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Obras Completas

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2

O método da interpretação dos sonhos

Year:
2013
Language:
portuguese
File:
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DADOS DE COPYRIGHT
Sobre a obra:
A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus
diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso
parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples
teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.
É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel,
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acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e
livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em
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apresentados neste link.
Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não
mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá
enfim evoluir a um novo nível.

Sumário
Volume 01
Volume 02
Volume 03
Volume 04
Volume 05
Volume 06
Volume 07
Volume 08
Volume 09
Volume 10
Volume 11
Volume 12
Volume 13
Volume 14
Volume 15
Volume 16
Volume 17
Volume 18
Volume 19
Volume 20
Volume 21
Volume 22
Volume 23

Publicações pré-Psicanalíticas e esboços inéditos

VOLUME I
(1886-1899)

Dr. Sigmund Freud

PREFÁCIO GERAL DO EDITOR INGLÊS

(1) O OBJETIVO DA STANDARD EDITION

O material contido nesta edição está indicado por seu título - Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud; contudo, seria conveniente que eu começasse por
indicar mais explicitamente seu conteúdo. Meu objetivo foi incluir nesta edição a
totalidade dos escritos psicológicos publicados de Freud - isto é, tanto os
psicanalíticos como os pré-psicanalíticos. Não se incluem aqui os numerosos
trabalhos de Freud sobre as ciências físicas publicados durante os primeiros
quinze anos, mais ou menos, de sua atividade produtiva. Fui bastante liberal
quanto ao critério de seleção adotado, pois encontrei lugar para dois ou três
trabalhos elaborados por Freud imediatamente após seu regresso de Paris, em
1886. Estes; , que abordam principalmente a histeria, foram escritos sob a
influência de Charcot, quase sem nenhuma referência aos processos mentais;
mas constituem uma verdadeira ponte entre os trabalhos neurológicos e
psicológicos de Freud.
A Standard Edition não inclui a correspondência de Freud. Esta tem enorme
extensão e apenas algumas seleções relativamente pequenas foram publicadas
até o momento. Com exceção das ‘Cartas Abertas’ e de algumas outras,
publicadas com o consentimento de Freud durante sua vida, minha exceção
principal a essa regra geral está representada pela correspondência que Freud
manteve com Wilhelm Fliess no correr da parte inicial de sua carreira. Essa
correspondência é de tão vital importância para a compreensão dos pontos de
vista de Freud (e não só dos seus pontos de vista iniciais) que grande parte dela

não poderia ser rejeitada. Por conseguinte, o primeiro volume da edição contém o
Projeto de 1895 e a série de ‘’Rascunhos’’ remedidos por Freud a Fliess entre 1892
e 1897, bem como as partes das cartas que possuem interesse científico explícito.
A Standard Edition também não contém quaisquer relatos ou sumários,
publicados nas revistas da época, das muitas conferências e artigos de Freud
apresentados, nos primeiros tempos de sua carreira, em reuniões de diversas
sociedades médicas de Viena. Aqui, as únicas exceções são os raros casos em que
o relato foi feito ou revisado pelo próprio Freud.
Por outro lado, a Standard Edition encerra todo o conteúdo das Gesammelte
Werke (a única edição alemã quase completa), além de uma série de trabalhos
que ou vieram a lume após a conclusão das Gesammelte Werke, ou foram, por
motivos vários, omitidos por seus organizadores. Também pareceu imprescindível
incluir, no Volume II, a participação de Josef Breuer nos Studien über Hysterie,
que foi deixada de fora em ambas as edições alemãs coligidas.

(2) O PLANO DA EDIÇÃO

Para um editor que se defrontou com um total de uns dois milhões de palavras,
o primeiro problema foi decidir qual a melhor maneira de apresentá-las aos
leitores. Deveria o material ser ordenado segundo um critério classificatório ou
um critério cronológico? A primeira edição alemã coligida (os Gesammelte
Schriften, publicados durante a vida de Freud) empreendeu uma divisão de
acordo com o assunto; para as Gesammelte Werke, mais recentes, pretendeu-se
uma disposição estritamente cronológica. Nenhum dos dois critérios foi
satisfatório. Os escritos de Freud não se encaixam comodamente em categorias,
e a cronologia estrita significaria interromper cerradas seqüências de idéias. Aqui,
portanto, foi adotada uma conciliação. O arranjo é, no geral, cronológico; todavia,
não segui a regra em alguns casos - aqueles em que, por exemplo, Freud
escreveu um adendo muitos anos depois do trabalho original (como acontece com
o Estudo Autobiográfico, no Volume XX), ou em que ele mesmo agrupou um
conjunto de artigos de diferentes datas (tal como os artigos sobre técnica, no

Volume XII). Em geral, porém, cada volume contém todos os trabalhos
pertencentes a um determinado período de anos. O conteúdo de cada volume
(exceto, naturalmente, quando se trata de um único trabalho extenso) é
agrupado em três classes: coloquei em primeiro lugar o trabalho principal (ou
trabalhos principais) pertencente ao período - que dá o título ao volume; seguemse os escritos mais importantes, de menor extensão; e por fim são incluídos os
trabalhos realmente breves (e, geralmente, de importância relativamente
menor). Na medida do possível, a cronologia é determinada pela data da redação
real da obra em questão. Muitas vezes, porém, a única data certa é a da
publicação. Por conseguinte, cada item é encimado pela data de publicação entre
parênteses, seguida da data de composição, entre colchetes, nos casos em que
esta pode, com bastante segurança, ser considerada diferente da anterior. Assim,
é quase certo que os dois últimos artigos “metapsicológicos”, no Volume XIV,
embora publicados em 1917, tenham sido escritos na mesma época que seus três
predecessores, em 1915. Esses dois últimos, por conseguinte, são incluídos no
mesmo volume que os demais, sendo encimados pelas datas “(1917 [1915])”.
Cabe ainda dizer que cada volume contém sua bibliografia e índice próprios,
embora estejam planejados para o Volume XXIV uma bibliografia e um índice
completos para todo o conjunto da obra.

(3) AS FONTES ALEMÃS

As traduções da edição inglesa baseiam-se, em geral, nas últimas edições
alemãs publicadas ainda em vida de Freud. No entanto, uma das minhas
principais dificuldades foi a natureza insatisfatória dos textos alemães. As
publicações originais, editadas sob a supervisão direta de Freud, via de regra são
fidedignas; entretanto, à medida que o tempo transcorria e a responsabilidade
passava a outras mãos, os erros começavam a se infiltrar. Isso aconteceu até
mesmo na primeira edição coligida, publicada em Viena entre as duas grandes
guerras e destruída pelos nazistas em 1938. A segunda edição coligida, impressa
na Inglaterra em meio às maiores dificuldades, durante a Segunda Guerra
Mundial, é, em grande parte, uma fotocópia da que a precedeu, mas
naturalmente mostra sinais das circunstâncias em que foi produzida. No entanto,
continua sendo a única edição alemã existente dos trabalhos de Freud com
alguma pretensão de ser completa.

De 1908 em diante, Freud preservou seus manuscritos; mas no caso dos
trabalhos publicados durante sua vida, não os consultei, exceto em alguns casos
de dúvida. Quanto aos textos publicados postumamente, a situação é diferente;
em alguns casos, especialmente no do Projeto (como se pode constatar a partir
da Introdução do Editor Inglês a esse trabalho), a tradução foi feita diretamente
de uma cópia fotostática do manuscrito.
Um grave defeito nas edições alemãs é a ausência de qualquer tentativa de
levar em conta as numerosas modificações de texto feitas por Freud nas edições
sucessivas de alguns dos seus livros. Isso se aplica especialmente à Interpretação
dos Sonhos e aos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade , pois ambos foram,
em grau muito acentuado, remodelados em suas edições posteriores. Para um
estudioso sério do desenvolvimento das idéias de Freud, é do maior interesse ter
bem exposta a estratificação de seus pontos de vista. Assim sendo, aqui me
empenhei em assinalar, pela primeira vez, as datas em que foram realizadas as
diferentes modificações, e em expor em notas de rodapé as versões anteriores.

(4) OS COMENTÁRIOS

A partir do que acabou de ser dito, depreende-se que, no conjunto, concebi esta
edição tendo em mente o ‘estudioso sério’. Inevitavelmente, o resultado foi um
grande número de comentários, com o qual muitos leitores ficarão irritados.
Nesse ponto, sou levado a citar o Dr. Johnson:

“Para

um expositor, é impossível não escrever muito pouco para alguns e
demais para outros. Somente por sua própria experiência é que ele pode julgar
aquilo que é necessário; e, por mais que faça deliberações, acabará por explicar
muitas passagens que o erudito achará impossível que se compreendam mal e
por omitir muitas outras explicações para as quais o inculto desejaria sua ajuda.
Estas são censuras meramente relativas, que devem ser toleradas com
tranqüilidade.”
Os comentários da Standard Edition são de diferentes tipos. Em primeiro lugar,
há as notas puramente textuais, às quais me referi há pouco. Seguem-se as
elucidações das numerosíssimas alusões históricas e a lugares, bem como das

citações literárias de Freud. Freud constituiu um vívido exemplo de homem
igualmente à vontade nas ‘duas culturas’, como têm sido denominadas. Não era
apenas um hábil neuroanatomista e fisiologista; era também largamente versado
nos clássicos gregos e latinos, bem como na literatura de seu idioma e nas
literaturas da Inglaterra, da França, da Itália e da Espanha. A maioria de suas
alusões deve ter sido imediatamente compreensível para seus contemporâneos
em Viena, mas elas estão muito além do alcance de um leitor atual de língua
inglesa. Contudo, muitas vezes, especialmente em A Interpretação dos Sonhos,
essas alusões desempenham um papel real no desenvolvimento de sua
argumentação; sua explicação não pôde ser posta de lado, conquanto tivesse
exigido pesquisa considerável e às vezes infrutífera.
Um outro tipo de anotações é constituído pelas remissões. Estas devem ser de
especial valor para o estudioso. Freud freqüentemente abordou o mesmo assunto
várias vezes e, talvez, de diferentes maneiras, em datas separadas por longos
intervalos. As remissões entre essas ocasiões, alcançando toda a extensão da
edição, devem ajudar a superar a objeção ao tratamento cronológico geral do
material. Por fim, e mais raramente, há notas explicativas de comentários feitos
por Freud. Estas, todavia, são em geral apenas exemplos ampliados das
remissões; as discussões mais elaboradas do sentido em Freud ficam
habitualmente reservadas a uma outra categoria de comentário.
É que, além dessas explicações feitas correntemente em notas de rodapé, cada
trabalho é, sem exceção, acompanhado de uma nota introdutória. Esta varia em
extensão, de acordo com a importância do trabalho. Em todos os casos, essa nota
inicia com uma bibliografia do texto alemão e de todas as suas traduções para o
inglês. (Não é feita qualquer menção a traduções para outros idiomas; também
não se procurou fornecer uma lista completa das reedições subseqüentes à morte
de Freud em 1939.) Segue-se um relato daquilo que se conhece a respeito da
data e das circunstâncias da redação e publicação do trabalho. Vem, a seguir,
alguma indicação do conteúdo temático do trabalho e do lugar que ele ocupa na
corrente principal do pensamento de Freud. Naturalmente, é aqui que as
diferenças serão encontradas. No caso de um trabalho breve, de pequeno
interesse, haverá apenas uma ou duas frases. No caso de um trabalho maior,
pode haver um ensaio introdutório de muitas páginas.
Todos esses vários tipos de intervenção editorial foram norteados por um único
princípio. Meu objetivo foi, espero que corretamente, deixar que Freud fosse seu
próprio expositor. Onde há pontos obscuros, busquei explicações nos escritos do
próprio Freud; onde parece haver contradições, contentei-me em colocar o fato
diante do leitor e possibilitar que este formasse sua própria opinião. Dei de mim o
melhor que pude a fim de evitar ser didático, e evitei qualquer pretensão de

autoridade ex-cathedra. Mas, se refreei minhas opiniões próprias, especialmente
em questão de teoria, constatar-se-á que deixei igualmente de mencionar todos
os comentários, abordagens e críticas oriundos de qualquer outra fonte. Assim,
quase sem exceção, esta edição não contém absolutamente referências a outros
autores, por mais eminentes que sejam - exceto, naturalmente, aqueles que são
citados pelo próprio Freud. (A enorme proliferação da bibliografia psicanalítica
depois de sua morte, de qualquer modo, teria imposto essa decisão.) Assim, o
estudioso poderá abordar os escritos de Freud sem a influência de opiniões
alheias.
É no tocante aos comentários que me sinto sobremaneira consciente das
deficiências desta edição, muitas delas irremediáveis. Os numerosos erros
tipográficos e pequenos lapsos podem ser corrigidos, segundo espero, no Volume
XXIV; mas as falhas que me preocupam não podem ser reparadas com tanta
facilidade. Na maioria, elas surgem da imaturidade do material. Exemplo disso é
algo que já mencionei - a ausência de qualquer edição alemã realmente
fidedigna. Na realidade, porém, quando se iniciava o trabalho desta edição, há
mais de quinze anos, toda a área estava inexplorada e sem demarcação. Nem
sequer tinha sido iniciada a publicação da biografia de Freud de autoria de Ernest
Jones; a maioria das pessoas desconhecia a correspondência com Fliess e a
própria existência do Projeto. É verdade que recebi assistência de muitas pessoas
de todas as partes, especialmente de Ernest Jones, que me punha a par das suas
descobertas à medida que as fazia. Não obstante, a Standard Edition constitui um
trabalho pioneiro, com todos os inevitáveis erros e tropeços que isso implica. Eu
próprio fui-me tornando mais bem informado quanto às idéias de Freud, à medida
que o tempo passava, e é provável que os volumes de publicação mais recente
dêem prova disso.
Mencionem-se, em particular, duas deficiências. A primeira delas é que,
naturalmente, foi impossível concretizar a situação ideal de manter toda a edição
composta tipograficamente, mas aberta a correções até estar concluído o último
volume. Foi necessário tomar toda uma série de decisões fundamentais antes de
publicar o primeiro volume. Essas decisões incluíram tanto as questões de
formato quanto a escolha de termos técnicos e, uma vez tomadas tais decisões,
em geral foi necessário respeitá-las em toda a edição. Naturalmente, mais tarde
lamentou-se o fato de algumas delas terem sido tomadas. Uma outra fonte de
deficiências que o crítico benévolo poderá ter em mente é que a Standard Edition
foi, sob muitos aspectos, um trabalho de amadores. Foi um trabalho feito por
algumas pessoas que habitualmente se dedicam a outras ocupações, um trabalho
feito sem apoio de qualquer organização acadêmica disposta a fornecer pessoal

ou instalações.

(5) AS TRADUÇÕES

Ao se pensar numa tradução revista de Freud, o objetivo primeiro só poderia
ser o de transmitir seu pensamento com a máxima fidelidade possível. No
entanto, um outro problema, talvez mais difícil, não podia ser evitado: o
problema do estilo. Certamente não é possível deixar de levar em conta os
méritos literários de Freud. Thomas Mann, por exemplo, referiu-se às qualidades
“genuinamente artísticas” de Totem e Tabu - “em sua estrutura e em sua forma
literária, uma obra-prima relacionada e vinculada com todos os grandes exemplos
de obras ensaísticas alemãs”. Dificilmente se poderia esperar que esses méritos
sobrevivessem à tradução, mas era preciso empreender algum esforço nesse
sentido. Quando a Standard Edition foi inicialmente planejada, considerou-se que
seria vantajoso uma única pessoa incumbir-se de moldar todo o texto; com efeito,
uma única pessoa executou a maior parte do trabalho de tradução, e mesmo
quando uma versão anterior foi utilizada como base, pode-se constatar que se
impôs a execução de grandes alterações. Infelizmente, isso provocou a rejeição,
no interesse da desejada uniformidade, de muitas traduções feitas anteriormente
e que, em si mesmas, eram excelentes. O modelo imaginário que sempre tive
diante de mim foram os escritos de algum homem de ciência inglês, de grande
cultura, nascido em meados do século dezenove. E em caráter explicativo, e não
patriótico, eu gostaria de enfatizar a palavra “inglês”.
Se me volto agora para a questão primeira da tradução correta da intenção de
Freud, devo entrar em conflito com o que acabei de dizer. Pois, em todas as
passagens em que Freud se torna difícil ou obscuro, é necessário aproximar-se
mais de uma tradução literal, sacrificando a elegância estilística. Também por
idêntico motivo é necessário absorver por inteiro, na tradução, uma série de
termos técnicos, expressões estereotipadas e neologismos que, com a maior boa
vontade deste mundo, não podem ser considerados “ingleses”. Há também a
dificuldade especial - que emerge, por exemplo, em A Interpretação dos Sonhos,
A Psicopatologia da Vida Cotidiana e no livro sobre os chistes - do aparecimento
de material que envolveaspectos verbais intraduzíveis. Aqui, não dispusemos da
alternativa fácil de eliminar ou substituir por algum material equivalente em

língua inglesa. Tivemos que nos socorrer de colchetes e notas de rodapé, pois nos
prende o compromisso da regra fundamental: Freud, Freud, e nada mais do que
Freud.
No que diz respeito ao vocabulário técnico, adotei, em geral, os termos
sugeridos em A New German-English Psycho-Analytical Vocabulary , de Alix
Strachey (1943), que, por sua vez, baseou-se nas sugestões de um “Glossary
Committee” instituído por Ernest Jones vinte anos antes. Somente em alguns
casos divergi dessas autoridades. Determinadas palavras que levantam
controvérsias são discutidas em uma nota à parte, mais adiante (em [1]).
Na medida do possível, procurei ater-me à regra geral de traduzir
invariavelmente um termo técnico alemão pelo mesmo termo inglês. Assim,
“Unlust” é sempre traduzido por “unpleasure“ (“desprazer”) e “Schmerz” é sempre
traduzido por “pain” (“dor”). Contudo, deve-se observar que essa regra é passível
de conduzir a equívocos. Por exemplo, o fato de “psychisch” ser habitualmente
traduzido por “psychical” (“psíquico”) e “seelisch” por “mental” (“mental”) pode
levar à idéia de que essas palavras possuam significados diferentes, quando
penso que são sinônimas. A regra da tradução uniforme, porém, foi levada mais
adiante e estendida a expressões e, a rigor, passagens inteiras. Quando, como
tantas vezes acontece, Freud apresenta a mesma argumentação ou conta o
mesmo episódio em mais de uma ocasião (às vezes com grandes intervalos de
tempo), procurei acompanhá-lo e usar quando ele as usa, palavras idênticas;
quando ele as modifica, procurei fazer o mesmo. Alguns pontos não destituídos de
interesse são assim preservados na tradução.
Tenho a obrigação de dizer explicitamente, aqui, que todos os acréscimos ao
texto, por menores que sejam, e todas as notas de rodapé adicionais estão
indicados por colchetes.

(6) AGRADECIMENTOS

Antes de mais nada, é necessário expressar reconhecimento ao apoio
extremamente generoso prestado ao empreendimento, nos seus primórdios,
pelos membros da Associação Americana de Psicanálise (à qual me orgulho de
pertencer, atualmente, como membro honorário), por iniciativa, em especial, do

Dr. John Murray, de Boston, com apoio do Dr. W. C. Menninger, àquela época
presidente da Associação. Todas as tentativas feitas anteriormente para levantar
o capital necessário tinham falhado, e todo o projeto teria sido abandonado, não
fosse a magnífica atitude da América ao subscrever, adiantado, mais ou menos
quinhentas coleções da edição proposta. A soma foi subscrita como um ato de
pura e até imoderada confiança, numa época em que não havia provas concretas
de uma coisa chamada Standard Edition e os resignados subscritores foram
obrigados a esperar quatro ou cinco anos para que os primeiros volumes lhes
fossem remetidos.
Dessa época em diante, o apoio americano foi constante e chegou até mim
oriundo de muitas fontes. Ao longo dos anos, mantive constantes contatos com o
Dr. K. R. Eissler, que colocou à minha disposição todos os recursos dos Arquivos
Sigmund Freud, além de me proporcionar o mais amistoso incentivo pessoal.
Ainda por intermédio dele, tive acesso ao valioso material guardado na biblioteca
do Instituto de Psiquiatria do Estado de Nova Iorque. Naturalmente, estive em
débito constante para com o Dr. Alexander Grinstein e seu Index of
Psychoanalytic Writings. Ainda no âmbito da ajuda que obtive da América, devo
mencionar dois homens de regiões separadas por uma grande distância; cada um
deles, por longo tempo, deu seu apoio ao sonho de ter um Freud completo em
inglês, mas nenhum dos dois viveu o bastante para ver esse sonho realizado:
Otto Fenichel e Ernst Kris.
Aproximando-me mais de casa, meu principal apoio veio, naturalmente, do
Instituto de Psicanálise e, em particular, do seu Comitê de Publicações, que, sob a
direção de diferentes nomes, me apoiou resolutamente desde o primeiro
momento, a despeito inclusive do que, muitas vezes devem ter-se afigurado
exigências financeiras exorbitantes. Parece uma impropriedade mencionar nomes
individualmente, mas devo recordar, mais uma vez, minha volumosa e instrutiva
correspondência com Ernest Jones. Tenho especiais motivos para ser grato à Dra.
Sylvia Payne, que durante longo tempo ocupou a presidência do Comitê de
Publicações.
Passando à germinação real da Standard Edition, é desnecessário dizer que
meus primeiros agradecimentos cabem à colaboradora e aos auxiliares cujos
nomes são vistos na página de rosto de cada volume: Srta. Anna Freud, minha
esposa e o Dr. Alan Tyson. A Srta. Freud, sobretudo, revelou-se incansável ao
dedicar suas preciosas horas de lazer à leitura de toda a tradução e ao contribuir
com inestimáveis críticas. O nome da Srta. Angela Richards (atualmente Sra.
Angela Harris) também aparece na página de rosto do presente volume. Nesses
últimos anos, ela foi, de fato, minha auxiliar principal, e se incumbiu de grande

parte do aspecto editorial de meu trabalho. Também devo gratidão à Srta. Ralph
Partridge, que preparou a maior partedos índices de cada volume, e às Sras.
Ambrose Price e D. H. O’Brien, que, em trabalho conjunto, datilografaram todo o
material da edição.
As dificuldades nos preparativos iniciais desta edição foram exacerbadas pelas
complicações decorrentes do fato de Freud haver lidado de modo totalmente nãopragmático com os direitos autorais de suas traduções. Esses problemas,
especialmente os referentes aos direitos autorais americanos, só foram
solucionados mediante a decisiva intervenção do Sr. Ernst Freud por um período
de vários meses. O lado inglês dessa questão foi manipulado por The Hogarth
Press e, em especial, pelo Sr. Leonard Woolf. O Sr. Woolf, que vem publicando as
traduções inglesas de Freud há uns quarenta anos, participou ativamente da
evolução desta edição. Sinto que minha gratidão especial, e até um tanto
mesclada de culpa, se deve aos editores e impressores, por sua tolerância em
atenderem às minhas exigências.
Cabe-me acrescentar que, embora tenha recebido conselho de muitas pessoas
que me auxiliaram, e tenha-me beneficiado muito desses conselhos em todos os
pontos da tradução ou dos comentários, a decisão final, em última análise, só
poderia ser minha; portanto, é apenas sobre mim que repousa toda a
responsabilidade pelos erros que o tempo, certamente, há de revelar em
abundância.
Por fim, eu tomaria a liberdade de expressar um reconhecimento mais pessoal:
minha dívida de gratidão para com a companheira que há tantos anos tem
participado do meu trabalho como tradutor. Já faz hoje quase meio século desde
que, juntos, passamos dois anos em Viena, em análise com Freud, e desde que,
decorridas apenas algumas semanas de análise, ele, de repente, nos instruiu a
fazer uma tradução de um trabalho que escrevera havia pouco tempo - “Ein Kind
wird geschlagen” -, tradução que agora faz parte, aqui, do Volume XVII. No
presente empreendimento, ela me prestou ajuda constante, por sua
imparcialidade tanto na aprovação como na crítica, e ela pôde ajudar-me a
atravessar alguns períodos de dificuldade física, quando parecia absurdo imaginar
que um dia a Standard Edition pudesse ser concluída.
JAMES STRACHEY
MARLOW, 1966

RELATÓRIO SOBRE MEUS ESTUDOS EM PARIS E
BERLIM (1956 [1886])

NOTA DO EDITOR INGLÊS

BERICHT ÜBER MEINE MIT UNIVERSITÄTS-JUBILÄUMS REISESTIPENDIUM
UNTERNOMMENE STUDIENREISE NACH PARIS UND BERLIN
(a) EDIÇÃO ALEMÃ:
(1886 Data de redação.)
1960 Em Sigmund Freuds akademische Laufbahn im Lichte der
Dokumente, de J. e R. Gicklhorn, 82, Viena.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:“Report on my Studies in Paris and Berlin”
1956 Int. J. Psycho-Anal., 37 (1), 2-7, (Trad. de James Strachey.)

A presente tradução inglesa é uma reimpressão ligeiramente corrigida da
publicada em 1956.
O relatório com que apropriadamente tem início a Standard Edition das Obras
Psicológicas de Freud é um relato contemporâneo que seu protagonista faz de um
evento histórico: o desvio dos interesses científicos de Freud da neurologia para a
psicologia.
As circunstâncias em que, em 1885, Freud obteve da Universidade de Viena
uma bolsa de estudos para viajar estão detalhadamente relatadas por Ernest
Jones (1953, 82-4). A subvenção, no valor de 600 florins (que, naquele tempo,
equivaliam a pouco menos de £ 50 ou US$ 250) e destinada a cobrir um período
de seis meses, foi concedida pelo Colégio de Professores da Faculdade de
Medicina: e esperava-se que Freud lhes fizesse um relatório formal quando de seu
regresso a Viena. Ele passou cerca de dez dias escrevendo esse relatório, quase
que imediatamente após seu retorno, havendo-o concluído em 22 de abril de

1886. (Jones, ibid., 252.) Por iniciativa de Siegfried Bernfeld, esse relatório foi
descoberto nos Arquivos da Universidade pelo Professor Josef Gicklhorn, o que
possibilitou sua publicação - primeiramente em inglês - setenta anos depois de
ter sido escrito, por gentileza do Dr. K. R. Eissler, Secretário dos Arquivos
Sigmund Freud em Nova Iorque. O original, que se encontra nos Arquivos da
Universidade de Viena, consiste em doze folhas manuscritas, das quais a primeira
contém apenas o título.
É de conhecimento geral a importância que o próprio Freud sempre atribuiu aos
seus estudos com Charcot. Esse relatório mostra com a maior clareza que suas
experiências no Salpêtrière constituíram um momento de decisão. Quando chegou
a Paris, seu “tema de eleição” era a anatomia do sistema nervoso; ao partir, sua
mente estava povoada com os problemas da histeria e do hipnotismo. Dera as
costas à neurologia e se voltava para a psicopatologia. Seria até mesmo possível
assinalar uma data precisa para a mudança - princípio de dezembro de 1885,
quando terminou seu trabalho no laboratório de patologia do Salpêtrière;
contudo, a incômoda organização daquele laboratório, que o próprio Freud
apresenta como explicação, naturalmente não foi outra coisa senão uma causa
precipitante da momentosa mudança de direção nos interesses de Freud. Outros
fatores mais profundos estiveram em ação e, entre eles, sem dúvida a grande
influência pessoal que Charcot naturalmente exercia sobre ele. Freud expressou
de forma mais plena sua consciência dessa influência no obituário que escreveu
por ocasião da morte de seu professor, alguns anos mais tarde (1893f). Com
efeito, muito do que ele diz de Charcot neste relatório encontrou lugar em seu
estudo posterior.
Um relato mais pessoal da estada de Freud em Paris encontra-se na série de
vívidas cartas que escreveu à sua futura mulher, muitas das quais estão incluídas
no volume de sua correspondência organizado por Ernst Freud (1906a).

RELATÓRIO SOBRE MEUS ESTUDOS EM PARIS E BERLIM

EFETUADOS COM O AUXÍLIO DE UMA BOLSA

DE ESTUDOS CONCEDIDA PELO FUNDO DOJUBILEU UNIVERSITÁRIO
(OUTUBRO DE 1885 - FIM DE MARÇO DE 1886)
por
DR. SIGMUND FREUD
Docente de Neuropatologia da Universidade de Viena
Ao Emérito Colégio de Professores da Faculdade de Medicina de Viena.

Quando me candidatei ao prêmio da Bolsa de Estudos do Fundo do Jubileu
Universitário, referente ao ano de 1885-6, expressei minha intenção de me dirigir
ao Hospice de la Salpêtrière, em Paris, e de ali continuar meus estudos de
neuropatologia. Diversos fatores contribuíram para essa escolha. Em primeiro
lugar, havia a certeza de encontrar reunido no Salpêtrière um grande acervo de
material clínico que, em Viena, só se pode encontrar disperso por diferentes
departamentos, não sendo, portanto, de fácil acesso. Além disso, havia o grande
renome de J.-M. Charcot, que há dezessete anos vem trabalhando e lecionando
em seu hospital. Por fim, fui levado a refletir que nada de essencialmente novo
poderia esperar aprender numa universidade alemã, depois de haver usufruído do
ensino direto e indireto, em Viena, dos professores T. Meynert e H. Nothnagel. A
escola francesa de neuropatologia, por outro lado, parecia-me prometer algo
diferente e característico de sua maneira de trabalhar, além de haver ingressado
em novas áreas da neuropatologia que não tinham sido abordadas de forma
parecida pelos cientistas da Alemanha e da Áustria. Em decorrência da escassez
de qualquer contato pessoal estimulante entre médicos franceses e alemães, as
descobertas da escola francesa - algumas (sobre hipnotismo) deveras
surpreendentes e outras (sobre histeria) de importância prática - foram recebidas,
em nossos países, mais com dúvidas do que com reconhecimento e crédito; e os
pesquisadores franceses, sobretudo Charcot, viram-se submetidos à acusação de
terem uma reduzida capacidade crítica ou, pelo menos, de se inclinarem a
estudar material raro e estranho e de dramatizarem seu trabalho com esse
material. Por conseguinte, quando o emérito Colégio de Professores me distinguiu
com o prêmio da bolsa de estudos, com alegria agarrei a oportunidade, que assim
me era oferecida, de formar um julgamento sobre esses fatos baseado na minha
própria experiência, e senti-me feliz, ao mesmo tempo, por estar em situação de
pôr em prática a sugestão que me dera meu respeitado mestre, Professor von

Brücke.
Quando me encontrava em visita a Hamburgo, durante as férias, fui recebido
com muita amabilidade pelo Dr. Eisenlohr, renomado representante da
neuropatologia naquela cidade. Ele me possibilitou examinar um considerável
número de pacientes nervosos no Hospital Geral e no Hospital Heine, e também
me deu acesso ao Hospital Mental de Klein-Friedrichsberg. Mas os estudos de que
me ocupo neste Relatório começaram com minha chegada a Paris, na primeira
quinzena de outubro, no início do ano acadêmico.
O Salpêtrière, que foi o primeiro local que visitei, é um amplo conjunto de
edifícios que, por seus prédios de dois andares dispostos em quadriláteros, assim
como por seus pátios e jardins, lembra muito o Hospital Geral de Viena. Com o
passar do tempo, o Salpêtrière serviu a finalidades muito diferentes, e seu nome
(assim como a nossa “Gewehrfabrik”) provém da primeira dessas finalidades. Os
edifícios foram, afinal, convertidos em lar de mulheres idosas (“Hospice pour la
vieilesse (femmes)”, [1813]) e proporcionam asilo a cinco mil pessoas. A natureza
das circunstâncias fez com que as doenças nervosas crônicas viessem a figurar
nesse material clínico com especial freqüência; e os antigos “médicins des
hôpitaux” da instituição (Briquet,por exemplo) tinham começado a fazer um
estudo científico dos pacientes. Mas o trabalho não pôde prosseguir de modo
sistemático por causa do costume existente entre os “médicins des hôpitaux”
franceses de mudarem freqüentemente de hospital e, ao mesmo tempo, trocarem
o ramo especial da medicina que estão estudando, até que sua carreira os
conduza ao grande hospital clínico do Hôtel-Dieu. Mas J.-M. Charcot, quando era
“interne” no Salpêtrière, em 1856, percebeu ser necessário fazer das doenças
nervosas crônicas o tema de um estudo constante e exclusivo; resolveu retornar
ao Salpêtrière como ‘’médicin des hôpitaux‘’ e, depois, jamais abandonar esse
hospital. Charcot modestamente declara que seu único mérito consiste em ter
executado esse plano. A natureza favorável do material à sua disposição levou-o
a estudar as doenças nervosas crônicas e sua base anatomopatológica; durante
uns doze anos, deu aulas de clínica, como professor voluntário, sem ter qualquer
cargo oficial, até que finalmente, em 1881, foi instituída no Salpêtrière uma
cátedra de Neuropatologia, confiada a ele.
Essa nomeação produziu modificações de grande alcance nas condições em que
trabalhavam Charcot e seus discípulos (que, nesse meio tempo, tinham-se
tornado numerosos). Ao material permanente presente no Salpêtrière
acrescentou-se um complemento essencial, quando foi fundada uma seção clínica,
na qual eram internados para tratamento pacientes tanto masculinos como
femininos selecionados a partir das consultas semanais realizadas num
departamento de pacientes de ambulatório (“consultation externe”). Havia ainda,

à disposição do professor de neuropatologia, um laboratório destinado a estudos
de anatomia e fisiologia, um museu de patologia, um estúdio de fotografia e
preparação de moldes de gesso, um gabinete de oftalmologia e um instituto de
eletricidade e hidropatia. Estavam localizados em diferentes partes do grande
hospital e possibilitavam ao diretor assegurar-se da permanente cooperação de
alguns de seus discípulos, que eram encarregados desses departamentos.
O homem que chefia toda essa organização e seus serviços auxiliares tem,
atualmente, a idade de sessenta anos. Possui a vivacidade, a jovialidade e a
perfeição formal no falar que costumamos atribuir ao caráter da nacionalidade
francesa; ao mesmo tempo, mostra a paciência e o amor pelo trabalho que
geralmente atribuímos aos de nossa nação. A atração exercida por semelhante
personalidade logo me levou a limitar minhas visitas a um único hospital e a
buscar os ensinamentos de um único homem. Abandonei minhas eventuais
tentativas de assistir a outras conferências, depois de haver-me convencido de
que tudo o que elas tinham a me oferecer eram, na sua maior parte, peças de
retórica bem construídas. As únicas exceções eram as autópsias e conferências
forenses do Professor Brouardel no Necrotério, que eu raramente perdia.
No Salpêtrière, meu trabalho assumiu uma forma diferente daquela que eu, de
início, tinha estabelecido para mim mesmo. Eu havia chegado com a intenção de
fazer de uma única pergunta, objeto de uma cuidadosa investigação; e como, em
Viena, o assunto eleito por mim eram os problemas anatômicos, tinha escolhido o
estudo das atrofias e degenerações secundárias que se seguem às afecções do
cérebro nas crianças. Um material patológico extremamente valioso estava à
minha disposição; achei, todavia, que as condições para me utilizar dele eram
muitíssimo desfavoráveis. O laboratório de modo algum oferecia condições para
receber um pesquisador de fora, e esse espaço e esses recursos, tal como
existiam, haviam-se tornado inacessíveis devido à falta de qualquer espécie de
organização. Assim sendo, vi-me obrigado a desistir do trabalho com a anatomia
e a me contentar com uma descoberta referente às relações dos núcleos da
coluna posterior da “medulla oblongata”. Depois, porém, tive oportunidade de
retomar pesquisas semelhantes com o Dr. von Darkschewitsch (de Moscou), e
nossa colaboração possibilitou uma artigo publicado nos Neurologisches
Centralblatt (1886, 5, 212), que teve por título “Über die Beziehung des
Strickkörpers zum Hinterstrang und Hinterstragskern nebst Bemerkungen über
zwei Felder der Oblongata”.

Contrastando com a inadequação do laboratório, a clínica do Salpêtrière

proporcionava tal abundância de material novo e interessante que eram
necessários todos os meus esforços para me beneficiar do ensino que essa
oportunidade favorável me oferecia. O horário da semana era dividido como se
segue. Na segunda-feira, Charcot dava sua aula teórica, que encantava os
ouvintes pela perfeição de sua forma, ao mesmo tempo que o tema da aula era
conhecido a partir do trabalho da semana anterior. O que essas aulas ofereciam
não era tanto um ensino elementar de neuropatologia sob a forma de
informações, mas, antes, as mais recentes pesquisas do Professor; e elas
produziam efeito principalmente em virtude de suas constantes referências aos
pacientes que estavam sendo examinados. Na terça-feira, Charcot realizava a
“consultation externe”, na qual seus assistentes lhe apresentavam para exame os
casos típicos ou difíceis, selecionados dentre o grande número dos que
compareciam ao departamento de ambulatório. Às vezes, era desanimador
quando o grande homem deixava algum desses casos, para usar sua própria
expressão, afundar “no caos de uma nosografia ainda desconhecida”; outros,
contudo, lhe davam a oportunidade de usá-los como ponto de partida para os
mais instrutivos comentários sobre uma ampla variedade de questões de
neuropatologia. As quartas-feiras eram, em parte, dedicadas aos exames
oftalmológicos, que o Dr. Parinaud efetuava na presença de Charcot. Nos demais
dias da semana, Charcot percorria as enfermarias, ou continuava as pesquisas
que estivesse empreendendo na ocasião, examinando, para esse fim, pacientes
em seu consultório.
Tive, assim, oportunidade de ver um grande número de pacientes, de examinálos e de ouvir a opinião de Charcot a respeito deles. O que me parece ter tido
maior valor do que essa efetiva aquisição de experiência foi, no entanto, o
estímulo que recebi, durante os cincos meses que passei em Paris, do meu
constante contato científico e pessoal com o Professor Charcot.
No que diz respeito ao contato científico, certamente não me foi dada
preferência em relação a qualquer outro estrangeiro. Pois a clínica era acessível a
qualquer médico que se apresentasse, e o trabalho do Professor era executado
abertamente, cercado de todos os jovens que atuavam como seus assistentes,
assim como dos médicos estrangeiros. Parecia que ele, por assim dizer,
trabalhava conosco, pensava em voz alta e esperava que os discípulos lhe
apresentassem objeções. Todo aquele que assim desejasse podia entrar na
discussão, e nenhum comentário passava despercebido ao grande homem. A
informalidade que prevalecia no relacionamento e a maneira como cada um era
tratado, com cortesia e em condições de igualdade - o que constituía surpresa
para os visitantes estrangeiros -, facilitavam a situação, de modo que até os mais
tímidos tinham a mais viva participação nos exames de Charcot. Podia-se verificar
a maneira como ele, inicialmente, ficava indeciso em face de alguma nova

manifestação difícil de interpretar; podia-se seguir os caminhos pelos quais se
esforçava por chegar a uma compreensão; podia-se estudar o modo como
avaliava as dificuldades e as vencia; e podia-se observar, com surpresa, que ele
nunca se cansava de observar o mesmo fenômeno, até que seus esforços
repetidos e sem prevenções lhe permitissem chegar a uma visão correta de seu
significado. Quando, além de tudo isso, acode à lembrança a total sinceridade
manifestada pelo Professor durante essas sessões, compreende-se por que o
autor deste relatório, assim como aconteceria com qualquer outro estrangeiro em
situação semelhante, deixou o Salpêtrière com irrestrita admiração por Charcot.
Charcot costumava dizer que, falando de modo geral, o trabalho da anatomia
estava encerrado e que a teoria das doenças orgânicas do sistema nervoso podia
ser dada como completa: o que precisava ser abordado a seguir eram as
neuroses. Sem dúvida, essa afirmação pode ser considerada como nada além da
expressão do rumo tomado por suas próprias atividades. Por muitos anos, então,
seu trabalho centralizou-se quase por completo nas neuroses, principalmente na
histeria, que, desde o início das atividades do departamento de ambulatório e da
clínica, ele teve oportunidade de estudar tanto nos homens como nas mulheres.
Tentarei resumir em poucas palavras o que Charcot realizou no estudo clínico
da histeria. Até o presente, dificilmente se pode considerar a palavra histeria
como um termo com significado bem definido. O estado mórbido a que se aplica
tal nome caracteriza-se cientificamente apenas por sinais negativos; tem sido
estudado escassa e relutantemente; e carrega a ira de alguns preconceitos muito
difundidos. Entre estes estão a suposição de que a doença histérica depende de
irritação genital, o ponto de vista de que nenhuma sintomatologia definida pode
ser atribuída à histeria simplesmente porque nela pode ocorrer qualquer
combinação de sintomas e, finalmente, a exagerada importância dada à
simulação no quadro clínico da histeria. Durante as últimas décadas, é quase
certo que uma mulher histérica seria tratada como simuladora, do mesmo modo
que, em séculos anteriores, certamente seria julgada e condenada como feiticeira
ou possuída pelo demônio. Sob outro aspecto, é possível que até se tenha dado
um passo atrás no conhecimento da histeria. A Idade Média estava familiarizada
de modo preciso com os “estigmas” da histeria, seus sinais somáticos, e os
interpretava e utilizava à sua própria maneira. No departamento de ambulatório,
em Berlim, contudo, verifiquei que esses sinais somáticos da histeria eram
praticamente desconhecidos e que, em geral, quando se fazia um diagnóstico de
“histeria”, parecia estar eliminada qualquer motivação para se obter mais algum
informe a respeito do paciente.
Em seu estudo da histeria, Charcot partiu dos casos mais completamente

desenvolvidos, que ele considerava como tipos perfeitos da doença. Começou por
reduzir a conexão entre a neurose e o sistema genital a suas proporções corretas,
demonstrando a insuspeitada freqüência dos casos de histeria masculina e,
especialmente, de histeria traumática. Nesses casos típicos, ele encontrou a
seguir numerosos sinais somáticos (tais como a natureza do ataque, a anestesia,
os distúrbios da visão, os pontos histerógenos etc.), que lhe possibilitaram
estabelecer com segurança o diagnóstico da histeria, com base em indicações
positivas. Estudando cientificamente o hipnotismo - área da neuropatologia que
teve que ser arrancada, de um lado, do ceticismo e, de outro, do embuste -,
Charcot chegou a uma espécie de teoria da sintomatologia histérica. Teve a
coragem de reconhecer esses sintomas como sendo, na sua maior parte, reais,
sem negligenciar as precauções exigidas pela insinceridade do paciente. A
experiência, que aumentou rapidamente com o excelente material, logo lhe
possibilitou levar em conta também as variantes do quadro típico. À época em
que fui obrigado a deixar a clínica, ele estava passando do estudo das paralisias e
artralgias histéricas para o das atrofias histéricas, de cuja existência só conseguiu
convencer-se durante os últimos dias de minha visita.

A enorme importância prática da histeria masculina (que geralmente não é
reconhecida) e, em particular, a histeria que se segue a um trauma foi ilustrada
por ele como o caso de um paciente que, durante cerca de três meses, constituiu
o ponto central dos estudos de Charcot. Assim, por meio de seu trabalho, a
histeria foi retirada do caos das neuroses, diferençada de outros estados de
aparência semelhante, e a ela se atribuiu uma sintomatologia que, embora
extremamente multiforme, tornava impossível duvidar de que imperassem nela
uma lei e uma ordem. Tive uma animada troca de opiniões com o Professor
Charcot (tanto oralmente como por escrito) sobre os pontos de vista oriundos de
suas investigações. Isso me levou a preparar um artigo que está por ser publicado
nos Archives de Neurologie e que tem como título “Vergleichung der hysterischen
mit der organischen Symptomatologie”.
Neste ponto, devo observar que a disposição de considerar as neuroses
provenientes de trauma (“railway spine”) como histeria encontrou decidida
oposição por parte de autoridades alemãs, especialmente do Dr. Thomsen e do
Dr. Oppenheim, médicos assistentes do Charité, de Berlim. Conheci pessoalmente
a ambos, mais tarde, em Berlim, e esperava ter a oportunidade de verificar se
sua oposição era justificada. Infelizmente, porém, os pacientes em questão já não
se encontravam mais no Charité. Fiquei, todavia, com a impressão de que a
questão não está madura para uma decisão, mas que Charcot acertadamente

começara por abordar os casos típicos e mais simples, ao passo que seus
adversários alemães partiram do estudo de exemplos indeterminados e mais
complexos. Em Paris, contestou-se a afirmação de que formas tão graves de
histeria como aquelas em que Charcot baseou seu trabalho não ocorriam na
Alemanha; chamou-se atenção para os relatos históricos de epidemias
semelhantes e insistiu-se na identidade da histeria em qualquer época e lugar.

Também não perdi a ocasião de adquirir um conhecimento pessoal dos
fenômenos do hipnotismo, que são tão surpreendentes e aos quais se dá tão
pouco crédito, e, em especial, do “grand hypnotisme” [“grande hipnotismo”]
descrito por Charcot. Com surpresa, verifiquei que nessa área determinadas
coisas aconteciam abertamente diante dos nossos olhos e que era quase
impossível duvidar delas; assim mesmo, eram tão estranhas que não se podia
acreditar nelas, a menos que delas se tivesse uma experiência pessoal. Contudo,
não vi nenhum sinal de que Charcot mostrasse qualquer preferência especial por
material raro e estranho, ou de que tentasse explorá-lo para fins místicos. Pelo
contrário, considerava o hipnotismo uma área de fenômenos que ele submetia à
descrição científica, tal como fizera, muitos anos antes, com a esclerose múltipla
ou com a atrofia muscular progressiva. Não me parecia em absoluto que ele fosse
um desses homens que se mostram mais encantados com aquilo que é raro do
que com aquilo que é comum; e a tendência geral de sua mente leva-me a supor
que ele não consegue descansar enquanto não descreve e classifica corretamente
algum fenômeno que o interesse, mas dorme tranqüilamente sem ter chegado à
explicação fisiológica do fenômeno em questão.
Neste Relatório, dediquei espaço considerável aos comentários sobre a histeria
e o hipnotismo, porque tive de abordar aquilo que era totalmente novo e que foi
objeto dos estudos específicos de Charcot. Embora me tenha referido menos às
doenças orgânicas do sistema nervoso, não gostaria que se supusesse que vi
pouco ou nada a respeito delas. Mencionarei apenas alguns dos casos
particularmente interessantes em meio à riqueza do notável material
apresentado. Entre estes estavam, por exemplo, as formas de atrofia muscular
hereditária, recentemente descritas pelo Dr. Marie; embora estas não mais sejam
incluídas entre as doenças do sistema nervoso, ainda estão sob os cuidados dos
neuropatologistas. Devo mencionar também os casos da doença de Ménière, de
esclerose múltipla, de tabes, com todas as suas complicações, particularmente
acompanhada pela doença das articulações descrita por Charcot, da epilepsia
parcial e de outras formas de doença que compõem o acervo de material das
clínicas e dos ambulatórios de doenças nervosas. Entre as doenças funcionais
(exceto a histeria), a coréia e as diversas formas de “tiques” (por exemplo, a

doença de Gilles de la Tourette) estavam recebendo atenção especial durante a
época em que freqüentei aquele serviço.

Quando tomei conhecimento de que Charcot tencionava publicar uma nova
coletânea de suas conferências, ofereci-me para fazer uma tradução alemã;
graças a essa tarefa, entrei em contato pessoal mais próximo com o Professor
Charcot e também pude prolongar minha estada em Paris além do período
coberto por minha bolsa de estudos. Essa tradução está por ser publicada em
Viena, em maio do corrente ano, pela editora de Toeplitz e Deuticke.
Por fim, devo mencionar que o Professor Ranvier, do Collège de France,
revelou-se extremamente gentil ao mostrar-me suas excelentes preparações de
células nervosas e neuróglia.
Minha estada em Berlim, que se estendeu de 1º de março até o fim do mesmo
mês, deu-se durante o período de férias. Ainda assim, tive muitas oportunidades
de examinar crianças que sofriam de doenças nervosas nas clínicas de pacientes
externos dos professores Mendel e Eulenburg e do Dr. A. Baginsky, tendo sido
muito bem recebido em todos os lugares. As repetidas visitas ao Professor Munk e
ao laboratório de agricultura do Professor Zuntz (onde me encontrei com o Dr.
Loeb, de Estrasburgo) possibilitaram-me formar opinião própria acerca da
controvérsia entre Goltz e Munk quanto à questão da localização do sentido da
visão no córtex cerebral. O Dr. B. Baginsky, do laboratório de Munk, teve a
gentileza de demonstrar para mim suas preparações do trajeto do nervo acústico
e de solicitar minha opinião a respeito delas.

Considero meu dever apresentar meus mais calorosos agradecimentos ao
Colégio de Professores da Faculdade de Medicina de Viena por me haver
escolhido para o prêmio da bolsa de estudos. Com isso, o Colégio (no qual estão
incluídos todos os meus respeitados mestres) concedeu-me a possibilidade de
adquirir conhecimentos valiosos, dos quais espero fazer uso como Docente de
doenças nervosas, assim como na minha atividade médica.
VIENA, Páscoa de 1886

PREFÁCIO À TRADUÇÃO DAS CONFERÊNCIAS
SOBRE AS DOENÇAS DO SISTEMA NERVOSO, DE
CHARCOT (1886)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

PREFÁCIO À TRADUÇÃO DE LEÇONS SUR LES MALADIES DU SYSTÈME
NERVEUX: TOME TROISIÈME, DE CHARCOT
(a) EDIÇÃO ALEMÃ:
1886 Em J.-M. Charcot, Neue Vorlesungen über die Krankheiten des
Nervensystems insbesondere über Hysterie [Novas Conferências sobre as
Doenças do Sistema Nervoso, Particularmente sobre a Histeria], iii-iv, Leipzig
e Viena, Toeplitz e Deuticke.

O prefácio não foi reimpresso em alemão. A presente tradução (a primeira para
o inglês) do prefácio é de autoria de James Strachey. A tradução de Freud de
duas das conferências (XXIII e XXIV) foi publicada antecipadamente no Wien.
med. Wochenschr., 36 (20), 711-15 e (21), 756-9 (15 e 22 de maio de 1886),
tendo como título “Über einen Fall von hysterischer Coxalgie aus traumatischer
Ursache bei einem Manne” (“Sobre um caso de coxalgia num homem em
decorrência de um acidente”) (Freud, 1886e). A publicação do livro não pode ter
sido anterior a julho de 1886 (data do prefácio de Freud); em todo caso, porém,
ela se deu antes da publicação do original francês (Paris, 1887), como Freud
menciona em seu prefácio.
O modo como Charcot confiou a Freud a incumbência de fazer a tradução desse

livro para o alemão foi relatado por Freud, com mais detalhes em seu Estudo
Autobiográfico (1925d), Edição Standard Brasileira, Vol. XX, [1], IMAGO Editora,
1976, e também numa carta que, nessa época, Freud escreveu a sua futura
esposa (12 de dezembro de 1885) editada em Freud, 1960a (Carta 88).
As poucas notas de rodapé escritas por Freud simplesmente registram, como
ele mesmo indica no prefácio, a evolução subseqüente de um ou dois casos
clínicos relatados no texto e, numa delas, uma recente mudança de opinião de
Charcot quanto a um detalhe do diagnóstico. Três dessas conferências (XI, XII e
XIII) tratam da afasia. Em um breve comentário, Freud mostra que já estava
especialmente interessado no assunto, sobre o qual, cinco anos depois, escreveria
sua monografia. Nesta, fez uma breve descrição dos pontos de vista de Charcot
(1891b, 100-2) e referiu-se ao presente trabalho.

Conta-nos Jones (1953, 230) que Charcot recompensou Freud pela tradução,
dando-lhe de presente uma coleção completa de suas obras, encadernada em
couro, com esta dedicatória: “A Monsieur le Docteur Freud, excellents souvenirs
de la Salpêtrière. Charcot”.

PREFÁCIO À TRADUÇÃO DAS CONFERÊNCIAS SOBRE AS DOENÇAS DO SISTEMA
NERVOSO, DE CHARCOT

Um empreendimento como este, que objetiva apresentar os ensinamentos de
um mestre de clínica médica a círculos médicos mais amplos, por certo dispensa
justificativas. Proponho-me, portanto, dizer apenas algumas palavras a respeito
da origem desta tradução e sobre a matéria das conferências que ela contém.
No inverno de 1885, quando cheguei ao Salpêtrière para uma permanência de
quase meio ano, constatei que o Professor Charcot (então pelos seus sessenta
anos, trabalhando com o vigor da mocidade) se havia afastado do estudo das
doenças nervosas que se baseiam em alterações orgânicas e estava-se dedicando
exclusivamente à pesquisa das neuroses - e, em especial, da histeria. Essa
mudança relacionava-se com as modificações (descritas na primeira conferência

deste livro) que se efetuaram nas condições do trabalho e do ensino de Charcot,
em 1882.
Após superar minha perplexidade inicial diante das descobertas da novas
pesquisas de Charcot, e depois que aprendi a avaliar sua grande importância,
pedi ao Professor Charcot permissão para fazer uma tradução para o alemão das
conferências que continham essas novas teorias. E aqui devo agradecer-lhe não
apenas pela presteza com que me concedeu sua permissão, como também por
sua ajuda ulterior, que tornou possível que a edição alemã, na realidade, seja
publicada vários meses antes da edição francesa. Seguindo instruções do autor,
acrescentei algumas notas, na maioria acréscimos às histórias dos pacientes de
que trata o texto.
O cerne deste livro está nas magistrais e fundamentais conferências sobre
histeria, que, junto com seu autor, podemos esperar venham a descerrar uma
nova era na conceituação dessa neurose pouco conhecida e, a rigor, denegrida.
Por esse motivo, com o consentimento do Professor Charcot, modifiquei o título
do livro, que em francês é ‘’Leçons sur les maladies du système nerveux, Tome
troisième”, e coloquei em destaque a histeria dentre os temas nele abordados.
Todo aquele a quem estas conferências motivarem a um aprofundamento nas
pesquisas sobre histeria feitas pela escola francesa poderá remeter-se aos Études
cliniques sur la grande hystérie, de P. Richer, de que saiu uma segunda edição em
1885 e que, em mais de uma aspecto, constitui uma obra extraordinária.
VIENA, 18 de julho de 1886

OBSERVAÇÃO DE UM CASO GRAVE DE
HEMIANESTESIA EM UM HOMEM HISTÉRICO
(1886)

INTRODUÇÃO

BEOBACHTUNG EINER
HYSTERISCHEN MANNE

HOCHGRADIGEN

HEMIANASTHESIE

BEI

EINEM

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1886 Wien. med. Wschr., 36 (49), 1633-38 (4 de dezembro).

Parece que este artigo foi reeditado. A presente tradução de James Strachey é
a primeira que se fez para o idioma inglês. Aparentemente, havia a intenção de
que este artigo viesse a ser o primeiro de uma série, de vez que o encima o título
“Beitrage zur Kasuistik der Hysterie, I” (Contribuições ao Estudo Clínico da
Histeria, I). Mas a série não teve continuação.
Em 15 de outubro de 1886, uns seis meses depois de seu retorno de Paris,
Freud leu perante a “Gesellschaft der Aerzte” (Sociedade de Medicina) de Viena
um artigo intitulado “Über mannliche Hysterie” (Sobre a Histeria Masculina). O
texto desse artigo não sobreviveu, ainda que sobre ele surgissem resenhas nos
periódicos médicos de Viena, como, por exemplo, no Wien, med. Wochenschr., 63
(43), 1444-6 (23 de outubro). Também é encontrado num breve resumo de
Ernest Jones (1953, 252). O próprio Freud dá um relato desse evento em seu
Estudo Autobiográfico (1925d), Edição Standard Brasileira, Vol. XX, em [1],
IMAGO Editora, 1976. O artigo foi mal recebido, e Meynert desafiou Freud a
apresentar perante a sociedade um caso de histeria masculina. Freud teve
alguma dificuldade em encontrar um caso, pois os médicos mais antigos dos
departamentos do Hospital Geral recusaram-se a lhe facultar o uso do material de
que dispunham. Por fim, com a ajuda de um jovem laringologista, encontrou
noutro lugar um paciente adequado e o apresentou perante a “Gesellschaft der
Aerzte’’ em 26 de novembro de 1886. O caso foi demonstrado por Freud e por seu
amigo Dr. Konigstein, cirurgião oftalmologista que tinha feito um exame dos
sintomas oculares do paciente. O artigo desse especialista foi publicado no
Wochenschrift uma semana depois do de Freud - na edição de 11 de dezembro
(1674-6). Freud conta-nos que o presente artigo encontrou uma recepção melhor
do que o artigo anterior; todavia, não chegou a suscitar interesse.
A maior parte do artigo, conforme se verá, trata dos fenômenos físicos da
histeria, nos moldes característicos da atitude de Charcot em relação a essa
doença. Há somente alguns indícios muito leves que revelam interesse por
fatores psicológicos.

Senhores:
A 15 de outubro, quando tive a honra de pedir-lhes a atenção para um breve
informe sobre o recente trabalho de Charcot na área da histeria masculina, fui
desafiado pelo meu respeitado mestre Hofrat Professor Meynert a apresentar
perante a sociedade alguns casos em que pudessem ser observadas, de forma
claramente visível, as indicações somáticas da histeria - os “estigmas histéricos”
pelos quais Charcot caracteriza essa neurose. Hoje, enfrento esse desafio - de
maneira insuficiente, é verdade, mas na medida do que me permite o material
clínico de que disponho -, apresentando perante os senhores um homem histérico
que mostra o sintoma da hemianestesia, num grau que se poderia descrever com
o mais elevado. Antes de começar minha demonstração, quero apenas observar
que estou longe de pensar que o que lhes estou mostrando é um caso raro ou
peculiar. Pelo contrário, considero-o um caso muito comum, de ocorrência
freqüente, embora muito amiúde possa passar despercebido.
Por esse paciente, devo agradecer à gentileza do Dr. von Beregszászy, que o
enviou a mim para confirmação do diagnóstico que ele havia feito. O paciente,
August P., gravador de 29 anos, é a pessoa que está diante dos senhores: um
homem inteligente, que de pronto se ofereceu para ser examinado por mim, na
esperança de uma rápida recuperação.
Permitam-me que comece por um relato de sua história familiar e de sua
história pessoal. O pai do paciente, aos 48 de idade, morreu da doença de Bright;
trabalhava numa adega, bebia muito e tinha temperamento violento. Sua mãe
morreu, aos 46 anos, de tuberculose. Soube-se que ela sofria muito de dores de
cabeça, quando jovem: o paciente nada tem a dizer sobre ataques convulsivos ou
algo semelhante. O casal teve seis filhos, dos quais o primeiro levou uma vida
irregular e faleceu de uma afecção sifilítica cerebral. O segundo filho tem
interesse especial para nós; ele desempenha um papel na etiologia da doença de
seu irmão e parece que ele próprio era histérico. Contou ao nosso paciente haver
sofrido de ataques convulsivos; e, por uma estranha coincidência, nesse mesmo
dia, encontrei um colega de Berlim que tratara desse irmão, em Berlim, durante
uma enfermidade, e havia diagnosticado que ele sofria de histeria - diagnóstico

este que também foi confirmado num hospital daquela cidade. O terceiro filho
desapareceu desde que desertou do exército; o quarto e o quinto morreram em
tenra idade, e o último é o nosso paciente.
Nosso paciente teve um desenvolvimento normal na infância, nunca sofreu
convulsões infantis e teve as doenças comuns de crianças. Aos oito anos, teve a
infelicidade de ser atropelado na rua; sofreu ruptura do tímpano direito, com
permanente déficit da audição do ouvido direito, e foi acometido de uma doença
que durou diversos meses, durante a qual sofria freqüentes desmaios, cuja
natureza atualmente já não é possível descobrir. Esses desmaios continuaram por
uns dois anos. Desse acidente adveio um certo embotamento intelectual, que o
paciente afirma ter sido notado em seu rendimento escolar, e uma tendência a
sensações vertiginosas sempre que, por alguma razão, se sentia indisposto. Mais
tarde, completou o curso primário; após a morte dos pais, passou a aprendiz de
gravador; um dado que fala muito a favor de seu caráter é o fato de ter
permanecido como artífice e empregado do mesmo mestre de ofício durante dez
anos. Considera-se pessoa cujos pensamentos estavam total e unicamente
voltados para a perfeição de seu habilidoso ofício e que, com esse fim em vista,
leu muito e exercitou-se no desenho, não se permitindo relacionamentos sociais
nem divertimentos. Via-se obrigado a refletir muito acerca de si mesmo e de suas
ambições e, por fazê-lo com tanta freqüência, caía num estado de excitada fuga
de idéias, no qual ficava alarmado a respeito de sua saúde mental; seu sono
muitas vezes era agitado e sua digestão fazia-se lenta por causa de seu modo de
vida sedentário. Sofreu de palpitações durante os últimos nove anos; mas, afora
isto, era sadio e jamais precisou interromper seu trabalho.
Sua doença atual começou há uns três anos. Nessa época, teve um
desentendimento com o irmão que levava uma vida desregrada, porque este se
recusou a lhe pagar uma soma em dinheiro que o paciente lhe emprestara. O
irmão ameaçou apunhalá-lo e avançou contra ele com uma faca. Isto causou ao
paciente um medo indescritível; sentiu um zumbido na cabeça, como se ela fosse
estourar; correu para casa, sem poder contar como foi que chegou lá, e caiu no
chão, inconsciente, em frente à porta de casa. Depois, ouviu dizer que, durante
duas horas, tinha tido violentos espasmos, durante os quais falara da cena com
seu irmão. Quando voltou a si, sentia-se muito fraco; durante as seis semanas
seguintes, sofreu de violentas dores no lado esquerdo da cabeça e pressão
intracraniana. Parecia-lhe alterada a sensibilidade na metade esquerda do corpo,
e seus olhos se cansavam facilmente no trabalho, que ele retomou em seguida.
Com algumas oscilações, seu estado ficou sendo este durante três anos, até que,
há sete semanas, uma nova agitação causou uma mudança para pior. O paciente
foi acusado de roubo por uma mulher, teve palpitações violentas e, por uns
quinze dias, esteve tão deprimido que pensou em suicídio; ao mesmo tempo, um

tremor muito intenso tomou conta de seus membros esquerdos. A metade
esquerda de seu corpo ficou como se tivesse sido afetada por um pequeno
acidente cerebral; seus olhos se enfraqueceram muito e freqüentemente faziamno ver tudo cinza; seu sono era interrompido por aparições terrificantes e sonhos
nos quais pensava estar caindo de uma grande altura; começaram a surgir dores
no lado esquerdo da garganta, na virilha esquerda, na região sacra e em outras
áreas; seu estômago, com freqüência, estava “como se tivesse estourado”, e ele
se viu obrigado a parar de trabalhar. Outra piora em todos esses sintomas data
da última semana. Além disso, o paciente está sujeito a dores violentas no joelho
esquerdo e na planta do pé esquerdo, quando caminha durante algum tempo;
tem uma sensação peculiar na garganta, como se a língua estivesse presa, ouve
freqüentes zumbidos nos ouvidos, e outras coisas dessa natureza. Sua memória
está prejudicada quanto aos acontecimentos ocorridos durante sua doença;
quanto aos eventos anteriores à doença, porém, não apresenta problemas. Os
ataques sob forma de convulsões repetiram-se de seis a nove vezes durante os
três anos; contudo, a maior parte deles foi muito benigna; somente um ataque, à
noite, no último mês de agosto, acompanhou-se de “agitação” com bastante
gravidade.
Agora examinemos o paciente: um homem bastante pálido, de compleição
média. O exame de seus órgãos internos nada revela de patológico, exceto
bulhas cardíacas abafadas. Quando comprimo o ponto de saída dos nervos supraorbital, infra-orbital ou do mento, do lado esquerdo, o paciente volta a cabeça
com uma expressão de dor intensa. Podemos, portanto, supor que há uma
alteração nevrálgica no trigêmeo esquerdo. Também a abóbada craniana é muito
sensível à percussão na sua metade esquerda. A pele da metade esquerda da
cabeça comporta-se, no entanto, de modo muito diferente do que esperávamos:
está completamente insensível a estímulos de qualquer espécie. Posso aplicar-lhe
alfinetadas, beliscá-la, torcer o lobo da orelha entre meus dedos, sem que o
paciente chegue sequer a perceber o contato. Aqui, pois, existe um grau muito
elevado de anestesia; esta, contudo, atinge não só a pele como também as
membranas mucosas, conforme lhes mostrarei no caso dos lábios e da língua do
paciente. Se introduzo um rolinho de papel em seu canal auditivo externo
esquerdo e depois em sua narina esquerda, não se produz nenhuma reação.
Repito agora a experiência no lado direito e mostro que aqui a sensibilidade do
paciente é normal. Em consonância com a anestesia, os reflexos sensoriais
também estão abolidos ou diminuídos. Assim, posso introduzir meu dedo e tocar
todos os tecidos faríngeos do lado esquerdo, sem que resultem ânsias de vômito;
os reflexos faríngeos do lado direito, contudo, também se encontram diminuídos;
apenas quando toco a epiglote no lado direito é que se dá uma reação. O toque
da conjuntiva palpebral e ocular mal produz o fechamento das pálpebras; por
outro lado, o reflexo corneano está presente, embora muito reduzido. Aliás, os

reflexos conjuntival e corneano do lado direito também estão diminuídos, embora
em grau menor; e esse comportamento dos reflexos é suficiente para me
possibilitar a conclusão de que os distúrbios da visão não se limitam
necessariamente a um olho (o esquerdo). E, realmente, quando pela primeira vez
examinei o paciente, ele mostrava em ambos os olhos a peculiar poliopia
monocular dos pacientes histéricos e distúrbios da sensibilidade às cores. Com o
olho direito, reconhecia todas as cores, exceto o roxo, que dizia ser cinzento; com
o olho esquerdo, reconhecia apenas o vermelho-claro e o amarelo-claro, ao passo
que considerava todas as outras cores como cinzento, quando eram claras, e
como preto, quando escuras. O Dr. Konigstein teve a gentileza de submeter o
paciente a um minucioso exame oftalmológico e posteriormente relatará suas
conclusões. [Ver em [1]] Passando aos outros órgãos dos sentidos, o olfato e o
paladar estão inteiramente anulados no lado esquerdo. Somente a audição foi
poupada da hemianestesia cerebral. Convém lembrar que a acuidade do ouvido
direito ficou seriamente prejudicada desde que o paciente sofreu um acidente,
aos oito anos de idade; seu ouvido esquerdo é o melhor; a redução da audição
nele presente é (segundo uma gentil comunicação do Professor Gruber)
suficientemente explicada por uma visível e substancial afecção da membrana
timpânica.
Se procedermos agora a um exame do tronco e dos membros, verificaremos
também uma anestesia absoluta, sobretudo no braço esquerdo. Como vêem,
consigo espetar a ponta de uma agulha numa dobra da pele sem que o paciente
reaja. As estruturas profundas - músculos, ligamentos e articulações - também
devem estar insensíveis em grau igualmente elevado, pois posso mover a
articulação do punho e estirar os ligamentos sem provocar qualquer sensação no
paciente. É consoante com essa anestesia das estruturas profundas o fato de que
o paciente, quando seus olhos são vendados, também não tem noção da posição
do seu braço esquerdo no espaço, nem de qualquer movimento que executo com
ele. Passo uma venda em seus olhos e depois lhe pergunto o que fiz com sua mão
esquerda. Ele não consegue dizer. Peço-lhe que, com a mão direita, segure o
polegar, o cotovelo ou o ombro esquerdos. Ele tateia às cegas, confunde sua
própria mão com a minha, que lhe estendo, e então admite que não sabe a quem
pertence a mão que segurou.

Deve ser particularmente interessante descobrir se o paciente é capaz de
encontrar as partes da metade esquerda de sua face. Seria de supor que isso não
lhe oferecesse quaisquer dificuldades, pois, afinal, a metade esquerda do rosto
está, digamos, firmemente cimentada à metade direita, intacta. Mas a
experiência mostra o contrário. O paciente erra o alvo no olho esquerdo, no lobo

da orelha esquerda, e assim por diante; na verdade, parece sair-se pior ao tatear
com a mão direita as partes anestesiadas do rosto do que se estivesse tocando
uma parte do corpo de alguma outra pessoa. A causa disso não é uma
perturbação na mão direita, que ele está usando para apalpar, pois os senhores
podem ver com que certeza e rapidez ele encontra os pontos em que lhe digo
para tocar a metade direita do rosto.
A mesma anestesia está presente no tronco e na perna esquerda. Observamos
aí que a perda das sensações tem seu limite na linha média, ou se estende um
pouco além desta.
Para mim, parece haver um interesse especial na análise dos distúrbios do
movimento que o paciente mostra em seus membros anestesiados. Acredito que
esses distúrbios do movimento devam ser atribuídos, inteira e unicamente, à
anestesia. Certamente não existe paralisia do braço esquerdo, por exemplo. Um
braço paralisado ou cai flacidamente, ou se mantém rígido, devido às contraturas
em posições forçadas. Aqui a coisa se passa de modo diverso. Se eu vendar os
olhos do paciente, seu braço esquerdo permanecerá na posição que tinha
assumido anteriormente. Os distúrbios da mobilidade são mutáveis e dependem
de diversas condições. Em primeiro lugar, aqueles dentre os senhores que tiverem
notado como o paciente se despiu com ambas as mãos e como fechou sua narina
esquerda com os dedos da mão esquerda, não terão tido a impressão de qualquer
distúrbio grave do movimento. A um exame mais acurado, verificar-se-á que o
braço esquerdo, em especial os dedos, são movimentados mais lentamente e
com menos habilidade, como se estivessem entorpecidos, e com um leve tremor.
Todos os movimentos, até os mais complicados, são, todavia, executados, e isso
acontece sempre que a atenção do paciente é desviada dos órgãos do movimento
e dirigida unicamente para o objetivo do movimento. As coisas se passam
diversamente quando lhe peço que efetue movimentos isolados com o braço
esquerdo, sem qualquer objetivo mais remoto - como, por exemplo, dobrar o
braço na articulação do cotovelo enquanto segue o movimento com os olhos.
Nesse caso, seu braço esquerdo parece muito mais inibido do que antes, o
movimento é feito com muita lentidão, incompletamente, em estágios diferentes,
como se houvesse uma grande resistência a ser vencida, e é acompanhado de um
nítido tremor. Os movimentos dos dedos são extraordinariamente débeis nessas
circunstâncias. Uma terceira espécie da perturbação do movimento, a mais grave,
surge, finalmente, quando o paciente é solicitado a efetuar movimentos isolados
com os olhos fechados. Por certo, algo se passa no membro que está
absolutamente anestesiado, pois, como vêem, a inervação motora é
independente de qualquer informação sensitiva do tipo que normalmente procede
de um membro que vai ser movimentado; esse movimento, no entanto, é
mínimo, de modo algum dirigido a um determinado segmento, e não

determinável quanto à sua direção por parte do paciente. Não suponham, porém,
que esse último tipo de perturbação do movimento seja uma conseqüência
necessária da anestesia; é precisamente com relação a esse aspecto que se
encontram marcantes diferenças individuais. Observamos, no Salpêtrière,
pacientes com anestesias que, de olhos fechados, conservam um controle muito
mais acentuado de membros que tivessem sido eliminados da consciência.
A mesma influência da atenção desviada e do olhar aplica-se à perna esquerda.
Hoje, durante pelo menos uma hora, o paciente caminhou a meu lado pelas ruas,
a passos rápidos, sem olhar para seus pés enquanto andava. E tudo o que pude
notar foi que pisava com o pé esquerdo girando-o um pouco para fora e que,
muitas vezes, arrastava-o pelo chão. Mas quando lhe ordeno que ande, ele tem
que acompanhar com os olhos cada movimento da perna anestesiada, e o
movimento faz-se lento e hesitante, cansando-o com muita facilidade. Por fim,
com os olhos fechados, ele caminha completamente inseguro e se desloca
mantendo ambos os pés em contato com o chão, como faria qualquer um de nós
se caminhasse no escuro em local desconhecido. Ele também tem grande
dificuldade em permanecer de pé apenas sobre a perna esquerda; quando fecha
os olhos nessa posição, cai imediatamente ao chão.
Prosseguirei com a descrição do comportamento de seus reflexos. Estes são,
em geral, mais vivos do que o normal e, além disso, mostram pequena coerência
entre si. Os reflexos do tríceps e do extensor são efetivamente mais vivos na
extremidade direita, não anestesiada. O reflexo patelar parece mais vivo na
esquerda; o reflexo do tendão de Aquiles é igual em ambos os lados.Também é
possível obter uma discreta reação patelar, mais nitidamente observável à direita.
Os reflexos do cremaster estão ausentes; por outro lado, os reflexos abdominais
são rápidos, sendo que o esquerdo está intensamente aumentado, de modo que
o mais leve toque numa área da pele do abdômen provoca uma contração
máxima do músculo reto-abdominal esquerdo.
Em conjugação com uma hemianestesia histérica, nosso paciente mostra, tanto
espontaneamente como sob pressão, áreas dolorosas nesse lado do corpo que é,
em outros aspectos, o lado insensível - o que se conhece como “zonas
histerógenas”, embora nesse caso sua conexão com a provocação dos ataques
não seja acentuada. Assim o nervo trigêmeo, cujos ramos terminais, como lhes
mostrei anteriormente, são sensíveis à pressão, é a sede de uma zona
histerógena desse tipo; também o são uma estreita área na fossa cervical média
esquerda, uma faixa mais larga na parede esquerda do tórax (onde a pele
também é sempre sensível), a parte lombar da coluna e a parte mediana do osso
sacro (a pele é sensível também sobre a porção anterior dessas). Finalmente, o

cordão espermático esquerdo está muito sensível à dor, e essa zona se prolonga
no trajeto do cordão espermático, pela cavidade abdominal, até a área que, nas
mulheres, freqüentemente é sede da “ovaralgia”.
Devo acrescentar dois comentários referentes aos desvios que nosso caso
apresenta em relação ao quadro típico da hemianestesia histérica. O primeiro diz
respeito ao fato de que o lado direito do corpo do paciente também não está livre
da anestesia, ainda que não seja em grau intenso e pareça afetar apenas a pele.
Há, portanto, uma zona de diminuição da sensitividade à dor (e à temperatura)
sobre a saliência do ombro direito; uma outra estende-se em forma de faixa ao
redor da extremidade distal do antebraço; a perna direita apresenta hipoestesia
no lado externo da coxa e na panturrilha.
Um segundo comentário refere-se ao fato de que a hemianestesia de nosso
paciente mostra muito nitidamente a característica da instabilidade. Assim, num
teste para sensitividade elétrica, contrariando minha expectativa, tornei sensível
uma área de pele no cotovelo esquerdo; e testes repetidos mostraram que a
extensão das zonas dolorosas do tronco e as perturbações do sentido da visão
oscilavam de intensidade. É nessa instabilidade do distúrbio da sensitividade que
baseio minha esperança de ser capaz de restaurar a sensitividade normal do
paciente, dentro de pouco tempo.

DUAS BREVES RESENHAS

RESENHA DE DIE AKUTE NEURASTHENIE. DE AVERBECK

A insuficiência da chamada formação médica adquirida em nossos hospitais,
diante das necessidades dos médicos clínicos, revela-se com maior nitidez, talvez,
a partir do exemplo da “neurastenia”. Esse estado patológico do sistema nervoso
seguramente pode ser classificado como a mais comum de todas as doenças em
nossa sociedade: complica e agrava muitíssimo outros quadros clínicos em
pacientes das melhores classes, sendo ainda praticamente desconhecido dos
médicos de boa formação científica, ou tido por eles como apenas um nome
moderno com conteúdo arbitrariamente constituído. A neurastenia não é um
quadro clínico no sentido dos manuais que se baseiam, com demasiada
exclusividade, na anatomia patológica: de preferência, deve ser descrita como um
modo de reação do sistema nervoso. Mereceria a máxima atenção da parte dos
médicos que trabalham cientificamente - atenção não menor do que a já
demonstrada pelos médicos que trabalham como terapeutas, pelos diretores de
sanatórios etc. Deve-se, portanto, recomendar a círculos mais amplos esse breve
trabalho, em virtude de suas descrições oportunas intencionalmente veementes,
e de suas proposições e observações referentes às condições sociais. Estas, como
suspeita seu autor, nem sempre encontrarão a concordância de seus colegas,
embora o trabalho venha a despertar o interesse deles em todas as áreas. Sua
observação sobre o serviço militar obrigatório como cura para os males da vida
civilizada e sua proposição de que se deve possibilitar uma recuperação periódica
para os trabalhadores da classe média em épocas de boa saúde, por intermédio
da assistência do Estado - estas estão abertas a múltiplas objeções. Contudo,
deve-se admitir que o livreto trata imaginativamente de importantes questões
relativas à assistência médica.
DR. SIGM. FREUD

RESENHA DE DIE BEHADLUNG GEWISSER FORMEN VON NEURASTHENIE UND
HYSTERIE, DE WEIR MITCHELL

O método terapêutico proposto por Weir Mitchell, originalíssimo especialista em
doenças nervosas de Filadélfia, foi recomendado na Alemanha, pela primeira vez,
por Burkart e teve pleno reconhecimento durante o ano passado, numa
conferência proferida por Leyden. Esse método, combinando repouso no leito,
isolamento, alimentação abundante, massagem e eletricidade, de forma
estritamente controlada, supera os estados de exaustão nervosa graves e de

longa duração. É também Leyden o responsável pela consecução da tradução
desse pequeno livro. Ele contém os mais valiosos conselhos para a seleção de
casos adequados ao tratamento em questão e algumas observações
interessantes sobre a atuação das diferentes forças terapêuticas que compõem o
tratamento de Wier Mitchell. Sem dúvida, trará a todos os médicos uma
ampliação de seus conhecimentos. A ordenação especificamente inglesa das
frases e pensamentos talvez tenha sido preservada com demasiada exatidão na
tradução. Os termos “histeria” e “histérico” são empregados quase sempre no
sentido vulgar, e não no sentido científico dessa palavra tão deturpada.
DR. SIGM. FREUD

HISTERIA (1888)

NOTA DO EDITOR INGLÊS

HYSTERIE
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1888 Em Handwörterbuch der gesamten Medizin, org. de A. Villaret,
Stuttgart, 1, 886-92.
1953 Psyche, 7 (9), 486-500.

A presente tradução, de James Strachey, parece ser a primeira para o inglês.

Em duas das cartas que escreveu a Fliess, publicadas nos Anfänge (1950a),
datadas de 28 de maio (Carta 4) e 29 de agosto (Carta 5) de 1888 - e,
implicitamente, numa terceira, de 24 de novembro de 1887 (Carta 1) -, Freud fala
de suas contribuições à enciclopédia de Villaret, obra publicada em dois volumes
(1888 e 1891). De vez que os verbetes na Villaret não levam assinatura, não é
possível ter completa certeza da autoria deles. O próprio Freud especifica apenas
um deles nessas cartas - o que trata de anatomia cerebral - e queixa-se de que
sofreu muitos cortes; contudo, em seu Estudo Autobiográfico (1925d), menciona
também um verbete sobre a afasia, Edição Standard Brasileira, Vol. XX, [1],
IMAGO Editora, 1976. Os organizadores dos Anfänge sugerem ainda que os
verbetes sobre as lesões cerebrais infantis e sobre as paralisias poderiam ser
atribuídos a ele e, com maior convicção, incluem como sendo provavelmente de
Freud o que se refere à histeria, que é apresentado a seguir.
A reimpressão, em 1953, desse verbete em Psyche, periódico de Stuttgart, vem
precedida de um breve artigo escrito pelo Professor Paul Vogel, que faz um
resumo admirável e convincente dos argumentos que fazem crer seja o verbete
realmente da autoria de Freud. Ninguém pode ter dúvidas quanto à sua autoria,
lendo-o em conexão com os escritos contemporâneos de Freud. À parte toda uma
série de reproduções de pontos de vista expostos por Freud em outros trabalhos
que levam sua assinatura, existe um determinado aspecto que parece conclusivo.
Trata-se de uma passagem, quase na parte final, em que o método catártico de
tratamento é descrito explicitamente e atribuído a Breuer. Nessa data (1888), o
método de Breuer não tinha sido publicado nem por ele próprio nem por outra
pessoa. Sua primeira publicação deu-se na “Comunicação Preliminar”, de Breuer e
Freud, mais de quatro anos depois (1893a). Freud, segundo ele próprio nos relata
(1925d, Edição Standard Brasileira, Vol. XX, [1], IMAGO Editora, 1976), há muito
gozava da confiança de Breuer e tinha tomado conhecimento de seu método
ainda antes de ir a Paris (em 1885). Assim, a autoria de Freud pode ser dada
como estabelecida.
O verbete, em seu conjunto, mostra Freud ainda seguindo fielmente as
doutrinas de Charcot na sua descrição da histeria, embora, sem levar em conta a

referência a Breuer, haja duas ou três passagens, especialmente no final do
verbete, em que existem claros sinais de uma atitude mais independente.
HISTERIA

HISTERIA (udtera, útero); (hystérie, em francês; hysterics [sic],em inglês;
isteria, f., isterismo, m., em italiano).

I. HISTÓRIA. - O nome “histeria” tem origem nos primórdios da medicina e
resulta do preconceito, superado somente nos dias atuais, que vincula as
neuroses às doenças do aparelho sexual feminino. Na Idade Média, as neuroses
desempenharam um papel significativo na história da civilização; surgiam sob a
forma de epidemias, em conseqüência de contágio psíquico, e estavam na origem
do que era fatual na história da possessão e da feitiçaria. Alguns documentos
daquela época provam que sua sintomatologia não sofreu modificação até os dias
atuais. Uma abordagem adequada e uma melhor compreensão da doença tiveram
início apenas com os trabalhos de Charcot e da escola do Salpêtrière, inspirada
por ele. Até essa época, a histeria tinha sido a bête noire da medicina. Os pobres
histéricos, que em séculos anteriores tinham sido lançados à fogueira ou
exorcizados, em épocas recentes e esclarecidas, estavam sujeitos à maldição do
ridículo; seu estado era tido como indigno de observação clínica, como se fosse
simulação e exagero.
A histeria é uma neurose no mais estrito sentido da palavra - quer dizer, não só
não foram achadas nessa doença alterações perceptíveis do sistema nervoso,
como também não se espera que qualquer aperfeiçoamento das técnicas de
anatomia venha a revelar alguma dessas alterações. A histeria baseia-se total e
inteiramente em modificações fisiológicas do sistema nervoso; sua essência deve
ser expressa numa fórmula que leve em consideração as condições de
excitabilidade nas diferentes partes do sistema nervoso. Uma fórmula
fisiopatológica desse tipo, no entanto, ainda não foi descoberta; por enquanto,
devemo-nos contentar em definir a neurose de um modo puramente nosográfico,
pela totalidade dos sintomas que ela apresenta, da mesma forma como a doença
de Graves se caracteriza por um grupo de sintomas - exoftalmia, bócio, tremor,
aceleração do pulso e alteração psíquica -, sem qualquer consideração relativa a
alguma conexão mais íntima entre esses fenômenos.

II. DEFINIÇÃO. - As autoridades alemãs, assim como as inglesas, ainda hoje
têm o hábito de distribuir caprichosamente as descrições “histeria”e “histérico” e
de agrupar indiscriminadamente a “histeria” com os estados nervosos em geral, a
neurastenia, muitos dos estados psicóticos e muitas neuroses que ainda não
foram retiradas do caos das doenças nervosas. Charcot, pelo contrário, sustenta
com firmeza a opinião de que a “histeria” é um quadro clínico nitidamente
circunscrito e bem definido, que pode ser reconhecido com bastante clareza nos
casos extremos daquilo que se conhece como “grande hystérie” [grande histeria]
(ou histeroepilepsia). A histeria cobre também as formas mais brandas e
rudimentares que ocorrem numa série que abrange toda uma gradação, desde o
tipo da grande hystérie até o tipo normal. A histeria é fundamentalmente
diferente da neurastenia, e, na verdade, estritamente falando, é o contrário
desta.

III. SINTOMATOLOGIA. - A sintomatologia da “grande histeria”, extremamente
rica, mas nem por isso anárquica, compõe-se de uma série de sintomas que
incluem os seguintes:
(1) Ataques convulsivos. Estes são precedidos de uma “aura” peculiar: pressão
no epigástrio, constrição na garganta, latejamento nas têmporas, zumbido nos
ouvidos, ou partes desse complexo de sensações. Essas sensações-aura, como
são chamadas, também surgem, nos pacientes histéricos, como sintomas
isolados, ou representam em si mesmas um ataque. É especialmente conhecido o
globus hystericus, uma sensação atribuível aos espasmos da faringe, como se
uma bola estivesse subindo do epigástrio para a garganta. Um ataque
propriamente dito, quando completo, apresenta três fases. A primeira,
“epileptóide”, assemelha-se a um ataque epiléptico unilateral. A segunda fase, a
dos “grands mouvements”, apresenta movimentos de “salamaleque”, atitudes em
arco (arc de cercle), contorções e outros. A força desenvolvida nesses ataques é,
com freqüência, muito grande. Para diferençar esses movimentos de um ataque
epiléptico, deve-se observar que os movimentos histéricos sempre são
executados com certa correção e de modo coordenado, o que contrasta
nitidamente com a cega brutalidade dos espasmos epilépticos. Além disso,
mesmo nas convulsões histéricas mais violentas, geralmente se evitam os
ferimentos comparativamente graves. A terceira fase, a fase alucinatória do
ataque histérico, a das “attitudes passionelles”, distingue-se pelas atitudes e

posturas que sugerem cenas de movimento passional, que o paciente alucina e
freqüentemente acompanha com as palavras correspondentes. Durante todo o
ataque, a consciência pode conservar-se ou se perder - mais freqüentemente
ocorre a última dessas possibilidades. Os ataques do tipo descrito seguem-se
freqüentemente uns aos outros, em série, de modo que o ataque inteiro pode
durar diversas horas ou dias. É insignificante a elevação de temperatura durante
os mesmos (em contraste com o que acontece na epilepsia). Cada fase do ataque
ou cada parte separada de uma fase pode estar isolada e pode representar o
ataque em casos rudimentares. Naturalmente, os ataques abreviados desse tipo
são encontrados com freqüência incomparavelmente maior do que os ataques
completos. Possuem especial interesse ataques histéricos que, em lugar das três
fases, exibem um coma que surge de maneira apoplectiforme - os chamados
“ataques de sommeil” [ataques de sono]. Esse coma pode assemelhar-se ao sono
natural ou acompanhar-se de tamanha diminuição da respiração e da circulação a
ponto de ser confundido com a morte. Existem casos autênticos de estados dessa
espécie que duram semanas e meses; nesse sono prolongado, a nutrição corporal
diminui gradualmente, mas não há risco de vida. - Em cerca de um terço dos
casos de histeria, o sintoma dos ataques, o mais característico, está ausente.
(2) Zonas histerógenas. Em íntima conexão com os ataques, encontramos as
chamadas “zonas histerógenas”, áreas supersensíveis do corpo, nas quais um leve
estímulo desencadeia um ataque cuja aura muitas vezes começa por uma
sensação proveniente dessa área. Tais áreas podem situar-se na pele, nas partes
profundas, nos ossos, nas membranas mucosas, até mesmo nos órgãos dos
sentidos. São encontradas com maior freqüência no tronco do que nos membros e
têm preferência por determinados locais - por exemplo, nas mulheres (e mesmo
nos homens), numa área da parede abdominal correspondente aos ovários, na
região coronária do crânio e na região inframamária; e nos homens, nos testículos
e no cordão espermático. A pressão nessas áreas desencadeia, com freqüência,
não uma convulsão, mas sim sensações-aura. A partir de muitas das zonas
histerógenas também é possível exercer uma influência inibidora sobre os
ataques convulsivos; uma vigorosa pressão sobre a área ovariana, por exemplo,
desperta muitas pacientes no meio de um ataque histérico ou de um sono
histérico. No caso dessas pacientes, pode-se fazer a prevenção de um ataque
ameaçador fazendo-as usar um cinto semelhante auma funda para hérnia, cuja
almofada comprima a área ovariana. As zonas histerógenas às vezes são
numerosas, às vezes poucas, e podem ser unilaterais ou bilaterais.
(3) Distúrbios da sensibilidade. Estes são os sinais mais freqüentes da neurose
e os mais importantes do ponto de vista diagnóstico. Persistem mesmo durante
os períodos de remissão e são os mais importantes, porque os distúrbios da

sensibilidade desempenham um papel relativamente pequeno nas doenças
cerebrais orgânicas. Consistem em anestesia ou hiperestesia e apresentam,
quanto à extensão e ao grau de intensidade, uma variabilidade não observada
em nenhuma outra doença. A anestesia pode afetar a pele, as membranas
mucosas, os ossos, os músculos e nervos, os órgãos dos sentidos e os intestinos;
contudo, o mais comum é a anestesia da pele. No caso da anestesia histérica da
pele, todas as diferentes espécies de sensações da pele podem ser dissociadas e
comportar-se de forma muito independente umas das outras. A anestesia pode
ser total ou atingir apenas a sensação de dor (analgesia - que é a mais comum),
ou apenas as sensações de temperatura, pressão ou eletricidade, ou a
sensibilidade muscular. Só uma possibilidade não se concretiza na histeria: uma
diminuição do sentido do tato enquanto as outras propriedades são mantidas. Por
outro lado, pode ocorrer que as sensações puramente táteis dêem origem a uma
sensação de dor (alfalgesia). Muitas vezes, a anestesia histérica atinge um grau
tão elevado que a mais potente faradização dos troncos nervosos não produz
qualquer reação sensorial. Quanto à extensão, a anestesia pode ser total; em
casos raros, pode afetar toda a superfície da pele e a maioria dos órgãos dos
sentidos. Com maior freqüência, no entanto, trata-se de uma hemianestesia,
como a que é produzida por uma lesão da cápsula interna; distingue-se, porém,
da hemianestesia devida a doença orgânica pelo fato de que geralmente
ultrapassa a linha média em algum ponto - por exemplo, inclui a língua, a laringe
ou os genitais como um todo - e os olhos não são afetados sob a forma de
hemianopsia, e sim de ambliopia ou amaurose em um olho. Ademais, a
hemianestesia histérica apresenta maior variabilidade na forma como se distribui;
pode acontecer que um dos órgãos dos sentidos ou um órgão localizado no lado
anestesiado escape inteiramente à anestesia, e qualquer área sensível no quadro
da hemianestesia pode ser substituída pela área simétrica do outro lado (transfert
espontâneo, ver [em [1]]). Por fim, a anestesia histérica pode surgir em focos
disseminados unilaterais ou bilaterais, ou simplesmente em determinadas áreas,
de forma monoplégica nos membros ou em áreas situadas sobre órgãos internos
atingidos por alguma doença (faringe, estômago etc.).

Em todas essas relações, ela pode ser substituída pela hiperestesia.
No caso da anestesia histérica, os reflexos sensoriais ficam geralmente
diminuídos, como, por exemplo, o reflexo conjuntival, o do espirro e o faringiano;
os reflexos vitais da córnea e da glote são, porém, mantidos. Os reflexos
vasomotores e a dilatação pupilar mediante estimulação da pele não são

interrompidos sequer no caso do mais elevado grau de anestesia. A anestesia
histérica é sempre um sintoma a ser pesquisado pelo médico, de vez que, na
maior parte dos casos, mesmo quando tem ampla extensão e grande gravidade,
geralmente escapa totalmente à percepção do paciente. Em contraste com a
anestesia orgânica, deve-se enfatizar que os distúrbios histéricos da sensibilidade,
a rigor, não prejudicam os pacientes em nenhuma atividade motora. As áreas da
pele que estão histericamente anestesiadas caracterizam-se, com freqüência, por
anemia local e não sangram quando picadas; isso é apenas uma complicação,
não constituindo, porém, condição necessária da anestesia. É possível separar
artificialmente os dois fenômenos um do outro. Freqüentemente existe uma
relação recíproca entre a anestesia e as zonas histerógenas, como se toda a
sensibilidade de uma parte relativamente grande do corpo estivesse comprimida
numa única zona. - Os distúrbios da sensibilidade são os sintomas nos quais é
possível basear um diagnóstico de histeria, mesmo nas suas formas mais
rudimentares. Na Idade Média, a descoberta de áreas anestésicas e nãohemorrágicas (sigmata Diaboli) era considerada prova de feitiçaria.
(4) Distúrbios da atividade sensorial. Estes podem afetar todos os órgãos dos
sentidos e podem aparecer simultaneamente com ou independentemente de
modificações na sensibilidade da pele. O distúrbio histérico da visão consiste em
amaurose ou ambliopia unilaterais, ou ambliopia bilateral, mas nunca em
hemianopsia. Seus sintomas são: fundo de olho normal ao exame; ausência do
reflexo conjuntival (reflexo corneano diminuído); estreitamento concêntrico do
campo visual; redução da percepção luminosa; e acromatopsia. No caso do último
sintoma citado, a sensibilidade ao roxo é a primeira a ser perdida, e a
sensibilidade ao vermelho ou ao azul é a que persiste por mais tempo. Os
fenômenos não se coadunam com nenhuma teoria do daltonismo; as diferentes
sensibilidades às cores comportam-se independentemente umas das outras. São
freqüentes os distúrbios da acomodação, assim como as falsas conclusões deles
resultantes. Os objetos que se aproximam do olho e que dele se afastam são
vistos em tamanhos diferentes e duplicados ou multiplicados (diplopia monocular
com macropsia ou micropsia). - A surdez histérica raramente é bilateral; é, com
muita freqüência, mais ou menos completa, combinada com anestesia do
pavilhão da orelha, do canal auditivo e atémesmo da membrana do tímpano.
Quando existe distúrbio histérico do paladar e também do olfato, via de regra é
possível encontrar anestesia das regiões da pele e da membrana mucosa
pertencentes aos órgãos desses sentidos. São freqüentes em pacientes histéricos
a parestesia e a hiperestesia dos órgãos inferiores dos sentidos; às vezes, há uma
extraordinária exacerbação da atividade sensória, especialmente do olfato e da
audição.

(5) Paralisias. As paralisias histéricas são mais raras do que a anestesia e
quase sempre acompanhadas de anestesia da parte do corpo paralisada, ao
passo que, nas doenças orgânicas, os distúrbios da motilidade predominam e
surgem independentemente da anestesia. As paralisias histéricas não levam em
conta a estrutura anatômica do sistema nervoso, a qual, conforme se sabe,
evidencia-se da maneira mais inequívoca na distribuição das paralisias orgânicas.
Acima de tudo, não existem paralisias histéricas que se possam equiparar às
paralisias periféricas do facial, do radial ou do denteado - isto é, que abranjam
grupos de músculos ou de músculos e pele, agrupados segundo a inervação
anatômica comum. As paralisias histéricas só são comparáveis às paralisias
corticais, porém se distinguem destas por múltiplos aspectos. Assim, existe a
hemiplegia histérica na qual, entretanto, são atingidos somente o braço e a perna
do mesmo lado: não existe paralisia facial histérica. Quando muito, além da
paralisia dos membros, pode haver uma contratura dos músculos faciais e da
língua, situada, às vezes, no lado da paralisia e, às vezes, no lado oposto, e
manifestada, entre outras coisas, por um excessivo desvio da língua. Uma outra
característica que distingue a hemiplegia histérica é o fato de que a perna
paralisada não se movimenta, na articulação da coxa, em circundução, mas é
arrastada como um apêndice morto. A hemiplegia histérica sempre está ligada a
uma hemianestesia que, em geral, é de intensidade comparativamente grave.
Além disso, na histeria encontramos paralisia de um braço ou de uma perna,
independentemente, ou de ambas as pernas (paraplegia). Nesse último caso, a
paralisia do intestino e da bexiga pode acompanhar a anestesia das pernas e, por
conseguinte, o quadro clínico pode vir a se assemelhar de perto a uma paraplegia
medular. E mais, a paralisia, em vez de se estender a um membro em todas as
suas partes, pode afetar segmentos do mesmo - mão, ombro, cotovelo etc. Com
relação a isso, não há preferência para a parte distal, ao passo que é
característico de uma paralisia orgânica ser esta sempre mais marcada na porção
distal de um membro do que nas partes proximais. No caso de paralisia parcial de
um membro, a anestesia geralmente obedece aos mesmos limites que a paralisia
e é circunscrita por linhas que fazem ângulos retos com o eixo longitudinal do
membro. Na paralisia histérica das pernas, o triângulo de pele situado entre os
músculos glúteos, correspondente ao nervo sacro, não é afetado pela anestesia.
Em todas essas paralisias estão ausentes os fenômenos da degeneração
descendente, por mais que durem as paralisias; muitas vezes, há uma intensa
flacidez muscular e o comportamento dos reflexos é inconstante; por outro lado,
os membros paralisados podem atrofiar-se, e realmente sucumbem a uma atrofia
que se desenvolve muito rapidamente, logo atinge uma parada e não se faz
acompanhar por nenhuma alteração na excitabilidade elétrica. Às paralisias dos
membros deve-se acrescentar a afasia histérica, ou, mais corretamente, a mudez,
que consiste numa incapacidade de produzir qualquer som articulado ou [mesmo]
de executar movimentos da fala sem voz. É sempre acompanhada de afonia, que

também pode ocorrer isoladamente; nesses casos, a capacidade de escrever é
conservada e até mesmo aumentada. As demais paralisias motoras encontradas
na histeria não podem ser relacionadas a partes do corpo, mas apenas a funções,
como, por exemplo, astasia e abasia (incapacidade de andar e de manter-se de
pé); isto ocorre enquanto as pernas mantêm sua sensibilidade, sua força total e a
capacidade de executar qualquer tipo de movimento quando em posição
horizontal - uma separação das funções dos mesmos músculos não encontrada
nas lesões orgânicas. Todas as paralisias histéricas distinguem-se pelo fato de
que podem ser da maior gravidade, mas, ao mesmo tempo, limitam-se
nitidamente a uma determinada parte do corpo, ao passo que as paralisias
orgânicas, via de regra, estendem-se por uma área maior, à medida que sua
gravidade aumenta.
(6) Contraturas. Nas formas mais graves de histeria, há uma tendência geral no
sentido de o aparelho reagir a pequenos estímulos através de contratura
(diathèse de contracture). Para isso pode ser suficiente a simples aplicação de
uma faixa de Esmarch. As contraturas dessa espécie também ocorrem com
freqüência em casos graves e nos músculos mais variados. Nos membros, elas se
caracterizam por sua excessiva intensidade e podem ocorrer em qualquer
posição, o que não se explica pela estimulação de determinados troncos
nervosos. Apresentam uma persistência incomum, não relaxam com o sono, como
ocorre com as contraturas orgânicas, e não se consegue modificar sua intensidade
mediante excitação, temperatura etc. Somente cedem com a narcose mais
profunda, e recobram sua intensidade total quando o paciente acorda. As
contraturas musculares são muito freqüentes nos outros órgãos, nos órgãos dos
sentidos, nos intestinos e, num grande número de casos, também constituem o
mecanismo pelo qual a função fica suspensa nas paralisias. A tendência aos
espasmos clônicos também aumenta muito na histeria.
(7) Características gerais. A sintomatologia da histeria tem uma série de
características gerais; conhecê-las é importante tanto para o diagnóstico como
para a compreensão da histeria. As manifestações histéricas têm,
preferentemente, a característica de serem exageradas: uma dor histérica é
descrita pelos pacientes como extremamente dolorosa; uma anestesia e uma
paralisia podem com facilidade tornar-se absolutas; uma contratura histérica
causa a maior retração de que um músculo é capaz. Ao mesmo tempo, qualquer
sintoma particular pode ocorrer, por assim dizer, isoladamente: a anestesia e a
paralisia não se acompanham dos fenômenos gerais que, no caso das lesões
orgânicas, evidenciam a afecção cerebral e que, no geral, devido a sua
importância, obscurecem os sintomas localizados. Muito próximo de uma área de
pele absolutamente insensível, poderá haver uma outra área de sensibilidade

absolutamente normal. Concomitantemente com um braço completamente
paralisado, poderá haver, do mesmo lado, uma perna perfeitamente intacta. É
especialmente característico da histeria que seja um distúrbio, ao mesmo tempo,
desenvolvido no mais alto grau e limitado da maneira mais nítida. Ademais, os
sintomas histéricos mudam de uma forma que, de saída, exclui qualquer suspeita
de lesão orgânica. Essa mutabilidade dos sintomas realiza-se ou
espontaneamente (por exemplo, depois de ataques convulsivos, que muitas vezes
alteram a distribuição da paralisia e da anestesia, ou as interrompem), ou por
influência artificial dos chamados métodos estesiogênicos, tais como a
eletricidade, a aplicação de metais, o emprego de irritantes cutâneos, ímãs etc.
Esse último método de influência parece extremamente notável, tendo em vista o
fato de que um sistema nervoso histérico oferece, em regra geral, uma grande
resistência à influência química por meio da medicação interna e reage de forma
decididamente refratária aos narcóticos como a morfina e o hidrato de cloral. Entre os meios capazes de remover os sintomas histéricos, cabe mencionar com
especial ênfase a influência da excitação e da sugestão hipnótica, esta última
porque atinge diretamente o mecanismo dos distúrbios histéricos e não se pode
suspeitar que produza nenhum outro efeito além dos efeitos psíquicos. Quando os
sintomas histéricos mudam, algumas circunstâncias marcantes entram em jogo.
Pelo uso de métodos “estesiogênicos” é possível transferir uma anestesia, uma
paralisia, uma contratura, um tremor etc. para a área simétrica da outra metade
do corpo (“transfert”), enquanto a área originalmente afetada se normaliza.
Desse modo, a histeria fornece provas da relação simétrica, havendo, ademais,
indícios de que tal relação desempenha um papel também nos estados
fisiológicos - tal como, em geral, as neuroses não criam nada de novo, mas
simplesmente desenvolvem e exageram as relações fisiológicas. Uma outra
característica muito importante dos distúrbios histéricos é que estes de modo
algum representam uma cópia das condições anatômicas do sistema nervoso.
Pode-se dizer que a histeria é tão ignorante da ciência da estrutura do sistema
nervoso como nós o somos antes de tê-la aprendido. Os sintomas de afecções
orgânicas, como se sabe, refletem a anatomia do órgão central e são as fontes
mais fide