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A Imperatriz da Rússia

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Year:
2015
Publisher:
Casa das Letras
Language:
portuguese
ISBN 13:
9789897413353
File:
EPUB, 654 KB
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1

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సంవత్సరం:
2017
భాష:
english
ఫైల్:
EPUB, 1.92 MB
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సంవత్సరం:
2017
భాష:
english
ఫైల్:
EPUB, 965 KB
5.0 / 5.0
Ficha Técnica


Título original: Empress of the Night

Título: A Imperatriz da Rússia

Autor: Eva Stachniak

Tradução: Artur Lopes Cardoso

Revisão: Natália Garcia

Capa: Maria Manuel Lacerda/Oficina do Livro, Lda.

Editora: Marta Ramires

ISBN: 9789897413353

CASA DAS LETRAS

uma marca da Oficina do Livro – Sociedade Editorial, Lda.

uma empresa do grupo LeYa

Rua Cidade de Córdova, n.º 2

2610-038 Alfragide – Portugal

Tel. (+351) 21 427 22 00

Fax. (+351) 21 427 22 01

© Eva Stachniak, 2014

Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor

E-mail: info@casadasletras.leya.com

www.casadasletras.leya.com

www.leya.pt





Esta edição segue a grafia do novo acordo ortográfico





EVA STACHNIAK


A IMPERATRIZ

DA RÚSSIA

UM ROMANCE SOBRE CATARINA, A GRANDE


Tradução

Artur Lopes Cardoso





À memória da minha mãe



«Ela exercia um autocontrolo constante sobre si própria

e nisso se revelava a grandeza do seu caráter,

pois não há nada mais difícil.»

JACQUES CASANOVA DE SEINGALT SOBRE CATARINA, A GRANDE


«E tombarás, de uma forma que em nada será diferente

Da forma como as folhas secas cairão das árvores;

E morrerás, de uma forma que em nada será diferente

Da forma como morrerá o teu escravo mais humilde.»

GAVRILA DERZHAVIN, CITADO EM THE ROMANOVS





PERSONAGENS PRINCIPAIS


Imperatriz Catarina II, anteriormente grã-duquesa Catarina Alekseyevna, de solteira: Sophie Friederike August de Anhalt-Zerbst

Pai: Christian August de Anhalt-Zerbst

Mãe: Johanna de Holstein-Gottorp





A SUA FAMÍLIA


Imperador Pedro III, marido de Catarina, anteriormente grão-duque Pedro Fyodorovitch, pelo nascimento Karl Peter Ulrich, duque de Holstein-Gottorp

Imperatriz Isabel, tia de Pedro III e filha de Pedro, o Grande

Filhos

Grão-duque Paulo Petrovitch (casado com a grã-duquesa Maria Fyodorovna)

Grã-duquesa Ana Petrovna (filha de Stanislav Poniatowski)

Conde Alexei Bobrinsky (filho natural de Grigory Orlov)

Netos

Grão-duque Alexandre Pavlovitch (casado com a grã-duquesa Isabel Alexeyevna)

Grã; o-duque Constantino Pavlovitch (casado com a grã-duquesa Ana Fyodorovna)

Grã-duquesa Alexandrina Pavlovna (que ficaria noiva de Gustavo Adolfo da Suécia)

Grã-duquesa Helena Pavlovna

Grã-duquesa Maria Pavlovna

Grã-duquesa Olga Pavlovna

Grão-duque Nicolau Pavlovitch





AMANTES / FAVORITOS


Sergei Saltykov

Stanislav Poniatowski, mais tarde rei da Polónia

Grigory Orlov

Alexandre Vasilchikof

Grigory Potemkin (Grisha, Grishenka)

Alexandre Lanskoy (Sashenka)

Alexandre Matveyevitch Mamonov (Senhor Casaca Vermelha)

Platon Alexandrovitch Zubov (Le Noiraud)





ZELADORES / CONFIDENTES


Varvara Nikolayevna Malikina, criada e confidente; Darya (também Darenka), sua filha

Vishka (Maria Savishina Perekusikhina), confidente de Catarina

Queenie (Anna Stepanova Protasova), confidente de Catarina

Zakhar Ivanovitch Zotov, criado particular

Doutor Rogerson, médico da corte





CORTESÃOS


Conde Alexei Orlov

Conde Nikita Ivanovitch Panin

Príncipe Lev Naryshkin

Conde Alexandre Andreyevitch Bezborodko, primeiro, seu secretário; mais tarde, ministro

Adriano Moseyevitch Gribovsky, último secretário de Catarina

Conde Morkov

Príncipe Adam Czartoryski, nobre polaco, melhor amigo de Alexandre Pavlovitch

Valerian Zubov, soldado/cortesão, irmão do último favorito

Conde Coblenzl, embaixador da Áustria

Príncipe Repnin, antigo embaixador da Rússia na Polónia, governador-geral das recém-adquiridas Províncias Orientais, depois da última Partilha da Polónia, pai natural de Adam Czartoryski

Alexandra Branicka (Sashenka), sobrinha de Potemkin

Princesa Catarina (Katya) Dashkova, amiga de Catarina





ADVERSÁRIOS POLÍTICOS


Emelyan Pugatchev, líder da revolta dos servos e dos cossacos de 1773-75

Tadeusz Kościuszko, líder da revolta polaca de 1794





Ela enverga um vestido de brocado entretecido de fios de prata. Um manto dourado guarnecido a arminho e borlas de prata cobre-lhe os pés. Os seus olhos estão fechados, as faces, cobertas de rouge, os lábios, ligeiramente entreabertos.

Na Grande Galeria do Palácio de Inverno, iluminada por filas de grossas velas de cera, o féretro imperial foi colocado em cima de um estrado, sob um baldaquino do qual pendem colgaduras de veludo. Os membros da corte imperial reprimem os soluços. Súbditos devastados pela dor formam uma fila para beijar a mão da falecida soberana. Os guardas imperiais mantêm-se em sentido. O coro entoa Memória Eterna. Nas suas vestes negras bordadas a prata, os padres salmodiam as orações pelos mortos. O ar está abafado devido às nuvens de incenso adocicado.

Em frente do Palácio de Inverno, ao longo do Cais, nas ruas e nas pontes juntaram-se multidões. É a hora dos lamentos, quando a alma dos que acabam de partir ainda ali permanece, à espera de que lhe sejam perdoados os pecados, a reunir forças para a passagem para o outro mundo. Os velhos costumes russos exigem determinados alimentos e os vendedores ambulantes apressam-se a fornecer panquecas, empadas de peixe e kissiel, feitos com farinha de aveia. Para fortalecer o espírito, vendem-se, a copo, doses de vodca.

Mas há algo que se sobrepõe aos soluços e aos cânticos fúnebres. O corpo da amada czarina da Rússia, Catarina, imperatriz de Todas as Rússias, está em câmara ardente, e nenhum cortesão ou ministro ou alto representante do clero faz um discurso laudatório, ninguém louva os longos anos de prosperidade e as gloriosas conquistas do seu extraordinário reinado. Também os poetas guardam silêncio. Não se ouvem odes, baladas ou hinos que cantem o desespero dos súbditos, agora órfãos, de Catarina.

No mosteiro de Nevsky, onde está reunida toda a Família Imperial, Sua Majestade Imperial o czar Paulo I, herdeiro legítimo do sangue dos Romanov, ordena aos monges para irem buscar o caixão de seu pai à sepultura anónima onde se encontra. Os dois soberanos russos farão, juntos, a sua última viagem terrena.

Há que pagar as velhas dívidas, punir os velhos pecados.

Trinta e quatro anos gloriosos do reinado de Catarina foram apagados com um aceno da mão de seu filho. Como pode a mente compreender que chegou momento como aquele?





PARTE I



5 de novembro de 1796





09h00


A dor é aguda, lancinante, como um punhal ardente que lhe foi espetado no crânio, algures atrás do olho direito. Atinge-a precisamente quando está a tirar a sua pena de dentro de um tinteiro. A sua mão imobiliza-se. A pena cai, manchando a carta que ia assinar nesse momento.

O relógio que está em cima da cornija da lareira começa a dar as horas. Lembra-se de, quando era criança, se assustar ao ver os ponteiros do relógio andarem para trás, pois acreditava que o próprio tempo voltaria atrás, obrigando-a a passar por tudo o que já vivera e privando-a da aventura do futuro.

A dor não para nem abranda. Já são nove horas e ainda não leu tudo o que devia ler antes de o seu secretário chegar. Pondera chamar Zotov, o seu criado particular, mas põe rapidamente a ideia de lado. A dor de cabeça desaparecerá naturalmente, mas assim que o seu velho criado começar a ficar preocupado, não conseguirá que ele se retire.

Pani, a sua galga italiana, fareja a mão da dona, profundamente concentrada, ao mesmo tempo que lambe a palma. A cadela é magra e de ossos finos, descendente direta da sua querida Zemira, que está enterrada nos jardins de Tsarskoye Selo.

«Não tenho aqui nada para ti», murmura ela. Tenta afagar a cabeça de Pani, mas a sua mão direita está estranhamente rígida, perra e pesada, pelo que se resigna a fazer-lhe uma carícia desajeitada. Entretanto, apercebe-se da presença de espessas gotas de pus nos olhos da cadela. Tal como Zemira, Pani tem tendência para infeções prolongadas.

No exterior do seu gabinete de trabalho, o barulho de passos e vozes abafadas dissolve-se num silêncio furtivo: a imperatriz está a trabalhar. Não se deve importunar a imperatriz.

Levanta-se. Com a mão esquerda, agarra-se desajeitadamente à borda da secretária, fazendo voar os papéis. Que estranho, pensa ela, enquanto observa as folhas de papel velino deslizarem em correntes invisíveis, pairarem, quais aves de rapina silenciosas. Pani observa-as também, com a cabeça de lado e a cauda a abanar e a bater no chão.

Entretanto, a chávena de café que está em cima da secretária deve ter esfriado, mas deve fazer-lhe bem beber alguma coisa. Como a mão direita continua pesada e rígida, pega na chávena com a esquerda. O primeiro gole amargo sabe-lhe bem, mas ao segundo engasga-se.

Cospe o café. Para cima da madeira embutida, dos seus papéis. Devia limpar imediatamente os borrifos castanhos, aguados, mas em vez disso deixa a sua língua explorar o interior da boca, o palato estriado. Parece miolos de vitela, pensa, o prato favorito de sua mãe.

Tenta pousar de novo a chávena na secretária, mas a mão recusa-se a obedecer e a chávena estilhaça-se no chão.

Será que a dor de cabeça lhe passa, se andar um pouco?

O primeiro passo é hesitante, inseguro, fazendo-a agarrar-se a tudo o que está ao seu alcance. Ao canto da sua secretária, à cadeira.

Atrás dela, há algo, grande e pesado, que cai.

O joelho direito ainda lhe dói. Ficou assim desde aquela terrível queda, há três anos, quando rolou pelas escadas abaixo, a caminho da banya1. Zotov ouvira o barulho e apressara-se a ir ter com ela. Obrigou-a a sentar-se num degrau de mármore, durante algum tempo. Só quando lhe garantiu que as tonturas tinham passado é que ele a ajudou a levantar-se, lentamente. Então, julgou que não se magoara a sério, apesar da contusão e do susto, mas o joelho não deixava que se esquecesse da queda.

09h01

Cada passo, apesar de trémulo, é uma maravilha. A contração e distensão dos músculos. Os pés a arrastarem-se mas avançando, um a seguir ao outro. Como a boneca mecânica com que as suas netas gostavam de brincar até que o seu neto Constantino a cortara e abrira ao meio, para ver o que estava escondido lá dentro.

Os passos levam-na para fora do seu gabinete de trabalho, mais além da pequena alcova onde as peliças estão penduradas ao lado do espelho com moldura de prata, em direção à porta que conduz à sua casa de banho.

O espelho da alcova reflete o seu corpo, como se fosse água trémula: dividido em partes irregulares, que não se ajustam umas às outras, rugosas e deformadas. O aspeto do seu rosto não é melhor: a carne descaída, o pescoço que faz lembrar a garganta de um peru. Os seus olhos estão raiados de sangue, lacrimejantes, e piscam. Nunca fui bela, pensa. Mas que tinha Helena de Troia para mostrar quanto à sua aparência? Os estragos da guerra e a perseguição de homens que ela não escolhera?

A latrina cheira levemente a pele de animal molhada e a raízes a apodrecer. A porta fecha-se atrás dela com um estrondo. O ranger das dobradiças é estranhamente agudo, rodeando-a como o som de um diapasão. Como se o tempo desse voltas sucessivas, recusando-se a desenredar-se.

Os dedos dela, agarrados à borda da retrete, assemelham-se a garras de um pássaro antigo, que ainda não estivesse habituado a tais proezas de agilidade. E, no entanto, não se soltam, mantêm-na em equilíbrio. Como é magnífico este esforço de músculos e ossos, de tendões e sangue, pensa.

Lentamente, leva as pontas dos dedos às narinas e inspira o aroma doce e forte da tinta. No ar flutua algo vindo do passado – imagens de uma corrida, ondas com espuma a baterem na praia e a espalharem-se sobre a areia dourada. As gaivotas gritam de inveja ou avidez. Na água pouco profunda, vê-se uma cabeça de cavalo que ficou presa numa rede de pesca esfarrapada e tufos de algas, e mostra os dentes. Um grande número de enguias saem, contorcendo-se, das órbitas dos seus olhos e deslizam para o interior das suas mandíbulas abertas.

É uma recordação, não um sonho, pensa ela.

09h04

A dor de cabeça continua a martelar as suas têmporas, vozes balbuciam algo dentro dela. Na sua mente ressoam frases: Sou Minerva. Estou armada.

Está a acontecer algo de estranho.

Um pensamento não é apenas um pensamento. Uma palavra não é uma mera palavra.

Pensa numa maçã e aparece uma maçã. É ligeiramente escorregadia, quando se toca nela. É redonda e a casca está tostada pelo sol e apresenta uma mancha verde à volta do pedúnculo. A pele está salpicada de pintas mais escuras.

Olha fixamente para ela, antes de enterrar, com força, os dentes na pele. A maçã partiu-se com um estalido, depois desfez-se, enchendo-lhe a boca de sumo.

A alegria que ela sente é antiga, a alegria de cortar um tecido vivo, a vida a alimentar a vida.

Por que razão estou a pensar numa maçã?

Não há maçã nenhuma. A sua mão está vazia. A palavra maçã que matraca a sua mente significa tentação.

Seria nisso que deveria estar a pensar?

A pergunta intriga-a por momentos, até que sentiu de novo uma dor atroz no lado direito do crânio e um clarão lhe feriu os olhos.

09h05

No vestíbulo, os criados conversam.

– Tens a certeza de que Sua Majestade ainda não me chamou? – pergunta Gribovsky.

O secretário fala numa voz ansiosa, reveladora da sua inquietação.

– Tenho a certeza absoluta, Adriano Moseyevitch.

– Mas já é muito mais tarde do que habitualmente.

– Sua Majestade tem as suas razões.


Está a acontecer-lhe algo, mas tem pouco tempo para pensar no que poderá ser. Cada movimento exige dela a máxima atenção, é preciso calcular ângulos e ajustar-se a eles, é preciso fletir e distender os músculos. Cada vez que inspira e expira ouve o ar passar pelas narinas.

O seu coração, o tambor que a traiu, bate ao seu próprio ritmo. Ou será que se parece a um cortesão encarregado de a avisar de uma calamidade que se avizinha? Um incêndio? Uma cheia? A multidão armada de foices que marcha em direção às portas do palácio?

Os seus lábios estão secos. Como o jarro de porcelana azul da latrina é demasiado pesado para o levantar, mergulha nele os seus dedos e chupa as gotas que ficam agarradas a eles. A água está podre. Devia tocar a campainha para chamar Queenie, que está lá fora, com os outros.

Por que motivo não há uma campainha na retrete?

A dor de cabeça abrandou, mas tem a sensação de que o interior do seu crânio está frágil e exposto, como se um machado o tivesse aberto ao meio. Foi assim que Júpiter se sentiu ao dar à luz Minerva?


– Que horas são?

– Ainda é cedo, Adrian Moseyevitch – responde alguém, secamente. Uma mulher ri. Abre-se uma porta, para em seguida se fechar. Os passos tornam-se cada vez mais leves. Um cão ladra. Algo bate no vidro da janela; ouve-se um estrondo seguido de um ruído seco.

– Sabeis quem ele é. O pai dele tinha uma livraria perto da Nevsky Prospekt, na margem do Fontanka. Depois, foi inundada.

– Que estais para aí a escrevinhar, Adrian Moseyevitch? Tomai um chá quente. Está uma manhã fria.

– O cão ainda não apareceu. Achais que alguém o roubou?

– Um ladrão já o teria devolvido, para receber a recompensa.

– A esta hora, o pobre animal deve estar morto.


As vozes vindas do exterior da latrina flutuam no ar, ora aproximando-se ora afastando-se; os sussurros esvaem-se. Os ruídos aceleram como carroças de madeira na montanha gelada, imediatamente antes de ganharem velocidade e se tornarem imparáveis.

09h09

Na latrina, ela consegue levantar o seu saiote e sentar-se na cadeira com penico. Como se fosse uma grande galinha a instalar-se num ninho. A cadeira está fria e pegajosa e começa a ranger, devido ao seu peso.

As vozes no vestíbulo prosseguem em espiral, interrompidas por momentos de silêncio tranquilizador. O mundo à volta dela abranda. A dor continua a existir, mas também ela parece distante, mais fácil de suportar. O tempo corre lentamente. Não há necessidade de se apressar.

Na sua barriga, os músculos distendem-se, permitindo a expulsão de urina quente. Durante uns momentos, a única coisa que quer é estar sentada e sentir o profundo prazer que esse alívio produz. Mergulhar no silêncio. Limitar-se a ser.

Esse silêncio traz outra recordação. Um macaco, Plaisir, que lhe foi oferecido pelo embaixador de França. Não passava de um bebé quando chegou, vestindo uma jaqueta vermelha, calções e chapéu de penas. As suas minúsculas patas agarraram-se ao dedo dela e enterrou a sua face rosada nas pregas do seu vestido. Tinha uns olhos grandes e suplicantes.

Cebus capucinus. Macaco-preto-de-cara-branca.

Os dois tratadores encarregados de cuidar de Plaisir tinham as mãos e braços, até aos cotovelos, cobertos de cicatrizes de mordidelas e arranhões. Não havia corrente que conseguisse dominar o maroto. Assim que o libertavam, o macaco encontrava sempre o caminho para o gabinete de trabalho dela. Abria todas as gavetas da sua secretária, rasgava papéis, entornava a tinta, roía as penas, urinava na sua cadeira. Enfiava o dedo no ânus e, depois, besuntava as paredes com excrementos. Quando ela lhe gritava, tapava os ouvidos e esboçava um esgar de enorme sofrimento que a fazia rir.

Num dos seus ataques de travessuras, Plaisir partiu um boião de creme facial e comeu o seu conteúdo. Umas horas depois, escondeu-se debaixo de uma cadeira do seu quarto e recusou-se a sair de lá. Não se deixou tentar por nenhuma das guloseimas que lhe foram oferecidas nem sequer pelos seus brinquedos preferidos. «Deixem-no! Quando tiver fome, ele sai», ordenou aos criados. Só que não saiu. Limitou-se a emagrecer e morrer.

09h10

Para uma pessoa se levantar, precisa de manter muitos músculos tensos, muitos ossos elevados. Entretanto, cada batimento cardíaco requer a sua atenção.

A recordação da voz rouca de Platon interrompe a sua concentração. «Por que me magoas, Katinka? És tudo o que tenho. Sem ti, sou apenas pó.»

A voz do seu amante é insistente, suplicante. Vê Platon de pé, ao seu lado, tão devastadoramente belo com o seu fato cor de carvão, com os seus traços puros. Nariz, queixo, lábios. Se ela soubesse desenhar, faria um esboço dele a tinta preta e depois suavizaria as arestas, para lhe dar uma expressão menos dura.

Magoei-te, Platon? Como? E quando?

Eis um problema que ela poderia resolver. Desfazer a intrigante relação causa e efeito, se conseguisse pensar nisso o tempo suficiente. Foi sempre boa a decifrar cifras. Números que se transformam em letras. Palavras que representam outras palavras. Para resolver um enigma, é preciso procurar padrões, o ritmo das repetições.

Mas por que motivo começa Platon a assobiar e, depois, a cantar?

A Rússia chega mais longe e mais alto

Do que os picos das montanhas e os mares.


Como pode resolver um enigma que muda de forma, tremeluz como um pirilampo e, depois, desaparece na escuridão? Como pode resolver um enigma quando a única coisa de que está certa é da dor aguda da voz dele?

09h11

– Passou a noite inteira a chorar… de novo… coitadinha... isto não é o fim do mundo, Sua Majestade disse-lhe tantas vezes… mas os jovens nunca ouvem…

As vozes que se ouvem na antecâmara desviam-se do seu rumo, como cavalos nervosos, decididos a fugir. Por vezes, através das paredes, chegam frases inteiras; outras, ouvem-se apenas palavras.

– Dói mais quando se é novo.

– Que pena!

– Como é que ele pôde…

Devia esforçar-se por ouvir mais, tentar saber de que falam os criados. É útil saber aquilo que não se destina aos vossos ouvidos.

Mas a dor de cabeça não passa. Cada guinada é um golpe que a encerra num nevoeiro ensurdecedor. Vozes, gemidos, um som forte que lembra o toque de um tambor. As palmas das suas mãos estão húmidas de tanto transpirar.

Não é a primeira vez que uma dor de cabeça a atormenta. As explosões de luz ofuscante também não são uma novidade. Não é motivo de surpresa. Tem trabalhado de mais, arduamente. Mas aquilo que parece ter sido acabado num dia, desfaz-se no dia seguinte. Não é de estranhar que sinta um peso cada vez mais forte no peito.

A campanha da Polónia acabou, mas o tratado sobre a partilha da Polónia ainda não foi concluído. Os Prussianos querem conservar Varsóvia, mas não estão dispostos a dar algo valioso em troca. Como sempre, querem que a Rússia lhes tire as castanhas do lume!

As nações são como os comerciantes. Fazem e desfazem alianças de acordo com as regras dos custos e lucros. Um país que não deseje a sua expansão acaba por definhar. A imobilidade é uma ilusão. Os impérios crescem ou têm de enfrentar a derrota. Foi por isso que ela sobrecarregou o seu corpo para além do que a força dele o permitia. Ao serviço do seu império. Os outros monarcas trabalharão tão arduamente como ela? Sem parar?

Precisa de um longo descanso.


A Terra oculta muitos segredos.

É um bom pensamento. Útil e agradável.

Na Sibéria, os servos desenterram ossos gigantescos de que se encontravam a grandes profundidades. «Marfim fossilizado, Majestade», dizem-lhe os estudiosos. «Trazidos para aqui pela corrente de um antigo rio». Mas o marfim não cresce sob a forma de osso. Onde agora há apenas neve devem ter vivido, em tempos, elefantes. Se formos pacientes, são possíveis as mais estranhas transformações.

Lembra-te destas palavras, disse a si própria. Escreve-as assim que te sentares novamente à secretária. Emprega-as quando falares com Alexandrina.


No exterior da latrina, os barulhos ora se intensificam ora abrandam. Ouve-se o barulho de passos. Algo metálico produz um estrondo que vai desaparecendo. As unhas do cão riscam a madeira do soalho. Ouve vozes demasiado altas ou algo que se assemelha a sons cavernosos, vindos do fundo de um poço.

Os seus criados competem uns com os outros. Queenie está a afirmar a sua posição. Vishka opõe-se a ela, lentamente, com cadências medidas e implacáveis. Pouco importam os temas da conversa. Os preços da seda, do sal, dos vinhos da Crimeia. A probabilidade de o Neva gelar em breve. As previsões – mesmo as dos entendidos – quase nunca são corretas. A convicção é apenas um sinal da autoconfiança de quem fala.

Um sinal revelador de arrogância.

09h13

A cadeira com bacio tem um assento de couro suave. Quando ela se mexe, o couro range. Devagar, baixinho. O balançar do corpo alivia. É o que um bebé deve sentir no berço.

Na barriga sente algo latejar, a pressão crescente do sangue. Como se a menstruação tivesse voltado. O que é impossível.

Os clarões acabaram, tendo sido substituídos por formas alongadas que flutuam, à deriva, no seu campo de visão. Brilhando à luz do raio de sol que entra pela pequena janela que se encontra no cimo da parede. Por vezes, são indistintas, outras, transparentes. Afundam-se, quando ela tenta observá-las com mais atenção.

Dentro do seu próprio corpo há estratos de maravilhas inescrutáveis.

Tudo se move, unido num objetivo comum. O coração bomba o sangue. A saliva acumula-se na sua garganta, doce e suave. A sua boca está cheia de algo suave. Parece seda ou gaze. Ou uma bola de lã com que os gatos gostam de brincar. Consegue mesmo ouvir a sua própria respiração. O seu corpo é um universo em si mesmo, um conjunto de padrões que continuam a ser assombrosamente misteriosos.


Lembra-te apenas do que é importante.

Esta recordação é tudo o que tenho, decide. Desde a infância que soube sempre usar aquilo que tenho.


– És feia, Sophie, diz uma voz. O irmão que roubou o lugar que ocupava no coração da mãe está deitado na cama, o seu corpo debilitado formando um ressalto fino debaixo do edredão forrado a seda.

Ela só tem sete anos, as suas mãos e couro cabeludo estão cobertos de escaras, os seus ossos ameaçam ficar deformados. «Uma corcunda» ouve, por vezes, os adultos dizerem. As suas vozes estão envenenadas pela piedade.

O verão acabou e as pequenas manchas vermelhas voltam, transformando-se lentamente em crostas prateadas. Mesmo quando essas crostas caem, as suas faces, o seu couro cabeludo e os seus braços são ásperos e escamosos. Por mais que se esfregue, a situação não melhora. Tem de esperar que chegue o verão; então, longe dos olhares curiosos, atrás de um biombo de seda, sem camisa, para que a pele fique exposta, deita-se numa toalha ao sol. Ao fim de umas semanas, as manchas vermelhas desaparecem e a sua pele volta a ser suave.

– És feia, Sophie.

Os olhos do seu irmão brilham de alegria. Guilherme pensa que a venceu. Este irmão doente e aleijado, o causador dos sussurros de pânico da mãe, o destinatário das suas carícias tranquilizadoras. A insistência da mãe em que nada seja negado a este rapaz tão amado.

– E tu vais morrer, diz Sophie ao irmão. Na sua voz não transparece qualquer hesitação, qualquer dúvida. – Tal como Augusta morreu – acrescenta, antes de ele tapar os ouvidos, referindo-se à irmã que viveu dez dias e cujo minúsculo caixão está coberto por terra ainda mole.

– Mãe! – grita Guilherme. – Sophie está outra vez a assustar-me!

O seu estúpido irmão não luta com ela. Confia no poder da fraqueza e da piedade, esquecendo-se do preço que acabarão por cobrar.

É tolo. Um tagarela. Um fraco.

Do fundo das escadas chega o barulho dos passos apressados da sua mãe.

Sophie consegue desafiar a ira da mãe. Suporta qualquer castigo que ela lhe imponha. Não se importa com isso. «Vais morrer, Guilherme», os seus lábios pronunciam as palavras até que a mão da mãe a esbofeteia com força, até que o seu lábio se rompe e começa a sangrar, deixando-lhe um sabor salgado e doce.


Vim de Zerbst para a Rússia, com a mãe.

Chamava-me Sophie.


Dessa viagem, recorda-se dos vastos campos cobertos de neve que – segundo os Guardas Russos lhe dizem – estarão cobertos de trigo, aveia e cevada, dentro de uns meses. De troços de florestas espessas e escuras, onde as raposas e os visons veem crescer um pelo que depois se transformará nas peles mais suaves. Cidades e aldeias à beira da estrada onde igrejas com cúpulas em forma de bolbo chamam a atenção com as suas cores vivas e o repicar dos sinos. As casas de troncos e portadas também de madeira dos camponeses. A noite chega cedo, engolindo rapidamente aquilo que em Zerbst ainda seria a luz do dia.

Os seus pés incharam devido às longas horas que passou sentada na carruagem e doíam-lhe quando saiu desta e tentou andar. Não muito, mas o suficiente para a sua mãe ordenar a um dos criados russos que levasse a filha para a estalagem quando pararam para ali passar a noite. São visitantes ilustres, anuncia a mãe a mais um encarregado da muda dos cavalos que pode não perceber devidamente a honra concedida à sua taberna cheia de fumo. A princesa de Zerbst faz esta viagem a convite pessoal de Sua Majestade a imperatriz Isabel Petrovna, que, se não tivesse ocorrido uma morte súbita – seria agora sua cunhada.

A declaração frequentemente repetida da mãe suscita vigorosos acenos de cabeça em sinal de concordância por parte da sua criada alemã e outros, delicados, dos criados russos. É difícil decifrar a ideia com que os sucessivos estalajadeiros ficarão. Os russos falam depressa. Mesmo as poucas palavras que aprendeu são incompreensíveis para ela.

É melhor começar do princípio.

Da significa sim.

Nyet significa não.

Mozhet byt significa talvez.


– Sophie é encantadora, não é, Pedro? – pergunta a imperatriz Isabel, quando chegam. A excitação dá às suas faces a cor de alperces maduros. Ou será antes um novo tom de rouge?

Pedro, que é primo em segundo grau de Sophie, o atual príncipe herdeiro da Rússia que precisa de se casar, levanta a cabeça. Os seus olhos – ligeiramente protuberantes – fixam-se nela, depois, na tia, e de novo, nela.

Aqui, em Moscovo, Pedro parece mais magro do que era quando estava em sua casa em Eutin, onde Sophie o viu pela primeira vez. Um homem faminto, como se um herdeiro ao trono pudesse não ter suficiente que comer.

O frio da longa viagem de inverno ainda persiste nos seus ossos. Jardins de gelo que florescem nas janelas da carruagem. O frio glacial das estalagens a cheirar a mofo, situadas à beira da estrada. A nuvem indistinta criada pela sua própria respiração. Os vastos campos gelados, as espessas florestas cobertas de neve. O medo, constante e obstinado, de que se – por qualquer percalço – a carruagem que se dirigia à Rússia a toda a velocidade parasse, o frio intenso penetraria lá dentro e a mataria.

E que vê Pedro quando olha para ela? A sua tez muito clara? Os dentes fortes? Os seios a despontar, elevados por um corpete justo? Os olhos cor de avelã, com manchas azuis? Para onde voam os seus pensamentos? Para Eutin, onde ela lhe assegurou que ele era tão inteligente? Onde ele lhe segredou ao ouvido: «Se fizerem de mim rei da Suécia, fujo com os ciganos e nunca me encontrarão.»

– Gostais da princesa Sophie, Pedro?

À sua volta – neste palácio tentacular de Moscovo, com soalhos que rangem e antessalas vazias – todos contêm a respiração. Ela, uma mera princesa de Anhalt-Zerbst, repara na curva da garganta magra do seu primo e num franzir das suas sobrancelhas.

Após um longo momento de espera, Pedro acena com a cabeça.

É um ligeiro aceno e não parece ser importante, mas detrás dele há um mundo inteiro. Um mundo de possibilidades. De não ser enviada de volta para Zerbst, de não ter de ocultar os seus pensamentos atrás de sorrisos dóceis. Um mundo de passos largos e audaciosos. De horizontes vastos. De primavera que vai derreter a neve.

Um mundo por que ela anseia tanto que a sua mão prende com firmeza as pregas da sua saia. Um mundo que a faz pensar num garanhão que dança antes de uma corrida, de cauda levantada, músculos tensos que estremecem debaixo da sua pele. Apenas à espera do sinal de partida para arrancar a toda a velocidade e afastar todos do seu caminho.

Os cortesãos esticam o pescoço. Atrás dela, a mãe não consegue ocultar que respira com dificuldade.


Mantém os olhos baixos, Sophie!

Não estragues tudo! Muito menos agora que estás tão perto!


A imperatriz da Rússia levanta-se do trono. O resplandecente vestido de Isabel deve ser pesado e rígido, mas ela anda como se fosse uma bailarina, de cabeça erguida, coluna direita, com passos curtos e graciosos. A seda escarlate entretecida a ouro exibe complicadas flores a desabrochar. O seu manto é debruado a arminho. Ao pescoço usa um colar de três voltas de pérolas negras. «Vistoso… ostentatório… tão russo» tornaram-se as palavras preferidas de sua mãe.

Os braços imperiais, moles mas fortes, cercam «os filhos amados da lua», apertam-nos contra o peito palpitante. O abraço cativante é apertado. «Minha Sophie. Nunca me desiludirás.»

A sua testa é apertada contra algo pontiagudo e duro, que lhe deixará uma marca na pele. Sophie inspira os aromas: essência de rosas, amêndoa amarga e o cheiro ácido e intenso do suor.


– Tira esse sorriso estúpido da cara, Sophie. Ainda não casaste com ele.

Os lábios da mãe curvam-se para esboçar um sorriso forçado, ao mesmo tempo que lambe o dedo e alisa as sobrancelhas da filha. Ou mete uma madeixa de cabelo debaixo da sua nova touca de veludo.

– Escuta, rapariga!

Sophie está imóvel. Ouve-a perfeitamente. O seu olhar não se detém em ninguém, especialmente na imperatriz da Rússia, que acaba de anunciar a toda a corte que esta amostra de princesa vinda da Prússia em breve fará de Pedro um homem como deve ser.

Quanto a Sophie, certifica-se de que caminha um passo atrás da mãe e de que nunca fala antes dela. Acima de tudo, ouve. Quando lhe fazem uma pergunta, a resposta é sempre curta. «Gosto do que vi da Rússia… não, nunca vira assim tanta neve… sim, a imperatriz é muito boa e generosa… o príncipe herdeiro é muito bem-parecido.»

A sua voz é aveludada e suave. Mantém os olhos baixos, postos nas bainhas puídas dos vestidos e nos sapatos gastos. Mas, por mais fugaz, por mais vaga, que seja, uma promessa imperial não pode ser apagada. É uma sabedoria antiga. Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio.

Aqui, em Moscovo, as casas são, na sua maioria, de madeira. As ruas serpenteiam, terminam em vielas muito estreitas. Os trenós são obrigados a fazer longos desvios para chegarem ao seu destino. Em frente dos talhos, a neve está manchada de vermelho, salpicada de sangue fresco. Ao pé de uma fábrica de curtumes, o ar tem um cheiro tão acre que a faz engasgar-se.

Em Sampetersburgo, que viu apenas brevemente a caminho de Moscovo, as fachadas dos palácios eram de pedra. As ruas eram largas e direitas. Sobre o rio gelado erguia-se uma montanha de gelo gigantesca. Carroças pintadas desciam a encosta escarpada, mais velozmente do que um cavalo a galope, mais velozmente do que as rajadas de vento norte. «É demasiado perigoso, Sophie. Não permitirei que o faças», dissera a mãe.

Mas a mãe não podia impedi-la de ver os elefantes. As pregas da sua pele cinzenta, as trombas que se enrolavam, os sabres amarelos das suas presas. As orelhas, que pareciam velas enormes, estavam dobradas sobre as suas cabeças em forma de cúpula.

Nessa tarde escura iluminada pelas tochas acesas e barris de alcatrão a arder, aqueles gigantes cinzentos e bamboleantes, assentavam as patas traseiras no chão e erguiam as dianteiras no ar. Jogavam à bola, atiravam argolas para o ar e apanhavam-nas antes de caírem.

Ela rira e batera tanto palmas que as mãos lhe ficaram a doer. A seu lado, o príncipe Naryshkin, o seu anfitrião nessa noite, avisava-a sussurrando:

Um elefante pode vencer um urso enfurecido, dobrar as barras de uma jaula de ferro.

Tende cuidado com o animal selvagem, Sophie.

Mas não deixeis de olhar!

Ouvira-se a trombeta, os elefantes formaram uma fila, ajoelharam as patas dianteiras e inclinaram as suas enormes cabeças. Em frente dela, da princesa de Zerbst.

É a esta recordação que se agarra ao fim de cada dia passado em Moscovo, aninhada na cama, com a cabeça enterrada numa almofada macia de pele. Fá-la esquecer que a necessidade traz consigo humilhação. Os presentes trazidos de Zerbst são demasiado insignificantes para impressionar sequer os criados do palácio. Os sorrisos e as palavras amáveis não vão longe.

– Temos de manter as cabeças bem erguidas, Sophie –ralhou a mãe. – A nossa linhagem é muito mais antiga. A mãe faz como de costume, consulta uma árvore genealógica, que fixou. As relações familiares são cordas fortes ao longo de uma frágil ponte de prestígio. Tias, primos, irmãos, mulheres, maridos. Príncipe de Brunswick. Príncipe-bispo de Lubeque. O bom sangue tem muitos afluentes.

Em Zerbst, gaba-se a mãe, não faltam bailes esplendorosos e desfiles militares. Uma instável ponte levadiça adquire o esplendor de uma estrada. Uma estátua que parece uma campânula de uma manteigueira torna-se um monumento de que se fala até em Berlim.

A mãe não ouve os risos à socapa que a sua gabarolice provoca. São murmúrios que acabam, assim que ela se aproxima. Os olhares que lhe recordam quão incerto é o seu futuro.

E Pedro?

Todas as manhãs, Pedro vai aos seus aposentos anunciar-lhe os planos para esse dia. Planos que não fazem qualquer referência ao mundo exterior ao palácio.

– Vede os meus desenhos Sophie – diz. – Estes são os uniformes que quero que os meus soldados enverguem.

Os olhos azuis de Pedro brilham, quando fala de Berlim ou de Holstein. Mas o brilho apaga-se, quando ela lhe faz alguma pergunta sobre a Rússia. Se ela insiste, pergunta-lhe, num tom impaciente ou irado, por que razão havia Sophie de Anhalt-Zerbst querer saber o que faz um chanceler russo? Ou por que dormem as criadas nos aposentos da imperatriz?

– Mas sereis czar um dia, Pedro. Não quereis saber?

– Não serei czar durante muito tempo – responde ele. Podia ser uma resposta sensata, mas não é. Porque Sophie sabe que não se trata do desejo de um príncipe que quer que a sua tia, a imperatriz, governe durante todo o tempo que puder, mas sim de um desejo de escapar ao seu destino.

O passado, que não pode ser alterado, está distante. O futuro, que, esse sim, pode ser mudado, é incerto. Porque, agora, ambos têm de ser empurrados para um canto recôndito do seu coração.

O presente é um enigma que ela precisa de decifrar.


S volkami shit’, po-volch’i vyt’. Se queres viver como os lobos, uiva como eles.


O russo não é fácil de pronunciar por lábios de uma jovem de catorze anos, com hábitos há muito adquiridos. «Repeti, Alteza. De uma forma mais suave. Os russos não gostam de estrangeiros!»

Monsieur Abadurov é seu tutor e é a ele que compete ensinar-lhe que as palavras adquirem terminações diferentes consoante a sua posição numa frase: «Bolshoy chleb», diz ele, «mas chleba net».

Em russo, os nomes transformam-se noutros nomes. Alexandre torna-se Sasha. Mas Alexandrina também pode converter-se em Sasha, pelo que, exclusivamente com base no nome, não se pode dizer se se trata de uma rapariga ou de um rapaz. Sasha pode também passar a Sashenka. Tal como Grigory se torna Grisha ou Grishenka ou Grishenok.

É complicado, não é verdade? É, mas suficientemente fácil para aprender de cor. É mais difícil perceber o significado dos contos russos. Numa história alemã, um homem é louco quando desata aos gritos, de medo, ao ver um martelo pendurado na parede, porque, um dia, pode cair e matar uma criança que se encontre abaixo dele. Nos skazkas russos, um tolo compreende a linguagem dos pássaros e dos animais de quatro patas. Pode ser lento e estar coberto de fuligem mas é ele que casa com a filha do czar e se torna o governante mais sábio.

* * *

S kem povedyoshsya, ot togo i naberyoshsya. Tornas-te como aqueles com quem passas o teu tempo.


Ao perto, a pele da imperatriz Isabel parece uma pintura fresca. Um pó de arroz compacto disfarça o vermelho do seu nariz, os arranhões do pescoço, as manchas lívidas das nódoas negras. Debaixo dos braços, acumulam-se círculos húmidos e escuros, mas o perfume é mais forte do que o suor. A beleza consiste em camadas, cada uma das quais protege um segredo da noite. Nos corredores do palácio, homens jovens e bem-parecidos comem a imperatriz com os seus olhos famintos, quando ela passa por eles. Se deixa cair um leque, uma pena, uma fita do cabelo, brigam para os apanhar como se fossem cães selvagens.

– Não me desgostes, Sophie, e Nossa Senhora de Kazan proteger-te-á.

Para Isabel, o silêncio lúgubre e carregado de incenso da capela é o único lugar onde os pensamentos de morte e eternidade levam a melhor sobre os prazeres terrenos. Aí, sob os olhares melancólicos dos santos dos ícones, a imperatriz fala de misericórdia e ajusta as suas contas com Deus.

Também isto é a Rússia. Envolvida no aroma doce do incenso. Iluminada pelas velas votivas que iluminam os rostos compridos e magros dos santos. Perdida na contemplação desse outro mundo, o verdadeiro. A Rússia duvida do conhecimento. Desconfia da razão, porque todo o mal provém das opiniões. Adere ao sofrimento e aceita a vontade de Deus. A Rússia é como uma cifra, em constante alteração. Quando se decifra um padrão, ele é substituído por outro.


Os cães de caça de Pedro estão deitados junto da lareira, ofegantes. Um deles cheira os seus testículos. O outro emite uma rosnadela, mas abana a cauda, o que quer dizer que a rosnadela não é uma ameaça.

– Por que vos benzeis como eles, Sophie? – pergunta Pedro quando ela se inclina diante dos ícones que se encontram no quarto dele e se persigna à maneira dos ortodoxos, primeiro, o ombro direito, com três dedos unidos. – Ninguém vos vê neste, momento!

Ela foi até ao quarto dele, para jogarem xadrez, um jogo cheio de perigos. Os seus sapatos de seda magoam-lhe os dedos, pelo que os descalçou e os atirou para longe com um pontapé.

– Porque é que não conseguis ser mais parecida com a vossa mãe, Sophie? – pergunta Pedro, ao mesmo tempo que faz os seus peões avançarem três casas, esperando que ela não repare. Os dedos dele são compridos e ligeiramente arqueados e as sobrancelhas, quase brancas. – A vossa mãe é menos teimosa do que vós!

O uniforme de Pedro, o do regimento dos Preobrazhensky que a mãe lhe ordena que vista, está desabotoado e tem nódoas nos punhos. «Fala com ele sobre Holstein, Sophie, se é isso que quer», insiste a mãe. «Não queres que te mandem de volta para Zerbst!»

Um jogo de xadrez é um jogo de opções. Sacrificar um peão para apanhar um cavaleiro. Há que avaliar cada posição, prever as jogadas seguintes, prestar atenção às incongruências. Ou deixar o que o vosso adversário faça batota e pense que é invencível.


Se agradar a Pedro, desagradarei à imperatriz.

Se agradar à imperatriz, desagradarei a Pedro.


Pedro não tarda a cansar-se de jogar.

– Olhai, Sophie – diz ele –, vede o que tenho aqui.

Um lenço de seda preto cobre uma coisa que está em cima da mesa. Nenhuma outra mulher viu o que está prestes a revelar-lhe. É um segredo com cem anos. Foi-lhe enviado de Eutin.

Pedro diz qualquer coisa entre dentes, mas ela não consegue perceber. «Kaspar – o carrasco… com as suas próprias mãos… à meia-noite… quando é lua nova…» Depois, num tom afetado, pergunta-se se deveria ponderar sequer a possibilidade de revelar o seu segredo a uma simples mulher.

Sophie espera pacientemente. Pedro é um fala-barato. Não sabe guardar um segredo.

Pedro levanta a seda preta, deixando ver tiras de papel cobertas de escrita gótica.

– Passauer kunst – diz em alemão, radiante e orgulhoso. A Arte de Passau.

Ela estende a mão para tocar na tira mais próxima.

– Não – grita ele, batendo-lhe nos dedos.

Ela esconde a sua irritação e transforma-a numa pergunta:

– Que é isso, Pedro?

– Há magia neles – responde, enquanto os seus dedos compridos ficam suspensos no ar, sobre as tiras de papel. – Quem os tiver consigo, tornar-se-á invencível.

Ela não se ri. Não troça da exultação que a voz dele denota.

– Foram feitos para vós? – pergunta.

Em vez de responder, ele aponta para um pedaço de papel.

– Este está à minha espera há mais de cem anos.

– Como sabeis isso?

– Sei.

Não tem uma resposta para lhe dar, pelo que se esquiva à pergunta que ela fez. Se ela insistir, ficará cada vez mais zangado, invocará uma revelação divina, que só os iniciados conhecem. Isso não deveria surpreendê-la. As pessoas fazem as coisas mais estranhas para garantir o poder. As criadas cospem por cima dos ombros quando veem um gato preto. Ela ouviu dizer que, no mercado dos tártaros, uma mulher comeu uma vela com uma imagem sagrada derretida dentro dela. Uma das próprias criadas da imperatriz escondeu um embrulho com ossos e cabelo debaixo da cama da sua Senhora.

– Que ireis fazer com eles, Pedro? – Opta por perguntar.

Surpreendentemente, desta vez ele responde. Irá mastigar e engolir alguns, diz-lhe ele. Outros trá-los-á no corpo, atados a ele por uma tira de linho fino, junto da pele.

– Ireis dizer-me o que está escrito neles?

– Não! – Uma explosão de terror abala a sua voz e tapa novamente os papéis com o lenço. Como se ela pudesse destruir a magia dele pelo mero facto de olhar para eles.


Boltun – nakhodja dlya shpionna. Um fala-barato é um tesouro para um espião.


A Rússia não só adota um calendário diferente como tem os seus próprios dias santos e os seus próprios deveres sagrados.

– Os convidados luteranos não têm de seguir os nossos costumes – anuncia o professor particular dela.

– Mas pode ser-lhes dito qual o significado desses costumes – diz Sophie.

A imperatriz Isabel partiu para Troitse-Sergievra Lavra, o mosteiro onde São Sérgio teve muitas visões. Numa delas, um enorme bando de pássaros voou até junto dele. Foi um sinal de que o santo teria muitos seguidores.

– Como é que ele soube que era um sinal?

– Ouviu a voz de Deus e, depois, tornou-se um grande mestre.

– Que ensinava São Sérgio?

– Que nem o Filho do Homem veio à terra para ser servido, mas para servir.

Ela reflete sobre a história do sábio monge que insistia na importância da simplicidade e do espírito de servir. Uma vida passada a trabalhar e a rezar, comendo e vestindo-se com simplicidade. Longe das tentações da corte.

Também isto é a Rússia.

«A terra mais piedosa do mundo», assegura-lhe o seu professor particular. O cristianismo ortodoxo é mais fiel aos ensinamentos de Cristo do que o catolicismo romano ou o credo luterano. Porque não foi contaminado pelo orgulho mundano. Porque não peca por presunção. Até os czares aprenderam que alterar as práticas da Igreja atrairá a ira divina.

Ela não diz ao seu professor particular que o seu pai teria discordado do que ele acaba de dizer. Em vez disso, pergunta:

– Por que razão vai a imperatriz a pé até ao mosteiro? Porque não pode ir na sua carruagem?

– Porque as privações a que o corpo é sujeito fazem parte do arrependimento.

– Arrependimento de quê?

– Isso, Alteza, é algo que não posso dizer-vos. Cada um de nós peca à sua própria maneira.


A mãe já não se mostra tão reservada. Agora que a imperatriz está longe, irradia confiança. A sua voz ouve-se através das paredes finas dos seus quartos. «Com os seus joelhos gordos por terra… suplica à virgem que lhe perdoe, cada vez que leva um guarda para a sua cama.»

Privações? Jejuns? Ah!

A imperatriz da Rússia é insaciável. Isabel adora uma alimentação pesada e condimentada, bebidas fortes e as carícias de homens. Carícias sobre as quais uma rapariga como Sophie nada deveria saber.

Agora que a imperatriz partiu para a sua peregrinação, a mãe deita-se com o cavaleiro Betskoy.

Riem. Falam baixinho. Riem de novo.

O pai dela não está ali para os impedir.

As criadas fazem gestos com as mãos, a imitar um par de chifres na cabeça de um homem. Piscam o olho umas às outra quando trazem bacias de água dos aposentos da mãe.

Tal mãe, tal filha, ouve Sophie. A maçã não cai longe da árvore.

Por baixo de uma tapeçaria na qual se vê um veado trespassado por uma flecha, há uma porta secreta. Está fechada à chave e, através da fechadura, só se vê uma escuridão densa e cerrada. Em cima do toucado, boiões de creme vão mudando de lugar. Nas suas gavetas, mesmo nas que estão fechadas à chave, os papéis foram remexidos. Alguém deve ter aberto a caixa dos seus sinais, porque um deles está caído no chão. Alguém remexeu na sua roupa interior, folheou os seus livros.

Os espiões andam a vigiá-la. Que procuram? Um erro? Ou apenas uma prova da sua determinação de ser digna?


Bez kota mysham razdol’ye, escreve o seu professor particular russo em letras bem desenhadas que ela terá de copiar. Patrão fora, dia santo na loja.


Desde que a imperatriz partiu, os corredores do palácio estão vazios. Os criados sussurram e riem. Os guardas bocejam. Os moços de recados não param quietos, quando os chamam, esquecendo-se daquilo que tinham sido encarregados de ir buscar.

Pedro deixou de falar russo. «Mandai o vosso professor particular para o inferno, Sophie», diz-lhe. A secretária dele continua coberta de papéis, mas já não têm que ver com a arte de Passau. Pedro tem um novo projeto. Quer reunir as máximas de todas as cartas que receber do rei Frederico da Prússia: Um general nunca deve travar uma batalha se não tiver uma vantagem sobre o inimigo. Por vezes, é necessário bater em retirada.

– Copiai-as para mim, Sophie – ordena Pedro. – A vossa mãe diz que tendes uma linda letra.


Gde tonko – tam i rvyotsya. Vai morder onde for mais fino.

* * *

– Por favor, mãe – suplica ela.

Mas a mãe fita-a com os olhos calculadores de uma rival.

– Que queres de mim agora, Sophie? – pergunta.

– Manda o cavaleiro Betskoy embora. As pessoas falam.

– As pessoas falam sempre, Sophie.

Os olhos da mãe dizem mais do que isso. Que a sua filha não sabe nada acerca das suas desilusões. Não sabe que a felicidade de uma mulher tem de ser arrancada, enquanto isso ainda é possível. Que até um homem bom e sério pode deixar uma mulher vazia e carente.

– E se eles contarem à imperatriz?

A mãe levanta a mão antes de Sophie poder desviar-se. A bofetada virou a sua cabeça.

– Estou aqui por tua causa, Sophie! Fui obrigada a sair de minha casa por ti! É assim que me pagas?

A face arde e incha, lateja.

– Agora estamos na Rússia, mãe!

– E que significa isso, Sophie? Que deveríamos esquecer quem somos? Deixar que estes bárbaros nos transformem em marionetas a dançar como eles querem?

A mãe levanta de novo o braço, mas, desta vez, Sophie é mais rápida e recua. A mão hesita e cai lentamente.


Durante o dia, quando a mãe vai tratar das suas coisas, algumas cortesãs vêm sentar-se na sala dela. Foram incumbidas de fazer companhia à princesa Sophie e de olhar por ela, enquanto descansa.

Todos os cortesãos minimamente importantes acompanharam a imperatriz na peregrinação. As mulheres que vêm fazer companhia à princesa de Anhalt-Zerbst sabem isso. Tornaram-se invisíveis, dizem piadas. São demasiado velhas para os homens e demasiado insignificantes para que as outras mulheres se preocupem com elas.

Falam do frio gélido de Moscovo, que até faz doer os ossos. Dos criados, sempre preguiçosos, que poupam nos toros para os venderem à parte. De um lacaio que vendeu um canário no mercado e o substituiu por um pássaro morto, pensando que a sua patroa não se aperceberia da diferença. Depois, suspiram e ficam em silêncio, enquanto procuram mentalmente assuntos que possam divertir a jovem princesa de Zerbst.

Quando ela as dispensa, fingindo adormecer, falam sobre ela.

– Pobre Sophie! É fraca, não é? No fundo, é uma criança. Quando tens catorze anos, dizem-te que és uma mulher, mas não é verdade.

– Os casamentos imperiais são negócios e este parece ser um mau negócio…

De olhos fechados, respirando regular e profundamente, Sophie escuta.

«É fácil cometer erros graves e ainda é mais fácil aperceber-se deles e informar. Os criados têm grandes olhos e ouvidos apurados. Ninguém está sozinho, seja em que momento for.»

– A imperatriz quere-a? Mas a imperatriz é volúvel. Não é difícil fazê-la mudar de opinião.

A mera referência à mãe fá-las rir alegremente. Imitam os seus arquejos e as suas declarações altivas acerca da superioridade alemã.

Abanam as cabeças, divertidas, perante as numerosas patetices da mãe. Troçam dos seus superiores? Aludem aos defeitos da imperatriz? Em que é que isso é diferente de cortar os próprios pulsos com uma faça e esvair-se em sangue até morrer?

Só um rematado tolo regista os boatos usando papel e tinta. Os esconde no seu próprio quarto, onde um espião os pode encontrar.

Pobre Sophie. Tem tanta vontade de agradar, essa criança!

Não é a primeira vez nem será a última que uma filha tem de pagar pelos pecados da mãe.

* * *

«Acabou-se! Não quero que esfreguem gelo nas faces da minha filha!» grita a mãe, tensa e lançando uns olhares glaciais às criadas, de manhã. Tudo a enfurece. Os cobertores russos, as colchas de veludo, as peliças de pelo de raposa prateada. As ombreiras douradas das portas. A bacia revestida a ouro. «Também não quero mais comida russa!» A partir de agora, a sua filha irá comer apenas coisas simples e saudáveis. Carne de vaca cozida. Pão mergulhado em caldo de carne e vinho tinto. Meio copo de cerveja fraca, adoçada com uma colher de mel, para saciar a sua sede.

As criadas correm como coelhos assustados diante de um cavalo a galope. «Dispensamos os vossos serviços», foram as palavras ditas ao médico da corte. A princesa Johanna de Anhalt-Zerbst não é estúpida.

«Não estás realmente doente, Sophie», diz a mãe, furibunda. «Só queres preocupar-me. Conheço-te muito bem!»


– O estado de saúde da minha filha é excelente! – declara a sua mãe, quando o médico chega. – Está apenas cansada, não é, Sophie?

O médico da corte usa um par de luvas de seda muito apertadas e descalça-as com a lentidão de quem está a realizar um ritual. Deu uma olhadela rápida ao conteúdo do bacio e cheirou o seu vómito. Agora, os dedos dele examinam a língua e o interior dos lábios.

– Rogo-vos, senhora, que me deixeis examinar a paciente.

O médico observa atentamente a pele do seu pescoço e braços, palpa as glândulas do seu pescoço.

– Não há quaisquer sinais de varíola – anuncia, com alegria.

Uma jovem mulher, explica ele à mãe, possuiu uma constituição delicada e fluida. O equilíbrio dos humores é facilmente perturbado. Receita um preparado, a que chama vinagre dos sete ladrões, que deverá ser esfregado na pele para acelerar o fluxo do sangue. Prescreve também um tónico para fortalecer a jovem.

O médico confia em que a princesa de Anhalt-Zerbst não encontre nada de errado nos remédios que propõe. Fica encantado ao verificar que assim é.


A luz é muito ténue, atravessando as cortinas corridas para impedir a entrada de correntes de ar. Sophie, que veste um roupão grosso, está sentada num sofá que serve de cama e os seus pés estão cobertos por peles.

O Pedro não veio visitá-la, mas mandou a sua criada perguntar pelo estado de saúde da doente.

A criada é alta e magra. Tem o cabelo apanhado, escondido debaixo de uma touca de renda, mas os seus olhos revelam energia e vivacidade. E, quando lança um olhar rápido para a cama, há neles um vislumbre de curiosidade.

– Quem és tu? – pergunta a mãe, rispidamente.

A rapariga não baixa os olhos.

– O grão-duque mandou-me vir dizer que a princesa de Anhalt-Zerbst prometeu copiar as máximas de Frederico, o Grande, para o grão-duque – comunicou num tom comedido. – O grão-duque deseja saber se a princesa tenciona ficar indisposta durante muito mais tempo.

A mãe franze o sobrolho. Mesmo na Rússia, uma criada deveria saber qual é o seu lugar.

– Perguntei-te quem eras!

A rapariga hesita, não durante muito tempo, mas o suficiente para provocar a irritação da mãe.

– Uma pessoa que lê para Sua Alteza, o grão-duque. Sua Majestade quer certificar-se de que o grão-duque não fatiga os seus olhos.

– Como te chamam?

– Varvara Nikolayevna, Alteza.


Lê para Pedro? Há quanto tempo? Que lhe lê ela? Que vê ela que eu não vejo?


Mas a mãe já não presta a menor atenção à criada.

– Temos de fazer com que Pedro se sinta feliz, Sophie – diz ela, como se estivessem completamente sozinhas. – Não podemos mostrar-nos insensíveis.

– Não, mãe – responde, mas ao contrário da mãe, não consegue ignorar a presença de Varvara Nikolayevna. Não é só porque gostaria de lhe fazer umas perguntas acerca de Pedro. Há algo naquela rapariga que lhe recorda o pai, o seu aceno encorajador quando os olhos dela expressam frustração causada por uma tarefa infantil. A mão dele pousada no seu ombro, impedindo a filha de pisar um ninho de pássaros.

– Escreve o que vou dizer-te, Sophie. Com a melhor caligrafia possível – ordena a mãe.


Querido Pedro, Lamento muito ter transtornado o vosso importante e admirável projeto. Prometo-vos que muito em breve estarei restabelecida e, entretanto, gostaria de retomar o nosso trabalho, enquanto estou a ainda a repousar.

Quando ela terminou, a mãe arrancou-lhe a carta da mão e examinou-a, carrancuda.

– Sophie, a tua letra – disse – é demasiado pequena e irregular. E há um borrão de tinta no canto. Queres que Pedro pense que és desleixada?

– Não, mãe.

– Nesse caso, escreve outro.

A saia da mãe enrola-se, enquanto anda para trás e para frente, impaciente e perdida nos seus pensamentos, nos seus planos. No exterior, ouve-se o barulho de um tacão a bater na madeira do soalho e um homem a pigarrear.

– Despacha-te Sophie!

Copia novamente a mensagem. Satisfeita ou apenas impaciente, a mãe dobra o papel e comprime as bordas. A criada permanece de pé, imóvel, de cabeça erguida, lábios fechados, olhos a brilharem devido a pensamentos que só ela conhece.

– Leva isto ao teu senhor e desaparece – ordena a mãe.

Varvara Nikolayevna, de cabeça ligeiramente inclinada, dá um passo decidido em frente e, por momentos, dir-se-ia que a mãe ia esbofeteá-la. Mas então, no exterior, a voz animada de um homem transformou-se num riso despreocupado o corpo inteiro da mãe descontraiu-se. Assim que a rapariga lhe estendeu a mão para receber a mensagem, ela saiu da sala a correr.

A carta desaparece nas pregas do vestido de Varvara.


No corredor, há quadros pendurados. Num deles, um homem com barba está preso a uma tábua, uma lâmina brilha, a multidão espera pelo espetáculo da execução. Noutro, homens com armaduras montam cavalos tártaros, pequenos e robustos, criados nas estepes. Os cavalos podem parecer pequenos, podem percorrer quilómetros sem se cansarem. As selas têm estribos curtos. Porquê? Para permitir que um arqueiro se possa pôr de pé quando monta. Porquê? Para disparar com mais pontaria, pois quando se está sentado na sela, é-se empurrado para cima e para baixo, pelo que pode ser difícil acertar no alvo.

Sophie tem catorze anos. Já sabe o que é dizer uma coisa e querer dizer outra. Mas aqui é uma estrangeira. Os seus olhos têm de aprender a ver o que é essencial. Os seus ouvidos têm de aprender a ouvir o que está escondido.

– De novo a falar com os criados? Que é feito da tua dignidade, Sophie? Do teu orgulho?

A sua mãe está enganada.

As amizades fazem-se em encontros acidentais, à luz ténue das janelas sem portadas, nos dias gelados de Moscovo. No corredor do palácio, ou no caminho para os aposentos imperais, na antecâmara do quarto de Pedro, quando a princesa de Anhalt-Zerbst tem de esperar por ser recebida, como se fosse um comerciante ou um devedor.

As perguntas são uma boa maneira de começar. Perguntas seguidas de um sorriso implorante, um abanar brincalhão da cabeça. «Como se faz o kvass, Varvara Nikolayevna? Como se diz abelha em russo? Já viste algum elefante? Não são uns seres maravilhosos! Tão ágeis e, ao mesmo tempo, tão fortes! Varvara é Bárbara em russo?»

Só mais tarde, quando os murmúrios dão lugar a um riso fácil, são possíveis outras perguntas:

«Há muito tempo que vives na corte?»

«És filha de um encadernador de livros? Uma pupila da imperatriz? Também és estrangeira?»

«Órfã?»

«Sozinha?»

Em última análise, não é só o que se pergunta mas também como se pergunta. Cada resposta, por mais breve, por mais superficial que seja, é uma pista. As palavras escondem-se noutras palavras, deixam entrever a gravidade do que está acontecer fora destas salas com correntes de ar. O mesmo se pode dizer das hesitações, dos olhares de soslaio. São manobras para confundir a recém-chegada? Ou avisos que devem ser valorizados e devidamente ponderados? Como aquela página que ela copiou de um livro e, depois, encontrou, queimada, numa bandeja de prata?

Ninguém sobrevive sozinho.

Não aqui. Não nesta corte.

Põe a mão de fora para agarrar o braço da cadeira, para se endireitar.

– Ajudas-me a aprender o russo, Varvara Nikolayevna? De vez em quando?

– Ajudo, Alteza.

– Também lerás para mim? Histórias felizes. Que acabem bem. Já há tristeza suficiente no mundo.

– Se a imperatriz me autorizar.

– Então, perguntar-lhe-ei, quando ela voltar. E tecerei elogios sobre ti. Dir-lhe-ei como tens sido amável e quanto me tens ajudado. Quem me dera que ela já tivesse voltado.

– Esperam-na demasiados pedidos, Alteza. É melhor esperar pelo momento apropriado.

– Como saberei que é o momento apropriado? Dir-me-ás?

Mas Varvara Nikolayevna não responde. Diz-lhe apenas:

– Os elogios nem sempre são uma boa ideia, Alteza. É melhor que nem sequer fale de mim à imperatriz.

– Por que não haveria de fazê-lo?

– É melhor não revelarmos aquilo que verdadeiramente queremos. É melhor ocultarmos a nossa impaciência e os nossos medos.


Tal mãe, tal filha.

Uma maçã pode cair perto da macieira, mas não tem de ali ficar.


Os barulhos despertam-na, durante a noite. As paredes de madeira são finas. No quarto da mãe, o soalho range. Uma porta do armário chia. Ouve-se um tropeção, um risinho seco, o tilintar de copos. O vinho é considerado de qualidade inferior, mas serve. Afinal de contas, é uma noite russa fria.

– Esperai até irmos para Sampetersburgo – avisa o cavaleiro Betskoy. – Lá ainda está muito mais frio.

– Quão mais?

– Pensai em pássaros que congelam a meio do voo e caem do céu. Às três da tarde já está escuro como breu.

– Não acredito em vós.

– Mas deveríeis acreditar.

Pouco depois, a voz da mãe torna-se mais profunda e agitada. «Aqui não… esperai… deixai-me…»

A armação da cama faz barulho, ao bater na parede. A respiração torna-se áspera e ofegante. De repente, um risinho abafado que se transforma num gemido profundo de prazer.

A mãe parece ter falta de ar. Chama ao homem com quem está o seu amado… meu tesouro… minha única e verdadeira felicidade.

Sophie ouve-a segredar-lhe: «Não sabeis o que é a fome. Quanto ele me sufocou e durante quanto tempo!»


O seu quarto está envolto num manto de escuridão. Na pequena alcova, a criada adormecida range os dentes e lamenta-se em russo; parece estar a implorar compaixão ou a pedir um favor. A rapariga tem um sono profundo e não acordará se não for arrancada dos seus sonos pela força.

Mas Sophie está bem desperta. A mãe destrói tudo aquilo em que toca. O presente e o futuro. Mancha tudo com os seus mexericos e a sua cupidez, com a luxúria que está só ao serviço do seu próprio prazer.

Se Sophie não a detiver agora, cairão em desgraça e serão ambas mandadas de volta para Zerbst.

Sai da cama e caminha em direção à janela. Lá fora, na rua iluminada pelo luar, a neve foi-se acumulando até formar bancos. Passa um trenó puxado por um cavalo; o som produzido pelos guizos do arnês irrita os seus ouvidos. A imperatriz Isabel só regressará daí a três longas semanas. A imperatriz que, uma vez, lhe pôs um kokoshnik na cabeça e lhe chamou «minha querida rapariga da lua, minha esperança».

A sua mente vai considerando e analisando as possibilidades. Rivalidade? Possessão? Orgulho?

Será que a imperatriz regressaria para salvar uma rapariga moribunda?


Zachem poydyosh, to i naydyosh. Se andares à procura de uma coisa, acabarás por encontrá-la.


Se mantiver os lábios abertos, durante o tempo suficiente, sem os lamber, ficam ressequidos. É possível dar cor às faces esfregando-as vigorosamente. Mas bastará parecer estar doente? Uma constipação vulgar podia ajudar, um nariz a pingar, olhos raiados de sangue, uma voz rouca devido a uma garganta inflamada, também.

Põe a hipótese de abrir a janela, mas o gelo colou-a ao caixilho pelo que não será possível movê-la. Além disso, o guarda da noite poderia ouvi-la a tentar abri-la. Então, os seus olhos repararam numa jarra com orquídeas. Como as criadas de quarto são preguiçosas, mesmo quando se trata de um presente imperial, a água não é mudada há dias e já cheira a podre.

Pega na jarra, leva-a aos lábios, dá um gole e, depois, outro. Limos viscosos pegam-se-lhe à boca e aos dentes, mas sustém a respiração e mantém a boca aberta. Babette, a sua precetora, ensinou-lhe que a vontade humana é mais forte do que os instintos animais. A vontade humana é a passagem que permite alcançar a verdadeira salvação da humanidade. A razão pode vencer as emoções que tentam desviar-nos do nosso objetivo.

O estômago consegue reter a água fétida e os restos viscosos dos caules podres. Durante mais tempo do que ela pensava. Durante o tempo que for necessário.


– Não vão fazer-lhe uma sangria – diz a mãe rapidamente quando o médico da corte chega.

O médico arqueia as suas sobrancelhas espessas que estão a tornar-se grisalhas.

– Mas porquê? – pergunta ele. A sua voz é tranquilizadora. Explica que é necessário restabelecer o equilíbrio dos humores. A ilustre princesa de Anhalt-Zerbst não se oporá certamente ao conhecimento médico?

– Não vão fazer-lhe uma sangria – insiste a mãe. O seu próprio irmão viera para a Rússia, a fim de casar. Sentiu-se doente, sangraram-no e morreu.

Se aconteceu uma vez, pode voltar a acontecer.

O médico revira os olhos. «O raciocínio de uma mulher», murmura suficientemente alto para que os estão perto dele o oiçam. Veio preparado para essa contingência. Diz em voz firme:

– Se não for possível sangrá-la, a princesa pode morrer.

– Não vão fazer-lhe uma sangria – grita a mãe. – Não permitirei que chacine a minha filha!

As almofadas de seda estão sujas de vómitos. As criadas não conseguem despejar o bacio com a rapidez necessária. Os seus rostos pálidos ficam crispados. Devido à repugnância ou ao medo?

– Olha para mim, Sophie – ordena a mãe, sem conseguir esconder a sua ansiedade. É um ponto fraco que a filha teria gostado de ver, noutras circunstâncias.

O sabor viscoso da água das flores permanece nos lábios de Sophie. Por mais que vomite, não passa. Quando tenta levantar-se, as tonturas são tantas que tem de fechar os olhos com força.

O médico da corte mantém a mão sobre a testa da princesa e abana a cabeça, trocando um olhar de homem para homem com o cavaleiro Betskoy. Como é que a princesa Johanna de Anhalt-Zerbst pode ser tão cega? Tão ignorante? Não deveria um homem intervir imediatamente?

A mãe sempre foi teimosa. Só o pai consegue levá-la a ceder. O cavaleiro Betskoy comete erro atrás de erro. Agora é a sua vez de olhar para o médico.

– Talvez devêssemos chamar Sua Majestade Imperial. Antes que seja tarde de mais.

– Sophie é minha filha – diz entredentes, a mãe, irada. – Que pode uma mulher estéril saber que eu não saiba?


O trenó imperial entra no pátio do palácio provocando um remoinho de neve. Um cão que ladrava é enxotado, a ponta do chicote causa um ganido de dor.

As portas abrem-se. Ouvem-se os estalidos das contas dos rosários.

– Minha Sophie! Pobre cordeiro! Que te fizeram? Basta ausentar-me durante uns dias para que isto aconteça?

Os criados espreitam atrás dos biombos e portas entreabertas, ansiosos por ver o espetáculo da ira imperial dirigida a outra pessoa. Que veem? De que lado estão?

– Assim que me vou embora, o bom senso e o decoro acabam!

Todas estas palavras têm como alvo a mãe.

A mãe, uma cabra alemã, disposta a deixar morrer a filha porque não faz outra coisa senão foder.

– Durak, e vós destes-lhes ouvidos! – Foi a resposta que o médico ouviu quando balbuciou uma explicação para a demora em sangrar a doente. – Também vós queríeis que eu voltasse para casa a fim de assistir a um funeral?

A imperatriz anda energicamente pelo quarto da doente. Ouve-se o frufru das saias e o barulho dos saltos dos sapatos a baterem no soalho.

– Vão buscar Lestocq – brama Isabel. – Não confio em mais ninguém.

As criadas correm de um lado para o outro. Uma delas leva um cesto de vime coberto com um lenço de renda. Outra, um ícone sagrado. Um gato mia.

– Alguém teve a presença de espírito de chamar um pastor? Ou já todos escolheram um caixão para esta criança?

A mãe permanece de pé, do outro lado da cama. O cavaleiro Betskoy está mesmo atrás dela, recuando pouco a pouco, até deixar de estar à vista.

Onde está Pedro? Pensa que ela, a sua noiva pode morrer? Tem pena dela? Será que isso lhe importa?

Como tem os olhos fechados, Sophie não consegue ver, mas os roncos devem ser de Pedro. E as manifestações de incredulidade, também.

Estão todos aqui.

Todos estão a observar.


As portas abrem-se. Uma voz anuncia o conde Lestocq.

– Vim logo que soube, Majestade – murmura, entrando a correr e ordenando ao seu ajudante que abra o estojo de lancetas. – Sem perder um minuto.

Entra uma corrente de ar, uma corrente de ar gelado de inverno.

Aquele que foi em tempos amante da imperatriz, o homem que ajudou Isabel a apoderar-se da coroa da Rússia, o conde levanta a colcha, não muito, apenas o suficiente para deixar ver o pé pequeno e bem modelado da doente.

A lâmina aguçada da lanceta abre uma veia imediatamente acima do tornozelo de Sophie. Dói, mas não muito. O sangue começa a correr. Uma ligadura aperta a perna. A princípio, ela não sente nada, mas depois invade-a uma sensação de leveza que a faz sentir-se tonta. O seu coração começa a bater mais lentamente. A sua respiração torna-se mais profunda.

Entreabre os olhos, apenas o suficiente para distinguir a figura da imperatriz que se inclina para ela. Hoje, a pele do rosto imperial não foi retocada com pó de arroz. O dente da frente está escuro e lascado. Os lábios lívidos entoam uma prece em russo que ela, Sophie, não percebe bem.

Sem ter consciência do que acaba de se passar, a mãe insiste em protestar a sua inocência.

– Majestade Imperial, a minha filha teve apenas uma indigestão. Não correu o menor perigo.

– Basta, mulher ingrata – diz a imperatriz com voz sibilante. – Olhai para esta criança. Vede quão pálida está.

O estojo das lancetas fecha-se com um estalido. Não haverá um momento melhor para abrir os olhos de par em par. Soltar as mãos e erguer-se sobre os cotovelos. Um momento melhor para evitar os olhares desesperados da mãe, as gotas de suor que lhe cobrem a parte superior da testa. Para ignorar que cai de joelhos, a tremer. É possível dizer muito sem pronunciar uma única palavra. Aquilo que se supôs pode ser negado. Aquilo que foi definido pode ser reformulado, virado de pernas para o ar.

Ao lado da rocha que é a imperatriz da Rússia, a mãe é uma concha vazia, atraente mas vazia e tão fácil de esmagar.

– Tenho um pedido a fazer. Majestade.

Aos ouvidos imperiais não escapa a menor alteração da sua voz sumida mas clara.

– Não quero um pastor. Será que o padre Theodorsky poderia fazer o favor de rezar comigo?

A imperatriz olha-a fixamente. Depois, franze as sobrancelhas. Que acabei de ouvir, Sophie? – perguntam os seus olhos. – Um sinal da tua astúcia? Ou um voto de obediência?

Ou ambas as coisas?

Na lareira, os troncos de bétula crepitam e silvam, enviando uma onda de calor na sua direção.

Chegou o momento de pousar de novo a cabeça sobre as almofadas de seda. De deixar que os seus pensamentos mergulhem na vastidão tentadora desta terra, na imensidão que desafia os sentidos. De relembrar os campos gelados, as florestas espessas e escuras cobertas de neve, os rios aprisionados sob o gelo. De pensar naquilo de que ela, Sophie de Anhalt-Zerbst ouviu falar, mas ainda não viu. Cadeias de montanhas que enchem o horizonte, prados intermináveis das estepes, onde a erva é suficientemente alta para esconder um homem a cavalo.

Chegou o momento de fazer com que o seu rosto: Não sou como a minha mãe. Não desiludirei. Por mais elevado que seja o preço a pagar. O momento de pestanejar, de deixar as lágrimas brotarem e caírem pelas faces.


Sentada na cama, a seu lado, a imperatriz da Rússia está agitada. O seu corpo grande e suave fez o colchão afundar-se. Ergue a mão e estende-a. Está perfumada e as unhas cor-de-rosa foram limadas e esfregadas com óleo de rosas.

Por que motivo houve aquele momento de hesitação? Sophie terá sido desastrada? Demasiado apressada? Traído os seus desejos íntimos e o preço que está disposta a pagar pela sua concretização?

Foi avisada. Disseram-lhe que esperasse pelo momento certo. Observai e aprendei com aqueles que já viram mais coisas do que vós, segredara-lhe a sua nova amiga.

A cabeça imperial vira-se para outro lado.

– Ouvi, ó ingrata – disse a imperatriz de Todas as Rússias à mãe dela. Havia claramente um tom de triunfo na sua voz. – Ouvi o que esta criança encantadora está a pedir-me.

O que lhe ocorre ao pensamento é a imagem de um gato no meio da nêveda. A bater nela com as patinhas, a mastigá-la, a saltar de alegria à sua volta.


Sophie de Anhalt-Zerbst tem um novo nome russo: Catarina Alekseyevna, o mesmo da mãe de Isabel. Segundo o costume do país, deveria chamar-se Cataria Christiyanevna, porque o pai dela se chamava Christian, mas a imperatriz achou que soaria estrangeiro aos ouvidos russos. E uma grã-duquesa russa, a mulher do príncipe herdeiro, não deveria parecer estrangeira.

Varvara Nikolayevna, que conhece bem os hábitos da corte, diz que a imperatriz declarou o príncipe Christian de Anhalt-Zerbst um homem sem meios de subsistência. Um parasita que vive à custa dos parentes da mulher. Um homem cujo nome só teria prejudicado a posição da sua filha. «Não deixeis ninguém ver as vossas lágrimas», segredou-lhe a amiga. «Não é assim tão difícil!»


No seu caderno de apontamentos, Catarina Alekseyevna anota cuidadosamente os provérbios russos que o seu professor particular lhe tem dito, para que os aprenda de cor.


Delit’ shkuru neubitovo medvedya. É uma tolice dividir a pele de um urso que ainda não foi morto.


Todas as noites, as criadas desapertam o seu corpete, limpam os seus seios com leite de amêndoa, esfregam os seus mamilos até que endureçam, escovam o seu cabelo. Enfiam camisolas interiores de cambraia fina no seu corpo perfumado. Os seus seios são cheios e o seu útero está vivo.

Conduzem-na até ao leito conjugal – a cama abençoada por um ícone sagrado e aspergida com água benta – e apressam-se a partir.

Ela espera. Por vezes, senta-se na cama, agarrada aos joelhos. Outras, passa as mãos pelos seios e depois pela barriga e pelas coxas. Outras ainda, passa os dedos pelos caracóis dos seus pelos púbicos, que são negros e espessos como uma pele de visom.

Pensa no dia em que chegou a Moscovo, a despiram e deitaram fora as suas roupas alemãs. Como lhe vestiram uma camisa de seda. Leve como a gaze, e um vestido de brocado. Pensa no casamento na catedral de Kazan – em que estava de pé, ao lado de Pedro, e o arcebispo os abençoou e ungiu com os santos óleos. Da boda, com paisagens inteiras feitas de açúcar: um castelo de açúcar com um jardim de açúcar, árvores de açúcar carregadas de frutos também de açúcar. Pensa na imperatriz a pousar a mão coberta de anéis sobre o seu ventre liso, ordenando-lhe que desse à Rússia outro herdeiro ao trono. Um rapaz Romanov saudável que sucedesse ao pai. Pensa na mãe, que partiu para Zerbst sem dizer uma palavra de despedida e que, desde então, nunca lhe escreveu. No pai, que não foi convidado para o seu casamento.

Mais cedo ou mais tarde, Pedro, seu marido, acaba por vir para o quarto. Também ele não tem alternativa.

Pode pôr muitas caras. De tédio. De indiferença. De petulância. De profunda concentração, mas isto só acontece quando consegue enganar os seus vigilantes e trazer furtivamente para o quarto os seus soldadinhos de chumbo. Neste caso, ela, a sua noiva, pode vê-lo a colocá-los em formações, a recriar batalhas há muito perdidas ou ganhas, batalhas sobre as quais tem um controlo absoluto.

Ela pode fazer perguntas, às quais Pedro responderá. Pode explicar uma manobra astuciosa, uma evasão inteligente que, em tempos, assegurou uma vitória prussiana. Ou então ela pode dar uma ajuda. Endireitar a fila de soldados armados de lanças inclinadas, de modo a impedir os cavaleiros de avançarem. Ou levantar os heróis que tombaram em combate.

Lembra-se de que, há uns meses, Pedro quase morria de varíola. De que ficou desesperada quando aqueles que diziam ser amigos dela se afastaram, conscientes de que, se Pedro morresse, a imperatriz a mandaria regressar a Zerbst. Podia muito bem estar agora a esquivar-se ao desdém da mãe, a examinar minuciosamente velhas propostas de casamento. Sempre a desejar ardentemente aquilo que não se destinava a si.

«Vereis que é isso que vai acontecer!» Varvara Nikolayevna sabe sempre o que deve dizer nos piores momentos, quando deixa de haver esperança. «Alguns homens assustam-se facilmente e tornam-se fracos.»

O inchaço provocado pela varíola quase desapareceu do rosto do seu marido. A vermelhidão também ou está escondida sob uma camada de creme. Além disso, um homem não precisa de se preocupar por causa de umas quantas marcas de varíola, diz ela ao marido.

– Eu sei – disse ele, num tom rude.

Ele olha para ela com desconfiança. Ouve-a com impaciência. Pensa que ela se julga demasiado esperta e pode sair-se mal. Ele chama-lhe Madame Engenhosa, pois tem sempre uma solução para todos os problemas, quer uma pessoa queira quer não. Nos corredores do palácio, ele estuga o passo para evitá-la. No leito conjugal, deixa-lhe um grande espaço para ela dormir. Quando ela tenta tocar-lhe na mão, furta-se ao contacto.

– Levantai-vos da cama, esposa! – grita. – Schnelle! Schnelle!

Sophie levanta-se da cama e fica em sentido. Ele manda-a curvar-se e apanhar a espada dele. Ordena-lhe que marche pelo quarto. Que apresente a espada, como se fosse um mosquete. Que levante bem as pernas, como um bom soldado prussiano num desfile militar.

Proíbe-a de falar. Observa-a, da cama, com a cabeça pousada nas mãos, enquanto ela marcha.

– Por que estais tão silenciosa, esposa? – pergunta.

– Porque me dissestes para não falar, Pedro – responde e, por momentos, a obediência dela agrada-lhe e o rosto dele ilumina-se.

– Chega! – grita ele. – Voltai para aqui.

Ela põe a espada no chão e mete-se na cama, ao lado dele. O colchão está quente e cheira bem. As criadas espalharam pétalas de jasmim e de rosa debaixo dos lençóis. Varvara incitou-a a não desanimar. A ser paciente. Por vezes, os homens são assim. Tímidos. Receosos de mostrarem a sua fraqueza. Isso não tem de ter necessariamente um significado.

Ela é paciente.

Espera, em silêncio, até que Pedro desata a rir, se vira de costas para ela e começa a ressonar.


Na Rússia, a morte é representada por uma mulher velha e descarnada com uma gadanha. Silenciosa e implacável, não é possível vencê-la pela astúcia. Uma bruxa que lhe pergunta com a sua boca desdentada: «Quem governará o país quando eu chegar junto da cama da imperatriz?»

Nos aposentos interiores do Palácio Imperial, a subtileza não é necessária. Um país precisa de um herdeiro, uma criança educada pacientemente para exercer o poder, um czarevitch de sangue imperial.

Um fruto do casamento imperial. Um dever sagrado da grã-duquesa.

Então, por que motivo o seu útero continua vazio?


Aqueles que lhe desejam mal, os que a difamam, escondem-se em passagens nas traseiras, nos corredores, atrás de espelhos sem estanho. Chamam-lhe árvore estéril, flor murcha que cai sem dar fruto. À imperatriz, que a trouxe para a Rússia, segredam: Já passou mais um ano. De que serve uma árvore que não dá fruto? O tempo passa mais depressa do que pensamos. E se aquilo que tomámos por sinais da aprovação de Deus fossem murmúrios do Diabo?

Uma mulher tem de agradar ao marido e não esconder-se em livros. Ou montar a cavalo como se fosse um homem. Ou fazer demasiadas perguntas.

Se Catarina sorri, os seus difamadores chamam-lhe frívola; se o seu rosto não exibe um sorriso, dizem que é orgulhosa.

Fez um acordo e não cumpriu a sua parte. O seu castigo ainda mal começou.

Já não tem amigos na corte. Todo aquele que ousou ser amável com ela foi afastado. Ao príncipe Naryshkin foi comunicado que a grã-duquesa não tinha tempo para conversas ocas. Houve criadas que foram despedidas por lhe terem segredado algumas palavras de consolo. Varvara Nikolayevna também se foi embora: casou e está já à espera de um filho. Varvara que, em tempos, avisou: «Esta corte é um lugar perigoso. Aqui, a vida é um jogo e todos os jogadores fazem batota.»


«Escolhi-vos em detrimento de outras», disse a imperatriz, irada, carregando com um dedo na barriga dela. É uma pressão forte e insistente, que tem como objetivo magoar e magoa mesmo. «Onde está o meu herdeiro agora? Quanto tempo mais terei de esperar, Catarina?»


Ela foi casada durante seis anos, e o seu marido não lhe tocou. É a sua vergonha secreta. Porque a culpa é sempre da mulher.

Deve ter-lhe desagradado de alguma forma. Devido ao seu aspeto? Às suas palavras? Aos seus atos? Será demasiado altiva? Terá resposta pronta? Não será suficientemente obediente?

Por vezes, quando está sozinha, ela desabotoa a camisa e cheira o seu corpo. Será o cheiro que impede Pedro de a desejar? Ou as ancas ossudas que se recusam a acumular um pouco de gordura? Ou os seios demasiado pequenos ou demasiado grandes? A sua pele será áspera? O queixo demasiado pontiagudo? Os dentes demasiado podres? Os lábios demasiado ressequidos?

Na capela do palácio, os santos russos olham-na com os seus olhos inexpressivos. Sofremos em silêncio, dizem eles, deverias fazer o mesmo. É assim que os russos fazem.

* * *

Estamos no meio de maio. A corte imperial visita Gostilitsa, a propriedade do conde Razumovsky no campo, situada nos arredores de Sampetersburgo. O seu anfitrião, que veste um cafetã amarelo, bordado, e usa ao peito um retrato da imperatriz Isabel, deu-lhes as boas-vindas com pão e sal. Uma vez chegados a casa dele, os seus ilustres convidados têm apenas a obrigação de se divertirem, anuncia o conde.

A caminho de casa do seu favorito, a imperatriz Isabel queixou-se dos cheiros nauseabundos, dos cavalos que iam demasiado devagar, e do seu vestido novo que estava demasiado apertado e lhe fazia comichão na pele. Ordenou que parassem três vezes para fazer as suas necessidades fisiológicas, atrás de um biombo que os criados abriram para ela. Na última paragem, viu corvos a voarem em círculo sobre a carcaça de uma mula e deu imediatamente ordens para mudarem o itinerário, o que fez com que uma viagem de quatro horas passasse a demorar mais uma.

Quando a carruagem entrou no pátio da mansão de Gostilitsa, a irritação de Isabel desapareceu. Agora, tudo lhe agrada. Que alívio deixar o Palácio de Inverno, diz ao conde Razumovsky. Respirar o ar do campo. Ver aquela floresta de bétulas, o prado verdejante, o lago onde as aves fazem os ninhos entre os juncos. Quer um barco para poder remar, quer pescar, porque nada sabe melhor do que um peixe pescado pelo próprio.

O conde Razumovsky é um anfitrião atencioso. O belo barco vermelho com assentos acolchoados está pronto para que a sua querida imperatriz embarque. As canas de pesca estão à espera dela, os vermes quentes contorcem-se nos anzóis. Sentado a seus pés, enquanto Isabel rema, com destreza, levando o barco para o meio do lago, segura o balde de lata, que pode ser utilizado assim que for necessário.

Durante uma hora inteira, os cortesãos aguardam o seu regresso. Ninguém deseja seguir a imperatriz. Ninguém deseja apanhar um peixe maior.

Quando o barco finalmente volta para terra, juntam-se todos para admirar a pescaria. Isabel fica radiante quando, uma após outra, todas suas damas de companhia se mostram horrorizadas perante a mera ideia de tocar nos peixes que ainda se contorcem.

– Teríeis feito rir o meu pai – diz a imperatriz, ao mesmo tempo que faz um sinal a um criado com barba que ali se encontra com uma bandeja de faca.

– Estão afiadas? – pergunta.

Quando o criado acena que sim, a imperatriz arregaça as mangas da sua blusa. Pega na faca mais comprida, que tem um cabo de osso de veado. Verifica o gume usando o seu dedo indicador.

Todos os peixes pequenos serão cozidos inteiros, para fazer a ucha, uma sopa de peixe. Só os peixes maiores serão cortados em filetes e fritos.

As damas de companhia juntam-se à volta da imperatriz e emitem uns sons que parecem cacarejos e expressam o seu horror, cada vez que Isabel atordoa o peixe com um martelo, lhe corta a cabeça, rasga a barriga e retira lá de dentro as tripas.

– Seguir a espinha dorsal até à cauda – diz ela, à medida que a faca vai atravessando o corpo. – Era o que o Papá dizia sempre.

Ela, Catarina Alekseyevna, grã-duquesa da Rússia, associa-se aos gritos de assombro e admiração. Não aprecia peixe, preferindo carne de vaca cozida e picles, mas ninguém precisa de conhecer os seus gostos. Quando um dos peixes atordoados começa, de repente, a debater-se, Catarina sobressalta-se, como todos os presentes. Por momentos, parece que a imperatriz não vai deixar a presa escapar-lhe das mãos, mas o peixe é escorregadio e rápido. Ouve-se um «chape» e ei-lo de novo no lago.

Pedro bate com os braços compridos ao longo do corpo, imitando de uma forma estranhamente apropriada um peixe a contorcer-se. Ninguém se ri, mas ele parece não se aperceber disso.

– Que achais assim tão engraçado, Pedro? – pergunta a imperatriz.

A pergunta fá-lo soltar um risinho abafado.

– Por favor, Pedro – diz Catarina, puxando a manga do marido, mas comete um erro ao fazê-lo. O seu pedido – por mais discreto que tenha sido – ainda o torna mais ousado. Porquê? Essa reação intrigou-a, noutras circunstâncias semelhantes, tal como nos intriga o facto de uma traça insistir em voltar a aproximar-se das chamas.

– Não há nada como o ar do campo na primavera, Catarina – diz Isabel, ignorando o sobrinho. Limpa as suas mãos cobertas de sangue a uma toalha que uma criada segura. – Inspirai profundamente. Enchei os pulmões.

Catarina obedece. O ar é fresco, perfumado pelo fumo da madeira, mas o ato de respirar não consegue atenuar o seu constrangimento. A primavera torna a imperatriz ainda mais impaciente. É a estação de procriar, dos potros recém-nascidos, dos pintos amarelos e dos patinhos que se bamboleiam pela lama, atrás da mãe.

– Deixai a grã-duquesa pegar-lhe – diz o conde Razumovsky, ao mesmo tempo que deposita um dos patinhos nas mãos de Catarina. O animal vira a sua cabecinha e morde o polegar dela, mas tão levemente que ela nem sente. Debate-se nas palmas das suas mãos, macio, fofo, quente. É como segurar a essência da própria vida.

Ela curva-se, abre a mão e deixa o patinho escorregar e seguir a mãe.

Durante a visita, foi-lhes atribuída uma casa de madeira de três andares, construída há pouco numa colina. O quarto deles fica no terceiro andar. Ao lado, há um quarto de vestir e um quarto onde dorme a sua criada principal. Os quartos do segundo andar foram preparados para alojar as damas de companhia e as damas de honor.

O primeiro dia da visita foi de festa. Os servos, vestindo as suas túnicas brancas compridas com colarinhos e debruns bordados, dirigem os convidados ao local onde irão ser servidas comidas e bebidas variadas: o pátio das traseiras, os corredores da mansão e a sala de jantar. «Os nossos simples manjares russos», diz o anfitrião. Mesas compridas cobertas por toalhas de um branco imaculado e enfeitadas com coroas de flores primaveris. Em bandejas de prata vêem-se bliny enrolados, camadas de peixe fumado, faisões assados, presunto. Leitões assados seguram pinhas nos focinhos; a sua pele tostada foi cortada como se fosse um tabuleiro de damas. Nas mesas destinadas às sobremesas, além de bolos enormes, há também taças de frutas cristalizadas mergulhadas em chocolate. Violinistas tocam animadas melodias tradicionais. Jovens servas, que vestem camisas e saias bordadas, e usam colares de contas vermelhas, amarelas e azuis cantam uma canção melancólica sobre Snegurochka, uma rapariga de neve que se sente sozinha e tem frio até que se apaixona. Mas, quando o seu coração aquece, a rapariga derrete-se.

Pedro, que está proibido de fumar na presença da imperatriz, aspira um cachimbo de barro vazio. Como sempre, quando estão na companhia de outras pessoas, presta pouca atenção à sua mulher. Os seus olhos seguem as jovens camponesas. Por vezes, como um aluno maroto, ousa aproximar-se de uma delas e puxa-a pelos colares ou pelas pregas da sua volumosa saia.

Quando são deixados a sós – o que acontece durante a maior parte do tempo, pois são essas as ordens da imperatriz – e privados de qualquer distração, Pedro pode ser arrastado para uma conversa. Os melhores temas são sempre as suas recordações de Holstein. Muitas delas são relatos fantasiosos da sua infância prussiana. Quando tinha sete anos, esse Pedro imaginário venceu corajosamente um bando de salteadores que tinham espalhado o terror pelo campo, perseguiu os ciganos que tinham raptado uma rapariguinha, resgatou-a e devolver à sua mãe lavada em lágrimas. Nessas histórias, é frequente Monsieur Brummer, que em tempos foi seu precetor e é agora marechal, revelar-se o seu maior inimigo. «Brummer tentou impedir-me de atacar, mas eu mandei-o calar-se», dizia Pedro.

Catarina continua a acreditar na paciência. Em enfraquecer, pouco a pouco, o ressentimento do outro.

Catarina ainda é jovem.

Ouve as histórias do marido num silêncio que pretende transmitir admiração, ao mesmo tempo que acena com a cabeça como que para o animar. Quando Pedro para, faz-lhe perguntas. «Que disse Brummer quando vos viu apontar o vosso mosquete?», é a melhor. Evoca sempre a imagem do antigo professor particular, dominado por um profundo respeito, a cair de joelhos e reconhecer a sua culpa por ter duvidado dele. Quando se enreda nestas histórias, Pedro fica muito agitado. A sua voz fanfarrona torna-se mais aguda e mais fraca. Agita as mãos ou começa aos saltos como se precisasse de urinar. As cenas que a sua imaginação evoca tranquilizam-no, mas não consegue lembrar-se com precisão do que lhe diz. Assim, num ataque a um acampamento de ciganos participa, umas vezes, um regimento de Holsteiners armados de mosquetes; outras, porém, referem apenas uns quantos criados brandindo chicotes. As únicas coisas que não mudam é a humilhação de Brummer e o seu reconhecimento de cegueira por não se ter apercebido do verdadeiro mérito de Pedro.

A festa na mansão do conde Razumovsky no campo dura a noite inteira. Quando o baile termina, formam-se pequenos grupos que começam a cantar junto da fogueira. Quando as vozes se tornam roucas, há jogos: cabra-cega, brincar ao gato e ao rato, aos cossacos e ladrões. Ou os trava-línguas de que Isabel tanto gosta. Catarina causa a hilaridade geral quando a sua língua se enrola irremediavelmente ao dizer: Soit pop na kopne, Kolpak na pope, kopna pod popom, pod kolpakom.

Um trava-línguas em que Isabel é exímia.

De madrugada, quando a imperatriz manda toda a gente embora, Catarina e Pedro voltam para a sua casa. As criadas fecham bem as espessas cortinas do seu quarto, para que a luz não os incomode. Estão ambos exaustos depois das danças e dos jogos. Os olhos ardem-lhes devido ao fumo da fogueira. Adormecem imediatamente.

Catarina acorda logo que Choglokov, o seu camareiro e vigilante e um dos espiões da imperatriz abre de par em par as cortinas da cama. Não acabou de se vestir; da abertura da sua camisa de noite saem tufos de pelos brancos encaracolados.

– Saí daqui para fora! Depressa! – grita.

Ela nem sequer tem tempo para lhe perguntar porquê. Da lareira vem um som estranho e impressionante. As paredes rangem. Objetos pesados caem. Os vidros quebram-se. Lá fora, os cães ladram freneticamente. Um bocado de estuque desprende-se do teto e desfaz-se, caindo sobre as cabeças deles. Uma das vigas mestras do teto começa também a ranger; pedaços de madeira negra caem sobre o soalho.

Pedro resmunga e salta da cama.

Não olha para ela.

As tábuas do soalho oscilam debaixo dos pés dela, como se estivesse numa barca, em plena tempestade. O seu marido sai a correr do quarto. Com a pressa, acaba por tropeçar na soleira e magoa um pé. Na última vez que o vê, ele é uma figura curvada, que se afasta a coxear.

Parte-se uma janela, cujos vidros quebrados se espalham pelo chão. Outras camadas de estuque caem do teto. As mãos deles parecem bocados de gelo. O seu coração bate desenfreadamente. É o fim, pensa ele, antes de ouvir os guardas lá foram gritarem: «Onde está a grã-duquesa? Alguém viu a grã-duquesa?»

* * *

A porta abre-se com um estrondo. O guarda que entra a correr no quarto usa a farda verde dos Preobrazhensky. É alto e bem constituído, o seu cabelo é escuro, grosso e farto. Os seus braços são suficientemente fortes para a levantarem como se fosse uma pena.

Ela não sabe bem o nome dele. É um dos inúmeros guardas do palácio que estão em sentido nos corredores. Que olham para o longe fixamente, sem reparar – era isso que ela pensava – no que estava a acontecer na sua frente. Se o viu antes, os seus olhos não se pousaram nele o tempo suficiente para que os seus traços ficassem gravados na sua mente. Só agora, quando ele a segura nos seus braços vigorosos, é que ela repara no seu rosto moreno e belo. Na sombra escura na face dele.

Também vê algo mais.

No rosto do homem que a leva ao colo para fora daquele quarto que está a desabar não há impaciência, nem petulância, nem irritação. Os olhos dele, pregados nela, são suaves e brilham. Há um tal contentamento neles e um tal desejo dela que a pele se lhe arrepia e uma agitação sacode o seu ventre. Acalma o medo que formou um nó na sua garganta. Derrete o que estava gelado.

Agrada-lhe ver como ele tenta ser circunspecto e seco, muito profissional. Garante-lhe que está em segurança. Que não permitirá que lhe aconteça nada de mal, pois é esse o seu dever para com a grã-duquesa da Rússia. Morrer por ela, se necessário for. Salvá-la de todos os perigos.

Chama-se Sergei.


Mais tarde, circularão muitas histórias acerca desse dia. Como a grã-duquesa foi socorrida e retirada de uma casa que se desmoronava por Sergei Saltykov. Que seu marido, Pedro, estendido numa otomana forrada a cetim carmesim, perguntava constantemente que vaidade e estupidez poderiam levar uma mulher a demorar tanto tempo a sair do seu quarto. Que o conde Razumovsky ameaçara dar um tiro na cabeça quando ouviu dizer que tinham sido os seus próprios construtores que haviam tirado a viga mestra. Que a imperatriz – preocupada com o seu amante – se recusava a admitir que a grã-duquesa tivesse realmente corrido perigo.

Mas ela, a grã-duquesa da Rússia, lembrar-se-á da sensação de uma mão masculina a agarrar a sua cintura, do cheiro do rapé nas suas narinas. Os braços dela envolveram o pescoço dele, enquanto a levava para um local seguro. A voz dele, quando bramava contra a ideia de construir uma casa no inverno, em cima de um terreno gelado. «Quando começa o degelo, os blocos de calcário que seguravam os alicerces deixam de estar no devido lugar», disse ele.

E, depois, enquanto os seus olhos se pousavam nela, acrescentou: «Só um tolo é que não sabe isso.»


Um jogo de xadrez é um jogo de escolhas. Por vezes, é preciso sacrificar um cavaleiro para fazer xeque-mate ao rei. Um jogo de xadrez é longo. Não é prudente permitir que os seus lances sejam previsíveis. Pelo menos enquanto a mudança ainda é possível. Quando o tempo está do seu lado.

Foram colocadas muitas armadilhas. Muitos olhos e ouvidos foram encarregados de seguir todos os lances. Muitas línguas repetem todas as palavras ouvidas.

Mas ela já não está sozinha. Agora, também ela tem os seus olhos e ouvidos, línguas e gazetas, espiões que se introduzem sub-repticiamente nos aposentos interiores do Palácio de Inverno. As histórias que eles contam a Catarina vêm dos corredores poeirentos e das alcovas do palácio, dos quartos dos criados e do guarda-roupa imperial. São mais preciosas do que joias. Dizem-lhe de quem se deve manter longe e quem deve subornar. Aqueles cujas mentiras triunfam nos círculos mexeriqueiros que se forma à noite, no Quarto Imperial. Quem ficará grato por uma palavra amável, um empréstimo discreto e um aviso segredado oportunamente.

O conhecimento é poder. Isso sempre ela soube.

Na posse das informações recebidas dos seus espiões, ela pode contornar as armadilhas. Oferecer subornos que não sejam nem demasiado elevados nem demasiado pequenos. Recompensas que agradem, em vez de desiludirem. Vai acumulando avisos que são ouvidos com gratidão, a pensar no futuro.

O poder reside em ouvir aquilo que não se destina a ser ouvido. Em compreender as motivações daqueles que conspiram contra vós. Em saber o que poderia fazê-los mudar de posição e ficar do vosso lado.

Uma dama de honor que informou a imperatriz do que haveis dito pode mudar de campo com um anel de rubi e promessas de gratidão. Uma princesa do reino cuja família vos odeia pode ser conquistada graças a uma visita inesperada e aos protestos de amizade. As criadas que são apanhadas a remexer em gavetas ocultas ambicionam uma joia de pequeno valor ou receiam que seja revelada uma indiscrição. Uma fita roubada pode condenar uma costureira; uma chávena de porcelana partida pode condenar uma criada encarregada de lavar a loiça.

Os melhores espiões não se compram nem enganam para os obrigar a obedecer, aprendeu também Catarina. Os melhores espiões acreditam nela. Veem nela a resposta para os seus sonhos. Querem que ela os salve dos seus medos. Que ela se apodere da coroa da Rússia.

Nas horas mais escuras, que precedem a aurora, diz Varvara Nikolayevna, que regressou à corte, o quarto imperial é iluminado por grossas velas de cera. As criadas espevitam constantemente o seu pavio porque Isabel acredita que as chamas tremeluzentes dão azar. A imperatriz é supersticiosa: se um mocho pia, manda criados armados de mosquetes assustar o pássaro e obrigá-lo a fugir. Se um corvo aterra no pátio do palácio, também o enxotam.

A imperatriz da Rússia tem um medo terrível do escuro. Do punhal de um assassino. Do príncipe das Trevas, que pode assumir inúmeras formas. E de uma grã-duquesa de vinte e três anos que a observa das alas do palácio, contando o número de vezes que respira ofegantemente.

– Sabeis o que ela quer – segreda Varvara Nikolayevna a Catarina.

Quando o jovem amante de Isabel se vai embora do quarto dela, a imperatriz da Rússia cai de joelhos, em frente do ícone sagrado e suplica a Nossa Senhora de Kazan que perdoe os seus pecados. É então que, com os olhos comovidos perante a visão da criança divina aninhada nos braços da Virgem, Isabel, embriagada de vodca de cereja e de concupiscência, diz, irada: «Por que não pode aquele anão do marido dela dar-lhe um filho?»

A sua voz vacilante está carregada de desprezo. «E porque não sabe aquela estúpida Hausfrau o que fazer?»


Uma sala do Palácio de Verão onde se fazem sentir correntes de ar está iluminada como se fosse um palco. Sobre os peitoris das janelas, sobre mesas, sobre uma tábua suspensa do teto, estão colocadas velas. Velas grossas de cera que durarão a noite inteira, se for preciso. Do Canto Santo, Nossa Senhora de Kazan observa com os seus olhos tristes a grã-duquesa Catarina, que, após dez anos estéreis, dará finalmente à imperatriz Isabel o seu precioso herdeiro.

Lá fora, no jardim, ouvem-se os sons de uma perseguição. Miadelas seguidas de latidos, rosnadelas, um uivo trémulo. Os cães de guarda perseguem gatos vadios pelas veredas de gravilha. «Atirem um balde de água para cima do maldito cão!», grita alguém.

Está-se no mês de setembro. A época em que a imperatriz – que diz de si própria que é, no fundo, uma simples rapariga camponesa – gosta de ter notícias da abundante colheita do ano. Medas de feno perfumadas por flores do campo. Vacas que engordaram graças à erva de verão, com os úberes inchados de leite quente. Pássaros que voam em bandos e se juntam em cima de árvores ou cercas, a chilrear, antes de partirem para terras mais quentes.

«Cuidado, Alteza», murmura a parteira, segurando firmemente o cotovelo de Catarina. A sua barriga cada vez maior afetou o seu equilíbrio. Já mais de uma vez tropeçou quando caminhava sobre um chão perfeitamente regular.

A parteira – a espia mais vigilante de Isabel – guarda-a desde que o seu período parou. A sua voz aguda transmite avisos constantes: «Nada de colares, Alteza, nem de contas, nem de levantar as mãos por cima da cabeça… nada de se sentar de pernas cruzadas…»

Mês após mês, Catarina obedeceu e a criança foi crescendo e ela sentiu os seus primeiros movimentos dentro dela, os primeiros pontapés. Agora que o seu útero está prestes a entregar o seu prémio, o seu cabelo foi penteado e recolhido numa touca de renda. A pele do seu ventre está lisa e lustrosa devido à gordura de ganso que tem sido espalhada por cima dela, os seus intestinos estão soltos, de tantos ruibarbos e ameixas comidos. Só as suas mãos trémulas a traem. Os sussurros de sua mãe ainda ecoam na sua cabeça: Quase me mataste, quando nasceste, Sophie. Rasgaste-me como se fosse um saco de serapilheira.

«Em breve, isto terá acabado!» A parteira está decidida a acalmá-la, nem que seja com mentiras, se tal for necessário. O medo de uma mãe é perigoso. Pode deixar marcas na criança que está no útero. Transformá-la num monstro.

* * *

Entretanto, a grã-duquesa, a mulher do príncipe herdeiro, já sabe o que são a perda e o medo, a humilhação e a solidão, e as longas, intermináveis horas de tédio. Sabe o que é sentir que nada mudará. Que todas as saídas foram bloqueadas, que a luz nunca penetrará na sua prisão escura.

Também sabe o que é o amor. O amor que a faz despertar de madrugada com o nome do seu amante nos lábios, os braços a procurarem a presença dele. O amor que a torna faminta, possuída. O amor que desencadeia visões ousadas de fugas imaginárias. Naquela que evoca com mais frequência, Sergei Saltykov trepa até à janela e faz um sinal à parteira para que não diga uma palavra, se dá valor à sua vida. «Vem, Catarina. Levo-te comigo», diz ele, de braços estendidos. A beleza dele corta a respiração dela, os seus cabelos pretos e encaracolados, o brilho dos seus olhos vendados. Uma carruagem sem identificação, diz Sergei, espera na entrada do Jardim de Verão. Têm de se despachar. Partir rapidamente da cidade em direção a uma casa onde criados fiéis a esperam.

– Este amor não é bom para vós – avisa-a Varvara, que guarda os seus próprios segredos. – Lembrais-vos da mulher de Sergei Saltykov?

Para quê fixar-se em coisas que já não interessam? Catarina fecha os olhos que lhe ardem, devido ao fumo das velas. O homem que pensa na segurança dela e no seu conforto rodeia-a com os seus braços, imagina ela. Beija-a a ela e ao bebé recém-nascido, filho de ambos, cujo choro enternece o seu coração.

«Cuidado, Alteza. Por aqui!» A voz da parteira interrompe estes pensamentos.

No chão, encontra-se um colchão. «Crina de cavalo.» A parteira faz um barulho com a língua em sinal de aprovação. «O melhor que pode haver. Nunca ficará húmido nem infestado de percevejos.»

No ar perpassa um cheiro a rosmaninho e lavanda, que se mistura com o perfume forte de alguém que ali esteve há pouco. A própria imperatriz? A imperatriz que, depois de a ter abençoado diante de toda a corte, segredou um aviso ao seu ouvido: «Agora, despachai-vos, Catarina. Não me façais esperar a noite inteira.»

Como é que se pode apressar numa situação como esta?

Os seus olhos evitam a mesa junto da janela, os cueiros enrolados num cesto de verga. Corados ao sol. Toalhas, lençóis. Também são suaves, garantiu-lhe Varvara, antes de desaparecer na escuridão. Gastos, recentemente lavados.

Foi nas mãos de Varvara que depositou uma carta para a sua mãe. Se lerdes esta carta, mãe, não estarei já entre os vivos. Um pedido de perdão por quaisquer ofensas que tenha feito. O legado de algumas joias de pouco valor que pode considerar suas.

Vindas detrás das paredes finas chegam vozes, que falam em segredo, sussurros. Murmúrios de orações, de perguntas feitas, respondidas ou ignoradas. Arquejos de espanto perante algo que foi dito ou sugerido. A imperatriz está lá, com todas as suas damas de companhia. Isabel de Todas as Rússias, que ainda não sabe ao certo se ir buscar a princesa de Anhalt-Zerbst para casar com o seu sobrinho foi um bom negócio.


O seu ventre, grande e protuberante, pesa-lhe. Lá dentro, a criança dá pontapés. Por vezes, um pé ou um cotovelo minúsculos empurram a sua pele.

«A criança abençoada está pronta para este mundo, Alteza», murmura a parteira, quando mais um espasmo a faz gemer. Precisa das mãos dela para a ajudarem a manter o equilíbrio quando se baixa para se estender no colchão de crina de cavalo. São as mãos fortes e competentes de uma mulher que assistiu a muitos partos.

Respirou fundo. Uma vez e, depois,