a voz do meu irmão. Me perguntei se algum dia ele teria lido um poema. Minha cabeça estava cheia, lotada; pardais mortos, o fantasma do meu irmão, a voz de Dante.

Dante terminou de ler um poema e começou a procurar outro.

— Você não tem medo de ficar doente também? — perguntei.

— Não.

— Não tem medo?

— Não.

— Você não tem medo de nada.

— Tenho medo de muitas coisas, Ari.

Eu podia ter perguntado Do quê? Do que você tem medo? Mas acho que ele não teria me contado.





Sete


A FEBRE PASSOU.

Mas os sonhos continuaram.

Meu pai estava neles. E meu irmão. E Dante. Nos meus sonhos. Às vezes, minha mãe também. Uma imagem não me saía da cabeça: eu, aos quatro anos, caminhando pela rua de mãos dadas com meu irmão. Não sabia ao certo se isso era uma recordação ou um sonho. Ou uma esperança.

Fiquei deitado pensando. Todos os problemas comuns e todos os mistérios da minha vida só importavam para mim. Não que pensar essas coisas fizesse eu me sentir melhor. Eu sabia que meu primeiro ano no Colégio Austin seria uma droga. Dante foi para o Cathedral porque lá havia uma equipe de natação. Minha mãe e meu pai queriam que eu fosse estudar lá, mas me recusei. Não queria ir para uma escola católica só para garotos. Tinha insistido que ali só havia alunos ricos. Minha mãe argumentou que a escola dava bolsas para alunos inteligentes. Eu repliquei dizendo que não era inteligente o bastante para conseguir uma bolsa. Minha mãe rebateu dizendo que nossa família podia pagar a mensalidade.

— Eu odeio aqueles garotos! — foram minhas palavras finais. E implorei ao meu pai que não me mandasse para lá.

Nunca contei a Dante sobre meu ódio contra os garotos do Cathedral. Ele não precisava saber.

Pensei na acusação da minha mãe: “Você não tem amigos”.

Pensei na cadeira de balanço e em como ela realmente era um retrato meu.

Eu era uma cadeira. Fiquei mais triste do que nunca.

Eu sabia que já não era criança. Mas ainda me sentia uma. Mais ou menos. Comecei a sentir outras coisas. Coisas de homem, acho. A solidão dos homens é maior que a das crianças. E eu não queria mais ser tratado como criança. Não queria mais viver no mundo dos meus pais e não tinha um mundo próprio. Estranhamente, minha amizade com Dante tinha feito com que me sentisse ainda mais solitário.

Talvez porque Dante conseguia se adaptar a qualquer lugar. E eu, eu sempre tinha a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Não pertencia sequer ao meu próprio corpo — especialmente ao meu próprio corpo. Eu estava me transformando em um desconhecido. A mudança doía, mas eu não sabia por quê. E minhas emoções não faziam sentido.

Quando era mais novo, decidi escrever um diário. Anotei algumas coisas naquele livrinho de couro com páginas em branco. Só que nunca fui disciplinado para isso. Os escritos se transformaram em uma coisa aleatória com pensamentos randômicos e nada mais.

Quando estava na sexta série, meus pais me deram de presente uma luva de beisebol e uma máquina de escrever. Eu estava no time da escola, então a luva fazia sentido. Mas e a máquina de escrever? Fingi gostar dela. Mas eu não era um bom ator.

O fato de eu não falar as coisas não fazia de mim um bom ator.

O engraçado foi que aprendi a datilografar. Pelo menos uma habilidade. A história do beisebol não deu certo. Eu era bom o bastante para entrar no time, mas odiava aquilo. Fazia por meu pai.

Não sei por que estava pensando nessas coisas, mas sempre pensava. Acho que eu tinha uma TV própria no cérebro. Podia controlar o que queria assistir. Podia mudar de canal sempre que quisesse.

Pensei em ligar para Dante. E depois pensei que talvez não ligaria. Não estava muito a fim de falar com ninguém. Só comigo mesmo.

Desviei o pensamento para minhas irmãs mais velhas, para o fato de serem tão próximas uma da outra e tão distantes de mim. Sabia que era uma questão de idade. A idade parecia importante. Para elas. E para mim. Nasci “um pouco atrasado”. Era essa a expressão que elas usavam. Um dia, estavam conversando na mesa da cozinha. Falavam de mim, e foi essa a expressão que usaram. Não era a primeira vez que ouvia essa expressão dirigida a mim. Então decidi enfrentá-las porque não gostava que as pessoas pensassem isso de mim. Não sei, perdi um pouco o controle. Olhei para minha irmã Cecilia e disse:

— Você nasceu um pouco adiantada. — Sorri para ela e balancei a cabeça, para depois continuar: — Não é triste? Não é triste pra cacete?

Minha outra irmã, Sylvia, começou um sermão:

— Odeio essa palavra. Não fale assim. É muita falta de respeito.

Como se elas me respeitassem. Sim, claro que me respeitavam…

Elas contaram para minha mãe que eu estava falando palavrões. Minha mãe odiava “palavrões”. Ela me lançou aquele olhar.

— Xingar é uma demonstração de extrema falta de respeito. E não adianta fazer cara feia.

E a situação só piorou quando me recusei a pedir desculpas.

A parte boa é que minhas irmãs nunca mais usaram a expressão “nasceu um pouco atrasado”. Pelo menos não na minha frente.

Acho que eu vivia com raiva porque não podia conversar com meu irmão. E vivia com raiva porque também não podia conversar com minhas irmãs. Não era que elas não se importassem comigo. Era que me tratavam mais como filho do que como irmão. Eu não precisava de três mães. Por isso eu era sozinho. E a solidão fez com que eu não quisesse conversar com gente da minha idade. Alguém que entendesse que falar palavrões não era um indício da minha falta de respeito. Às vezes, xingar me libertava.

Conversar comigo mesmo no diário equivalia a conversar com alguém da minha idade.

Às vezes, eu anotava todos os xingamentos que era capaz de lembrar. Isso me fazia bem. Minha mãe tinha suas regras. Para o meu pai, era não fumar dentro de casa. Para todos: não xingar. Ela jamais soltava um palavrão. Mesmo quando meu pai deixava escapar um par de palavras interessantes, ela o encarava e dizia:

— Vá fazer isso na rua, Jaime. Talvez você encontre um cachorro para apreciar esse linguajar.

Minha mãe era doce, mas também muito brava. Acho que foi assim que sobreviveu. Eu não ia arrumar problemas com ela por conta dos palavrões. Por isso, na maior parte do tempo, só xingava mentalmente.

E também tinha essa questão com meu nome. Angel Aristóteles Mendoza. Eu odiava o nome Angel e jamais deixaria alguém me chamar assim. Todo cara chamado Angel que conheci era um babaca completo. Eu também não ligava para “Aristóteles”. Mesmo sabendo que o nome era uma homenagem a meu avô, também sabia que tinha herdado o nome do filósofo mais famoso do mundo. Eu odiava isso. Todos esperavam algo de mim. Algo que eu simplesmente não podia dar.

Então passei a me chamar Ari.

Se tirasse uma letra, meu nome seria Ar.

Achava que devia ser ótimo ser o ar.

Eu poderia ser alguma coisa e nada ao mesmo tempo. Ser necessário e invisível. Todos precisariam de mim e ninguém conseguiria me ver.





Oito


MINHA MÃE INTERROMPEU MEUS PENSAMENTOS — SE é que podemos chamar assim.

— Dante ao telefone.

Atravessei a cozinha e notei que ela estava limpando todos os armários. Não importava o significado do verão para os outros; para minha mãe, significava trabalho.

Me atirei no sofá da sala e peguei o telefone.

— Oi.

— Oi, o que você tá fazendo?

— Nada. Ainda não estou muito bem. Minha mãe vai me levar ao médico hoje à tarde.

— Achei que a gente fosse nadar.

— Merda — eu disse. — Não posso. É que, você sabe…

— Sim, eu sei. Então você está de bobeira?

— É.

— Você está lendo alguma coisa, Ari?

— Não. Estou pensando.

— No quê?

— Em coisas.

— Coisas?

— É, Dante, coisas.

— Como o quê, Ari?

— Sei lá, em como minhas irmãs e meu irmão são tão mais velhos que eu e como eu me sinto com relação a isso.

— Quantos anos eles têm?

— Minhas irmãs são gêmeas. Não são idênticas, mas se parecem. Têm vinte e sete. A minha mãe engravidou aos dezoito.

— Nossa — ele disse. — Elas têm vinte e sete.

— É. Nossa. Tenho quinze anos, três sobrinhas e quatro sobrinhos.

— Isso deve ser muito legal, Ari.

— Acredite, Dante, não é legal. Eles nem me chamam de tio.

— E seu irmão, quantos anos tem?

— Tem vinte e cinco.

— Sempre quis ter um irmão.

— É, bem… para mim daria na mesma não ter.

— Por quê?

— A gente não fala dele. É como se estivesse morto.

— Por quê?

— Ele está preso, Dante.

Nunca tinha contado a ninguém sobre meu irmão. Nunca tinha dito uma palavra sequer sobre ele a outro ser humano. Fiquei mal por ter falado dele.

Dante não disse nada.

— Podemos não falar dele, Dante? — perguntei.

— Por quê?

— Porque me faz mal.

— Ari, não é culpa sua.

— Não quero falar dele, Dante. Tudo bem?

— Tudo bem. Mas, sabe, você tem uma vida muito interessante.

— Não mesmo — neguei.

— É, sim — ele replicou. — Pelo menos você tem irmãos. Quanto a mim, só tenho minha mãe e meu pai.

— E primos?

— Eles não gostam de mim. Acham que eu sou… bom, me acham diferente. Eles são mexicanos de verdade, sabe? E eu sou meio que… Do que você me chamou outro dia?

— Pocho.

— Isso. Sou exatamente isso. Meu espanhol não é bom.

— Você pode aprender.

— Aprender na escola é diferente de aprender em casa ou na rua. E é complicado porque a maioria dos meus primos é da família da minha mãe… e todos são bem pobres. Minha mãe é a caçula e teve que brigar com a família para estudar. O pai dela achava que mulheres não deviam ir para a faculdade. Mas minha mãe disse “dane-se” e foi.

— Não consigo imaginar sua mãe dizendo “dane-se”.

— Bem, talvez ela não tenha dito, mas deu um jeito. Ela era muito inteligente e se esforçou na faculdade. Então ganhou uma bolsa de pós-graduação em Berkeley. E foi lá que conheceu meu pai. Eu nasci nessa época. Os dois ainda tinham que terminar os estudos. Minha mãe estava virando psicóloga, e meu pai, professor de inglês. Quer dizer, meus avós paternos nasceram no México. Vivem numa casinha na parte leste de Los Angeles, não falam inglês e têm um restaurante pequeno. É como se meus pais tivessem criado um mundo completamente novo para si. Eu vivo nesse mundo novo deles. Só que eles entendem o mundo velho, o mundo de onde vieram… e eu não. Não pertenço a lugar nenhum. Esse é o problema.

— Claro que pertence — eu disse. — Você fica à vontade em qualquer lugar. É o seu jeito.

— Você nunca me viu perto dos meus primos. Me sinto uma aberração.

Eu sabia como era se sentir assim.

— Eu sei. Também me sinto uma aberração.

— Bom, pelo menos você é mexicano de verdade.

— E o que eu sei sobre o México, Dante?

O silêncio no telefone era estranho.

— Você acha que vai ser sempre assim?

— O quê?

— Quer dizer, quando vamos ter a sensação de que o mundo nos pertence?

Quis dizer que o mundo nunca nos pertenceria.

— Não sei — respondi. — Amanhã.





Nove


FUI ATÉ A COZINHA E FIQUEI OBSERVANDO MINHA MÃE limpar os armários.

— Sobre o que você e Dante conversaram?

— Coisas.

Queria perguntar a ela sobre meu irmão. Mas jamais perguntaria.

— Ele me contou sobre a mãe e o pai dele, que se conheceram na pós-graduação em Berkeley, e ele nasceu lá. Disse que se lembra dos pais lendo e estudando o tempo todo.

Minha mãe abriu um sorriso.

— Que nem você e eu — disse.

— Não me lembro.

— Eu estava no fim da faculdade quando seu pai foi para a guerra. Os estudos me distraíam um pouco. Ficava preocupada o tempo todo. Minha mãe e minhas tias me ajudaram a cuidar dos seus irmãos enquanto eu estudava. Quando seu pai voltou, tivemos você.

Ela sorriu para mim e acariciou meu cabelo.

— Seu pai voltou para os Correios, e eu continuei a estudar. Eu tinha você e a faculdade. E seu pai estava a salvo.

— Foi difícil?

— Eu estava feliz. E você era um bebê tão bonzinho. Me sentia no céu. Compramos esta casa. Precisava de uma reforma, mas era nossa. E eu estava fazendo o que sempre quis.

— Você sempre quis ser professora?

— Sempre. Quando era criança, a gente não tinha nada, e minha mãe achava que a escola era importante para mim. Ela chorou quando contei que ia casar com seu pai.

— Ela não gostava dele?

— Não, não por isso. Ela só queria que eu continuasse a estudar. Prometi que continuaria. Demorou um pouco, mas cumpri a promessa.

Aquela foi a primeira vez em que vi minha mãe como uma pessoa de verdade. Uma pessoa que era muito mais do que apenas mãe. Era estranho pensar nela dessa forma. Quis perguntar sobre meu pai, mas não sabia como.

— Ele voltou diferente da guerra?

— Sim.

— Como?

— Havia uma ferida dentro dele, Ari.

— Como assim? Uma dor? Por quê?

— Não sei.

— Como você pode não saber, mãe?

— Porque é dele. Só dele, Ari.

Compreendi. Minha mãe simplesmente aceitou a ferida particular de meu pai.

— Algum dia a ferida vai fechar?

— Acho que não.

— Mãe? Posso perguntar uma coisa?

— Pode perguntar qualquer coisa.

— É difícil amar meu pai?

— Não — ela nem sequer hesitou.

— Você o entende?

— Nem sempre. Mas, Ari, não preciso entender sempre as pessoas que amo.

— Bom, talvez eu precise.

— É difícil pra você, não é?

— Eu sinto que não o conheço, mãe.

— Sei que você fica bravo comigo quando falo isso, Ari, mas vou falar mesmo assim. Acho que um dia você vai entender.

— É — eu disse. — Um dia.

Um dia eu entenderia meu pai. Um dia ele me diria quem é. Um dia. Odiava essa expressão.





Dez


GOSTAVA QUANDO MINHA MÃE ME DAVA A OPINIÃO dela sobre as coisas. Ela era boa nisso. Não que conversássemos muito, mas quando conversávamos era bom, e eu tinha a sensação de conhecê-la melhor. E eu não conhecia muita gente. Quando conversava comigo, ela era diferente de quando fazia o papel de mãe. Como mãe, ela tinha muitas ideias sobre quem eu deveria ser. E eu odiava isso, discutia com ela por isso, não queria que interferisse.

Não tinha a obrigação de aceitar o que os outros diziam sobre como eu era e quem deveria ser. Quem sabe, se você não fosse tão calado, Ari… Talvez você pudesse ser mais disciplinado… Sim, todos tinham sugestões sobre o que havia de errado comigo. Especialmente minhas irmãs.

Porque eu era o mais novo.

Porque eu era a surpresa.

Porque eu tinha nascido atrasado.

Porque meu irmão mais velho estava na prisão, e talvez minha mãe e meu pai se sentissem culpados. Se ao menos tivessem dito alguma coisa, feito alguma coisa. Não queriam cometer o mesmo erro. Então eu estava imerso na culpa da minha família, uma culpa sobre a qual nem minha mãe queria falar. Às vezes ela mencionava meu irmão de passagem. Mas nunca dizia seu nome.

Então eu era o único filho homem. E sentia o peso de ser filho homem em uma família mexicana. Mesmo que não quisesse. As coisas eram assim e pronto.

Fiquei furioso por ter traído minha família ao falar do meu irmão para Dante. Não era bom. Havia tantos fantasmas em nossa casa — o fantasma do meu irmão, os fantasmas da guerra do meu pai, os fantasmas das vozes das minhas irmãs. E eu achava que havia fantasmas ainda desconhecidos dentro de mim. Estavam lá. À espera.

Peguei meu velho diário e folheei as páginas. Encontrei uma anotação feita uma semana depois de ter completado quinze anos.

Não gosto de ter quinze anos.

Não gostava de ter catorze.

Não gostava de ter treze.

Não gostava de ter doze.

Não gostava de ter onze.

Ter dez anos era bom. Eu gostava daquela idade. Não sei por quê, mas tive um ano muito bom quando estava na quinta série.

A quinta série era muito boa. A sra. Pendregon era ótima, e por algum motivo todo mundo parecia gostar de mim. Um ano bom. Um ano excelente. A quinta série. Mas agora, aos quinze, bem, as coisas são meio estranhas. Minha voz sai esquisita e sempre esbarro nas coisas. Minha mãe diz que são meus reflexos tentando lidar com o fato de eu ter crescido tanto.

Não ligo muito para essa história de crescer.

Meu corpo faz coisas que não consigo controlar e simplesmente não gosto disso.

Do nada, aparecem pelos por toda parte. Pelos debaixo dos braços e pelos nas pernas e pelos em volta do… bom, pelos no meio das pernas. Bom, não gosto. Os pelos crescem até nos dedos do pé. Qual é o sentido?

E meus pés não param de crescer. Que negócio é esse de pés enormes? Aos dez anos, eu era meio pequeno e não me preocupava com pelos. A única coisa com que me preocupava era tentar falar inglês perfeitamente. Botei na cabeça naquele ano — aos dez anos — que não ia falar como mexicano. Eu ia ser americano. E soaria como um americano ao falar.

E daí que eu não pareço muito americano?

Qual é a aparência de um americano, afinal?

Um americano tem mãos grandes, pés grandes e pelos ao redor do… bem, pelos no meio das pernas?

Ler minhas próprias palavras me deixava absurdamente envergonhado. Que pendejo. Eu devia ser muito fracassado para escrever sobre pelos e coisas do corpo. Não surpreende que eu tenha parado com o diário. Era como registrar minha própria burrice. Por que faria isso? Por que lembrar a mim mesmo o babaca que era?

Não sei por que não atirei o diário para longe. Continuei lendo páginas aleatórias. E então encontrei uma parte sobre meu irmão.

Não há fotos do meu irmão em casa.

Há fotos do casamento das minhas irmãs mais velhas. Há fotos da minha mãe com o vestido de primeira comunhão. Fotos do meu pai no Vietnã. Fotos de mim bebê, de mim no primeiro dia de aula, de mim erguendo o troféu com meus companheiros do time infantil.

Há fotos das minhas três sobrinhas e meus quatro sobrinhos.

Há fotos dos meus avós, todos já mortos.

Há fotos pela casa inteira.

Só não há fotos do meu irmão.

Porque ele está preso.

Ninguém em casa fala dele.

É como se estivesse morto.

É pior do que se estivesse morto. Pelo menos as pessoas falam dos mortos e podemos ouvir histórias sobre eles. As pessoas sorriem ao contar essas histórias. E até dão risada. Até o cachorro que tivemos é mencionado de vez em quando.

Até Charlie, o cachorro morto, tem histórias.

Meu irmão não tem história nenhuma.

Ele foi apagado da história da família. Não acho justo. Meu irmão é mais do que uma palavra escrita em uma lousa. Quer dizer, preciso fazer um trabalho sobre Alexander Hamilton e até descobri como ele era fisicamente.

Preferia fazer um trabalho sobre meu irmão.

Acho que ninguém na escola se interessaria em ler esse trabalho.

Imaginava se algum dia teria coragem de pedir a meus pais que me contassem sobre meu irmão. Uma vez perguntei para minhas irmãs. Cecilia e Sylvia me fuzilaram com os olhos.

— Jamais mencione essa pessoa.

Lembro de ter pensado que, se tivessem uma arma, atirariam em mim.

Me peguei várias vezes repetindo baixinho: “Meu irmão está preso, meu irmão está preso, meu irmão está preso”. Queria sentir essas palavras em meus lábios ao pronunciá-las em voz alta. Palavras podiam ser como alimentos — deixavam um gosto na boca. Tinham sabor. “Meu irmão está preso.” Essas palavras tinham gosto amargo.

Mas o pior é que essas palavras viviam dentro de mim. E transbordavam de mim. Palavras que não podiam ser controladas. Nem sempre.

Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Tudo estava um caos, e eu tinha medo. Me sentia como o quarto de Dante antes de ele arrumar. Ordem. Era disso que eu precisava. Então peguei o diário e comecei a escrever.

Estas são as coisas que estão acontecendo na minha vida (em ordem aleatória):

— Fiquei com gripe e me sinto péssimo; também me sinto péssimo por dentro.

— Sempre me senti péssimo por dentro. Os motivos para isso são diversos.

— Contei a meu pai que sempre tive pesadelos. E é verdade. Nunca tinha contado a ninguém. Só soube que era verdade ao falar.

— Odiei minha mãe por um minuto ou dois porque ela disse que eu não tinha amigos.

— Queria saber do meu irmão. Se soubesse mais sobre ele, será que o odiaria?

— Meu pai me pegou nos braços quando tive febre e eu quis ficar para sempre em seus braços.

— O problema não é que eu não ame minha mãe e meu pai. O problema é que não sei como amá-los.

— Dante é o primeiro amigo que já tive. Isso me assusta.

— Acho que se Dante me conhecesse de verdade, não gostaria de mim.





Onze


TIVEMOS QUE ESPERAR MAIS DE DUAS HORAS NO consultório médico. Mas minha mãe e eu estávamos preparados. Levei o livro de poesia que Dante me emprestara e o livro de poemas de William Carlos Williams. Minha mãe estava com um romance que já tinha começado: Abençoe-me, Ultima.

Estava sentado de frente para ela na sala de espera e percebia que, às vezes, estava sendo encarado. Sentia seus olhos sobre mim.

— Não sabia que você gostava de poesia.

— É do Dante. O pai dele tem livros de poesia pela casa toda.

— Deve ser maravilhoso fazer o que ele faz.

— Você quer dizer dar aula em faculdade?

— Sim. Maravilhoso.

— Deve ser — eu disse.

— Nunca tive um professor descendente de mexicanos na faculdade. Nenhum.

Seu olhar manifestava algo próximo a