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O Castelo no Ar

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NEXTDOOR SEXY YOUNG MUM: Non-nudity Sexy & Hot Pictures Erotic Book for Adult

Year:
2021
Language:
english
File:
PDF, 16.81 MB
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2

Fábry

Year:
2006
Language:
hungarian
File:
PDF, 3.25 MB
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Diana Wynne Jones

Tradução de RAQUEL ZAMPIL

Título original inglês: CASTLE IN THE AIR

By Diana Wynne Jones, 1990

Publicado primeiramente por

Metheun Children’s Books Ltd, 1990

Publicado primeiramente por Collins, 2000

Os direitos morais da autora foram assegurados.

Ilustração de capa: Rafael Nobre



Para Francesca



Capítulo Um

No qual Abdullah compra um tapete



No extremo sul da terra de Ingary, nos sultanatos de Rashput, um jovem mercador de tapetes chamado Abdullah vivia na cidade de Zanzib. Como acontece com os mercadores, ele não era rico. Seu pai havia se decepcionado com ele e, ao morrer, deixou a Abdullah dinheiro suficiente apenas para comprar e abastecer uma modesta tenda no canto noroeste do Bazar. O restante do dinheiro do pai, inclusive o grande empório de tapetes no centro do Bazar, tinha ido todo para os parentes da primeira esposa do pai.

Abdullah nunca soube por que o pai havia se desapontado com ele. Tinha algo a ver com uma profecia feita no nascimento do menino. Mas este nunca se dera ao trabalho de tentar descobrir mais. Em vez disso, desde muito cedo, simplesmente criara fantasias a esse respeito. Nessas fantasias, ele era na realidade o filho de um grande príncipe, desaparecido havia muito, o que significava, naturalmente, que seu pai não era seu pai de verdade. Tratava-se de uma ilusão e Abdullah sabia disso. Todos lhe diziam que ele havia herdado a aparência do pai. Quando olhava no espelho, via um jovem sem dúvida bonito, com um rosto magro semelhante ao de um falcão, e sabia que parecia bastante com o retrato de seu pai quando jovem — sempre revelando o fato de que o pai usava um viçoso bigode, ao passo que Abdullah ainda tentava juntar os seis fios que cresciam acima do lábio superior com esperanças de que se multiplicassem rapidamente.

Infelizmente, como era também opinião de todos, Abdullah havia herdado o caráter da mãe — a segunda esposa do pai. Ela fora uma mulher sonhadora e receosa, e uma grande decepção para todos. Isso não perturbava Abdullah. A vida de um;  mercador de tapetes apresenta poucas oportunidades para a bravura e ele estava, no geral, satisfeito com sua vida. A tenda que ele comprara, embora pequena, tinha uma localização bastante boa. Não era distante da Zona Oeste, onde os ricos viviam em suas mansões rodeadas por lindos jardins. Melhor ainda, era a primeira área do Bazar por onde passavam os tapeceiros quando chegavam a Zanzib, vindos do deserto em direção ao norte. Tanto os ricos quanto os tapeceiros em geral estavam à procura das lojas maiores no centro do Bazar, mas um número surpreendentemente grande deles se dispunha a fazer uma parada na tenda de um jovem mercador de tapetes quando esse jovem mercador se interpunha em seu caminho para lhes oferecer barganhas e descontos com a mais profusa cortesia.

Dessa forma, Abdullah quase sempre conseguia comprar tapetes de qualidade antes que qualquer outra pessoa os visse, e os vendia com lucro. Nos intervalos entre as compras e as vendas, ele podia sentar na tenda e dar continuidade a suas fantasias, o que lhe convinha bastante. Na verdade, praticamente o único problema em sua vida eram os parentes da primeira esposa de seu pai, que continuavam a visitá-lo uma vez por mês a fim de apontar-lhe as falhas.

— Mas você não está guardando nenhuma parte de seus lucros! — gritou Hakim, filho do irmão da primeira esposa do pai de Abdullah, a quem este detestava, num dia sem sorte.

Abdullah explicou que, quando ele lucrava alguma coisa, costumava usar aquele dinheiro para comprar um tapete melhor. Assim, embora todo o seu dinheiro estivesse investido em suas mercadorias, estas iam ficando cada dia melhores. Ele tinha o suficiente para viver. E, como dizia aos parentes do pai, não precisava de mais, pois não era casado.

— Bem, você devia se casar! — berrou Fátima, irmã da primeira esposa do pai de Abdullah, a quem ele detestava ainda mais. — Eu já disse isso uma vez e vou dizer de novo: um rapaz como você deveria ter pelo menos duas esposas a essa altura! — E, não satisfeita em simplesmente dizer isso, Fátima declarou que dessa vez ia procurar algumas esposas para ele, uma oferta que fez com que Abdullah tremesse da cabeça aos pés.

— E, quanto mais valiosas suas mercadorias se tornam, maior a probabilidade de você ser roubado, ou mais você perderá se sua tenda pegar fogo... Já pensou nisso? — resmungou Assif, filho do tio da primeira esposa do pai de Abdullah, um homem que Abdullah detestava mais do que os dois primeiros juntos.

Abdullah assegurou a Assif que sempre dormia na tenda e que tinha sempre muito cuidado com as lamparinas. Com isso, os três parentes da primeira esposa do pai sacudiram a cabeça, fizeram um muxoxo e se foram. Isso em geral significava que iam deixá-lo em paz por mais um mês. Abdullah suspirou de alívio e imediatamente mergulhou de volta em sua fantasia.

A essa altura, a fantasia já apresentava uma enorme quantidade de detalhes. Nela, Abdullah era o filho de um poderoso príncipe que vivia tão ao leste que seu país era desconhecido em Zanzib. Mas Abdullah fora raptado aos dois anos por um bandido perverso chamado Kabul Aqba, que tinha um nariz adunco como o bico de um abutre e usava uma argola de ouro presa numa das narinas. Ele carregava uma pistola com coronha de prata com a qual ameaçava Abdullah, e havia um jaspe-de-sangue em seu turbante que parecia conferir-lhe um poder sobre-humano. Abdullah estava tão assustado que fugiu para o deserto, onde foi encontrado pelo homem a quem passara a chamar de pai. O devaneio não levava em conta o fato de que o pai de Abdullah jamais havia se aventurado no deserto: na realidade, ele sempre dizia que qualquer um que se aventurasse além de Zanzib devia ser louco. Não obstante, Abdullah conseguia visualizar cada centímetro horripilante da jornada árida que fizera, cheio de sede e com os pés feridos, antes que o bom mercador de tapetes o encontrasse. Da mesma forma, conseguia visualizar com riqueza de detalhes o palácio do qual fora seqüestrado, com o imenso salão de colunas onde ficava o trono e cujo piso era de pórfiro verde, os aposentos das mulheres e as cozinhas, tudo com a máxima suntuosidade. Havia sete domos em seu telhado, cada um coberto de ouro batido.

Ultimamente, porém, a fantasia vinha se concentrando na princesa à qual Abdullah havia sido prometido no nascimento. Sua linhagem era tão alta quanto a de Abdullah e, na ausência dele, ela havia se tornado uma beldade com os traços perfeitos e imensos olhos escuros e enevoados. Ela vivia num palácio tão rico quanto o de Abdullah, ao qual se chegava seguindo uma avenida margeada por estátuas angelicais e em que se podia entrar por meio de sete pátios de mármore, cada um tendo no meio uma fonte mais preciosa do que a anterior, começando por uma feita de crisólita e terminando com uma de platina incrustada de esmeraldas.

Mas nesse dia Abdullah descobriu que não estava muito satisfeito com essa disposição das coisas. Esse era um sentimento que ele experimentava com freqüência depois de uma visita dos parentes da primeira esposa do pai. Ocorreu-lhe que um bom palácio tinha de ter jardins magníficos. Abdullah adorava jardins, embora soubesse muito pouco sobre eles. A maior parte do que sabia vinha dos parques públicos de Zanzib — onde o gramado estava um tanto pisoteado e havia poucas flores —, nos quais às vezes ele passava sua hora de almoço quando podia pagar o caolho Jamal para tomar conta de sua tenda. Jamal era o dono da tenda de frituras vizinha e, por uma ou duas moedas, amarrava seu cachorro diante da tenda de Abdullah. Este estava bastante ciente de que isso não o qualificava a inventar um jardim apropriado, mas, como qualquer coisa era melhor do que pensar em duas esposas escolhidas para ele por Fátima, ele se perdeu em frondes ondulantes e caminhos perfumados nos jardins de sua princesa.

Ou quase. Antes que Abdullah começasse propriamente, foi interrompido por um homem alto e sujo, com um tapete encardido nos braços.

— O senhor compra tapetes para vender, filho de uma grande casta? — perguntou o estranho, fazendo uma breve reverência.

Para alguém que tentava vender um tapete em Zanzib, onde compradores e vendedores sempre se dirigiam uns aos outros da maneira mais formal e floreada, os modos desse homem eram escandalosamente abruptos. Abdullah estava aborrecido de qualquer forma porque o jardim de seu sonho estava ruindo com essa interrupção da vida real. E respondeu brevemente:

— É isso mesmo, ó rei do deserto. Deseja fazer uma permuta com este miserável mercador?

— Permuta, não... venda, ó senhor de uma pilha de capachos — corrigiu-o o estranho.

Capachos!, pensou Abdullah. Isso era um insulto. Um dos tapetes em exposição na frente da tenda de Abdullah era um raro exemplar com motivo floral e borlas, de Ingary — ou Oquinstão, como chamavam aquela terra em Zanzib —, e havia pelo menos dois no interior da tenda, de Inhico e Farqtan, que o próprio sultão não teria desdenhado para um dos salões menores de seu palácio. Mas naturalmente Abdullah não podia dizer isso. Os costumes de Zanzib não lhe permitiam gabar-se. Em vez disso, fez uma referência fria e superficial.

— É possível que meu estabelecimento humilde e esquálido possa oferecer o que procura, ó pérola dos peregrinos — disse, e ao mesmo tempo corria os olhos críticos pela suja túnica do deserto, o pino de metal corroído na lateral do nariz do homem e o turbante esfarrapado que o estranho usava.

— É pior do que esquálido, poderoso senhor de tapeçarias — concordou o estranho, agitando uma extremidade de seu tapete encardido na direção de Jamal, que fritava lula naquele momento, em nuvens azuis de fumaça de peixe. — A nobre atividade de seu vizinho não penetra em suas mercadorias — perguntou ele — nem sob a forma de um persistente aroma de polvo?

Abdullah fervilhou por dentro com tamanha raiva que foi forçado a esfregar as mãos servilmente para ocultá-la. Não se esperava que as pessoas mencionassem esse tipo de coisa. E um leve cheiro de lula podia até melhorar aquela coisa que o estranho queria vender, pensou ele, olhando o tapete marrom e surrado nos braços do homem.

— Seu humilde servo toma o cuidado de defumar o interior da tenda com perfumes, ó príncipe da sabedoria — disse ele. — Quem sabe a nobre sensibilidade do nariz do príncipe não obstante lhe permitirá mostrar a este insignificante negociante sua mercadoria?

— É claro que sim, ó lírio entre peixes — retorquiu o estranho. — Por que outro motivo eu estaria aqui?

Relutante, Abdullah abriu as cortinas e guiou o homem para o interior da tenda. Ali ele acendeu a lamparina que pendia da viga central mas, depois de fungar, decidiu que não ia desperdiçar incenso com essa pessoa. O interior da tenda ainda guardava bastante os perfumes de ontem.

— Que magnificência o senhor tem para desenrolar diante de meus olhos indignos? — perguntou dubiamente.

— Isto, comprador de barganhas! — disse o homem, e, com um destro movimento do braço, fez o tapete desdobrar-se no chão.

Abdullah também sabia fazer isso. Um negociante de tapetes aprendia essas coisas. Isso não o impressionava. Ele enfiou as mãos no interior das mangas, numa atitude afetadamente servil, e examinou a mercadoria. O tapete não era grande. Aberto, estava ainda mais sujo do que ele havia pensado — embora o padrão fosse incomum, ou deveria ter sido, se a maior parte dele não estivesse gasta. O que restava estava sujo e as bordas, desgastadas.

— Ai deste pobre vendedor que só pode chegar a três moedas de cobre por este que é o mais ornamental dos tapetes — observou Abdullah. — É o limite da minha magra bolsa. Os tempos estão difíceis, ó capitão de muitos camelos. O preço é aceitável de alguma forma?

— Eu aceito QUINHENTAS — disse o homem.

— O quê? — perguntou Abdullah.

— Moedas de OURO — acrescentou o estranho.

— O rei de todos os bandidos do deserto certamente gosta de fazer pilhéria — disse Abdullah. — Ou talvez, tendo visto que em minha pequena tenda tudo falta, a não ser o cheiro de lula frita, queira sair e tentar um negociante mais rico.

— Não particularmente — disse o estranho. — Embora eu vá mesmo embora, caso não esteja interessado, ó vizinho de peixes defumados. Este é, naturalmente, um tapete mágico.

Abdullah já ouvira essa antes. Fez uma mesura com as mãos ainda sob as mangas.

— Muitas e várias são as virtudes que se atribuem aos tapetes — concordou ele. — Qual delas o poeta das areias reivindica para este? Ele dá as boas-vindas a um homem em sua tenda? Traz paz ao lar? Ou quem sabe — diz ele, cutucando a borda puída sugestivamente com um dedo do pé — ele nunca se desgasta?

— Ele voa — disse o estranho. — Voa sempre que o dono dá o comando, ó menor entre as mentes pequenas.

Abdullah ergueu os olhos para o rosto sombrio do homem, onde o deserto havia cavado linhas profundas que desciam pelos dois lados do rosto. Um ar zombeteiro tornava essas linhas ainda mais profundas. Abdullah percebeu que não gostava do homem quase tanto quanto detestava o filho do tio da primeira esposa de seu pai.

— Você precisa convencer este descrente — disse ele. — Se o tapete puder ser posto à prova, ó monarca da mendácia, então o negócio pode ser feito.

— De acordo — disse o homem alto, e então pisou sobre o tapete.

Nesse momento, um dos costumeiros tumultos aconteceu na tenda de frituras ao lado. Deviam ser alguns garotos de rua tentando roubar um pouco de lula. Seja como for, o cachorro de Jamal começou a latir: várias pessoas, inclusive o próprio Jamal, passaram a gritar, e ambos os sons foram quase abafados pelo estrépito de panelas e o chiado da gordura quente.

Trapacear era um modo de vida em Zanzib. Abdullah não permitiu que sua atenção fosse distraída um só instante do estranho e de seu tapete. Era bem possível que o homem houvesse subornado Jamal para que este criasse um tumulto. Ele havia mencionado Jamal algumas vezes, como se este estivesse em sua mente. Abdullah manteve os olhos inflexivelmente na figura alta do homem e sobretudo nos pés sujos plantados no tapete. Mas reservou um canto do olho para o rosto do homem e viu os lábios dele se moverem. Seus ouvidos alertas chegaram a captar as palavras “meio metro para cima”, apesar do alarido vindo da porta ao lado. E ele observou ainda com mais atenção quando o tapete se ergueu suavemente do chão e pairou à altura dos joelhos de Abdullah, de forma que o turbante esfarrapado do estranho estava quase tocando o teto. Abdullah procurou suportes debaixo do tapete. Olhou em busca de arames que pudessem ter sido habilmente presos ao teto. Pegou a lamparina e a inclinou, de forma que sua luz brincasse tanto acima quanto embaixo do tapete.

O estranho ficou parado com os braços cruzados e a expressão de desprezo entricheirada em seu rosto, enquanto Abdullah executava esses testes.

— Vê? — perguntou ele. — O mais desesperado dos duvidosos agora está convencido? Eu estou parado no ar ou não? — Ele teve de gritar. O barulho vindo da porta ao lado ainda era ensurdecedor.

Abdullah foi forçado a admitir que o tapete de fato parecia estar pairando no ar sem nenhum meio de suporte.

— Parece que sim — gritou de volta. — A próxima parte da demonstração é você descer do tapete e eu dar uma volta nele.

O homem franziu a testa.

— Para quê? O que seus outros sentidos têm para acrescentar à certeza de seus olhos, ó dragão da dubiedade?

— Pode ser um tapete que obedece a um só homem — gritou Abdullah. — Como alguns cães. — O cachorro de Jamal ainda estava latindo sem parar lá fora, então era natural pensar nisso. Aquele cão mordia qualquer um que o tocasse, exceto Jamal.

O estranho suspirou.

— Desça — ordenou ele e o tapete baixou suavemente até o chão. O estranho saiu de cima dele e fez um gesto para que Abdullah subisse. — Pode testá-lo, ó xeque da sagacidade.

Com um entusiasmo considerável, Abdullah subiu no tapete.

— Suba meio metro — disse, ou melhor, gritou ao tapete. Parecia que os homens da Guarda da Cidade haviam chegado à tenda de Jamal nesse momento. Eles batiam as armas e berravam que lhes contassem o que havia acontecido.

E o tapete obedeceu a Abdullah, erguendo-se meio metro numa sutil ondulação, fazendo contorcer o estômago de Abdullah. O rapaz apressou-se a sentar. O tapete era totalmente confortável. Parecia uma rede bem firme.

— Este intelecto lamentavelmente indolente está se convencendo — confessou Abdullah ao estranho. — Qual é mesmo o seu preço, ó modelo de generosidade? Duzentas de prata?

— Quinhentas de ouro — respondeu o estranho. — Diga ao tapete que desça e discutiremos o assunto.

— Desça e pouse no chão — ordenou Abdullah ao tapete, que assim fez, removendo uma leve dúvida que persistia na mente de Abdullah de que o estranho tivesse dado uma ordem extra quando Abdullah subira nele, a qual teria sido abafada no alarido da tenda vizinha. Ele saltou para o chão e teve início a barganha.

— O máximo de minha bolsa é 150 de ouro — explicou ele —, e isso quando eu a sacudo e procuro ao longo de toda a costura.

— Então você deve ir buscar sua outra bolsa ou procurar debaixo do colchão — replicou o estranho. — Pois o limite de minha generosidade é 495 de ouro, e eu não o venderia em absoluto, não fosse a mais urgente necessidade.

— Talvez eu consiga espremer outras 45 de ouro da sola do meu sapato esquerdo — disse Abdullah. — Essas eu guardo para as emergências, e é meu desprezível total.

— Examine o sapato direito — respondeu o estranho. — Quatrocentos e cinqüenta.

E assim prosseguiu. Uma hora depois o estranho saía da tenda com 210 moedas de ouro, deixando Abdullah como o encantado proprietário do que parecia ser um genuíno — mesmo que surrado — tapete mágico. Mas ele ainda estava desconfiado. Não acreditava que alguém, mesmo um andarilho do deserto com poucas necessidades, abriria mão de um autêntico tapete voador — apesar de totalmente puído — por menos de quatrocentas peças de ouro. Era útil demais — melhor do que um camelo, pois não precisava comer —, e um bom camelo custava pelo menos 450 em ouro.

Tinha de haver uma artimanha. E havia um truque do qual Abdullah já ouvira falar. Em geral era aplicado com cavalos ou cães. Um homem vinha e vendia a um fazendeiro ou caçador crédulo um animal verdadeiramente soberbo por um preço baixíssimo, dizendo que era tudo que se interpunha entre ele e a morte pela fome. O fazendeiro (ou caçador), encantado, punha o cavalo numa baia (ou o cachorro num canil) para passar a noite. Na manhã seguinte, o animal havia desaparecido, tendo sido treinado para escapulir de seu cabresto (ou coleira) e retornar ao dono durante a noite. Abdullah achava que um tapete voador obediente podia ser treinado para fazer o mesmo. Assim, antes de deixar a tenda, enrolou o tapete mágico com todo cuidado em torno de uma as hastes que sustentava o teto, e o amarrou ali, dando voltas e mais voltas, com um rolo inteiro de barbante, que ele então prendeu a uma das estacas de ferro na base da parede.

— Acho que você vai ter dificuldade em escapar daí — disse ele ao tapete, e saiu para ver o que tinha acontecido na tenda de comida.

Estava tudo quieto e arrumado agora. Jamal encontrava-se sentado ao balcão, pesarosamente abraçado ao seu cão.

— O que aconteceu? — perguntou Abdullah.

— Uns garotos ladrões entornaram toda a minha lula — contou Jamal. — O meu estoque do dia lá no meio da terra, perdido, arruinado!

Abdullah estava tão satisfeito com sua barganha que deu a Jamal duas moedas de prata para comprar mais lula. Jamal chorou de gratidão e abraçou Abdullah. Seu cachorro não só se absteve de morder Abdullah, como também lhe lambeu a mão. Abdullah sorriu. A vida era boa. E saiu assoviando em busca de uma boa ceia, enquanto o cão tomava conta de sua tenda.

Quando a noite começava a tingir o céu de vermelho por trás dos domos e minaretes de Zanzib, Abdullah voltou, ainda assoviando, cheio de planos de vender o tapete para o próprio sultão por uma quantia bem alta. Ele encontrou o tapete exatamente onde o havia deixado. Ou seria melhor abordar o grão-vizir, perguntou-se enquanto tomava banho, e sugerir que o vizir o desse de presente ao sultão? Dessa forma, ele podia pedir um valor ainda mais alto. Pensando em quanto isso valorizava o tapete, a história do cavalo treinado para fugir do cabresto começou a incomodá-lo novamente. Enquanto vestia a camisola de dormir, Abdullah começou a visualizar o tapete retorcendo-se até se soltar. Ele era velho e flexível. E provavelmente muito bem treinado. Certamente podia soltar-se do barbante. Mesmo que não pudesse, Abdullah sabia que essa idéia o manteria acordado a noite toda.

No fim, ele cortou o barbante com todo o cuidado e estendeu o tapete no topo da pilha de seus tapetes mais valiosos, que sempre usava como cama. Então pôs a touca de dormir — que era necessária, porque os ventos frios sopravam do deserto e enchiam a tenda de correntes de ar —, abriu o cobertor sobre ele, apagou a lamparina e dormiu.





Capítulo Dois



No qual Abdullah é confundido com uma jovem.





E

le acordou e se viu deitado numa encosta, o tapete ainda debaixo dele, num jardim mais lindo do que qualquer um que já havia imaginado.

Abdullah estava convencido de que estava num sonho. Ele se encontrava no jardim que estava tentando imaginar quando o estranho tão descortesmente o interrompera. Ali estava a lua quase cheia, pairando bem alto no céu, lançando uma luz tão branca quanto tinta numa centena de florezinhas cheirosas no gramado à sua volta. Pequenas lamparinas amarelas pendiam das árvores, dispersando as sombras escuras e densas da lua. Abdullah pensou que essa era uma idéia muito agradável. Sob as duas luzes, branca e amarela, ele podia ver uma arcada de trepadeiras sustentada por elegantes pilares, além do gramado onde se encontrava; e, em algum lugar, atrás disso tudo, um curso d’água escorria quase silenciosamente.

Ali era tão fresco e tão celestial que Abdullah se levantou e saiu à procura da água oculta, passando pela arcada, onde florações em forma de estrelas, brancas e silenciosas ao luar, e flores semelhantes a sinos exalavam os aromas mais estonteantes e delicados. Como se faz nos sonhos, Abdullah dedilhou um grande antúrio aqui, e tomou um delicioso atalho ali, entrando num vale de rosas pálidas. Nunca antes ele havia tido um sonho nem de perto tão lindo.

A água, quando ele a encontrou além de alguns arbustos semelhantes a samambais que gotejavam orvalho, era uma simples fonte de mármore em outro gramado, iluminada por fios de luzes nos arbustos, que transformavam a água sussurrante numa maravilha de meias-luas de ouro e de prata. Extasiado, Abdullah caminhou em sua direção.

Faltava apenas uma coisa para completar esse êxtase e, como em todos os melhores sonhos, ela surgiu. Uma jovem adorável atravessou o gramado, vindo a seu encontro, pisando suavemente na grama úmida com pés descalços. Os trajes diáfanos que flutuavam à sua volta mostravam que ela era esguia, mas não magricela, exatamente como a princesa das fantasias de Abdullah. Quando ela se aproximou, ele viu que o rosto dela não era o oval perfeito que o rosto da princesa de seu sonho deveria ter, tampouco seus imensos olhos negros eram um tanto embaciados. Na verdade, eles lhe examinavam o rosto intensamente, com evidente interesse. Abdullah rapidamente ajustou seu sonho, pois ela decerto era muito bonita. E, quando falou, sua voz era tudo que ele podia ter desejado, sendo clara e alegre como a água da fonte, ao mesmo tempo que era a voz de uma pessoa bem decidida.

— Você é algum tipo de criada? — perguntou ela.

As pessoas sempre faziam perguntas estranhas nos sonhos, pensou Abdullah.

— Não, obra-prima da minha imaginação — disse ele. — Saiba que sou na verdade o filho há muito perdido de um príncipe distante.

— Ah — disse ela. — Então isso deve fazer alguma diferença. Significa que você é um tipo de mulher diferente de mim?

Abdullah fitou a garota de seus sonhos com alguma perplexidade.

— Eu não sou uma mulher! — exclamou ele.

— Tem certeza? — perguntou ela. — Você está usando vestido.

Abdullah olhou para baixo e viu que, à maneira dos sonhos, ele estava vestido com sua camisola.

— Este é apenas meu estranho traje de estrangeiro — apressou-se a dizer. — Meu verdadeiro país fica longe daqui. Asseguro-lhe que sou homem.

— Ah, não — disse ela, decidida. — Você não pode ser um homem. Tem a forma errada. Os homens são duas vezes mais largos do que você no corpo todo, e a barriga deles cai para a frente num monte de gordura. E eles têm pêlos grisalhos no rosto todo e nada, a não ser a pele lustrosa, na cabeça. Você tem tanto cabelo na cabeça quanto eu e quase nenhum no rosto. — Então, quando Abdullah, indignado, levava a mão à meia dúzia de pêlos sobre o lábio superior, ela perguntou: — Ou será que você tem pele nua debaixo do chapéu?

— Certamente que não — disse Abdullah, que tinha orgulho de sua cabeleira espessa e ondulada. Ele levou as mãos à cabeça e tirou o que vinha a ser sua touca de dormir. — Olhe — disse ele.

— Ah — exclamou ela com uma expressão intrigada no rosto adorável. — Você tem cabelos quase tão bonitos quanto os meus. Eu não entendo.

— Eu também não sei direito se entendo — disse Abdullah.

— Será possível que você não tenha visto muitos homens?

— É claro que não — disse ela. — Não seja tola. Eu só vi meu pai! Mas vi bastante dele, então eu sei.

— Mas... você nunca sai? — perguntou Abdullah, involuntariamente.

Ela riu.

— Saio. Estou fora de casa agora. Este é o meu jardim noturno. Meu pai mandou fazê-lo para que eu não estragasse minha aparência saindo ao sol.

— Eu me refiro a sair na cidade, para ver as pessoas — explicou Abdullah.

— Bem, não, ainda não — admitiu ela. Como se isso a incomodasse um pouco, ela girou, afastando-se dele, e foi sentar-se na borda da fonte. Virando-se a fim de olhar para ele, ela disse: — Meu pai me diz que eu talvez possa sair e ver a cidade de vez em quando depois que me casar... se meu marido permitir. Mas não vai ser esta cidade. Meu pai está combinando para que eu me case com um príncipe de Oquinstão. Até lá tenho de ficar entre estes muros, naturalmente.

Abdullah ouvira dizer que algumas das pessoas muito ricas de Zanzib mantinham as filhas — e até mesmo as esposas — quase como prisioneiras dentro de suas casas grandiosas. Muitas vezes ele desejara que alguém mantivesse Fátima, a irmã da primeira mulher de seu pai, dessa forma. Mas agora, em seu sonho, esse costume pareceu-lhe inteiramente irracional e injusto com essa adorável garota. Imagine não saber como é um rapaz normal!

— Perdoe-me por perguntar, mas por acaso o príncipe de Oquinstão é velho e um tanto feio? — indagou ele.

— Bem — começou ela, evidentemente sem nenhuma certeza —, meu pai diz que ele está em pleno apogeu, assim como também ele, meu pai. Mas eu acredito que o problema esteja na natureza brutal dos homens. Se outro homem me visse antes do príncipe, meu pai diz que ele se apaixonaria imediatamente por mim e me levaria embora, o que arruinaria os planos do meu pai, é claro. Ele diz que os homens, em sua maioria, são uns grandes brutos. Você é um bruto?

— De modo algum — disse Abdullah.

— Foi o que pensei — disse ela, e o olhou com grande preocupação. — Você não me parece um bruto. Isso me dá uma relativa certeza de que então não pode mesmo ser um homem. — Era evidente que ela era uma daquelas pessoas que gostavam de se agarrar a uma teoria depois que a formulavam. Depois de pensar por um momento, ela perguntou: — Será que sua família, por razões particulares, não o criou acreditando numa mentira?

Abdullah teve vontade de dizer que a situação era justamente inversa, mas, como isso lhe pareceu indelicado, ele simplesmente sacudiu a cabeça e pensou em como era generoso da parte dela preocupar-se com ele, e como a preocupação estampada em seu rosto só o tornava ainda mais belo — sem falar na maneira como seus olhos brilhavam bondosamente à luz dourada e prateada que a fonte refletia.

— Talvez tenha alguma coisa a ver com o fato de você ser de um país distante — disse ela e bateu na borda da fonte, ao seu lado. — Sente-se e me conte tudo a esse respeito.

— Diga-me primeiro o seu nome — pediu Abdullah.

— É um nome bastante tolo — disse ela, nervosamente. — Eu me chamo Flor da Noite.

Era o nome perfeito para a garota dos seus sonhos, pensou Abdullah. Ele a olhou com admiração.

— Meu nome é Abdullah — apresentou-se.

— Até lhe deram um nome de homem! — exclamou Flor da Noite, indignada. — Sente-se e me conte.

Abdullah sentou-se na calçada de mármore ao lado dela e pensou em como esse sonho era real. A pedra estava fria. Respingos da fonte molhavam sua camisola, enquanto o doce perfume de água-de-rosas de Flor da Noite se misturava de forma bastante realista aos aromas das flores no jardim. Mas, como era um sonho, então suas fantasias também eram verdadeiras aqui. Assim Abdullah lhe contou tudo sobre o palácio em que vivera como príncipe, e como fora seqüestrado por Kabul Aqba e fugira para o deserto, onde o mercador de tapetes o havia encontrado.

Flor da Noite ouviu com total compreensão.

— Que terrível! Que exaustivo! — observou ela. — Será possível que seu pai de criação estava aliado aos bandidos para enganá-la?

Abdullah experimentava a sensação crescente, apesar do fato de estar apenas sonhando, de que estava conquistando a solidariedade dela com base em mentiras. Ele concordou que o pai poderia ter tido um acordo com Kabul Aqba, e então mudou de assunto.

— Voltemos ao seu pai e aos planos dele — disse Abdullah. — Parece-me um pouco estranho que você deva se casar com esse príncipe de Oquinstão sem que tenha visto nenhum outro homem com os quais compará-lo. Como vai saber se o ama ou não?

— Você tem aí um bom argumento — disse ela. — Isso às vezes também me preocupa.

— Então vou lhe dizer uma coisa — disse Abdullah. — Suponha que eu volte amanhã à noite e lhe traga retratos de tantos homens quantos puder encontrar? Isso deve lhe dar algum parâmetro de comparação para o príncipe. — Sonho ou não, Abdullah não tinha nenhuma dúvida de que voltaria no dia seguinte. Isso lhe daria uma desculpa apropriada.

Flor da Noite refletiu sobre a sua oferta, oscilando perigosamente para a frente e para trás com as mãos abraçando os joelhos. Abdullah quase podia ver fileiras de homens gordos, carecas e de barba grisalha desfilando diante dos olhos da mente dela.

— Eu lhe asseguro — disse ele — que existem homens de todos os tamanhos e formatos.

— Então isso seria muito educativo — concordou ela. — Pelo menos me daria uma desculpa para vê-lo novamente. Você é uma das pessoas mais agradáveis que já conheci.

Isso deixou Abdullah ainda mais determinado a retornar no dia seguinte. Disse a si mesmo que seria injusto deixá-la em tal estado de ignorância.

— E eu penso da mesma forma em relação a você — disse ele, com timidez.

Com isso, para seu desapontamento, Flor da Noite ergueu-se para ir embora.

— Preciso entrar agora — disse ela. — Uma primeira visita não deve durar mais do que meia hora, e tenho quase certeza de que você está aqui o dobro desse tempo. Mas, agora que já nos conhecemos, você pode ficar pelo menos duas horas da próxima vez.

— Obrigado. Eu voltarei — afirmou Abdullah.

Ela sorriu e se foi como num sonho, para além da fonte e de dois frondosos arbustos em flor.

Depois disso, o jardim, o luar e os aromas pareceram um tanto insípidos a Abdullah. E não lhe ocorreu nada melhor a fazer senão voltar pelo caminho por onde viera. E ali, na encosta iluminada pela lua, encontrou o tapete. Ele o havia esquecido completamente. Mas, como ele estava ali no sonho também, ele se deitou nele e adormeceu.

Acordou algumas horas depois com a ofuscante luz do dia escoando pelas frestas em sua tenda. O cheiro do incenso de anteontem pairando no ar lhe pareceu de má qualidade e sufocante. Na verdade, toda a tenda estava abafada, bolorenta e vulgar. E ele estava com dor de ouvido porque sua touca de dormir parecia ter caído enquanto ele dormia. Mas pelo menos descobriu, enquanto a procurava, que o tapete não se fora durante a noite. Ainda estava debaixo dele. Essa era a única coisa boa que ele conseguia ver no que de repente lhe parecia uma vida completamente monótona e deprimente.

Aqui Jamal, que ainda estava agradecido pelas moedas de prata, gritou lá fora que tinha o café-da-manhã pronto para os dois. De bom grado Abdullah abriu as cortinas da tenda. Galos cantavam à distância. O céu estava de um azul brilhante e feixes nítidos de raios de sol cortavam a poeira azul e o velho incenso dentro da tenda. Mesmo àquela luz forte, Abdullah não conseguiu encontrar a touca. E estava mais deprimido do que nunca.

— Diga-me: às vezes, em certos dias, você se sente inexplicavelmente triste? — perguntou a Jamal quando os dois estavam sentados de pernas cruzadas ao sol, do lado de fora, comendo.

Jamal ternamente ofereceu um pedaço de pão doce a seu cachorro.

— Eu estaria triste hoje — disse ele — se não fosse por você. Acho que alguém pagou aqueles garotos desgraçados para me roubar. Eles foram tão meticulosos e, para completar, a Guarda me multou. Eu lhe contei? Acho que tenho inimigos, meu amigo.

Embora isso confirmasse as suspeitas de Abdullah em relação ao estranho que lhe vendera o tapete, não era de grande ajuda.

— Talvez — disse ele — você devesse ter mais cuidado com quem deixa seu cachorro morder.

— Eu não! — replicou Jamal. — Sou um defensor do livre-arbítrio. Se meu cachorro opta por odiar toda a raça humana, com exceção de mim, ele deve ter liberdade de fazê-lo.

Depois do café-da-manhã, Abdullah procurou de novo a touca de dormir. Ela simplesmente não estava lá. Tentou se lembrar da última vez em que a havia usado. Foi quando se deitara para dormir na noite anterior, quando estava pensando em levar o tapete para o grão-vizir. Depois disso veio o sonho. Ele havia descoberto que estava usando a touca então. E lembrava-se de tê-la tirado para mostrar a Flor da Noite (que nome adorável!) que ele não era careca. A partir daí, até onde podia recordar, tinha carregado a touca nas mãos até o momento em que se sentara ao lado de Flor da Noite na beira da fonte. Depois disso, quando ele recontava a história de seu seqüestro por Kabul Aqba, tinha a nítida lembrança de agitar ambas as mãos livremente enquanto falava, e sabia que a touca não estava em nenhuma das duas. As coisas desaparecem mesmo nos sonhos, ele sabia, mas os indícios apontavam, ainda assim, para a hipótese de ele a ter deixado cair ao sentar. Seria possível que a tivesse deixado na grama ao lado da fonte? Nesse caso...

Abdullah ficou totalmente imóvel no centro da tenda, fitando os raios de sol que, por mais estranho que fosse, já não pareciam cheios de esquálidas partículas de poeira e incenso velho. Em vez disso, eram fatias de puro ouro do próprio céu.

— Então não foi um sonho! — exclamou Abdullah.

De alguma forma, sua depressão havia desaparecido. Até mesmo respirar era mais fácil.

— Era real! — disse ele.

E parou sobre o tapete mágico, olhando-o, pensativo. Ele também estivera no sonho. E nesse caso...

— Você então me transportou para o jardim de algum homem rico enquanto eu dormia — disse ele. — Talvez eu tenha falado e lhe ordenado que assim fizesse durante o meu sono. É muito provável. Eu estava pensando em jardins. Você é ainda mais valioso do que pensei!





Capítulo Três



No qual Flor da Noite descobre vários fatos importantes





C

om cuidado, Abdullah amarrou o tapete novamente em torno do esteio do teto e saiu para o Bazar, onde procurou a tenda do mais habilidoso dos vários artistas que tinham negócios por lá.

Após as habituais cortesias, nas quais Abdullah chamou o artista de príncipe do lápis e encantador de giz, e o artista retrucou chamando Abdullah de a fina flor dos clientes e duque do discernimento, o vendedor de tapetes disse:

— Quero desenhos de todos os tamanhos, formatos e tipos de homem que você já viu. Desenhe reis e pobres, mercadores e operários, gordos e magros, jovens e velhos, bonitos e feios, e também os que forem medianos. Se algum desses for um tipo que você nunca viu, peço que os invente, ó exemplo do pincel. E, se sua invenção falhar, o que acho muito pouco provável, ó aristocrata dos artistas, então tudo que precisa fazer é voltar os olhos para o mundo lá fora, mirar e copiar!

Abdullah abriu um braço para apontar a turba fervilhante que se acotovelava fazendo compras no Bazar. Ele se comoveu quase às lágrimas ao pensar que essa cena diária era algo que Flor da Noite jamais tinha visto.

O artista desceu a mão, hesitante, pela barba desalinhada.

— Certamente, nobre admirador da humanidade — disse ele. — Posso fazer isso com facilidade. Mas quem sabe se a jóia do discernimento pudesse informar a este humilde desenhista para que precisa desses muitos retratos de homens...

— Por que iria a coroa e o diadema da prancha de desenho querer saber disso? — indagou Abdullah, um tanto consternado.

— Com certeza o líder dos clientes compreenderá que este verme deformado precisa saber que meio usar — replicou o artista. Na verdade, ele estava apenas curioso com o pedido muitíssimo incomum. — Pintar em óleo sobre madeira ou tela, com caneta em papel ou velino, ou mesmo a fresco numa parede, depende do que esta pérola entre os mecenas deseja fazer com os retratos.

— Ah, papel, por favor — apressou-se em dizer Abdullah. Ele não tinha a menor intenção de tornar seu encontro com Flor da Noite público. Estava claro para ele que o pai dela devia ser um homem muito rico e que certamente se oporia a que um jovem mercador de tapetes mostrasse à filha outros homens além do príncipe de Oquinstão. — Os retratos são para um inválido que nunca pôde viajar por terras estranhas como outros homens fazem.

— Então o senhor é um campeão da caridade — disse o artista, e concordou em fazer os retratos por uma quantia surpreendentemente pequena. — Não, não, filho da fortuna, não me agradeça — disse quando Abdullah tentou expressar sua gratidão. — Minhas razões são três. Primeiro, tenho já prontos muitos retratos que faço para o meu próprio prazer, e cobrar-lhe por esses não é honesto, pois eu os teria desenhado de qualquer forma. Segundo, a tarefa de que me incumbiste é dez vezes mais interessante do que meu trabalho costumeiro, que consiste em fazer retratos de noivas ou de seus noivos no dia do casamento, ou de cavalos e camelos, os quais tenho de fazer parecerem bonitos, a despeito da realidade. Ou ainda pintar fileiras de crianças melequentas cujos pais querem que pareçam anjos, também sem me ater à realidade. E minha terceira razão é que acho que você é louco, meu mais nobre dos clientes, e explorá-lo seria nefasto.

Espalhou-se quase imediatamente, por todo o Bazar, que Abdullah, o jovem mercador de tapetes, havia perdido o juízo e que compraria quaisquer retratos que as pessoas tivessem para vender.

Isso foi um grande inconveniente para Abdullah. Pelo resto do dia ele foi constantemente interrompido por pessoas que chegavam com discursos longos e floreados sobre esse retrato de sua avó do qual só a pobreza as levava a abrir mão; ou esse retrato do camelo de corrida do sultão que caiu da traseira de uma carroça; ou o medalhão contendo uma foto de sua irmã. Abdullah precisou de muito tempo para se livrar dessas pessoas — e em várias ocasiões acabou comprando um retrato ou desenho, se o retratado fosse homem. O que naturalmente fazia com que as pessoas continuassem vindo.

— Só hoje. Minha oferta se estende apenas até o pôr-do-sol de hoje — disse ele, por fim, à crescente multidão. — Deixem que todos aqueles com um retrato de homem venham até mim uma hora antes do pôr-do-sol, e eu o comprarei. Mas só nesse momento.

Isso lhe deixou algumas horas de paz durante as quais pôde fazer experiências com o tapete. A essa altura ele se perguntava se estava certo ao pensar que a visita ao jardim fora mais do que um sonho. Pois o tapete não se movia. Naturalmente Abdullah o havia testado depois do café-da-manhã, pedindo-lhe que levantasse outra vez até a altura de meio metro, só para provar que ele o faria. E ele simplesmente continuou imóvel no chão. Ele tornou a testá-lo quando voltou da tenda do desenhista, e mais uma vez o tapete ficou lá parado.

— Talvez eu não o tenha tratado bem — disse ao tapete. — Você permaneceu comigo fielmente, apesar de minhas suspeitas, e eu o recompensei amarrando-o a uma haste. Você se sentiria melhor se eu o deixasse esticado no chão, meu amigo? É isso?

Ele deixou o tapete no chão, mas ainda assim ele não voava. Não faria diferença se fosse um mero capacho.

Abdullah tornou a pensar no assunto, nos intervalos em que as pessoas não o estavam importunando para que comprasse retratos. Relembrou as suspeitas em relação ao estranho que lhe vendera o tapete e à barulhada que ocorreu na tenda de Jamal no preciso momento em que o estranho ordenava ao tapete que se erguesse. Lembrava-se de ter visto os lábios do homem se moverem de ambas as vezes, mas não tinha ouvido tudo que ele dissera.

— É isso! — gritou, batendo com a mão fechada na palma da outra mão. — É preciso dizer uma palavra-código antes de ele se mover, a qual por motivos próprios, sem dúvida altamente sinistros, aquele homem omitiu a mim. O vilão! E eu devo ter dito essa palavra enquanto dormia.

Ele correu até os fundos da tenda e esquadrinhou o gasto dicionário que havia usado na escola. Então, de pé sobre o tapete, gritou:

— Aabora! Voe, por favor!

Nada aconteceu, nem nesse momento nem com qualquer outra palavra começada com A. Obstinadamente, Abdullah seguiu para o B, e quando isso também não resolveu, ele continuou, percorrendo todo o dicionário. Com as constantes interrupções dos vendedores de retratos, isso lhe tomou algum tempo. Não obstante, chegou a zurzir no começo da noite sem que o tapete tivesse se movido um milímetro sequer.

— Então tem de ser uma palavra inventada ou estrangeira! — gritou ele, febrilmente. Era isso ou acreditar que Flor da Noite era apenas um sonho, afinal. Mesmo que ela fosse real, suas chances de fazer o tapete levá-lo até ela pareciam mais escassas a cada minuto. Ele ficou ali de pé pronunciando cada som estranho e cada palavra estrangeira que lhe ocorria, e ainda assim o tapete não fazia nenhum movimento.

Abdullah foi novamente interrompido uma hora antes de o sol se pôr por uma enorme multidão que se reunia lá fora, carregando trouxas e pacotes planos. O artista precisou abrir caminho em meio à turba com sua pasta de desenhos. A hora que se seguiu foi totalmente frenética. Abdullah inspecionou pinturas, rejeitou retratos de tias e mães, e derrubou preços pedidos por retratos ruins de sobrinhos. No curso dessa hora ele adquiriu, além da centena de excelentes desenhos do artista, 89 outros quadros, medalhões, desenhos e até mesmo um pedaço de parede com um rosto pintado nele. Abdullah também se desfez de quase todo o dinheiro que lhe restara depois de comprar o tapete mágico — se é que era mágico. No momento em que finalmente convenceu um homem, que afirmava que o quadro a óleo da mãe de sua quarta esposa era semelhante o bastante a um homem para qualificar-se, de que não era esse o caso, e o conduziu para fora da tenda, já estava escuro. Abdullah estava então exausto e agitado demais para comer. E teria ido direto para a cama não tivesse Jamal — que vinha fazendo um excelente negócio vendendo lanches para a multidão à espera — chegado com espetinhos de carne macia.

— Não sei o que deu em você — disse Jamal. — Eu achava que você era normal. Mas, louco ou não, precisa comer.

— Não tem nada de loucura — replicou Abdullah. — Eu simplesmente decidi entrar num novo ramo de negócio. — Mas comeu a carne.

Finalmente conseguiu empilhar seus 189 retratos em cima do tapete e deitar-se entre eles.

— Agora ouça isto — disse ao tapete. — Se, por um golpe de sorte, eu lhe disser a palavra-código em meu sono, você deve voar instantaneamente comigo para o jardim noturno de Flor da Noite.

Isso parecia ser o melhor que Abdullah podia fazer. Ele levou bastante tempo para conseguir dormir.

E acordou com a etérea fragrância de flores noturnas e uma mão cutucando-o delicadamente. Flor da Noite debruçava-se sobre ele. Abdullah viu que ela era muito mais adorável do que ele vinha se lembrando.

— Você trouxe mesmo os retratos! — exclamou ela. — Você é muito gentil.

Consegui! pensou Abdullah, triunfante.

— É — disse ele. — Tenho 189 tipos de homem aqui. Acho que isso vai lhe dar pelo menos uma idéia geral.

Ele a ajudou a desenganchar algumas lamparinas douradas e colocá-las num círculo ao lado de uma elevação. Então Abdullah lhe mostrou os retratos, segurando-os primeiro debaixo de uma lamparina e então os apoiando na encosta. Ele começou a se sentir como um artista de calçada.

Flor da Noite inspecionava cada homem à medida que Abdullah mostrava os retratos, com absoluta imparcialidade e grande concentração. Então ela pegou uma lamparina e inspecionou os desenhos do artista novamente. Isso agradou Abdullah. O artista era um verdadeiro profissional. Ele havia desenhado homens exatamente como Abdullah pedira, de um tipo heróico e majestoso, evidentemente copiado de uma estátua, ao corcunda que limpava sapatos no Bazar, e incluíra até mesmo um auto-retrato no meio do caminho.

— É, estou vendo — disse Flor da Noite, por fim. — Os homens variam muito mesmo, como você disse. Meu pai não representa um padrão, em absoluto. Tampouco você, é claro.

— Então reconhece que não sou uma mulher? — perguntou Abdullah.

— Sou forçada a isso — disse ela. — Peço-lhe desculpas por meu erro. — Então apanhou a lamparina e a carregou ao longo da encosta, inspecionando alguns rostos uma terceira vez.

Abdullah percebeu, bastante nervoso, que os que ela havia separado eram os mais bonitos. Ele a observou inclinar-se na direção deles com o cenho franzido e um cacho do cabelo escuro caindo na testa, com expressão de grande concentração. Ele começou a se perguntar o que havia provocado.

Flor da Noite recolheu os retratos e arrumou-os numa pilha ao lado da encosta.

— É exatamente como pensei — disse ela. — Prefiro você a qualquer um destes. Alguns parecem orgulhosos demais de si mesmos e outros parecem egoístas e cruéis. Você é modesto e gentil. Pretendo pedir a meu pai que me case com você em vez do príncipe de Oquinstão. Você se importa?

O jardim pareceu girar em torno de Abdullah num borrão de ouro e prata e verde-escuro.

— Eu... eu acho que isso pode não dar certo — conseguiu dizer, por fim.

— Por que não? — perguntou ela. — Você já é casado?

— Não, não — disse ele. — Não é isso. A lei permite que um homem tenha quantas esposas ele puder sustentar, mas...

A testa de Flor da Noite voltou a franzir.

— Quantos maridos as mulheres têm permissão para ter? — indagou ela.

— Apenas um! — respondeu Abdullah, um tanto chocado.

— Isso é extremamente injusto — observou Flor da Noite, pensativa. Ela sentou na elevação e refletiu. — Você diria que é possível que o príncipe de Oquinstão já tenha algumas esposas?

Abdullah viu a testa de Flor da Noite franzir ainda mais e os dedos esguios da mão direita dela tamborilarem quase com irritação na grama. Ele sabia que havia de fato provocado alguma coisa. Flor da Noite estava descobrindo que o pai a mantivera na ignorância de vários fatos importantes.

— Se ele é um príncipe — disse Abdullah, bastante nervoso —, acho que é totalmente possível que tenha um bom número de esposas. Sim.

— Então ele está sendo cobiçoso — afirmou Flor da Noite. — O que tira um peso dos meus ombros. Por que você disse que meu casamento com você pode não dar certo? Você ontem mencionou que também é um príncipe.

Abdullah sentiu o rosto pegar fogo, e se amaldiçoou por tagarelar sobre suas fantasias. Embora ele dissesse a si mesmo que tinha todas as razões para acreditar que estava sonhando quando falou a ela sobre o assunto, isso não o fazia sentir-se melhor.

— Verdade. Mas também lhe disse que estava perdido e distante do meu reino — lembrou ele. — Como você pode supor, agora sou forçado a ganhar a vida por meios humildes. Eu vendo tapetes no Bazar de Zanzib. Seu pai sem dúvida é um homem muito rico. Essa não lhe parecerá uma união adequada.

Os dedos de Flor da Noite martelavam agora com certa fúria.

— Você fala como se fosse meu pai que pretendesse casar com você! — disse ela. — Qual é o problema? Eu amo você. Você não me ama?

Ela fitou o rosto de Abdullah ao dizer essas palavras. Ele a fitou de volta, no que pareceu uma eternidade de grandes olhos escuros. E se viu dizendo:

— Sim.

Flor da Noite sorriu. Abdullah sorriu. Várias outras eternidades enluaradas se passaram.

— Vou junto quando você partir — disse Flor da Noite. — Como o que diz sobre a atitude do meu pai em relação a você pode muito bem ser verdade, devemos nos casar primeiro e só depois contar ao meu pai. Então ele não poderá dizer nada.

Abdullah, que tinha alguma experiência com homens ricos, desejou poder ter certeza disso.

— Pode não ser tão simples assim — afirmou ele. — Na verdade, pensando nisso agora, estou certo de que nosso único rumo prudente é sair de Zanzib. Isso deve ser fácil, porque eu por acaso tenho um tapete mágico... Lá está ele, no alto da encosta. Ele me trouxe aqui. Infelizmente, precisa ser ativado por uma palavra mágica que, ao que parece, eu só consigo dizer durante o sono.

Flor da Noite apanhou uma lamparina e a segurou bem alto, de forma a poder inspecionar o tapete. Abdullah observava, admitindo a graça com que ela se inclinava para a frente.

— Parece muito velho — disse ela. — Já li sobre esses tapetes. A palavra-código provavelmente é uma palavra bastante comum pronunciada de maneira antiga. Minha leitura sugere que esses tapetes se destinavam a serem usados rapidamente numa emergência, e assim a palavra não pode ser nada de extraordinário. Por que não me conta detalhadamente tudo que sabe sobre ele? Juntos, poderemos descobrir.

Com isso, Abdullah percebeu que Flor da Noite — descontados os lapsos em seu conhecimento prático — era tão inteligente quanto instruída. Ele a admirou ainda mais. E contou-lhe, até onde sabia, todos os fatos sobre o tapete, inclusive o tumulto na tenda de Jamal que impedira que ele ouvisse a palavra-código.

Flor da Noite ouvia e assentia a cada novo fato.

— Então — disse ela —, vamos deixar de lado a razão por que alguém lhe venderia um tapete comprovadamente mágico e, não obstante, cuidaria para que você não pudesse usá-lo. É uma coisa tão estranha que tenho certeza de que devemos refletir sobre isso mais tarde. Mas primeiro vamos pensar no que o tapete faz. Você diz que ele desceu quando mandou que o fizesse. O estranho falou nesse momento?

A mente dela era sagaz e lógica. Ele havia de fato encontrado uma pérola entre as mulheres, pensou Abdullah.

— Tenho quase certeza de que ele não falou nada.

— Então — continuou Flor da Noite —, a palavra-comando só é necessária para fazer o tapete começar a voar. Depois disso, eu só vejo duas possibilidades. Primeiro, que o tapete fará o que você disser até tocar o solo, em algum lugar. Ou, segundo, que ele de fato obedecerá seu comando até que esteja de volta ao local de onde partiu...

— Pode-se provar isso facilmente — disse Abdullah. Ele estava tonto de admiração pela lógica dela. — Acho que a segunda possibilidade é a correta. — Ele saltou sobre o tapete e gritou, experimentando: — Para cima e de volta à minha tenda!

— Não, não! Não! Espere! — gritou Flor da Noite no mesmo instante.

Mas era tarde demais. O tapete açoitou o ar e então deslizou de lado com tamanha velocidade e de modo tão súbito que Abdullah primeiro foi jogado de costas, perdendo o fôlego, e depois se viu pendurado, com a metade do corpo pendendo da borda desgastada, no que parecia uma altura aterrorizante. O deslocamento de ar provocado pelo movimento tornou a tirar-lhe o ar assim que ele conseguiu respirar. Tudo que podia fazer era tentar freneticamente segurar-se melhor na franja numa das extremidades. E, antes que conseguisse voltar à posição anterior sobre o tapete, muito menos falar, o tapete mergulhou — deixando o fôlego recém-adquirido de Abdullah lá no alto —, abriu caminho entre as cortinas da tenda — semi-asfixiando Abdullah no processo —, e aterrissou suavemente no chão, no interior da tenda.

Abdullah ficou caído de cara no chão, ofegante, com lembranças vertiginosas de torreões turbilhonando por ele contra um céu estrelado. Tudo havia acontecido tão rápido que, a princípio, só conseguia pensar que a distância entre sua tenda e o jardim noturno devia ser surpreendentemente curta. Então, enquanto sua respiração enfim voltava, ele queria se socar. Que coisa estúpida para se fazer! Ele podia pelo menos ter esperado até Flor da Noite ter tempo de subir no tapete também. Agora a lógica da própria Flor da Noite lhe dizia que não havia forma de voltar para ela, a não ser dormir novamente e, mais uma vez, esperar ter a sorte de dizer a palavra-código em seu sono. Mas, como já fizera isso duas vezes, ele estava razoavelmente certo de que conseguiria. Estava ainda mais certo de que Flor da Noite deduziria isso por conta própria e esperaria por ele no jardim. Ela era a inteligência em pessoa — uma pérola entre as mulheres. Ela o esperaria de volta em uma hora mais ou menos.

Depois de uma hora alternando entre culpar-se e enaltecer Flor da Noite, Abdullah de fato conseguiu dormir. Mas, infelizmente, quando acordou ainda estava de cara no tapete no meio de sua tenda. O cachorro de Jamal latia lá fora, e fora isso que o havia acordado.

— Abdullah! — gritou a voz do filho do irmão da primeira esposa de seu pai. — Você está acordado aí?

Abdullah gemeu. Isso era tudo de que precisava.

Capítulo Quatro



O qual diz respeito a casamento e profecia





A

bdullah não conseguia atinar no que Hakim estaria fazendo lá. Os parentes da primeira esposa de seu pai em geral só se aproximavam dele uma vez por mês, e já lhe haviam feito essa visita dois dias antes.

— O que você quer, Hakim? — gritou ele, abatido.

— Falar com você, é claro! — gritou Hakim de volta. — Com urgência!

— Então abra as cortinas e entre — disse Abdullah. Hakim introduziu o corpo roliço entre as tapeçarias.

— Eu devo dizer que, se essa é a segurança de que se vangloria, filho do marido de minha tia — disse ele —, eu não a tenho em boa conta. Qualquer um pode entrar aqui e surpreendê-lo enquanto você dorme.

— O cachorro lá fora me avisou que você estava aqui — disse Abdullah.

— E de que serve isso? — perguntou Hakim. — O que você faria se eu viesse a ser um ladrão? Ia estrangular-me com um tapete? Não, eu não posso aprovar a segurança de seus arranjos.

— O que você queria me dizer? — perguntou Abdullah. — Ou você só veio aqui ver os defeitos, como sempre?

Hakim sentou-se auspiciosamente numa pilha de tapetes.

— Falta-lhe sua escrupulosa cortesia natural, primo por casamento — disse ele. — Se o filho do tio do meu pai o ouvisse, não ficaria satisfeito.

— Eu não devo satisfação a Assif por meu comportamento ou por nenhuma outra coisa! — devolveu Abdullah. Ele estava totalmente arrasado. Sua alma gritava por Flor da Noite, e ele não podia ir até ela. Não tinha paciência com mais nada.

— Então não vou perturbá-lo com minha mensagem — disse Hakim, levantando-se com altivez.

— Ótimo! — disse Abdullah. E foi para os fundos da tenda para lavar-se.

Mas estava claro que Hakim não iria embora sem entregar sua mensagem. Quando Abdullah retornou depois de se lavar, Hakim ainda estava lá de pé.

— Você faria bem em trocar de roupa e visitar um barbeiro, primo por casamento — disse ele a Abdullah. — No momento você não parece a pessoa apropriada para visitar nosso empório.

— E por que eu deveria ir até lá? — perguntou Abdullah, um tanto surpreso. — Vocês todos deixaram claro há muito tempo que eu não sou bem-vindo.

— Porque — disse Hakim — a profecia feita em seu nascimento veio à luz numa caixa que há muito se pensava continha apenas incenso. Se você se der ao trabalho de comparecer ao empório vestido de modo adequado, essa caixa lhe será entregue.

Abdullah não tinha o menor interesse nessa tal profecia. Tampouco imaginava por que teria de ir pessoalmente buscá-la quando Hakim poderia muito bem tê-la trazido com ele. Estava prestes a recusar quando lhe ocorreu que, se tivesse sucesso ao pronunciar a palavra certa em seu sonho desta noite (o que ele estava confiante que aconteceria, o mesmo já tendo acontecido duas vezes), então ele e Flor da Noite com toda a probabilidade fugiriam juntos para se casar. Um homem deveria ir ao seu casamento corretamente trajado, limpo e barbeado. Então, como ele iria mesmo a uma sala de banho e a uma barbearia, poderia também ir buscar a tola profecia na volta.

— Muito bem — disse ele. — Podem me esperar duas horas antes do pôr-do-sol.

Hakim franziu a testa.

— Por que tão tarde?

— Porque tenho coisas para fazer, primo por casamento — explicou Abdullah. A idéia de sua fuga iminente deixava-o tão feliz que ele sorriu para Hakim e fez-lhe uma mesura com extrema cortesia. — Embora eu leve uma vida atarefada, com pouco tempo de sobra para obedecer a suas ordens, estarei lá, não tenha medo.

Hakim continuou de testa franzida e, ao sair, virou-se para olhar, sobre os ombros, as costas de Abdullah. Era óbvio que ele estava tão aborrecido quanto desconfiado. Abdullah não poderia ter dado menos importância ao assunto. Assim que Hakim sumiu de vista, ele alegremente deu a Jamal metade do dinheiro que lhe restava, para tomar conta de sua tenda durante o dia. Em troca, foi obrigado a aceitar do cada vez mais agradecido Jamal um café-da-manhã constituído de todas as iguarias da tenda. A excitação tirara o apetite de Abdullah. Havia ali comida demais e, para não ferir os sentimentos de Jamal, ele deu secretamente a maior parte dela para o cachorro de Jamal — o que fez com cautela, pois o cão era tão rápido em abocanhar quanto em morder. Ele, porém, parecia partilhar a gratidão do dono. Abanou o rabo educadamente, comeu tudo que Abdullah lhe ofereceu e então tentou lamber o rosto de Abdullah.

O mercador esquivou-se desse gesto de cortesia. O bafo do cachorro era de lula velha. Abdullah o acariciou com delicadeza na cabeça nodosa, agradeceu a Jamal e saiu correndo para o Bazar. Ali investiu o restante do dinheiro no aluguel de um carrinho de mão, o qual carregou cuidadosamente com seus melhores e mais raros tapetes — o oquinstano floral, o capacho brilhante de Inhico, os farqtans dourados, os de gloriosa padronagem vindos do interior do deserto e o par idêntico da distante Thayack — e os levou no carrinho de mão para as grandes tendas no centro do Bazar, onde os mercadores ricos negociavam. Apesar de toda a sua excitação, Abdullah estava sendo prático. O pai de Flor da Noite era certamente muito rico. Ninguém, a não ser os homens mais ricos, podiam pagar o dote para a filha se casar com um príncipe. Assim, estava claro para Abdullah que ele e Flor da Noite teriam de ir para muito longe, ou o pai dela poderia tornar as coisas muito desagradáveis para eles. Mas também estava claro para Abdullah que Flor da Noite estava acostumada a ter o melhor de tudo. Ela não ficaria feliz levando uma vida sem conforto. Portanto Abdullah precisava de dinheiro. Fez uma mesura diante do mercador na mais rica das tendas ricas e, tendo-lhe chamado de tesouro entre os negociantes e mais majestoso dos mercadores, ofereceu-lhe o oquinstano floral por uma quantia verdadeiramente formidável. O mercador tinha sido amigo do pai de Abdullah.

— E por quê, filho do mais ilustre do Bazar — perguntou ele —, você iria querer se desfazer do que é certamente, pelo seu preço, a jóia de sua coleção?

— Estou diversificando meus negócios — respondeu Abdullah. — Como já deve ter ouvido, andei comprando quadros e outras formas de arte. Para criar espaço para estes, sou forçado a descartar os meus tapetes menos valiosos. E ocorreu-me que um vendedor de tapeçaria celestial como o senhor talvez quisesse ajudar o filho de seu velho amigo tirando de minhas mãos esta miserável coisa florida, por um preço de pechincha.

— O conteúdo de sua tenda deve, no futuro, ser a nata, de fato — disse o mercador. — Deixe-me oferecer-lhe metade do que você pediu.

— Ah, o mais astuto entre os astutos — disse Abdullah. — Mesmo uma barganha custa dinheiro. Mas, para o senhor, vou reduzir meu preço em duas moedas.

Foi um dia longo e quente. No começo da noite, Abdullah havia vendido todos os seus melhores tapetes por quase o dobro do que pagara por eles. Ele avaliou que agora tinha dinheiro disponível suficiente para manter Flor da Noite em um luxo razoável por uns três meses. Depois disso, ele esperava que alguma coisa acontecesse ou que a doçura da natureza dela a resignasse à pobreza. Ele foi para a casa de banhos. Depois foi ao barbeiro. Passou pelo perfumista e fez-se perfumar-se com óleos. Então voltou à sua tenda e vestiu-se com suas melhores roupas. Estas, como os trajes da maioria dos mercadores, tinham vários bolsos dissimulados, partes de bordados e cordões ornamentais que não eram de modo algum ornamentos, e sim bolsas engenhosamente ocultas para guardar dinheiro. Abdullah distribuiu seu ouro recém-adquirido por esses esconderijos e, por fim, viu-se pronto. Então se dirigiu, sem muito entusiasmo, para o velho empório do pai. Disse a si mesmo que assim passaria o tempo até sua fuga para casar.

Era uma sensação curiosa subir os degraus baixos de cedro e entrar no lugar onde passara grande parte de sua infância. O cheiro do local — a madeira, as especiarias e o odor felpudo e untuoso de tapetes — era tão familiar que, se ele fechasse os olhos, podia imaginar que tinha dez anos de novo, brincando atrás de um rolo de tapete enquanto o pai negociava com um cliente. Mas, com os olhos abertos, Abdullah não tinha essa ilusão. A irmã da primeira esposa de seu pai tinha um lamentável gosto pelo roxo vivo. As paredes, os biombos de treliça, as cadeiras para os clientes, a mesa do caixa e até mesmo o cofre haviam sido todos pintados com a cor preferida de Fátima, que veio encontrá-lo com um vestido da mesma cor.

— Ora, Abdullah! Como você é pontual e como está elegante! — exclamou ela, e seus modos diziam que havia esperado que ele chegasse atrasado e em farrapos.

— Até parece que ele se vestiu para o próprio casamento! — disse Assif, adiantando-se também, com um sorriso no rosto magro e rabugento.

Era tão raro ver Assif sorrir que Abdullah pensou por um momento que ele houvesse torcido o pescoço e estivesse fazendo uma careta de dor. Então Hakim riu à beça, o que fez Abdullah se dar conta do que Assif acabara de dizer. Para sua contrariedade, viu que enrubescia violentamente. Foi obrigado a fazer uma mesura, educadamente, para esconder o rosto.

— Não precisa fazer o garoto enrubescer! — gritou Fátima, o que naturalmente fez Abdullah ficar ainda mais vermelho. — Abdullah, que boato é esse que ouvimos de que de repente você está planejando negociar quadros?

— E que está vendendo o melhor de seu estoque para dar espaço aos quadros? — acrescentou Hakim.

O rubor de Abdullah desapareceu. Ele viu que tinha sido chamado ali para ser criticado. Teve certeza disso quando Assif acrescentou, em tom de desaprovação:

— Estamos um tanto magoados, filho do marido da sobrinha do meu pai, por você não ter pensado que nós poderíamos obsequiá-lo ficando com alguns de seus tapetes.

— Queridos parentes — disse Abdullah —, eu não poderia, naturalmente, vender meus tapetes a vocês. Meu objetivo era ter lucro e eu não poderia despojá-los, vocês, a quem meu pai amava. — Estava tão aborrecido que se virou para ir embora, só para ver que Hakim havia silenciosamente fechado e bloqueado as portas.

— Não tem necessidade de deixá-la aberta — disse Hakim. — Vamos ficar só a família aqui.

— O pobrezinho! — disse Fátima. — Nunca teve tanta necessidade de uma família para manter a cabeça no lugar!

— De fato — disse Assif. — Abdullah, alguns rumores no Bazar afirmam que você enlouqueceu. Isso não nos agrada.

— Ele certamente está apresentando um comportamento estranho — concordou Hakim. — Não gostamos desse tipo de conversa ligado a uma família respeitável como a nossa.

Dessa vez estava pior do que costumava ser.

— Não tem nada errado com a minha mente — disse Abdullah. — Eu sei exatamente o que estou fazendo. E meu objetivo é parar de dar a vocês chance de me criticar, provavelmente amanhã. Enquanto isso, Hakim me disse para vir aqui porque vocês encontraram a profecia feita em meu nascimento. Isso é verdade ou foi uma simples desculpa? — Nunca antes ele fora tão rude com os parentes da primeira esposa de seu pai, mas estava bastante furioso para achar que eles mereciam.

Por mais estranho que fosse, em vez de ficarem zangados com Abdullah, os três parentes da primeira esposa de seu pai começaram a correr alvoroçadamente pelo empório.

— Ora, onde está aquela caixa? — perguntou Fátima.

— Encontre-a, encontre-a! — disse Assif. — São as palavras do adivinho que o pobre pai trouxe ao leito de sua segunda esposa uma hora depois do nascimento de Abdullah. Ele precisa vê-las!

— Escrito pela mão de seu próprio pai — disse Hakim a Abdullah. — O maior dos tesouros para você.

— Aqui está! — disse Fátima, puxando triunfalmente uma caixa de madeira entalhada de uma prateleira alta. Ela entregou a caixa a Assif, que a empurrou para as mãos de Abdullah.

— Abra, abra! — gritaram os três animadamente.

Abdullah pousou a caixa na mesa púrpura do caixa e levantou o trinco. A tampa caiu para trás, trazendo um cheiro bolorento do interior, que era perfeitamente simples e vazio, a não ser por um papel amarelado dobrado.

— Tire daí! Leia! — disse Fátima, ainda mais animada. Abdullah não entendia por que toda aquela comoção, mas desdobrou o papel. Havia ali algumas linhas escritas, marrons e desbotadas, e sem dúvida era a caligrafia de seu pai. Ele se voltou na direção da lâmpada pendente com o papel. Agora que Hakim havia fechado as portas principais, a roxidão generalizada do empório dificultava a visão ali dentro.

— Ele mal pode ver! — disse Fátima.

— Não é de admirar — replicou Assif. — Não tem luz aqui. Leve-o para a sala nos fundos. As persianas do alto estão abertas lá.

Ele e Hakim seguraram os ombros de Abdullah e o conduziram apressadamente na direção dos fundos da loja. Abdullah estava tão ocupado tentando ler a garatuja pálida de seu pai que os deixou empurrá-lo até que estivesse parado debaixo das grandes venezianas na sala de estar atrás do empório. Ali estava melhor. Agora ele sabia por que o pai ficara tão decepcionado com ele. O papel dizia:

Estas são as palavras do sábio adivinho. “Este seu filho não o seguirá em seu negócio. Dois anos após sua morte, sendo ele um rapaz ainda bem jovem, será erguido acima de todos os outros nesta terra. O que o Destino decreta eu digo.

O destino de meu filho é uma grande decepção para mim. Que o Destino me envie outros filhos que me sigam nos negócios ou terei perdido quarenta moedas de ouro nesta profecia”.

— Como você vê, um grande futuro o espera, caro rapaz — disse Assif.

Alguém deu uma risadinha afetada.

Abdullah ergueu os olhos do papel, um tanto confuso. Parecia haver muito perfume no ar.

A risadinha se fez ouvir novamente, duas vezes, vindo da sua frente.

Os olhos de Abdullah dispararam naquela direção. Ele os sentiu arregalar-se. Duas jovens extremamente gordas encontravam-se de pé diante dele. Elas fitaram seus olhos arregalados e tornaram a rir, coquetes. Ambas estavam vestidas suntuosamente em cetim brilhante e tule armado — rosa na da direita, amarelo na da esquerda — e enfeitadas com mais colares e braceletes do que parecia possível. Além disso, a de rosa, que era a mais gorda, trazia uma pérola pendente na testa, logo abaixo do cabelo cuidadosamente frisado. A de amarelo, quase tão gorda quanto a outra, usava uma espécie de tiara cor de âmbar e tinha os cabelos ainda mais frisados. Ambas usavam uma quantidade muito grande de maquiagem, o que era, em ambos os casos, um grave erro.

Assim que tiveram certeza de que a atenção de Abdullah se concentrava — e se concentrava mesmo: ele estava paralisado pelo horror — cada garota puxou um véu de trás dos amplos

ombros — um véu cor-de-rosa à esquerda e um amarelo à direita — e o prendeu castamente, encobrindo o rosto.

— Saudações, querido marido! — disseram as duas em coro, por trás dos véus.

— O quê? — exclamou Abdullah.

— Estamos usando o véu — disse a de rosa.

— Porque você não deve olhar nosso rosto — disse a de amarelo.

— Até nos casarmos — finalizou a de rosa.

— Deve haver algum erro! — exclamou Abdullah.

— De modo algum — afirmou Fátima. — Estas são as duas sobrinhas da minha sobrinha que estão aqui para se casar com você. Não me ouviu dizer que ia procurar duas esposas para você?

As duas sobrinhas deram outra risadinha afetada.

— Ele é tão bonito — disse a de amarelo.

Após uma pausa um tanto longa, durante a qual ele engoliu em seco e fez o máximo que pôde para controlar suas emoções, Abdullah disse com cortesia:

— Digam-me, ó parentes da primeira esposa de meu pai, faz muito tempo que vocês sabem da profecia feita ao meu nascimento?

— Há séculos — respondeu Hakim. — Você acha que somos tolos?

— Seu querido pai nos mostrou este papel — disse Fátima — na ocasião em que fez o testamento.

— E naturalmente não estamos preparados para deixar sua grande e boa sorte afastá-lo da família — explicou Assif. — Esperamos apenas o momento em que você deixasse de seguir os negócios de seu bom pai, o que certamente é o sinal para que o sultão o torne um vizir ou o convide para comandar seus exércitos, ou quem sabe o faça ascender de alguma outra forma. Então tomamos medidas para nos assegurar de que partilhássemos de sua boa sorte. Estas suas duas noivas são parentes próximas de nós três. Você, naturalmente, não nos abandonará quando subir de posição. Assim, caro rapaz, só me resta apresentá-lo ao juiz que, como você vê, se encontra pronto para casá-lo.

Até esse momento, Abdullah não conseguira desviar o olhar das imensas figuras das duas sobrinhas. Agora ele levantou os olhos e encontrou o olhar cético do juiz do Bazar, que nesse momento saía de trás de uma tela com seu Registro de Casamentos nas mãos. Abdullah perguntou-se quanto ele estaria ganhando.

Abdullah curvou-se educadamente para o juiz.

— Infelizmente isso não será possível — disse ele.

— Ah, eu sabia que ele seria indelicado e desagradável! — disse Fátima. — Abdullah, pense na desgraça e decepção para estas pobres moças se você as recusar agora! Depois de elas virem até aqui, na expectativa de se casarem, e se arrumarem todas! Como você pode, sobrinho?

— Além do mais, eu tranquei todas as portas — disse Hakim. — Não pense que pode escapar.

— Eu sinto muito por magoar duas jovens tão espetaculares... — começou Abdullah.

As duas noivas já estavam magoadas, de qualquer forma. As duas emitiram um gemido. As duas puseram o rosto coberto pelo véu nas mãos e soluçaram abundantemente.

— Isso é horrível! — lamentou a de rosa.

— Eu sabia que eles deviam ter perguntado a ele antes! — chorou a de amarelo.

Abdullah descobriu que a visão de mulheres chorando — particularmente as grandes assim, que sacudiam todo o corpo — fazia com que se sentisse péssimo. Ele sabia que era um idiota e uma besta. Sentia-se envergonhado. As moças não eram culpadas pela situação. Elas tinham sido usadas por Assif, Fátima e Hakim, exatamente como Abdullah. Mas a principal razão de ele se sentir tão abominável, e que o fazia sentir vergonha de verdade, era que ele só queria que elas parassem, que calassem a boca e parassem de se sacudir. Não fosse por isso, não ligaria a mínima para os sentimentos delas. Em comparação a Flor da Noite, elas o repugnavam. A idéia de se casar com elas ficou atravessada em sua garganta. Sentia-se enjoado. Mas, só porque elas estavam choramingando e fungando na frente dele, ele se viu pensando que três esposas talvez não fossem tantas, afinal. As duas fariam companhia a Flor da Noite quando todos estivessem longe de Zanzib e de casa. Ele teria de lhes explicar a situação e fazer com que subissem no tapete mágico...

Isso trouxe Abdullah de volta à razão. Com um solavanco. O tipo de solavanco que um tapete mágico pode provocar se carregado com duas mulheres tão pesadas — supondo-se que conseguisse sair do chão com elas em cima, em primeiro lugar. Elas eram muito gordas. Quanto a pensar que fariam companhia a Flor da Noite... puf! Ela era inteligente, culta e gentil, além de linda (e magra). Essas duas ainda precisavam mostrar a ele que, juntas, tinham ao menos um neurônio. Elas queriam casar e seu choro era uma forma de forçá-lo a isso. E tinham um riso afetado. Ele nunca vira Flor da Noite rir assim.

Nesse ponto Abdullah ficou um tanto perplexo ao descobrir que ele, de fato, amava Flor da Noite com tanto ardor quanto vinha dizendo a si mesmo — ou ainda mais, porque agora via que a respeitava. Sabia que morreria sem ela. E, se concordasse em se casar com essas duas sobrinhas gordas, ele ficaria sem ela. Flor da Noite o chamaria de cobiçoso, como o príncipe de Oquinstão.

— Lamento muito — disse ele, acima dos sonoros soluços. — Vocês deviam mesmo ter me consultado antes sobre o assunto, ó parentes da primeira esposa de meu pai, ó muito honrado e o mais honesto dos juízes. Teriam evitado esse equívoco. Eu ainda não posso me casar. Eu fiz um voto.

— Que voto? — perguntaram todos, inclusive as noivas gordas, e o juiz acrescentou: — Você registrou esse voto? Para ser legal, todo voto deve ser registrado com um juiz.

Isso era estranho. Abdullah pensou rapidamente.

— De fato, está registrado, ó legítima balança de discernimento — disse ele. — Meu pai me levou para um juiz a fim de registrar o voto quando me mandou fazê-lo. Eu nada mais era do que uma criancinha naquela ocasião. Embora eu não entendesse então, vejo agora que foi por causa da profecia. Meu pai, sendo um homem prudente, não queria ver suas quarenta moedas de ouro desperdiçadas. Ele fez jurar que eu não me casaria antes de o Destino me dispor acima de todos nesta terra. Assim... — Abdullah pôs as mãos nas mangas de seu melhor terno e fez uma mesura com pesar na direção das duas noivas gordas — ...eu ainda não posso me casar com vocês, balas gêmeas de caramelo, mas esse dia chegará.

— Bem, nesse caso...! — disseram todos em vários tons de descontentamento e, para profundo alívio de Abdullah, a maioria se afastou dele.

— Sempre pensei que seu pai era um homem bastante cobiçoso — acrescentou Fátima.

— Mesmo de além do túmulo — concordou Assif. — Teremos de esperar pela ascensão do rapaz então.

O juiz, porém, insistiu.

— E que juiz foi esse diante do qual você fez o voto? — perguntou ele.

— Eu não sei o nome dele — inventou Abdullah, falando com intenso pesar. Estava suando bastante. — Eu era um menininho e ele me pareceu um velho com uma longa barba branca. — Isso, pensou ele, serviria como descrição de todos os juízes que já existiram, inclusive o que se encontrava diante dele.

— Vou ter de verificar todos os registros — disse o juiz com irritação. Então se voltou para Assif, Hakim e Fátima e, com frieza, despediu-se formalmente.

Abdullah foi embora com ele, quase agarrando a faixa oficial do juiz em sua pressa de fugir do empório e das duas noivas gordas.





Capítulo Cinco



O qual conta como o pai de Flor da Noite quis elevar Abdullah acima de todos os outros na Terra





— Q

ue dia! — disse Abdullah a si mesmo, quando finalmente voltou ao interior de sua tenda. — Se minha sorte continuar nesse caminho, não ficarei surpreso se nunca conseguir que o tapete saia do chão novamente! — Ou, pensou ele deitado no tapete, ainda vestido em sua melhor roupa, talvez consiga chegar ao jardim noturno apenas para ver que Flor da Noite ficou aborrecida demais com sua estupidez na noite anterior para continuar a amá-lo. Ou ela podia ainda amá-lo, mas ter decidido não fugir com ele. Ou...

Ele levou algum tempo para conseguir dormir.

Mas, quando acordou, tudo estava perfeito. O tapete deslizava fazendo uma suave aterrissagem na encosta banhada pelo luar. Então Abdullah soube que tinha dito a palavra-código afinal, e tinha se passado tão pouco tempo desde que a dissera que ele quase se lembrava de qual era. Mas ela desapareceu de sua mente quando Flor da Noite veio correndo, ansiosa, em sua direção, entre as flores brancas e perfumadas e as lâmpadas redondas amarelas.

— Você veio! — gritou ela enquanto corria. — Eu estava bastante preocupada!

Ela não estava zangada. O coração de Abdullah rejubilou-se.

— Está pronta para partir? — gritou ele de volta. — Pule aqui ao meu lado.

Flor da Noite riu com prazer — sem dúvida aquela não era uma risadinha afetada — e veio correndo pelo gramado. Nesse momento a lua pareceu esconder-se atrás de uma nuvem, porque Abdullah a viu inteiramente iluminada pelas lâmpadas por um momento, dourada e ávida, enquanto corria. Ele se levantou e estendeu as mãos para ela.

Ao fazê-lo, a nuvem desceu até a luz das lâmpadas. E não era uma nuvem, mas sim imensas asas negras e coriáceas, batendo em silêncio. Um par de braços parecendo igualmente de couro, com mãos que tinham unhas longas como garras, estendeu-se vindo das sombras daquelas asas em leque e envolveu o corpo de Flor da Noite. Abdullah a viu deter-se bruscamente quando os dois braços a impediram de continuar correndo. Ela olhou à sua volta e ergueu os olhos. O que quer que tenha visto a fez gritar, um berro único, selvagem, frenético, que foi cortado quando um dos braços coriáceos trocou de posição para espalmar a imensa mão com garras sobre o rosto dela.

Flor da Noite batia no braço com as mãos fechadas e esperneava, tentando libertar-se, mas tudo inutilmente. Ela foi erguida, uma pequena figura branca contra a imensa negrura. As enormes asas tornaram a bater em silêncio. Um pé gigantesco, com garras como as das mãos, comprimiu o gramado a cerca de um metro da encosta onde Abdullah ainda se encontrava no gesto de se pôr de pé, e uma perna coriácea flexionou poderosos músculos no momento em que a coisa — o que quer que fosse — se lançou para cima. Por um brevíssimo instante, Abdullah se viu fitando uma cara coriácea hedionda, com um anel transpassando o nariz adunco e olhos longos e oblíquos, distantes e cruéis. A coisa não estava olhando para ele. Simplesmente se concentrava em erguer a si mesma e à sua prisioneira no ar.

No segundo seguinte, estava voando. Abdullah a viu acima de sua cabeça por mais uma fração de segundo, um djim, uma enorme criatura voadora, com uma jovem humana minúscula e pálida oscilando em seus braços. Então a noite o engoliu. Tudo aconteceu inacreditavelmente rápido.

— Atrás dele! Siga aquele djim! — ordenou Abdullah ao tapete.

O tapete pareceu obedecer e ergueu-se do solo. Mas, como se alguém lhe tivesse dado outra ordem, ele tornou a descer e ficou imóvel.

— Seu capacho comido por traças! — esbravejou Abdullah. Nesse momento, ouviu-se um grito mais abaixo no jardim.

— Por aqui, homens! O grito veio lá de cima!

Ao longo da arcada, Abdullah vislumbrou o luar se refletindo em capacetes de metal e — pior ainda — as lâmpadas douradas incidindo sobre espadas e balestras. Ele não esperou para explicar àquelas pessoas por que havia gritado. Lançou-se deitado no tapete.

— De volta para a tenda! — sussurrou. — Rápido! Por favor!

Dessa vez o tapete obedeceu, tão rapidamente quanto fizera na noite anterior. Num piscar de olhos decolou e arremessou-se de lado contra um muro ameaçadoramente alto. Abdullah viu apenas de relance um grande destacamento de mercenários do norte andando pelo jardim iluminado por lâmpadas, antes de sobrevoar em velocidade os tetos adormecidos e as torres iluminadas pelo luar de Zanzib. Ele mal teve tempo de pensar que o pai de Flor da Noite devia ser ainda mais rico do que havia pensado — poucas pessoas podiam pagar tantos soldados de aluguel, e os mercenários do norte eram os mais caros — antes que o tapete descesse planando e o levasse suavemente através das cortinas até o meio de sua tenda.

Ali ele se entregou ao desespero.

Um djim havia roubado Flor da Noite e o tapete se recusara a segui-lo. Ele sabia que isso não era de surpreender. Um djim, como todos em Zanzib sabiam, exercia grandes poderes no ar e na terra. Sem dúvida o djim havia, como precaução, ordenado a todas as coisas no jardim que ficassem onde estavam enquanto ele levava Flor da Noite embora. Ele provavelmente nem percebera a presença do tapete, ou de Abdullah em cima dele, mas a magia menor do tapete fora forçada a ceder ao comando do djim. Então este havia roubado Flor da Noite, a quem Abdullah amava mais do que a sua própria alma, no momento em que ela estava prestes a cair em seus braços, e aparentemente não havia nada que ele pudesse fazer.

Ele chorou.

Depois disso, jurou jogar fora todo o dinheiro escondido em suas roupas. Era inútil para ele agora. Mas, antes de fazê-lo, entregou-se novamente à aflição, um tormento ruidoso a princípio, no qual se lamentava em voz alta e batia no próprio peito, como era costume em Zanzib; então, à medida que os galos começaram a cantar e as pessoas a se movimentar ali por perto, ele caiu num desespero silencioso. Não havia sentido nem mesmo em se mover. Outros podiam se alvoroçar, assoviar e bater baldes, mas Abdullah já não fazia parte dessa vida. Permaneceu agachado no tapete mágico, desejando estar morto.

Tão desgraçado se sentia que em nenhum momento lhe ocorreu que poderia estar correndo perigo. Não prestou atenção quando todos os ruídos do Bazar cessaram, como acontece com os pássaros quando um caçador entra no bosque. Não percebeu o pesado barulho de pés, tampouco o clanque, clanque, clanque regular da armadura de mercenários que o acompanhava. Quando alguém gritou “Pare!” diante de sua tenda, ele nem mesmo virou a cabeça. Mas o fez quando as cortinas da tenda foram arrancadas. Ele estava apaticamente surpreso. Piscou os olhos inchados contra a forte luz do sol e perguntou-se vagamente o que uma tropa de soldados do norte estava fazendo ali.

— É ele — disse alguém em roupas civis, que poderia ser Hakim e que desapareceu prudentemente antes que os olhos de Abdullah pudessem focar nele.

— Você! — disse bruscamente o líder do pelotão. — Para fora. Venha conosco.

— O quê? — perguntou Abdullah.

— Pegue-o — ordenou o líder.

Abdullah estava perplexo. Protestou debilmente quando o forçaram a ficar de pé e torceram-lhe os braços para fazê-lo andar. Ele seguiu protestando enquanto o levavam a toda pressa — clanque-clanque, clanque-clanque — do Bazar na direção da região oeste. Pouco depois ele protestava com grande veemência.

— O que é isso? — arfava. — Eu exijo saber... como cidadão... aonde estamos... indo!

— Cale a boca. Você verá — responderam. Eles estavam em excelente forma e nem sequer arfavam.

Pouco depois, passaram com Abdullah por um maciço portão feito de blocos de pedra que brilhavam brancos no sol, entrando num chamejante pátio, onde passaram cinco minutos diante de uma oficina de ferreiro, que mais parecia um forno, acorrentando Abdullah. Ele protestou ainda mais.

— Para que isso? Onde estou? Eu exijo saber!

— Cale a boca! — disse o líder do pelotão. Ele comentou para o segundo no comando, em seu bárbaro sotaque do norte: — Eles sempre se lamuriam tanto, esses zanzibenses. Não têm a menor noção de dignidade.

Enquanto o líder dizia isso, o ferreiro, que também era de Zanzib, murmurou para Abdullah:

— O sultão quer você. Eu também não estou muito otimista em relação a suas chances. O último que acorrentei assim foi crucificado.

— Mas eu não fiz nad...! — protestou Abdullah.

— CALE A BOCA! — gritou o líder. — Acabou, ferreiro? Certo. Rápido! — E saíram levando Abdullah apressadamente outra vez, atravessando o pátio fulgurante e entrando na grande construção adiante.

Abdullah teria achado impossível até mesmo andar com aquelas correntes. Eram pesadas demais. Mas é surpreendente o que se é capaz de fazer quando um pelotão de soldados de cara fechada está determinado a forçá-lo a fazer. Ele correu, clanque-claque, clanque-claque, caiu, até que afinal, com um tinido exausto, chegou aos pés de uma cadeira elevada feita de azulejos azuis e dourados frios e coberta de almofadas. Ali todos os soldados se ajoelharam numa só perna, de uma forma decorosa e distante, como os soldados do norte faziam com a pessoa que lhes estava pagando.

— Presente o prisioneiro Abdullah, meu senhor sultão — disse o líder do pelotão.

Abdullah não se ajoelhou. Ele seguiu o costume de Zanzib e caiu com o rosto no chão. Além disso, estava exausto e era mais fácil deixar-se cair com um forte ruído do que fazer qualquer outra coisa. O piso ladrilhado estava abençoado e maravilhosamente frio.

— Façam o filho do excremento de um camelo ajoelhar-se — disse o sultão. — Façam a criatura nos olhar no rosto. — Sua voz era baixa, mas tremia de fúria.

Um soldado arrastou as correntes e dois outros puxaram Abdullah pelos braços até que o puseram meio curvado, de joelhos. Eles o seguraram assim e Abdullah sentiu-se contente. De outra forma, teria sucumbido de horror. O homem reclinado no trono azulejado era gordo e careca e usava uma cerrada barba grisalha. Ele batia numa almofada de uma forma que parecia distraída — mas que na verdade era amargamente furiosa — com uma peça branca de algodão que tinha uma borla no alto. Foi essa coisa que fez Abdullah compreender a encrenca em que estava metido. Essa coisa era a sua touca de dormir.

— Bem, cão de um monte de estrume — disse o sultão. — Onde está minha filha?

— Não tenho a menor idéia — disse Abdullah, desgraçadamente.

— Você nega — disse o sultão, balançando a touca como se fosse uma cabeça degolada que estivesse segurando pelos cabelos —, você nega que esta é sua touca de dormir? Seu nome está dentro dela, seu vendedor desgraçado! Ela foi encontrada por mim, por nós!, dentro de uma caixa de quinquilharias de minha filha, assim como 82 retratos de pessoas comuns, que foram escondidos por minha filha em 82 esconderijos astutos. Você nega que entrou furtivamente em meu jardim noturno e presenteou minha filha com esses retratos? Nega que então roubou minha filha?

— Sim, eu nego! — disse Abdullah. — Eu não nego, ó mais exaltado defensor dos fracos, a touca ou os quadros, embora eu deva ressaltar que sua filha é mais hábil em esconder do que o senhor em achar, grande praticante da sabedoria, pois eu dei a ela de fato 107 desenhos a mais do que o senhor descobriu... mas certamente não levei Flor da Noite embora. Ela foi seqüestrada diante de meus próprios olhos por um djim imenso e medonho. Eu não sei mais do que o seu mais celestial eu onde ela está agora.

— Uma história conveniente! — disse o sultão. — Um djim, pois sim! Mentiroso! Verme!

— Eu juro que é verdade! — gritou Abdullah. Ele estava em tamanho desespero a essa altura que mal pesava o que dizia.

— Traga qualquer objeto sagrado que queira e eu juro sobre ele que é verdade a história do djim. Faça com que me encantem para dizer a verdade e eu ainda direi o mesmo, ó poderoso opressor de criminosos. Pois é a verdade. E, como eu provavelmente estou bem mais desolado do que o senhor pela perda de sua filha, grande sultão, glória de nossa terra, eu lhe imploro que me mate agora e me poupe de uma vida de tormentos!

— Eu mandarei executá-lo de bom grado — disse o sultão.

— Mas primeiro me diga onde ela está.

— Mas eu já lhe disse, maravilha do mundo! — replicou Abdullah. — Eu não sei onde ela está.

— Levem-no — disse o sultão com grande calma a seus soldados ajoelhados. Estes se puseram de pé rapidamente e puxaram Abdullah, forçando-o a ficar de pé. — Torturem-no até que ele diga a verdade — acrescentou o sultão. — Quando a encontrarmos, vocês podem matá-lo, mas mantenham-no vivo até lá. Eu acredito que o príncipe de Oquinstão vai aceitá-la como viúva se eu dobrar o dote.

— O senhor está enganado, soberano dos soberanos! — arquejou Abdullah enquanto os soldados o carregavam ruidosamente pelos ladrilhos. — Não sei para onde foi o djim, e meu grande pesar é que ele a tenha levado antes que tivéssemos a chance de nos casar.

— O quê?— gritou o sultão. — Tragam-no de volta! — Os soldados imediatamente arrastaram Abdullah e suas correntes de volta ao trono azulejado, onde o sultão nesse momento se inclinava para a frente, olhando ferozmente para o prisioneiro.

— Meus limpos ouvidos se macularam ouvindo-o dizer que não se casou com minha filha, imundície? — perguntou ele.

— Correto, poderoso monarca — respondeu Abdullah. — O djim apareceu antes que pudéssemos fugir para nos casar.

O sultão fuzilou-o com o que parecia um olhar de horror.

— Isso é verdade?

— Eu juro — disse Abdullah — que nem mesmo beijei sua filha. Minha intenção era procurar um juiz assim que estivéssemos longe de Zanzib. Eu sei o que é certo. Mas também achei que era apropriado me certificar primeiro de que Flor da Noite queria de fato se casar comigo. Sua decisão me parecia tomada na ignorância, apesar dos 189 retratos. Se o senhor me perdoa por dizer, protetor dos patriotas, seu método de criar sua filha é sem dúvida doentio. Ela me tomou por uma mulher quando me viu pela primeira vez.

— Então — disse o sultão, pensativo —, quando enviei os soldados para capturar e matar o intruso no jardim na noite passada, poderia ter sido um desastre. Seu tolo — disse ele a Abdullah —, escravo e vira-lata que ousa criticar! É claro que tive de criar minha filha do modo como a criei. A profecia feita em seu nascimento foi a de que ela se casaria com o primeiro homem, além de mim, que ela visse!

Apesar das correntes, Abdullah se empertigou. Pela primeira vez nesse dia ele sentiu uma pontada de esperança.

O sultão olhava de cima a sala graciosamente ladrilhada e ornamentada, pensando.

— A profecia me era bastante conveniente — observou ele.

— Havia muito eu desejava uma aliança com os países do norte, pois eles têm armas melhores do que as que podemos fazer aqui, algumas até têm poderes de feitiçaria, pelo que sei. Mas os príncipes de Oquinstão são muito difíceis de se fisgar. Então o que eu tinha a fazer — pelo menos foi o que pensei — era isolar minha filha de qualquer possibilidade de ver um homem. E naturalmente dar a ela a melhor educação em outros aspectos, para ter certeza de que pudesse cantar e dançar e fazer-se agradável para um príncipe. Assim, quando minha filha alcançou uma idade própria para o casamento, convidei o príncipe para vir aqui numa visita de Estado. Ele viria no próximo ano, quando tivesse terminado de dominar as terras que acabou de conquistar com aquelas mesmas excelentes armas. E eu sabia que, assim que minha filha pusesse os olhos nele, a profecia cuidaria para que eu o tivesse! — Seus olhos voltaram-se malignamente para Abdullah. — Então vem um inseto como você e contraria os meus planos!

— Lamentavelmente essa é a verdade, mais prudente dos governantes — admitiu Abdullah. — Diga-me, este príncipe de Oquinstão por acaso é velho e feio?

— Creio que ele é medonho com o mesmo jeito do norte desses mercenários — disse o sultão, e nesse momento Abdullah percebeu que os soldados, a maioria dos quais tinha sardas e cabelos ruivos, se enrijeceram um pouco. — Por que pergunta, cão?

— Porque, se me perdoa mais uma crítica à sua grande sabedoria, ó provedor de nossa nação, isso parece um tanto injusto com sua filha — observou Abdullah. Ele sentiu os olhos dos soldados voltarem-se para ele, espantados com sua ousadia. Abdullah não se importava. Sentia que tinha pouco a perder.

— As mulheres não contam — disse o sultão. — Portanto é impossível ser injusto com elas.

— Discordo — disse Abdullah, com o que os soldados o fitaram ainda mais espantados.

O sultão lançou-lhe um olhar ameaçador. Suas fortes mãos torceram a touca de dormir como se esta fosse o pescoço de Abdullah.

— Fique calado, seu sapo doente! — disse ele. — Ou vai me fazer esquecer o que eu disse e ordenar sua execução imediata!

Abdullah relaxou um pouco.

— Ó espada absoluta entre os cidadãos, eu lhe imploro que me mate agora — disse ele. — Eu transgredi a lei, pequei e invadi seu jardim noturno...

— Fique quieto — disse o sultão. — Você sabe perfeitamente bem que não posso matá-lo até encontrar minha filha e cuidar para que ela se case com você.

Abdullah relaxou ainda mais.

— Seu escravo não está acompanhando o seu raciocínio, ó jóia do discernimento — protestou ele. — Eu suplico que seja morto agora.

O sultão praticamente rosnou para ele.

— Se aprendi uma coisa com essa lamentável história — disse ele — foi que mesmo eu, embora seja sultão de Zanzib, não posso enganar o Destino. Essa profecia vai se cumprir de alguma forma, isso eu sei. Portanto, se quero que minha filha se case com o príncipe de Oquinstão, devo antes cooperar com a profecia.

Abdullah relaxou quase por completo. Ele havia naturalmente percebido isso de imediato, mas estivera ansioso em certificar-se de que o sultão também compreendera. E havia compreendido. Estava claro que Flor da Noite tinha herdado sua mente lógica do pai.

— Então, onde está minha filha? — perguntou o sultão.

— Eu já lhe disse, ó sol que brilha sobre Zanzib — respondeu Abdullah. — O djim...

— Nem por um só momento eu acredito nesse djim — disse o Sultão. — É conveniente demais. Você deve ter escondido a menina em algum lugar. Levem-no — ordenou ele aos soldados — e tranquem-no na masmorra mais segura que tivermos. Deixem-no acorrentado. Ele deve ter usado alguma forma de encantamento para entrar no jardim e provavelmente pode usá-la para escapar, a menos que tomemos cuidado.

Abdullah não conseguiu evitar encolher-se com essas palavras. O sultão percebeu e sorriu malignamente.

— Em seguida — disse ele —, quero uma busca por minha filha de casa em casa. Ela deve ser levada à masmorra para o casamento assim que for encontrada. — Seus olhos voltaram-se pensativos para Abdullah outra vez. — Até então vou me divertir inventando novos métodos para matá-lo. No momento, opto por empalá-lo numa estaca de dez metros e então soltar abutres para comê-lo aos pedaços. Mas posso mudar de idéia se pensar em algo pior.

Enquanto os soldados o arrastavam dali, Abdullah quase tornou a se desesperar. Ele pensou na profecia feita ao seu nascimento. Uma estaca de dez metros o ergueria bem acima de todos os homens na Terra.





Capítulo Seis



O qual mostra como Abdullah saiu do espeto e caiu na brasa





P

useram Abdullah numa masmorra funda e malcheirosa, onde a única luz vinha de uma minúscula grade no teto alto — e essa luz não era a do dia. Provavelmente vinha de uma janela distante no fim de uma passagem no piso acima, do qual a grade fazia parte.

Sabendo que era isso que o esperava, Abdullah tentou, enquanto os soldados o arrastavam, encher seus olhos e sua mente com imagens de luz. Na pausa durante a qual os soldados destrancavam a porta externa das masmorras, ele olhou para o alto e ao seu redor. Estavam num pátio pequeno e escuro com muros de pedra lisos que se erguiam como precipícios em toda a volta. Mas, se inclinasse a cabeça para trás, Abdullah podia ver uma torre esguia à meia distância, delineada contra o crescente dourado da manhã. Ficou surpreso ao ver que apenas uma hora havia se passado desde o nascer do dia. Acima da torre, o céu era de um azul profundo, com uma única nuvem pairando pacificamente naquele trecho. A manhã ainda corava a nuvem de vermelho e dourado, dando-lhe a aparência de um castelo alto com janelas douradas. A luz dourada cintilou nas asas de um pássaro branco que circundava a torre. Abdullah tinha certeza de que esta seria a última beleza que veria em sua vida. Olhou para trás, para vê-la mais uma vez, enquanto os soldados o puxavam para dentro.

Tentou guardar essa imagem como um tesouro quando foi trancado na masmorra cinzenta e fria, mas era impossível. A masmorra era outro mundo. Durante muito tempo ele se sentiu infeliz demais até mesmo para perceber o quanto seus movimentos estavam restritos pelas correntes. Quando percebeu, mudou de posição, retinindo no chão frio, mas isso não ajudou muito.

— Tenho pela frente uma vida inteira aqui — disse a si mesmo. — A menos que alguém resgate Flor da Noite, é claro. — Isso não parecia muito provável, pois o sultão se recusava a acreditar no djim.

Depois disso, tentou afugentar o desespero com sua habitual fantasia. Mas, por algum motivo, pensar em si mesmo como um príncipe que havia sido seqüestrado não ajudava em absoluto. Ele sabia que não era verdade, e ficava pensando, com culpa, que Flor da Noite tinha acreditado quando ele lhe contara essa história. Ela devia ter decidido se casar com ele porque pensava que ele era um príncipe — sendo ela mesma uma princesa, como ele agora sabia. Ele simplesmente não conseguia se imaginar tendo a coragem de contar a verdade. Por algum tempo, pareceu-lhe que merecia o pior destino que o sultão pudesse inventar para ele.

Então começou a pensar em Flor da Noite. Onde quer que ela estivesse, certamente estava pelo menos tão assustada e infeliz quanto ele. Abdullah ansiava por confortá-la. Ele desejava tanto resgatá-la que passou algum tempo se retorcendo inutilmente em suas correntes.

— Como provavelmente ninguém mais vai tentar — murmurou ele —, eu preciso sair daqui!

Então, embora estivesse certo de que era mais uma idéia tola como a sua fantasia, tentou convocar o tapete mágico. Visualizou-o estendido no chão de sua tenda e o chamou em voz alta repetidas vezes. Pronunciou todas as palavras que lhe soavam mágicas em que pôde pensar, na esperança de que uma delas fosse a palavra-código.

Nada aconteceu. E que tolice acreditar que alguma coisa aconteceria!, pensou Abdullah. Mesmo que o tapete pudesse ouvi-lo dali, da masmorra, supondo que ele por fim dissesse a palavra-código correta, como poderia, mesmo sendo um tapete mágico, introduzir-se aqui através da minúscula grade? E, supondo-se que conseguisse, como isso ajudaria Abdullah a sair?

Abdullah desistiu e recostou-se na parede, meio cochilando, meio desesperando-se. Deviam estar agora no auge do dia, quando a maior parte das pessoas em Zanzib fazia pelo menos uma breve pausa para descansar. O próprio Abdullah, quando não estava visitando um dos parques públicos, em geral se sentava numa pilha de seus tapetes de menor qualidade à sombra diante de sua tenda, bebendo um suco de fruta — ou vinho, se pudesse se dar ao luxo — e conversando indolentemente com

Jamal. Não mais. E este é apenas o meu primeiro dia!, pensou, com morbidez. Estou contando as horas agora. Quanto tempo vai levar para que eu perca a noção dos dias?

Fechou os olhos. Uma coisa boa. Uma busca de casa em casa pela filha do sultão ia causar pelo menos algum aborrecimento para Fátima, Hakim e Assif, simplesmente porque se sabia que eram a única família que Abdullah tinha. Ele esperava que os soldados revirassem o empório roxo de cabeça para baixo. Esperava que cortassem as paredes e desenrolassem todos os tapetes. Esperava que prendessem...

Alguma coisa pousou no chão à frente dos pés de Abdullah.

Então eles me jogaram comida, pensou Abdullah, mas eu prefiro morrer de fome. E abriu os olhos preguiçosamente. Mas estes se arregalaram por sua própria vontade.

Ali, no chão da masmorra, jazia o tapete mágico. Em cima dele, dormindo pacificamente, estava o rabugento cão de Jamal.

Abdullah olhou os dois, perplexo. Ele podia imaginar como, no calor do meio-dia, o cão devia ter se deitado na sombra da tenda de Abdullah. Podia ver que ele se deitaria no tapete porque era confortável. Mas como um cão — um cão! — poderia dizer a palavra-código estava totalmente fora de sua compreensão. Enquanto ele o fitava, o cachorro começou a sonhar. Suas patas começaram a se mover. O focinho franziu e ele farejou, como se tivesse captado o cheiro mais delicioso possível, e emitiu um leve choramingo, como se o que quer que houvesse farejado no sonho estivesse escapando dele.

— Será possível, meu amigo — disse-lhe Abdullah —, que você está sonhando comigo e com o momento em que lhe dei a maior parte do meu café-da-manhã?

O cão, em seu sono, o ouviu. Emitiu um ronco sonoro e acordou. Como é comum aos cachorros, ele não perdeu tempo se perguntando como tinha vindo parar nessa estranha masmorra. Farejou e sentiu o cheiro de Abdullah. Então se levantou rapidamente com um guincho de prazer, plantou as patas entre as correntes no peito de Abdullah e lambeu-lhe o rosto entusiasticamente.

Abdullah riu e virou a cabeça para manter o nariz longe do hálito de lula do cão. Estava tão encantado quanto o cachorro.

— Então você estava mesmo sonhando comigo! — disse. — Meu amigo, vou providenciar para que você ganhe uma tigela de lula diariamente. Você salvou a minha vida e possivelmente a de Flor da Noite também!

Assim que o arroubo do cão cedeu um pouco, Abdullah começou a rolar e se arrastar pelo chão com suas correntes, até que se viu deitado, apoiado em um dos cotovelos, em cima do tapete. Deixou escapar um grande suspiro. Agora estava seguro.

— Venha — disse ao cachorro. — Suba no tapete também. Mas o cão detectara o cheiro do que certamente era um rato no canto da masmorra. E perseguia o cheiro com bufos de entusiasmo. A cada bufo, Abdullah sentia o tapete estremecer debaixo dele. Essa foi a resposta de que precisava.

— Venha — chamou o cão. — Se eu o deixar aqui, eles o encontrarão quando vierem me interrogar e vão supor que me transformei num cachorro. Então meu destino será o seu. Você me trouxe o tapete e revelou-me o segredo dele, e eu não posso deixar que o impalem numa estaca de dez metros.

O cachorro estava com o focinho enfiado no canto. E não obedecia a Abdullah, que ouviu, inconfundível mesmo através das grossas paredes da masmorra, o pesado ruído de pés e o chocalhar de chaves. Alguém estava vindo. Ele desistiu de persuadir o cão. E deitou-se no tapete.

— Aqui, garoto! — disse. — Venha lamber o meu rosto! Isso o cão compreendeu. E, deixando de lado o canto, pulou no peito de Abdullah e começou a obedecer sua ordem.

— Tapete — sussurrou Abdullah sob a atarefada língua. — Para o Bazar, mas sem pousar. Paire ao lado da tenda de Jamal.

O tapete se ergueu e lançou-se de lado — o que foi uma sorte. A porta da masmorra estava sendo destrancada nesse momento. Abdullah não conseguiu entender direito como o tapete saiu da masmorra porque o cão ainda lhe lambia o rosto e ele era obrigado