Main Mil Beijos de Garoto

Mil Beijos de Garoto

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Year:
2016
Language:
portuguese
ISBN 13:
9788542209822
File:
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17 comments
 
Taah
Esse romance é perfeito, chorei muito, muito mesmo, do início ao fim! Mostra como o amor é puro e inocente, aaaaaaa! Sem palavras para descrever essa perfeição!
19 February 2021 (20:45) 
raphaella
esse livro é incrivel, chorei horrores mas vale muito apena a leitura.
25 March 2021 (01:22) 
mafelavieri
Eu nunca chorei tanto lendo alguma coisa. Chorei do início ao fim. Um dos livros mais lindos que eu já li. Não mudaria nada. Me emocionou intensamente. Leiam
11 May 2021 (22:04) 
meeh
o melhor livro que já li, me fez chorar do inicio até o fim
22 May 2021 (06:20) 
Grazi
Se eu chorei no início, no meio, imagina no final. Sério gente, leiam. É perfeito!
24 May 2021 (19:25) 
Linny
Com esses comentários eu não vou ler mesmo, minha cota de lágrimas já está na reserva, sem condições para mais choro, só quando as minhas glândulas lacrimais estiverem menos " inflamada". Kkk
29 May 2021 (17:54) 
Larissa Rampazi Gazola
Recomendo muito! É extremamente emocionante.
04 June 2021 (05:19) 
Vic
Confesso que chorei um pouco, logo no início.
Achei muito repetitivo, principalmente no final.
houveram momentos perfeitos onde a história podia acabar, mas se estendeu e ficou um final meio--- esquisito, enrolativo, desnecessário.
19 June 2021 (04:28) 
Raysse
O melhor livro que eu já li em toda a minha vida ,terminei ele agora e n sei descrever em palavras oq estou sentindo.
Ele me fez pensar na vida ,no meu ponto de vista ,me fez refletir. E cada momento que aconteceu no livro foi fundamental para a história e para o leitor. Esse é o livro que nunca esquecerei na vida, ele é “tão especiais quanto é possível ser especial”. Esse livro realmente é para quem acredita em amor verdadeiro ,épico e destruidor de almas.
Quero ver ,aproveitar ,me aventurar, viver igual a Poppy e quero amar, cuidar, proteger e viver igual ao Rune.
Nunca se esqueça: " Corações de luar e sorrisos de raios de sol."
11 August 2021 (08:15) 
Anny vitória
Nossa que livro incrivel,chorei horrores muito bom.
12 August 2021 (03:03) 
walter
Este livro é uma descrição de um amor puro e nos faz chorar, é lindo!
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
07 September 2021 (19:01) 
Eduarda Mirian Silva Garcia
Minha vida fora de série
08 September 2021 (18:05) 
Kuka7373
Livro lindo, chorei horrores!
?????
17 September 2021 (16:45) 
Darcy
O MELHOR ROMANCE DA MIMHA VIDA ???
19 September 2021 (01:18) 
livs
Não dá pra descrever em palavras. Nunca chorei tanto lendo um livro, ele é perfeito do início ao fim. Poppy e Rune me ensinaram tanto, que eu até esquecia que eles não são reais. O melhor livro que já li na minha vida
23 September 2021 (17:34) 
Glória
Eu ameiiii! (Chorei muito). Eu acho que seria bem legal se o autor(a), fizessem um segundo livro, só que contando a história do irmão do rune, e com um final diferente desse.
02 November 2021 (01:46) 
Clao/.
História clichê. Do meio pro final ficou bem repetitivo. Óbvio e cansativo. Livro sem ressaca.
08 November 2021 (02:28) 

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1

Requiem: Uma Alucinação

Ano:
2015
Idioma:
portuguese
Arquivo:
EPUB, 365 KB
0 / 0
2

Ein wenig Leben

Ano:
2016
Idioma:
german
Arquivo:
EPUB, 4,14 MB
0 / 0
Copyright © Tillie Cole, 2016

Copyright © Editora Planeta do Brasil, 2017

Todos os direitos reservados.

Título original: A thousand boy kisses

Preparação: Carla Fortino Revisão: Andréa Bruno e Clara Diament Diagramação: Futura

Capa: adaptada do projeto original de Hang Le Imagem de capa: ol_dmi / shutterstock Adaptação para eBook: Hondana

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO

NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

C655m

Cole, Tillie

Mil beijos de garoto/ Tillie Cole ; tradução Marina Della Valle. – 1. ed. – São Paulo : Planeta, 2017.

Tradução de: A thousand boy kisses

ISBN: 978-85-422-0982-2

1. Romance juvenil. I. Della Valle, Marina. II. Título.





17-40261


CDD: 813

CDU: 821.111(73)-3





2017


Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA PLANETA DO BRASIL LTDA.

Rua Padre João Manuel, 100 – 21o andar Ed. Horsa II – Cerqueira César

01411-000 – São Paulo-SP

www.planetadelivros.com.br

atendimento@editoraplaneta.com.br





Para os que acreditam no amor verdadeiro,

épico e destruidor de almas.

Este é para vocês.





Rune

Houve exatamente quatro momentos que definiram minha vida.

Este foi o primeiro.

*

Blossom Grove, Geórgia

Estados Unidos da América

Há doze anos

Aos cinco anos de idade

— Jeg vil dra! Nå! Jeg vil reise hjem igjen! — eu gritei o mais alto que pude, dizendo para a minha mamma que eu queria ir embora naquela hora! Eu queria voltar para casa!

— Não vamos voltar para casa, Rune. E não vamos embora. Nossa casa agora é aqui — ela respondeu em inglês. Ela se agachou e me olhou bem nos olhos. — Rune — disse, suavemente —, eu sei que você não queria ir embora de Oslo, mas seu pappa conseguiu um emprego novo aqui na Geórgia.

Ela passou a mão no meu braço, mas eu não me sentia melhor. Eu não queria estar neste lugar, nos Estados Unidos.

Eu queria ir embora para casa.

— Slutt å snakke engelsk! — reagi.

Eu odiava falar inglês. Desde que tínhamos saído da Noruega e chegado à América, mamma e pappa só falavam comigo em inglês. Eles diziam que eu tinha que p; raticar.

Eu não queria!

Minha mamma ficou em pé e levantou uma caixa do chão.

— Nós estamos na América, Rune. Eles falam inglês aqui. Você fala inglês há tanto tempo quanto fala norueguês. Está na hora de usá-lo.

Fiquei onde estava, olhando minha mamma enquanto ela passava por mim e entrava na casa. Espiei, ao redor, a pequena rua onde a gente ia morar. Havia oito casas. Eram todas grandes, mas cada uma tinha uma aparência diferente. A nossa era pintada de vermelho, com janelas brancas e uma varanda enorme. Meu quarto era grande e ficava no térreo. Achei mesmo que era, tipo, legal. Um pouco, pelo menos. Eu nunca tinha dormido no térreo antes. Em Oslo, meu quarto ficava no segundo andar.

Prestei atenção nas outras casas. Todas tinham cores brilhantes: azul-claro, amarelo, rosa… Então olhei para a que ficava ao lado. Bem ao lado – dividíamos um pedaço de grama. As duas casas eram grandes, e os jardins também, mas não havia cerca ou muro entre eles. Se eu quisesse, poderia correr para o jardim vizinho; não havia nada para impedir.

A casa era de um branco brilhante, com uma varanda ao redor. Ela tinha cadeiras de balanço e uma grande cadeira suspensa na frente. As beiradas das janelas estavam pintadas de preto, e tinha uma em frente à do meu quarto. Bem na frente! Eu não gostei daquilo. Não gostei que pudesse ver dentro do quarto deles, e eles, do meu.

Vi uma pedra no chão. Eu a chutei, observando-a rolar para a rua. E me virei para seguir minha mamma, mas então ouvi um barulho. Vinha da casa vizinha. Olhei para a porta da frente deles, mas ninguém saiu. Eu estava subindo os degraus da minha varanda quando notei um movimento ao lado da casa – na janela do quarto da casa ao lado, aquela em frente à minha.

As minhas mãos congelaram no corrimão e fiquei olhando enquanto uma garota, usando um vestido azul brilhante, se pendurava na janela. Ela pulou para a grama e limpou as mãos nas coxas. Eu franzi o cenho, com as sobrancelhas para baixo, enquanto a esperava levantar a cabeça. Ela tinha cabelos castanhos, amontoados na cabeça feito um ninho. Usava um grande laço branco na lateral da cabeça.

Quando ela olhou para cima, deu de cara comigo. E então sorriu. Ela me deu um sorriso tão grande. Acenou rápido e aí correu e parou na minha frente.

Ela estendeu a mão e disse:

— Oi, meu nome é Poppy Litchfield, eu tenho cinco anos e moro na casa ao lado.

Encarei a garota. Ela tinha um sotaque engraçado. Fazia as palavras em inglês soarem diferente do modo como aprendi na Noruega. A garota – Poppy – tinha uma mancha de lama no rosto e galochas amarelas nos pés. Cada uma delas tinha um grande balão vermelho do lado.

Ela parecia esquisita.

Subi o olhar de seus pés e reparei na sua mão. Ainda estava estendida. Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia o que ela queria.

Poppy suspirou. Balançando a cabeça, ela pegou minha mão e a apertou. Sacudiu-a para cima e para baixo duas vezes e disse:

— Um aperto de mãos. Minha vovó sempre diz que é totalmente certo apertar a mão das pessoas que você conhece. — Ela apontou para nossas mãos. — Isso é um aperto de mãos. E isso foi educado, porque eu não conheço você.

Eu não disse nada; por alguma razão, minha voz não saía. Quando olhei para baixo, percebi que era porque nossas mãos ainda estavam juntas.

Ela também tinha lama nas mãos. Na verdade, ela tinha lama em todo lugar.

— Qual o seu nome? — perguntou Poppy.

Sua cabeça estava inclinada para o lado. Um pequeno graveto estava preso em seu cabelo.

— Ei — ela disse, puxando nossas mãos —, perguntei seu nome.

Limpei a garganta.

— Meu nome é Rune. Rune Erik Kristiansen.

Poppy torceu o rosto, os lábios rosados sobressaindo de um jeito todo estranho.

— Você fala esquisito — disparou.

Puxei minha mão.

— Nei det gjør jeg ikke! — reagi.

Seu rosto se contorceu ainda mais.

— O que você disse? — perguntou Poppy, enquanto eu me virava para entrar em casa. Não queria mais falar com ela.

Com raiva, eu me virei:

— Eu disse: “Não, eu não falo esquisito!”. Eu estava falando norueguês! — respondi, dessa vez em inglês. Os olhos verdes de Poppy ficaram enormes.

Ela chegou mais perto, e ainda mais perto, e então perguntou:

— Norueguês? Como os vikings? Minha vovó leu para mim um livro sobre os vikings. Dizia que eles eram da Noruega. — Seus olhos estavam ainda maiores. — Rune, você é um viking? — A voz tinha ficado esganiçada.

Aquilo fez com que eu me sentisse bem. Estufei o peito. Meu pappa sempre dizia que eu era um viking, como todos os homens da família. Éramos vikings grandes e fortes.

— Ja — eu disse. — Somos vikings de verdade, da Noruega.

Um grande sorriso se abriu no rosto de Poppy, e um risinho alto de garota saiu de sua boca. Ela levantou a mão e puxou meu cabelo.

— É por isso que você tem cabelo loiro comprido e olhos azuis tão claros e brilhantes. Porque você é um viking. Num primeiro momento, pensei que você fosse uma menina…

— Eu não sou menina! — interrompi, mas Poppy não pareceu se importar. Passei a mão no meu cabelo. Ele chegava ao ombro. Todos os meninos em Oslo tinham o cabelo assim.

—… mas agora percebi que é porque você é um viking da vida real. Como o Thor. Ele também tinha cabelo loiro comprido e olhos azuis! Você é igualzinho ao Thor!

— Ja — concordei. — Thor serve. E ele é o mais forte de todos os deuses.

Poppy concordou com a cabeça e então colocou as mãos nos meus ombros. Seu rosto havia ficado sério, e a voz era um sussurro.

— Rune, não conte para ninguém, mas eu saio em aventuras.

Eu torci a cara. Não entendi. Poppy chegou mais perto e me olhou nos olhos. Apertou meus braços. Inclinou a cabeça. Olhou para os lados e então se curvou para falar.

— Normalmente não levo ninguém comigo às jornadas, mas você é um viking, e todo mundo sabe que os vikings ficam altos e fortes e que eles são muito bons em aventuras e explorações, em longas caminhadas, em pegar bandidos e… em todo tipo de coisa!

Eu ainda estava confuso, mas Poppy se afastou e estendeu a mão de novo.

— Rune — ela disse, com a voz séria e forte —, você mora na casa ao lado, é um viking e eu amo vikings. Acho que devemos ser melhores amigos.

— Melhores amigos? — perguntei.

Poppy assentiu com a cabeça e espichou a mão ainda mais para o meu lado. Levantei a minha, lentamente, apertei a mão dela e a chacoalhei duas vezes, como ela havia me mostrado.

Um aperto de mão.

— Então agora somos melhores amigos? — perguntei, quando Poppy puxou a mão de volta.

— Somos! — disse ela, empolgada. — Poppy e Rune.

Ela encostou o dedo no queixo e olhou para cima. Seus lábios se projetaram de novo, como se estivesse pensando em algo difícil.

— Fica legal, não fica? Poppy e Rune, melhores amigos até o infinito!

Fiz que sim com a cabeça porque realmente soava legal. Poppy colocou a mão na minha.

— Me mostra seu quarto! Eu quero te falar sobre a nossa próxima aventura.

Ela começou a me puxar, e entramos correndo na casa.

Quando chegamos ao meu quarto, Poppy correu direto para a janela.

— Este é o quarto bem em frente ao meu!

Eu concordei com a cabeça, e ela deu um gritinho, correndo para pegar minha mão de novo.

— Rune! — ela disse, empolgada —, nós podemos conversar de noite e fazer walkie-talkies com latas e barbante. Podemos cochichar nossos segredos um para o outro quando todo mundo estiver dormindo, e podemos planejar, e brincar, e…

Poppy continuou falando, mas eu não liguei. Eu gostava do som de sua voz. Eu gostava do seu riso e do grande laço branco em seu cabelo.

Talvez a Geórgia não seja tão ruim, pensei, não se eu tiver Poppy Litchfield como minha melhor amiga.

*

E então éramos Poppy e eu desde aquele dia.

Poppy e Rune.

Melhores amigos até o infinito.

Era o que eu pensava.

Engraçado como as coisas mudam.





Poppy

Há nove anos

Aos oito anos de idade

— Aonde vamos, papai? — perguntei, enquanto ele segurava delicadamente minha mão, guiando-me até o carro.

Olhei para a escola, imaginando por que estava saindo cedo. Era só o intervalo do almoço. Eu não deveria ir embora ainda.

Meu pai não disse nada enquanto caminhávamos, apenas apertou minha mão. Olhei ao longo da cerca da escola, e uma sensação esquisita revirou meu estômago. Eu amava a escola, amava aprender, e a aula seguinte era de história. Era minha matéria favorita. Eu não queria perder.

— Poppy! — gritou Rune, meu amigo mais querido, de perto da cerca, quando me viu. Suas mãos apertavam com força as barras de metal. — Aonde você vai? — Eu sentava ao lado de Rune nas aulas. Estávamos sempre juntos. A escola não tinha graça quando um dos dois não estava lá.

Virei a cabeça para o rosto de meu pai, procurando respostas, mas ele não me olhou de volta. Ficou em silêncio. Olhando para Rune, eu gritei: — Eu não sei!

Rune me observou por todo o caminho até o carro. Eu me sentei no meu assento de elevação, no banco traseiro, e meu pai afivelou o cinto de segurança.

Ouvi o sinal no pátio da escola indicando o fim do almoço. Olhei pela janela e vi todas as crianças correndo de volta para dentro, mas não Rune, que continuou na cerca me olhando. Seu longo cabelo loiro esvoaçava com o vento enquanto ele perguntava: — Você está bem?

Mas meu pai entrou no carro e deu partida antes que eu pudesse responder.

Rune correu ao longo da cerca, seguindo nosso carro, até que a srta. Davis o obrigou a entrar.

Quando a escola já não estava mais visível, meu pai disse:

— Poppy?

— Sim, papai? — respondi.

— Você sabe que a vovó está morando com a gente já faz um tempo, né?

Eu concordei com a cabeça. Minha vovó tinha se mudado para o quarto em frente ao meu um tempo atrás. Mamãe disse que era porque ela precisava de ajuda. Meu vovô morreu quando eu era um bebê. Minha vovó morou sozinha por anos, até vir morar com a gente.

— Você se lembra do que sua mãe e eu te dissemos? Sobre por que vovó não podia mais morar sozinha?

Eu suspirei e disse, baixinho:

— Sim. Porque ela precisava da nossa ajuda. Porque ela está doente.

Meu estômago revirou enquanto eu falava. Minha vovó era minha melhor amiga. Bem, ela e o Rune estavam empatados no primeiríssimo lugar. Minha vovó dizia que eu era igualzinha a ela.

Antes que ela ficasse doente, nós duas saíamos em muitas aventuras. Ela lia para mim toda noite sobre os grandes exploradores do mundo. Ela me falava sobre história: Alexandre, o Grande, os romanos e, os meus favoritos, os samurais do Japão. Eram os favoritos da vovó também.

Eu sabia que a minha vovó estava doente, mas ela nunca agia como se estivesse. Ela sempre sorria, dava abraços apertados e me fazia rir. Sempre dizia que ela tinha luar no coração e raios de sol no sorriso. Vovó me disse que aquilo significava que ela estava feliz.

Ela me deixava feliz também.

Mas nas últimas semanas vovó vinha dormindo muito. Estava sempre cansada para fazer qualquer coisa. Na verdade, na maioria das noites agora eu lia para ela, enquanto ela acariciava meu cabelo e sorria para mim. E era bom, porque os sorrisos da vovó eram o melhor tipo de sorriso para se receber.

— Certo, querida, ela está doente. Na verdade, ela está muito, muito doente. Você entende?

Franzi a cara, mas fiz que sim com a cabeça e respondi:

— Sim.

— É por isso que vamos para casa mais cedo — ele explicou. — Ela está esperando por você. Ela quer ver você. Quer ver a companheirinha dela.

Não entendi por que meu pai tinha de me levar para casa mais cedo para visitar minha vovó, quando a primeira coisa que eu fazia toda tarde depois da escola era ir ao quarto dela para conversar enquanto ela ficava na cama. Ela gostava de saber sobre meu dia.

Viramos na nossa rua e estacionamos na entrada de casa. Meu pai não se moveu por alguns segundos, mas então se virou para mim e disse: — Sei que tem só oito anos, querida, mas hoje você precisa ser uma menina corajosa, certo?

Eu assenti com a cabeça. Meu pai me deu um sorriso triste.

— Esta é a minha garota.

Ele saiu do carro e andou até meu assento. Pegou minha mão e me guiou para fora do carro em direção à casa. Eu podia ver que havia mais carros lá que o normal. Eu ia perguntar de quem eram quando a sra. Kristiansen, mãe de Rune, veio caminhando pelo jardim entre nossas casas com uma grande travessa de comida nas mãos.

— James! — ela chamou, e meu pai se virou para cumprimentá-la.

— Adelis, oi — ele disse.

A mãe de Rune parou na nossa frente. Seu longo cabelo loiro estava solto. Era da mesma cor do cabelo de Rune. A sra. Kristiansen era muito bonita, e eu a adorava. Ela era bondosa e dizia que eu era a filha que ela não teve.

— Eu fiz isso para vocês. Por favor, diga a Ivy que estamos pensando em todos vocês.

Meu pai soltou minha mão para segurar a travessa.

A sra. Kristiansen se agachou e deu um beijo no meu rosto.

— Seja uma boa menina, Poppy, certo?

— Sim, senhora — respondi e observei enquanto ela ia pela grama de volta para a casa dela.

Meu pai suspirou, então fez um gesto com a cabeça para que eu o seguisse para dentro. Assim que passamos pela porta da frente, vi minhas tias e meus tios nos sofás, meus primos sentados no chão da sala, entretidos com seus brinquedos. Minha tia Silvia estava sentada com minhas irmãs, Savannah e Ida. Elas eram mais novas que eu, tinham quatro e dois anos. Elas acenaram para mim quando me viram, mas tia Silvia as manteve em seu colo.

Ninguém falava, mas muitos enxugavam os olhos; a maioria estava chorando.

Eu estava tão confusa.

Eu me encostei na perna de meu pai, segurando com força. Alguém parou na porta da cozinha – era minha tia Della, ou DeeDee, como sempre a chamei. Ela era minha tia favorita. Era jovem e engraçada e sempre me fazia rir. Embora minha mãe fosse mais velha que a irmã, as duas eram parecidas. Ambas tinham cabelo castanho comprido e olhos verdes, como eu. Mas DeeDee era mais bonita. Eu queria ser igualzinha a ela um dia.

— Ei, Pops — ela disse, mas eu podia ver que tinha os olhos vermelhos, e a voz estava diferente.

DeeDee olhou para o meu pai. Ela tirou a travessa de comida da mão dele e disse: — Vá até lá com a Poppy, James. Está quase na hora.

Eu comecei a ir com meu pai, mas, quando percebi que DeeDee não vinha junto, olhei para trás. Fiz menção de chamá-la, porém ela se virou de repente, colocou a travessa de comida no balcão e segurou a cabeça com as mãos. Ela estava chorando, chorando tanto que saíam sons altos de sua boca.

— Papai? — cochichei, com uma sensação estranha no estômago.

Meu pai envolveu meus ombros com o braço e me guiou.

— Está tudo bem, querida. DeeDee só precisa de um minuto sozinha.

Andamos para o quarto da vovó. Um pouco antes de abrir a porta, papai disse: — A mamãe está aí, querida, e a Betty, enfermeira da vovó, também.

Franzi a testa.

— Por que uma enfermeira?

Papai abriu a porta do quarto da vovó, e minha mãe se levantou da cadeira ao lado da cama. Os olhos dela estavam vermelhos, e o cabelo, todo desarrumado. O cabelo da mamãe nunca ficava desarrumado.

Vi a enfermeira no fundo do quarto. Ela estava escrevendo algo em uma prancheta. Ela sorriu e acenou para mim quando entrei. Então olhei para a cama. Vovó estava deitada. Meu estômago revirou quando vi a agulha no braço dela, com um tubo transparente que ia dar em uma bolsa pendurada em um gancho de metal ao lado.

Fiquei imóvel, apavorada de repente. Então minha mãe veio ao meu encontro, e minha vovó olhou para mim. Ela parecia diferente da noite anterior. A pele dela estava mais pálida, e seus olhos não estavam tão brilhantes.

— Cadê minha companheirinha? — A voz de vovó estava baixa e parecia esquisita, mas o sorriso que ela me deu fez com que eu me sentisse acolhida.

Rindo para minha vovó, corri para o lado da cama.

— Estou aqui! Eu saí mais cedo da escola para ver você!

Vovó levantou o dedo e deu batidinhas na ponta do meu nariz.

— Esta é a minha garota!

Eu respondi com um sorriso bem grande.

— Eu só queria que você viesse me visitar um pouquinho. Eu sempre me sinto melhor quando a luz da minha vida senta ao meu lado e fala um pouco comigo.

Sorri de novo. Porque eu era a “luz da vida dela”, “a menina dos olhos dela”. Ela sempre me chamou assim. Vovó me disse em segredo que isso significava que eu era a favorita dela. Mas eu não poderia contar isso para ninguém, para não chatear meus primos e minhas irmãzinhas. Era nosso segredo.

Então senti mãos na minha cintura – era meu pai me levantando para me sentar na cama ao lado da vovó. Ela pegou minha mão e apertou meus dedos, mas tudo o que eu podia notar era como as mãos dela estavam geladas. Vovó inspirou profundamente, emitindo um som esquisito, como se algo crepitasse no peito dela.

— Vovó, você está bem? — perguntei e me debrucei sobre ela para lhe dar um beijo no rosto. Ela normalmente cheirava a tabaco, de todos os cigarros que fumava. Mas hoje eu não sentia o cheiro de fumaça nela.

Vovó sorriu e respondeu:

— Estou cansada, garotinha. E eu…

Vovó inspirou novamente, e seus olhos se fecharam por um momento. Quando abriram de novo, ela se mexeu na cama e disse: — … estou indo embora por um tempo.

Eu franzi o rosto.

— Para onde você vai, vovó? Posso ir também? Nós sempre vamos juntas para as aventuras.

Vovó sorriu, mas balançou a cabeça.

— Não, garotinha. Você não pode ir para onde eu vou. Ainda não. Mas um dia, daqui a muitos anos, você vai me ver de novo.

Minha mãe soltou um soluço atrás de mim, mas eu apenas fiquei olhando, confusa, para minha vovó.

— Mas para onde você vai, vovó? Eu não entendo.

— Para casa, amorzinho — disse ela. — Estou indo para casa.

— Mas você está em casa — rebati.

— Não. — Vovó balançou a cabeça. — Este não é nosso verdadeiro lar, garotinha. Esta vida… bem, ela é só uma grande aventura enquanto a temos. Uma aventura para apreciar e amar com todo o nosso coração antes de ir para a maior aventura de todas.

Meus olhos se arregalaram de entusiasmo, então me senti triste. Triste de verdade. Meu lábio inferior começou a tremer, e eu disse: — Mas nós somos as melhores companheiras, vovó. Sempre vamos juntas a nossas aventuras. Você não pode ir sem mim.

Lágrimas começaram a rolar de meus olhos e escorrer pelo rosto. Minha vovó levantou a mão livre para enxugá-las. Aquela mão estava tão fria quanto a que eu estava segurando.

— Nós sempre vamos nos aventurar juntas, garotinha, mas não desta vez.

— Você não tem medo de ir sozinha? — perguntei.

Minha vovó suspirou.

— Não, garotinha, não é preciso ter medo. Não estou nem um pouco assustada.

— Mas eu não quero que você vá — supliquei, e minha garganta começou a doer.

A mão de vovó permaneceu no meu rosto.

— Você ainda vai me ver em seus sonhos. Isto não é um adeus.

Pisquei. Então pisquei de novo.

— Do mesmo jeito que você vê o vovô? Você sempre diz que ele te visita em seus sonhos. Fala com você e beija sua mão.

— Exatamente assim — ela disse.

Enxuguei minhas lágrimas. Vovó apertou minha mão e olhou para minha mãe atrás de mim. Quando me olhou de novo, disse: — Enquanto eu estiver fora, eu tenho uma nova aventura para você.

Fiquei imóvel. E então perguntei:

— Você tem?

Um som de vidro sendo colocado numa mesa me distraiu. Isso fez com que eu quisesse olhar em volta, mas, antes que eu pudesse, vovó perguntou: — Poppy, o que eu sempre digo que é a lembrança favorita da minha vida? A coisa que sempre me fez sorrir?

— Os beijos do vovô. Os doces beijos de garoto dele. Todas as memórias de todos os beijos de garoto que ele te deu. Você me disse que são suas memórias favoritas. Não coisas, nem dinheiro, mas os beijos que recebeu do vovô, porque foram todos especiais e fizeram você sorrir, sentir que era amada, porque ele era sua alma gêmea. Seu para sempre e sempre.

— Está certo, garotinha — ela respondeu. — Então, para sua aventura…

Vovó olhou para minha mãe novamente. Dessa vez, quando olhei em volta, vi que ela segurava um grande pote de conservas cheio até o topo com muitos corações de papel cor-de-rosa.

— Uau! O que é isso? — perguntei, empolgada.

Mamãe colocou o pote em minhas mãos, e minha vovó deu umas batidinhas na tampa.

— São mil beijos de garoto. Ou ao menos vão ser, quando você preencher todos.

Meus olhos se arregalaram enquanto eu tentava contar todos os corações. Mas eu não conseguia. Mil era muito!

— Poppy — minha vovó disse, quando olhei para seus olhos verdes brilhando —, esta é a sua aventura. É como eu quero que você se lembre de mim enquanto eu estiver fora.

Eu olhei para o pote de novo.

— Mas eu não entendo.

Vovó se virou para sua mesinha de cabeceira e pegou uma caneta. Ela a passou para mim e disse: — Já faz um tempo que estou doente, garotinha, mas as lembranças que fazem com que eu me sinta melhor são aquelas em que seu vovô me beijou. Não só os beijos de todo dia, mas os especiais, aqueles em que meu coração quase explodiu no meu peito. Os beijos que vovô fez questão de que eu jamais me esquecesse. Os beijos na chuva, os beijos no pôr do sol, o beijo que demos na nossa formatura… Aqueles em que ele me segurou forte e sussurrou no meu ouvido que eu era a menina mais bonita do lugar.

Eu só ouvia, sentindo meu coração cheio. Vovó apontou para todos os corações no pote.

— Este pote é para você registrar seus beijos de garoto, Poppy. Todos os beijos que fizerem seu coração quase explodir, aqueles que forem os mais especiais, os que você vai querer relembrar quando estiver velha e grisalha como eu, os que farão você sorrir quando se lembrar deles.

Dando batidinhas na caneta, ela continuou:

— Quando você encontrar o garoto que será seu para sempre e sempre, a cada vez que ganhar um beijo muito especial dele pegue um coração. Escreva onde vocês estavam quando se beijaram. Então, quando você for uma vovó também, seu netinho ou sua netinha, melhor companheiro ou companheira que você tiver, poderá ouvir tudo sobre eles, como eu te contei sobre os meus. Você vai ter um pote do tesouro de todos os beijos preciosos que fizeram seu coração voar.

Eu observei o pote e soltei o ar.

— Mil é um monte. É um monte de beijos, vovó!

Vovó riu.

— Não é tanto quanto você pensa, garotinha. Especialmente quando você encontrar sua alma gêmea. Você tem muitos anos pela frente.

Vovó respirou fundo e seu rosto se contraiu, como se ela estivesse sentindo dor.

— Vovó — chamei, sentindo-me muito assustada. A mão dela apertou a minha.

Vovó abriu os olhos, e dessa vez uma lágrima rolou por sua face pálida.

— Vovó? — eu disse, dessa vez mais baixo.

— Estou cansada, garotinha. Estou cansada, e está quase na minha hora de ir. Eu só queria te ver uma última vez, para te dar este pote. Para beijá-la, assim posso me lembrar de você todo dia no céu até vê-la novamente.

Meu lábio inferior começou a tremer de novo. Minha vovó balançou a cabeça.

— Sem lágrimas, garotinha. É só uma pequena pausa em nossas vidas. E estarei zelando por você, todos os dias. Estarei em seu coração. Estarei no bosque florido que amamos tanto, no sol e no vento.

Os olhos de vovó se apertaram, e as mãos de minha mãe pousaram em meus ombros.

— Poppy, dê um grande beijo na vovó. Ela está cansada agora. Ela precisa descansar.

Respirando fundo, eu me inclinei e dei um beijo no rosto de minha vovó.

— Eu te amo — sussurrei.

Ela acariciou meus cabelos.

— Eu também te amo, garotinha. Você é a luz da minha vida. Nunca se esqueça de que eu te amei tanto quanto uma avó pode amar sua netinha.

Segurei a mão dela e não queria soltar, mas meu pai me tirou da cama, e minha mão por fim deixou a dela. Eu apertei bem forte meu pote, enquanto minhas lágrimas caíam. Meu pai me pôs no chão e, enquanto eu me virava para sair, vovó chamou meu nome: — Poppy?

Olhei para trás e minha vovó estava sorrindo.

— Lembre-se: corações de luar e sorrisos de raios de sol…

— Eu sempre vou me lembrar — eu disse, mas não me senti feliz. Tudo o que senti foi tristeza. Escutei minha mãe chorando atrás de mim. DeeDee passou por nós no corredor. Ela apertou meu ombro. O rosto dela também estava triste.

Eu não queria mais ficar ali. Não queria mais ficar naquela casa. Olhei para o meu pai e perguntei: — Papai, posso ir ao bosque florido?

Papai suspirou:

— Sim, querida. Eu vou dar uma olhada em você depois. Apenas tenha cuidado.

Vi meu pai pegar o telefone e ligar para alguém. Ele pediu para a pessoa ficar de olho em mim enquanto eu estivesse no bosque, mas corri antes de descobrir quem era. Segui para a porta da frente, apertando contra o peito meu pote de mil beijos de garoto em branco. Corri para fora da casa, depois da varanda. Corri, corri e não parei mais.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto. Ouvi chamarem meu nome.

— Poppy! Poppy, espere!

Olhei para trás e vi Rune me observando. Ele estava em sua varanda, mas começou a correr atrás de mim pela grama. Eu não parei, nem mesmo para Rune. Eu tinha que chegar às cerejeiras. Era o lugar favorito de minha vovó. Eu queria estar no lugar favorito dela. Porque eu estava triste por ela estar indo embora. Indo para o céu.

O lar de verdade dela.

— Poppy, espere! Vá mais devagar — gritou Rune, enquanto eu dobrava a esquina para o bosque no parque.

Atravessei correndo a entrada; as grandes cerejeiras, que estavam floridas, faziam um túnel sobre minha cabeça. A grama era verde sob meus pés, e o céu estava azul acima de mim. Pétalas brancas e cor-de-rosa cobriam as árvores. Então, bem no final do bosque, estava a maior árvore de todas. Seus galhos pendiam quase até o chão. O tronco era o mais grosso de todo o bosque.

Era a favorita absoluta minha e de Rune.

E da vovó também.

Eu estava sem fôlego. Quando cheguei debaixo da árvore favorita de vovó, afundei no chão, apertando meu pote, enquanto lágrimas rolavam pelo meu rosto. Eu senti Rune parar ao meu lado, mas não olhei para cima.

— Poppymin? — disse Rune. Era como ele me chamava. Significava “minha Poppy” em norueguês. Eu adorava quando ele falava norueguês comigo. — Poppymin, não chore — ele sussurrou.

Mas eu não conseguia evitar. Eu não queria que minha vovó me deixasse, mesmo sabendo que ela precisava ir. Eu sabia que, quando voltasse para casa, vovó não estaria mais lá: nem agora, nem nunca.

Rune sentou ao meu lado e me puxou para um abraço. Eu me aconcheguei no peito dele e chorei. Eu amava os abraços de Rune, ele sempre me apertava tão forte.

— Minha vovó, Rune, ela está doente e indo embora.

— Eu sei, minha mãe me contou quando voltei da escola.

Concordei com a cabeça, ainda encostada no peito dele. Quando eu já não conseguia mais chorar, me sentei, enxugando o rosto. Olhei para Rune, que estava me observando. Tentei sorrir. Assim que consegui, ele pegou minha mão e a levou ao peito.

— Sinto muito que esteja triste — disse Rune, apertando minha mão. A camiseta dele estava morna do sol. — Não quero que você fique triste, nunca. Você é Poppymin; você sempre sorri. Você está sempre feliz.

Funguei e apoiei a cabeça no ombro dele.

— Eu sei. Mas vovó é minha melhor amiga, Rune, e eu não a terei mais.

Rune não falou nada no começo, depois disse:

— Eu também sou seu melhor amigo. E não vou a lugar algum. Eu prometo. Sempre e sempre.

Meu peito, que estava doendo muito, de repente não doía mais tanto. Concordei com a cabeça.

— Poppy e Rune até o infinito — eu disse.

— Até o infinito — ele repetiu.

Ficamos quietos por um tempo, até que Rune perguntou:

— Para que serve esse pote? O que tem dentro?

Puxando minha mão de volta, peguei o pote e o levantei no ar.

— Minha vovó me deu uma nova aventura. Uma que vai durar minha vida inteira.

As sobrancelhas de Rune se moveram para baixo e seu longo cabelo loiro caiu sobre os olhos. Baixei o pote, e Rune deu aquele seu meio sorriso. Todas as meninas da escola queriam que ele sorrisse daquele jeito para elas – elas me disseram. Mas ele sorria assim apenas para mim. Eu disse que nenhuma delas poderia ficar com ele, de nenhum jeito, pois ele era meu melhor amigo e eu não queria dividi-lo com ninguém.

Rune apontou para o pote.

— Eu não estou entendendo.

— Você lembra quais são as memórias favoritas da minha vovó? Eu já te contei.

Eu podia ver Rune pensando intensamente, então ele disse:

— Beijos do seu vovô?

Assenti com a cabeça e puxei uma pétala rosa-claro de flor de cerejeira do galho que pendia ao meu lado. Observei a pétala. Elas eram as favoritas da minha vovó. Ela gostava delas porque não duravam muito. Ela me falou que as melhores coisas, as mais bonitas, nunca permanecem por muito tempo. Ela disse que uma flor de cerejeira era bonita demais para durar o ano todo. Era mais especial porque sua vida era curta. Como o samurai: beleza extrema, morte rápida. Eu ainda não tinha muita certeza do que isso significava, mas ela disse que eu entenderia melhor à medida que ficasse mais velha.

E acho que ela estava certa. Porque minha avó não era tão velha e estava indo embora jovem – pelo menos foi o que papai disse. Talvez fosse por isso que ela gostava tanto das flores de cerejeira. Porque era igual a elas.

— Poppymin?

A voz de Rune me fez olhar para cima.

— Estou certo? Beijar seu avô eram as lembranças favoritas de sua vovó?

— Sim — respondi, deixando a pétala cair —, todos os beijos que ganhou que fizeram o coração dela quase explodir. Vovó disse que os beijos dele eram as melhores coisas do mundo. Porque significavam que ele a amava, que se importava com ela. E ele gostava dela exatamente por quem ela era.

Rune fitou o pote e bufou.

— Ainda não estou entendendo, Poppymin.

Eu ri, e ele fez um bico e uma careta. Ele tinha belos lábios; eram bem grossos, com um arco perfeito. Abri o pote e puxei um coração de papel cor-de-rosa sem nada escrito. Eu o segurei no ar, entre mim e Rune.

— Isto é um beijo vazio. — Então apontei para o pote e continuei: — Vovó me deu mil deles para colecionar na minha vida. — Coloquei o coração de volta no pote, peguei a mão dele e disse: — Uma nova aventura, Rune. Colecionar mil beijos de garoto antes de morrer… beijos da minha alma gêmea.

— O quê, Poppy? Estou confuso — disse ele, mas eu podia ouvir a raiva em sua voz. Rune podia ser bem genioso quando queria.

Eu puxei a caneta do bolso.

— Quando o garoto que eu amo me beijar, quando for tão especial que meu coração poderia quase explodir… apenas os beijos muito especiais… eu tenho que escrever os detalhes em um desses corações. É para quando eu ficar velha e grisalha e quiser contar para meus netinhos tudo sobre os beijos realmente especiais da minha vida. E sobre o garoto doce que me beijou. — Eu me levantei, sentindo a empolgação dentro de mim. — É o que vovó queria para mim, Rune. Então tenho que começar logo! Quero fazer isso por ela.

Rune também ficou de pé. Justamente nesse momento uma rajada de vento soprou pétalas de flor de cerejeira bem onde estávamos, e eu sorri. Mas Rune não estava sorrindo. Na verdade, ele parecia furioso.

— Você vai beijar um garoto, para o seu pote? Um garoto especial? Que você ama? — ele perguntou.

Assenti.

— Mil beijos, Rune! Mil!

Rune balançou a cabeça e fez bico de novo.

— NÃO! — ele rosnou.

O sorriso sumiu do meu rosto.

— O quê? — perguntei.

Rune se aproximou, balançando a cabeça mais forte.

— Não! Eu não quero você beijando um garoto para o seu pote! Eu não vou deixar!

— Mas… — tentei falar, mas Rune tomou minha mão.

— Você é minha melhor amiga — ele disse e estufou o peito, puxando minha mão. — Eu não quero você beijando garotos!

— Mas eu tenho que beijar — expliquei, mostrando o pote. — Eu tenho que beijar para a minha aventura. Mil beijos é muita coisa, Rune. Muita coisa! Você ainda seria meu melhor amigo. Ninguém jamais será tão importante para mim, seu bobo.

Ele olhou intensamente para mim, depois para o pote. Meu peito doeu de novo. Pelo olhar em seu rosto, eu via que ele não estava feliz. Ele tinha ficado mal-humorado de novo.

Cheguei mais perto do meu melhor amigo, e os olhos de Rune se fixaram nos meus.

— Poppymin — ele disse, com a voz mais profunda, dura e forte. — Poppymin! Essa palavra significa minha Poppy. Até o infinito, para sempre e sempre. Você é minha Poppy!

Abri a boca para gritar com ele, dizer que era uma aventura que eu tinha que começar. Mas, assim que fiz isso, Rune se inclinou para a frente e pressionou os lábios nos meus.

Eu congelei. Não conseguia mover um músculo sequer enquanto sentia seus lábios. Eram mornos. Rune tinha gosto de canela. O vento soprou seu cabelo longo sobre meu rosto. Começou a fazer cócegas no meu nariz.

Rune se afastou um pouco, mas seu rosto ficou perto do meu. Tentei respirar, mas meu peito estava esquisito, meio leve. E meu coração estava batendo rápido. Tão rápido que coloquei a mão no peito para senti-lo tão acelerado dentro de mim.

— Rune — sussurrei. Levantei a mão para colocar os dedos sobre os lábios. Ele piscou várias vezes enquanto me observava. Estendi minha mão e pousei os dedos sobre os seus lábios. — Você me beijou — eu disse, aturdida.

Rune levantou a mão para segurar a minha. Ele baixou nossas mãos unidas para seu lado.

— Eu vou te dar mil beijos, Poppymin. Todos eles. Ninguém nunca vai beijar você, só eu.

Meus olhos se arregalaram, mas meu coração não desacelerou.

— Isso seria para sempre, Rune. Nunca ser beijada por mais ninguém significa que ficaremos juntos para sempre e sempre e sempre.

Rune fez que sim com a cabeça e então sorriu. Ele não sorria muito. Normalmente, dava um meio sorriso ou um sorrisinho. Mas ele deveria sorrir sempre. Ele ficava lindo quando sorria.

— Eu sei. Porque somos para sempre e sempre. Até o infinito, lembra?

Assenti com a cabeça lentamente e então a inclinei para o lado.

— Você vai me dar todos os meus beijos? O suficiente para encher este pote inteiro? — perguntei.

Rune deu outro sorrisinho.

— Todos eles. Vamos encher o pote inteiro e mais. Vamos juntar bem mais que mil.

Dei um suspiro e então me lembrei do pote. Puxei de volta minha mão, assim conseguiria alcançar a caneta e abrir a tampa do pote. Peguei um coração e me sentei para escrever. Rune se ajoelhou diante de mim e colocou a mão sobre a minha, impedindo-me de escrever.

Olhei confusa para ele. Ele engoliu em seco, enfiou o cabelo atrás da orelha e perguntou: — Quando… eu… beijei você… seu coração quase explodiu? Foi muito especial? Você disse que só os beijos muito especiais iam para o pote. — Ao dizer isso, ele ficou vermelho e baixou os olhos.

Sem pensar, coloquei os braços em torno do pescoço do meu melhor amigo. Encostei o rosto em seu peito e escutei seu coração.

Estava batendo tão rápido quanto o meu.

— Foi, Rune. Foi tão especial quanto é possível ser especial.

Senti Rune sorrindo e me afastei um pouco. Cruzei as pernas e coloquei o coração de papel sobre a tampa do pote. Rune também se sentou de pernas cruzadas.

— O que você vai escrever? — ele perguntou.

Encostei a caneta no lábio enquanto pensava. Sentei-me reta e me inclinei para a frente, pressionando a caneta no papel.

Beijo 1

Com meu Rune.

No bosque florido.

Meu coração quase explodiu.

Quando terminei de escrever, guardei o coração no pote e fechei bem a tampa. Olhei para Rune, que tinha me observado o tempo todo, e anunciei, orgulhosa: — Aqui está. Meu primeiro beijo de garoto!

Ele assentiu com a cabeça, mas seus olhos se voltaram para os meus lábios.

— Poppymin?

— Sim? — sussurrei.

Rune pegou minha mão e começou a fazer traços nela com a ponta do dedo.

— Posso… Posso te beijar de novo?

Engoli em seco, sentindo um frio na barriga.

— Você quer me beijar de novo… já?

Rune fez que sim com a cabeça.

— Fazia tempo que eu queria beijar você. E, bem, você é minha e gostei disso. Gostei de te beijar. Você tem gosto de açúcar.

— Eu comi um biscoito no almoço. Nozes. O favorito da vovó — expliquei.

Rune respirou fundo e se inclinou para mim. Seu cabelo foi para a frente.

— Eu quero fazer isso de novo — disse ele.

— Tudo bem.

E Rune me beijou.

E ele me beijou e me beijou e me beijou.

Até o fim do dia eu tinha mais quatro beijos de garoto no meu pote.

Quando cheguei em casa, mamãe me disse que minha vovó tinha ido para o céu. Corri para o meu quarto o mais rápido que pude. E me apressei para pegar no sono. Como ela havia prometido, vovó estava lá nos meus sonhos. Contei para ela sobre os cinco beijos de garoto do Rune.

Minha vovó deu um grande sorriso e me beijou no rosto.

Eu sabia que essa seria a melhor aventura da minha vida.





Rune

Há dois anos

Aos quinze anos de idade

O silêncio caiu enquanto ela se posicionava no palco. Bem, nem tudo estava em silêncio – o estrondo do sangue correndo nas minhas veias soava em meus ouvidos enquanto Poppy sentava-se cuidadosamente. Ela estava linda de vestido preto sem mangas, o cabelo castanho longo preso em um coque e um laço branco no alto da cabeça.

Levantei a câmera que estava sempre pendurada em meu pescoço e levei as lentes ao olho assim que ela colocou o arco contra a corda do violoncelo. Sempre amei capturá-la nesse momento. O momento em que ela fechava os grandes olhos verdes. O momento em que a expressão mais perfeita tomava seu rosto – sua aparência um pouco antes do início da música. A aparência de pura paixão pelos sons que estavam prestes a começar.

Tirei a foto no momento perfeito, e então a melodia começou. Baixei a câmera e passei a me concentrar apenas nela. Eu não podia fotografar enquanto ela tocava. Eu não podia perder nenhum detalhe de como ela brilhava naquele palco.

Meus lábios se curvaram em um pequeno sorriso quando o corpo de Poppy começou a balançar ao ritmo da música. Ela amava aquela canção, tocava-a desde que eu podia me lembrar. Ela nem precisava de partitura; “Greensleeves” fluía de sua alma pelo arco.

Eu não conseguia tirar os olhos de Poppy. Meu coração batia feito um maldito tambor enquanto seus lábios se contraíam. As covinhas apareciam quando ela se concentrava nas passagens difíceis. Os olhos permaneciam fechados, mas era possível saber de que partes da música ela mais gostava. Sua cabeça pendia para o lado, e um grande sorriso tomava seu rosto.

As pessoas não entendiam que depois de todo esse tempo ela ainda fosse minha. Tínhamos apenas quinze anos, mas desde o dia em que a beijara no bosque florido, aos oito anos, ela tinha sido a única. Eu não tinha olhos para nenhuma outra garota. Eu só via Poppy. No meu mundo, só ela existia.

E ela era diferente de todas as garotas da nossa sala. Poppy era excêntrica, não legal. Ela não se preocupava com o que as pessoas pensavam dela – nunca tinha se preocupado. Ela tocava violoncelo porque amava. Ela lia livros, estudava para se divertir, acordava ao amanhecer só para ver o sol se levantar.

Era por isso que ela era tudo para mim. Minha para sempre e sempre. Porque ela era única. Única em uma cidade repleta de cópias de peruas burras. Ela não queria ser animadora de torcidas, nem falar mal dos outros, nem caçar garotos. Ela sabia que me tinha, tanto quanto eu a tinha.

Éramos tudo de que precisávamos.

Eu me mexi no assento enquanto o som do violoncelo ficava mais suave e Poppy conduzia a música ao seu final. Levantei novamente a câmera e tirei uma última foto no momento em que Poppy tirou o arco da corda e uma expressão de contentamento adornou seu belo rosto.

O som dos aplausos me fez baixar a câmera. Poppy afastou o instrumento do peito e se levantou. Ela fez uma pequena reverência e então olhou para todo o auditório. Seus olhos encontraram os meus. Ela sorriu.

Achei que meu coração fosse saltar do peito.

Dei um sorrisinho de volta, afastando meu cabelo loiro do rosto com os dedos. Um rubor cobriu as bochechas de Poppy, e então ela saiu do palco pela esquerda, enquanto as luzes inundavam de claridade o auditório. Poppy foi a última a se apresentar. Ela sempre fechava o concerto. Ela era a melhor musicista do distrito na nossa faixa etária. Mas, na minha opinião, ela ofuscava qualquer um nas três faixas etárias acima da nossa.

Uma vez perguntei a ela como conseguia tocar como tocava. Ela simplesmente me disse que as melodias brotavam de seu arco com a mesma facilidade com que respirava. Eu não podia imaginar o que era ter um talento daqueles. Mas aquela era Poppy, a garota mais incrível do mundo.

Quando os aplausos terminaram, as pessoas começaram a deixar o auditório. Senti alguém apertar meu braço. Era a sra. Litchfield, que enxugava uma lágrima. Ela sempre chorava quando Poppy se apresentava.

— Rune, querido, precisamos levar estas duas para casa. Você vai encontrar a Poppy?

— Sim, senhora — respondi, rindo discretamente de Ida e Savannah, as irmãs de nove e onze anos de Poppy, dormindo em seus assentos. Elas não ligavam para música, não como Poppy.

O sr. Litchfield revirou os olhos e acenou de leve para mim; então se virou para acordar as meninas e levá-las para casa. A sra. Litchfield me deu um beijo na cabeça, e os quatro foram embora.

Enquanto descia para o corredor, ouvi sussurros e risinhos vindos do meu lado direito. Olhando sobre os assentos, vi um grupo de calouras olhando para minha direção. Baixei a cabeça, ignorando os olhares.

Acontecia muito. Eu não tinha ideia do motivo pelo qual tantas delas me davam tamanha atenção. Eu estava com Poppy desde que elas me conheciam. Eu não queria nenhuma outra pessoa. E gostaria que elas parassem de tentar me tirar da minha garota – nada faria isso.

Passei pela saída e fui até a porta dos bastidores. O ar estava denso e úmido, fazendo minha camiseta grudar no peito. Meu jeans e minhas botas pretas eram quentes demais para o calor da primavera, mas eu usava roupa preta todo dia, não importava o clima.

Vendo os músicos se aglomerarem ao lado da porta, eu me encostei na parede do auditório, descansando o pé nos tijolos pintados de branco. Cruzei os braços sobre o peito, soltando-os apenas para tirar o cabelo dos olhos.

Vi os músicos sendo abraçados por seus familiares e então, ao flagrar as mesmas garotas de antes me encarando, baixei os olhos para o chão. Eu não queria que elas fossem até ali. Eu não tinha nada para dizer a elas.

Meus olhos ainda estavam baixos quando ouvi passos em minha direção. Olhei para cima no momento em que Poppy se jogou no meu peito, os braços envolvendo minhas costas, apertando-me forte.

Soltei um riso curto e a abracei de volta. Eu já tinha um metro e oitenta e dois, então ficava muito acima do um metro e cinquenta e dois de Poppy. Mas eu gostava de como ela se encaixava perfeitamente em mim.

Aspirei profundamente para sentir o cheiro adocicado do perfume e pousei o rosto em sua cabeça. Depois de um último apertão, Poppy se afastou e sorriu para mim. Seus olhos verdes pareciam enormes com o rímel e a maquiagem leve, e seus lábios estavam rosados e exuberantes por causa do protetor labial de cereja.

Deslizei as mãos pela lateral de seu corpo até alcançar suas bochechas macias. Os cílios de Poppy bateram, deixando-a totalmente doce.

Sem conseguir resistir ao desejo de sentir seus lábios junto aos meus, eu me curvei lentamente para a frente, quase sorrindo ao ouvir o suspiro que Poppy sempre soltava naqueles instantes anteriores ao encontro de nossos lábios.

Quando nossos lábios se tocaram, soltei o ar pelo nariz. Poppy sempre tinha aquele gosto de cereja, e o sabor de seu protetor labial inundava minha boca. Ela retribuiu meu beijo, suas pequenas mãos agarrando com força os lados da minha camiseta preta.

Movi minha boca contra a dela, devagar e com suavidade, até que finalmente me afastei, depositando três beijos curtos e leves em sua boca avolumada. Tomei fôlego e observei os olhos de Poppy piscando até se abrirem.

Suas pupilas estavam dilatadas. Ela lambeu o lábio inferior antes de me dar um sorriso reluzente e dizer:

— Beijo trezentos e cinquenta e dois. Com meu Rune, encostada na parede do auditório.

Segurei a respiração, esperando que ela continuasse a falar. O brilho nos olhos de Poppy me dizia que as palavras que eu esperava iam sair de seus lábios. Chegando mais perto, balançando na ponta dos pés, ela sussurrou:

— E meu coração quase explodiu.

Ela só registrava os beijos muito especiais. Apenas os que faziam com que ela sentisse seu coração cheio. A cada vez que nos beijávamos, eu esperava por aquelas palavras.

E, quando elas vieram, Poppy quase me fez explodir com seu sorriso.

Ela riu. Eu só podia sorrir com o som de felicidade em sua voz. Dei outro beijo rápido em seus lábios e desgrudei um pouco dela, para passar meu braço por seus ombros. Eu a puxei para perto e encostei o rosto em sua cabeça. Os braços de Poppy envolveram minhas costas e meu abdômen, e eu a levei para longe da parede. Quando fiz isso, senti Poppy congelar.

Levantei a cabeça e vi as calouras apontando para Poppy e cochichando entre si. Os olhos delas estavam focados em Poppy nos meus braços. Minha mandíbula se apertou. Eu odiava que elas a tratassem daquela maneira – por puro ciúme. A maioria das garotas nunca dava uma chance a Poppy porque queriam o que ela tinha. Poppy dizia que não ligava, mas eu percebia que sim. O fato de ela ter endurecido em meus braços me dizia o quanto.

Eu me posicionei de frente para Poppy e esperei que ela levantasse a cabeça. Assim que o fez, ordenei:

— Ignore essas meninas.

Senti um peso no estômago quando a vi forçar um sorriso.

— Eu ignoro, Rune. Elas não me incomodam.

Pendi a cabeça para o lado e levantei as sobrancelhas. Poppy balançou a cabeça.

— Não me incomodam, juro — ela tentou mentir.

Poppy olhou por cima de meu ombro e encolheu os dela. Quando seus olhos encontraram os meus, ela disse:

— Mas eu entendo. Quer dizer, olha pra você, Rune. Você é maravilhoso. Alto, misterioso, exótico… Norueguês! — Ela riu e colocou a palma da mão em meu peito. — Você tem todo esse lance de bad boy estilo indie. As meninas não conseguem deixar de te desejar. Você é você. Você é perfeito.

Cheguei mais perto e vi os olhos verdes de Poppy se arregalarem.

— E todo seu — completei. A tensão se esvaiu dos ombros dela.

Escorreguei minha mão até a mão dela, ainda em meu peito.

— E eu não sou misterioso, Poppymin. Você sabe tudo sobre mim: sem segredos, sem mistérios.

— Para mim — ela argumentou, olhando-me nos olhos mais uma vez. — Você não é um mistério para mim, mas é para todas as garotas da escola. E todas querem você.

Eu suspirei, começando a ficar irritado.

— E tudo o que eu quero é você. — Poppy me observou como se tentasse descobrir algo em minha expressão. Isso só me irritou mais. Juntei nossos dedos e sussurrei: — Até o infinito.

Com isso, um sorriso genuíno surgiu nos lábios de Poppy.

— Para sempre e sempre — ela, por fim, sussurrou de volta.

Encostei minha testa na dela. Minhas mãos contornaram seu rosto, e afirmei:

— Eu quero você e só você. Desde que eu tinha cinco anos e você apertou minha mão. Nenhuma garota vai mudar isso.

— É? — perguntou Poppy, mas eu podia ouvir o humor de volta em sua voz doce.

— Ja — respondi em norueguês, ouvindo o doce som do riso dela em meus ouvidos. Poppy amava quando eu falava em minha língua nativa com ela. Eu beijei sua testa, então dei um passo para trás para pegar em suas mãos. — Sua mãe e seu pai levaram as meninas para casa; eles me pediram para te avisar.

Ela concordou com a cabeça e então me olhou nervosa.

— O que você achou da noite de hoje?

Virei os olhos para cima e torci o nariz.

— Horrível, como sempre — eu disse de modo seco.

Poppy riu e bateu no meu braço.

— Rune Kristiansen! Não seja tão malvado! — ela me repreendeu.

— Certo — eu disse, fingindo estar irritado. E a puxei para o meu peito, envolvendo suas costas com os braços e prendendo-a contra mim. Ela soltou uns gritinhos quando comecei a beijar seu rosto de cima a baixo, mantendo seus braços presos do lado. Desci os lábios por seu pescoço e senti sua respiração, todos os risos esquecidos.

Movi a boca para cima até puxar seu lóbulo com os dentes.

— Você estava incrível — sussurrei. — Como sempre. Você é sempre perfeita lá em cima. Você dominou aquele palco. E ganhou cada um naquele auditório.

— Rune — ela murmurou. Ouvi o tom feliz em sua voz.

Fui para trás, ainda sem soltar seus braços.

— Tenho o maior orgulho quando te vejo naquele palco — confessei.

Poppy corou.

— Rune — ela disse timidamente, mas baixei a cabeça para manter o contato visual quando ela tentou se afastar.

— Carnegie Hall, lembre-se. Um dia vou ver você se apresentando no Carnegie Hall.

Poppy conseguiu soltar uma das mãos e bateu de leve em meu braço.

— Você está me bajulando.

Abanei a cabeça.

— Nunca. Eu sempre falei somente a verdade.

Poppy pousou os lábios nos meus e senti seu beijo até os dedos dos pés. Quando ela se afastou, eu a soltei e lhe dei a mão.

— Estamos indo para o campo? — perguntou Poppy, quando comecei a conduzi-la pelo estacionamento, segurando-a um pouco mais perto ao passarmos pelo grupo de calouras.

— Eu preferiria ficar sozinho com você — falei.

— Jorie perguntou se íamos. Todo mundo está lá. — Poppy me olhou. Pela contração dos lábios dela eu sabia que estava de cara fechada. — Hoje é sexta à noite, Rune. Nós temos quinze anos, e você acabou de passar a maior parte da noite assistindo à minha apresentação de violoncelo. Temos noventa minutos até voltar para casa; deveríamos ver nossos amigos, como adolescentes normais.

— Certo. — Eu me rendi e envolvi os ombros dela com o braço. Então me abaixei, encostei a boca em seu ouvido e disse: — Mas amanhã eu vou ter você só pra mim.

Poppy colocou o braço em torno de minha cintura e me apertou forte.

— Está bem. Eu prometo.

Ouvimos as garotas atrás de nós mencionarem meu nome. Bufei de frustração quando Poppy se retesou brevemente.

— É porque você é diferente, Rune — disse Poppy, sem olhar para cima. — Você é artístico, gosta de fotografia, usa roupas escuras. — Ela riu e balançou a cabeça. Afastei o cabelo do rosto. Poppy apontou. — Mas principalmente por causa disso.

Franzi o cenho.

— Por causa do quê?

Ela puxou uma mecha do meu cabelo.

— Quando você faz isso. Quando puxa o cabelo para trás.

Levantei uma sobrancelha, confuso.

— Ja? — perguntei, antes de parar na frente de Poppy, puxando os cabelos para trás com exagero até que ela risse. — Irresistível, hein? Pra você também?

Poppy riu e tirou a minha mão do meu cabelo para envolver a sua nela. Enquanto seguíamos pelo caminho para o campo – um pedaço do parque onde os garotos da escola ficavam à noite –, Poppy disse:

— Realmente não me incomodo que as outras garotas olhem para você, Rune. Eu sei o que sente por mim, porque é exatamente a mesma coisa que sinto por você.

Poppy mordeu o lábio inferior. Eu sabia que isso significava que ela estava nervosa, mas não sabia por quê, até que ela disse:

— A única garota que me incomoda é a Avery. Porque ela gosta de você há muito tempo e porque tenho certeza de que ela faria qualquer coisa para conseguir você.

Balancei a cabeça. Eu nem gostava de Avery, mas ela fazia parte de nosso grupo de amigos e estava sempre por perto. Todos os meus amigos gostavam dela; todos a achavam a menina mais bonita de todas. Mas eu nunca tinha achado isso e odiava a maneira como ela se comportava comigo. Eu odiava que ela fizesse Poppy se sentir daquela maneira.

— Ela é nada, Poppymin — eu a tranquilizei. — Nada.

Poppy se aninhou contra o meu peito e viramos para a direita, na direção de nossos amigos. Quanto mais nos aproximávamos, mais eu apertava Poppy. Avery se endireitou quando nos aproximamos.

Eu me voltei para Poppy e repeti:

— Nada.

Poppy apertou minha camiseta, querendo me dizer que ela tinha escutado. Sua melhor amiga, Jorie, ficou de pé.

— Poppy! — Jorie gritou, empolgada, vindo abraçá-la.

Eu gostava de Jorie. Ela era avoada e não pensava muito antes de falar, mas ela amava Poppy e Poppy a amava. Era uma das únicas pessoas nesta cidadezinha que achava a excentricidade de Poppy cativante, e não apenas esquisita.

— Como vocês estão, meus queridos? — Jorie perguntou e deu um passo para trás. Ela olhou para o vestido preto de Poppy. — Você está linda! Tão fofa!

Poppy curvou a cabeça em agradecimento. Segurei-lhe a mão de novo e a guiei em torno da pequena fogueira. Eu me sentei, com as costas apoiadas em um banco de madeira, e puxei Poppy, para que ela se acomodasse entre minhas pernas. Poppy me deu um sorriso e se sentou comigo, colocando as costas contra o meu peito e encaixando a cabeça em meu pescoço.

— Então, Pops, como foi? — Judson, meu amigo mais próximo, perguntou do outro lado da fogueira. Deacon, que também era meu amigo, estava sentado ao lado dele. Ele levantou o queixo em um cumprimento, e sua namorada, Ruby, deu um pequeno aceno para nós.

Poppy encolheu os ombros.

— Bom, acho.

Enquanto envolvia o peito dela com os braços, apertando-a forte, olhei para meu amigo moreno e completei:

— Foi a estrela da apresentação. Como sempre.

— É só violoncelo, Rune. Nada especial — Poppy argumentou delicadamente.

Balancei a cabeça em protesto e disse:

— A plateia veio abaixo.

Flagrei Jorie sorrindo para mim. Também flagrei Avery revirando os olhos com desdém. Poppy ignorou Avery e começou a falar com Jorie sobre as aulas.

— Pops, juro que o sr. Miller é um alienígena do mal. Ou um demônio. Droga, ele é de algum lugar fora do que conhecemos. Foi trazido pelo diretor para nos torturar, jovens terráqueos fracos, com aulas de álgebra difíceis demais. É assim que ele consegue sua força vital. Tenho certeza. E acho que ele está de olho em mim… Porque sei que ele é um extraterrestre! Aquele cara fica me olhando feio!

— Jorie! — Poppy riu, e riu tanto que chacoalhou o corpo todo. Sorri pela alegria dela e então parei de prestar atenção. Eu traçava preguiçosamente desenhos no braço de Poppy, querendo apenas ir embora. Eu não tinha nada contra ficar com nossos amigos, mas preferia ficar sozinho com ela. Era a companhia dela que eu desejava; onde quer que estivéssemos juntos, era sempre o melhor lugar.

Poppy riu de outra coisa que Jorie havia dito. Seu riso foi tão intenso que ela derrubou para o lado a câmera que estava no meu pescoço. Poppy me deu um sorriso de desculpas. Eu me curvei para a frente, puxei seu queixo com o dedo e a beijei nos lábios. Era para ser algo rápido e suave, mas, quando a mão de Poppy se enroscou nos meus cabelos, me puxando para bem perto, tornou-se algo mais. Enquanto Poppy abria os lábios, empurrei minha língua de encontro à dela, perdendo o fôlego.

Os dedos de Poppy envolveram meus cabelos. Coloquei as mãos em seu rosto para prolongar o beijo o máximo possível. Se eu não precisasse respirar, imaginei, jamais precisaria parar de beijá-la.

Perdidos no beijo, só nos largamos quando alguém limpou a garganta do outro lado da fogueira. Levantei a cabeça e vi Judson dando um risinho. Quando olhei para Poppy, seu rosto estava em chamas. Nossos amigos esconderam o riso, e apertei Poppy mais forte. Eu não ficava envergonhado por beijar minha garota.

A conversa recomeçou, e examinei a câmera para ver se estava tudo bem. Minha mamma e meu pappa a tinham comprado no meu aniversário de treze anos, quando perceberam que a fotografia estava se tornando uma paixão. Era uma Canon dos anos 1960. Eu a levava comigo para todos os lugares e tirava milhares de fotos. Não sei bem por quê, mas capturar momentos me fascinava. Talvez porque às vezes tudo que temos são momentos. Porque não há repetições; o que acontece em um momento define a vida – talvez seja a vida. Capturar um momento em filme o mantém vivo para sempre. Para mim, fotografia era algo mágico.

Rolei mentalmente o filme da câmera. Fotos da natureza e closes de flores de cerejeira do bosque ocupavam a maior parte do filme. Aí viriam as fotos de Poppy naquela noite. Seu rosto lindo no momento em que a música tomava o controle. Eu tinha visto aquele olhar no rosto dela apenas uma outra vez – quando ela olhava para mim. Para Poppy, eu era tão especial quanto a música.

Nos dois casos havia uma ligação que ninguém poderia quebrar.

Levantei o celular com as lentes da câmera viradas em nossa direção. Poppy não estava mais participando da conversa. Ela silenciosamente corria a ponta dos dedos ao longo do meu braço. Pegando-a desprevenida, tirei a foto, assim que ela olhou para mim. Soltei apenas uma risada quando ela apertou os olhos, irritada. Eu sabia que não estava brava, apesar de seus esforços para passar essa impressão. Poppy amava qualquer foto que eu tirasse da gente, mesmo quando ela menos esperava.

Quando me concentrei no celular, meu coração começou a bater forte. Na foto, ao olhar para mim, Poppy estava linda. Mas era a expressão no rosto dela que tinha me surpreendido. O olhar em seus olhos verdes.

Naquele momento, naquele simples momento capturado, havia aquela expressão. A que ela me dava tão prontamente quanto dava à sua música. A que me dizia que eu era dela da mesma maneira que ela era minha. A que tinha garantido que passássemos todos aqueles anos juntos. A que dizia que, mesmo sendo jovens, tínhamos encontrado um no outro nossa alma gêmea.

— Posso ver?

A voz baixa de Poppy tirou minha atenção da tela. Ela sorriu para mim e baixei o celular para mostrar a ela.

Observei Poppy, não a foto, enquanto seu olhar se voltou para a tela. Observei seus olhos se abrandarem e o sopro de um sorriso se esboçar em seus lábios.

— Rune — ela sussurrou, enquanto buscava minha mão livre. Eu apertei sua mão, e ela disse: — Eu quero uma cópia desta. É perfeita. — Assenti e beijei a sua cabeça.

É por isso que eu amo fotografia, pensei. Pode despertar emoções, emoções brutas, de uma fração de segundo no tempo.

Ao desligar a câmera do celular, vi o horário na tela.

— Poppymin? — eu disse baixinho. — Temos de ir para casa. Está ficando tarde.

Poppy assentiu com a cabeça. Fiquei de pé e a puxei para cima.

— Vocês estão indo? — perguntou Judson.

Assenti.

— Estamos. Vejo vocês na segunda.

Acenei para todos e peguei a mão de Poppy. Não falamos muito no caminho para casa. Quando paramos na porta da casa dela, eu a peguei nos braços e a puxei para o meu peito. Coloquei minha mão no lado de seu pescoço. Poppy olhou para cima.

— Tenho tanto orgulho de você, Poppymin. Tenho certeza de que vai entrar na Julliard. Seu sonho de tocar no Carnegie Hall vai se tornar realidade.

Poppy deu um sorriso vivo e puxou a alça da câmera em torno do meu pescoço.

— E você vai para a Escola de Artes Tisch, na Universidade de Nova York. Estaremos juntos em Nova York, como sempre foi para ser. Como sempre planejamos.

Concordei com a cabeça e rocei meus lábios em sua bochecha.

— E então não haverá mais hora de voltar para casa — sussurrei de modo provocante. Poppy riu. Movi os lábios em direção à sua boca, beijei-a suavemente e me afastei.

No momento em que eu soltava as mãos dela, o sr. Litchfield abriu a porta. Ele viu eu me afastar de sua filha e balançou a cabeça, rindo. Ele sabia exatamente o que estávamos fazendo.

— Boa noite, Rune — ele disse, secamente.

— Boa noite, sr. Litchfield — respondi, vendo Poppy corar enquanto seu pai fazia um gesto para que ela entrasse.

Cruzei o gramado até minha casa. Abri a porta, entrei na sala e vi meus pais sentados no sofá. Ambos estavam com o corpo inclinado para a frente e pareciam tensos.

— Hei — eu disse, e minha mãe levantou a cabeça.

— Hei, querido — ela respondeu.

Franzi a testa.

— O que há de errado?

Minha mamma lançou um olhar para meu pappa e balançou a cabeça.

— Nada, querido. A Poppy tocou bem? Sinto muito por termos perdido.

Encarei meus pais. Eles estavam escondendo algo, eu sabia. Quando eles não continuaram a conversa, assenti devagar com a cabeça, respondendo à pergunta deles:

— Ela foi perfeita, como sempre.

Pensei ter visto lágrimas nos olhos de minha mãe, mas ela piscou rapidamente, livrando-se delas. Precisando escapar do embaraço, mostrei minha câmera.

— Vou revelar essas fotos e depois vou para a cama.

Enquanto eu me virava para sair, meu pai disse:

— Vamos sair em um passeio em família amanhã, Rune.

Parei de repente.

— Não posso ir. Combinei de passar o dia com a Poppy.

Meu pai balançou a cabeça.

— Amanhã não, Rune.

— Mas… — tentei argumentar, porém meu pai me cortou, com a voz dura.

— Eu disse não. Você vem com a gente, ponto-final. Poppy pode ver você quando voltarmos. Não vamos ficar fora o dia todo.

— O que está acontecendo?

Meu pai caminhou até parar na minha frente. Ele botou a mão no meu ombro.

— Nada, Rune. Apenas que eu nunca vejo você por causa do trabalho. Quero mudar isso, então vamos passar o dia na praia.

— A Poppy pode ir com a gente? Ela adora a praia. É o segundo lugar favorito dela.

— Amanhã não, filho.

Fiquei em silêncio. Eu estava ficando nervoso, mas sabia que ele não ia ceder. Papai suspirou.

— Vá revelar suas fotos, Rune, e pare de se preocupar.

Fazendo o que ele sugeriu, desci para o porão e entrei no quartinho que papai tinha transformado em uma câmara escura para mim. Eu ainda revelava o filme da maneira antiga. O resultado era melhor do que com uma câmera digital.

Depois de vinte minutos, dei um passo para trás, afastando-me do meu varal de novas fotos. Também tinha feito uma cópia da foto do meu celular, minha e de Poppy no campo. Eu a peguei e a levei para o meu quarto. Enfiei a cabeça no quarto de Alton ao passar, para ver se meu irmão de dois anos estava dormindo. Ele estava, abraçando forte seu ursinho de pelúcia marrom, o cabelo loiro bagunçado espalhado sobre o travesseiro.

Empurrei minha porta e acendi a luminária. Olhei para o relógio; era quase meia-noite. Correndo a mão pelo cabelo, fui para a janela e sorri quando vi a casa dos Litchfield no escuro, a não ser pelo brilho esmaecido da luz noturna de Poppy – o sinal de que o terreno estava livre para que eu entrasse sorrateiramente.

Tranquei a porta do meu quarto e desliguei a luminária. O quarto foi engolido pela escuridão. Vesti minha calça e minha camiseta de dormir. Procurando não fazer barulho, levantei a janela e pulei. Corri pela grama entre nossas casas e me arrastei para dentro do quarto de Poppy, fechando a janela o mais silenciosamente que podia.

Poppy estava na cama, enfiada embaixo das cobertas. Seus olhos estavam fechados, e sua respiração era suave e constante. Sorrindo ao ver como ela ficava bonitinha com o rosto repousando na mão, andei cuidadosamente até ela, coloquei seu presente na mesinha de cabeceira e subi na cama.

Eu me deitei ao lado dela, baixando a cabeça para dividir seu travesseiro.

Fazíamos isso havia anos. Na primeira vez em que eu tinha passado a noite, tinha sido um engano; tínhamos doze anos e entrei em seu quarto para conversar, mas peguei no sono. Por sorte, na manhã seguinte acordei cedo o suficiente para me esgueirar de volta ao meu quarto sem ser notado. Mas então, na noite seguinte, eu fiquei de propósito, e na noite depois daquela, e quase todas as noites desde então. Felizmente nunca fomos pegos. Eu não tinha certeza de que o sr. Litchfield ia gostar de mim do mesmo jeito se soubesse que eu dormia na cama da filha dele.

Mas ficar ao lado de Poppy na cama se tornava cada vez mais difícil. Agora eu tinha quinze anos e me sentia diferente ao lado dela. Eu a via de um outro jeito. E sabia que ela também me via assim. Nós nos beijávamos cada vez mais. Os beijos estavam ficando mais profundos, nossas mãos começando a explorar lugares que não deviam. Estava ficando cada vez mais difícil parar. Eu queria mais. Queria minha garota de todas as maneiras possíveis.

Mas éramos jovens. Eu sabia disso.

Isso, no entanto, não deixava as coisas menos difíceis.

Poppy se agitou ao meu lado.

— Estava me perguntando se você viria esta noite. Eu te esperei, mas você não estava em seu quarto — ela disse, sonolenta, enquanto tirava meu cabelo do meu rosto.

Peguei sua mão e a beijei na palma.

— Eu tive que revelar meu filme, e meus pais estavam esquisitos.

— Esquisitos? Como? — perguntou ela, chegando mais perto e beijando meu rosto.

Balancei a cabeça.

— Só… esquisitos. Acho que está acontecendo alguma coisa, mas eles me disseram para eu não me preocupar.

Mesmo na luz fraca eu podia ver que as sobrancelhas de Poppy estavam franzidas de preocupação. Eu apertei sua mão, para reconfortá-la.

Quando me lembrei do presente que eu havia trazido para ela, me estiquei para pegar a foto da mesa de cabeceira. Eu a tinha colocado em uma moldura prateada simples. Apertei o ícone da lanterna no meu celular e o segurei para que Poppy pudesse ver melhor.

Ela deu um pequeno suspiro, e observei um sorriso iluminar seu rosto todo. Ela pegou a moldura e passou o dedo pelo vidro.

— Eu amo esta foto, Rune — ela sussurrou, colocando-a na mesa de cabeceira. Ela olhou para a foto por uns momentos, então se virou para mim.

Poppy levantou as cobertas e as segurou para cima, para que eu pudesse me enfiar debaixo delas. Coloquei o braço sobre a cintura de Poppy e cheguei mais perto de seu rosto, sapecando beijos suaves em seu pescoço e em suas bochechas.

Quando beijei o lugar bem abaixo de sua orelha, Poppy começou a rir e puxou o pescoço.

— Rune! — ela sussurrou. — Isso faz cócegas! — Eu me afastei e enlacei minha mão na dela. — E o que vamos fazer amanhã? — perguntou, levantando a outra mão para brincar com uma mecha comprida do meu cabelo.

Virando os olhos, respondi:

— Não vamos… Meu pappa quer fazer um passeio em família durante o dia. Para a praia.

Poppy sentou-se na cama, empolgada.

— Sério? Eu adoro praia!

Senti um peso no estômago.

— Ele falou que temos de ir sozinhos, Poppymin. Só a família.

— Ah — disse Poppy, parecendo desapontada. Ela se deitou de novo. — Fiz algo de errado? Seu pappa sempre me convida para ir com vocês.

— Não — garanti. — É disso que eu estava falando antes. Eles estão esquisitos. Ele disse que quer passar o dia em família, mas acho que tem algo mais.

— Certo — disse Poppy, mas eu podia ouvir tristeza em sua voz.

Segurei sua cabeça em minhas mãos e prometi:

— Vou estar de volta na hora do jantar. Passamos a noite juntos.

Ela pegou meu pulso.

— Ótimo.

Poppy me encarou, e seus olhos verdes estavam bem abertos na luz fraca. Passei a mão em seu cabelo.

— Você é tão linda, Poppymin.

Eu não precisava de luz para ver seu rosto ficando vermelho. Reduzi o pequeno espaço entre nós e apertei meus lábios nos dela. Poppy suspirou enquanto eu colocava a língua dentro de sua boca, e suas mãos se moveram para agarrar meu cabelo.

Era bom demais: a boca de Poppy ficava mais quente à medida que nos beijávamos, e minhas mãos caíam para correr por seus braços nus, até sua cintura.

Poppy se deitou enquanto minha mão desceu para tocar sua perna. Fui para cima dela, e Poppy tirou sua boca da minha, arquejando. Mas não parei de beijá-la. Arrastei os lábios sobre sua mandíbula para beijá-la ao longo do pescoço, enquanto minha mão se movia sob sua camisola para tocar a pele macia de sua cintura.

Os dedos de Poppy puxaram meus cabelos, e sua perna se levantou para se encaixar na parte de trás da minha coxa. Gemi contra seu pescoço, subindo minha boca novamente para beijá-la. Enquanto minha língua deslizava contra a dela, subi os dedos por seu corpo. Poppy interrompeu o beijo.

— Rune…

Soltei a cabeça na curva entre o pescoço e o rosto de Poppy, respirando profundamente. Eu a desejava tanto que quase não conseguia aguentar.

Eu respirava fundo enquanto ela acariciava minhas costas. Concentrei-me no ritmo de seus dedos, forçando-me a ficar calmo.

Minutos e minutos se passaram, mas não me mexi. Eu estava feliz deitado sobre Poppy, respirando seu perfume delicado, minha mão sobre seu abdômen macio.

— Rune? — Poppy sussurrou. Eu levantei a cabeça, e a mão de Poppy tocou meu rosto. — Querido? — ela murmurou, e percebi a preocupação em sua voz.

— Estou bem — sussurrei de volta, com a voz mais baixa possível, para não acordar os pais dela. Olhei profundamente em seus olhos e disse: — Eu apenas te desejo tanto. — Então colei a testa na dela e concluí: — Quando ficamos assim, quando chegamos assim tão longe, eu meio que perco a cabeça.

Os dedos de Poppy se trançaram em meu cabelo e fechei os olhos, amando o toque dela.

— Desculpe, eu…

— Não — eu disse enfaticamente, talvez um pouco mais alto do que desejava. Os olhos de Poppy estavam imensos. — Nunca. Nunca se desculpe por isso, por me parar. Não é algo para você se desculpar.

Poppy abriu os lábios inchados pelos beijos e soltou um longo suspiro.

— Obrigada — ela sussurrou.

Entrelacei os dedos nos dela. Indo para o lado, abri o braço e mexi a cabeça indicando para ela vir para perto mim. Ela deitou a cabeça em meu peito, fechei os olhos e me preocupei só em respirar.

Por fim, o sono começou a tomar conta de mim. Os dedos de Poppy percorriam meu abdômen de alto a baixo. Eu tinha quase adormecido quando Poppy sussurrou:

— Você é tudo para mim, Rune Kristiansen, espero que saiba disso.

Meus olhos se abriram com suas palavras, senti o peito cheio. Colocando um dedo sob o queixo de Poppy, levantei sua cabeça. Sua boca esperava pelo meu beijo.

Eu a beijei delicadamente, suavemente, e me afastei devagar. Os olhos de Poppy permaneceram fechados enquanto ela sorria. Sentindo que meu peito ia explodir com a expressão de contentamento em seu rosto, sussurrei:

— Até o infinito.

Poppy se aconchegou de volta em meu peito e sussurrou de volta:

— Para sempre e sempre.

E ambos caímos no sono.





Rune

— Rune, precisamos falar com você — meu pappa disse, enquanto almoçávamos no restaurante em frente à praia.

— Vocês vão se divorciar?

O rosto de pappa empalideceu.

— Deus, não, Rune — ele logo assegurou, pegando a mão de minha mamma para enfatizar. Minha mamma sorriu para mim, mas eu podia ver lágrimas começando a brotar em seus olhos.

— Então o quê? — perguntei.

Meu pappa lentamente se encostou em sua cadeira.

— Sua mamma andava chateada com meu emprego, Rune, não comigo.

Eu estava bem confuso, até que ele disse:

— Estão me transferindo para Oslo, Rune. A companhia teve um problema lá e estou sendo mandado de volta para dar um jeito nele.

— Por quanto tempo? — perguntei. — Quando você volta?

Meu pappa passou a mão pelo cabelo loiro grosso, do mesmo jeito que eu fazia, e respondeu:

— Aí é que está, Rune — ele disse, cautelosamente. — Pode levar anos. Pode levar meses. — Ele suspirou e continuou: — Realisticamente, qualquer coisa entre um e três anos.

Meus olhos se arregalaram.

— Você vai deixar a gente aqui na Geórgia por todo esse tempo?

Minha mamma estendeu a mão e cobriu a minha com a dela. Eu a observei sem pensar direito. Então as verdadeiras consequências do que pappa estava dizendo começaram a entrar em meu cérebro.

— Não — eu disse, sussurrando, sabendo que ele não faria isso comigo. Ele não podia fazer isso comigo.

Olhei para cima. Vi a culpa tomando seu rosto.

Eu sabia que era verdade.

Agora eu entendia por que tínhamos vindo para a praia. Por que ele queria que estivéssemos sozinhos. Por que ele havia recusado a companhia de Poppy.

Meu coração disparou enquanto minha mente dava voltas… Eles não iriam… Ele não iria… Eu não iria!

— Não — respondi, agora mais alto, atraindo olhares das mesas próximas. — Eu não vou. Eu não vou deixá-la.

Eu me virei para minha mamma buscando ajuda, mas ela baixou a cabeça. Arranquei minha mão da dela.

— Mamma? — supliquei, mas ela balançou a cabeça devagar.

— Somos uma família, Rune. Não vamos ficar separados todo esse tempo. Temos que ir. Somos uma família.

— Não! — dessa vez gritei, empurrando a cadeira para longe da mesa. Fiquei em pé, com os punhos fechados do lado do corpo. — Eu não vou deixá-la! Você não pode me obrigar! Aqui é nossa casa. Aqui! Não quero voltar para Oslo!

— Rune — disse meu pai, de modo pacificador, levantando da mesa e estendendo as mãos.

Mas eu não conseguia ficar naquele espaço fechado com ele. Eu me virei e corri para fora do restaurante o mais rápido que pude, rumo à praia. O sol havia desaparecido atrás de nuvens espessas, fazendo um vento frio chicotear a areia. Continuei correndo em direção às dunas, e os grãos grossos atingiam meu rosto.

Enquanto corria, tentava lutar contra a raiva que me rasgava por dentro. Como eles podiam fazer isso comigo? Eles sabiam o quanto eu precisava de Poppy.

Eu tremia ao subir a duna mais alta e me jogar sentado no topo. Então deitei, observando o céu que se acinzentava, e imaginei a vida de volta à Noruega sem ela. Senti o estômago virar… só de pensar em não tê-la ao meu lado, segurando minha mão, beijando meus lábios…

Eu mal conseguia respirar.

Minha mente disparou, buscando ideias de como eu poderia ficar. Pensei em cada possibilidade, mas conhecia meu pappa. Quando decidia algo, nada o fazia mudar de opinião. Eu iria embora; o olhar no rosto dele me disse claramente que não havia como escapar. Eles iam me tirar da minha garota, da minha alma. E eu não poderia fazer nada a respeito.

Ouvi alguém subindo a duna atrás de mim e sabia que era meu pappa. Ele se sentou ao meu lado. Olhei para a outra direção, para o mar. Eu queria ignorar a presença dele.

Ficamos em silêncio até que por fim eu cedi e perguntei:

— Quando vamos embora? — Senti meu pappa endurecer do meu lado, fazendo-me olhar para sua direção. Ele observava meu rosto com expressão de pena. Meu estômago revirou ainda mais. — Quando? — insisti.

Pappa baixou a cabeça e respondeu:

— Amanhã.

Tudo parou.

— O quê? — sussurrei, em choque. — Como isso é possível?

— Sua mãe e eu soubemos há um mês. Decidimos não contar a você até o último minuto porque sabíamos como você se sentiria. Eles precisam de mim no escritório na segunda-feira, Rune. Organizamos tudo com a sua escola, fizemos a transferência de seus históricos. Seu tio está preparando nossa casa em Oslo para nossa volta. Minha empresa contratou uma equipe de mudança para esvaziar nossa casa em Blossom Grove e enviar nossas coisas de navio para a Noruega. Eles chegam amanhã um pouco depois que a gente for embora.

Encarei meu pappa. Pela primeira vez na vida, eu o odiava. Cerrei os dentes e olhei para longe. Eu me sentia nauseado com o tanto de raiva que corria em minhas veias.

— Rune — meu pappa disse suavemente, colocando a mão no meu ombro.

Eu me livrei de sua mão.

— Não — sibilei. — Jamais me toque ou fale comigo de novo. — Virei a cabeça e disse: — Eu nunca vou te perdoar. Eu nunca vou te perdoar por tirá-la de mim.

— Rune, eu entendo… — ele tentou dizer, mas eu o cortei.

— Você não entende. Você não tem ideia de como eu me sinto, do que a Poppy significa para mim. Não tem ideia. Porque, se tivesse, não ia me levar para longe dela. Você diria para sua empresa que não ia se mudar. Que precisávamos ficar.

Pappa suspirou.

— Eu sou o diretor técnico, Rune. Tenho que ir para onde precisam de mim, e agora é Oslo.

Eu não disse nada. Eu não ligava que ele era o maldito diretor técnico de uma empresa com problemas. Eu estava furioso porque ele só tinha me contado agora. Eu estava furioso porque íamos embora, ponto-final.

Quando fiquei quieto, meu pappa disse:

— Estou juntando nossas coisas, filho. Esteja no carro em cinco minutos. Quero que você fique esta noite com Poppy. Quero dar pelo menos isso a você.

Lágrimas quentes se formaram nos meus olhos. Virei o rosto, assim ele não poderia me ver. Eu estava com raiva, com tanta raiva que não conseguia impedir as malditas lágrimas. Eu nunca chorava quando estava triste, só quando sentia raiva. E naquele momento eu estava tão furioso que mal podia respirar.

— Não será para sempre, Rune. Uns poucos anos no máximo e estaremos de volta. Eu prometo. Meu emprego, nossa vida, é aqui na Geórgia. Mas tenho de ir para onde a companhia precisa de mim. Oslo não será tão ruim; é de onde somos. Você sabe que sua mamma vai ficar feliz por estar perto da família de novo. Achei que você também poderia ficar.

Não respondi. Porque uns poucos anos sem Poppy eram uma vida toda. Eu não ligava para minha família.

Eu estava perdido, observando o movimento das ondas, e esperei o máximo que pude antes de me levantar. Eu queria encontrar Poppy, mas ao mesmo tempo não sabia como dizer a ela que estava indo embora. Eu não suportava a ideia de partir seu coração.

A buzina tocou e corri para o carro, onde minha família esperava. Minha mamma tentou sorrir para mim, mas eu a ignorei e deslizei para o banco traseiro. Enquanto saíamos da costa, fiquei olhando pela janela.

Senti um toque de mão no meu braço e me virei. Era Alton apertando a manga da minha camisa. Sua cabeça estava pendida para o lado.

Desalinhei seu cabelo loiro bagunçado. Alton riu, mas o sorriso logo se apagou, e ele ficou olhando para meu lado durante toda a viagem até nossa casa. Achei irônico que meu irmãozinho pudesse entender quanta dor eu sentia, mais do que meus pais.

A viagem para casa pareceu durar uma eternidade. Quando paramos na nossa entrada, praticamente mergulhei do carro e corri para a casa dos Litchfield.

Bati na porta da frente. A sra. Litchfield atendeu em apenas uns segundos. No momento em que ela me viu, seus olhos se encheram de pena. Ela deu uma olhada pelo jardim para minha mãe e meu pai tirando as coisas do carro. E fez um pequeno aceno para eles.

Ela também sabia.

— A Poppy está? — dei um jeito de perguntar, empurrando as palavras pela minha garganta apertada.

A sra. Litchfield me puxou em um abraço.

— Ela está no bosque florido, querido. Ficou lá a tarde toda lendo. — A sra. Litchfield beijou minha cabeça. — Eu sinto muito, Rune. Minha filha vai ficar de coração partido quando você for embora. Você é a vida dela.

Ela também é minha vida, eu queria dizer, mas não consegui falar uma só palavra.

A sra. Litchfield me soltou e me afastei, pulando da varanda e correndo até o bosque.

Cheguei lá em minutos e logo avistei Poppy sob a nossa cerejeira favorita. Parei, ficando bem fora de vista, enquanto a observava lendo seu livro, com fones de ouvido roxos sobre a cabeça. Galhos repletos de pétalas cor-de-rosa de cerejeira pendiam ao redor dela como um escudo protetor, abrigando-a do sol forte. Ela usava um vestido branco curto sem mangas e um grande laço branco preso na lateral do cabelo castanho. Parecia que tinha entrado em um sonho.

Senti um aperto no coração. Eu via Poppy todos os dias desde os meus cinco anos. Eu dormia ao seu lado quase todas as noites desde os doze anos. Eu a beijava todos os dias desde os oito e a amava com todas as forças por tantos dias que parei de contar.

Eu não tinha ideia de como viver um dia sem ela perto de mim. De como respirar sem tê-la ao meu lado.

Como se tivesse sentido que eu estava lá, ela desviou o olhar da página do livro. Quando apareci no gramado, ela me deu o maior sorriso. Era o sorriso que ela tinha só para mim.

Tentei sorrir de volta, mas não consegui.

Caminhei com dificuldade pelas flores de cerejeira, o caminho tão repleto de pétalas caídas que parecia um riacho rosa e branco sob meus pés. Observei o sorriso de Poppy sumir à medida que eu chegava mais perto. Eu não conseguia esconder nada dela. Ela me conhecia tão bem quanto eu mesmo. Ela percebeu que eu estava aborrecido.

Eu disse a ela antes, não havia segredos comigo. Não com ela. Ela era a única pessoa que me conhecia completamente.

Poppy ficou parada, movendo-se apenas para tirar os fones de ouvido da cabeça. Ela colocou o livro ao lado dela no chão, passou os braços em torno das pernas dobradas e apenas esperou.

Engolindo em seco, fiquei de joelhos na frente dela, e minha cabeça pendeu para a frente, em derrota. Lutei contra o aperto em meu peito. Por fim, levantei a cabeça. A apreensão estava clara nos olhos de Poppy, como se ela soubesse que o que saísse de minha boca ia mudar tudo.

Mudar a gente.

Mudar a nossa vida inteira.

Acabar com nosso mundo.

— Nós vamos embora — finalmente consegui desengasgar.

Observei seu rosto empalidecer.

Olhando para o outro lado, consegui um fôlego curto e completei:

— Amanhã, Poppymin. De volta para Oslo. Pappa está me tirando de você. Ele nem está tentando ficar.

— Não — ela sussurrou em resposta e então se curvou para a frente. — Podemos fazer alguma coisa? — A respiração de Poppy acelerou. — Talvez você pudesse ficar com a gente? Morar com a gente? Nós podemos dar um jeito. Podemos…

— Não — interrompi. — Você sabe que meu pappa não permitiria. Eles sabem há semanas; já me transferiram de escola. Só não me contaram porque sabiam como eu reagiria. Preciso ir, Poppymin. Não tenho outra escolha. Preciso ir.

Observei uma pétala de cerejeira soltar-se de um galho que pendia baixo. Ela flutuou como uma pena até o chão. Eu sabia que, a partir daquele momento, a cada vez que visse uma flor de cerejeira, eu pensaria em Poppy. Ela passava todo o tempo ali naquele bosque, comigo ao seu lado. Era o lugar que ela mais amava.

Fechei os olhos enquanto a imaginava no bosque, sozinha depois de amanhã – ninguém para acompanhá-la em suas aventuras, ninguém para ouvir seu riso… Ninguém para lhe dar beijos de garoto de explodir o peito.

Sentindo uma dor cortante atingir meu peito, eu me virei para Poppy, e meu coração se partiu em dois. Ela ainda estava parada em seu lugar contra a árvore, mas seu lindo rosto estava inundado de fios e fios de lágrimas silenciosas, e suas mãos pequenas estavam fechadas em punhos que tremiam sobre os joelhos.

— Poppymin — eu disse com voz áspera, finalmente libertando minha dor.

Eu me aproximei dela e a aninhei em meus braços. Poppy desabou sobre mim, chorando contra meu peito. Fechei os olhos, sentindo cada pedaço da sua dor.

Aquela dor também era minha.

Ficamos daquele jeito por um tempo, até que Poppy finalmente levantou a cabeça e colocou a palma da mão trêmula em meu rosto.

— Rune… — ela disse, com a voz falhando — … o que eu vou… o que eu vou fazer sem você?

Balancei a cabeça, dizendo silenciosamente a ela que eu não sabia. Eu não conseguia falar; minhas palavras estavam presas no fundo da garganta. Poppy se encostou de novo em meu peito, e seus braços apertaram com força a minha cintura.

Não falamos enquanto as horas se passaram. O sol deixou para trás um céu laranja-queimado. Logo as estrelas apareceram, e a lua também, brilhante e cheia.

Uma brisa fria açoitou o bosque, forçando as pétalas a dançar ao nosso redor. Quando senti Poppy começar a tremer em meus braços, soube que era hora de ir.

Passei os dedos no cabelo grosso de Poppy e sussurrei:

— Poppymin, temos que ir.

Ela apenas me apertou mais forte em resposta.

— Poppy? — tentei novamente.

— Não quero ir — ela disse de modo quase inaudível, sua voz doce agora áspera.

Olhei para baixo no momento em que seus olhos verdes se fixaram nos meus.

— Se deixarmos o bosque, vai significar que está quase na hora de você me deixar também.

Passei as costas da mão por suas bochechas vermelhas. Elas estavam geladas ao toque.

— Sem despedidas, lembra? Você sempre diz que despedidas não existem. Porque sempre vamos nos ver em nossos sonhos. Como com a sua avó.

As lágrimas caíam dos olhos de Poppy; enxuguei as gotas com o polegar.

— E você está gelada — eu disse, suavemente. — Está realmente tarde, e preciso levar você pra casa, assim você não terá problemas por perder o horário de voltar.

Poppy forçou um sorriso fraco em seus lábios.

— Pensei que os vikings da vida real não seguissem regras.

Soltei uma única risada e encostei a testa na dela. Depositei dois beijos suaves em cada canto de sua boca e respondi:

— Eu vou te levar até a porta, e na hora em que seus pais estiverem dormindo vou entrar em seu quarto pela última noite. Que tal isso para quebrar as regras? Viking o suficiente?

Poppy riu.

— Sim — ela respondeu, afastando meu cabelo longo da frente dos meus olhos. — Você é o viking de que eu preciso na vida.

Tomando as mãos dela, beijei a ponta de cada dedo e me obriguei a ficar de pé. Ajudei-a a se levantar e puxei-a para meu peito. Eu a envolvi em meus braços, mantendo-a perto. Seu perfume doce entrou pelo meu nariz. Jurei que me lembraria exatamente de como ela se sentia naquele momento.

O vento ficou mais forte. Soltei nosso abraço e peguei a mão de Poppy. Em silêncio, começamos a andar pelo caminho forrado de pétalas. Poppy encostou a cabeça em meu braço, inclinando-a para trás para receber o céu noturno. Beijei o topo de sua cabeça e a ouvi suspirar profundamente.

— Você já notou como o céu é escuro em cima do bosque? É mais escuro que em qualquer outro lugar da cidade. Parece bem preto, a não ser pela lua e pelas estrelas cintilantes. Contra o rosa das cerejeiras, parece algo saído de um sonho.

Inclinei a cabeça para trás para ver o céu, e um sorrisinho brotou no canto da minha boca. Ela estava certa. Parecia quase surreal.

— Só você para notar uma coisa dessas — eu disse, baixando de novo a cabeça. — Você sempre vê o mundo de um jeito diferente de todos. É uma das coisas que amo em você. É a aventureira que conheci quando tinha cinco anos.

Poppy apertou minha mão mais forte.

— Minha vovó sempre dizia que o céu é do jeito que você quiser que seja.

A tristeza em sua voz fez meu ar parar na garganta.

Ela suspirou.

— O lugar predileto da vovó era debaixo da nossa cerejeira. Quando me sento ali e olho para essas fileiras e fileiras de árvores, e então para o céu tão preto, às vezes me pergunto se ela estará sentada naquela mesma árvore lá no céu, olhando para as cerejeiras floridas exatamente como nós, observando o céu negro tal como eu agora.

— Tenho certeza de que ela está, Poppymin. E está sorrindo de lá para você, como ela prometeu que faria.

Poppy se esticou e pegou uma flor de cerejeira de um tom vivo de rosa. Ela a segurou em frente ao corpo, olhando para as pétalas nas palmas de suas mãos.

— Vovó também disse que as melhores coisas da vida morrem rápido, como a flor da cerejeira. Porque algo tão belo não pode durar para sempre, não deveria durar para sempre. Ela permanece por um breve momento no tempo para nos lembrar de como a vida é preciosa, antes de desaparecer tão rápido quanto chegou. Vovó disse que ela nos ensina mais em sua vida curta do que qualquer coisa que fique sempre ao nosso lado.

Minha garganta começou a se fechar quando ouvi a dor na voz dela. Ela me olhou.

— Porque nada tão perfeito pode durar uma eternidade. Como as estrelas cadentes. Vemos as estrelas comuns toda noite. A maioria das pessoas não dá valor, até esquece que estão ali. Mas, se uma pessoa vê uma estrela cadente, ela se lembra daquele momento para sempre, até faz um desejo na presença dela. — Ela respirou fundo. — Ela passa tão rápido que as pessoas saboreiam o tempo curto que têm com ela.

Senti uma lágrima cair em nossas mãos unidas. Eu estava confuso, sem ter certeza do motivo por que ela estava falando de coisas tão tristes.

— Porque algo tão perfeito e especial é destinado a desaparecer. Por fim, tem de ser levado pelo vento. — Poppy levantou a flor de cerejeira que ainda estava em sua mão. — Como esta flor.

Ela a jogou pelo ar, bem quando passou uma rajada de vento. O sopro forte levou as pétalas pelo céu, por cima das árvores.

Sumiu de vista.

— Poppy… — comecei a falar, mas ela me cortou.

— Talvez sejamos como a flor da cerejeira, Rune. Como estrelas cadentes. Talvez tenhamos amado muito e muito jovens, e a chama foi tão brilhante que tivemos que esmaecer. — Então ela apontou para trás de nós, para o bosque florido. — Beleza extrema, morte rápida. Tivemos esse amor o tempo suficiente para nos ensinar uma lição. Para nos mostrar o quanto somos verdadeiramente capazes de amar.

Meu coração afundou. Virei Poppy de frente para mim. O olhar devastado em seu belo rosto me cortou o coração ali onde estava.

— Escute — eu disse, sentindo pânico. Com as mãos no rosto de Poppy, prometi: — Eu vou voltar para você. Essa mudança para Oslo não vai ser para sempre. Vamos conversar todos os dias, vamos escrever um para o outro. Ainda seremos Poppy e Rune. Nada pode quebrar isso, Poppymin. Você sempre será minha, será sempre metade da minha alma. Isso não é o fim.

Poppy fungou e piscou para se livrar das lágrimas. Meu pulso disparou de medo ao pensar nela desistindo de nós. Porque aquilo jamais havia passado na minha cabeça. Não estávamos terminando nada.

Cheguei mais perto.

— Não acaba aqui — eu disse energicamente. — Até o infinito, Poppymin. Para sempre e sempre. Jamais acaba. Você não pode pensar assim. Não com a gente.

Poppy se levantou na ponta dos pés, espelhando minha postura, colocando as mãos em meu rosto.

— Você me promete, Rune? Porque ainda tenho centenas de beijos de garoto para receber de você.

Sua voz estava tímida e envergonhada… estava atormentada de medo.

Eu ri, sentindo o pavor se esvaindo de meus ossos, o alívio tomando lugar.

— Sempre. E vou te dar mais que mil. Darei dois, três, quatro mil.

O sorriso alegre de Poppy me confortou. Eu a beijei lenta e suavemente, abraçando-a o mais apertado possível. Quando nos soltamos, os olhos de Poppy se abriram e ela anunciou:

— Beijo número trezentos e cinquenta e quatro. Com meu Rune, no bosque florido… e meu coração quase explodiu. — Então ela prometeu: — Meus beijos são todos seus, Rune. Ninguém jamais beijará meus lábios além de você.

Rocei os lábios nos dela uma vez mais e ecoei suas palavras.

— Meus beijos são todos seus. Ninguém jamais beijará meus lábios além de você.

Peguei a mão dela e seguimos para casa. Todas as luzes da minha casa ainda estavam acesas. Quando chegamos à porta da frente de Poppy, eu me curvei e beijei-lhe a ponta do nariz. Levei minha boca ao seu ouvido e sussurrei:

— Me dê uma hora e voltarei para você.

— Certo — Poppy sussurrou de volta.

Então pulei quando a palma de sua mão pousou gentilmente em meu peito. Poppy chegou mais perto de mim. A expressão séria em seu rosto me deixou nervoso. Ela olhou para a própria mão, então correu os dedos lentamente sobre meu peito e meu estômago.

— Poppymin? — perguntei, sem saber o que estava acontecendo.

Sem dizer uma palavra, ela puxou a mão e foi em direção à sua porta. Esperei ela se virar e explicar, mas ela não se virou. Entrou pela porta aberta, deixando-me plantado na entrada de sua casa. Eu ainda podia sentir o calor de sua mão em meu peito.

Quando as luzes da cozinha dos Litchfield se acenderam, eu me obriguei a voltar para casa. Assim que entrei pela porta, vi uma montanha de caixas no corredor da sala.

Elas devem ter sido guardadas para ficarem fora da minha vista.

Depois de passar por elas, vi minha mamma e meu pappa na sala. Meu pappa chamou meu nome, mas não parei. Entrei em meu quarto no momento em que ele veio atrás de mim.

Parei na frente da minha mesa de cabeceira e comecei a juntar tudo o que eu queria levar comigo, especialmente a foto com Poppy que eu havia tirado na noite anterior. Enquanto meus olhos analisavam a fotografia, meu estômago doía. Eu já sentia falta dela. Sentia falta da minha casa.

Sentia falta da minha garota.

Notando a presença de meu pappa ainda atrás de mim, eu disse baixinho:

— Eu te odeio por fazer isso comigo.

Flagrei sua respiração rápida. Eu me virei e vi minha mamma ao lado dele. O rosto dela estava tão chocado quanto o do meu pappa. Eu nunca os havia tratado mal assim. Eu gostava dos meus pais. Eu nunca tinha entendido como os outros adolescentes não gostavam dos deles.

Mas agora eu entendia.

Eu os odiava.

Nunca tinha sentido tanto ódio por alguém antes.

— Rune… — minha mãe começou, mas eu a interrompi.

— Eu nunca vou perdoar vocês, nenhum de vocês, por fazerem isso comigo. Eu odeio tanto vocês dois neste minuto que não consigo ficar perto de vocês.

Fiquei surpreso com a dureza na minha voz. Era grossa e cheia de toda a raiva que estava crescendo dentro de mim. Uma raiva que eu não sabia que era possível sentir. Para a maioria das pessoas eu parecia genioso, emburrado, mas na verdade eu raramente sentia raiva. Agora eu era feito dela. Apenas ódio corria em minhas veias.

Ira.

Os olhos de minha mamma se encheram de lágrimas, mas pela primeira vez não me importei. Queria que eles se sentissem tão mal quanto eu me sentia naquele minuto.

— Rune… — meu pappa disse, e virei-lhe as costas.

— A que horas vamos embora? — rosnei, interrompendo qualquer coisa que ele estivesse tentando falar.

— Saímos às sete da manhã — ele me informou baixinho.

Fechei os olhos; agora eu tinha apenas horas com Poppy. Em oito horas, eu a deixaria para trás. Deixaria tudo para trás, menos essa raiva. Eu ia garantir que ela viajasse comigo.

— Não será para sempre, Rune. Depois de um tempo vai ficar mais fácil. Você por fim vai conhecer outra pessoa. Você vai seguir em frente…

— Não! — eu gritei e me virei bruscamente, jogando a luminária da mesa de cabeceira para o outro lado do quarto. A lâmpada se despedaçou com o impacto. Eu respirava intensamente, com o coração disparado no peito, enquanto encarava meu pappa. — Jamais diga uma coisa dessas de novo! Eu não vou deixar Poppy para ficar com outra. Eu a amo! Você não entende? Ela é tudo pra mim, e você está nos arrancando um do outro.

Observei o rosto de meu pai empalidecer. Dei um passo para a frente.

Minhas mãos tremiam.

— Não tenho escolha a não ser ir com vocês, eu sei disso. Eu só tenho quinze anos. Não sou estúpido a ponto de acreditar que poderia ficar aqui sozinho. — Fechei os punhos. — Mas eu vou odiar vocês. Vou odiar vocês dois a cada dia até a nossa volta. Você pode achar que só porque tenho quinze anos eu vou me esquecer da Poppy assim que uma vagabunda de Oslo me der bola. Mas isso não vai acontecer nunca. E vou odiar vocês cada segundo, até estar com ela novamente.

Pausei para respirar e completei:

— E, quando eu a reencontrar, ainda vou odiar vocês por terem me tirado dela. Por causa de vocês, vou perder anos ao lado da minha garota. Não pensem que por eu ser jovem não reconheço o que tenho com Poppy. Eu a amo. Eu a amo mais do que vocês podem imaginar. E vocês estão me levando embora sem dar a mínima para os meus sentimentos.

Eu me virei, fui até o armário e comecei a puxar minhas roupas.

— Então, de agora em diante, eu não ligo para os sentimentos de vocês a respeito de qualquer coisa. Eu nunca vou perdoar vocês. Os dois. Especialmente você, pappa.

Comecei a arrumar a mala que minha mamma havia colocado sobre minha cama. Meu pappa ficou onde estava, olhando para o chão em silêncio. Por fim ele disse:

— Durma um pouco, Rune. Vamos acordar cedo.

Cada fio de cabelo no meu pescoço se eriçou com a irritação por ele desconsiderar o que eu tinha a dizer, até que ele continuou, em voz baixa:

— Sinto muito, filho. Eu sei quanto a Poppy significa para você. Demorei para contar a você para poupar semanas de dor, porém isso não ajudou. Mas assim é a vida real, e estamos falando do meu emprego. Você vai entender um dia.

A porta se fechou atrás de mim, e me joguei na cama. Arrastei a mão até o rosto, e meus ombros caíram quando olhei para o armário vazio. Mas a raiva ainda estava lá, queimando no estômago. Se bobear, queimando mais que antes.

Eu tinha certeza de que ela estava ali para ficar.

Joguei a última das minhas camisas na mala, sem ligar para o quanto ficariam amarrotadas. Fui para a janela e vi que a casa de Poppy estava na escuridão, com exceção da luz noturna dizendo que a barra estava limpa.

Depois de trancar a porta do meu quarto, eu me esgueirei pela janela e corri através da grama. A janela estava levemente aberta, esperando por mim. Deslizei por ela e fechei bem.

Poppy estava sentada no centro da cama, com o cabelo solto e o rosto recém-lavado. Engoli em seco ao ver como ela estava linda de camisola branca, com os braços e as pernas nus, e a pele tão suave e macia.

Cheguei mais perto e vi o porta-retratos em sua mão. Quando ela olhou para cima, percebi que tinha chorado.

— Poppymin — eu disse suavemente, e minha voz falhou ao vê-la tão chateada.

Poppy colocou o porta-retratos na cama e deitou a cabeça no travesseiro, dando tapinhas no colchão ao lado dela. Eu me deitei junto a ela o mais rápido que pude, ajeitando-me até que houvesse apenas centímetros entre nós.

Assim que vi os olhos vermelhos de Poppy, a raiva dentro de mim pareceu se inflamar.

— Querida — eu disse, cobrindo minha mão com a dela —, por favor, não chore. Não suporto ver você chorar.

Poppy engoliu em seco.

— Minha mãe me disse que vocês vão embora de manhã bem cedo.

Baixei os olhos e assenti.

Os dedos de Poppy correram por minha testa.

— Então só temos esta noite — ela disse.

Eu senti um punhal atravessar meu coração.

— Ja — respondi, piscando para ela.

Ela estava me olhando de um jeito estranho.

— O que foi? — perguntei.

Poppy trouxe seu corpo para mais perto. Tão perto que nossos peitos se tocaram e seus lábios quase encostaram na minha boca. Eu podia sentir o cheiro de pasta de dente mentolada em seu hálito.

Molhei os lábios e meu coração começou a bater forte. Os dedos de Poppy deslizaram por meu rosto, meu pescoço e meu peito, até que alcançaram a barra da minha camisa. Eu me mexi na cama, precisando de espaço, mas, antes que eu pudesse de fato me mover, Poppy se aproximou e pressionou a boca sobre a minha. Assim que senti o gosto de seus lábios, me curvei para mais perto, e sua língua avançou para encontrar a minha.

Ela me beijou devagar, mais profundamente que antes. Quando sua mão levantou minha camisa e pousou em meu estômago nu, joguei a cabeça para trás e engoli em seco. Eu podia sentir a mão de Poppy tremendo contra a minha pele. Olhei em seus olhos, e meu coração pulou uma batida.

— Poppymin — sussurrei, correndo minha mão sobre seu braço nu. — O que você está fazendo?

Poppy moveu a mão para cima até atingir meu peito, e minha voz foi estancada pelo nó em minha garganta.

— Rune? — Poppy sussurrou, enquanto descia a cabeça para depositar um só beijo na base do meu pescoço. Meus olhos fecharam quando sua boca morna tocou minha pele. Poppy falou com a boca ainda encostada na minha pele: — Eu… eu quero você…

O tempo parou. Meus olhos se abriram rápido. Poppy foi aos poucos para trás e inclinou a cabeça até que seus olhos verdes encontraram os meus.

— Poppy, não — protestei, balançando a cabeça, mas ela colocou os dedos sobre meus lábios.

— Eu não… — Ela se perdeu por um momento, e então se aprumou e continuou: — … eu não posso deixá-lo ir sem saber como é estar com você. — Ela fez uma pausa. — Eu te amo, Rune. Tanto. Espero que saiba disso.

Meu coração disparou em um novo tipo de batida, uma que sabia que tinha o amor de sua outra metade. Era mais forte e mais rápida. Era infinitamente mais rápida que a anterior.

— Poppy — sussurrei, chocado com aquelas palavras. Eu sabia que ela me amava, porque eu a amava. Mas era a primeira vez que eu a escutava dizer isso em voz alta.

Ela me ama…

Poppy esperou silenciosamente. Sem saber como responder de outro jeito, deslizei a ponta do nariz por sua bochecha, puxando a cabeça para trás em uma fração de segundo para olhar em seus olhos.

—Jeg elsker deg.

Poppy engoliu em seco e então sorriu.

Eu sorri de volta.

— Eu te amo — traduzi, só para ter certeza de que ela tinha entendido completamente.

O rosto de Poppy ficou novamente sério, e ela se moveu para sentar no meio da cama. Buscando minha mão, ela me puxou para eu sentar de frente para ela. Suas mãos desceram para a barra da minha camisa.

Tomando um fôlego entrecortado, ela tirou a camisa por cima de minha cabeça. Fechei os olhos ao sentir um beijo morno no peito. Abri os olhos novamente para ver Poppy me dar um sorriso tímido. Derreti ao ver o olhar nervoso em seu rosto.

Ela jamais tinha estado tão linda.

Brigando com os nervos, coloquei a mão em seu rosto.

— Nós não temos que fazer isso, Poppy. Só porque vou embora… você não precisa fazer isso por mim. Eu vou voltar; eu garanto. Quero esperar até que você esteja pronta.

— Eu estou pronta, Rune — ela disse, com a voz clara e firme.

— Você acha que somos muito jovens…

— Logo faremos dezesseis.

Sorri ao ouvir o fogo em sua voz.

— A maioria das pessoas ainda acha que isso é ser jovem demais.

— Romeu e Julieta tinham mais ou menos a nossa idade — ela argumentou.

Não consegui evitar o riso. Parei de rir quando ela veio para mais perto e passou a mão em meu peito.

— Rune — ela sussurrou —, estou pronta há algum tempo, mas não me importava em esperar porque tínhamos todo o tempo do mundo. Não havia pressa. Agora não podemos nos dar a esse luxo. Nosso tempo, este tempo, é limitado. Temos apenas horas. Eu te amo. Eu te amo mais do que qualquer um acreditaria. E… acho que você sente o mesmo por mim.

— Ja — respondi no mesmo instante. — Eu te amo.

— Para sempre e sempre — Poppy disse com um suspiro, e então se afastou de mim. Sem tirar os olhos dos meus, ela levou a mão à alça da camisola e a puxou para baixo. Ela fez o mesmo com a outra alça, e a camisola desceu até seus quadris.

Eu congelei. Não conseguia me mover enquanto Pop