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Box Arsène Lupin

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Neste box exclusivo estão reunidas as primeiras obras lançadas originalmente por Maurice Leblanc sobre um envolvente, perspicaz e talentoso ladrão, Arsène Lupin!

Personagem da ficção francesa, Arsène Lupin é conhecido por seu talento em usar disfarces e mudar de identidade para cometer seus crimes. Aventure-se com ele e outros personagens nesta coletânea exclusiva composta pelos volumes lançados cronologicamente de acordo com as publicações de seu autor Maurice Leblanc.


(1) Arsène Lupin, o ladrão de casaca,


(2) Arsène Lupin contra Herlock Sholmes,


(3) Arsène Lupin e a agulha oca,


(4) Arsène Lupin e a rolha de cristal,


(5) As confissões de Arsène Lupin,


(6) Arsène Lupin e o estilhaço de obus,


(7) Arsène Lupin e o triângulo de ouro


(8) Arsène Lupin e a Ilha dos Trinta Caixões,


(9) Arsène Lupin e os dentes de tigre,


(10) Arsène Lupin e as oito badaladas do relógio,


(11) Arsène Lupin e a condessa de Cagliostro,


(12) Arsène Lupin e a garota de olhos verdes,


(13) Agência Barnett e Associados: as novas aventuras de Arsène Lupin,


(14) Arsène Lupin e a mansão misteriosa.


(15) Arsène Lupin e mistério de Barre-y-va,


(16) Arsène Lupin e a mulher de dois sorrisos,


(17) Arsène Lupin e Victor, da brigada anticrime,


(18) Arsène Lupin e a vingança de Cagliostro,


(19) Os bilhões de Arsène Lupin,


(20) O retorno de Arsène Lupin,


(21) Arsène Lupin e os enigmas

Year:
2021
Publisher:
Principis
Language:
portuguese
ISBN:
2c653fda-60ea-4250-8706-9ae54aac234e
File:
MOBI , 9.42 MB
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Esta é uma publicação Principis, selo exclusivo da Ciranda Cultural

© 2021 Ciranda Cultural Editora e Distribuidora Ltda.



Traduzido do original em francês

Arsène Lupin Gentleman-Cambrioleur

Texto

Maurice Leblanc

Tradução

Luciene Ribeiro dos Santos

Preparação

Flávia Yacubian

Revisão

Fernanda R. Braga Simon

Produção editorial e projeto gráfico

Ciranda Cultural

Diagramação

Fernando Laino

Ebook

Jarbas C. Cerino

Imagens

Agnieszka Karpinska/Shutterstock.com;

VectorPot/Shutterstock.com;

alex74/Shutterstock.com;

YurkaImmortal/Shutterstock.com



Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

L445a Leblanc, Maurice



Arsène Lupin, o ladrão de casaca [recurso eletrônico] / Maurice Leblanc ; traduzido por Luciene Ribeiro dos Santos. - Jandira, SP : Principis, 2021.



192 p. ; ePUB ; 1,6 MB. - (Clássicos da literatura mundial)

Tradução de: Arsène Lupin Gentleman-Cambrioleur

Inclui índice. ISBN: 978-65-5552-295-2 (Ebook)



1. Literatura francesa. 2. Romance. 3. Ficção. I. Santos, Luciene Ribeiro dos. II. Título. III. Série.



2021-129 CDD 843

CDU 821.133.1-3

Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410

Índice para catálogo sistemático:

1. Literatura francesa 843

2. Literatura francesa 821.133.1-3



1a edição em 2020

www.cirandacultural.com.br

Todos os direitos reservados.

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, arquivada em sistema de busca ou transmitida por qualquer meio, seja ele eletrônico, fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização do detentor dos direitos, e não pode circular encadernada ou encapada de maneira distinta daquela em que foi publicada, ou sem que as mesmas condições sejam impostas aos compradores subsequentes.





A prisão de Arsène Lupin

Que viagem estranha! No entanto tinha começado bem. De minha parte, nunca tinha feito outra que se anunciasse melhor. O Provence é um transatlântico veloz, confortável, comandado pelo mais afável dos homens. A sociedade mais seleta ali reunida. Faziam-se amizades, orga; nizavam-se diversões. Tínhamos a deliciosa impressão de estarmos afastados do mundo, reduzidos a nós mesmos como numa ilha desconhecida, e, portanto, obrigados a nos aproximar uns dos outros.

E nos aproximávamos...

Já pensaram no que há de original e imprevisto nesse agrupamento de seres que, ainda na véspera, nem se conheciam e vão viver durante alguns dias, entre o céu infinito e o imenso mar, a vida mais íntima, desafiando juntos as cóleras do oceano, com o assalto terrível das ondas ou a calma fingida da água dormindo?

No fundo, é a própria vida, vivida numa espécie de abreviatura trágica, com suas tempestades e grandezas, sua monotonia e sua diversidade. Talvez por isso se saboreie com pressa febril e tanta volúpia a breve viagem, cujo fim se vislumbra no instante mesmo em que é iniciada.

Mas há vários anos ocorre algo que aumenta singularmente as emoções da travessia. A pequena ilha flutuante continua a depender do mundo de que se julga liberada. Subsiste um laço, que se desata aos poucos em pleno oceano e, aos poucos, em pleno oceano, reata-se. O telégrafo sem fio, com chamados de outro universo, do qual chegam notícias de modo misterioso. A imaginação não tem mais o recurso de evocar fios de ferro por que deslizem as invisíveis mensagens. O mistério é mais insondável e mais poético, pois seria preciso recorrer às asas do vento para explicar o novo milagre.

Assim, nas primeiras horas, sentimo-nos seguidos, escoltados, até precedidos por essa voz distante que, de tempos em tempos, cochicha a um de nós algumas palavras de lá longe. Dois amigos me falaram. Dez, vinte outros enviaram a todos nós, através do espaço, suas despedidas aflitas ou sorridentes.

Ora, no segundo dia, a quinhentas milhas da costa francesa, numa tarde tormentosa, o telégrafo sem fio nos transmitiu um despacho deste teor:

“Arsène Lupin a bordo, primeira classe, cabelo louro, ferimento no antebraço direito, viaja sozinho, com o nome de R...”

Nesse instante, uma trovoada violenta rolou pelo céu sombrio. As ondas elétricas foram interrompidas, e o resto do despacho não nos alcançou. Do nome sob que se escondia Arsène Lupin só se ficou sabendo a inicial.

Se se tratasse de qualquer outra notícia, não duvido de que o segredo tivesse sido escrupulosamente guardado pelos que manejavam o telégrafo, como pelo comissário de bordo e o comandante. Mas há acontecimentos que parecem forçar a discrição mais rigorosa. No mesmo dia, sem que se pudesse dizer como a coisa foi divulgada, sabíamos todos que o famoso Arsène Lupin se ocultava entre nós.

Arsène Lupin entre nós! O impecável ladrão de quem se contavam as proezas em todos os jornais há meses! A enigmática personagem com quem o velho Ganimard, o nosso melhor policial, tinha iniciado um duelo de morte cujas peripécias se desenrolavam de modo tão pitoresco! Arsène Lupin, o ladrão de casaca que só operava nos castelos e salões e que, uma noite em que penetrara na casa do Barão Schormann, saíra de mãos vazias deixando seu cartão com esta tirada: “Arsène Lupin, cavalheiro furtador, voltará quando os objetos forem autênticos”. Arsène Lupin, o homem de mil disfarces, chofer, tenor, bicheiro, filho de família, adolescente, ancião, caixeiro-viajante marselhês, médico russo, toureiro espanhol!

E pensar que estava indo e vindo no ambiente relativamente restrito de um transatlântico — mais: no pequeno espaço da primeira classe, onde a gente se encontrava a toda hora, nesta sala de refeições, neste salão, na sala de fumar! Arsène Lupin era talvez este senhor... ou aquele... meu vizinho de mesa... meu companheiro de cabina...

— E isso vai durar ainda cinco vezes vinte e quatro horas! — exclamava no dia seguinte Miss Nelly Underdown. — Mas é intolerável! Tomara que o prendam logo! — E dirigindo-se a mim: — Ei, o senhor, que tem boas relações com o comandante, senhor d’Andrézy, não sabe de nada?

Bem que gostaria de saber qualquer coisa para agradar a Miss Nelly! Era uma dessas magníficas criaturas que, onde estejam, ocupam de saída o lugar mais em vista. Tanto a beleza como a fortuna delas deslumbram. Têm uma corte, apaixonados, entusiastas.

Criada em Paris pela mãe francesa, ia reunir-se ao pai, o riquíssimo Underdown, de Chicago. Uma de suas amigas, Lady Jerland, acompanhava-a.

Desde o início apresentei minha candidatura para namoro. Mas, na camaradagem rápida da viagem, seu encanto em seguida me perturbou, e eu me sentia comovido demais para um simples flerte quando seus grandes olhos negros encontraram os meus. Ela, porém, recebeu minha homenagem com certa afabilidade. Dignava-se rir das minhas tiradas e interessar-se por minhas anedotas. Uma vaga simpatia parecia responder à solicitude que lhe testemunhava.

Só um rival me teria preocupado, um rapaz bastante bonito, elegante, discreto, de quem ela parecia às vezes preferir o humor taciturno às minhas atitudes mais “exteriorizadas” de parisiense.

Ele fazia parte do grupo de admiradores que cercavam Miss Nelly, quando ela veio me interrogar. Estávamos na ponte, agradavelmente instalados em cadeiras de balanço. A tormenta da véspera tinha aclarado o céu. A hora era deliciosa.

— Nada sei com precisão, senhorita — respondi-lhe. — Mas seria impossível fazermos nós mesmos o nosso inquérito tão bem quanto o faria o velho Ganimard, o inimigo pessoal de Arsène Lupin?

— Oh! Oh! O senhor se precipita muito!

— Em quê? Será um problema tão complicado?

— Muito complicado.

— É que esquece os elementos que temos para resolvê-lo.

— Que elementos?

— Primeiro, Lupin se faz chamar de senhor R.

— Indicação bem vaga.

— Segundo, viaja sozinho.

— Se essa particularidade nos bastasse!

— Terceiro, é louro.

— E então?

— Então só temos que consultar a lista dos passageiros e proceder por eliminação. — Tinha essa lista no bolso. Peguei-a e percorri-a toda. — Noto, inicialmente, que há apenas treze pessoas cuja inicial chama a nossa atenção.

— Treze apenas?

— Na primeira classe, sim. Entre esses treze senhores R., como podem conferir, nove estão acompanhados de mulheres, filhos ou criados. Sobram quatro sozinhos: o Marquês de Raverdan...

— Secretário da Embaixada — interrompeu Miss Nelly. — Eu o conheço.

— O Major Rawson...

— É meu tio — disse alguém.

— Senhor Rivolta...

— Presente — gritou um do grupo, um italiano cujo rosto desaparecia sob uma barba do mais bonito tom de preto.

Miss Nelly rompeu a rir.

— Ele não é louro.

— Então — prossegui — somos obrigados a concluir que o culpado é o último da lista.

— Ou seja?

— Ou seja, senhor Rozaine. Alguém conhece o senhor Rozaine?

Calaram-se. Mas Miss Nelly, interpelando o jovem taciturno cuja frequência a seu lado me inquietava, disse-lhe:

— Então, senhor Rozaine, não responde?

Todos os olhos se voltaram para ele. Era louro.

Confesso, senti um pequeno choque no íntimo. E o silêncio contrafeito que pesou sobre o grupo me indicou que os outros também experimentavam aquela espécie de sufocação. Era, aliás, absurdo, pois nada enfim nas maneiras desse senhor permitia que se suspeitasse dele.

— Por que não respondo? — disse ele. — Porque, em vista do meu nome, de viajar sozinho e da cor do meu cabelo, já tinha feito uma pesquisa semelhante e chegado ao mesmo resultado. Sou, pois, de opinião que devem prender-me.

Tinha um ar esquisito ao pronunciar essas palavras. Seus lábios finos como dois traços inflexíveis afinaram ainda mais e empalideceram. Filetes de sangue estriaram seus olhos.

Sem dúvida, brincava. No entanto, sua fisionomia e atitude nos impressionaram. Ingenuamente, Miss Nelly perguntou:

— Mas o senhor tem o ferimento?

— É verdade — disse. — Falta o ferimento.

Com um gesto nervoso, ergueu a manga e mostrou o braço. Uma ideia me veio na hora, e meus olhos se cruzaram com os de Miss Nelly: tinha mostrado o braço esquerdo.

Juro que ia observar-lhe isso quando um incidente desviou nossa atenção. Lady Jerland, a amiga de Miss Nelly, chegou correndo. Estava transtornada. Todos a cercaram, mas só depois de um esforço é que pôde balbuciar:

— Minhas joias, minhas pérolas!... Levaram tudo!...

Não, não tinham levado tudo, como ficamos sabendo depois. Coisa curiosa: tinham escolhido!

Da estrela de diamantes, do pingente de rubis não talhados, dos colares e braceletes quebrados, tinham tirado não as pedras maiores, mas as mais finas e preciosas, as que, dir-se-ia, possuíam mais valor ocupando menos lugar. Os engastes lá jaziam, sobre a mesa. Eu os vi, todos vimos, despojados de suas gemas como flores de que se arrancassem as belas pétalas cintilantes e coloridas.

Para executar esse trabalho, durante a hora em que Lady Jerland tomava o chá, tinha sido preciso, em pleno dia e num corredor frequentado, quebrar a porta da cabina, achar um saquinho escondido de propósito numa caixa de chapéu, abri-lo e escolher!

Houve um só clamor entre nós, uma só opinião em todos os passageiros, assim que o roubo se fez conhecido: era Arsène Lupin. De fato, aquela era a sua maneira complicada, misteriosa, inconcebível e, no entanto, lógica, pois, diante da dificuldade de ocultar o volume embaraçante que faria o conjunto das joias, o estorvo se tornaria mínimo com coisinhas independentes umas das outras, pérolas, esmeraldas e safiras!

No jantar, aconteceu que, à direita e à esquerda de Rozaine, os dois lugares ficaram vazios. E à noite se soube que tinha sido chamado pelo comandante.

Sua prisão, que ninguém pôs em dúvida, causou um verdadeiro alívio. Fizeram-se jogos de salão nessa noite e dançou-se. Miss Nelly, especialmente, mostrou uma alegria ruidosa que me fez ver que, se os apreços de Rozaine tinham podido comprazê-la no início, mal se lembrava deles. Sua graça acabou de me conquistar. Pela meia-noite, à claridade serena da lua, afirmei-lhe meu devotamento com uma emoção que não pareceu desagradar-lhe.

No dia seguinte, para estupor geral, soube-se que, sendo insuficientes os indícios contra ele, Rozaine estava livre.

Filho de um comerciante importante em Bordéus, tinha exibido papéis perfeitamente em ordem. Além disso, seus braços não mostravam qualquer resquício de ferimento.

— Papéis! Certidões de nascimento! — exclamavam os inimigos de Rozaine. — Isso Arsène Lupin fornece tantos quantos necessários! Quanto ao ferimento, é que não houve, ou então ele apagou os vestígios!

Objetavam que, na hora do roubo, ficara demonstrado que Rozaine passeava na ponte. Ao que contestavam:

— Mas será que um homem da têmpera de Arsène Lupin tem necessidade de assistir ao roubo que pratica?

Afinal, fora de qualquer possível consideração, havia um ponto sobre o qual os mais céticos não podiam discutir. Quem, fora de Rozaine, viajava sozinho, era louro e usava um nome começando por R? Quem o telegrama designaria senão Rozaine?

Quando este, minutos antes do almoço, dirigiu-se audaciosamente para o nosso grupo, Miss Nelly e Lady Jerland se ergueram e afastaram-se. De medo, obviamente.

Uma hora depois, uma circular manuscrita passava de mão em mão entre os empregados de bordo, marujos e viajantes de todas as classes: o senhor Louis Rozaine prometia uma soma de dez mil francos a quem desmascarasse Arsène Lupin ou achasse o portador das pedras furtadas.

— Se ninguém vier me ajudar contra este bandido — declarou Rozaine ao comandante —, eu mesmo hei de ajustar contas com ele.

Rozaine contra Arsène Lupin, ou antes, de acordo com a frase que circulou, o próprio Arsène Lupin contra Arsène Lupin — uma luta a que não faltava interesse!

Ela se prolongou durante dois dias.

Via-se Rozaine por todos os lados, misturando-se ao pessoal do navio, interrogando, investigando. De noite, percebia-se sua sombra a andar.

Por seu lado, o comandante ostentava a mais ativa energia. O Provence foi vasculhado de alto a baixo. Com o pretexto bem justo de que os objetos estariam escondidos em qualquer lugar fora da cabina do culpado, todas as cabinas foram sem exceção devassadas.

— Vão acabar por descobrir alguma coisa, não é? — perguntava-me Miss Nelly. — Por mais feiticeiro que ele seja, não pode fazer que diamantes e pérolas se tornem invisíveis.

— É claro — respondi. — Ou então seria preciso explorar o forro de nossos chapéus, as bainhas de nossas roupas e tudo o que levamos conosco. — E, mostrando-lhe a minha Kodak de nove por doze centímetros, com a qual não me cansava de fotografá-la nas mais diversas atitudes: — Num aparelho não maior que este, não crê que haveria lugar para todas as pedras preciosas de Lady Jerland? Finge-se tirar retratos e o negócio está feito.

— No entanto ouvi dizer que não há ladrão que não deixe atrás de si um indício qualquer.

— Há um, Arsène Lupin.

— Por quê?

— Por quê? Por não pensar apenas no roubo que comete, mas em todas as circunstâncias que poderiam denunciá-lo.

— No início, o senhor estava mais confiante.

— Mas depois eu o vi em ação.

— De modo que, segundo o senhor...?

— Acho que perdem tempo.

De fato, as investigações não deram nenhum resultado, ou pelo menos o que deram não correspondeu ao esforço geral: o relógio do comandante lhe foi roubado.

Furioso, ele duplicou de ardor e vigiava ainda de perto Rozaine, com quem tinha tido várias entrevistas. No dia seguinte — encantadora ironia —, achou-se o relógio entre os colarinhos do subcomandante.

Tudo isso tinha um ar de mágica e denunciava a maneira humorística de Arsène Lupin, ladrão, vá lá, mas também diletante. Trabalhava por gosto e vocação, mas também para divertir-se. Dava a impressão do autor que se distrai com a própria peça e, nos bastidores, ri francamente de suas saídas espirituosas e da situação que imaginou.

Era sem dúvida um artista em seu gênero, e quando eu observava Rozaine, sombrio e opiniático, e pensava no papel duplo que representava essa curiosa personagem, não podia referir-me a ele sem certa admiração.

Ora, na noite da antevéspera, o oficial de turno ouviu gemidos no lugar mais escuro da ponte. Aproximou-se. Um homem estava estendido, com a cabeça envolta num espesso lenço grande, cinza, e com os punhos atados com uma cordinha fina.

Desembaraçaram o homem, levantaram-no, cuidaram dele. Era Rozaine.

Rozaine, que fora assaltado durante uma de suas expedições, derrubado e despojado. Um cartão de visita, preso por um alfinete na sua roupa, dizia:

“Arsène Lupin aceita com reconhecimento os dez mil francos do senhor Rozaine”.

Na realidade, a carteira furtada continha vinte notas de mil.

Naturalmente, acusaram o infeliz de ter simulado esse ataque contra si mesmo. Mas, além de que seria impossível que se atasse daquela maneira, estabeleceu-se que a letra do cartão diferia radicalmente da de Rozaine, assemelhando-se, ao contrário, a ponto de parecer a mesma, à de Arsène Lupin, tal como a reproduzia um velho jornal achado a bordo.

De modo que Rozaine não era mais Arsène Lupin. Rozaine era Rozaine, filho de um comerciante de Bordéus! E a presença de Arsène Lupin se confirmou de novo, e por que ato temível!

Foi o terror. Ninguém ousava mais ficar sozinho na cabina nem se aventurar a lugares afastados. Prudentemente, todos se uniam a grupos de pessoas conhecidas umas das outras. E ainda uma desconfiança instintiva apartava os mais íntimos. É que a ameaça já não provinha de um indivíduo isolado e por isso mesmo menos perigoso. Arsène Lupin agora era... era todo mundo. Nossa imaginação excitada lhe atribuía um poder miraculoso e ilimitado. Supunha-se que fosse capaz de empregar os disfarces mais inesperados, de ser ora o respeitável Major Rawson, ora o nobre Marquês de Raverdan, e mesmo, pois não se parava mais na inicial acusadora, esta ou aquela pessoa de todos conhecida e tendo mulher, filhos e criados.

As primeiras mensagens sem fio não trouxeram nenhuma notícia. Pelo menos o comandante nada comunicou, e um tal silêncio não nos tranquilizava.

Assim, o último dia pareceu interminável. Vivia-se na expectativa ansiosa de um desastre. Desta vez, não seria o furto nem uma simples agressão, seria assassinato. Não se admitia que Arsène Lupin se contentasse com aqueles dois roubos insignificantes. Senhor absoluto do navio, com as autoridades reduzidas à impotência, faria o que desejasse, tudo lhe estava permitido, disporia dos bens e das existências.

Horas deliciosas para mim, confesso, pois me valeram a confiança de Miss Nelly. Impressionada por tantos acontecimentos e já inquieta de natureza, procurou espontaneamente proteção junto a mim, uma segurança que eu estava feliz em lhe oferecer.

No fundo, abençoava Arsène Lupin. Não fora ele quem nos aproximara? Não era graças a ele que podia me abandonar aos mais belos sonhos? Sonhos de amor e sonhos menos quiméricos, por que não confessar? Os Andrézys são de boa estirpe do Poitou, mas seu brasão anda um pouco descolorido e não me parecia indigno de um gentil-homem almejar devolver ao seu nome o lustre perdido.

Esses sonhos, sentia, não contrariavam Nelly. Seus olhos sorridentes me autorizavam a tê-los. A doçura de sua voz me dizia que esperasse.

E até o último momento, debruçados na amurada, permanecemos juntos, enquanto a linha da costa americana balançava à nossa frente.

As buscas tinham cessado. Aguardava-se. Da primeira classe à entreponte, onde pululavam os emigrantes, aguardava-se o minuto supremo em que se explicaria enfim o insolúvel enigma. Quem era Arsène Lupin? Sob que nome, sob que máscara se ocultava o famoso Arsène Lupin?

E o minuto supremo chegou. Vivesse eu cem anos, não esqueceria o menor detalhe.

— Como está pálida, Miss Nelly — disse à minha companheira, que se apoiava em meu braço, quase desfalecendo.

— E você! — respondeu-me. — Ah, está tão mudado!

— Pense! Este minuto é alucinante e estou contente em vivê-lo a seu lado, Miss Nelly. Parece-me que sua memória se demorará às vezes...

Não escutava, anelante e febril. A escada foi descida, mas, antes que tivéssemos a liberdade de transpô-la, pessoas subiram a bordo, homens de uniforme, da Alfândega e do Correio.

Miss Nelly balbuciou:

— Se Arsène Lupin escapou durante a travessia, não ficarei surpresa.

— Preferiu talvez a morte à desonra, e mergulhar no Atlântico a ser preso.

— Não ria — disse contrariada.

De repente, estremeci e, como ela perguntasse o que era, disse-lhe:

— Está vendo esse velhote, de pé, perto da escada?

— De guarda-chuva e sobrecasaca verde-oliva?

— É Ganimard.

— Ganimard?

— Sim, o célebre policial, que jurou prender pessoalmente Arsène Lupin. Ah! Entendo por que não houve informações deste lado do oceano. Ganimard estava aqui, e não gosta de que ninguém se meta em seus pequenos casos.

— Então é certo que pegarão Arsène Lupin?

— Quem pode dizer? Ganimard nunca o viu, parece, senão caracterizado e disfarçado. A menos que saiba o nome que está usando...

— Ah! — exclamou, com essa curiosidade um pouco cruel da mulher. — Se eu pudesse assistir à sua prisão!

— Vamos com calma. Certamente Arsène Lupin já notou a presença do seu inimigo e vai sair entre os últimos, quando os olhos do velho estiverem cansados.

Começou o desembarque. Apoiado em seu guarda-chuva, com um ar de indiferença, Ganimard não parecia prestar atenção ao povo que se comprimia entre as duas balaustradas. Observei que um oficial de bordo, postado atrás dele, informava-o de tempos em tempos.

O Marquês de Raverdan, o Major Rawson, o italiano Rivolta passaram, e outros, muitos outros...

Percebi que Rozaine se acercava.

Pobre Rozaine! Não parecia recuperado de seus infortúnios.

— Talvez seja ele, apesar de tudo — disse-me Miss Nelly. — Que acha?

— Acho que seria muito interessante reunir numa mesma foto Ganimard e Rozaine. Pegue a minha máquina, está carregada.

Dei-a, mas tarde demais para que pudesse usá-la. Rozaine passava. O oficial se inclinou ao ouvido de Ganimard, que deu de ombros suavemente — e Rozaine passou.

Mas então, meu Deus, quem era Arsène Lupin?

— Sim — disse ela em voz alta. — Quem é?

Não havia senão uma vintena de pessoas, que ela sucessivamente observava com o receio confuso de que ele não estivesse entre esses vinte. Disse-lhe:

— Não podemos aguardar mais tempo.

Ela se adiantou e eu a segui. Não tínhamos dado dez passos e Ganimard nos barrou a passagem.

— Bem, que é isso? — protestei.

— Um momento, senhor, está apressado?

— Estou acompanhando a senhorita.

— Um momento — repetiu com voz mais imperiosa. Encarou-me profundamente e logo me disse, com os olhos nos meus: — Arsène Lupin, não é?

Pus-me a rir.

— Não, Bernard d’Andrézy, apenas.

— Bernard d’Andrézy morreu há três anos na Macedônia.

— Se Bernard d’Andrézy tivesse morrido, eu não seria mais deste mundo. E não é o caso. Eis os meus papéis.

— São os dele. Como estão com você é o que terei prazer de lhe explicar.

— Mas está louco! Arsène Lupin embarcou sob o nome de R...!

— Sim, ainda uma artimanha sua, uma pista falsa em que os lançou na França! Ah! Você é de uma bela audácia, meu humorista. Mas desta vez a sorte mudou. Vamos, Lupin, mostre-se bom jogador.

Hesitei um segundo. Com um golpe seco me bateu no antebraço direito, e dei um grito de dor. Tinha tocado no ferimento ainda não cicatrizado que o telegrama indicava.

Era preciso resignar-me. Virei-me para Miss Nelly. Ela escutava, lívida, insegura.

Seu olhar deu com o meu e logo baixou sobre a Kodak que lhe tinha entregue. Fez um gesto brusco e tive a impressão, a certeza de que de repente havia entendido. Sim, estavam lá, entre as estreitas paredes de couro preto, dentro do pequeno objeto que eu tivera a precaução de deixar em suas mãos antes que Ganimard me prendesse, os vinte mil francos de Rozaine, as pérolas e os diamantes de Lady Jerland.

Ah, juro, neste instante solene, enquanto Ganimard e dois de seus ajudantes me cercavam, tudo me foi indiferente, a prisão, a hostilidade das pessoas, tudo, exceto isto: a decisão que ia tomar Miss Nelly a propósito do que lhe havia entregue.

Não pensei sequer em recear que tivessem contra mim aquela prova material e decisiva, mas se Miss Nelly se decidiria a fornecê-la. Seria traído, perdido por ela? Agiria como inimiga que não perdoa ou como mulher que se lembra e cujo desprezo se suaviza com um pouco de indulgência, um pouco de simpatia involuntária?

Passou diante de mim. Cumprimentei-a discreto, sem uma palavra. Em meio a outros viajantes, dirigiu-se para a escada, com minha Kodak na mão.

Sem dúvida, pensei, não ousa em público. Mas, dentro de uma hora, de um instante, ela a entregará. Chegando, porém, à metade da escada, num movimento de inépcia simulada, deixou-a cair na água, entre o cais e o costado do navio.

Depois, afastou-se.

Seu belo vulto se perdeu na multidão, apareceu de novo e sumiu. Nossa história estava terminada, para sempre.

Por um instante permaneci imóvel, triste e ao mesmo tempo invadido por um doce enternecimento.

Depois suspirei, para grande surpresa de Ganimard:

— Que pena, afinal, não ser um cidadão honesto...

Foi assim que, numa tarde de inverno, Arsène Lupin me contou a história de sua prisão. Incidentes casuais, que um dia hei de narrar, criaram laços entre nós dois, não sei se diria de amizade. Sim, ouso acreditar que Arsène Lupin me honra com alguma amizade, e que por ela chega às vezes a minha casa sem aviso, trazendo ao silêncio de meu gabinete de trabalho sua alegria juvenil, a irradiação de sua vida ardente, seu bom humor de homem para quem o destino só reserva favores e sorrisos.

Seu retrato? Como poderia fazê-lo? Vinte vezes vi Arsène Lupin e vinte vezes foi um ser diferente que me apareceu; ou antes, o mesmo ser de que vinte espelhos me teriam dado outras tantas imagens deformadas, cada uma com olhos diferentes, uma forma de rosto, um gesto, um vulto, um caráter próprio.

— Eu mesmo — disse-me ele — não sei mais quem sou. Num espelho, não me reconheceria.

Piada, por certo, é paradoxo, mas realidade do ponto de vista daqueles que o encontram e ignoram seus recursos infinitos, sua paciência, sua arte da maquilagem, sua prodigiosa faculdade de transformar as proporções da face, alterando inclusive a relação de seus traços entre si.

— Por que — disse ele ainda — hei de ter uma aparência definida? Por que não evitar o perigo de uma personalidade sempre igual? Meus atos já me revelam bastante. — E pormenorizava com uma ponta de orgulho: — Tanto melhor que não possam nunca dizer com certeza: “Eis aqui Arsène Lupin”. O essencial é que digam sem medo de errar: “Arsène Lupin fez isso”.

São alguns desses atos, algumas dessas aventuras que procuro reconstituir, segundo as confidências que teve a gentileza de me fazer, em noites de inverno, no silêncio do meu gabinete de trabalho...





Arsène Lupin na prisão

Não há turista digno do nome que não conheça as margens do Sena e não tenha notado, indo das ruínas de Jumièges às de Saint-Wandrille, o estranho castelinho feudal do Malaquis, tão altivamente erguido sobre a rocha, em pleno rio. A arcada de uma ponte o liga à estrada. A base de suas torrezinhas sombrias se confunde com o granito que o suporta, enorme bloco destacado de não se sabe que montanha e ali lançado por alguma terrível convulsão. Em volta, a água calma do grande rio brinca entre os juncos, e lavandiscas tremem sobre a superfície úmida dos seixos.

A história do Malaquis é rude como seu nome, áspera como seu aspecto. Combates, sítios, assaltos, rapinas e massacres. Nos serões da região de Caux, lembram-se com arrepios os crimes que ali se cometeram. Contam-se misteriosas lendas. Fala-se de um célebre subterrâneo que outrora conduzia à Abadia de Jumièges e ao solar de Agnès Sorel, a bela amante de Carlos VII.

Neste antigo covil de heróis e salteadores mora o Barão Nathan Cahorn, o Barão Satã, como antes o chamavam na Bolsa, na qual enriqueceu de um modo demasiado súbito. Os senhores do Malaquis, arruinados, tiveram de lhe vender, por uma ninharia, a mansão de seus antepassados. Instalou aí suas coleções admiráveis de móveis e quadros, de faianças e madeiras esculpidas, e aí mora isolado, com seus três empregados. Ninguém entra no castelo nem nunca contempla, no cenário dessas salas antigas, os três Rubens que ele possui, seus dois Watteau, sua cadeira de Jean Goujon, e tantas outras maravilhas arrancadas pela força do dinheiro aos mais ricos frequentadores dos leilões públicos.

O Barão Satã tem medo. Não por si, mas pelos tesouros acumulados com uma paixão tão tenaz e uma perspicácia tão grande de amador, que os mais astutos vendedores não podem se vangloriar de ter induzido em erro. Ele ama esses tesouros com a ganância de um avaro e o ciúme de um enamorado.

Cada dia, ao cair do sol, as quatro portas reforçadas com ferros, que dão para as duas extremidades da ponte e a entrada do pátio principal, são fechadas e aferrolhadas. Ao menor choque, campainhas elétricas soariam no silêncio. Do lado do Sena, nada a temer: o rochedo se ergue a pique.

Ora, uma sexta-feira de setembro, o carteiro se apresentou como de costume à cabeça da ponte, e, segundo a regra cotidiana, foi o barão que entreabriu o pesado batente.

Examinou o homem tão minuciosamente como se não conhecesse, há anos, aquela boa cara alegre com olhos finórios de camponês, e o homem lhe disse rindo:

— Sou sempre eu, senhor barão, não outro que estivesse usando a minha blusa e o meu boné.

— Nunca se sabe — murmurou Cahorn.

O carteiro lhe entregou uma pilha de jornais e acrescentou:

— Agora, senhor barão, há algo de novo.

— Novo?

— Uma carta... e ainda registrada.

Só, sem amigos ou alguém que por ele se interessasse, o barão não recebia cartas, e imediatamente aquilo lhe pareceu um fato de mau agouro, dando lugar à preocupação. Quem seria o misterioso correspondente que vinha alcançá-lo em seu retiro?

— É preciso assinar, senhor barão.

Assinou praguejando. Pegou a carta, esperou que o carteiro desaparecesse na volta da estrada e, tendo dado alguns passos, apoiou-se contra o parapeito da ponte e rasgou o envelope. Dentro havia uma folha de papel quadriculado com um cabeçalho manuscrito: Prison de la Santé, Paris. Olhou a assinatura: Arsène Lupin. Estupefato, leu:

“Senhor Barão,

Há, na galeria que une seus dois salões, um quadro de Philippe de Champaigne de execução excelente e que me agrada muitíssimo. Seus Rubens são também do meu agrado, tanto quanto o Watteau menor. No salão da direita, destaco a credência Luís XIII, as tapeçarias de Beauvais, o velador império assinado por Jacob e o baú renascença. No da esquerda, todo o mostruário de vidro das joias e miniaturas.

Por esta vez me contentarei com esses objetos, que serão, creio, de fácil saída. Peço-lhe, pois, que os faça embalar decentemente e expedir em meu nome, com porte pago, para a estação de Batignolles, antes de oito dias. Se isso não for feito, eu próprio os deslocarei na noite de quarta-feira, 27, ou quinta, 28 de setembro, e, como é justo, não me contentarei com os objetos acima indicados.

Queira desculpar o pequeno estorvo que lhe causo e aceitar a expressão de meus sentimentos de respeitosa consideração.

Arsène Lupin

P.S. — Sobretudo não me envie o Watteau maior. Embora tenha pago por ele trinta mil francos na Casa de Vendas, não passa de uma cópia, tendo sido o original queimado, durante o Diretório, por Barras, numa noite de orgia. Consulte as memórias inéditas de Garrat.

Não faço questão também da corrente com pedras Luís XV, cuja autenticidade me parece duvidosa.”

Esta carta transtornou o Barão Cahorn. Assinada por qualquer outro, já o teria alarmado, mas por Arsène Lupin!...

Leitor assíduo dos jornais, a par de tudo o que ocorria no mundo a propósito de roubo e crime, nada ignorava das façanhas do infernal ladrão. Por certo sabia que Lupin, preso na América por seu inimigo Ganimard, estava definitivamente encarcerado, e que tratavam de instruir o seu processo — com que trabalho! Mas sabia também que se podia esperar tudo dele. Aquele conhecimento exato do castelo, da disposição dos quadros e dos móveis, era um indício dos mais temíveis. Quem o informara sobre coisas que ninguém havia visto?

O barão ergueu os olhos e observou a linha inóspita do Malaquis, seu abrupto pedestal, a água profunda que o cercava, e deu de ombros. Não, decididamente não havia perigo. Ninguém no mundo poderia chegar ao santuário inviolável de suas coleções.

Ninguém no mundo, certo, mas e Arsène Lupin? Para ele existiriam portas, pontes levadiças, muralhas? De que serviam os obstáculos mais bem imaginados, as precauções mais hábeis, se Arsène Lupin resolvera atingir o objetivo?

Na mesma noite escreveu ao procurador da República em Rouen. Remetia a carta de ameaças e reclamava ajuda e proteção.

A resposta não demorou: estando o citado Arsène Lupin atualmente detido na Santé, sob estrita vigilância e impossibilitado de escrever, a carta só podia ser obra de um impostor. Tudo o demonstrava, a lógica e o bom senso, assim como a realidade dos fatos. Contudo, por excesso de prudência, tinha-se mandado um perito examinar a letra e ele declarou que, apesar de certas analogias, a letra não era a do detido.

“Apesar de certas analogias” — o barão não reteve senão essas quatro palavras assustadoras, onde via a confissão de uma dúvida que, por si, deveria bastar para que a justiça interviesse. Seus receios se exasperaram. Não cessava de reler a carta: “eu próprio os deslocarei”, e aquela data precisa: na noite de quarta-feira, 27, ou quinta, 28 de setembro!...

Desconfiado e taciturno, não ousara se abrir com os empregados, cujo devotamento não lhe parecia à toda prova. No entanto, pela primeira vez em anos sentia a necessidade de falar, ser aconselhado. Abandonado pela justiça do seu país, desesperava de se defender com seus próprios recursos, e esteve a ponto de ir a Paris, implorar a assistência de algum policial experiente.

Passaram-se dois dias. No terceiro, lendo os jornais, estremeceu de contentamento. O Le Réveil de Caudebec publicava este tópico:

“Temos o prazer de anunciar a presença, em nossa cidade, há quase três semanas, do Inspetor Ganimard, um dos veteranos do serviço da Sûreté. O senhor Ganimard, a quem a prisão de Arsène Lupin, sua última proeza, lhe deu uma reputação europeia, descansa de suas pesadas tarefas perseguindo peixes e pássaros.”

Ganimard, eis o auxiliar que o barão procurava! Quem melhor que o manhoso e paciente Ganimard saberia desfazer os projetos de Lupin?

O barão não hesitou. Seis quilômetros separam o castelo da cidadezinha de Caudebec. Como alguém animado pela esperança de salvação, ele os transpôs num passo alegre.

Depois de várias tentativas infrutíferas de saber o endereço do inspetor, dirigiu-se ao escritório do Réveil, na parte do cais. Encontrou o redator do tópico, que, chegando à janela, gritou:

— Ganimard? Pode estar certo de achá-lo aí pelo cais com uma linha na mão. Foi assim que falei com ele e li por acaso seu nome gravado num caniço de pescar. Olhe, é o velhote que se vê lá embaixo, sob as árvores do passeio.

— De casaco e chapéu de palha?

— Isso! Ah, um rapaz engraçado para conversar, e cabeçudo.

Cinco minutos depois, o barão abordava o célebre Ganimard, apresentando-se e buscando puxar conversa. Não conseguindo, entrou francamente na questão e expôs seu caso.

O outro escutou, imóvel, sem perder de vista o peixe que estava espreitando. Enfim, virou a cabeça para ele, mediu-o de alto a baixo com ar de profunda piedade e pronunciou:

— Senhor, não é costume prevenir as pessoas que se quer despojar. Arsène Lupin, especialmente, não cometeria patranha semelhante.

— No entanto...

— Senhor, se eu tivesse a mínima dúvida, acredite que o prazer de prender outra vez esse caro Lupin superaria qualquer outra consideração. Infelizmente, esse jovem está aferrolhado.

— Se fugir?...

— Não se foge da Santé.

— Mas ele...

— Ele não mais que outro qualquer.

— No entanto...

— Pois bem, se fugir, tanto melhor, eu o agarrarei de novo. Enquanto isso, durma tranquilo e não me espante mais este peixe.

A conversa tinha terminado. O barão voltou para casa, até certo ponto acalmado pela despreocupação de Ganimard. Verificou as fechaduras, espionou os criados, e quarenta e oito horas se passaram em que chegou quase a se persuadir de que, em suma, seus receios eram quiméricos. Não, sem dúvida, como tinha dito Ganimard, não se previne a quem se deseja roubar.

A data se aproximava. Na manhã de terça-feira, véspera do dia 27, nada de particular. Mas às três da tarde um menino tocou a campainha. Trazia um telegrama: “Nenhuma encomenda na estação de Batignolles. Prepare tudo para amanhã à noite. Arsène”.

Foi o enlouquecimento outra vez, a ponto de se perguntar se não faria melhor cedendo às exigências de Arsène Lupin.

Correu a Caudebec. Ganimard pescava no mesmo lugar, sentado num banquinho desmontável. Sem uma palavra, mostrou-lhe o telegrama.

— E daí? — disse o inspetor.

— Daí? Mas é para amanhã!

— O quê?

— O furto! A pilhagem de minhas coleções!

Ganimard largou sua linha, virou-se para ele e, com os dois braços cruzados sobre o peito, exclamou com impaciência:

— Ah! Isso! O senhor imagina que vou me ocupar com uma história tão estúpida!

— Quanto quer para ficar no castelo durante a noite de 27 a 28 de setembro?

— Nem um centavo, deixe-me em paz.

— Dê o seu preço, sou rico, muito rico.

A brutalidade da oferta desconcertou Ganimard, que prosseguiu mais calmo:

— Estou aqui de férias e não tenho o direito de me meter...

— Ninguém saberá. Eu me comprometo, aconteça o que acontecer, a guardar silêncio.

— Oh! Não acontecerá nada.

— Bem, vejamos, três mil francos bastam?

O inspetor aspirou uma pitada de tabaco, refletiu e acedeu:

— Seja. Apenas devo lhe declarar lealmente que é dinheiro jogado pela janela.

— Não me importa.

— Nesse caso... E afinal, o que se sabe desse demônio do Lupin! Deve ter às suas ordens todo um bando... tem confiança em seus criados?

— Até certo ponto.

— Então não contemos com eles. Vou chamar pelo telégrafo dois dispostos amigos meus, que nos darão mais segurança... E agora, ande, para que não nos vejam juntos. Até amanhã, pelas nove horas.

No dia seguinte, data marcada por Arsène Lupin, o Barão Cahorn despregou sua panóplia, poliu suas armas e passeou em volta do Malaquis, sem vislumbrar nada de equívoco.

À noite, às oito e meia, dispensou os criados. Ocupavam uma ala de frente para a estrada, mas um pouco para trás e bem no fim do castelo. Uma única vez, abriu docemente as quatro portas. Decorrido um tempo, escutou passos que se aproximavam.

Ganimard apresentou seus dois auxiliares, rapazes grandes e sólidos, com pescoço taurino e mãos fortes, e a seguir pediu certas explicações. Tendo-se dado conta da disposição dos lugares, fechou cuidadosamente e barricou todas as saídas por que se pudesse entrar nas salas ameaçadas. Inspecionou as paredes, ergueu os tapetes, e colocou enfim seus agentes na galeria central.

— Nada de brincadeiras, hem? Não estamos aqui para dormir. Ao menor alerta, abram as janelas do pátio e me chamem. Prestem também atenção ao lado da água. Demônios do calibre dele não se assustam com dez metros de falésia reta. — Fechou-os, levou as chaves e disse ao barão: — Agora, ao nosso posto.

Escolhera, para passar a noite, uma pecinha feita na espessura das muralhas exteriores, entre as duas principais, e que era outrora o reduto do vigia. Uma abertura dava para a ponte, outra para o pátio. Num canto se notava um orifício como o de um poço.

— Não me disse, senhor barão, que este poço era a única entrada dos subterrâneos e que há muitíssimo tempo foi tapado?

— Sim.

— De modo que, a menos que exista outra saída desconhecida de todos, salvo de Arsène Lupin, o que parece bem problemático, estamos tranquilos.

Alinhou três cadeiras, estendeu-se confortavelmente, acendeu seu cachimbo e suspirou:

— Com efeito, senhor barão, foi preciso que eu estivesse louco para aumentar um andar na casinha em que devo terminar meus dias para aceitar uma tarefa tão simples. Contarei a história ao amigo Lupin; vai agarrar as costelas de tanto rir.

O barão não ria. Com os ouvidos despertos, interrogava o silêncio com crescente inquietação. De vez em quando, inclinava-se sobre o poço e mergulhava no buraco um olhar ansioso.

Onze horas, meia-noite, uma hora bateram.

Súbito, pegou o braço de Ganimard, que despertou num sobressalto.

— Está ouvindo?

— Sim.

— Que é isso?

— Sou eu que ronco!

— Não, ouça...

— Ah, realmente, é o ruído de um automóvel.

— E então?

— Então é pouco provável que Lupin se sirva de um automóvel como de um aríete para demolir o seu castelo. Assim, senhor barão, no seu lugar, eu dormiria... como vou ter a honra de voltar a fazer. Boa noite.

Foi o único alerta. Ganimard pôde retomar seu sono interrompido, e o barão não ouviu mais que aquele ronco sonoro e regular.

De manhãzinha, saíram de sua cela. Uma grande paz serena, a paz da manhã à beira da água fresca, envolvia o castelo. Cahorn, radiante de alegria, e Ganimard, sempre tranquilo, subiram a escada. Nenhum ruído. Nada de suspeito.

— Que lhe tinha dito, senhor barão? No fundo, não devia ter aceito, estou envergonhado...

Pegou as chaves e entrou na galeria. Em duas cadeiras, curvados, com os braços caídos, os dois agentes dormiam.

— Diabos os levem! — rosnou o inspetor.

Ao mesmo tempo o barão dava um grito:

— Os quadros!... A credência!... — Ele balbuciava, sufocava, com a mão estendida para os espaços vazios, as paredes despojadas, onde apontavam pregos de que pendiam cordas inúteis. O Watteau desaparecido! Os Rubens levados! As tapeçarias despregadas! Os mostruários esvaziados de suas joias! — E meus candelabros Luís XVI!... E o castiçal do Regente!... E a minha Virgem do século VII!...

Corria de um lugar a outro, assustado, desesperado. Lembrava os preços que pagara, somava as perdas sofridas, acumulava cifras, tudo isso misturado, em palavras indistintas, frases inacabadas. Sapateava e entrava em convulsões, louco de raiva e de dor. Parecia um homem arruinado, a quem só restasse dar um tiro na cabeça.

Se alguma coisa pudesse consolá-lo, teria sido ver o estupor de Ganimard. Ao contrário do barão, o inspetor não se movia. Dir-se--ia petrificado, e com um olhar vago examinava as coisas. As janelas? Fechadas. As fechaduras das portas? Intactas. Nenhuma brecha no forro ou buraco no soalho. A ordem era perfeita. Tudo isso deveria ter sido executado metodicamente, segundo um plano inexorável e lógico.

— Arsène Lupin... Arsène Lupin — murmurou, desfeito. De repente saltou sobre os dois agentes, como se a cólera enfim o sacudisse, empurrou-os furiosamente e injuriou-os. Não tinham acordado! — Diabo — disse —, será que, por acaso?... — Inclinou-se sobre eles e observou um e outro com atenção: dormiam, mas um sono que não era natural. Disse ao barão: — Fez com que dormissem.

— Mas quem?

— Ah, ele, por Deus!... Ou o seu bando, mas sob a direção dele. É um golpe no seu estilo. Sente-se a sua garra.

— Nesse caso estou perdido, não há mais nada a fazer.

— Nada a fazer.

— Mas é detestável, monstruoso.

— Apresente uma queixa.

— Para quê?

— Ora! Tente. A justiça tem recursos.

— A justiça! Mas está vendo por si mesmo... repare: neste instante, em que poderia procurar um indício, descobrir alguma coisa, nem mesmo se move.

— Descobrir alguma coisa, com Arsène Lupin! Mas, meu caro senhor, Arsène Lupin não deixa nada atrás de si. O acaso não existe para ele. Eu me pergunto se não foi deliberadamente que se fez prender por mim na América!

— Então, devo desistir de meus quadros, de tudo! Mas são as pérolas da minha coleção que ele levou! Pagaria uma fortuna para reavê-las. Se não se pode nada contra ele, que diga o seu preço!

Ganimard o olhou fixamente.

— Essa é uma atitude sensata. Vai mantê-la?

— Não, não, não. Mas por quê?

— Uma ideia que tive.

— Qual?

— Voltaremos a falar nisso, se o inquérito não chegar a nada. Apenas, nenhuma palavra sobre mim, se quiser que eu tenha êxito. — Acrescentou entre dentes: — Além disso, eu em verdade não tenho do que me gabar.

Os dois agentes voltaram a si pouco a pouco, com esse ar embotado dos que saem de um sono hipnótico. Abriam os olhos, pasmados, e procuravam entender. Quando Ganimard os interrogou, não se lembravam de nada.

— Tinham de ter visto alguém, no entanto.

— Não.

— Lembram-se?

— Não, não.

— E não beberam?

Refletiram, e um deles respondeu:

— Sim, bebi um pouco d’água.

— Desta jarra?

— Sim.

— Eu também — declarou o segundo.

Ganimard a cheirou, provou. Não tinha nenhum gosto especial, nenhum odor.

— Vamos — afirmou —, estamos perdendo tempo. Não é em cinco minutos que se resolvem os problemas colocados por Arsène Lupin. Mas, com os diabos, juro que o prenderei de novo. Ganha a segunda partida. Eu, a negra!

No mesmo dia, uma queixa de roubo qualificado era apresentada pelo Barão Cahorn contra Arsène Lupin, detido na Santé!

Essa queixa, o barão muitas vezes a lamentou ao ver o Malaquis entregue aos guardas, ao procurador, ao juiz de instrução, aos jornalistas, a todos os curiosos que se insinuam em toda parte em que não deveriam estar.

O caso apaixonava a opinião pública. Produzira-se em circunstâncias tão incomuns, o nome de Arsène Lupin excitava tanto as imaginações, que as histórias mais fantasiosas enchiam as colunas dos jornais e encontravam crédito junto ao público.

Mas a carta inicial de Arsène Lupin — que o Écho de France publicou sem que ninguém nunca ficasse sabendo quem lhe comunicara o texto —, a carta em que o Barão Cahorn era descaradamente prevenido do que o ameaçava, causou considerável emoção. De imediato fabulosas explicações foram propostas. Recordou-se a existência dos famosos subterrâneos, e a justiça, influenciada, dirigiu suas buscas nesse sentido.

Devassaram o castelo de alto a baixo. Desconfiavam de cada pedra. Estudavam os lambris e as chaminés, as esquadrias dos vidros e as traves dos forros. À luz de tochas, examinaram as vastas adegas, onde os senhores do Malaquis antigamente amontoavam suas munições e provisões. Sondaram as entranhas do rochedo. Tudo embalde. Não se achou o menor vestígio de subterrâneo, nem existia passagem secreta.

Seja, respondiam de todos os lados, mas móveis e quadros não se evolam como fantasmas. Passam por portas ou janelas, e as pessoas que deles se apossam entram e saem igualmente por portas e janelas. Quem eram essas pessoas? Como se introduziram no castelo? Como foram embora?

A justiça de Rouen se convenceu de que não podia sozinha com o caso e solicitou o auxílio de agentes parisienses. O senhor Dudouis, o chefe da Sûreté, enviou seus melhores pesquisadores, e ele próprio passou quarenta e oito horas no Malaquis. Não descobriram nada.

Chamou então à sua presença o Inspetor Ganimard, de que tinha tantas vezes tido a oportunidade de admirar o trabalho.

Ganimard escutou em silêncio as instruções do superior e a seguir, oscilando a cabeça, afirmou:

— Julgo que se vai no caminho errado teimando em vasculhar o castelo. A solução está em outra parte.

— Aonde?

— Junto a Arsène Lupin.

— Junto a Lupin! Supor isso é admitir sua intervenção.

— Eu admito. E mais: considero certa.

— Vamos, Ganimard, isso é absurdo. Arsène Lupin está preso.

— Preso, vá. Vigiado, concedo. Mas tivesse ferros nos pés, cordas nos pulsos e uma mordaça na boca, eu não mudaria de parecer.

— E a razão para se obstinar assim?

— Porque apenas Arsène Lupin é capaz de planejar um golpe dessa envergadura, e planejar de tal maneira que tivesse êxito... como teve.

— Palavras, Ganimard!

— Que são realidades. Em suma, que não se busquem subterrâneos, pedras girando sobre gonzos e outras futilidades desse porte. Nosso homem não emprega processos tão vetustos. É de hoje, ou antes, de amanhã.

— E o que conclui daí?

— Solicitar-lhe claramente a autorização de passar uma hora com ele.

— Em sua cela?

— Sim. De volta da América estabelecemos, durante a travessia, excelentes relações, e ouso afirmar que tem alguma simpatia por aquele que conseguiu prendê-lo. Se puder me informar sem se comprometer, não hesitará em me evitar uma viagem inútil.

Passava do meio-dia quando Ganimard foi introduzido na cela de Arsène Lupin. Este, deitado, ergueu a cabeça e soltou um grito de contentamento.

— Ah, que surpresa... o nosso querido Ganimard aqui!

— Ele mesmo.

— Desejava muitas coisas no retiro que escolhi, mas nenhuma mais ardentemente do que nele recebê-lo.

— É gentil demais.

— Mas não, não, tenho por você uma grande estima.

— Eu me orgulho por isso.

— Sempre achei que Ganimard era o nosso melhor detetive, valendo quase, vê só que sou franco, quase Sherlock Holmes. Fico chateado de só poder lhe oferecer este banquinho. E nem mesmo um refresco, um copo de cerveja. Desculpe, mas estou aqui de passagem. — Ganimard se sentou sorrindo, e o prisioneiro prosseguiu, feliz por falar: — Meu Deus, como me alegra descansar os olhos no rosto de um homem honesto! Não aguento mais essas caras de espiões e delatores que passam revista dez vezes por dia em meus bolsos e em minha modesta cela, para ter certeza de que não estou preparando uma evasão. Puxa, como o governo se preocupa comigo!...

— E tem razão...

— Mas não. Seria tão feliz se me deixassem viver no meu cantinho!

— Com o dinheiro dos outros.

— Não é? Isso seria tão simples! Mas fico dizendo bobagens quando você talvez esteja com pressa. Vamos ao que interessa, Ganimard! Que é que me valeu a honra de uma visita?

— O caso Cahorn — declarou Ganimard, sem rodeios.

— Alto lá! Um momento... tenho tantos casos! Deixe-me primeiro procurar na minha cabeça os autos do caso Cahorn... ah, aqui está: caso Cahorn, Castelo do Malaquis, parte baixa do Sena. Dois Rubens, um Watteau e alguns objetos miúdos.

— Miúdos!

— Oh, palavra, tudo isso é de menor importância. Há coisas muito melhores! Mas basta que o caso lhe interesse... Fale, Ganimard.

— Devo explicar-lhe em que ponto estamos da instrução do caso?

— É dispensável, li os jornais desta manhã. E até me permitiria dizer que não estão avançando depressa.

— É justamente a razão pela qual venho contar com a sua bondade.

— Às suas ordens.

— Em primeiro lugar isto: o assunto foi realmente orientado por você?

— De A a Z.

— A carta de aviso, o telegrama?

— São deste seu servidor. Devo ter mesmo em alguma parte os recibos postais.

Arsène abriu a gaveta de uma mesinha de madeira-branca, que compunha, com a cama e o banco, todo o mobiliário da cela, pegou dois pedacinhos de papel e os estendeu a Ganimard.

— Ah, isso! — exclamou esse. — Mas eu o julgava sob estreita vigilância e revistado a todo momento. No entanto, você lê jornais, coleciona recibos do correio...

— Xi, esses sujeitos são tão bobos! Descosem a bainha da minha roupa, exploram a sola dos meus sapatos, auscultam as paredes desta peça, mas nenhum tem a ideia de que Arsène Lupin seja simplório a ponto de escolher um esconderijo tão fácil. Contei com isso.

Ganimard, divertido, bradou:

— Que diabo de rapaz! Você me desconcerta. Vamos, conte a aventura.

— Oh, oh... você anda muito depressa! Iniciá-lo nos meus segredos, revelar-lhe meus expedientes... é grave.

— Será que me enganei confiando em sua complacência?

— Não, Ganimard, e já que insiste... — Arsène Lupin percorreu duas ou três vezes o quarto e, detendo-se: — Que acha da minha carta ao barão?

— Creio que você quis se divertir, deslumbrar um pouco o público.

— Ah, vejam só, deslumbrar o público! Pois bem, asseguro-lhe, Ganimard, que o julgava mais esperto. Acha que vou perder tempo com tais puerilidades, eu, Arsène Lupin? Teria escrito aquela carta, se pudesse furtar o barão sem ela? Têm de entender, você e os outros, que a carta é o ponto de partida indispensável, a mola que pôs a máquina em movimento. Vamos pela ordem e preparemos juntos, se quiser, o assalto do Malaquis.

— Estou ouvindo.

— Suponhamos um castelo rigorosamente fechado e defendido como era o do Barão Cahorn. Devo abandonar a partida e renunciar a tesouros que cobiço, sob o pretexto de que o castelo que os contém é inacessível?

— Evidente que não.

— Devo tentar o assalto como antigamente, à frente de uma tropa de aventureiros?

— Infantil!

— Devo me introduzir sorrateiramente?

— Impossível.

— Sobra um meio, o único, na minha opinião: fazer-me convidar pelo proprietário do castelo.

— O meio é original.

— E que fácil! Imaginemos que um dia o mencionado proprietário receba uma carta, advertindo-o do que trama contra ele um sujeito chamado Arsène Lupin, reputado ladrão. Que fará?

— Mandará a carta ao procurador.

— Que zombará dele, já que o citado Lupin está atualmente aferrolhado. Portanto, o bom homem fica fora de si, capaz de pedir socorro ao primeiro que apareça, não é certo?

— Fora de dúvida.

— E se lhe acontece ler num jornalzinho qualquer que um policial célebre passa as férias na localidade vizinha...

— Correrá a esse policial.

— Exato. Por outro lado, admitamos que, prevendo essa inevitável iniciativa, Arsène Lupin tenha pedido a um de seus mais hábeis amigos para se instalar em Caudebec e se relacionar com um redator do Réveil, jornal que o barão assina, deixando o jornalista concluir que é aquele conhecido policial; o que ocorreria?

— Que o homem anunciaria no Réveil a presença em Caudebec do aludido policial.

— Perfeito, e das duas uma: ou o peixe, quero dizer, Cahorn, não morde a isca e nada se passa ou então, e é a hipótese mais verossímil, acorre inquieto. E eis o meu Cahorn suplicando contra mim a assistência de um dos meus amigos.

— Cada vez mais original.

— É claro que o pseudopolicial recusa de início cooperar. Vem o telegrama de Arsène Lupin. Susto do barão, que implora de novo ao meu amigo, e lhe oferece um tanto para velar por sua imunidade. Meu amigo aceita; leva dois malandros do nosso bando, que, de noite, enquanto Cahorn é guardado à vista de seu protetor, transportam pela janela certo número de objetos e os fazem descer, com a ajuda de cordas, a uma boa lanchinha fretada. É simples como Lupin.

— E é tudo completamente maravilhoso — bradou Ganimard. — Nunca acabaria de elogiar a ousadia da concepção e a engenhosidade dos detalhes. Mas não vejo que policial seria tão conhecido para que seu nome pudesse atrair e sugestionar o barão a tal ponto.

— Existe um, e não mais que um.

— Qual?

— O mais notável, o inimigo pessoal de Arsène Lupin, em suma, o Inspetor Ganimard.

— Eu!

— Você mesmo, Ganimard. E eis o delicioso: se for até lá e o barão se decidir a falar, acabará descobrindo que seu dever é prender a você mesmo, como me prendeu na América! Que tal? A revanche é cômica: faço prender Ganimard por Ganimard!

Arsène Lupin ria abertamente. O inspetor, molestado, mordia os lábios. A brincadeira não lhe parecia merecer tal acesso de júbilo.

A chegada de um guarda lhe deu o tempo de se recompor. O homem trazia a refeição que Arsène Lupin, por favor especial, encomendara do restaurante mais perto. Deixando a bandeja na mesa, retirou-se. Arsène sentou-se, partiu o pão, deu duas ou três dentadas e prosseguiu:

— Mas fique tranquilo, caro Ganimard, não terá que ir lá. Vou lhe revelar uma coisa que o deixará assombrado: o caso Cahorn está à beira de ser arquivado.

— Hem?

— Arquivado, digo-lhe.

— Vamos, deixei há pouco o chefe da Sûreté...

— E daí? Será que o senhor Dudouis saberá mais que eu sobre o que me diz respeito? Fique sabendo que Ganimard... desculpe... o falso Ganimard continua nos melhores termos com o barão. Este, e é o principal motivo por que nada confessou, encarregou-o da delicadíssima tarefa de negociar comigo uma transação, e, neste momento, mediante certa soma, é provável que o barão tenha entrado na posse de suas queridas miudezas. Compensando isso, retirará sua queixa. De modo que não há mais roubo, e será preciso que a justiça abandone o caso.

Ganimard encarou estupefato o detido.

— E como sabe disso tudo?

— Acabo de receber a mensagem que esperava.

— Recebeu uma mensagem?

— Neste instante, caro amigo. Por polidez, não a quis ler na sua presença. Mas se me autoriza...

— Você está caçoando de mim.

— Queira, caro amigo, decapitar suavemente este ovo cozido. Verá por si mesmo que não estou caçoando.

Maquinalmente, Ganimard obedeceu, quebrando o ovo com a lâmina de uma faca. Um grito de surpresa lhe escapou. A casca vazia continha uma folha de papel azul. A pedido de Arsène, desdobrou-a. Era um telegrama, ou antes, a parte de um telegrama de que se tinham cortado as indicações postais. Leu:

“Acordo concluído. Cem mil bolas entregues. Tudo vai bem.”

— Cem mil bolas?

— Sim, cem mil francos! É pouco, mas, enfim, os tempos estão difíceis... E tenho despesas gerais tão pesadas! Se conhecesse meu orçamento... um orçamento de cidade grande!

Ganimard se levantou. Seu mau humor desaparecera. Refletiu uns segundos, olhando em conjunto o caso para descobrir seu ponto fraco. Em seguida disse, num tom em que deixava francamente transparecer a sua admiração de experiente no assunto:

— Felizmente não existe uma dúzia como você, senão teríamos de fechar a loja.

Arsène Lupin tomou um ar modesto e respondeu:

— Bem que era preciso me divertir um pouco, ocupar os lazeres... Ainda mais que se tratava de um golpe que não podia ter êxito se eu não estivesse preso.

— Como! — saltou Ganimard. — Seu processo, sua defesa, a instrução, tudo isso não basta para distraí-lo?

— Não, porque resolvi não assistir ao meu processo.

— Oh! Oh!

Arsène Lupin repetiu positivo:

— Não assistirei ao meu processo.

— Essa agora!

— Essa, meu caro. Imagina que vou apodrecer sobre a palha úmida?! Você me ofende. Arsène Lupin não fica na cadeia além do tempo que lhe agradar, e nem um minuto a mais.

— Teria sido mais prudente começar por não entrar nela — objetou o inspetor, irônico.

— Ah, graceja? Lembra que teve a honra de levar a efeito a minha prisão? Saiba, respeitável amigo, que ninguém, tanto você quanto qualquer outro, teria podido pôr a mão em mim, se um interesse bem mais considerável não me tivesse solicitado naquele momento crítico.

— Você me surpreende.

— Uma mulher me olhava, Ganimard, e eu a amava. Entende tudo o que há no fato de ser olhado por uma mulher que se ama? O resto importava pouco, juro. E por isso estou aqui.

— Há bastante tempo, permita que observe.

— Primeiro, queria esquecer. Não ria: a aventura tinha sido cativante, e eu conservava ainda a terna lembrança... depois, sou um pouco neurastênico. A vida é tão febril em nossos dias! Cumpre, em certos momentos, saber o que se chama cura de solidão. Este lugar é o máximo para regimes dessa espécie. Faz-se aqui a cura da Santé rigorosamente.

— Arsène Lupin — observou Ganimard —, você está me julgando tolo.

— Ganimard — contestou ele —, estamos hoje na sexta-feira. Quarta que vem, irei fumar o meu charuto na sua casa, na Rua Pergolèse, às quatro da tarde.

— Estarei esperando, Arsène Lupin.

Apertaram as mãos como bons amigos que se estimam em seu justo valor, e o velho policial se dirigiu para a porta.

— Ganimard!

Ele se voltou.

— Que foi?

— Esqueceu o seu relógio.

— Meu relógio?

— Sim, ele se perdeu no meu bolso. — Entregou-o, desculpando-se: — Perdoe... um mau hábito... porque tiraram o meu, não é razão para que eu o prive do seu. Ainda mais que tenho aí um cronômetro de que não posso me queixar e que satisfaz plenamente minhas necessidades.

Tirou da gaveta um grande relógio de ouro, grosso e confortável, ornado com uma pesada corrente.

— E este, de que bolso veio? — perguntou Ganimard.

Arsène Lupin examinou descuidadamente as iniciais.

— J. B... Quem diabo poderia ser?... Ah! Sim, lembro, Jules Bouvier, o meu juiz de instrução, um homem cativante...





A fuga de Arsène Lupin

No momento em que Arsène Lupin, tendo terminado de comer, tirou do bolso um belo charuto de anel dourado, examinando-o com satisfação, a porta da cela se abriu. Teve só o tempo de jogá-lo na gaveta e se afastar da mesa. O guarda entrou, era a hora do passeio.

— Esperava-o, caro amigo — bradou Lupin, sempre de bom humor.

Saíram. Mal desapareceram no ângulo do corredor, dois homens por sua vez penetraram na cela e iniciaram um exame minucioso. Um era o Inspetor Dieuzy, outro o Inspetor Folenfant.

Queriam acabar com aquilo. Não havia dúvida: Arsène Lupin mantinha entendimentos com o exterior e se comunicava com seus adeptos. Ainda na véspera, o Grand Journal publicara estas linhas dirigidas ao responsável pela seção de tribunais:

“Senhor,

Num artigo aparecido por esses dias, exprimiu-se a meu respeito em termos que nada poderia justificar. Dias antes da abertura de meu processo, irei lhe pedir contas. Distintas saudações.

Arsène Lupin.”

A escrita era bem de Arsène Lupin. Então, enviava cartas e as recebia. Então, era certo que preparava a fuga que anunciara de modo tão arrogante.

A situação se fazia intolerável. De acordo com o juiz de instrução, o chefe da Sûreté, senhor Dudouis, foi pessoalmente à Santé para expor ao diretor da prisão as medidas que convinha tomar. E já ao chegar enviou dois homens à cela do detido.

Levantaram cada uma das lajes, desmontaram a cama, fizeram tudo o que é de costume fazer num caso semelhante, e não descobriram nada. Iam renunciar às investigações, quando o guarda acorreu a toda pressa e lhes disse:

— A gaveta... olhem a gaveta da mesa. Quando entrei, pareceu-me que a fechava.

Olharam, e Dieuzy exclamou:

— Por Deus, desta vez pegamos o homem.

Folenfant o deteve.

— Alto aí, meu filho, o chefe fará o inventário.

— Mas este charuto de luxo...

— Deixe o havana e vamos avisar o chefe.

Dois minutos após, o senhor Dudouis examinava a gaveta. Achou primeiro um maço de artigos de jornais selecionados pelo Argus de la Presse e que se referiam a Arsène Lupin, em seguida uma bolsa de fumo, um cachimbo, papel chamado pele de cebola e enfim dois livros.

Olhou os títulos. Eram O culto dos heróis, de Carlyle, em edição inglesa, e um elzevir encantador, com encadernação da época, do Manual de Epíteto, numa tradução alemã publicada em Leyde em 1634. Folheando-os, constatou que todas as páginas estavam marcadas, sublinhadas, anotadas. Seriam sinais em código ou dessas marcas que mostram o entusiasmo que se tem por um livro?

— Vamos ver isso em pormenor — disse o senhor Dudouis. Examinou a bolsa de fumo, o cachimbo. A seguir, pegando o imponente charuto de anel dourado: — Puxa, nosso amigo se trata bem: um Henri Clay!

Com um gesto maquinal de fumante, levou-o ao ouvido e o fez estalar. Uma exclamação lhe escapou. O charuto cedera à pressão de seus dedos. Examinou-o com atenção e não tardou a descobrir algo branco entre as folhas de fumo. Delicadamente, com ajuda de um alfinete, extraiu um rolo de papel muito fino, da grossura de um palito. Era um bilhete. Desenrolou-o e leu estas palavras numa escrita miúda de mulher:

“O cesto tomou o lugar do outro. Oito sobre dez estão preparados. Apoiando no pé exterior, a placa se levanta de alto a baixo. De doze a dezesseis todos os dias, H-P esperará. Mas onde? Resposta imediata. Esteja tranquilo, sua amiga vela pelo senhor.”

Dudouis pensou um momento e disse:

— Está bastante claro... o cesto... as oito cabanas... de doze a dezesseis, é do meio-dia às quatro...

— Mas este H-P, quem esperará?

— H-P, no caso, deve significar automóvel, H-P, horse power, não é assim que em linguagem desportiva se designa a força de um motor? Um vinte e quatro H-P é um automóvel com vinte e quatro cavalos. — Levantou-se e perguntou: — O detido acabou de almoçar?

— Sim.

— Como não tinha ainda lido essa mensagem, como prova o estado do charuto, é provável que acabasse de recebê-la.

— Como?

— Nos alimentos, no miolo do pão ou numa batata, que sei?

— Impossível, só lhe autorizamos que mandasse vir suas refeições para que caísse numa armadilha, mas não encontramos nada.

— Procuraremos à noite a resposta de Lupin. De momento, retenham-no fora da cela. Vou levar isso ao senhor juiz de instrução. Se concordar comigo, faremos imediatamente fotografar a carta e dentro de uma hora podemos repor na gaveta, com os outros objetos, um charuto idêntico, contendo a própria mensagem original. Convém que o detido não desconfie de nada.

Não sem certa curiosidade, o senhor Dudouis voltou à noite ao escritório da Santé em companhia do Inspetor Dieuzy. Num canto, em cima da estufa, estavam três pratos.

— Ele comeu?

— Sim — respondeu o diretor.

— Dieuzy, queira cortar em pedaços bem finos estas tiras de macarrão e abrir este pãozinho... nada?

— Não, chefe.

Dudouis examinou os pratos, o garfo, a colher, a faca, uma faca comum de lâmina redonda. Virou o cabo à esquerda, depois à direita. À direita, cedeu e desparafusou. Era oco e servia de estojo a uma folha de papel.

— Ora! — Sorriu. — Não é assim tão sagaz, para um homem como Arsène. Mas não percamos tempo. Você, Dieuzy, vá investigar esse restaurante. — A seguir leu: — “Ponho-me em suas mãos. H-P seguirá de longe cada dia. Irei na frente. Até logo, cara e admirável amiga”.

— Enfim — exclamou o senhor Dudouis, esfregando as mãos —, acho que o caso está bem encaminhado. Um empurrãozinho de nossa parte e a evasão tem êxito... bastante ao menos para nos permitir prender os cúmplices.

— E se Arsène Lupin nos escorrega por entre os dedos? — objetou o diretor.

— Empregaremos o número de homens necessário. Se, no entanto, ele demonstrar habilidade demais... palavra, pior para ele! Quanto ao bando, já que o chefe se recusa a falar, os outros falarão.

De fato, Arsène Lupin não falava muito. Há meses, o senhor Jules Bouvier, o juiz de instrução, nesse sentido se esforçava em vão. Os interrogatórios se reduziram a colóquios desprovidos de interesse entre o juiz e o advogado Danval, um dos príncipes do foro, o qual aliás sabia sobre o inculpado mais ou menos tanto quanto qualquer um.

Uma vez ou outra, por gentileza, Arsène Lupin deixava escapar:

— Mas, sim, senhor juiz, estamos de acordo: o roubo do Crédit Lyonnais, o da Rua de Babylone, a emissão de notas falsas, o caso das apólices de seguro, o furto dos castelos de Armesnil, Gouret, Imblevain, Groselliers e Malaquis, tudo isso, tudo isso é obra deste vosso servidor.

— Então pode me explicar...

— Inútil, confesso tudo em conjunto, tudo, e mesmo dez vezes mais do que pode supor.

Cansado de insistir, o juiz suspendera seus interrogatórios enfadonhos. Tendo conhecimento dos dois bilhetes interceptados, retomou-os. E regularmente, ao meio-dia, Arsène Lupin era levado da Santé à Casa de Detenção, na viatura penitenciária, com certo número de detidos. Voltavam pelas três ou quatro horas.

Uma tarde, essa volta se realizou em condições particulares. Não tendo os outros presos sido ainda interrogados, decidiu-se levar primeiro Arsène Lupin. Subiu, pois, sozinho na viatura.

Esses veículos penitenciários, vulgarmente chamados “pratos de salada”, são divididos ao comprido por um corredor central, no qual se abrem dez compartimentos, cinco à direita e cinco à esquerda. Cada um está disposto de tal modo que se tem de ficar sentado, e os cinco prisioneiros, além de só dispor cada um de um lugar estreitíssimo, estão separados uns dos outros por tabiques paralelos. Um guarda, colocado na extremidade, vigia o corredor.

Arsène foi metido na terceira cela da direita, e o pesado carro arrancou. Deu-se conta de que deixavam a Praça de l’Horloge e passavam diante do Palácio da Justiça. Então, em meio à Ponte Saint-Michel, premiu o pé direito, tal como fazia toda vez, sobre a placa de ferro que fechava sua celinha. Em seguida, alguma coisa funcionou, a placa se afastou insensivelmente. Pôde constatar que se achava exatamente entre as duas rodas.

Aguardou, com o olhar à espreita. O carro subiu devagar o Boulevard Saint-Michel. No cruzamento com Saint-Germain, parou. O cavalo de uma charrete caíra no chão e, com o trânsito interrompido, logo se formou uma aglomeração de carruagens e de ônibus.

Arsène Lupin pôs a cabeça para fora. Outra viatura penitenciária estacionava ao lado da que ocupava. Levantou mais a cabeça, pôs o pé sobre um dos raios da grande roda e saltou em terra.

Um cocheiro o viu, caiu na gargalhada, quis em seguida chamar a atenção, mas sua voz se perdeu no barulho dos veículos, que se escoavam novamente. E Arsène Lupin já estava longe.

Deu uns passos correndo, mas, na calçada esquerda, voltou-se, olhou em volta de si, parecendo auscultar a direção do vento, como alguém que ainda não sabe bem que direção seguir. Logo, decidido, pôs as mãos nos bolsos e, com o ar negligente de quem passeia, continuou a subir a avenida.

O clima era doce, um clima leve e feliz de outono. Os cafés cheios. Sentou na esplanada de um deles. Pediu um chope e um maço de cigarros. Esvaziou o copo aos bocadinhos, fumou tranquilamente um cigarro, acendeu outro. Enfim, levantando-se, pediu ao garçom que chamasse o gerente.

Este veio e Arsène Lupin lhe disse, bastante alto para ser ouvido por todos:

— Estou aborrecido, senhor, esqueci a carteira. Mas quem sabe meu nome lhe é bastante conhecido para que consinta em me abrir um crédito por uns dias: Arsène Lupin. — O gerente o olhou, julgando tratar-se de um gracejo. Mas Arsène repetiu: — Lupin, detido na Santé, atualmente em estado de evasão. Ouso crer que esse nome lhe inspire toda a confiança.

E afastou-se em meio aos risos, sem que o outro pensasse em reclamar.

Atravessou a Rua Soufflot e tomou a Rua Saint-Jacques. Seguia tranquilamente, parando nas vitrinas e fumando cigarros. No Boulevard de Port-Royal, orientou-se, informou-se e foi direito à Rua de la Santé. As altas paredes monótonas da prisão logo apareceram. Contornou-as, chegou junto ao guarda que estava à porta e, tirando o chapéu, perguntou:

— É aqui a Santé?

— Sim.

— Desejaria voltar à minha cela. O carro me abandonou no caminho e não desejo abusar...

O rapaz resmungou:

— Ande, homem, vá indo, e depressinha, hem?

— Perdão, perdão! Acontece que meu caminho passa por esta porta. E se impedir Arsène Lupin de atravessá-la, pode lhe custar caro, meu amigo!

— Arsène Lupin! Mas que história é essa?

— Lamento não ter meu cartão — disse Arsène, fingindo procurar nos bolsos.

O guarda o mediu dos pés à cabeça, aturdido. Logo, sem uma palavra, como contra a vontade, puxou o cordão da campainha. A porta de ferro se entreabriu.

Minutos depois, o diretor acorreu ao escritório, gesticulando e simulando uma violenta cólera.

Arsène sorriu.

— Vamos, senhor diretor, não banque o sutil comigo. Mas como! Têm a cautela de me levar sozinho no carro, preparam um pequeno engarrafamento e imaginam que vou sair correndo para me reunir a meus amigos! E os vinte agentes da Sûreté que me escoltavam a pé, de carruagem e de bicicleta? Não, o que me teriam arrumado! Não teria saído vivo. Diga--me, senhor diretor, era talvez com isso que contavam? — Deu de ombros e acrescentou: — Peço-lhe, senhor diretor, que deixem de se ocupar comigo. No dia em que quiser escapar, não terei necessidade de ninguém.

Dois dias após, o Écho de France, que, fora de dúvida, se tornava o boletim oficial das proezas de Arsène Lupin — dizia-se que ele era um dos principais sócios comanditários do jornal —, publicava os detalhes mais completos dessa tentativa de evasão. Até o texto dos bilhetes trocados entre o detido e sua misteriosa amiga, os meios empregados nessa correspondência, a cumplicidade da polícia, o passeio pelo Boulevard Saint-Michel, o incidente do Café Soufflot, tudo revelado. Sabia-se que as pesquisas do Inspetor Dieuzy junto aos garçons do restaurante não tinham dado nenhum resultado. E, ficava-se sabendo, ademais, desta coisa pasmosa, que mostrava a infinita variedade de recursos de que este homem dispunha: o carro penitenciário, em que tinha sido transportado, uma viatura inteiramente preparada, que seu bando tinha substituído por uma das seis que faziam o serviço das prisões.

Ninguém mais duvidou da fuga próxima de Arsène Lupin. Ele mesmo, aliás, anunciava-a em termos categóricos, como o provava a sua resposta ao senhor Bouvier no dia seguinte ao incidente. Tendo o juiz zombado do seu fracasso, ele o fitou e disse friamente:

— Escute bem, senhor, e acredite na minha palavra: esta tentativa de evasão fazia parte do meu plano de fuga.

— Não entendo. — O juiz sorria.

— Seria inútil se entendesse.

E, como o juiz, no curso desse interrogatório, que apareceu por extenso nas colunas do Écho de France, retornasse à sua instrução, ele protestou, com ar de cansaço:

— Meu Deus, meu Deus, para que isso? Todas essas perguntas não têm a menor importância...

— Como não têm importância?

— ... já que não assistirei ao meu processo.

— Não assistirá...

— Não, é uma ideia fixa, uma decisão irrevogável. Nada me fará transigir.

Toda essa segurança e as indiscrições inexplicáveis que ocorriam a cada dia irritavam e desconcertavam a justiça. Havia aí segredos que Arsène Lupin era o único a conhecer, e cuja divulgação, por conseguinte, não podia provir senão dele. Mas com que fim os revelava? E como?

Mudaram Arsène Lupin de cela. Uma noite, desceu ao andar inferior. Por seu lado, o juiz encerrou a instrução e enviou o processo ao tribunal para início da acusação.

Foi o silêncio, e durou dois meses. Arsène passou-os na cama, com o rosto quase sempre virado para a parede. A mudança de cela parecia tê-lo abatido. Recusou receber seu advogado e apenas trocava algumas palavras com os guardas.

Na quinzena precedente a seu processo, pareceu reanimar-se. Queixou-se da falta de ar e o fizeram sair para o pátio, de manhã bem cedo, ladeado por dois homens.

A curiosidade pública, porém, não havia diminuído. A cada dia era esperada a notícia da sua evasão. Quase a desejavam, de tal modo a personagem caíra no gosto do público por sua verve, sua alegria, sua diversidade, seu gênio inventivo e o mistério de sua vida. Arsène Lupin tinha de fugir. Era inevitável, fatal. Uns até se surpreendiam que demorasse tanto. Todas as manhãs, o chefe de polícia perguntava ao secretário:

— Bem, e ele não foi embora ainda?

— Não, chefe.

— Então deve ser para amanhã.

Na véspera do processo, um cidadão se apresentou nos escritórios do Granel Journal, perguntou pelo colunista forense, atirou-lhe seu cartão no rosto e afastou-se rapidamente. No cartão, estavam gravadas estas palavras: “Arsène Lupin sempre cumpre as suas promessas”.

Nessas circunstâncias, os debates foram abertos.

A afluência era enorme. Não havia quem não quisesse ver o famoso Arsène Lupin, e todos saboreavam de antemão a maneira como se divertiria com o presidente. Advogados e magistrados, cronistas e gente da sociedade, artistas e mulheres conhecidas: toda a Paris em suma se comprimia nos bancos da audiência.

Chovia; lá fora o dia estava sombrio e mal se viu Arsène Lupin quando os guardas o trouxeram. No entanto, sua atitude pesada, a maneira como se deixou cair na cadeira reservada, sua imobilidade indiferente e passiva, nada disso parecia a seu favor. Várias vezes seu advogado — um dos auxiliares do Dr. Danval, já que este tinha julgado indigno de si o papel a que fora reduzido — lhe dirigiu a palavra. Ele oscilava a cabeça e não respondia.

O escrivão leu o ato acusatório e a seguir o presidente falou:

— Acusado, levante-se. Seu sobrenome, nome, idade e profissão. — Não recebendo resposta, repetiu: — Sobrenome? Estou perguntando o seu sobrenome.

Uma voz grossa e fatigada articulou:

— Baudru, Désiré.

Houve murmúrios. Mas o presidente insistiu:

— Baudru, Désiré? Ah, sim, uma nova encarnação! Como é talvez o oitavo nome que pretende ser o seu, sendo sem dúvida tão imaginário quanto os outros, fiquemos com ele, se desejar, em vez de Arsène Lupin, sob o qual é mais amplamente conhecido. — O presidente consultou suas notas e prosseguiu: — Pois, apesar de todas as pesquisas, foi impossível reconstituir a sua identidade. O senhor apresenta o caso, bem original em nossa sociedade moderna, de não ter passado. Não sabemos quem é, de onde vem, onde passou a infância, em suma, nada. Irrompe de repente, há três anos, não se sabe ao certo vindo de que ambiente, para se revelar de um só golpe Arsène Lupin, isto é, uma estranha mistura de inteligência e perversão, de imoralismo e generosidade. Os dados que temos sobre o senhor antes dessa época são antes suposições. É provável que o chamado Rostat, que há oito anos trabalhava junto com o prestidigitador Dickson, não seja outro senão Arsène Lupin. É provável que o estudante russo que frequentava, há seis anos, o laboratório do Dr. Altier, no Hospital Saint-Louis, e que não raro surpreendeu o mestre pela engenhosidade de suas hipóteses sobre bacteriologia e a audácia de suas experiências em doenças da pele, não seja outro senão Arsène Lupin. Arsène Lupin, igualmente, o professor de luta japonesa que se estabeleceu em Paris bem antes de que aqui se falasse em jiu-jítsu. Arsène Lupin, ainda, o corredor de bicicleta que ganhou o Grande Prêmio da Exposição, pegou os seus dez mil francos e não voltou a ser visto. Arsène Lupin talvez também aquele que salvou tantas pessoas pela claraboia do Bazar da Caridade... e furtou o que levavam de valor.

Uma pausa e concluiu:

— Tal seria esse seu período, que parece não constituir senão uma minuciosa preparação para a luta que empreenderia contra a sociedade, uma metódica aprendizagem onde levou ao mais alto ponto a sua força, sua energia e sua destreza. Reconhece a exatidão desses fatos?

Durante esse discurso, o acusado se balançara de uma perna para a outra, com as costas curvadas, os braços inertes. Sob a luz mais viva, notou-se sua magreza extrema, suas faces cavadas, com as maçãs estranhamente salientes, o rosto cor de terra, manchado de plaquinhas vermelhas e enquadrado por uma barba desigual e escassa. A cadeia o tinha consideravelmente envelhecido e murchado. Não se reconhecia mais a silhueta elegante e o rosto jovem de que os jornais tantas vezes haviam publicado o retrato simpático.

Dir-se-ia que não ouvira a pergunta que lhe tinham feito. Duas vezes ela lhe foi repetida. Então ergueu os olhos, pareceu refletir e, fazendo um grande esforço, murmurou:

— Baudru, Désiré.

O presidente se pôs a rir.

— Não estou entendendo bem o sistema de defesa que adotou, Arsène Lupin. Se for o de interpretar imbecis e irresponsáveis, pode prosseguir. Quanto a mim, irei direto ao objetivo sem me preocupar com as suas fantasias.

E começou a pormenorizar roubos, malandragens e falsificações atribuídas a Lupin. Às vezes, interrogava o acusado. Este soltava um grunhido ou não respondia.

O desfile das testemunhas começou. Houve vários depoimentos insignificantes, outros mais sérios, todos com o cunho bem comum de se contradizerem uns aos outros. Uma perturbadora obscuridade envolvia os debates, mas introduziram o Inspetor Ganimard, e o interesse se acendeu.

De saída, porém, o velho policial causou certa decepção. Tinha uma atitude não intimidada — já havia enfrentado situações bem mais difíceis —, mas preocupada, contrafeita. Muitas vezes voltou o olhar para o acusado com visível mal-estar. No entanto, com as duas mãos apoiadas na barra, narrava os incidentes em que estivera metido, sua busca pela Europa toda, indo até a América. Ouviam-no com avidez, como se fosse a narração de uma apaixonante aventura. Mas, perto de terminar, tendo aludido às suas conversas com Arsène Lupin, duas vezes se deteve, distraído, indeciso.

Estava claro que outro pensamento o obcecava.

O presidente lhe disse:

— Se está se sentindo mal, é melhor interromper o depoimento.

— Não, não, apenas... — Calou-se e fitou longa e profundamente o acusado, dizendo a seguir: — Peço licença para examinar o acusado mais de perto. Há aqui um mistério que é preciso que eu esclareça. — Aproximando-se, observou-o mais demoradamente ainda, com atenção concentrada, e voltou à barra. Aí, num tom um tanto solene, pronunciou: — Senhor presidente, afirmo que o homem que está aqui, à minha frente, não é Arsène Lupin.

Um grande silêncio acolheu essas palavras. O presidente, embasbacado, bradou:

— Como? Que está dizendo?! Está louco!

O inspetor declarou com firmeza:

— À primeira vista, a gente pode se deixar levar por uma semelhança, que existe com efeito, confesso, mas basta um segundo de atenção. O nariz, a boca, os cabelos, a cor da pele... enfim, tudo: não é Arsène Lupin. E os olhos, então, nunca ele teve esses olhos de alcoólatra!

— Vamos, explique-se. Que pretende dizer, testemunha?

— Vou eu saber! Ele deve ter posto em seu lugar um pobre-diabo que ia ser condenado. A não ser que se trate de um cúmplice.

Gritos, risos, exclamações partiam de todos os lados, na sala agitada por esse inesperado golpe teatral. O presidente convocou o juiz de instrução, o diretor da Santé, os guardas e suspendeu a audiência.

Reiniciando-a, mais tarde, o senhor Bouvier e o diretor, postos na presença do acusado, declararam não haver entre Arsène Lupin e aquele homem mais que uma parecença de traços muito vaga.

— Mas então — exclamou o presidente —, quem é este homem? De onde veio? Como se acha nas mãos da justiça?

Chamaram os dois guardas da Santé. Contradição de pasmar: reconheceram o detido de que tinham a vigilância permanente!

O presidente respirou. Mas um dos guardas prosseguiu:

— Sim, sim, creio que é ele.

— Como “crê”?

— Ora, eu mal cheguei a vê-lo. Entregaram-no de noite e há dois meses permanece sempre deitado contra a parede.

— Mas antes desses dois meses?

— Ah, antes ele não ocupava a cela 24.

O diretor da prisão precisou:

— Mudamos o detido de cela depois de sua tentativa de fuga.

— Mas o senhor, diretor, viu-o nesses dois meses?

— Não tive a oportunidade... Ele se mantinha tranquilo.

— E esse homem aí não é o preso que lhe foi entregue?

— Não.

— Então quem é?

— Não saberia dizer.

— Estamos, pois, diante de uma substituição que se teria realizado há dois meses. Como a explica?

— É impossível.

— E então? — Em desespero de causa, o presidente se virou para o acusado e com voz insinuante: — Vejamos, o senhor poderia me explicar como e desde quando está nas mãos da justiça?

Dir-se-ia que o tom benévolo desarmava a desconfiança ou estimulava o entendimento do homem. Tentou responder. Enfim, interrogado com doçura e habilidade, conseguiu reunir algumas frases de onde se tirava isto: dois meses atrás, tinha sido levado à Casa de Detenção, onde passara uma noite e uma manhã. Tendo consigo apenas setenta e cinco centavos, tinha sido liberado. Mas, ao atravessar o pátio, dois guardas o pegaram pelo braço e o levaram a uma viatura penitenciária. Desde então vivia na cela 24, não descontente... comia bem, não dormia mal... Assim, não tinha protestado.

Tudo isso parecia verossímil. Em meio a risadas e grande efervescência, o presidente remeteu o caso a outra seção para suprimento do inquérito.

O inquérito estabeleceu de saída este fato consignado no registro carcerário: oito semanas antes, um indivíduo chamado Désiré Baudru tinha dormido na Detenção. Liberado no outro dia, fora embora às duas da tarde. Ora, nesse dia, às duas horas, interrogado pela última vez, Arsène Lupin saía da instrução e voltava no carro penitenciário.

Teriam os guardas cometido um erro? Enganados pela semelhança, teriam, num momento de desatenção, trocado aquele homem pelo prisioneiro? Para tanto seria preciso que agissem com um descuido que seu tipo de tarefa não permitia supor.

A substituição fora previamente combinada? Além de que a disposição dos lugares tornava a coisa quase irrealizável, seria nesse caso necessário que Baudru fosse cúmplice e se fizesse prender com o objetivo preciso de tomar o lugar de Arsène Lupin. Mas então, por que milagre um tal plano, fundado numa série de oportunidades inverossímeis, encontros fortuitos e erros fabulosos, pudera ter êxito?

Fizeram passar Désiré Baudru pelo serviço antropométrico; não havia ficha correspondente à descrição de sua pessoa. No mais, achou-se facilmente seu rastro. Era conhecido em Courbevoie, Asnières, Levallois. Vivia de esmolas e dormia num casebre de trapeiros, que se reuniam perto da porta de Ternes. Há um ano, porém, tinha desaparecido.

Teria sido recrutado por Arsène Lupin? Nada autorizava a crer. E, se fosse assim, não se teria sabido mais sobre a fuga do prisioneiro. O prodígio continuava o mesmo. Das vinte hipóteses que tentavam explicá-la, nenhuma era satisfatória. Só a evasão não provocava dúvidas, e era incompreensível, impressionante, sentindo nela o público, tanto quanto a justiça, o esforço de uma longa preparação, um conjunto de atos maravilhosamente ligados uns aos outros e cujo desfecho justificava a orgulhosa predição de Arsène Lupin: “Não assistirei ao meu processo”.

Ao fim de um mês de buscas minuciosas, o enigma se apresentava com o mesmo cunho indecifrável. Não se podia, porém, conservar indefinidamente aquele pobre-diabo do Baudru. Processá-lo seria ridículo: de que poderiam acusá-lo? Sua liberação foi assinada pelo juiz de instrução. Mas o chefe da Sûreté decidiu manter em torno dele uma vigilância ativa.

A ideia veio de Ganimard, em cujo ponto de vista não havia nem cumplicidade nem acaso. Baudru era um instrumento que Arsène Lupin tinha usado com sua extraordinária habilidade. Deixando-o livre, chegariam através dele a Arsène Lupin, ou pelo menos até alguém do seu bando.

Os dois inspetores, Dieuzy e Folenfant, foram postos às ordens de Ganimard, e, numa manhã de janeiro, brumosa, as portas da cadeia se abriram para Désiré Baudru.

Pareceu de início embaraçado e caminhou como um homem sem ideias precisas sobre o uso do seu tempo. Seguiu pela Rua de la Santé e pela Rua Saint-Jacques. Numa lojinha de roupas usadas, tirou o casaco e o colete e, vendendo este último por poucas moedas, pôs de novo o casaco e foi-se embora.

Atravessou o Sena. No Châtelet, um ônibus passou. Quis subir, mas não havia lugar. O fiscal lhe aconselhou que comprasse uma passagem, e ele entrou na sala de espera.

Nesse momento, Ganimard chamou seus dois homens e, sem perder de vista a entrada da sala, disse-lhes às pressas:

— Consigam um carro... não, dois, é mais seguro. Irei com um de vocês e nós o seguiremos.

Os homens obedeceram. Baudru, porém, não aparecia. Ganimard entrou; não havia ninguém na sala.

— Fui um idiota — murmurou —, esqueci a outra saída.

A estação, com efeito, comunicava-se, por um corredor interno, com a da Rua Saint-Martin. Ganimard correu, chegando no instante exato de notar Baudru no ônibus Batignolles— Jardin des Plantes, que dobrava a esquina da Rua de Rivoli. Correu e pegou o ônibus. Mas tinha perdido seus dois agentes. Estava sozinho para continuar a perseguição.

Em seu furor, esteve à beira de pegar Baudru pelo pescoço sem maiores formalidades. Não fora com premeditação e por uma engenhosa astúcia que este suposto imbecil o tinha separado de seus auxiliares?

Fitou Baudru. Cochilava no banco, e sua cabeça balançava de um lado para outro. Com a boca semiaberta, o rosto tinha uma incrível expressão de estupidez. Não, não era um adversário capaz de enganar o velho Ganimard. O acaso lhe fora favorável, era isso.

No cruzamento das Galerias Lafayette, o homem passou do ônibus para o bonde da Muette. Seguiram pelo Boulevard Haussmann e pela Avenida Victor Hugo. Baudru só desceu diante da estação da Muette. E, num passo descuidado, afundou-se no Bois de Boulogne.

Passava de uma alameda a outra, voltava sobre seus passos, afastava-se. Que procurava? Teria uma meta?

Depois de uma hora desse exercício, parecia quebrado de fadiga. De fato, vendo um banco, sentou-se. O lugar, não longe de Auteuil, à beira de um laguinho escondido entre as árvores, estava absolutamente deserto. Escoou-se uma meia hora. Impaciente, Ganimard resolveu ir conversar com o homem.

Acercou-se e tomou lugar ao lado de Baudru. Acendeu um cigarro, traçou círculos na areia com a ponta da bengala e disse:

— Não está quente, hem?

Nada. E súbito, neste silêncio, vibrou uma risada, jubilosa, feliz, de uma criança num acesso de riso que não consegue parar. Ganimard sentiu com clareza seus cabelos realmente se eriçar na cabeça. O riso, o riso infernal que conhecia tão bem!...

Num gesto brusco, pegou o homem pela gola do casaco e o encarou, profunda, violentamente, melhor ainda do que havia olhado no tribunal, e em verdade não foi mais o mesmo homem que viu; era ele, mas era ao mesmo tempo o outro, o verdadeiro.

Ajudado por uma vontade cúmplice, reencontrou a vida ardente dos olhos, completou a máscara emagrecida, percebeu a carne real sob a epiderme estragada, a boca real atrás do ricto que a deformava. E eram os olhos do outro, a boca do outro, era especialmente a sua expressão aguda, viva, irônica, espiritual, tão clara e tão jovem!

— Arsène Lupin, Arsène Lupin — balbuciou.

E súbito, tomado de raiva, apertando-lhe a garganta, tentou derrubá--lo. Apesar dos seus cinquenta anos, era ainda de um vigor pouco comum, enquanto seu adversário parecia em bem más condições. E que golpe magistral se conseguisse levá-lo de volta!

A luta foi curta. Arsène Lupin se defendeu apenas e, tão prontamente quanto tinha atacado, Ganimard largou a presa. Seu braço direito pendia inerte, dormente.

— Se ensinassem jiu-jítsu no Quai des Orfèvres — declarou Lupin —, saberia que este golpe se chama udi-chi-ghi em japonês. — E acrescentou friamente: — Mais um segundo, quebrava-lhe o braço, e você não teria tido senão o que merece. Como pode um velho amigo, que estimo e diante do qual revelo espontaneamente o meu incógnito, abusar da minha confiança?! Mau, mau... E agora, o que é que lhe deu?

Ganimard se calou. Aquela fuga, de que se julgava responsável — não fora ele que, por seu depoimento sensacional, induzira a justiça em erro? —, parecia-lhe a vergonha da sua carreira. Uma lágrima rolou pelo seu bigode grisalho.

— Ah, meu Deus, Ganimard, não se preocupe; se não tivesse falado, eu teria dado um jeito para que outro falasse. Podia eu admitir que se condenasse Désiré Baudru?

— De modo que era você — murmurou Ganimard — que estava lá? É você que está aqui!

— Eu, sempre eu, unicamente eu.

— Será possível?!

— Ora, não é preciso bruxaria. Basta, como notou aquele bravo presidente, preparar-se durante uma dezena de anos para enfrentar qualquer eventualidade.

— Mas seu rosto? Seus olhos?

— Deve compreender que, se trabalhei dezoito meses no Saint-Louis com o Dr. Altier, não foi por amor à ciência. Pensei que aquele que teria um dia a honra de se chamar Arsène Lupin devia saber subtrair-se às leis comuns da aparência e da identidade. A aparência se modifica como se deseja. Uma injeção hipodérmica de parafina faz inchar a pele, bem no lugar escolhido. O ácido pirogálico o transforma num moicano. O suco da grande quelidônia o enfeita de impigens e tumores do mais feliz efeito. Tal processo químico age sobre o crescimento da barba e dos cabelos, tal outro sobre o som da voz. Junte a tudo isso dois meses de dieta na cela 24, exercícios repetidos mil vezes para abrir a boca segundo este ricto, para manter a cabeça nesta inclinação e minhas costas nesta curva. Enfim, cinco gotas de atropina nos olhos para torná-los rudes e fugidios, e a coisa está feita.

— Não concebo como os guardas...

— A metamorfose foi progressiva. Não puderam dia a dia notar a evolução.

— E Désiré?

— Désiré Baudru existe. É um pobre inocente que encontrei no ano passado e que de fato tem comigo certa analogia de traços. Prevendo uma prisão sempre possível, eu o pus em segurança e me apliquei em discernir desde o princípio os pontos de dessemelhança que nos separavam, para atenuá-los em mim tanto quanto podia. Meus amigos o fizeram passar uma noite na Detenção, de maneira que saísse aproximadamente à mesma hora que eu e que a coincidência fosse fácil de constatar. Pois note, era preciso que se achasse a marca da sua passagem, sem o que a justiça insistiria em saber quem eu era. Ao passo que, oferecendo-lhe esse excelente Baudru, era inevitável, entenda, inevitável que se atirassem em cima dele e que, apesar das dificuldades insuperáveis de uma substituição, preferissem acreditar nela em vez de confessar sua ignorância.

— Sim, sim, realmente — murmurou Ganimard.

— Depois — bradou Lupin —, tinha nas mãos um trunfo formidável, maquinado por mim desde o início: a espera em que todo o mundo estava de minha evasão. E esse foi o erro grosseiro em que caíram, você e os outros, nessa partida apaixonante que a justiça e eu jogamos e da qual o prêmio era a minha liberdade. Supuseram ainda uma vez que procedesse como um fanfarrão, inebriado por meus sucessos como um adolescente. Eu, Arsène Lupin, ter tal fraqueza! E, não mais que no caso Cahorn, vocês não disseram a si mesmos: “Se Arsène Lupin diz a todos os ventos que fugirá, é que tem razões que o obrigam a dizer isso”. Mas, arre, você tem de entender que para fugir... sem fugir, era preciso que se acreditasse de antemão nessa fuga, que isso fosse um artigo de fé, uma convicção absoluta, uma verdade clara como o sol. E foi assim, segundo minha vontade. Arsène Lupin se evadiria, Arsène Lupin não assistiria ao seu processo. E quando você se erguesse para afirmar, “Este homem não é Arsène Lupin”, teria sido sobrenatural que todo mundo não acreditasse imediatamente que eu não era Arsène Lupin. Se uma pessoa duvidasse e fizesse esta restrição, “Mas e se for Arsène Lupin?”, eu estaria perdido na hora. Bastava inclinar-se para mim não com a ideia de que eu não fosse Arsène Lupin, como você fez, você e os demais, mas com a ideia de que eu podia ser Arsène Lupin e, apesar de todas as minhas precauções, todos me reconheceriam. Mas eu estava tranquilo. Logicamente, psicologicamente, ninguém podia ter essa simples ideiazinha. — Pegou de repente a mão de Ganimard. — Vamos, Ganimard, confesse que, oito dias depois de nossa entrevista na Santé, você me esperou às quatro horas na sua casa, como eu lhe tinha solicitado.

— E sua viatura penitenciária? — disse Ganimard, evitando responder.

— Um blefe! Foram meus amigos que consertaram e substituíram esse velho carro fora de uso e desejaram tentar esse expediente. Mas eu o sabia impraticável sem um concurso de circunstâncias excepcionais. Apenas achei útil rematar essa tentativa de evasão e dar-lhe a maior publicidade. Uma primeira evasão audaciosamente armada dava à segunda o valor de uma evasão de antemão bem-sucedida.

— De modo que o charuto...

— Preparado por mim, tanto quanto a faca.

— E a misteriosa correspondente?

— Ela e eu não somos senão um... tenho as letras que desejar.

Ganimard refletiu um instante e objetou:

— Como é possível que no serviço de antropometria, quando fizeram a ficha de Baudru, não perceberam que coincidia com a de Arsène Lupin?

— A ficha de Arsène Lupin não existe.

— Essa não!

— Pelo menos é falsa. É um ponto que estudei muito. O sistema Bertillon abrange primeiro a descrição por medidas, da cabeça, dos dedos, das orelhas, etc. Aí não há nada a fazer.

— Então?

— Então, cumpria pagar. Antes mesmo da minha volta da América, um dos empregados do serviço aceitou uma quantia para registrar falsos algarismos na hora de me medirem. Foi suficiente para que todo o sistema se perdesse e minha ficha fosse parar numa seção oposta àquela em que devia estar. A ficha Baudru não devia, pois, coincidir com a ficha Arsène Lupin.

Houve ainda um silêncio e logo Ganimard perguntou:

— E agora, que vai fazer?

— Agora vou descansar, seguir um regime de superalimentação e voltar pouco a pouco a mim mesmo. Está muito bem ser Baudru ou qualquer outro, mudar de personalidade como de camisa e escolher sua aparência, sua voz, seu olhar, sua letra. Mas acontece que a gente acaba não se reconhecendo mais no meio disso tudo, e isso é triste. Sinto atualmente o que devia sentir o homem que perdeu a sua sombra. Vou me procurar... e me encontrar. — Andava de um lado a outro. O escuro já se misturava à luz do dia. Parou diante de Ganimard. — Não temos mais nada a nos dizer, calculo.

— Sim — respondeu o inspetor —, gostaria de saber se você revelará a verdade sobre sua fuga, o erro que cometi.

— Oh! Ninguém há de saber que foi Arsène Lupin o liberado. Tenho interesse demais em acumular em torno de mim as trevas mais misteriosas para não deixar a essa fuga o seu cunho quase miraculoso. Assim, não receie nada, meu bom amigo, e adeus. Janto na cidade esta noite e só me sobra tempo para pôr uma roupa conveniente.

— Julgava que você desejasse mais repouso!

— Ai! Há obrigações sociais que não se podem deixar de cumprir. O repouso começará amanhã.

— E onde vai jantar?

— Na Embaixada da Inglaterra!





O viajante misterioso

Tinha mandado o meu automóvel na véspera a Rouen pela estrada. Devia ir de trem pegá-lo ali, seguindo para a casa de amigos que moram às margens do Sena.

Ora, em Paris, alguns minutos antes da partida, sete senhores invadiram minha cabina; cinco deles fumavam. Por curto que seja o trajeto no trem expresso, a perspectiva de realizá-lo em tal companhia me foi desagradável, ainda mais que o vagão, de modelo antigo, não tinha corredor. Peguei meu sobretudo, meus jornais, meu guia e me refugiei num dos compartimentos vizinhos.

Aí se achava uma senhora. Ao me ver, teve um gesto de contrariedade que não me escapou e se inclinou para um senhor de pé no estribo do trem, seu marido sem dúvida, que a acompanhara à estação. O cidadão me observou, e o exame provavelmente terminou a meu favor, pois falou baixo à mulher, sorrindo, do modo como se tranquiliza uma criança que tem medo. Ela sorriu por sua vez e me enviou um olhar amigo, como se compreendesse de repente que eu era um desses homens gentis com quem uma mulher pode permanecer fechada duas horas, numa caixinha de seis pés quadrados, sem ter nada a recear.

Seu marido lhe disse:

— Não me queira mal, querida, mas tenho um encontro urgente e não posso esperar.

Beijou-a afetuosamente e foi embora. A mulher lhe enviava pela janela beijinhos discretos e sacudia o lenço.

Soou um apito, e o trem se pôs em marcha.

Nesse mesmo instante, e apesar dos protestos dos empregados, a porta foi aberta e um homem surgiu em nosso compartimento. Minha companheira, então de pé e arrumando as coisas na rede de bagagens, soltou um grito de terror e caiu sobre o banco.

Não sou covarde, longe disso, mas confesso que essas irrupções de última hora são sempre penosas. Parecem equívocas, pouco naturais. Devem esconder algo, sem o que...

O aspecto do recém-chegado, porém, e a sua atitude teriam antes atenuado a má impressão produzida por seu ato. Correção, quase elegância, uma gravata de bom gosto, luvas limpas, rosto enérgico... Mas, diabo, onde havia visto esse rosto? Pois a dúvida não era possível, eu o tinha visto. Ao menos, para ser mais exato, achava em mim a espécie de lembrança que deixa a visão de um retrato muitas vezes observado e de que nunca se contemplou o original. Ao mesmo tempo, sentia a inutilidade de todo esforço de memória, de tal modo essa lembrança era inconsistente e vaga.

Contudo, tendo fixado a atenção na dama, assombrou-me sua palidez e o transtorno de seus traços. Olhava seu vizinho — estavam sentados do mesmo lado — com uma expressão de espanto real, e constatei que uma de suas mãos, trêmula, deslizava a um pequeno saco de viagem sobre o banco a vinte centímetros de seus joelhos. Terminou por pegá-lo e nervosamente o puxou contra si.

Nossos olhos se encontraram, e li tanto mal-estar e ansiedade nos seus, que não pude me conter e disse:

— Não está se sentindo mal, senhora?... Quer que abra esta janela?

Sem me responder, indicou-me com um gesto temeroso o indivíduo. Sorri como teria feito seu marido, alcei os ombros e lhe expliquei por sinais que não tinha nada a temer, que eu estava ali, e que aliás aquele senhor parecia bem inofensivo.

Nesse instante, ele se virou para nós e, um depois do outro, considerou-nos dos pés à cabeça; a seguir, afundou no seu canto e não se mexeu mais.

Fez-se silêncio, mas a dama, como se tivesse juntado toda a sua energia para realizar um ato desesperado, disse-me numa voz apenas audível:

— Sabe que ele está no nosso trem?

— Quem?

— Mas ele... ele... lhe garanto.

— Ele quem?

— Arsène Lupin!

Não tinha abandonado com os olhos o viajante e era a ele, mais que a mim, que lançava as sílabas desse nome inquietante.

Ele baixou o chapéu sobre o nariz. Seria para esconder sua perturbação, ou simplesmente se preparava para dormir?

Fiz esta objeção:

— Arsène Lupin foi condenado ontem, por contumácia, a vinte anos de trabalhos forçados. É, pois, pouco provável que cometa hoje a imprudência de se mostrar em público. Além disso, os jornais não noticiaram a sua presença na Turquia neste inverno, depois de sua famosa evasão da Santé?

— Ele está neste trem — repetiu a dama, com a intenção cada vez mais marcada de ser ouvida por nosso companheiro. — Meu marido é subdiretor dos serviços penitenciários, e foi o próprio comissário da estação que nos disse que procuravam Arsène Lupin.

— Não é razão...

— Toparam com ele na sala dos Passos-Perdidos. Tinha comprado uma passagem de primeira classe para Rouen.

— Teria sido fácil agarrá-lo.

— Desapareceu. O fiscal, na entrada das salas de espera, não o viu, mas imaginava-se que havia passado pelas plataformas dos subúrbios e tivesse pegado o expresso que parte dez minutos depois de nós.

— Nesse caso, eles o pegarão.

— E se no último momento ele tivesse saltado do expresso para vir aqui, no nosso trem... como é provável... como é certo?

— Nesse caso, será aqui que o prenderão. Pois os empregados e os agentes não deixarão de notar a passagem de um trem usada em outro e, logo que chegarmos a Rouen, eles o agarrarão limpamente.

— A ele, nunca! Achará um meio de escapar ainda.

— Nesse caso, desejo-lhe feliz viagem.

— Mas daqui até lá, tudo o que ele pode fazer!

— O quê?

— Não sei, pode-se esperar qualquer coisa!

Estava muito agitada, e realmente a situação justificava até certo ponto essa excitação nervosa.

Quase contra a vontade, disse-lhe:

— Há de fato coincidências curiosas... mas tranquilize-se. Admitindo que Arsène Lupin esteja num destes vagões, vai ficar quietinho e, em vez de buscar novos aborrecimentos, não terá outra ideia senão evitar o perigo que o ameaça.

Minhas palavras não a acalmaram. Calou-se, porém, receando sem dúvida ser indiscreta.

Abri os jornais e li as coberturas do processo de Arsène Lupin. Como não continham nada que já não conhecesse, pouco me interessaram. Além disso, estava cansado, tinha dormido mal, e senti minhas pálpebras pesar e minha cabeça se inclinar.

— Mas, senhor, não me diga que vai dormir!

A mulher me arrancara os jornais e me fitava com indignação.

— Claro que não — respondi. — Não estou com sono.

— Seria a última das imprudências — afirmou.

— A última — repeti.

E lutava energicamente, agarrando-me à paisagem e às nuvens q