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Por lugares incríveis

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Year:
2015
Publisher:
Editora Seguinte
Language:
portuguese
ISBN 13:
9788543802428
File:
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6 comments
 
Akiraaa
one of the most beautiful books I've ever read, an exciting story that makes you smile and cry ... a wonderful world that holds you there. I only have good things to say about
02 March 2021 (15:36) 
3v3_llyn
Gostei tanto que até comprei o livro, recomendo! Porém ele é cheio de gatilhos envoltos em depressão e suicídio!

S2
22 June 2021 (21:45) 
Floppy
Gracias por compartir este material
26 June 2021 (11:25) 
daniela
Um dos melhores livros que eu já li, tem um cantinho no meu coração é tão bem estruturado mas tão esmagador que eu não voltaria a ler ele nunca mais
04 September 2021 (00:27) 
Massiviana
É um livro muito bom, é profundo e retrata de forma descontraída sobre a depressão. Recomendo
06 September 2021 (15:36) 
manga
É um livro que nos faz parar pra pensar que tds temos problemas e no final das contas estamos no mesmo barco um livro q mostra que as pessoas, palavras e momentos deixam uma marca
Esse livro me fez pensar que eu quero deixar minha marca
15 September 2021 (18:59) 

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1

Il Quidditch attraverso i secoli

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Language:
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File:
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2

Un esercito per Gideon

Year:
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Language:
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Para minha mãe, Penelope Niven, meu lugar mais incrível





[...] o mundo quebra a cada um deles

e eles ficam mais fortes nos lugares quebrados.

Ernest Hemingway





Estou desperto mais uma vez. Dia 6.

Será que hoje é um bom dia para morrer?

Eu me pergunto isso todas as manhãs quando acordo. E durante a terceira aula, quando tento manter os olhos abertos enquanto o sr. Schroeder fala sem parar. À mesa de jantar, ao passar a salada. E à noite, na cama, sem sono porque meu cérebro não desliga.

Hoje é o dia?

E, se não hoje, quando?

Estou me perguntando agora, em pé sobre um murinho estreito a seis andares de altura. É tão alto que praticamente me sinto no céu. Olho para a calçada lá embaixo e o mundo se inclina. Fecho os olhos e sinto tudo girar. Talvez desta vez eu vá em frente, deixe o ar me levar para longe. Será como flutuar em uma piscina, adormecendo até que não exista nada.

Não me lembro de ter subido até aqui. Na verdade, não me lembro de quase nada antes de domingo, pelo menos nada do que aconteceu neste inverno. Acontece comigo direto — apagar, acordar. Sou como aquele velho barbudo, Rip van Winkle. Num instante você me vê, no outro não. Talvez eu já devesse ter me acostumado, mas essa última vez foi a pior de todas, porque não fiquei adormecido por dois ou três dias nem uma ou duas semanas… Apaguei durante as festas de fim de ano inteiras, ou seja, Ação de Graças, Natal e Ano-Novo. Não sei dizer o que houve de diferente, mas, quando acordei, me sentia mais morto que o habitual. Acordado, sim; mas completamente vazio, como se alguém tivesse drenado meu sangue. Hoje é o sexto dia desde que despertei, e esta é a minha primeira semana no colégio desde 14 de novembro.

Abro os olhos e o chão ainda está lá, duro e estático. Estou na torre do sino do colégio, em pé sobre a borda que tem mais ou menos dez centímetros de largura. A torre é bem pequena, talvez não tenha nem um metro de piso ao redor do sino, e há esse parapeito baixo, de pedra, que escalei para chegar aqui. De vez em quando bato a p; erna contra o parapeito só pra lembrar que ele está ali.

Estendo os braços como se estivesse dando um sermão e toda esta cidadezinha chatíssima fosse minha congregação.

— Senhoras e senhores — grito —, gostaria de apresentar-lhes a minha morte!

Talvez o esperado fosse dizer “vida”, já que acabei de despertar, mas é exatamente quando estou desperto que penso em morrer.

Grito como um velho pregador, sacudindo a cabeça e enrolando o final das palavras, e quase perco o equilíbrio. Me seguro no parapeito atrás de mim, feliz porque ninguém parece notar; verdade seja dita, é difícil parecer destemido quando se está agarrado a um parapeito como um frangote.

— Eu, Theodore Finch, por não estar em pleno gozo das minhas faculdades mentais, por meio desta lego meus bens a Charlie Donahue, Brenda Shank-Kravitz e minhas irmãs. Todas as outras pessoas podem se f… — Lá em casa, desde cedo minha mãe nos ensinou a usar esse palavrão (quando for de fato necessário), mas sempre só a primeira letra. Infelizmente, o costume pegou.

Apesar de o sinal já ter tocado, alguns alunos permanecem no pátio. Estamos na primeira semana do segundo semestre do último ano e a maioria age como se já estivesse se formando. Um garoto olha na minha direção, como se tivesse me ouvido, mas os outros não, porque não me viram ou porque sabem que estou aqui e Ah, é só o Theodore Aberração.

Então ele olha para o outro lado e aponta para o céu. De início, acho que está apontando para mim, mas então a vejo. A garota está a alguns metros de distância, do outro lado da torre, também na beirada, cabelo loiro escuro balançando ao vento, a barra da saia inflando como um paraquedas. Apesar de ser inverno em Indiana, ela está descalça, de meia-calça, segurando as botas e olhando fixo para os pés ou para o chão… não sei dizer. Parece paralisada.

Com minha voz normal, não a de pregador, digo, o mais calmamente possível:

— Vai por mim, o pior que você pode fazer é olhar pra baixo.

Bem devagar, ela vira a cabeça na minha direção, e eu percebo que a conheço, que já a vi pelos corredores. Não resisto e pergunto:

— Vem sempre aqui? Porque esse lugar é como se fosse a minha casa, e não me lembro de ter visto você aqui.

Ela nem pisca, só olha pra mim por trás daqueles óculos grossos que quase cobrem o rosto inteiro. Tenta dar um passo para trás, mas seu pé bate no parapeito. Ela se desequilibra um pouco e, antes que entre em pânico, eu digo:

— Não sei por que veio, mas pra mim a cidade fica mais bonita vista daqui, e as pessoas parecem melhores… mesmo as piores parecem quase gentis. Tirando o Gabe Romero e a Amanda Monk e toda aquela galera com quem você anda.

O nome dela é Violet Alguma Coisa. Ela é superpopular — uma dessas garotas que a gente jamais imaginaria encontrar em um parapeito a seis andares do chão. Atrás dos óculos ridículos, ela é bonita, quase uma boneca de porcelana. Olhos grandes, rosto delicado em formato de coração, boca esboçando um sorriso perfeito. Ela é do tipo que sai com caras como Ryan Cross, destaque do time de beisebol, e senta com Amanda Monk e outras meninas populares no almoço.

— Mas não estamos aqui por causa da vista. Você é a Violet, não é?

Ela pisca uma vez, e eu encaro como “sim”.

— Theodore Finch. Acho que estávamos na mesma turma de matemática no ano passado.

Ela pisca de novo.

— Odeio matemática, mas não foi por isso que subi aqui. Sem ofensa, se for esse seu motivo. Você deve ser melhor em exatas que eu, porque quase todo mundo é, mas tudo bem, não tenho problemas com isso. Sabe, eu me destaco em coisas mais importantes… guitarra, sexo e decepcionar meu pai constantemente, por exemplo. Aliás, parece que é verdade que não serve pra nada na vida. A matemática, quero dizer.

Continuo falando, sem perceber que minhas forças estão se esvaindo. Primeiro, preciso fazer xixi, então minhas palavras não são a única coisa querendo sair. (Nota mental: Antes de tentar se matar, lembrar de tirar água do joelho.) Segundo, está começando a chover e, a essa temperatura, a chuva provavelmente vira granizo antes de alcançar o chão.

— Está começando a chover — digo, como se ela não soubesse. — Acho que podemos considerar que a água vai lavar o sangue, então a sujeira vai ser menor. É a parte da sujeira que me intriga. Não sou vaidoso, mas sou humano; não sei quanto a você, mas não quero que, ao me ver no velório, as pessoas pensem que fui triturado por uma máquina de serragem.

Ela está tremendo de frio ou de nervoso, não sei dizer, então me aproximo devagar, torcendo pra não cair antes de chegar lá, porque a última coisa que quero é me fazer de idiota na frente dessa garota.

— Deixei claro que quero ser cremado, mas minha mãe não acredita nisso.

E meu pai faz tudo o que ela manda pra ela não ficar mais irritada do que normalmente é e, além do mais, Você é muito novo pra pensar nisso, você sabe que a vovó viveu até os noventa e oito anos. Não precisamos falar disso agora, Theodore, não chateie sua mãe.

— Então meu caixão vai estar aberto, o que significa que, se eu pular, não vai ficar nada bonito. Além do mais, eu meio que gosto do meu rosto assim, dois olhos, um nariz, uma boca, todos os dentes… que, pra ser honesto, são uma das minhas melhores qualidades. — Sorrio pra ela conferir. Tudo em seu devido lugar, pelo menos do lado de fora.

Como ela não diz nada, continuo me aproximando e conversando.

— Acima de tudo, tenho pena do agente funerário. Já deve ser um trabalho de merda, aí imagina ter que lidar com um imbecil como eu?

Lá de baixo, alguém grita:

— Violet? É a Violet lá em cima?

— Ai, meu Deus — ela diz, tão baixo que eu mal consigo ouvir. — Ai-meu-Deus-ai-meu-Deus-ai-meu-Deus. — O vento sopra contra sua saia e seu cabelo e parece que ela vai voar para longe.

Começa um burburinho lá embaixo, e eu grito:

— Não tente me salvar! Você vai acabar se matando!

Depois digo bem baixinho, só pra ela:

— Acho que devemos fazer o seguinte… — Estou a mais ou menos um passo dela agora. — Jogue as botas em direção ao sino e agarre o parapeito, agarre pra valer, e, assim que conseguir, se apoie nele e passe o pé direito por cima. Entendeu?

—Tá bom. — Ela faz que sim com a cabeça e quase perde o equilíbrio.

— Não balance a cabeça.

— Tá bom.

— E não vá para o lado errado nem dê um passo à frente em vez de um passo atrás. Vou contar e você vai no três. Tudo bem?

— Tudo bem. — Ela joga as botas em direção ao sino e elas caem fazendo tum tum no concreto.

— Um. Dois. Três.

Ela agarra a pedra e meio que se escora nela e então levanta a perna e a passa por cima até sentar no parapeito. Olha para o chão, e eu percebo que está paralisada de novo, então digo:

— Ótimo. Muito bom. Só pare de olhar pra baixo.

Ela desvia o olhar pra mim devagar e tenta alcançar o chão da torre com o pé direito. Assim que alcança, digo:

— Agora passe a perna esquerda do jeito que conseguir. Não solte do parapeito. — Neste momento, ela está tremendo tanto que eu escuto os dentes batendo, mas vejo o pé esquerdo se juntar ao direito, e ela está a salvo.

Agora só eu estou do lado de fora. Olho para baixo uma última vez, para além dos pés tamanho quarenta e cinco que não param de crescer — hoje estou usando tênis com cadarço florescente —, para além das janelas abertas do quarto andar, do terceiro, do segundo, além de Amanda Monk, que está cacarejando na escadaria em frente ao prédio e balançando o cabelo loiro como se fosse um pônei, com os livros sobre a cabeça, tentando chamar a atenção e se proteger da chuva ao mesmo tempo.

Passando por tudo isso, olho para o chão, que está liso e úmido, e me imagino deitado lá.

Eu poderia simplesmente dar um passo à frente. Em segundos, acabaria com tudo. Nunca mais “Theodore Aberração”. Nunca mais dor. Nunca mais nada.

Tento contornar a interrupção inesperada para salvar uma vida e voltar ao que estava fazendo. Por um minuto, sinto uma paz conforme minha mente se aquieta, como se eu já estivesse morto. Estou leve e livre. Nada e ninguém a temer, nem eu mesmo.

Então, uma voz atrás de mim diz:

— Quero que você agarre o parapeito e, assim que conseguir, se apoie nele e passe o pé direito por cima.

Simples assim, sinto o momento passar, talvez já tenha passado, e agora parece uma ideia idiota, a não ser pelo fato de imaginar a cara da Amanda quando eu caísse perto dela. Esse pensamento me faz rir. Rio tanto que quase perco o equilíbrio, e isso me assusta — tipo, me assusta mesmo — então me apoio no parapeito e Violet me segura enquanto Amanda olha pra cima.

— Aloprado! — alguém grita.

O grupinho da Amanda ri. Ela faz uma concha com a mão ao lado da boca e olha pra cima.

— Você está bem, V?

Violet se inclina sobre o parapeito, ainda segurando minhas pernas.

— Estou.

A porta no topo das escadas da torre se abre e meu melhor amigo, Charlie Donahue, aparece. Charlie é negro. Bem negro mesmo. E faz mais sexo do que qualquer outra pessoa que eu conheço. Como se eu não estivesse em pé no parapeito a seis andares do chão, com os braços abertos e uma garota agarrada nos meus joelhos, ele diz:

— Eles estão servindo pizza hoje.

— Por que não acaba com isso de uma vez, aberração? — Gabe Romero, mais conhecido como Roamer, mais conhecido como Babaca, grita lá de baixo. Mais risadas.

Porque tenho um encontro com a sua mãe mais tarde, penso, mas não digo, porque, sejamos honestos, é uma resposta ridícula, e também porque ele poderia subir e bater na minha cara e me jogar daqui, o que estraga a ideia de eu mesmo fazer isso.

Em vez disso, agradeço.

— Obrigado por me salvar, Violet. Não sei o que faria se você não tivesse vindo. Acho que estaria morto.

O último rosto que vejo lá embaixo é o do meu orientador pedagógico, o sr. Embry. Quando ele olha pra mim, penso: Ótimo. Maravilha.

Violet me ajuda a pular o parapeito e chegar no concreto. Lá embaixo, alguns aplausos, não pra mim, mas pra ela, a heroína. De perto, consigo ver que sua pele é lisa e clara, exceto por duas pintas na bochecha direita, e que seus olhos são de um verde-cinza que lembra o outono. São os olhos que me prendem. São grandes e impressionantes, como se pudessem ver tudo. Por mais que sejam ternos, são inquietos, um olhar direto, do tipo que enxerga você por dentro, o que percebo claramente, mesmo através dos óculos. Ela é bonita e alta, mas não muito alta, com pernas longas e quadril curvilíneo, que eu acho atraente. Muitas garotas do ensino médio parecem meio meninos.

— Eu só estava sentada ali — ela diz. — No parapeito. Não subi aqui pra…

— Deixa eu te perguntar uma coisa: você acha que existe um dia perfeito?

— O quê?

— Um dia perfeito. Do início ao fim. Quando nada de terrível ou triste ou comum acontece. Você acha que é possível?

— Não sei.

— Você já teve um?

— Não.

— Também nunca tive, mas estou em busca dele.

Ela sussurra:

— Obrigada, Theodore Finch.

Fica na ponta dos pés e me dá um beijo no rosto, e sinto o cheiro do xampu, que lembra flores. Então, diz no meu ouvido:

— Se contar a verdade a alguém, mato você.

Segurando as botas, ela se afasta correndo pra se proteger da chuva, voltando à porta que dá nas escadas escuras e instáveis que levam a um dos muitos corredores iluminados e abarrotados da escola.

Charlie fica olhando pra ela e, quando a porta fecha, vira pra mim.

— Cara, por que você faz isso?

— Porque todos vamos morrer um dia. Eu só quero estar preparado.

Esse não é o motivo, claro, mas a explicação foi suficiente pra ele. A verdade é que existem muitos motivos, que mudam diariamente, como as treze crianças assassinadas no início desta semana quando um FDP entrou atirando no ginásio de uma escola, ou a garota dois anos mais nova que eu que acabou de morrer de câncer, ou o homem que eu vi chutando um cachorro na frente do shopping, ou simplesmente meu pai.

Charlie pode até pensar que sou aloprado, mas não diz nada, por isso é meu melhor amigo. Tirando esse fato, não temos muito em comum.





Tecnicamente, este ano estou sob provação. Isso se deve a uma bobagem envolvendo uma mesa e uma lousa. (Só pra constar, uma lousa custa mais caro do que se imagina.) Também se deve a um incidente com uma guitarra em um evento escolar, ao uso ilegal de fogos de artifício e talvez a uma ou duas brigas. Como resultado, tive de concordar com o seguinte: aconselhamento semanal; manter média B; e participar de pelo menos uma atividade extracurricular. Escolhi crochê porque sou o único cara no meio de vinte garotas até que bonitas, o que considerei uma boa oportunidade. Também tenho que me comportar, interagir bem com os outros, me abster de atirar mesas por aí e de entrar em quaisquer “disputas físicas violentas”. E devo sempre, sempre, não importa o que eu faça, segurar a língua, porque não segurar, aparentemente, é o início dos problemas. Se eu f… com alguma coisa a partir de agora, é expulsão.

Na sala de orientação pedagógica, falo com a secretária e sento em uma das cadeiras desconfortáveis de madeira até que o sr. Embry esteja pronto para me atender. Se bem conheço o Embrião — é como o chamo secretamente —, e de fato o conheço, ele vai querer saber exatamente o que diabos eu estava fazendo na torre do sino. Se eu tiver sorte, não teremos tempo pra falar sobre mais nada.

Em poucos minutos ele me chama. É um homem baixo e troncudo como um touro. Ao fechar a porta, desfaz o sorriso. Senta, se debruça sobre a mesa e fixa os olhos em mim como se eu fosse um suspeito a interrogar.

— Que diabos você estava fazendo na torre?

O que eu gosto no Embrião é que, além de ser previsível, ele vai direto ao ponto. Nós nos conhecemos desde que eu estava no segundo ano.

— Queria apreciar a vista.

— Estava pensando em se jogar?

— Não no dia de pizza, que é um dos melhores cardápios da semana.

Devo mencionar que sou um brilhante desviador de assunto. Tão brilhante que conseguiria bolsa integral na faculdade pra me formar nisso, mas pra quê? Já sou mestre nessa arte mesmo.

Espero ele perguntar sobre Violet, mas em vez disso ele diz:

— Preciso saber se você planejava ou está planejando se matar. Estou falando muito sério. Se o diretor Wertz souber disso, você estará fora daqui antes que consiga dizer “suspensão”. Isso sem falar que, se eu não prestar atenção e você decidir voltar lá em cima e pular, vou ser processado, e com o salário que eles me pagam, acredite, não tenho dinheiro para me defender judicialmente. Isso vai acontecer se você pular da torre do sino ou de qualquer outra torre, seja propriedade da escola ou não.

Passo a mão no queixo, como se estivesse imerso em algum pensamento.

— Uma torre fora do colégio. É uma ótima ideia.

Ele não mexe um músculo, só me encara estreitando os olhos. Como a maioria das pessoas do Meio-Oeste, o Embrião não tem senso de humor, principalmente no que se refere a temas delicados.

— Não é engraçado, sr. Finch. Não é assunto para piada.

— Não, senhor. Me desculpe.

— Os suicidas não pensam no próprio velório. Nem nos pais, irmãos, amigos, namoradas, colegas, professores.

Gosto como ele parece achar que tenho tantas, tantas pessoas dependendo de mim, incluindo não apenas uma, mas várias namoradas.

— Eu só estava brincando. Concordo que provavelmente não foi o melhor jeito de matar a primeira aula.

Ele pega uma pasta e joga com força na mesa e começa a folhear os arquivos. Eu espero, e então ele olha pra mim de novo. Me pergunto se está contando os dias para as férias de verão.

Fica em pé, como um policial de filme, e dá a volta na mesa até chegar perto de mim. Se apoia nela, com os braços cruzados, e eu olho atrás dele, procurando pelo espelho falso escondido.

— Preciso chamar sua mãe?

— Não. E repito: não. — Não, não, não. — Olha só, foi uma coisa idiota. Eu só queria ver qual é a sensação de subir lá e olhar pra baixo. Nunca pularia da torre do sino.

— Se acontecer de novo, se você cogitar fazer isso de novo, vou ligar pra ela. E você vai fazer um exame toxicológico.

— Obrigado pela preocupação, senhor. — Tento parecer o mais sincero possível, porque a última coisa que quero é um holofote maior e mais brilhante em cima de mim, me seguindo pelos corredores da escola, pela vida. E, na verdade, gosto do Embrião. — Quanto a essa questão das drogas, não precisa perder seu tempo precioso. De verdade. A não ser que cigarro conte. Drogas? Não me dou muito bem com elas. Acredite, já experimentei. — Cruzo as mãos como um bom menino. — Quanto à torre do sino, apesar de não ter sido, de jeito nenhum, o que você está pensando, prometo que não vai acontecer de novo.

— Isso mesmo… não vai. E quero você aqui duas vezes por semana. Você vem segunda e sexta e conversa comigo pra eu ver como está indo.

— Ficaria feliz em vir, senhor. Eu gosto muito dessas conversas, sabe, mas estou bem.

— Não é negociável. Agora vamos falar sobre o fim do semestre passado. Você perdeu quatro, quase cinco semanas de aula. Sua mãe me disse que você estava gripado.

Na verdade, quem disse foi minha irmã, Kate, mas ele não sabe disso. Foi ela que ligou para a escola enquanto eu estava apagado, porque minha mãe já tem muito com que se preocupar.

— Se é isso o que ela diz, quem somos nós para discutir?

A verdade é que eu estava mesmo doente, mas não com uma simples gripe. De acordo com minha experiência, as pessoas são muito mais compreensivas se conseguem ver a sua doença, e pela milionésima vez na vida eu desejei ter sarampo ou varíola ou alguma outra coisa facilmente verificável só pra ficar mais fácil pra mim e pra todo mundo. Qualquer coisa seria melhor que a verdade: Desliguei de novo. Apaguei. Num minuto, tudo estava girando e, no instante seguinte, minha mente se arrastava em círculos, como um cão velho com artrite tentando se deitar. Então simplesmente desliguei e dormi, mas não como você faz todas as noites. Pense em um sono longo e profundo, durante o qual você nem sonha.

Mais uma vez, o Embrião estreita os olhos e me encara, tentando captar alguma hesitação.

— Posso acreditar que você vai vir e vai ficar longe de problemas este semestre?

— Com certeza.

— E que vai fazer os trabalhos?

— Sim, senhor.

— Vou combinar o exame toxicológico com a enfermeira. — Ele aponta pra mim num gesto brusco. — Provação significa “período para testar a adequação de uma pessoa; período em que a pessoa precisa melhorar”. Se não acredita em mim, pesquise e, pelo amor de Deus, fique vivo.

O que não digo é o seguinte: quero viver. E o motivo para não dizer é que, considerando a pasta repleta de ocorrências na frente dele, o sr. Embry jamais acreditaria em mim. E tem outra coisa na qual ele não acreditaria: estou lutando para permanecer neste mundo caótico de merda. Ficar no parapeito da torre do sino não é pra morrer. É pra ter controle. É pra nunca mais dormir de novo.

O Embrião procura pela mesa e reúne uma pilha de panfletos para “adolescentes problemáticos”. Então me diz que não estou sozinho e que posso conversar com ele sempre, que sua porta está aberta, que ele está ali e que me espera na segunda. Quero dizer “sem ofensa, mas isso não me conforta muito”. Mas simplesmente agradeço, por causa de suas olheiras e rugas de fumante ao redor da boca. Provavelmente vai acender um cigarro assim que eu sair. Pego alguns panfletos e o deixo com seu cigarro. Ele nem mencionou Violet, ainda bem.





154 dias para a formatura

Manhã de sexta. Escritório da sra. Marion Kresney, orientadora pedagógica, que tem olhos pequenos e gentis e um sorriso que quase não cabe no rosto. De acordo com o certificado pendurado na parede, ela trabalha no colégio Bartlett há quinze anos. Esta é nossa décima segunda reunião.

Meu coração está acelerado e minhas mãos ainda tremem por ter subido no parapeito da torre do sino. Meu corpo inteiro está gelado e tudo o que eu quero é deitar. Espero a sra. Kresney dizer: Eu sei o que você estava fazendo na primeira aula, Violet Markey. Seus pais estão vindo pra cá. Médicos estão de prontidão para levá-la ao instituto psiquiátrico mais próximo.

Mas começamos como sempre.

— Como você está, Violet?

— Estou bem, e você? — Sento sobre as mãos.

— Também. Mas vamos falar de você. Quero saber como está se sentindo.

— Tudo bem. — Só porque ela não tocou no assunto, não quer dizer que não saiba. Ela quase nunca pergunta as coisas diretamente.

— Como tem dormido?

Os pesadelos começaram um mês depois do acidente. Ela pergunta sobre isso sempre que nos vemos, porque cometi o erro de contar pra minha mãe, que contou pra ela. Esse é um dos principais motivos pelos quais estou aqui e a razão pela qual parei de falar as coisas pra minha mãe.

— Tenho dormido bem.

A sra. Kresney sempre sorri, não importa o que aconteça. Gosto disso nela.

— Algum sonho ruim?

— Não.

Eu costumava escrever sobre meus pesadelos, mas não escrevo mais. Lembro cada detalhe. Como o que tive há quatro semanas, em que eu estava literalmente derretendo. No sonho, meu pai me disse: “Você chegou ao fim, Violet. Chegou ao limite. Todos temos um limite, e o seu é este”. Mas eu não quero que seja. Vi meus pés virarem poças e desaparecerem. Depois foram as mãos. Não doía, e me lembro de pensar: Eu não deveria me importar, porque não dói. Só estou desaparecendo. Mas eu me importei quando, membro a membro, o resto de mim sumiu antes que eu acordasse.

A sra. Kresney se mexe na cadeira, com o sorriso fixo no rosto. Me pergunto se ela sorri enquanto dorme.

— Vamos conversar sobre a faculdade.

Durante essa mesma época, no ano passado, eu adoraria conversar sobre a faculdade. Eleanor e eu costumávamos fazer isso de vez em quando, depois que nossos pais iam dormir. Se a temperatura estivesse agradável, sentávamos do lado de fora; quando fazia frio, ficávamos dentro de casa mesmo. Imaginávamos os lugares para onde iríamos e as pessoas que conheceríamos, bem longe de Bartlett, Indiana, população de 14983 habitantes, onde nos sentíamos extraterrestres de algum planeta distante.

— Você se inscreveu na UCLA, Stanford, Berkeley, Universidade da Flórida, Universidade de Buenos Aires, Universidade do Norte Caribenho e Universidade Nacional de Cingapura. É uma lista bem abrangente, mas e a NYU?

Desde as férias de verão antes do sétimo ano, o curso de escrita criativa da NYU era meu sonho. Isso porque visitei Nova York com a minha mãe, que é professora universitária e escritora. Ela fez pós-graduação na NYU e durante três semanas nós quatro visitamos a cidade e conhecemos seus antigos professores e colegas — romancistas, dramaturgos, roteiristas, poetas. Meu plano era me inscrever para a admissão antecipada, em outubro. Então o acidente aconteceu e mudei de ideia.

— Perdi a inscrição. — O prazo para admissão regular foi há uma semana. Preenchi tudo, até escrevi a dissertação, mas não enviei.

— Vamos conversar sobre sua escrita. Vamos conversar sobre o site.

Ela está falando do eleanoreviolet.com. Eleanor e eu começamos o site quando viemos morar em Indiana. Queríamos criar uma revista on-line que oferecesse duas visões (muito) diferentes sobre moda, beleza, garotos, livros, a vida em geral. Ano passado, Gemma Sterling (estrela da websérie Rant), amiga de Eleanor, mencionou nosso site em uma entrevista, e o número de seguidores triplicou. Mas eu não encostei mais nele desde que Eleanor morreu. Afinal, qual seria o objetivo? Era um site sobre irmãs. Além do mais, naquele instante em que atravessamos a barra de proteção, minhas palavras também morreram.

— Não quero falar sobre o site.

— Soube que sua mãe é escritora. Ela deve dar várias dicas.

— Jessamyn West disse: “Escrever é tão difícil que os autores, tendo passado o inferno na Terra, escaparão de qualquer punição depois”.

Ela fica instigada com a citação.

— Você acha que está sendo punida?

Ela está falando do acidente. Ou talvez esteja se referindo a estar aqui nesta sala, neste colégio, nesta cidade.

— Não.

Se eu sinto que deveria ser punida? Sim. Por que mais eu teria cortado a franja?

— Você acha que é responsável pelo que aconteceu?

Arrumo a franja. Está torta.

— Não.

Ela recosta na cadeira. O sorriso desliza uma fração de centímetro. Nós duas sabemos que estou mentindo. Me pergunto o que ela diria se eu contasse que há uma hora estavam me convencendo a sair do parapeito da torre do sino. Agora, tenho quase certeza de que ela não sabe.

— Você já voltou a dirigir?

— Não.

— Já andou de carro com seus pais?

— Não.

— Mas eles querem que você ande. — Isso não é uma pergunta. Ela fala como se tivesse conversado com um deles, ou com os dois, o que provavelmente aconteceu.

— Não estou pronta. — Essas são as três palavras mágicas. Descobri que podem me livrar de praticamente qualquer coisa.

Ela se inclina para a frente.

— Já pensou em voltar para a equipe de torcida?

— Não.

— Grêmio estudantil?

— Não.

— Ainda toca flauta na orquestra?

— Sou a última cadeira. — Essa é uma coisa que não mudou desde o acidente. Sempre fui a última cadeira porque não sou muito boa na flauta.

Ela se encosta de novo. Por um momento penso que está desistindo. Então, diz:

— Estou preocupada, Violet. Sinceramente, você já deveria ter melhorado um pouco mais. Você não pode evitar carros pra sempre, principalmente agora no inverno. Não pode parar no tempo. Precisa lembrar que é uma sobrevivente, e isso quer dizer que…

Nunca vou saber o que isso quer dizer porque, assim que ouço a palavra “sobrevivente”, levanto e saio.





A caminho da quarta aula. Corredor da escola.

Pelo menos quinze pessoas — algumas eu conheço, outras não, outras não conversam comigo há meses — me param no caminho até a sala para me dizer como fui corajosa de evitar que Theodore Finch se matasse. Uma das garotas do jornal do colégio quer fazer uma entrevista.

De todas as pessoas que eu poderia ter “salvado”, Theodore Finch é a pior escolha, porque é uma lenda do Bartlett. Não o conheço muito bem, mas já ouvi falar dele. Todo mundo já ouviu falar dele. Algumas pessoas o odeiam porque acham que ele é esquisito e se mete em brigas e toma suspensão e faz o que quer. Algumas pessoas o idolatram porque acham que ele é esquisito e se mete em brigas e toma suspensão e faz o que quer. Ele toca guitarra em cinco ou seis bandas diferentes e, no ano passado, gravou uma música. Ele é meio… radical. Tipo, um dia veio pra aula pintado de vermelho da cabeça aos pés, e nem era dia de jogo. Falou pra algumas pessoas que estava protestando contra o racismo e pra outras que estava protestando contra o consumo de carne. No primeiro ano, apareceu de capa durante um mês inteiro, quebrou uma lousa no meio com uma mesa e roubou os sapos do laboratório de biologia e fez um funeral para eles antes de enterrá-los no campo de beisebol. A grande Anna Faris uma vez disse que o segredo para sobreviver ao ensino médio é “ficar de boa”. Finch faz o contrário disso.

Chego cinco minutos atrasada para a aula de literatura russa, na qual a sra. Mahone está passando um trabalho de dez páginas sobre Os irmãos Karamazov. Todos reclamam, menos eu, porque apesar do que a sra. Kresney parece pensar, tenho minhas circunstâncias atenuantes.

Nem escuto quando a sra. Mahone explica o que devemos fazer. Em vez disso, arranco um fio solto da saia. Estou com dor de cabeça. Provavelmente por causa dos óculos. A miopia de Eleanor era mais alta que a minha. Tiro os óculos e os apoio na mesa. Ficavam estilosos nela. Ficam feios em mim. Principalmente agora que tenho franja. Talvez, se usá-los o bastante, eu consiga ser como ela. Consiga ver o que ela via. Talvez eu seja nós duas ao mesmo tempo, e ninguém vai sentir falta dela, nem mesmo eu.

Tenho dias bons e dias ruins. Quase me sinto culpada por dizer que não são todos ruins. Alguma coisa me pega desprevenida — um programa na TV, uma piada do meu pai, um comentário na aula — e rio como se nada tivesse acontecido. Volto ao normal, o que quer que “normal” signifique. Algumas manhãs acordo e me pego cantarolando enquanto me arrumo. Ou aumento o volume do rádio e danço. Na maior parte dos dias, vou andando pra aula. Em outros, pego a bicicleta, e às vezes minha cabeça me engana e penso que sou só uma garota comum dando uma volta à toa.

Emily Ward cutuca minhas costas e me passa um bilhete. Como a sra. Mahone recolhe os celulares no início das aulas, temos que conversar à moda antiga, arrancando folhas do caderno.

É verdade que você impediu que Finch se suicidasse? Bj. Ryan. Só tem um Ryan na sala — alguns diriam que só existe um Ryan no colégio inteiro, talvez até no mundo —, e é Ryan Cross.

Levanto a cabeça e vejo que ele está olhando pra mim, duas fileiras adiante. Ele é lindo. Ombros largos, cabelo castanho-dourado, olhos verdes e sardas suficientes para que pareça acessível. Até dezembro, ele era meu namorado, mas agora estamos dando um tempo.

Deixo o bilhete em cima da mesa por cinco minutos antes de responder. Finalmente, escrevo: Só calhou de eu estar lá. Bj. V. Menos de um minuto depois, o bilhete volta pra mim, mas desta vez não abro. Penso em quantas garotas adorariam receber um bilhete de Ryan Cross. A Violet Markey da última primavera teria sido uma delas.

Quando o sinal toca, fico pra trás. Ryan demora um pouco pra sair, esperando pra ver o que vou fazer, mas quando vê que fiquei sentada, pega o celular e vai embora.

A sra. Mahone diz:

— Pois não, Violet?

Antes, dez páginas não eram nada de mais. O professor pedia dez e eu escrevia vinte. Se pedisse vinte, eu entregava trinta. Escrever era o que eu fazia de melhor, melhor até do que ser filha ou namorada ou irmã. Escrever fazia parte de mim. Mas agora escrever é só mais uma das coisas que não consigo fazer.

Não preciso dizer quase nada, nem mesmo “Não estou pronta”. Está no livro não escrito de regras da vida, no capítulo “Como reagir quando um aluno perde um ente querido e, nove meses depois, ainda está passando por um momento difícil”.

A sra. Mahone suspira e devolve meu celular.

— Entregue uma página ou um parágrafo, Violet. Ao menos tente.

Minhas circunstâncias atenuantes salvam o dia.

Do lado de fora da sala, Ryan me espera. Vejo na cara dele que está tentando resolver o enigma e me transformar na namorada divertida que eu costumava ser. Ele diz:

— Você está linda hoje.

Ele é gentil e não repara no meu cabelo.

— Obrigada.

Por sobre o ombro de Ryan, vejo Theodore Finch passar como um pavão. Acena com a cabeça, como se soubesse de algo que não sei, e segue em frente.





Dia 6 desperto (ainda)

No almoço, toda a escola já sabe que Violet Markey salvou Theodore Finch na torre do sino. No corredor, a caminho da aula de geografia, ando atrás de um grupo de garotas que não param de falar disso, sem imaginar que sou o próprio Theodore Finch.

Elas falam todas ao mesmo tempo, num tom de voz agudo que parece sempre terminar em interrogação, tipo: Ouvi dizer que ele estava armado? E que ela teve que arrancar a arma da mão dele? Minha prima Stacey, que estuda no New Castle, disse que ela e uma amiga estavam em Chicago e ele estava tocando em um bar e, tipo, ficou com as duas? Bom, meu irmão estava lá quando ele acendeu os fogos de artifício e contou que antes de a polícia aparecer, ele disse: “A não ser que vocês me reembolsem pelos fogos, vou ficar para o grand finale”?

Aparentemente, sou trágico e perigoso. É isso aí, penso. Isso mesmo. Estou aqui, agora, não só acordado, mas desperto, e todos vão ter que aprender a lidar com isso. Chego mais perto e digo:

— Ouvi dizer que ele fez isso por causa de uma garota — e sigo com passos firmes para a aula.

Já na sala, sento no meu lugar, me sentindo infame e invencível e inquieto e estranhamente animado, como se tivesse acabado de escapar… da morte. Olho ao redor, mas ninguém está prestando atenção em mim ou no sr. Black, nosso professor, que é literalmente o maior homem que já vi. Ele tem a cara vermelha, bem vermelha, então sempre parece que está com insolação ou à beira de um ataque cardíaco, e fica sem fôlego quando fala.

Durante todo esse tempo que vivi em Indiana, ou seja, minha vida inteira — os anos de purgatório, como sempre digo —, aparentemente estivemos a apenas dezessete quilômetros do ponto mais alto do estado. Ninguém nunca me disse isso, nem meus pais nem minhas irmãs nem meus professores, até agora, neste exato minuto, na seção “Sobre Indiana” da aula de geografia — instituída pela diretoria este ano como uma tentativa de “ensinar aos alunos a riqueza histórica do próprio estado e inspirar o orgulho de nascer em Indiana”.

É sério.

O sr. Black se acomoda na cadeira e limpa a garganta.

— Será que existe… um jeito melhor e mais… apropriado de iniciar… o semestre do que começando… pelo ponto mais alto?

É difícil dizer se o sr. Black está mesmo impressionado com a informação que transmite ou se está apenas com falta de ar.

— O monte Hoosier está… 383 metros acima do nível do mar… e fica no quintal… de uma casa de família… Em 2005, um escoteiro de Kentucky… obteve permissão para… abrir uma trilha e montar… uma área para piquenique… e colocou uma placa…

Levanto a mão, mas sou ignorado pelo sr. Black.

Enquanto ele continua falando, deixo a mão levantada e penso: E se eu fosse até lá e ficasse em pé no ponto mais alto? As coisas pareceriam diferentes a 383 metros de altura? Não deve ser tão alto assim, mas as pessoas têm orgulho disso, e quem sou eu para dizer que 383 metros não são suficientes para impressionar alguém?

Finalmente, ele acena com a cabeça pra mim, com os lábios tão cerrados que parece que os engoliu.

— Sim, sr. Finch? — Ele solta um suspiro que parece ter saído de um homem de cem anos e lança um olhar apreensivo e desconfiado.

— Sugiro uma excursão. Precisamos ver os lugares maravilhosos de Indiana enquanto podemos, porque pelo menos alguns dos que estão nesta sala vão se formar e ir embora deste grandioso estado no fim do ano, e como poderemos divulgá-lo se só tivermos a formação básica oferecida por um dos piores sistemas educacionais do país? Além do mais, é difícil compreender a grandeza de um lugar sem vê-lo. É como o Grand Canyon ou o Parque Yosemite: é preciso estar lá para apreciar de verdade seu esplendor.

— Obrigado, sr. Finch — diz o sr. Black em um tom que indica exatamente o oposto de agradecimento, apesar de eu estar sendo apenas vinte por cento sarcástico. Começo a desenhar montanhas no caderno em homenagem ao ponto mais alto do estado, mas elas parecem bolotas disformes ou cobras voadoras, sei lá.

— Theodore tem razão… Alguns de vocês… vão embora daqui… no fim do ano… para estudar. Deixarão nosso… grande estado e… antes de ir embora… vocês deveriam… conhecê-lo. Deveriam… andar por aí…

Um barulho vindo do outro lado da sala o distrai. Alguém chegou atrasado e derrubou um livro e, na hora de apanhá-lo, derrubou todos os outros. O que segue são risadas, porque estamos no ensino médio, o que significa que somos previsíveis e quase qualquer coisa é engraçada, principalmente se causar a humilhação pública de alguém. Quem derrubou o material foi Violet Markey, a garota da torre do sino. Ela fica roxa de vergonha e parece que quer morrer. Não uma morte do tipo pulando de uma torre, mas sim do tipo Por favor, Terra, abra um buraco e me engula.

Conheço essa sensação melhor do que conheço minha mãe ou minhas irmãs ou Charlie Donahue. Andamos juntos a vida inteira. Como a vez em que bati a cabeça e tive uma concussão na frente da Suze Haines na aula de educação física; ou a vez em que ri tanto que uma coisa saiu voando do meu nariz e aterrissou em Gabe Romero; ou o oitavo ano inteiro.

Então, como estou acostumado com isso e essa tal de Violet vai chorar se derrubar mais um lápis que seja, jogo um livro no chão. Todos os olhos se voltam pra mim. Me inclino para recolher e jogo todos os outros de propósito — eles batem na parede, na janela, na cabeça dos outros — e, só pra garantir, inclino a cadeira e me jogo no chão. A cena é acompanhada de risadinhas e aplausos e alguns gritos de “aberração”, e o sr. Black diz, ofegante:

— Se já terminou… Theodore… eu gostaria de continuar.

Levanto, arrumo a cadeira, faço uma reverência, junto os livros, faço outra reverência, sento e sorrio para Violet, que me olha de um jeito que só pode ser descrito como surpresa e alívio e alguma outra coisa — preocupação, talvez. Eu gostaria de acreditar que tem um pouco de desejo ali também, mas seria só ilusão. Abro o melhor sorriso que posso, aquele que faz com que minha mãe me perdoe por chegar muito tarde ou por ser estranho. (Às vezes, pego minha mãe me olhando — quando me olha — como se pensasse: De onde é que você surgiu? Com certeza puxou isso do seu pai.)

Violet sorri de volta. Imediatamente me sinto melhor, porque ela se sente melhor e por causa do jeito que olha pra mim, como se não precisasse me evitar. Essa é a segunda vez, em um dia, que a salvo. Todo generoso, esse Theodore, minha mãe sempre diz. Generoso demais para o seu próprio bem. Ela diz isso em tom de crítica e é assim que eu encaro.

O sr. Black fixa os olhos em Violet e depois em mim.

— Como eu ia dizendo… o projeto para esta… aula é escrever sobre… pelo menos duas, preferencialmente três… maravilhas de Indiana.

Quero perguntar “E a excursão?”, mas estou muito ocupado olhando para Violet enquanto ela se concentra na lousa, com o canto da boca ainda denunciando um sorriso.

O sr. Black continua falando sobre como quer que a gente fique à vontade para escolher lugares que agucem a imaginação, mesmo que sejam obscuros ou distantes. Nossa missão é visitar cada um, tirar fotos, filmar, pesquisar sua história a fundo e contar exatamente o que nesses lugares nos deixou orgulhosos por ser de Indiana. Se for possível relacioná-los de algum jeito, melhor. Temos o resto do semestre pra terminar o projeto e precisamos levar a sério.

— Vocês vão trabalhar… em duplas. O trabalho vale… trinta e cinco por cento… da nota final…

Levanto a mão de novo.

— Podemos escolher as duplas?

— Sim.

— Escolho Violet Markey.

— Você pode combinar… com ela depois da aula.

Me viro para ela, cotovelo apoiado nas costas da cadeira.

— Violet Markey, queria ser sua dupla.

Seu rosto fica vermelho quando todos olham pra ela.

— Sr. Black, eu pensei em talvez fazer outra coisa, quem sabe pesquisar e escrever uma breve dissertação — ela fala baixo, mas parece um pouco irritada —, pois não estou pronta pra…

Ele a interrompe:

— Srta. Markey, vou lhe fazer… o maior favor… possível e… vou dizer… não.

— Não?

— Não. Começamos um novo ano… é hora de retomar as rédeas… do seu burrico…

Algumas pessoas riem. Violet olha pra mim e percebo que, sim, ela está irritada, e é aí que me lembro do acidente. Violet e a irmã, na última primavera. Violet sobreviveu, mas a irmã morreu. É por isso que ela está assim.

O sr. Black passa o restante da aula falando sobre lugares de que podemos gostar e que, independente de qualquer coisa, precisamos visitar antes da formatura — pontos turísticos, como o Parque Histórico Conner Prairie, a casa de Levi Coffin, o Museu Lincoln e a casa onde James Whitcomb Riley passou a infância —, mas sei que a maioria de nós ficará aqui nesta cidade até morrer.

Tento chamar a atenção de Violet de novo, mas ela não levanta mais o rosto. Em vez disso, se encolhe na cadeira e olha fixo pra frente.





Fora da sala, Gabe Romero bloqueia minha passagem. Como sempre, não está sozinho. Amanda Monk espera logo atrás, jogando o quadril pro lado, entre Joe Wyatt e Ryan Cross. Ryan é tranquilo, decente, do bem, atleta, aluno exemplar, representante da turma. Seu maior defeito é que, desde o jardim de infância, ele sabe exatamente quem é.

— É bom eu não pegar você olhando pra mim de novo — diz Roamer.

— Eu não estava olhando pra você. Pode acreditar que tem uma centena de coisas naquela sala que chamariam minha atenção antes de você, incluindo o bundão do sr. Black.

— Bicha.

Como Roamer e eu somos inimigos declarados desde o fundamental, ele derruba os livros que estou segurando e, apesar de isso ser bullying digno do sexto ano, sinto uma chama de raiva familiar — como uma velha amiga — se acender em meu estômago, a fumaça espessa e tóxica subindo e se espalhando pelo meu peito. A mesma sensação que tive no ano passado um instante antes de pegar uma mesa e arremessá-la — não no Roamer, como ele quer que todos acreditem, mas na lousa da sala do sr. Geary.

— Cata aí, bichinha — Roamer passa por mim e, com o ombro, bate forte no meu peito. Quero bater a cabeça dele em um armário e enfiar a mão em sua garganta e puxar seu coração pela boca, porque estar desperto faz com que tudo na gente esteja vivo e pulsante e compense pelo tempo perdido.

Em vez disso, conto até sessenta, com um sorriso idiota estampado na minha cara idiota. Não vou tomar advertência. Não vou ser expulso. Vou ficar na boa. Vou ficar calmo. Vou ficar quieto.

O sr. Black assiste da porta da sala, e tento acenar pra ele com naturalidade pra mostrar que está tudo bem, tudo sob controle, não tem nada de mais acontecendo, as mãos não estão coçando, a pele não está queimando, o sangue não está fervendo, siga em frente, por favor. Prometi a mim mesmo que este ano vai ser diferente. Se eu continuar no controle de tudo, incluindo de mim mesmo, talvez consiga ficar desperto e aqui, não parcialmente aqui, mas aqui, presente, agora.





A chuva parou e, no estacionamento, Charlie Donahue e eu estamos encostados no carro dele, sob o sol pálido de janeiro, enquanto ele fala daquilo que mais ama falar além de si mesmo: sexo. Nossa amiga Brenda está junto, com os livros apertados contra os peitos enormes e o cabelo brilhando em tons de rosa e vermelho.

Charlie passou as férias de inverno trabalhando no cinema do shopping e aparentemente deixou todas as gostosas entrarem sem pagar. Isso fez com que conseguisse pegar mais garotas do que até mesmo ele conseguiria dar conta, aproveitando bem os assentos do fundo, que não têm encosto de braço.

— E você? — ele diz, acenando pra mim com a cabeça.

— O que tem eu?

— Por onde andou?

— Por aí. Não estava a fim de vir pra aula, então peguei a estrada e não olhei pra trás.

Não tem como explicar o Apagão aos meus amigos, e mesmo se tivesse, não tem por que tocar no assunto. Umas das coisas que eu gosto no Charlie e na Bren é que não preciso ficar me explicando. Apareço, sumo, e… Bom, é o Finch.

Charlie acena de novo.

— A gente tem que arrumar uma garota pra você. — Ele está falando indiretamente do incidente na torre. Se eu pegar alguém, não vou tentar me matar. De acordo com Charlie, pegar alguém conserta tudo. Se os líderes mundiais pegassem alguém pra valer e com frequência, talvez os problemas do mundo desaparecessem.

Brenda fecha a cara.

— Você é nojento, Charlie.

— Você me ama.

— Nem em sonho. Por que você não é como Finch? Ele é um cavalheiro.

Não são muitas as pessoas que diriam isso de mim, mas um ponto positivo da vida é que podemos ser alguém diferente pra cada pessoa.

— Me deixa fora disso — digo.

Bren balança a cabeça.

— Não, estou falando sério. É raro encontrarmos cavalheiros. São como virgens ou duendes. Se um dia eu casar, vai ser com um…

Não resisto e complemento:

— Um virgem ou um duende?

Ela me dá um murro no braço.

— Existe uma diferença entre ser cavalheiro e não ter as manhas — Charlie aponta pra mim. — Sem ofensa, cara.

— Tudo bem.

Afinal de contas é verdade, pelo menos em comparação a ele, e o que Charlie quer dizer é que não tenho talento com mulheres. Sempre acabo indo atrás das mal-humoradas ou doidas ou que fingem não me conhecer quando tem alguém por perto.

Enfim, mal estou prestando atenção, porque por cima do ombro da Bren vejo Violet. Sinto que estou me apaixonando — e sou famoso por isso. (Suze Haines, Laila Collman, Annalise Lemke, as três Brianas — Briana Harley, Briana Bailey, Briana Boudreau…) Só porque ela sorriu pra mim. Mas foi um belo sorriso. Um sorriso genuíno, o que é difícil de encontrar nos dias de hoje. Principalmente quando se é Theodore Aberração.

Bren vira pra ver o que estou olhando. Balança a cabeça, a boca em um sorriso debochado que me faz proteger o braço.

— Meu Deus! Vocês garotos são todos iguais.





Em casa, minha mãe está no telefone e colocou um dos ensopados que minha irmã Kate prepara no início de toda semana pra descongelar. Acena pra mim e continua falando. Kate desce a escada correndo, pega a chave do carro no balcão e diz:

— Até mais tarde, trouxa.

Tenho duas irmãs: Kate, um ano mais velha que eu, e Decca, de oito anos. Ela claramente não foi planejada — e descobriu isso aos seis anos. Mas todos sabemos que, se tem alguém na família que foi um equívoco de verdade, esse alguém sou eu.

Com os sapatos molhados fazendo barulho, subo a escada e fecho a porta do quarto. Pego um vinil antigo qualquer e enfio na vitrola que encontrei no porão. O disco pula e chia, lembrando um som talvez dos anos 20. Estou numa fase meio Split Enz, por isso o tênis. Estou testando um Theodore Finch anos 80, vendo se ele se encaixa.

Procuro um cigarro na mesa, coloco na boca e, enquanto pego o isqueiro, lembro que o Theodore Finch anos 80 não fuma. Cara, como eu odeio esse certinho imbecil. Deixo o cigarro na boca sem acender, tentando mastigar a nicotina, e pego a guitarra, acompanho a música, desisto e vou para o computador, virando a cadeira e sentando ao contrário, pois só assim consigo compor.

Digito: 5 de janeiro. Método: torre do sino do colégio. Numa escala de um a dez, quanto cheguei perto? Cinco. Curiosidade: os casos de gente que se joga aumentam em dias de lua cheia e feriados. Um dos mais famosos a pular foi Roy Raymond, criador da Victoria’s Secret. Outra curiosidade: em 1912, Franz Reichelt pulou da torre Eiffel com um paraquedas confeccionado por ele mesmo. Pulou para testar a invenção — tinha intenção de voar —, mas caiu, atingindo o solo como um meteoro e deixando uma cratera de quinze centímetros com o impacto. Ele queria se matar? Duvido. Acho que só era arrogante… e burro.

Uma pesquisa rápida na internet revela que apenas cinco a dez por cento de todos os suicídios são cometidos pulando de algum lugar (pelo menos é o que a Universidade Johns Hopkins afirma). Parece que essa forma de suicídio geralmente é escolhida por conveniência, por isso lugares como San Francisco e sua Golden Gate Bridge (o maior destino suicida do mundo) são tão famosos. Aqui, tudo o que temos é a torre Purina e um monte de 383 metros de altura.

Escrevo: Motivos para não ter pulado: muito estrago. Muito aberto. Muita gente.

Saio do Google e acesso o Facebook. Entro no perfil de Amanda Monk porque ela é amiga de todo mundo, mesmo das pessoas com quem não tem a menor afinidade, entro em sua lista de amigos e digito “Violet”.

Simples assim, encontrei. Clico na foto e ali está ela, ainda maior, com o mesmo sorriso que deu pra mim no colégio. É preciso ser amigo dela para ler o perfil e ver o resto das fotos. Fico olhando pra tela, desesperado pra saber mais. Quem é Violet Markey? Tento uma pesquisa no Google, porque talvez exista uma entrada secreta pro perfil do Facebook, que requer um comando especial ou um código de três dígitos, algo que eu possa descobrir com facilidade.

Em vez disso o que encontro é um site chamado eleanoreviolet.com, que lista Violet Markey como cocriadora/ editora/ autora. Tem todos aqueles posts do tipo garotos-e-beleza, sendo o mais recente de 3 de abril do ano passado. Outra coisa que encontro é uma notícia.



Eleanor Markey, dezoito anos, aluna do último ano do colégio Bartlett e integrante do grêmio estudantil, perdeu o controle do carro na ponte da rua A, aproximadamente à 0h45, no último 5 de abril. Gelo na pista e alta velocidade podem ter causado o acidente. Eleanor morreu com o impacto. A irmã, de dezesseis anos, Violet, que estava no banco do passageiro, teve apenas ferimentos leves.



Leio e releio, com uma sensação ruim no estômago. Então faço algo que jurei pra mim mesmo que jamais faria. Crio uma conta no Facebook, só pra mandar um pedido de amizade pra ela. Ter Facebook vai fazer com que eu pareça sociável e normal, e talvez compense toda essa situação estranha de termos nos encontrado à beira do suicídio, e quem sabe ela sinta que é seguro me conhecer. Tiro uma foto com meu celular, me acho sério demais, tiro outra — muito bobão — e escolho a terceira, que ficou no meio do caminho.

Deixo o computador em espera pra não ficar conferindo de cinco em cinco minutos e toco guitarra, leio algumas páginas de Macbeth, faço lição de casa e janto com Decca e minha mãe, uma tradição que começou no ano passado, depois do divórcio. Apesar de eu não ser muito fã dessa coisa de comer, o jantar é uma das partes mais agradáveis do dia, porque consigo desligar o cérebro.

— Decca, conta pra gente o que você aprendeu hoje — diz minha mãe.

Ela faz questão de perguntar sobre a escola pra sentir que cumpre seu dever materno. É assim que ela gosta de começar.

— Aprendi que Jacob Barry é um imbecil — diz Dec, que anda meio boca suja ultimamente, testando a reação da mamãe, pra ver se ela está mesmo ouvindo.

— Filha! — minha mãe repreende, sem muita convicção, porque não está prestando tanta atenção assim.

Decca continua contando que esse tal de Jacob colou a mão na mesa pra não ter que fazer um teste de ciências e, quando tentaram descolar, a pele saiu junto. Os olhos de Decca brilham como os de um animalzinho raivoso. Dá pra perceber que ela acha que o garoto mereceu e depois ela mesma afirma isso.

De repente, minha mãe presta atenção.

— Decca! — Ela balança a cabeça.

Seu papel de mãe acaba aí. Desde que meu pai foi embora, ela tenta ser a legalzona. Mesmo assim, me sinto mal por ela, que ainda o ama, apesar de ele ser egoísta e podre e tê-la trocado por uma mulher chamada Rosemarie — nome que a gente ainda não consegue pronunciar. E também tem uma coisa que ela me disse no dia em que ele foi embora: “Nunca pensei que estaria sozinha aos quarenta anos”. Foi o jeito como ela falou, não as palavras em si. Ela fez parecer tão definitivo.

Desde então, faço tudo o que posso para ser agradável e calmo, tentando me manter invisível — o que inclui fingir ir à aula quando estou apagado — pra não ser mais um fardo. Mas nem sempre consigo.

— Como foi seu dia, Theodore?

— Ótimo.

Empurro a comida pelo prato, tentando criar um desenho. O problema de comer é que existem tantas coisas mais interessantes pra fazer. Também sinto isso em relação a dormir. Perda de tempo.

Curiosidade: um chinês morreu por falta de sono quando ficou acordado durante onze dias direto pra assistir a todos os jogos do Campeonato Europeu (futebol, para aqueles que, como eu, não têm ideia do que se trata). Na décima primeira noite, viu a Itália bater a Irlanda por 2 a 0, tomou banho e dormiu por volta das cinco da manhã. E morreu. Sem querer ofender o morto, mas é muito idiota ficar acordado por causa de futebol.

Minha mãe parou de comer pra me encarar. Quando presta atenção, o que não é muito comum, ela tenta de verdade ser compreensiva com a minha “tristeza”, assim como tenta ser paciente quando Kate fica fora a noite toda e Decca é mandada pra sala do diretor. Ela coloca a culpa por nosso mau comportamento no divórcio e no meu pai. Diz que precisamos de tempo pra superar.

Com menos sarcasmo, continuo:

— Foi tudo bem. Sem grandes acontecimentos. Chato. Comum.

Passamos a falar de coisas mais simples, como a casa que minha mãe está tentando vender para os clientes dela e o clima.

Quando acabamos de jantar, ela coloca a mão em meu braço, tocando minha pele bem de leve, e comenta:

— Não é bom ter seu irmão de volta, Decca?

Ela diz como se eu corresse o risco de desaparecer de novo, bem diante de seus olhos. O ligeiro tom de acusação em sua voz me faz encolher, e tenho vontade de ir pro quarto e ficar lá. Apesar de tentar perdoar minha tristeza, ela quer que eu seja o homem da casa, e embora não saiba que não fui à aula durante todo aquele período de quatro, quase cinco semanas, sentiu minha falta nos jantares de família. Ela tira a mão do meu braço e então estamos livres, e é exatamente assim que agimos, cada um dos três correndo em uma direção.

Perto das dez horas, depois de todo mundo ter ido pra cama — menos Kate, que ainda não chegou —, ligo o computador de novo e entro no Facebook.

Violet Markey aceitou seu pedido de amizade.

E agora somos amigos.

Quero gritar e correr pela casa, talvez subir no telhado e abrir os braços, mas não pular, de jeito nenhum. Em vez disso chego mais perto da tela e vejo as fotos dela — Violet sorrindo com duas pessoas que parecem ser seus pais, Violet sorrindo com amigos, Violet sorrindo em uma festa da escola, Violet sorrindo de orelha a orelha com uma garota, Violet sorrindo sozinha.

Me lembro da foto do jornal. É a irmã dela, Eleanor. Com os mesmos óculos que Violet usava hoje.

De repente, uma mensagem aparece na caixa de entrada.

Violet: Você me encurralou. Na frente de todo mundo.

Eu: Você aceitaria ser minha dupla se eu não tivesse feito aquilo?

Violet: Pra começar, eu teria dado um jeito de não ter que fazer o trabalho. Por que você quer que eu seja sua dupla no projeto, afinal?

Eu: Porque nossa montanha está esperando.

Violet: O que você quer dizer com isso?

Eu: Quero dizer que talvez você nunca tenha sonhado em conhecer Indiana, mas, além de a gente fazer isso por causa do trabalho, e eu ter me oferecido pra ser sua dupla — tá, encurralado você —, o que eu acho é o seguinte: tenho no carro um mapa que praticamente pede pra ser usado, e existem lugares que precisam ser vistos. Talvez ninguém nunca vá até lá nem valorize esses lugares nem se dê o trabalho de pensar o quanto são importantes, mas talvez até o menor deles tenha algum significado. Se não tiverem pros outros, talvez tenham pra gente. No mínimo, quando a gente for embora, saberemos que pelo menos os visitamos. Então vamos. Vamos até lá. Vamos fazer alguma coisa. Vamos sair do parapeito.

Como ela não responde, escrevo: Estou aqui, se você quiser conversar.

Nada.

Imagino Violet em casa, do outro lado do computador, a boca perfeita esboçando um leve sorriso para a tela, apesar de tudo. Violet sorrindo. De olho no computador, pego a guitarra, começo a inventar palavras, a melodia logo em seguida.

Ainda estou aqui, e sou grato por isso, porque senão perderia este momento. Às vezes é bom estar desperto.

— Então não foi hoje — canto —, porque ela sorriu pra mim.





Regras para andar por aí

1. Não há regras, porque na vida já existem muitas.

2. Mas há três “orientações” (porque soa menos rígido do que “regras”):

a) Nada de celular. Temos que fazer tudo à moda antiga, o que significa aprender a interpretar mapas de verdade.

b) Cada dia um escolhe o lugar, mas também devemos estar dispostos a ir aonde a estrada nos levar, o que inclui lugares grandiosos, pequenos, bizarros, poéticos, bonitos, feios, surpreendentes. Como a vida. Porém, absolutamente, incondicionalmente e decididamente nenhum lugar comum.

c) Em cada lugar, deixamos alguma coisa, quase como uma oferenda. Seria nosso jogo de geocaching (“atividade recreativa de encontrar objetos escondidos usando coordenadas de GPS postadas em um site”), mas só pra gente. As regras do geocaching são “pegue algo, deixe algo”. Sempre queremos ficar com algo dos lugares por onde passamos, então por que não deixar alguma coisa em troca? Também é um jeito de provar que estivemos lá e de manter uma parte de nós ali.





153 dias para a formatura

Sábado à noite. Casa de Amanda Monk.

Vou andando até lá porque são só três quadras. Amanda diz que seremos só nós duas, além de Ashley Dunston e Shelby Padgett, já que ela não está falando com Suze. De novo. Amanda era uma das minhas melhores amigas, mas desde abril a gente se afastou. Como eu saí da equipe de torcida, não temos mais muita coisa em comum. Me pergunto se algum dia tivemos.

Cometi a burrice de contar sobre a festa do pijama pros meus pais, e é por isso que estou indo.

— Amanda está se esforçando. E você também devia se esforçar, Violet. Não pode usar a morte da sua irmã pra sempre como desculpa. Tem que voltar a viver.

Não estou pronta não funciona mais com meus pais.

Quando cruzo o quintal dos Wyatt e viro a esquina, escuto a festa. A casa de Amanda está iluminada como se fosse Natal. Tem gente pendurada nas janelas. E no gramado. O pai dela é dono de uma rede de lojas de bebida, por isso Amanda é tão popular. Além do fato de ela ficar com todo mundo.

Espero na rua, mochila no ombro, travesseiro embaixo do braço. Me sinto no sexto ano. Uma boba. Eleanor riria da minha cara e me arrastaria pela calçada. Já estaria lá dentro. Fico com raiva dela só de imaginar.

Me obrigo a entrar. Joe Wyatt me dá alguma coisa em um copo de plástico vermelho.

— A cerveja está no porão — grita.

Roamer tomou conta da cozinha com alguns jogadores de beisebol e futebol americano.

— Pegou? — Roamer pergunta a Troy Satterfield.

— Não, cara.

— Nem um beijo?

— Não.

— Pegou na bunda?

— Peguei, mas meio de raspão.

Eles dão risada, Troy também. Todos estão falando muito alto.

Vou até o porão. Amanda e Suze Haines, melhores amigas de novo, estão jogadas em um sofá. Não vejo Ashley nem Shelby em lugar nenhum, mas quinze ou vinte garotos estão espalhados pelo chão fazendo jogos de beber. As garotas estão dançando em volta deles, incluindo as três Brianas e Brenda Shank-Kravitz, amiga de Theodore Finch. Casais estão se pegando.

Amanda acena a cerveja pra mim.

— Meu Deus! A gente precisa dar um jeito no seu cabelo. — Ela está falando da franja que cortei. — E por que você ainda está usando esses óculos? Eu entendo que quer lembrar da sua irmã, mas ela não tinha, tipo, uma blusa fofa pra você pegar?

Apoio o copo numa mesa. Ainda estou carregando o travesseiro.

— Estou com um pouco de dor de estômago. Acho que vou pra casa.

Suze me encara com aquele olhão azul.

— É verdade que você tirou Theodore Finch do parapeito?

(Ela era “Suzie” até o nono ano, quando deixou de usar o “i”. Agora a gente pronuncia “Suz”.)

— Sim. — Por favor, Deus, só queria que aquele dia desaparecesse.

Amanda olha pra Suze.

— Eu disse que era verdade. — Ela olha pra mim e revira os olhos. — Ele faz essas coisas mesmo. Conheço Finch desde o jardim de infância, e de lá pra cá ele só ficou mais esquisito.

Suze toma um gole.

— Eu o conheço melhor ainda — ela diz, num tom malicioso. Amanda dá um tapa em seu braço e Suze bate de volta. Quando terminam a brincadeirinha, Suze me diz: — A gente ficou no segundo ano. Finch pode ser esquisito, mas tenho que admitir uma coisa: ele sabe o que está fazendo. — A voz dela fica ainda mais maliciosa. — Ao contrário da maioria dos caras entediantes que estão por aí.

Alguns dos caras entediantes gritam do chão:

— Por que não vem experimentar, cachorra?

Amanda dá outro tapa em Suze. E elas continuam com a brincadeira.

Troco a mochila de ombro.

— Ainda bem que eu estava lá.

Pra ser mais exata, ainda bem que ele estava lá antes que eu caísse do parapeito e me matasse na frente de todo mundo. Não consigo imaginar o que seria dos meus pais, forçados a lidar com a morte da única filha que restava. E nem pareceria acidental. Esse é um dos motivos para eu ter vindo hoje sem questionar. Sinto vergonha de quase tê-los feito passar por isso.

— Lá onde? — Roamer vem tropeçando com um balde de cervejas. Coloca no chão, derrubando gelo por toda parte.

Suze o encara com o olhar afiado.

— Na torre do sino.

Roamer olha pros peitos dela. Depois se obriga a olhar pra mim.

— Por que você estava lá, afinal?

— Eu estava indo pro setor de humanas quando vi ele passar pela porta no final do corredor. A porta que vai pra torre.

— Humanas? Mas não é só no segundo período? — pergunta Amanda.

— Sim. Mas eu precisava falar com o sr. Feldman.

— Aquela porta fica trancada e bloqueada. É mais difícil de alguém abrir do que a sua calça, pelo que eu saiba. — Roamer cai na risada.

— Ele deve ter arrombado.

Ou talvez tenha sido eu. Uma das vantagens de parecer inocente é que a gente pode fazer qualquer coisa. As pessoas nunca desconfiam.

Roamer abre a cerveja e toma de uma vez.

— Que idiota. Você devia ter deixado ele pular. O imbecil quase arrancou minha cabeça ano passado. — Ele está falando do incidente com a lousa.

— Você acha que ele gosta de você? — Amanda me olha com cara de repulsa.

— Claro que não.

— Espero que não. Se eu fosse você, teria cuidado com ele.

Dez meses atrás, eu estaria sentada ao lado delas, bebendo cerveja, me enturmando e fazendo comentários espirituosos na minha cabeça: Ela pensa bem ao soltar essas palavras, como uma advogada tentando convencer o júri. “Protesto, srta. Monk.” “Me desculpe. Por favor, desconsidere.” Mas é tarde demais, porque o júri ouviu as palavras e não tira elas da cabeça — se ele gosta dela, ela também deve gostar dele…

Mas agora estou aqui, me sentindo indiferente e deslocada e me perguntando como um dia fui amiga da Amanda pra começo de conversa. O ar está pesado. A música, alta demais. Sinto cheiro de cerveja por toda a parte. Estou enjoada. Então vejo Leticia Lopez, repórter do jornal do colégio, vindo até mim.

— Tenho que ir, Amanda. Falo com você amanhã.

Antes que alguém diga alguma coisa, subo a escada e vou embora daquela casa.

A última festa a que fui aconteceu no dia 4 de abril, véspera da morte de Eleanor. A música e as luzes e os gritos me fazem lembrar de tudo. A tempo, afasto o cabelo do rosto, me abaixo e vomito no meio-fio. Amanhã eles vão achar que foi algum bêbado.

Procuro o celular e mando uma mensagem para Amanda.

Desculpa. Não estou me sentindo bem.

Bj, V

Viro pra ir pra casa e dou de cara com Ryan Cross. Ele está suado e despenteado. Os olhos grandes e bonitos estão vermelhos. Como todos os caras gatos, sempre abre um sorriso provocante. Quando sorri com os dois cantos da boca, aparecem covinhas. Ele é perfeito e conheço seu rosto de cor.

Não sou perfeita. Tenho segredos. Sou uma bagunça. Não só meu quarto, mas eu mesma. Ninguém gosta de bagunça. As pessoas gostam da Violet que sorri. Me pergunto o que Ryan faria se soubesse que foi Finch que me salvou, não o contrário. Me pergunto o que qualquer um deles faria.

Ryan me ergue e me gira, com travesseiro, mochila e tudo. Tenta me beijar e eu viro a cabeça.

A primeira vez que ele me beijou foi na neve. Neve em abril. Bem-vindo ao Meio-Oeste. Eleanor estava de branco, eu estava de preto, uma coisa meio Sexta-feira muito louca que a gente fazia de vez em quando, irmã boa e irmã má com papéis invertidos. O irmão mais velho de Ryan, Eli, estava dando uma festa. Eleanor subiu com Eli e eu fiquei dançando. Amanda, Suze, Shelby, Ashley e eu. Ryan estava na janela. Foi ele que avisou:

— Está nevando!

Dancei até lá, passando pela multidão, e ele olhou pra mim.

— Vamos.

Simples assim.

Pegou minha mão e corremos pra fora. Os flocos eram pesados como a chuva, grandes, brancos e brilhantes. Tentamos pegar alguns com a língua, e a língua dele encontrou minha boca. Fechei os olhos enquanto os flocos pousavam em minhas bochechas.

Lá dentro, barulho de gritaria e coisas quebrando. Sons de uma festa. As mãos de Ryan embaixo da minha camiseta. Lembro que estavam quentes, e no meio do beijo eu estava pensando: Estou beijando Ryan Cross. Coisas assim não aconteciam comigo antes de a gente se mudar para Indiana. Coloquei as mãos embaixo do moletom dele também e senti a pele quente e macia. Era exatamente como eu imaginava.

Mais gritos, mais coisas quebrando. Ryan se afastou e eu olhei pra ele, pra mancha de batom em sua boca. Eu só conseguia pensar: É o meu batom nos lábios de Ryan Cross. Ai-meu-Deus.

Queria ter uma foto minha daquele instante exato pra lembrar como eu era. Aquele foi o último momento bom antes de tudo ficar ruim e mudar pra sempre.

Agora Ryan me abraça e me levanta do chão.

— Você está indo pro lado errado, V. — Começa a me levar em direção à casa de Amanda.

— Já passei lá. Tenho que ir pra casa. Estou enjoada. Me põe no chão. — Dou soquinhos nele e ele me põe no chão, porque Ryan é um bom garoto, que faz o que mandam.

— O que aconteceu?

— Estou enjoada. Acabei de vomitar. Tenho que ir. — Dou tapinhas no braço dele como se fosse um cachorro. Viro e corro pelo gramado, desço a rua, dobro a esquina e vou pra casa. Escuto Ryan gritar meu nome, mas não olho pra trás.





— Você voltou cedo. — Minha mãe está no sofá com o nariz enfiado num livro. Meu pai está jogado do outro lado, olhos fechados, fones de ouvido.

— Nem tanto. — Paro no início da escada. — Só pra você saber, foi uma má ideia. Eu sabia que era uma má ideia e fui mesmo assim pra você ver como estou tentando. Mas não era uma festa do pijama. Era uma festa mesmo. Do tipo “vamos ficar bêbados e fazer uma orgia” — digo tudo isso como se a culpa fosse deles.

Minha mãe cutuca meu pai, que tira os fones. Eles sentam.

— Você quer conversar? Sei que deve ter sido difícil, um susto. Por que não fica um pouco aqui com a gente?

Como Ryan, meus pais são perfeitos. Fortes, corajosos e carinhosos e, embora eu saiba que eles choram, ficam com raiva e talvez até atirem coisas quando estão sozinhos, raramente presencio cenas assim. Pelo contrário: eles me encorajam a sair de casa e entrar no carro e voltar pra estrada. Eles ouvem e perguntam e se preocupam, e estão do meu lado. Aliás, estão do meu lado até demais agora. Precisam saber onde vou, o que faço, quem vou encontrar e a que horas pretendo voltar. Mande mensagem quando estiver indo, mande mensagem quando estiver voltando.

Cogito sentar um pouco com eles, só pra concordar com alguma coisa, depois de tudo que passaram, depois do que quase fiz passarem ontem. Mas não sento.

— Estou cansada. Acho que vou deitar.





Dez e meia da noite. Meu quarto. Estou com a pantufa do Freud, uma felpuda com a cara dele estampada, e meu pijama tem uns macacos roxos desenhados. É o que visto quando quero ficar feliz. Risco o dia com um “X” preto no calendário que fica na porta do guarda-roupa e me acomodo na cama, encostada nos travesseiros, livros espalhados pelo edredom. Desde que parei de escrever, leio mais do que nunca. Palavras de outras pessoas, não as minhas — minhas palavras se foram. Neste momento, estou curtindo muito as irmãs Brontë.

Amo meu quarto. O mundo é melhor aqui do que lá fora, porque aqui sou o que eu quiser. Sou uma autora brilhante. Posso escrever cinquenta páginas por dia e nunca fico sem palavras. Sou uma futura aluna de escrita criativa na NYU. Sou a criadora de uma revista on-line popular — não a que fiz com a Eleanor, uma revista nova. Sou destemida. Sou livre. Estou segura.

Não consigo decidir de qual das irmãs Brontë gosto mais. De Charlotte não, porque ela parece minha professora do sexto ano. Emily é feroz e despreocupada, e Anne é a ignorada. Torço por Anne. Leio e depois fico deitada em cima do edredom olhando pro teto. Desde abril tenho a sensação de que estou à espera de alguma coisa. Mas não faço ideia do quê.

Depois de um tempo, levanto. Há pouco mais de duas horas, às 19h58, Theodore Finch postou um vídeo no Facebook. Ele tocando guitarra, sentado onde imagino que seja seu quarto. A voz é boa, mas rouca, como se tivesse fumado muito. Está inclinado na guitarra, o cabelo preto caindo nos olhos. A imagem está embaçada, como se tivesse filmado com o celular. A letra da música é sobre um cara que pula do telhado da escola.

No fim da música, ele fala pra câmera:

— Violet Markey, se você vir isso, ainda deve estar viva. Por favor, confirme.

Fecho o vídeo como se ele pudesse me enxergar. Quero que o dia de ontem, Theodore Finch e a torre do sino sumam. Pra mim, aquilo tudo foi um pesadelo. O pior deles. O PIOR que já tive.

Escrevo uma mensagem privada: Por favor, apague o vídeo ou edite o que falou no fim pra ninguém mais ler/ ouvir.

Ele responde imediatamente: Parabéns! Imagino, pela mensagem, que está viva! Agora que sei disso, acho que devemos conversar sobre o que aconteceu, já que você é minha dupla no projeto. (E ninguém além de nós vai ver o vídeo.)

Eu: Estou bem. Quero muito parar de falar disso e esquecer que aconteceu. (Como você sabe?)

Finch: (Porque só entrei no Facebook pra falar com você. Além do mais, agora que você já viu, o vídeo se autodestruirá em cinco segundos. Cinco, quatro, três, dois…)

Finch: Por favor, atualize a página.

O vídeo some.

Finch: Se você não quiser conversar pelo Facebook, posso ir aí.

Eu: Agora?

Finch: Bom, teoricamente, em cinco ou dez minutos. Tenho que me vestir primeiro, a não ser que você prefira que eu vá pelado, além do tempo que vou gastar no caminho.

Eu: Está tarde.

Finch: Isso é relativo. Olha só, eu não acho que está tarde. Eu acho que está cedo. É o início das nossas vidas. O início da noite. O início do ano. Se você parar pra pensar, vai ver que está mais cedo que tarde. A gente só vai conversar. Nada mais que isso. Não estou dando em cima de você.

Finch: A não ser que você queira. Que eu dê em cima de você.

Eu: Não.

Finch: “Não”, você não quer que eu vá, ou “não”, você não quer que eu dê em cima de você?

Eu: Os dois. Todas as anteriores.

Finch: Tá bom. A gente pode conversar na escola. Talvez na aula de geografia, ou posso procurar você no almoço. Você em geral está com Amanda e Roamer, né?

Ai, meu Deus. Faz isso parar. Faz ele desistir.

Eu: Se você vier aqui hoje, promete parar com isso de uma vez por todas?

Finch: Palavra de escoteiro.

Eu: Só pra conversar. Nada além disso. E tem que ser rápido.

Assim que escrevo, me arrependo. Amanda e a festa estão ali, a poucas quadras. Qualquer um pode passar por aqui e ver Finch.

Eu: Você ainda está aí?

Ele não responde.

Eu: Finch?





Dia 7 desperto

Entro no velho SUV compacto da minha mãe, mais conhecido como Tranqueira, e vou pra casa de Violet Markey pela estrada que corre paralela à Nacional, principal via que corta a cidade. Piso no acelerador e o velocímetro sobe rápido, noventa, cem, cento e dez, cento e vinte, o ponteiro tremendo e o Tranqueira fazendo o melhor que pode pra ser um carro esportivo, não uma minivan de cinco anos de idade.

No dia 23 de março de 1950, o poeta italiano Cesare Pavese escreveu: O amor é o grande manifesto; a urgência de ser, de ter alguma importância e, se a morte vier, morrer com valentia, com clamor — em suma, permanecer na memória. Cinco meses mais tarde, entrou no escritório de um jornal e escolheu a foto de seu obituário no arquivo. Deu entrada em um hotel e, dias depois, foi encontrado esticado na cama, morto. Ele estava completamente vestido, com exceção dos sapatos. Na mesa de cabeceira havia dezesseis caixas de remédio pra dormir vazias e um bilhete: A todos perdoo e a todos peço perdão. Tudo bem? Não façam muita fofoca, por favor.

Cesare Pavese não tem nada a ver com dirigir rápido em uma estrada de Indiana, mas entendo a urgência de ser e de ter alguma importância. Apesar de achar que tirar o sapato em um quarto de hotel e engolir um monte de remédio pra dormir não seja uma forma de morrer com valentia e com clamor, o que importa é a intenção.

Faço o Tranqueira alcançar os cento e trinta. Vou aliviar quando chegar nos cento e quarenta. Nem cento e trinta e sete. Nem cento e trinta e oito. É cento e quarenta ou nada.

Me inclino para a frente, como se fosse um foguete, como se EU fosse o carro. E começo a gritar, porque a cada segundo fico mais desperto. Sinto a adrenalina — mais do que isso, sinto tudo à minha volta e dentro de mim, a estrada, meu sangue e meu coração batendo na garganta, e eu poderia acabar com tudo em um clamor valente de metal amassado e fogo explosivo. Piso mais fundo no acelerador e agora não posso parar porque estou mais rápido que tudo. A única coisa que importa é o impulso e como me sinto na colisão com o Grande Manifesto.

Então, no momento exato antes de meu coração ou o motor explodir, tiro o pé do acelerador e deslizo pela estrada irregular, o Tranqueira me levando sozinho quando saímos do chão e aterrissamos com tudo, a alguns metros de distância, metade dentro e metade fora da vala, onde recupero o fôlego. Levanto as mãos e elas não tremem nem um pouco. Estão mais firmes do que nunca, olho em volta, pro céu estrelado e pro campo e pras casas escuras e adormecidas, e estou aqui, filhos da p… Estou aqui.





Violet mora a uma rua de Suze Haines, em um casarão branco com chaminé vermelha em um bairro do outro lado da cidade. Quando chego ela está sentada na escada da frente, com um casaco gigante, parecendo pequena e sozinha. Levanta rápido e me encontra na metade da calçada, então olha atrás de mim como se estivesse procurando alguém ou alguma coisa.

— Você não precisava vir até aqui.

Está sussurrando, como se a gente fosse acordar a vizinhança.

Sussurro de volta.

— A gente não mora em Los Angeles nem em Cincinnati. Levei, tipo, cinco minutos pra chegar. Bela casa, aliás.

— Olha, obrigada por vir, mas não preciso conversar. — O cabelo está preso em um rabo de cavalo, e umas mechas estão caindo no rosto. Ela coloca uma atrás da orelha. — Eu estou bem.

— Nunca minta para um mentiroso. Sei reconhecer muito bem um pedido de ajuda, e acho que quase pular de um parapeito com certeza se classifica como um. Seus pais estão em casa?

— Estão.

— Que pena. Quer dar uma volta? — Começo a andar.

— Não pra lá. — Ela puxa meu braço e me leva para o outro lado.

— Estamos evitando alguma coisa?

— Não. É só… hum… mais agradável pra cá.

Faço minha melhor imitação do Embrião:

— Então, há quanto tempo você tem esses impulsos suicidas?

— Meu Deus! Fala baixo. E eu não sou… não sou…

— Suicida. Pode dizer.

— Bom, tanto faz, eu não sou.

— Ao contrário de mim.

— Não é isso que quero dizer.

— Você estava naquele parapeito porque não sabia mais pra onde ir nem o que fazer. Você tinha perdido a esperança. Então, como um cavaleiro valente, eu salvei sua vida. Aliás, você fica totalmente diferente sem maquiagem. Isso não é ruim, só diferente. Talvez até melhor. E qual é a desse seu site? Você sempre quis escrever? Me fale de você, Violet Markey.

Ela responde como se fosse um robô.

— Acho que não tem muito o que falar. Não tenho nada pra contar.

— Então, Califórnia. Deve ter sido uma mudança e tanto. Você gosta?

— Do quê?

— Bartlett.

— É legal.

— E este bairro?

— É legal também.

— Não são as palavras de alguém que acabou de ter sua vida de volta. Você deveria estar no topo da p… do mundo agora. Eu estou aqui. Você está aqui. Não só isso: você está aqui comigo. Consigo pensar em pelo menos uma garota que gostaria de estar no seu lugar.

Ela solta um grunhido de frustração (estranhamente atraente) e diz:

— O que você quer?

Paro embaixo de um poste. Deixo de lado as tentativas de persuasão e o charme.

— Quero saber por que você estava lá. E se está bem.

— Se eu contar, você vai embora?

— Sim.

— E nunca mais fala disso?

— Depende das respostas.

Ela suspira e começa a andar. Por um tempo, não fala nada, então fico quieto, esperando. Os únicos sons vêm da TV de alguém e de uma festa por perto.

Depois de algumas quadras, digo:

— Qualquer coisa que você disser fica entre a gente. Você pode não ter notado, mas não tenho muitos amigos. E mesmo que tivesse, não faria diferença. Aqueles imbecis já têm assunto suficiente.

Ela respira fundo.

— Quando fui até a torre, não estava pensando. Foi como se minhas pernas subissem a escada e eu só fosse guiada. Nunca fiz nada desse tipo antes. Quer dizer, aquela não sou eu. Depois, foi como se eu tivesse acordado naquele parapeito. Eu não sabia o que fazer, então comecei a me desesperar.

— Você contou pra alguém o que aconteceu?

— Não. — Ela para de andar e resisto à vontade de tocar seu cabelo, que sopra no rosto. Ela arruma.

— Nem pros seus pais?

— Muito menos pra eles.

— Você ainda não me falou o que estava fazendo lá em cima.

Eu não espero que ela responda, mas…

— Era aniversário da minha irmã. Ela faria dezenove anos.

— Merda. Sinto muito.

— Mas esse não é o motivo. O motivo é que nada disso importa. O colégio, a equipe de torcida, os namorados, os amigos, as festas, os cursos de escrita criativa… — Ela gesticula com os braços. — Tudo isso é só pra passar o tempo até a gente morrer.

— Talvez. Talvez não. De qualquer maneira, estou muito feliz por estar aqui. — Se tem uma coisa que aprendi, é que a gente precisa aproveitar ao máximo. — Foi o suficiente pra você não pular.

— Posso perguntar uma coisa? — Ela mantém o olhar no chão.

— Claro.

— Por que chamam você de Theodore Aberração?

Agora eu é que encaro o chão como se fosse a coisa mais interessante que já vi. Demoro um tempo pra responder, tentando decidir o que dizer. Sinceramente, Violet, não sei por que a galera não gosta de mim. Mentira. Quer dizer, eu sei e não sei. Sempre fui diferente, mas pra mim diferente é normal. Decido por uma versão da verdade.

— No oitavo ano, eu era muito menor do que sou agora. Isso foi antes de você vir pra cá. — Levanto o olhar o suficiente pra ver que ela faz que sim com a cabeça. — Minhas orelhas eram enormes. Meus cotovelos também. Minha voz só ficou normal um verão antes do ensino médio, quando dei uma esticada de uns trinta e cinco centímetros.

— Só por isso?

— Por isso e porque às vezes eu digo e faço coisas sem pensar. As pessoas não aceitam muito bem.

Ela fica quieta enquanto viramos uma esquina, e enxergo sua casa ao longe. Caminho devagar pra gente ter mais tempo.

— Conheço a banda que está tocando no Quarry. A gente podia ir lá, esquentar um pouco, ouvir música, esquecer tudo. Também conheço um lugar que tem uma vista bem bacana da cidade. — Abro um dos meus melhores sorrisos.

— Vou entrar e dormir.

Sempre fico impressionado com o sono das pessoas. Eu nunca dormiria se não precisasse.

— Ou a gente pode dar uns amassos.

— Acho que não.

Mais ou menos um minuto depois, chegamos até meu carro.

— E como você subiu lá, afinal? A porta estava aberta quando cheguei, mas geralmente está trancada.

Ela sorri pela primeira vez.

— Talvez eu tenha arrombado a fechadura.

Solto um assobio.

— Violet Markey. Quem diria?

Em um piscar de olhos, ela atravessa a calçada e entra em casa. Fico ali olhando até a luz acender em uma janela no andar de cima. Uma sombra se mexe e vejo a silhueta de Violet, como se ela estivesse olhando através da cortina. Me encosto no carro, esperando pra ver quem desiste primeiro. Fico ali até a sombra sumir e a luz se apagar.





Em casa, estaciono o Tranqueira na garagem e vou pra minha corrida noturna. Corrida no inverno, natação no resto do ano. Meu trajeto de sempre é descer a estrada Nacional, passar pelo hospital e pela área de camping até uma ponte velha de metal que parece ter sido esquecida por todo mundo, menos por mim. Acelero sobre os muros que servem de barra de proteção e, ao passar sem cair, sei que estou vivo.

Inútil. Burro. Essas foram as palavras que cresci ouvindo. São palavras das quais tento fugir, porque, se deixá-las entrar, elas podem ficar e crescer e me preencher até que a única coisa restante dentro de mim seja inútil burro inútil burro inútil burro aberração. E não posso fazer nada além de correr mais rápido e me preencher com outras palavras: Desta vez vai ser diferente. Desta vez vou ficar desperto.

Corro quilômetros, não conto quantos, passando casas e mais casas com as luzes apagadas. Sinto pena de todos que estão dormindo.

Pego um caminho diferente pra casa, pela ponte da rua A. Essa ponte é mais movimentada porque liga o centro ao lado oeste de Bartlett, onde ficam o colégio, a faculdade e todos os bairros crescendo entre eles.

Corro pelo que restou da barra de proteção de concreto. Ainda tem um buraco no meio, e alguém colocou uma cruz perto. A cruz está tombada, a tinta branca desbotada em cinza por causa do clima de Indiana, e me pergunto quem a colocou ali — Violet? Seus pais? Alguém do colégio? Corro até o fim da ponte e corto caminho pela grama, até a ribanceira embaixo, que é um antigo leito de rio seco cheio de pontas de cigarro e garrafas de cerveja.

Chuto o lixo e as pedras e a sujeira. Alguma coisa brilha prateada no escuro, e então vejo outras coisas reluzindo — pedaços de vidro e metal. O plástico vermelho de uma lanterna traseira. Um espelho retrovisor quebrado. Uma placa amassada e quase dobrada ao meio.

Tudo isso de repente faz parecer real. Eu poderia afundar na terra como uma pedra e ser engolido inteiro com o peso do que aconteceu aqui.

Deixo tudo como estava, a não ser pela placa, que levo comigo. Deixá-la ali parece errado, como se fosse uma coisa muito pessoal pra ficar ao relento, onde alguém que não conhece Violet nem sua irmã pode pegar e achar bacana ou guardar como se fosse uma lembrancinha. Corro pra casa, me sentido pesado e vazio. Desta vez vai ser diferente. Desta vez vou ficar desperto.

Corro até o tempo parar. Até minha cabeça parar. Até que a única coisa que sinto é o metal gelado nas mãos e o sangue pulsando.





152 dias para a formatura

Domingo de manhã. Meu quarto.

O domínio eleanoreviolet.com está expirando. Sei disso porque a empresa que hospeda o site me mandou um e-mail avisando que devo renovar agora ou desistir dele. No laptop, abro nossas pastas de anotações e dou uma olhada nas ideias em que estávamos trabalhando antes de abril. Mas, sem Eleanor pra me ajudar a decifrar as abreviações, são só fragmentos sem sentido.

Nós tínhamos opiniões diferentes sobre a revista. Eleanor era mais velha (e mandona), o que significava que geralmente ficava no comando e conseguia fazer as coisas do jeito que queria. Posso tentar salvar o site, talvez reformular e transformar em algo novo — um lugar onde escritores possam compartilhar seus textos. Um site que não seja só sobre esmalte e garotos e música, mas outras coisas também, tipo como trocar um pneu, falar francês ou o que esperar quando saímos pro mundo.

Anoto essas ideias. Então entro no site e leio a última postagem, escrita um dia antes da festa — duas interpretações do livro Julie Plum, garota exorcista. Nada de A redoma de vidro ou O apanhador no campo de centeio. Nada importante nem surpreendente. Nada que diga: Essa é a última coisa que você vai escrever antes que o mundo mude.

Apago nossas anotações. Apago o e-mail da empresa que hospeda o site. Então esvazio a lixeira pra que o aviso fique tão morto e enterrado quanto Eleanor.





Dia 8 desperto

Domingo à noite, Kate, Decca e eu vamos até a casa nova do meu pai, na parte mais rica da cidade, para o Jantar em Família Semanal Obrigatório. Visto a mesma combinação de camisa azul-marinho e calça cáqui que sempre uso para visitar meu pai.

No caminho, permanecemos em silêncio, cada um olhando por uma janela. Nem ligamos o rádio.

— Divirtam-se — minha mãe disse antes de irmos, tentando parecer alegre, mas sei que, assim que o carro saiu da garagem, ela ligou para uma amiga e abriu uma garrafa de vinho.

Vai ser a primeira vez que vejo meu pai desde o Dia de Ação de Graças e a primeira vez que vou à casa onde ele mora com a Rosemarie e o filho dela.

É uma dessas casas enormes e novinhas que se parecem com todas as outras da rua. Quando estacionamos na frente, Kate diz:

— Imagina tentar encontrar a casa certa depois de beber…

Marchamos pela calçada branca e limpa. Dois SUVs iguais estão estacionados na frente da garagem, brilhando como se sua pretensiosa vida mecânica dependesse disso.

Rosemarie abre a porta. Talvez tenha trinta anos, o cabelo é loiro avermelhado e o sorriso, preocupado. Segundo minha mãe, ela é o que se chamaria de “cuidadora”, o que — também segundo minha mãe — é exatamente do que meu pai precisa. Ela veio com um acordo de duzentos mil dólares do ex-marido e um menino banguela de sete anos chamado Josh Raymond, que pode ou não ser meu irmão de verdade.

Meu pai vem em nossa direção lá do quintal, onde está assando quinze quilos de carne, apesar de estarmos no inverno. Sua camiseta diz Chupem, senadores. Há doze anos ele era jogador de hóquei profissional, mais conhecido como Destruidor, até que quebrou o fêmur na cabeça de outro jogador. Parece igual à última vez que o vi — bonito e em forma pra um cara da idade dele, como se esperasse ser chamado de volta pro time a qualquer momento —, mas o cabelo escuro está salpicado de cinza, o que é novidade.

Abraça minhas irmãs e me dá um tapinha nas costas. Ao contrário da maioria dos jogadores de hóquei, de alguma maneira ele conseguiu manter todos os dentes, e os mostra pra nós como se fôssemos seu fã-clube. Quer saber como foi nossa semana, como vão as aulas, se aprendemos algo que ele não saiba. É um desafio pra ver se conseguimos vencer nosso velho pai, o que não é divertido pra ninguém, então nós três dizemos não.

Pergunta sobre o curso fora durante novembro/ dezembro, e eu demoro um pouco pra perceber que ele está falando comigo.

— Ah, foi legal.

Boa, Kate. Tenho que agradecer mais tarde. Ele não sabe dos apagões nem dos problemas no colégio desde o segundo ano porque no ano passado, depois do episódio com a guitarra, falei pro diretor Wertz que meu pai tinha morrido em uma caçada. Ele nunca se deu ao trabalho de confirmar, e agora sempre que tenho algum problema ele liga pra minha mãe, mas na verdade fala com Kate, porque minha mãe nunca ouve as mensagens de voz.

— Eles me convidaram pra ficar, mas não aceitei. Tipo, por mais que eu goste de patinação artística e seja bom nisso, acho que puxei de você, não sei se quero seguir carreira.

Um dos grandes prazeres da minha vida é fazer comentários como esse, porque ter um filho gay é o pior pesadelo do imbecil preconceituoso do meu pai.

Sua única resposta é abrir outra cerveja e atacar os quinze quilos de carne com o garfo, como se eles fossem pular da churrasqueira e nos devorar. Eu até queria que isso acontecesse.

Quando chega a hora de comer, sentamos à mesa na sala de jantar branca e dourada, com um tapete de lã natural, o mais caro que o dinheiro pode comprar. Parece que é uma melhora enorme com relação ao carpete de náilon de merda que estava na casa quando eles se mudaram.

Josh Raymond mal alcança a mesa, porque a mãe é baixinha e o ex-marido dela também, ao contrário do meu pai, que é um gigante. Meu meio-irmão é um nanico, diferente de como eu era quando tinha a idade dele — tem tudo na medida, proporcional, nada de cotovelos nem orelhas protuberantes. Essa é uma coisa que me faz acreditar que, no fim das contas, talvez ele não seja geneticamente ligado ao meu pai.

Agora, Josh Raymond chuta o pé da mesa e olha pra nós por cima do prato com olhos de coruja arregalados e enormes.

— Como vai, tampinha? — digo.

Ele responde alguma coisa com a voz fina, e meu pai, o Destruidor, põe a mão na barba perfeitamente aparada e diz com a calma de um monge:

— Josh Raymond, nós já falamos sobre chutar a mesa. — Ele nunca usou esse timbre comigo nem com minhas irmãs.

Decca, que já encheu o prato, começa a comer enquanto Rosemarie serve um por um. Quando chega a minha vez, digo:

— Não quero nada, a não ser que você tenha hambúrguer vegetariano.

Ela só pisca pra mim, a mão ainda pairando no ar. Sem virar o rosto, encara meu pai.

— Hambúrguer vegetariano? Cresci comendo carne e batata e cheguei aos trinta e cinco. — (Ele fez quarenta e três em outubro.) — E nunca questionei, porque eram meus pais que colocavam comida na mesa.

Ele levanta a camisa e acaricia a barriga — ainda retinha, mas não tão definida —, balança a cabeça e sorri pra mim, o sorriso de um homem que tem uma esposa nova e um filho novo e uma casa nova e dois carros novos e só tem que aguentar os filhos mais velhos por mais uma ou duas horas.

— Não como carne vermelha, pai. — Pra ser exato, tenho uma versão anos 80 que é vegetariana.

— Desde quando?

— Desde a semana passada.

— Ah! Pelo amor de… — Ele recosta na cadeira e olha pra mim enquanto Decca dá uma mordida grande no hambúrguer e o sangue escorre pelo queixo.

— Não seja babaca, pai. Ele não precisa comer se não quer — diz Kate.

Antes de eu impedir, o Finch dos anos 80 diz:

— Existem jeitos diferentes de morrer. Você pode pular de um telhado ou se envenenar aos poucos com a carne de outro ser vivo.

— Me desculpe, Theo. Eu não sabia. — Rosemarie dispara um olhar pro meu pai, que ainda está me encarando. — Que tal um sanduíche com salada de maionese? — Ela parece tão esperançosa que eu aceito, embora a salada de maionese tenha bacon.

— Ele não pode comer isso. A salada de maionese tem bacon. — Essa frase vem da Kate.

— Bom, ele pode tirar a droga do bacon. — Meu pai deixa transparecer um pouco do sotaque canadense. Está começando a ficar irritado, então calamos a boca, porque quanto mais rápido comermos, mais rápido vamos embora.





Em casa, dou um beijo no rosto da minha mãe, porque ela está precisando, e sinto o cheiro de vinho tinto.

— Vocês se divertiram? — ela pergunta, e a gente sabe que ela espera que imploremos pra nunca mais voltar lá.

— Definitivamente não — Decca diz e sobe a escada pisando firme.

Minha mãe suspira de alívio antes de tomar mais um gole e ir atrás dela. Domingo é o dia em que ela desempenha melhor seu papel materno.

Kate abre um pacote de salgadinho e comenta:

— Isso é tão ridículo. — Sei o que ela quer dizer. “Isso” se refere a nossos pais e aos domingos e talvez à nossa vida como um todo. — Não entendo por que temos que ir lá e fingir que gostamos uns dos outros se todos têm plena consciência de que é isso que estamos fazendo. Fingindo. — Ela me passa o salgadinho.

— Porque as pessoas são hipócritas, Kate. Elas preferem assim.

Ela joga o cabelo por cima do ombro e fecha a cara de um jeito reflexivo.

— Sabe, decidi ir pra faculdade no outono mesmo.

Kate se ofereceu pra ficar em casa na época do divórcio. Alguém precisa cuidar da mamãe, disse.

De repente sinto fome, e nós dois ficamos passando o pacote de salgadinho um pro outro. Com a boca cheia, digo:

— Achei que você estivesse gostando de ficar um tempo longe das aulas.

Amo Kate o bastante para fingir junto com ela que esse foi o outro motivo para ficar em casa, que não teve nada a ver com o namorado traidor do colégio, aquele em torno de quem ela tinha planejado o futuro.

Ela dá de ombros.

— Não sei. Talvez não esteja sendo como eu esperava. Estou pensando em ir pra Denver e ver o que tem de bom por lá.

— Tipo o Logan? — Mais conhecido como namorado traidor da época do colégio.

— Não tem nada a ver com ele.

— Espero que não.

Quero repetir as coisas que falo pra ela há meses: Você é melhor que ele. Já perdeu muito tempo com aquele babaca. Mas ela está rangendo os dentes e franzindo a testa pro pacote de salgadinhos.

— É melhor que ficar aqui.

Não posso argumentar, então pergunto:

— Você lembra da Eleanor Markey?

— Claro. Era da minha turma. Por quê?

— Ela tem uma irmã. — Eu a conheci na torre do sino quando nós dois estávamos pensando em pular. Poderíamos ter dado as mãos e saltado juntos. Iam achar que nós éramos amantes amaldiçoados. Escreveriam músicas sobre nós. Viraríamos lenda.

Kate dá de ombros.

— Eleanor era legal. Um pouco convencida. Mas engraçada às vezes. Não a conhecia tão bem. Não lembro da irmã dela. — Ela termina o vinho da taça da mamãe e pega a chave do carro. — Até depois.





No andar de cima, troco Split Enz, Depeche Mode e Talking Heads por Johnny Cash. Coloco At Folsom Prison na vitrola, procuro um cigarro e mando Finch dos anos 80 ficar quieto. Afinal, fui eu que o criei e posso sumir com ele quando quiser. Quando acendo o cigarro, no entanto, imagino meus pulmões ficando pretos como asfalto e penso no que disse pro meu pai mais cedo: Existem jeitos diferentes de morrer. Você pode pular de um telhado ou se envenenar aos poucos com a carne de outro ser vivo.

Nenhum animal morreu pra fazer esse cigarro, mas pela primeira vez não gosto do jeito como ele me faz sentir, como se eu estivesse me poluindo, como se eu estivesse me envenenando. Apago o cigarro e, antes de mudar de ideia, destruo todos os outros. Então corto os pedaços e jogo no lixo, ligo o computador e começo a digitar.



11 de janeiro. De acordo com o New York Times, quase vinte por cento dos suicídios são cometidos pelo uso de veneno; entre médicos que se matam, esse número chega a cinquenta e sete por cento. O que eu acho sobre o método: parece meio covarde. Preferiria sentir alguma coisa. Tendo dito isso, se alguém apontasse uma arma pra minha cabeça (ha, ha — desculpe, humor suicida) e me obrigasse a tomar algum veneno, eu escolheria cianeto. Na forma gasosa, a morte pode ser instantânea, o que acaba com o propósito de sentir alguma coisa, eu sei. Mas, pensando bem, depois de uma vida inteira de dor, talvez faça sentido defender o rápido e repentino.



Quando termino, vou pro banheiro vasculhar o armário de remédios. Advil, aspirina, um remédio pra dormir sem prescrição que roubei da Kate e coloquei num frasco velho da mamãe. Falei a verdade pro Embrião sobre drogas. Não nos damos bem. No fim das contas, já é difícil controlar meu cérebro sem outra coisa pra atrapalhar.

Mas nunca se sabe quando um bom remédio pra dormir pode ser necessário. Abro o frasco, jogo os comprimidos azuis na palma da mão e conto. Trinta. Na mesa do quarto, alinho um a um, como um pequeno exército.

Entro no Facebook, e na página da Violet alguém da escola escreveu que ela foi uma heroína por ter me salvado. Tem 146 comentários e 289 curtidas e, embora eu queira pensar que existem muitas pessoas felizes por eu estar vivo, sei muito bem que não é isso. Entro no meu perfil, que está vazio, a não ser pela foto da Violet na lista de amigos.

Ponho os dedos sobre o teclado, passo as mãos pelas letras, como se estivesse tocando piano. Então digito: Refeições em família são uma merda, principalmente quando envolvem carne e intolerância. “Não podemos passar por mais uma daquelas crises terríveis.” Principalmente quando temos tantas outras coisas a fazer. A citação é do bilhete suicida de Virginia Woolf para o marido, mas acho que se encaixa na ocasião.

Mando a mensagem e fico perto do computador, organizando os comprimidos em grupos de três, depois de dez, quando na verdade estou esperando que Violet responda. Tento desamassar a placa do carro, escrevo Mais uma daquelas crises terríveis num papel e coloco na parede do quarto, que já está coberta de anotações do tipo. A parede tem vários nomes: Parede de Pensamentos, Parede de Ideias, Parede da Minha Mente ou simplesmente The Wall, mas não como a do Pink Floyd. A parede é um lugar pra manter o controle dos pensamentos, na velocidade em que vêm, e lembrar deles quando vão embora. Qualquer coisa interessante, estranha ou um pouco inspirada vai pra lá.

Uma hora depois, entro no Facebook de novo. Violet escreveu: “Junte todos os pedaços que for encontrando”.

Minha pele começa a queimar. Ela está citando Virginia Woolf de volta. Sinto o ritmo do meu pulso triplicar. Merda, penso. Eu só conheço isso de Virginia Woolf. Faço uma pesquisa rápida na internet, procurando pela resposta certa. De repente desejo ter prestado mais atenção em Virginia Woolf, uma escritora que nunca me foi muito útil até agora. De repente desejo não ter feito nada que não fosse estudar Virginia Woolf durante todos os meus dezessete anos.

Digito uma resposta: “Meu próprio cérebro é para mim a mais inexplicável das máquinas — sempre zunindo, sussurrando, planando rugindo mergulhando, e então se enterrando na lama. E por quê? Para que esta paixão?”.

Isso é uma resposta pro que Violet disse sobre passar o tempo e nada ter importância, mas também sou eu, precisamente — zunindo, sussurrando, planando rugindo mergulhando e afundando na lama, tão fundo que não consigo respirar. Apagado ou desperto, nunca no meio do caminho.

É uma boa citação, tão boa que me arrepia. Estudo os pelos em pé no meu braço e, quando olho de novo pra tela, Violet respondeu. “Quando a gente considera coisas como as estrelas, os nossos negócios não parecem importar muita coisa, não é?”

Agora estou trapaceando de verdade, abrindo todo site que encontro sobre Virginia Woolf. Me pergunto se ela também está trapaceando. Escrevo: “Tenho raízes, mas sou fluida”.

Quase mudo de ideia. Penso em apagar, mas ela responde. Gostei dessa. De onde é?

As ondas. Trapaceio de novo e encontro a passagem. É assim: “Sinto mil capacidades brotarem em mim. Ora sou brejeira, alegre, lânguida, ora melancólica. Tenho raízes, mas sou fluida. Toda dourada, fluindo…”.

Decido terminar por aqui, sobretudo porque estou ansioso pra ver se ela vai responder.

Demora três minutos. Gosto dessa: “Este é o momento mais excitante que jamais vivi. Adejo. Ondulo. Flutuo como planta no rio, deslizando para um lado, para outro, mas enraizada, de modo que ele possa aproximar-se de mim. ‘Venha’, digo, ‘venha.’”.

A pulsação não é a única parte do meu corpo agitada neste momento. Me ajeito na cadeira e penso em como isso é estranha e estupidamente atraente.

Escrevo: Você faz eu me sentir dourado, fluindo. Mando sem pensar. Poderia continuar citando Virginia Woolf — acredite, o trecho fica cada vez mais quente —, mas decido que quero usar minhas próprias palavras.

Espero pela resposta. Espero três minutos. Cinco minutos. Dez. Quinze. Abro o site, aquele que ela mantinha com a irmã, e verifico a data da última postagem, que não mudou desde a última vez em que entrei.

Entendi, penso. Nada dourado, nada fluindo. Parado.

Então outra mensagem aparece: Recebi suas regras pra andar por aí e tenho mais uma: não saímos com tempo ruim. Andamos, corremos ou pedalamos. Nada de dirigir. Não vamos muito longe de Bartlett.

Ela esta negociando. Respondo: Se vamos andando, correndo ou de bicicleta, não importa. Pensando no site dela, abandonado e vazio, complemento: Devíamos escrever sobre nossas andanças pra termos algo além de fotos pra mostrar. Na verdade, você devia escrever. Eu só sorrio e faço pose pra foto.

Ainda estou sentado ali uma hora depois, mas ela já foi. Simples assim. Ou a assustei ou a irritei. Então escrevo músicas e mais músicas. Na maioria das noites, são músicas que vão mudar o mundo, porque são boas e profundas e incríveis. Mas hoje estou só dizendo pra mim mesmo que não tenho nada a ver com Violet, não importa o quanto eu queria, e me perguntando se as palavras que trocamos eram mesmo tão quentes ou se talvez eu só estivesse imaginando, empolgado com uma garota que mal conheço, só porque ela é a primeira pessoa que parece falar minha língua. Algumas palavras dessa língua, pelo menos.

Junto os comprimidos pra dormir e seguro na palma da mão. Posso engoli-los agora mesmo, deitar na cama, fechar os olhos, ir pra longe. Mas quem vai ficar de olho em Violet Markey e garantir que ela não suba de novo naquele parapeito? Jogo os comprimidos na privada e dou descarga. Então entro de novo no eleanoreviolet.com, procuro a primeira postagem e vou avançando até ler todas.

Fico acordado o máximo que posso e pego no sono por volta das quatro da manhã. Sonho que estou pelado em cima da torre do sino do colégio, no frio e na chuva. Olho pra baixo e todos estão lá, professores e alunos e meu pai comendo um hambúrguer cru, erguendo-o em direção ao céu como se brindasse comigo. Ouço um barulho atrás de mim, viro e vejo Violet, no lado oposto da torre, nua também, a não ser pelo par de botas pretas. É surpreendente — a melhor coisa que já vi —, mas, antes que eu possa me soltar do parapeito e ir até ela, ela abre a boca, salta no ar e começa a gritar.

Ouço o despertador, claro, e desligo com um soco antes de jogá-lo contra a parede, onde cai, berrando como uma ovelha perdida.





151 dias para a formatura

Segunda de manhã. Primeira aula.

Todos estão comentando a última postagem da Boatos de Bartlett, a revistinha de fofoca do colégio que não só tem o próprio site, como parece tomar conta da internet inteira. “Heroína do último ano salva colega louco de pular da torre do sino”. Não citaram nomes, mas tem uma foto do meu rosto, olhos assustados atrás dos óculos da Eleanor, franja torta. Pareço o “antes” de uma transformação. Também tem uma foto de Theodore Finch.

Jordan Gripenwaldt, editora do jornal da escola, lê o artigo para Brittany e Priscilla em voz baixa e enojada. De vez em quando, elas olham na minha direção e balançam a cabeça, não pra mim, mas para o perfeito exemplo do pior do jornalismo.

São garotas inteligentes que falam o que pensam. Eu devia ser amiga delas, não de Amanda. Nessa mesma época no ano passado, eu teria conversado e concordado com elas e escrito um texto crítico sobre fofoca no ambiente escolar. Em vez disso, pego minha mochila e digo ao professor que estou com cólica. Passo pela enfermaria e subo a e