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A psicologia financeira

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Year:
2021
Publisher:
HarperCollins Brasil
Language:
portuguese
File:
MOBI , 1.33 MB
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1

The Shadow of the Gods

Year:
2021
Language:
english
File:
EPUB, 3.26 MB
2

Hukum Sihir, Dukun & Zina

Language:
indonesian
File:
PDF, 1.16 MB
Copyright © 2020 by Morgan Housel

All rights reserved.

Título original: The Psychology of Money

Copyright de tradução © 2021 por HarperCollins Brasil


Originally published in the UK by Harriman House Ltd in 2020, www.harriman-house.com.

Todos os direitos desta publicação são reservados à Casa dos Livros Editora LTDA.

Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copyright.

Diretora editorial: Raquel Cozer

Gerente editorial: Alice Mello

Editor: Ulisses Teixeira

Preparação: Daiane Cardoso

Revisão: Marina Góes

Capa: Christopher Parker

Adaptação de capa: Guilherme Peres

Diagramação: Abreu’s System


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Housel, Morgan

A psicologia financeira: lições atemporais sobre fortuna, ganância e felicidade / Morgan Housel; tradução Roberta Clapp, Bruno Fiuza. – 1. ed. – Rio de Janeiro, RJ: Harper Collins Brasil, 2021.

Título original: The Psychology of Money

ISBN 978-65-5511-115-6

1. Economia 2. Educação financeira 3. Finanças 4. Psicologia I. Título.

21-54507

CDD-150

Índices para catálogo sistemático:

1. Psicologia 150

Aline Graziele Benitez – Bibliotecária – CRB-1/3129

Os pontos de vista desta obra são de responsabilidade de seu autor, não refletindo necessariamente a posição da HarperCollins Brasil, da HarperCollins Publishers ou de sua equipe editorial.

HarperCollins Brasil é uma marca licenciada à Casa dos Livros Editora LTDA.

Todos os direitos reservados à Casa dos Livros Editora LTDA.

Rua da Quitanda, 86, sala 218 — Centro

Rio de Janeiro, RJ — CEP 20091-005

Tel.: (21) 3175-1030

www.harpercollins.com.br





Para

Meus pais, que me ensinam.

Gretchen, que me guia.

Miles e Reese, que me inspiram.





SUMÁRIO


Capa

Folha de rosto

Créditos

Dedicatória

Citação

Introdução: O maior espetáculo da Terra

1. Ninguém é maluco

2. Sor; te & Risco

3. Nada é o suficiente

4. Compostos e confusos

5. Ficar rico versus continuar rico

6. Devagar e sempre

7. Liberdade

8. O paradoxo do dono do carro

9. Fortuna é aquilo que você não vê

10. Guarde dinheiro

11. Razoável > Racional

12. Surpresa!

13. Margem para imprevistos

14. Você vai mudar

15. Nada é de graça

16. Você & Eu

17. A sedução do pessimismo

18. Quando você acaba acreditando em qualquer coisa

19. Recapitulando

20. Confissões

Pós-Escrito: Uma breve história sobre por que o consumidor americano pensa da forma que pensa

Agradecimentos

Notas





“Gênio é o homem capaz de tomar uma atitude mediana quando todos à sua volta não têm ideia do que fazer.”


– Napoleão



“O mundo é repleto de coisas óbvias que ninguém, em hipótese alguma, observa.”

– Sherlock Holmes





INTRODUÇÃO:


O maior espetáculo da Terra

DURANTE A FACULDADE, trabalhei como manobrista em um hotel chique de Los Angeles.

Um hóspede recorrente era um executivo da área de tecnologia. Ele era um gênio que, aos 20 anos, projetara e patenteara um componente essencial em roteadores Wi-Fi. Fundara e vendera várias empresas. Era extremamente bem-sucedido.

Além disso, ele tinha um relacionamento com dinheiro que eu descreveria como um misto de insegurança e inconsequência infantil.

O homem sempre andava com um maço enorme de notas de cem dólares, que exibia para todos que queriam ver e para muitos que não queriam. Quando estava bêbado, quase sempre se gabava da sua riqueza em alto e bom som, para todo mundo ouvir, e a troco de nada.

Certo dia, ele entregou milhares de dólares em espécie a um dos meus colegas e disse: “Vá na joalheria que tem aqui perto e compre umas moedas de ouro de mil dólares.”

Após uma hora, com as moedas em mãos, o executivo de tecnologia e seus amigos foram até um cais com vista para o oceano Pacífico. Começaram, então, a jogar as moedas no mar, fazendo-as quicar como se fossem pedrinhas, gargalhando enquanto discutiam sobre quem conseguira fazer as moedas chegarem mais longe. Só por diversão.

Alguns dias depois, ele quebrou uma luminária do restaurante do hotel. O gerente disse ao executivo que era uma luminária de quinhentos dólares e que ele teria que arcar com o prejuízo.

“Você quer quinhentos dólares?”, perguntou o homem, incrédulo, enquanto tirava notas do bolso e entregava ao gerente. “Aqui tem 5 mil dólares. Agora saia da minha frente e nunca mais me insulte assim de novo.”

Você deve estar se perguntando por quanto tempo é possível manter esse tipo de comportamento, e a resposta é “bem pouco”. Alguns anos depois, descobri que o executivo tinha perdido tudo.

A premissa deste livro é que o sucesso financeiro tem menos a ver com a sua inteligência e muito mais a ver com o seu comportamento. E a forma como alguém se comporta é uma coisa difícil de se ensinar, mesmo para pessoas bastante inteligentes.

Um gênio que não consegue controlar as suas emoções pode se tornar um desastre financeiro. O oposto também é verdade. Pessoas comuns sem nenhuma educação financeira são capazes de conquistar riqueza desde que tenham uma meia dúzia de habilidades comportamentais que não estão relacionadas aos métodos formais de medição de inteligência.

________________________

Meu verbete preferido da Wikipédia começa assim: “Ronald James Read foi um filantropo, investidor, faxineiro e frentista dos Estados Unidos da América.”

Ronald Read nasceu na zona rural de Vermont. Foi a primeira pessoa da sua família a concluir o ensino médio, e o fato de que ele precisava pegar carona todos os dias para chegar à escola torna a coisa toda ainda mais impressionante.

Para quem conhecia Ronald Read, não havia muito mais a ser dito. Sua vida era realmente tão discreta quanto parece.

Read passou 25 anos consertando carros em um posto de gasolina e 17 anos varrendo o chão em uma filial da JCPenney, uma rede de loja de departamentos. Aos 38 anos, comprou uma casa de dois quartos por 12 mil dólares, e viveu nela pelo resto da vida. Ficou viúvo aos 50 e não voltou a se casar. Um amigo contou que o principal hobby de Read era cortar lenha.

Read morreu em 2014, aos 92 anos. Foi quando o humilde faxineiro da zona rural ganhou as manchetes do mundo todo.

Ao todo, 2.813.503 americanos morreram em 2014. Menos de 4 mil tinham um patrimônio líquido de mais de 8 milhões de dólares quando faleceram. Ronald Read era um deles.

No testamento, o ex-faxineiro deixou 2 milhões de dólares para os enteados e mais de 6 milhões para o hospital e para a biblioteca da cidade.

Todos que conheciam Read ficaram perplexos. Onde ele tinha conseguido tanto dinheiro?

No fim das contas, não havia nenhuma história secreta. Nada de bilhete de loteria ou herança. Read guardou o pouco que podia e investiu em ações “blue chips”, ou seja, ações de primeira linha. Em seguida, passou décadas esperando aquele pequeno investimento inicial render e alcançar 8 milhões de dólares.

Simples assim. De faxineiro a filantropo.

Poucos meses antes da morte de Ronald Read, um homem de nome Richard também chamara a atenção dos jornais.

Richard Fuscone era tudo que Ronald Read não era. Fuscone, um executivo do banco Merrill Lynch formado em Harvard e com pós-graduação, teve uma carreira tão bem-sucedida no mercado financeiro que se aposentou aos 40 anos e se tornou filantropo. David Komansky, ex-CEO do Merrill Lynch, elogiou o “talento para os negócios, a capacidade de liderança, o bom senso e a integridade pessoal” de Fuscone. [ 01 ] A revista Crain, especializada em negócios, o incluiu em uma das suas listas de “40 empresários de sucesso com menos de 40 anos”. [ 02 ]

Mas eis que — à semelhança do executivo de tecnologia que jogava moedas de ouro no mar —, tudo veio abaixo.

Em meados dos anos 2000, Fuscone fez um grande empréstimo para expandir uma mansão de mais 1,5 mil metros quadrados em Greenwich, Connecticut, que tinha onze banheiros, dois elevadores, duas piscinas e sete garagens, e cujos custos de manutenção eram superiores a 90 mil dólares por mês.

E então veio a crise financeira de 2008.

A crise afetou as finanças de quase todo mundo e, aparentemente, transformou o dinheiro de Fuscone em pó. Dívidas altas e ativos sem liquidez o levaram à falência. “Neste momento, não tenho nenhuma fonte de renda”, declarou ele a um juiz de falências em 2008.

Primeiro, sua casa de Palm Beach foi executada. Em 2014, foi a vez da mansão de Greenwich.

Cinco meses antes de Ronald Read deixar sua fortuna para a caridade, a mansão de Richard Fuscone — onde os convidados se lembravam da “emoção de jantar e dançar em um piso transparente sobre a piscina interna da casa” — foi vendida em um leilão de execução hipotecária por um valor 75% menor do que o da avaliação feita por uma seguradora. [ 03 ]

Ronald Read era paciente; Richard Fuscone, ganancioso. Isso foi o suficiente para que a enorme diferença entre a formação e a experiência deles se tornasse irrelevante.

A lição aqui não é “seja mais como Ronald e menos como Richard” — embora esse não seja um conselho ruim.

O que é fascinante em relação a essas histórias é o quanto elas são exclusivas do mercado financeiro.

Em que outro setor alguém sem diploma universitário, sem treinamento, sem formação, sem experiência formal e sem conexões supera enormemente alguém com a melhor educação, o melhor treinamento e as melhores conexões?

Não consigo pensar em nenhum.

É impossível imaginar uma história na qual Ronald Read faz um transplante de coração melhor do que um cirurgião que estudou em Harvard. Ou na qual ele projeta um arranha-céu melhor do que arquitetos com diplomas de excelentes instituições. Ninguém nunca vai ouvir a história de um faxineiro que superou os melhores engenheiros nucleares do mundo.

Mas histórias assim acontecem no setor financeiro.

O fato de que Ronald Read e Richard Fuscone possam coexistir tem duas explicações possíveis. Uma diz que os resultados financeiros são orientados pela sorte, independentemente de inteligência e esforço. Isso é verdade até certo ponto, e este livro vai tratar do assunto com maior profundidade. A outra (que acredito ser mais comum) diz que o sucesso financeiro não é uma habilidade técnica. É uma habilidade pessoal, na qual o seu comportamento é mais importante do que o seu conhecimento.

Eu chamo essa habilidade pessoal de psicologia financeira. O objetivo deste livro é contar pequenos casos para convencer você de que as habilidades pessoais são mais importantes do que o lado técnico do capital. Vou fazer isso de forma a ajudar todo mundo — desde os mais semelhantes a Read até aqueles que se parecem mais com Fuscone — a tomar decisões financeiras melhores.

Eu descobri que essas habilidades pessoais são muito subestimadas.

A educação financeira é ensinada, em grande parte, como um campo puramente matemático: você preenche os dados em uma fórmula, essa fórmula lhe diz o que fazer, e presume-se que você simplesmente vai seguir a sugestão dela.

Isso acontece nas finanças pessoais, quando nos dizem que é preciso guardar 10% do salário e ter um fundo de emergência equivalente a seis meses de despesas.

Isso acontece no ramo de investimentos, no qual sabemos as correlações históricas exatas entre as taxas de juros e o valor de uma empresa.

E acontece no mundo corporativo, no qual CFOs são capazes de medir o custo preciso do capital.

Não é que essas coisas sejam ruins ou estejam erradas. O problema é que saber o que precisa ser feito não tem relação alguma com o que acontece dentro da sua cabeça quando você tenta fazer a coisa em si.

________________________

Dois tópicos afetam a todos, quer você esteja interessado neles ou não: saúde e dinheiro.

A indústria da saúde é uma vitória da ciência moderna, tendo proporcionado um aumento da expectativa de vida no mundo inteiro. As descobertas científicas substituíram velhos conceitos dos médicos sobre como o corpo humano funciona, e, assim, todos estão mais saudáveis hoje por causa disso.

Com a indústria do dinheiro — investimentos, finanças pessoais, planejamento de negócios — é outra história.

O setor financeiro cooptou as mentes mais brilhantes das principais universidades nas últimas duas décadas. Uma década atrás, o curso de engenharia financeira era o mais popular da Princeton’s School of Engineering. Existe alguma evidência concreta de que isso nos tornou investidores melhores?

Não encontrei nenhuma.

Por meio de tentativa e erro coletivos ao longo do tempo, nos tornamos melhores agricultores, encanadores mais qualificados e químicos mais sofisticados. Mas o método de tentativa e erro nos ensinou a melhorar as nossas finanças pessoais? Temos menos probabilidade de nos afundarmos em dívidas? É mais provável que tenhamos dinheiro guardado para imprevistos? Ou para a aposentadoria?

Temos uma visão mais realista sobre o que o dinheiro pode, e o que não pode, fazer pela nossa felicidade?

Não encontrei nenhum indício convincente.

Acredito que grande parte disso se deve ao fato de que pensamos e aprendemos sobre o dinheiro de formas parecidas demais com a física (com leis e paradigmas) e parecidas de menos com a psicologia (com emoções e pormenores).

E isso, para mim, é tão fascinante quanto essencial.

O dinheiro está por toda parte, afeta a todos nós e confunde a maioria das pessoas. Todo mundo pensa sobre ele de formas ligeiramente diferentes. Ele oferece lições sobre coisas que se aplicam a diferentes áreas da vida, como risco, confiança e felicidade. Poucos tópicos além do dinheiro mostram um paralelo mais poderoso para nos ajudar a entender por que as pessoas se comportam dessa ou daquela maneira. É um dos maiores espetáculos da Terra.

A abordagem que adoto da psicologia financeira foi moldada por mais de uma década escrevendo sobre o assunto. Comecei a fazer isso no início de 2008. Era o início de uma crise financeira, e a pior recessão enfrentada pelos Estados Unidos em oitenta anos.

Para poder falar sobre o que estava acontecendo, eu precisava descobrir o que estava acontecendo. Porém, a primeira coisa que aprendi depois que crise financeira explodiu foi que ninguém conseguia explicar de forma precisa o que se desenrolava, o porquê e muito menos o que deveria ser feito a respeito. Para cada boa explicação, havia uma refutação igualmente convincente. Engenheiros conseguem determinar a causa do desabamento de uma ponte porque há um consenso de que, se certa quantidade de força for aplicada sobre determinada área, essa área vai colapsar. A física não é controversa. Ela é guiada por leis. Com a economia, é diferente. A economia é guiada pelo comportamento das pessoas. E a forma como eu me comporto pode fazer sentido para mim, mas também pode parecer loucura para você.

Quanto mais eu estudava e escrevia sobre a crise, mais percebia que era possível entendê-la melhor pelas lentes da psicologia e da história do que pela perspectiva da economia.

Para entender por que as pessoas se atolam em dívidas, não é necessário estudar as taxas de juros, mas a história da ganância, da insegurança e do otimismo. Para entender por que investidores se desfazem de ações em meio a um bear market (um momento de queda acentuada), não é preciso estudar a matemática dos retornos esperados, mas, sim, pensar na agonia que é olhar para a sua família e se perguntar se os seus investimentos não estão colocando em risco o futuro dela.

Adoro uma observação creditada a Voltaire: “A história não se repete nunca; o homem se repete sempre.” Isso se aplica muito bem à forma como nos comportamos em relação ao dinheiro. Em 2018, escrevi um relatório detalhando vinte dos principais erros, vieses e motivos do mau comportamento com dinheiro. O título do relatório era The Psychology of Money, e ele foi lido por mais de um milhão de pessoas. Este livro é um mergulho mais profundo no mesmo tópico. Algumas passagens curtas do relatório estão presentes, inalteradas, aqui.

O que você tem em mãos são vinte capítulos, cada um descrevendo o que considero ser uma das características mais importantes, e muitas vezes contraintuitivas, da psicologia financeira. Os capítulos giram em torno de um tema comum, mas existem por conta própria, de modo que podem ser lidos de forma independente.

Este não é um livro extenso. (Não precisa agradecer.) Boa parte dos leitores não lê os livros até o fim porque a maioria dos tópicos não precisa de um sem-número de páginas para serem explicados. Prefiro fazer vinte observações curtas que você vai ler até o fim do que uma só, enorme, que você vai largar na metade.

Vamos lá.





1.


Ninguém é maluco




Suas experiências pessoais com dinheiro respondem por mais ou menos 0,00000001% do que acontece no mundo, mas por cerca de 80% da forma como você acha que o mundo funciona.





DEIXE-ME CONTAR UMA história sobre um problema. Ela pode fazê-lo se sentir melhor em relação a como você usa o seu dinheiro e menos crítico em relação a como os outros usam o deles.

As pessoas fazem coisas malucas quando o assunto é dinheiro. Mas ninguém é maluco. A história é a seguinte: pessoas de gerações diferentes, criadas por pais diferentes que ganharam rendas diferentes e acreditavam em valores diferentes, em partes diferentes do mundo, nascidas em economias diferentes, vivendo em mercados de trabalho diferentes com incentivos diferentes e graus de sorte diferentes, aprendem lições bem diferentes.

Cada pessoa tem uma visão única e particular sobre como as coisas funcionam. E o que você vivencia é mais forte do que aquilo que aprende pelo exemplo de outrem. Então, todo mundo — eu, você, cada um de nós — passa a vida ancorado em um conjunto de pontos de vista sobre como o dinheiro funciona, pontos que variam amplamente de indivíduo para indivíduo. O que parece loucura para você pode fazer sentido completo para mim.

Alguém que cresceu em meio à pobreza pensa sobre risco e recompensa de uma forma que o filho de um banqueiro abastado jamais conseguiria imaginar.

Alguém que cresceu em meio à inflação alta vivenciou algo que a pessoa que passou a vida em uma época de preços estáveis nunca teve que experimentar. O corretor da bolsa que perdeu tudo na Crise de 1929 experimentou algo que o trabalhador da indústria de tecnologia que desfrutou da glória do final dos anos 1990 nunca conseguiria conceber.

O australiano que passou trinta anos sem ver uma recessão pôde experimentar uma coisa que nenhum americano jamais experimentou.

E assim por diante. A lista de experiências é interminável.

Você sabe coisas sobre dinheiro que eu não sei, e vice-versa. Você tem crenças, expectativas e previsões diferentes das minhas. Não porque um de nós é mais inteligente que o outro, ou porque tem informações melhores. É porque tivemos vidas diferentes, moldadas por experiências diferentes, mas com o mesmo poder de influência.

Suas experiências pessoais com dinheiro respondem por mais ou menos 0,00000001% do que acontece no mundo, mas por cerca de 80% da forma como você acha que o mundo funciona. Portanto, pessoas igualmente inteligentes podem discordar sobre como e por que as recessões acontecem, sobre como investir dinheiro, sobre o que deve ser priorizado, sobre quanto risco se deve correr e assim por diante.

No livro que escreveu sobre os Estados Unidos da década de 1930, Frederick Lewis Allen disse que a Crise de 1929 “marcou — profundamente — milhões de americanos pelo resto das suas vidas”. Porém, a gama de experiências foi bastante ampla. Vinte e cinco anos depois da publicação do livro, durante a campanha presidencial de 1960, um repórter perguntou ao então candidato John F. Kennedy qual era sua lembrança da Grande Depressão. Kennedy respondeu:

Não sei nada sobre a Grande Depressão por experiência própria. Minha família tinha uma das maiores fortunas do mundo, que passou a valer mais do que nunca. Compramos casas maiores, mais empregados, viajamos mais. A única coisa que vi diretamente foi quando o meu pai contratou alguns jardineiros extras apenas para lhes dar um emprego para que pudessem comer. Não aprendi nada de verdade sobre a Grande Depressão até ler sobre ela em Harvard.

Aquele foi um momento importante da eleição. Como, as pessoas se perguntavam, alguém sem compreensão alguma da maior crise econômica recente poderia ser colocado no comando da economia? Esse fator só foi superado pela experiência de JFK na Segunda Guerra Mundial. Era a outra experiência emocional mais relevante para a geração mais velha, e algo que o seu principal oponente nas primárias do Partido Democrata, Hubert Humphrey, não tinha.

O desafio, para nós, é que nenhum volume de leituras ou de empatia é capaz de recriar genuinamente o poder do medo e da incerteza.

Posso ler sobre como foi perder tudo durante a Grande Depressão. Mas não tenho as cicatrizes emocionais de quem vivenciou aquele momento. E a pessoa que passou pela Crise de 1929 não consegue entender por que alguém como eu é capaz de agir e lidar com tranquilidade em relação a essa crise. Nós vemos o mundo com olhos diferentes.

Há planilhas que nos fornecem um modelo da frequência com que grandes quebras ocorrem ao longo da história no mercado de ações. Contudo, elas não têm como nos oferecer um modelo da sensação de voltar para casa, olhar para os seus filhos e se perguntar se você cometeu um erro que afetará a vida deles para sempre. Estudar história faz você ter a sensação de que entende um fato. No entanto, até que tenha vivido e sentido na pele as consequências dele, você não tem como entendê-lo o bastante para que isso mude o seu comportamento.

Todos nós achamos que sabemos como o mundo funciona. Mas todos nós experimentamos apenas uma pequena fração dele.

Como disse o investidor Michael Batnick: “Algumas lições precisam ser vividas antes de serem compreendidas.” Todos somos vítimas, cada um à sua maneira, dessa verdade.

________________________

Em 2006, os economistas Ulrike Malmendier e Stefan Nagel, do National Bureau of Economic Research, vasculharam cinquenta anos da Survey of Consumer Finances — uma pesquisa detalhada sobre o que os americanos fazem com o dinheiro que ganham. [ 04 ]

Em tese, as pessoas deveriam tomar decisões quanto a investimentos com base nos seus objetivos pessoais e nas particularidades de cada opção de investimento disponível naquele momento.

Porém, não é isso que acontece.

Os economistas descobriram que as decisões sobre investimentos mais importantes da vida das pessoas estão fortemente ancoradas nas experiências que elas tiveram na própria geração — sobretudo nas do início das suas vidas adultas.

Os indivíduos que cresceram em tempos de inflação alta investem menos dinheiro em títulos quando adultos se comparados àqueles que cresceram em tempos de inflação baixa. Aqueles que, por acaso, cresceram quando o mercado de ações estava forte, investem mais em ações quando adultos em comparação àqueles que cresceram em uma época em que as ações estavam fracas.

Os economistas escreveram: “Nossas descobertas sugerem que a predisposição dos investidores individuais em assumir riscos depende do histórico pessoal de cada um.”

Não é a inteligência, a formação ou a sofisticação. É simplesmente a sorte de ter nascido no lugar certo na hora certa.

Em 2019, o jornal Financial Times entrevistou Bill Gross, o famoso administrador de títulos. “Gross concorda com o fato de que, provavelmente, não estaria onde está hoje se tivesse nascido uma década antes ou depois”, dizia o artigo. A carreira dele coincidiu quase perfeitamente com uma geração inteira de queda nas taxas de juros, o que foi um vento favorável para o investimento em ações. Esse tipo de coisa afeta não apenas as oportunidades com as quais você se depara; afeta a forma como você pensa sobre essas oportunidades quando se vê diante delas. Para Gross, títulos eram como máquinas de fazer dinheiro. Para a geração do pai dele, que teve que encarar uma inflação bem mais alta enquanto crescia, costumavam ser vistos como máquinas de queimar dinheiro.

As diferenças na forma de vivenciar o dinheiro costumam variar bastante de pessoa para pessoa, até mesmo entre aquelas que julgamos serem muito semelhantes.

Vejamos as ações, por exemplo. Se você nasceu em 1970, o índice S&P 500 aumentou quase dez vezes, já descontada a inflação, durante a sua adolescência e os seus 20 anos. Esse é um retorno incrível. Se nasceu em 1950, o mercado americano não foi absolutamente a lugar algum durante a sua adolescência e os seus 20 anos, também descontada a inflação. Dois grupos de pessoas, separadas meramente pelo ano de nascimento, passam pela vida com uma visão muito diferente em relação ao funcionamento do mercado de ações:





Ou então a inflação. Se você nasceu nos Estados Unidos dos anos 1960, a inflação entre a sua adolescência e os seus 20 anos — ou seja, a sua juventude, um período de maior maleabilidade, quando você está desenvolvendo uma base de conhecimento sobre a forma como a economia funciona — fez os preços triplicarem. Isso é muita coisa. Você se lembra das filas nos postos de gasolina e dos salários que acabavam bem mais rápido do que o do mês anterior. No entanto, se nasceu em 1990, a inflação foi tão baixa durante toda a sua vida que você provavelmente nunca nem parou para pensar nela.





A taxa nacional de desemprego nos Estados Unidos em novembro de 2009 era de cerca de 10%. Porém, a taxa de desemprego para homens afro-americanos entre 16 e 19 anos sem diploma de ensino médio era de 49%. Para mulheres brancas com mais de 45 anos e diploma universitário, era de 4%.

Os mercados de ações da Alemanha e do Japão foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Regiões inteiras foram bombardeadas. No final da guerra, as fazendas alemãs só conseguiam produzir alimento suficiente para fornecer mil calorias por dia aos cidadãos do país. Compare isso com os Estados Unidos, onde o mercado de ações mais do que dobrou de valor de 1941 até o final de 1945, e a economia vivia o seu melhor momento em quase duas décadas.

Não faz sentido esperar que os membros de cada um desses grupos passem o restante da vida tendo a mesma visão sobre a inflação. Ou sobre o mercado de ações. Sobre o desemprego. Sobre dinheiro, em geral.

Não faz sentido esperar que essas pessoas respondam a informações sobre finanças da mesma forma. Não faz sentido presumir que serão influenciadas pelos mesmos estímulos.

Não faz sentido esperar que confiem nas mesmas fontes de aconselhamento. Não faz sentido esperar que concordem quanto ao que é mais importante, ao que vale mais a pena, ao que é mais provável de acontecer e a qual seja o melhor caminho a seguir.

A visão dessas pessoas sobre dinheiro foi formada em mundos diferentes. E, quando isso acontece, uma visão sobre dinheiro que um grupo considera ultrajante pode fazer todo o sentido do mundo para o outro.

Alguns anos atrás, o The New York Times publicou uma matéria sobre as precárias condições de trabalho da Foxconn, a gigantesca fabricante de aparelhos eletrônicos com sede em Taiwan. Com razão, os leitores ficaram ultrajados. No entanto, uma resposta fascinante veio do sobrinho de uma funcionária chinesa, que escreveu na seção de comentários:

Minha tia trabalhou vários anos no que os americanos costumam chamar de “sweatshops”. Trabalho difícil. Longas jornadas, salário “pequeno”, condições de trabalho “precárias”. Sabe o que a minha tia fazia antes de trabalhar em uma fábrica dessas? Ela era prostituta.

A ideia de trabalhar em uma “sweatshop” em comparação com aquele antigo estilo de vida é uma melhoria, na minha opinião. Sei que a minha tia preferia ser “explorada” por um malvado chefe capitalista por alguns dólares a ter o próprio corpo explorado por vários homens por alguns centavos.

É por isso que me aborreço com o pensamento de muitos americanos. Não temos as mesmas oportunidades que o Ocidente. Nossa infraestrutura governamental é diferente. O país é diferente. Sim, trabalhar na fábrica é horrível. Podia ser melhor? Podia, mas só quando você pensa nos empregos dos americanos.

Eu não sei o que fazer com isso. Parte de mim quer discutir. Parte de mim quer compreender. Mas, acima de tudo, isso é um exemplo de como experiências diferentes podem levar a visões muito distintas quanto a um tópico que um lado acredita, intuitivamente, que deveria ser preto no branco.

Toda decisão financeira que uma pessoa toma é fruto da informação que ela tem à disposição no momento, associada ao seu modelo mental único sobre a forma como o mundo funciona.

Essas pessoas podem estar mal-informadas. Podem ter informações incompletas. Podem ser ruins em matemática. Podem ter sido convencidas por propagandas enganosas. Podem não ter a menor ideia do que estão fazendo. Podem ter avaliado mal as consequências de suas atitudes. Tudo é possível. Mas cada decisão financeira que uma pessoa toma faz sentido para ela naquele momento e está de acordo com os parâmetros que ela própria determina. Ela conta a si mesma uma história sobre o que está fazendo e por que está fazendo — e essa história foi moldada pelas experiências únicas que viveu.

Veja um exemplo simples: bilhetes de loteria.

Os americanos gastam mais com bilhetes de loteria do que os valores que gastam com filmes, videogames, música, eventos esportivos e livros somados.

E quem compra esses bilhetes? Pessoas de baixa renda, em sua maioria.

As famílias de baixa renda nos Estados Unidos gastam em média 412 dólares por ano em bilhetes de loteria, quatro vezes o valor gasto pelas famílias de alta renda. Quarenta por cento dos americanos não conseguem dispor de quatrocentos dólares em uma emergência. Ou seja, aqueles que gastam quatrocentos dólares por ano em bilhetes de loteria são, em geral, os mesmos que dizem que não conseguiriam dispor de quatrocentos dólares em uma emergência. Os fundos de emergência dessas pessoas são desperdiçados em algo que tem a chance de retorno de uma em milhões.

Para mim, isso parece loucura. Provavelmente parece loucura para você também. Contudo, eu não faço parte do grupo de baixa renda. Você provavelmente também não faz. Portanto, é difícil para a maioria de nós compreender intuitivamente o raciocínio das pessoas de baixa renda que compram bilhetes de loteria.

Porém, com um pouco de esforço, talvez você consiga imaginar algo assim:

Você vive de salário em salário, e guardar dinheiro parece algo impensável. A perspectiva de aumentar esse salário também parece impensável. Você não tem como pagar por férias bacanas, carros novos, plano de saúde ou casas em bairros seguros. Seus filhos não têm acesso à faculdade sem que você assuma uma dívida incapacitante. A maioria das pessoas que leem livros sobre finanças ou já possuem, ou têm uma boa chance de obter, coisas que você jamais terá. Comprar um bilhete de loteria é o único momento da sua vida em que você pode sonhar de modo palpável em conquistar as coisas boas que essas pessoas já têm e com as quais nem precisam se preocupar. Você está comprando o bilhete por um sonho, e essas pessoas não têm como entender isso, porque elas já estão vivendo um sonho. É por isso que você compra mais bilhetes do que elas.

Você não precisa concordar com esse raciocínio. Comprar bilhetes de loteria quando não se tem dinheiro continua a ser uma péssima ideia. Mas eu consigo entender, de algum modo, por que algumas pessoas continuam comprando esses bilhetes.

E esse conceito de “o que você está fazendo parece loucura para mim, mas, de certa forma, eu entendo” expõe a origem de muitas das nossas decisões financeiras.

Poucas pessoas tomam esse tipo de decisão apenas com base em uma planilha. Elas fazem isso durante um jantar em família ou em uma reunião de negócios. Momentos em que história pessoal, visões singulares do mundo, ego, orgulho, marketing e estímulos improváveis se mesclam para formar uma narrativa que faça sentido para cada indivíduo.

________________________

Uma coisa importante, que ajuda a explicar por que é tão complicado tomar decisões financeiras e por que existem tantos comportamentos inadequados, é perceber o quanto esse assunto é recente.

O dinheiro circula entre nós há bastante tempo. Acredita-se que tenha sido o rei Alíates da Lídia, parte da atual Turquia, quem criou a primeira moeda oficial, por volta de 600 a.C. Mas os fundamentos modernos das decisões financeiras — poupar e investir — têm por base conceitos que ainda estão engatinhando.

A aposentadoria, por exemplo. Nos Estados Unidos, ao final do ano de 2018, havia 27 trilhões de dólares investidos em planos de aposentadoria, fazendo dela o principal estímulo das decisões de investimento e de poupança do investidor comum. [ 05 ]

No entanto, o conceito de se ter direito a uma aposentadoria existe há, no máximo, duas gerações.

Antes da Segunda Guerra Mundial, a maioria dos americanos trabalhava até morrer. Essa era a expectativa e a realidade. A taxa de participação na força de trabalho de homens com 65 anos ou mais era superior a 50% até os anos 1940:





A Administração do Seguro Social tinha o intuito de mudar isso. Porém, no princípio, seus benefícios nem chegavam perto de ser uma aposentadoria adequada. Quando Ida May Fuller descontou o primeiro cheque do Seguro Social em 1940, ele valia 22,54 dólares, ou 416 dólares hoje em dia, reajustando com a inflação. Foi apenas na década de 1980 que o valor médio do Seguro Social para aposentados ultrapassou mil dólares mensais, já corrigidos pela inflação. Até o final dos anos 1960, o Departamento do Censo classificava mais de um quarto da população americana acima dos 65 anos entre os que viviam em situação de pobreza.

Havia uma crença generalizada de que “todo mundo tinha um plano de previdência privada”. Isso, no entanto, é bastante exagerado. O Employee Benefit Research Institute explica: “Apenas um quarto das pessoas com 65 anos ou mais recebia algum tipo de pensão em 1975.” Dentre essa sortuda minoria, a pensão representava apenas 15% da renda familiar. Em 1955, o The New York Times publicou um artigo sobre o desejo cada vez maior, em contraste com a persistente impossibilidade, que os americanos tinham de se aposentar: “Reformulando um velho ditado: todo mundo está falando em se aposentar, mas, aparentemente, poucos estão fazendo algo a respeito disso.” [ 06 ]

Foi somente na década de 1980 que surgiu o conceito de que todos mereciam, e deveriam ter, uma aposentadoria digna. Desde então, a forma de obter essa aposentadoria digna tem sido a expectativa de que cada um vai economizar e investir nela do próprio bolso.

É importante reforçar o quanto este conceito é recente: o plano 401(k) — a forma mais comum de poupança para aposentadoria nos Estados Unidos — não existia até 1978. A Roth IRA (individual retirement account, ou conta individual de aposentadoria) só surgiu em 1998. Se fosse uma pessoa, mal teria idade para beber.

Não deveria ser motivo de espanto para ninguém o fato de muitos de nós sermos péssimos em guardar dinheiro para a aposentadoria. Ninguém aqui é maluco. Somos novatos, só isso.

A mesma coisa vale para a universidade. O percentual de americanos acima dos 25 anos com diploma de ensino superior passou de menos de 5% em 1940 para 25% em 2015. [ 07 ] O custo médio de uma faculdade nesse período aumentou mais de quatro vezes, descontando a inflação. [ 08 ] O fato de algo de tal dimensão ter atingido a sociedade com essa rapidez explica, por exemplo, por que tantas pessoas tomaram decisões equivocadas em relação a empréstimos estudantis nos últimos vinte anos. Não há décadas de experiência acumulada de onde podemos tirar alguma lição. Estamos improvisando.

E a mesma coisa também se aplica aos fundos de índice, que têm menos de 50 anos de idade. E os fundos de cobertura, que não haviam decolado até 25 anos atrás. Mesmo o uso generalizado do endividamento do consumidor — prestações imobiliárias, cartões de crédito e empréstimos para a compra de automóveis — só começou após a Segunda Guerra Mundial, quando uma lei sancionada em 1944 pelo presidente Franklin D. Roosevelt tornou mais fácil o empréstimo para milhões de americanos.

Os cachorros foram domesticados há 10 mil anos, e até hoje mantêm alguns comportamentos dos seus ancestrais selvagens. Apesar disso, aqui estamos nós, com algo entre vinte a cinquenta anos de experiência no sistema financeiro moderno, na expectativa de estarmos perfeitamente adaptados.

Em um tema tão sensível ao embate “emoções versus fatos”, isso é um problema. Porém, esse fator nos ajuda a entender por que nem sempre fazemos o que deveríamos quando o assunto é dinheiro.

Todos fazemos coisas malucas com o dinheiro, porque todos somos relativamente novos neste jogo, mas o que parece maluquice para você pode fazer todo sentido para mim. Só que ninguém é maluco — todo mundo toma decisões com base em experiências pessoais, singulares, que parecem fazer sentido em um determinado momento.

Agora, deixe-me contar a história sobre como Bill Gates ficou rico.





2.


Sorte & Risco




Nada é tão bom nem tão ruim quanto parece.





SORTE E RISCO são irmãos. São a expressão concreta de que todo resultado na vida é guiado por outras forças além do mero esforço individual.

Scott Galloway, professor da Universidade de Nova York, tem uma frase que vale a pena lembrar na hora de avaliar o sucesso — tanto o nosso próprio quanto o dos outros: “Nada é tão bom nem tão ruim quanto parece.”

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Bill Gates estudou em uma das únicas escolas de ensino médio do mundo que tinha um computador.

Por si só, a história de como a Lakeside School, nos arredores de Seattle, conseguiu um computador já é notável.

Bill Dougall, ex-combatente da marinha americana na Segunda Guerra Mundial, se tornou professor de matemática e ciências. “Ele acreditava que, sem experiência no mundo real, ficar apenas lendo livros não serviria para nada. Ele também percebeu que seria preciso saber alguma coisa sobre computadores antes de entrar para a faculdade”, lembrou o falecido cofundador da Microsoft, Paul Allen.

Em 1968, Dougall pediu à associação de mães dos alunos para usar os lucros do brechó que elas organizavam uma vez por ano — cerca de 3 mil dólares — para arrendar um computador Teletype Model 30 conectado a um terminal de mainframe da General Electric, de modo a usar o recurso de time-sharing. “O conceito de time-sharing na informática tinha sido inventado em 1965”, disse Gates mais tarde. “Alguém estava muito bem antenado.” A maioria das instituições de pós-graduação não possuía um computador tão avançado quanto aquele a que Bill Gates teve acesso ainda no ensino médio. E o garoto ficou fascinado.

Gates tinha 13 anos em 1968 quando conheceu Paul Allen, seu colega de turma. Allen também estava obcecado pelo computador da escola, e os dois se deram bem na mesma hora.

O computador da Lakeside não fazia parte do currículo principal, mas de um programa de estudo independente. Bill e Paul podiam brincar com ele à vontade, deixando a criatividade correr solta — depois das aulas, tarde da noite, nos fins de semana. Em pouco tempo, os dois se tornaram especialistas em computação.

Allen contou que se lembra de uma vez em que Gates, durante uma dessas sessões noturnas, mostrou a ele uma edição da revista Fortune e falou: “Como deve ser comandar uma empresa Fortune 500?” Allen respondeu que não fazia ideia. “Talvez algum dia a gente tenha a nossa própria empresa de computadores”, disse Gates. Hoje, a Microsoft vale mais de um trilhão de dólares.

Agora, façamos uma continha rápida.

De acordo com a ONU, havia cerca de 303 milhões de pessoas em idade escolar no mundo em 1968.

Cerca de 18 milhões delas viviam nos Estados Unidos, sendo 270 mil no estado de Washington.

Pouco mais de 100 mil delas viviam na área de Seattle. E apenas cerca de trezentas frequentaram a Lakeside School. Começamos com 303 milhões e terminamos com trezentos.

Apenas um em cada um milhão de estudantes em idade escolar frequentou a instituição de ensino médio que tinha a combinação de dinheiro e visão para conseguir um computador. Bill Gates era um deles.

Gates não tem constrangimento em falar sobre o significado disso. “Se não fosse a Lakeside School, não haveria Microsoft”, afirmou aos formandos da escola em 2005.

Mais do que inteligente, Gates é acima de tudo dedicado, e ainda na adolescência teve um insight em relação aos computadores que a maioria dos executivos mais experientes da área não foi capaz de compreender. Ele também teve uma vantagem de um em um milhão ao estudar em Lakeside.

Agora, deixe-me falar um pouco sobre um amigo de Gates, Kent Evans. Ele experimentou uma dose igualmente potente do irmão da sorte, o risco. Bill Gates e Paul Allen se tornaram nomes conhecidos graças ao sucesso da Microsoft. No entanto, a gangue de prodígios da informática da Lakeside School tinha um terceiro integrante.

Kent Evans e Bill Gates se tornaram melhores amigos no último ano do ensino fundamental. Segundo Gates, Evans era o melhor aluno da turma.

Os dois passavam “horas e horas no telefone”, conta Gates na série O código Bill Gates. “Eu me lembro do número do Kent até hoje”, disse ele. “Era 525-7851.”

Evans era tão hábil com computadores quanto Gates e Allen. Certa vez, a Lakeside estava tendo dificuldades para montar a grade curricular da escola — um complexo labirinto para fazer com que centenas de alunos assistissem às aulas de que precisavam em horários diferentes. A escola deixou Bill e Kent — duas crianças — a cargo da tarefa de desenvolver um programa de computador para sanar o problema. Funcionou.

E, ao contrário de Paul Allen, Kent tinha a mesma mente voltada para os negócios e a mesma ambição infinita de Gates. “Kent sempre andava com uma maleta enorme, igual a um advogado”, recorda Gates. “Estávamos sempre planejando o que fazer dali a cinco ou seis anos. Será que a gente devia virar CEO? Que tipo de mudança seríamos capazes de promover? Será que a gente devia virar general? Ou embaixador?” Fosse o que fosse, Bill e Kent estavam certos de que fariam aquilo juntos.

Ao relembrar a amizade com Kent, Gates fica com a voz embargada. “A gente podia ter continuado a trabalhar junto. Tenho certeza de que teríamos ido para a mesma faculdade.” Kent poderia ter sido um dos fundadores da Microsoft, junto com Gates e Allen.

Contudo, isso nunca aconteceu. Kent morreu antes mesmo de terminar o ensino médio, em um acidente quando praticava montanhismo.

Todo ano, ocorrem cerca de trinta mortes devido à prática de montanhismo nos Estados Unidos. [ 09 ] A probabilidade de perder a vida em uma montanha durante o ensino médio é de aproximadamente uma em um milhão.

Bill Gates experimentou uma sorte em um milhão ao se matricular na Lakeside School. Kent Evans experimentou um risco em um milhão ao nunca conseguir terminar o que ele e Gates planejavam alcançar. A mesma força, a mesma escala de grandeza, trabalhando em direções opostas.

Sorte e risco são a expressão concreta de que todo resultado na vida é guiado por outras forças além do mero esforço individual. Os dois são tão parecidos que você não tem como acreditar em um sem respeitar o outro na mesma medida. Ambos existem porque o mundo é complexo demais para permitir que 100% das suas ações respondam por 100% dos seus resultados. Ambos são movidos pela mesma força: você é apenas uma pessoa em um jogo com outras sete bilhões de pessoas e um número infinito de peças móveis. O ocasional impacto de ações que estão fora do seu controle pode ter consequências mais profundas do que as ações que você executa conscientemente.

Porém, ambos são tão difíceis de mensurar e de aceitar que muitas vezes passam despercebidos. Para cada Bill Gates existe um Kent Evans igualmente habilidoso e motivado que acabou do lado oposto da roleta da vida.

Quando você passa a dar o devido respeito à sorte e ao risco, percebe que, ao avaliar o sucesso financeiro das pessoas — tanto o seu quanto o dos outros — nada nunca é tão bom ou tão ruim quanto parece.

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Anos atrás, perguntei ao economista Robert Shiller, ganhador do Nobel de Economia em 2013: “O que você gostaria de saber sobre investimentos que ainda não foi descoberto?”

“O papel exato que a sorte desempenha em resultados bem-sucedidos”, respondeu ele.

Eu adoro essa resposta, porque ninguém duvida, de verdade, que a sorte não desempenha papel algum no sucesso financeiro. Entretanto, devido à dificuldade de mensurá-la e ao fato de que é indelicado sugerir que o sucesso dos outros se deva a ela, nossa postura mais comum é a de ignorar discretamente a sorte enquanto fator responsável pelo sucesso.

Se eu perguntasse: “Há um bilhão de investidores no mundo. Você acha que dez deles podem ter se tornado bilionários essencialmente por obra do acaso, em um golpe de sorte?”, você responderia: “Claro.” Mas, então, se eu lhe pedisse para citar o nome desses investidores — bem na cara deles —, você provavelmente mudaria de ideia.

Ao avaliar os outros, atribuir o sucesso à sorte nos faz parecer invejosos e mesquinhos, ainda que saibamos que esse tipo de coisa exista. E, ao avaliarmos a nós mesmos, atribuir o sucesso à sorte pode soar desmoralizante. O economista Bhashkar Mazumder mostrou que há uma correlação maior entre a renda de irmãos do que em características como a altura ou o peso. Se você é rico e alto, a probabilidade de o seu irmão também ser rico é maior do que a de ele também ser alto. Acredito que a maioria das pessoas sabe, intuitivamente, que isso é verdade — a qualidade da sua educação e as portas que se abrem para você estão fortemente relacionadas ao status socioeconômico dos seus pais. Mas fale isso para dois irmãos ricos, e eles provavelmente dirão que as descobertas deste estudo não se aplicam a eles.

O mesmo acontece com o fracasso — que pode ser qualquer coisa, desde uma falência a não alcançar uma meta pessoal.

Empresas que vão à falência não se esforçaram o suficiente? Os investimentos que se provaram ruins foram mal planejados? Carreiras estagnadas são culpa da preguiça? Às vezes, sim. É óbvio.

Mas em que medida? É difícil saber. Qualquer coisa que valha a pena conquistar tem probabilidade de sucesso inferior a 100%, e o risco é justamente o que acontece quando você vai parar no lado infeliz dessa equação. Assim como acontece com a sorte, a narrativa fica difícil, confusa e complexa demais quando tentamos determinar o quanto de um determinado desfecho se deve a uma decisão consciente e o quanto dele se deve ao risco.

Digamos que eu compre uma ação e, cinco anos depois, ela não foi a lugar algum. É possível que eu tenha tomado uma decisão errada ao comprá-la. Também é possível que eu tenha tomado uma decisão acertada, que envolvia 80% de chances de lucro, mas acabei indo parar no lado dos infelizes 20%. Como saber qual é qual? Cometi um erro ou apenas vivenciei o risco de forma concreta?

É possível medir, estatisticamente, se algumas decisões foram acertadas ou não. Porém, no mundo real, no dia a dia, não fazemos isso. É complicado. Preferimos as histórias simples, que são menos complexas, mas, com enorme frequência, diabolicamente enganosas.

Depois de passar anos lidando com investidores e líderes empresariais, percebi que o fracasso do outro em geral é atribuído a más decisões, enquanto os nossos costumam ser atribuídos ao lado sombrio do risco. Ao avaliarmos o erro do outro, temos maior propensão a optar por uma história pura e simples de causa e efeito, porque não sabemos o que se passa dentro da cabeça da outra pessoa. “Ele não teve um bom resultado, então tomou uma decisão equivocada” é a história que faz mais sentido para mim. No entanto, ao avaliar a mim mesmo, posso inventar uma narrativa bem mais complexa, justificando todas as minhas decisões passadas e atribuindo os resultados ruins ao risco.

A revista Forbes não coloca na capa os investidores falidos que tomaram boas decisões, mas que, ainda assim, experimentaram o lado infeliz do risco. Porém, quase sempre coloca os investidores ricos que tomaram decisões corretas, ou até mesmo imprudentes, e tiveram sorte. Ambos lançaram a mesma moeda, que, por acaso, caiu com um lado diferente virado para cima.

O aspecto perigoso disso é que todos nós estamos tentando aprender o que funciona e o que não funciona em relação ao dinheiro.

Quais estratégias de investimento funcionam? Quais não funcionam? Quais estratégias de negócios funcionam? Quais não funcionam? Como ficar rico? Como evitar ficar pobre?

Nossa tendência é tirar lições observando sucessos e fracassos e dizendo: “Faça o que fulana fez, evite o que beltrano fez.”

Se tivéssemos uma varinha de condão, descobriríamos exatamente quais desses resultados se devem a atitudes que podem ser replicadas e aqueles que, de alguma forma, foram influenciados pelo papel aleatório do risco e da sorte. Mas não temos uma varinha de condão. Temos cérebros que preferem respostas fáceis, sem apetite por nuances. Portanto, identificar todas as características que devemos imitar ou evitar pode ser bastante complicado.

Vou contar agora outra história, sobre um sujeito que, assim como Bill Gates, se tornou extremamente bem-sucedido. No entanto, não é fácil determinar se seu sucesso foi fruto de sorte ou de habilidade.

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Cornelius Vanderbilt tinha acabado de fechar uma série de negócios para expandir seu império ferroviário.

Um dos conselheiros de negócios dele se arriscou a dizer que cada um dos acordos do conjunto com o qual ele havia concordado infringia a lei.

“Meu Deus, John”, disse Vanderbilt. “Você acha mesmo possível operar uma ferrovia de acordo com a legislação do Estado de Nova York?” [ 10 ]

Eis meu primeiro pensamento ao ler isso: “Foi por causa dessa atitude que ele se tornou tão bem-sucedido.” As leis não previam a existência de ferrovias na época de Vanderbilt. Então, ele pensou “que se dane” e foi em frente. Vanderbilt se tornou muito bem-sucedido. Portanto, é tentador enxergar o desprezo dele pelas leis — algo notório e vital para seu sucesso — como um gesto de sabedoria. Aquele visionário não permitia que nada ficasse entre ele e seus planos!

Mas quão perigosa é essa análise? Nenhuma pessoa em sã consciência listaria “infringir a lei” entre os requisitos para o sucesso enquanto empreendedor. Não é difícil imaginar a história de Vanderbilt tomando um rumo bem diferente — um criminoso cuja empresa recém-inaugurada foi por água abaixo devido a imbróglios com a justiça.

Portanto, temos um problema aqui.

Você pode elogiar Vanderbilt por ter desprezado a lei com a mesma paixão com que critica a Enron, companhia de energia falida em 2007, pela mesma atitude. Talvez um tenha tido sorte ao fugir das garras da lei, enquanto a outra se viu no lado do risco.

A história de John D. Rockefeller é semelhante. Suas frequentes tentativas de burlar a lei — certa vez, um juiz falou que a empresa dele não era “melhor do que um ladrãozinho qualquer” — são quase sempre retratadas pelos historiadores como um exemplo de talento para os negócios. Talvez tenham sido. Porém, em que momento a narrativa muda de “Você não deixou que leis ultrapassadas atrapalhassem o seu progresso” para “Você cometeu um crime”? Ou, ainda, quanto a história teria que mudar para que a narrativa passasse de “Rockefeller era um gênio, procure aprender com os sucessos dele” para “Rockefeller era um criminoso, procure aprender com os erros dele”? Muito pouco.

“Que me importa a lei?”, disse Vanderbilt certa vez. “Eu tenho poder, não tenho?”

Ele tinha, e tudo deu certo. Mas é fácil imaginar essas palavras como sendo as últimas de uma história com um desfecho bem diferente. A linha que separa o ousado do imprudente pode ser bastante tênue. E, muitas vezes, ela desaparece quando não damos o peso adequado ao risco e à sorte.

Benjamin Graham é tido como um dos maiores investidores de todos os tempos, pai do conceito de investimento em valor e mentor de Warren Buffett. No entanto, a maior parte do sucesso de Benjamin Graham nos investimentos se deveu à posse de uma enorme fatia das ações da seguradora americana GEICO, o que, como o próprio Graham admitiu, quebrava quase todas as regras de diversificação que ele havia estabelecido nos seus escritos. Nesse caso, onde fica a linha tênue que separa ousadia de imprudência? Não sei responder. Graham escreveu sobre sua bonança com as ações da GEICO: “Um golpe de sorte ou uma decisão extremamente perspicaz — é possível diferenciar um do outro?” Não é nada fácil.

Da mesma forma, consideramos Mark Zuckerberg um gênio por ter recusado a oferta de 1 bilhão de dólares que o Yahoo! fez em 2006 pela sua empresa. Ele mirou no futuro e confiou em si mesmo. No entanto, as pessoas criticam com igual vigor o próprio Yahoo! por ter recusado uma grande oferta de compra por parte da Microsoft — aqueles idiotas deviam ter colocado o dinheiro no bolso enquanto ainda tinham tempo! Que lição fica para os empreendedores aqui? Não faço a menor ideia, porque risco e sorte têm contornos difíceis de definir.

Existem diversos exemplos disso.

Inúmeras fortunas (e falências) se devem à alavancagem financeira.

Os melhores (e os piores) gerentes exigem dos seus funcionários o máximo que podem.

“O cliente tem sempre razão” e “O cliente não sabe o que quer” são ambos ditados famosos no mundo dos negócios.

A linha que separa o “inspiradoramente ousado” do “estupidamente imprudente” pode ter um milímetro de espessura e ser visível apenas em retrospectiva.

Risco e sorte são como irmãos gêmeos.

Não é fácil contornar essa questão. A dificuldade em identificar o que é sorte, o que é talento e o que é risco é um dos maiores problemas que enfrentamos ao tentar aprender sobre a melhor forma de administrar o nosso dinheiro.

Contudo, duas coisas podem nos dar uma boa direção.

Tome cuidado com quem você elogia e admira. Tome cuidado com quem você menospreza e procura evitar se tornar.

Ou apenas tome cuidado antes de presumir que a totalidade de um resultado pode ser atribuída ao esforço e às decisões. Quando meu filho nasceu, escrevi a ele uma carta que contém o seguinte trecho:

Algumas pessoas nascem em famílias que valorizam a educação; outras, que são contra ela. Alguns nascem em economias florescentes que estimulam o empreendedorismo; outros nascem em meio à guerra e à miséria. Quero que você mereça e que conquiste o sucesso. Mas nunca se esqueça de que nem todo sucesso se deve ao trabalho duro, e nem toda pobreza se deve à preguiça. Tenha isso em mente antes de julgar as pessoas, inclusive você mesmo.

Portanto, concentre-se menos nos indivíduos e nos estudos de caso específicos e mais em padrões gerais.

Estudar uma pessoa específica pode ser perigoso, porque temos a tendência de analisar exemplos fora da curva — os bilionários, os CEOs ou os fracassos retumbantes que dominam o noticiário —, e, em geral, esses exemplos são os menos aplicáveis a outras situações, dada a complexidade deles. Quanto mais fora da curva o resultado, menor a probabilidade de que você possa aplicar as lições dele à sua vida, porque será maior a probabilidade de o resultado ter sido influenciado por excessos de sorte ou de risco.

Ao procurar por padrões gerais de sucesso e fracasso, você vai se aproximar mais de ações que podem ser postas em prática. Quanto mais difundido o padrão, mais aplicável ele pode ser à sua vida. Tentar imitar o êxito dos investimentos de Warren Buffett é difícil, porque os resultados são tão extremos que o papel da sorte no desempenho da vida dele é provavelmente muito alto, e sorte não é uma coisa que pode ser reproduzida de forma confiável. Mas perceber, como veremos no Capítulo 7, que as pessoas que têm controle sobre o próprio tempo tendem a ser mais felizes é uma observação ampla e comum com a qual você pode fazer algo de útil.

Meu historiador preferido, Frederick Lewis Allen, passou a carreira retratando a vida do americano médio, comum — como vivia, por quais mudanças passou, com o que trabalhava, o que comia no jantar etc. Há mais lições relevantes que podem ser extraídas desse tipo de observação ampla do que do estudo de personagens fora da curva que tendem a monopolizar o noticiário.

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Bill Gates disse certa vez: “O sucesso é um péssimo professor. Ele faz com que pessoas inteligentes acreditem que não vão perder nunca.”

Quando as coisas estão indo muito bem, esteja ciente de que nem tudo é tão bom quanto você pensa. Você não é invencível, e se admite que a sorte lhe trouxe o sucesso, então também deve acreditar no irmão dela, o risco, que pode provocar uma reviravolta na sua história com a mesma rapidez.

E o contrário também vale.

Da mesma forma, o fracasso também pode ser um péssimo professor, porque faz com que pessoas inteligentes acreditem que as suas decisões foram péssimas, quando às vezes elas apenas estão considerando a dimensão implacável do risco. O truque para lidar com o fracasso é organizar a vida financeira de forma que um mau investimento aqui e uma meta financeira não alcançada ali não tirem você de campo, de modo a poder continuar jogando até que os números voltem a estar a seu favor.

Porém, o mais importante é que, para além de reconhecer o papel que a sorte desempenha em relação ao sucesso, o papel representado pelo risco significa que devemos nos perdoar e deixar um espaço para a compreensão ao julgar os fracassos.

Nada é tão bom nem tão ruim quanto parece.

Agora, vejamos as histórias de dois homens que abusaram da sorte.





3.


Nada é o suficiente




Mesmo quem já é rico comete loucuras.





O FUNDADOR DO Vanguard Group, John Bogle, falecido em 2019, contou certa vez uma história sobre dinheiro que evidencia algo a que não costumamos dar a devida atenção:

Em uma festa oferecida por um bilionário em Shelter Island, o escritor Kurt Vonnegut informa ao amigo e também escritor Joseph Heller que o anfitrião, um administrador de fundos de hedge, ganhou mais dinheiro em um único dia do que Heller ganhou em toda a vida com seu popular romance Ardil-22. Heller responde: “Certo, mas eu tenho uma coisa que ele nunca vai ter … o suficiente.”

Suficiente. Fiquei chocado diante da eloquência simples daquela palavra — e por dois motivos: primeiro, porque eu mesmo também ganhei muita coisa ao longo da vida, e, segundo, porque Joseph Heller não poderia ter sido mais preciso.

Para uma parcela crítica da nossa sociedade, que engloba boa parte dos mais ricos e mais poderosos, parece não haver um limite que defina o que é o “suficiente”.

Esse é um conceito fundamental e muito poderoso.

Deixe-me dar dois exemplos dos perigos de não se ter o suficiente e que lições podemos tirar deles.

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Rajat Gupta nasceu em Calcutá e ficou órfão na adolescência. Muito se fala sobre a quantidade ínfima de pessoas com o privilégio de ter nascido em berço de ouro. Considerando essa metáfora, Gupta não teve nem mesmo um berço.

Levando em conta esse ponto de partida, é simplesmente fenomenal observar o que ele conquistou.

Por volta dos 45 anos, Gupta era CEO da McKinsey, a empresa de consultoria de maior prestígio do mundo. Ele se aposentou em 2007 para assumir cargos na ONU e no Fórum Econômico Mundial. Tornou-se parceiro de Bill Gates nos trabalhos de filantropia. Integrou o conselho administrativo de cinco empresas de capital aberto. Saído das favelas de Calcutá, Gupta se tornou um dos homens de negócios mais bem-sucedidos do nosso tempo.

Com o sucesso veio uma riqueza enorme. Em 2008, sua fortuna estava avaliada em 100 milhões de dólares. [ 11 ] É uma soma insondável para a maioria das pessoas. Uma taxa de retorno de 5% sobre essa quantia rende quase 600 dólares por hora, 24 horas por dia.

Ele poderia ter feito o que quisesse na vida.

E o que ele queria, ao que tudo indicava, não era ser um mero hectamilionário. Rajat Gupta queria ser bilionário. Com todas as suas forças.

Gupta integrava o conselho administrativo do Goldman Sachs, e, portanto, estava sempre rodeado por alguns dos investidores mais ricos do mundo. Um deles, referindo-se às fortunas dos magnatas do private equity, descreveu Gupta da seguinte forma: “Acho que ele quer fazer parte desse círculo. O círculo de quem está na casa dos bilhões de dólares, não é? O Goldman está mais para um círculo dos que têm centenas de milhões, certo?” [ 12 ]

Certo. Logo, Gupta encontrou um negócio paralelo lucrativo.

Em 2008, quando o Goldman Sachs estava enfrentando a tempestade da crise financeira, Warren Buffett planejava investir 5 bilhões de dólares no banco para ajudá-lo a sobreviver. Como membro do conselho, Gupta teve acesso a essa informação antes do público. E era uma informação valiosa. A sobrevivência do Goldman estava em xeque, e o apoio de Buffett certamente faria com que as ações do banco disparassem.

Dezesseis segundos depois de tomar conhecimento do acordo iminente, Gupta, que havia participado à distância da reunião do conselho, desligou o telefone e ligou para um gerente de fundos de cobertura chamado Raj Rajaratnam. Não há um registro gravado dessa ligação, mas Rajaratnam comprou de imediato 175 mil ações do Goldman Sachs, então podemos presumir o teor da conversa. O acordo entre Buffett e o Goldman foi anunciado para o público algumas horas depois. As ações do banco dispararam. Rajaratnam faturou um milhão de dólares. Esse é apenas um exemplo de um suposto uso de informação privilegiada. A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos afirma que as dicas de Gupta proporcionaram ganhos na ordem de 17 milhões de dólares.

Um dinheiro fácil. E, para os promotores, um caso mais fácil ainda.

Gupta e Rajaratnam foram presos por uso de informações privilegiadas, e suas carreiras e reputações foram arruinadas para sempre.

Vejamos agora o caso de Bernie Madoff. O crime que ele cometeu é bem conhecido. Madoff é o mais notório operador de esquema Ponzi desde Charles Ponzi em pessoa. Ele enganou investidores por duas décadas antes que o crime viesse à tona — ironicamente, poucas semanas após a empreitada de Gupta.

O que costuma ser esquecido é o fato de que Madoff, assim como Gupta, era mais do que um fraudador. Antes de operar o esquema Ponzi que acabou tornando-o famoso, ele era um empresário honesto e extremamente bem-sucedido.

Madoff era um fazedor de mercado, alguém que conecta compradores e vendedores de ações. E era muito bom nisso. Em 1992, o The Wall Street Journal descreveu a empresa de formação de mercado de Madoff com estas palavras:

Madoff ergueu uma corretora de valores bastante lucrativa, a Bernard L. Madoff Investment Securities, responsável por um volume significativo das ações negociadas em Wall Street. Os 740 milhões de dólares que em média são negociados eletronicamente todos os dias pela Madoff respondem por cerca de 9% do volume de transações da Bolsa de Nova York. A empresa é capaz de executar transações de forma tão rápida e barata que, na verdade, paga um centavo de dólar por ação a outras corretoras para que estas executem os pedidos dos seus clientes, lucrando com a diferença entre os preços de compra e venda que a maioria das ações proporciona.

Isso não é um jornalista descrevendo de forma incorreta uma fraude prestes a ser descoberta. O negócio de formação de mercado estava dentro da lei. Um ex-funcionário relatou que esse mercado rendia a Madoff entre 25 milhões e 50 milhões de dólares por ano.

O negócio não fraudulento de Bernie Madoff era um enorme sucesso, qualquer que fosse o parâmetro. Ele o tornou imensa e legitimamente rico.

Mas, ainda assim, veio a fraude.

A pergunta que devemos fazer a Gupta e a Madoff é por que um indivíduo com uma fortuna na faixa de centenas de milhões de dólares está tão desesperado atrás de mais dinheiro que é capaz de arriscar tudo nessa busca.

Os crimes cometidos por aqueles que vivem à margem da sobrevivência são diferentes. Um golpista nigeriano disse certa vez ao The New York Times que se sentia culpado por ter prejudicado outras pessoas, mas que “a miséria fazia com que não doesse tanto”. [ 13 ]

O que Gupta e Madoff fizeram é outra coisa. Eles já tinham riqueza inimaginável, prestígio, poder e liberdade. E jogaram tudo para o alto porque queriam mais.

Eles não tinham noção do suficiente.

Estes são exemplos extremos. Porém, existem versões desse comportamento que não infringem a lei.

O fundo de cobertura Long-Term Capital Management era formado por traders com fortunas individuais na casa das dezenas e das centenas de milhões de dólares, e com a maior parte dessa riqueza investida nos próprios fundos. Então, eles correram tantos riscos na busca por mais dinheiro que conseguiram perder tudo que tinham — em 1998, em meio à maior alta de mercado e da melhor situação econômica da história. Warren Buffett falou algum tempo depois:

Para ganhar o dinheiro que não tinham e do qual não precisavam, eles arriscaram aquilo que tinham e de que precisavam. Isso é estupidez. É estupidez, pura e simplesmente. Arriscar algo que é importante para você em troca de algo que não é importante para você não faz sentido algum.

Nada justifica arriscar algo que você já tem e do qual precisa por algo que você não tem e do qual não precisa.

Isso é uma daquelas coisas que são óbvias e ignoradas na mesma medida. Poucos de nós vamos ter 100 milhões de dólares algum dia, como Gupta ou Madoff tiveram.

Contudo, um percentual considerável dos leitores deste livro, em algum momento da vida, terá um salário ou uma soma de dinheiro suficiente para cobrir tudo aquilo de que precisam e muito do que desejam.

Se você é uma dessas pessoas, mantenha algumas coisas em mente.

1. Ao lidar com dinheiro, a coisa mais difícil a fazer é parar de reajustar as metas para cima o tempo todo.

Mas é também uma das mais importantes. Se as expectativas aumentam graças aos resultados positivos, não há lógica em correr atrás de mais, porque, no fim das contas, você vai acabar sempre com o mesmo sentimento. É perigoso quando o desejo de ter mais — mais dinheiro, mais poder, mais prestígio — faz a ambição crescer a uma velocidade maior do que a satisfação. Nesse caso, um passo adiante empurra a meta dois passos à frente. Apesar do avanço, a sensação é de estar ficando para trás, e a única forma de alcançar a meta é correndo riscos cada vez maiores.

O capitalismo moderno é ótimo em fazer duas coisas: gerar riqueza e gerar inveja. Talvez elas andem de mãos dadas; querer superar seus pares pode ser o combustível para se esforçar mais. No entanto, a vida não é nada divertida sem um senso de suficiência. A felicidade, como se diz, é o que sobra dos resultados depois de subtraídas as nossas expectativas.

2. A comparação social é a questão.

Imagine um jogador de beisebol novato, que receba 500 mil dólares por ano. Não importa o parâmetro adotado, ele é rico. Digamos, no entanto, que ele jogue no mesmo time de Mike Trout, que tem um contrato de 430 milhões de dólares por 12 anos. Em comparação ao astro, o novato parece falido. Pensemos, então, em Mike Trout. Trinta e seis milhões de dólares por ano é uma cifra absurda. Porém, para figurar na lista dos dez gestores de fundos de cobertura mais bem pagos em 2018, era preciso faturar ao menos 340 milhões em um ano. [ 14 ] É com eles que pessoas como Trout podem comparar suas receitas. E o gestor de fundos de cobertura que ganha 340 milhões por ano se compara aos cinco maiores gestores de fundos de cobertura, que faturaram 770 milhões ou mais em 2018. Esses gestores de alto escalão podem mirar em pessoas como Warren Buffett, cuja fortuna pessoal cresceu 3,5 bilhões de dólares em 2018. E alguém como Buffett poderia pensar em Jeff Bezos, cujo patrimônio líquido cresceu 24 bilhões em 2018 — uma cifra que corresponde a mais dólares por hora do que o jogador de beisebol “rico” ganhou em um ano inteiro.

A questão é: o teto da comparação social é tão alto que, em teoria, ninguém jamais será capaz de alcançá-lo. Portanto, é uma batalha que não pode ser vencida. Ou, talvez, a única maneira de vencê-la não envolva lutar, para começo de conversa, mas aceitar que você já tem o suficiente, ainda que seja menos do que os outros ao redor.

Todo ano, um amigo meu faz uma “peregrinação” a Las Vegas. Em uma dessas idas, ele perguntou a um crupiê: “Quais jogos você joga, e em quais cassinos joga?” O crupiê respondeu, com total seriedade: “A única forma de ganhar em um cassino de Las Vegas é sair dele logo depois de entrar.”

É exatamente assim que funciona o jogo de tentar alcançar as fortunas alheias.

3. “Suficiente” não é pouco.

A ideia de ter o “suficiente” pode parecer conservadora, desperdiçando oportunidades e potenciais.

Eu discordo.

“Suficiente” é perceber que o oposto disso — ter um apetite insaciável por mais — vai levá-lo até o ponto do arrependimento.

A única maneira de saber o quanto você aguenta comer é comendo até passar mal. Poucos tentam fazer isso, porque, por melhor que seja a comida, vomitar não compensa. Por alguma razão, essa mesma lógica não é aplicada aos negócios e aos investimentos, e muitos só param de correr atrás de mais quando vão à falência e são forçados a parar. Pode ser algo que só cause mal a você mesmo, como ter uma crise de burnout no trabalho ou alocar recursos em um investimento arriscado que você não tem como bancar, ou, em casos extremos, agir como Rajat Gupta e Bernie Madoff, recorrendo ao roubo porque cada dólar vale a pena, dane-se as consequências.

Não importa a forma, pois essa incapacidade de recusar qualquer ganho em potencial acabará cobrando o seu preço.

4. Há muitas coisas que não valem a pena arriscar nunca, independentemente do ganho em potencial.

Depois de deixar a cadeia, Rajat Gupta disse ao The New York Times que aprendera uma lição:

Não se apegue muito a nada — seja à sua reputação, às suas conquistas, a qualquer coisa do tipo. Eu não paro de pensar sobre isso agora. Qual é a importância dessas coisas? Ok, tudo isso destruiu injustamente a minha reputação. Mas a minha reputação só é preocupante se eu estiver apegado a ela.

Essa parece ser a pior lição possível a ser tirada da experiência pela qual ele passou, e soa como uma desculpa reconfortante proferida por um homem que deseja desesperadamente recuperar sua reputação, mas que está ciente de que ela está destruída.

Reputação é algo inestimável.

Liberdade e independência são inestimáveis.

Família e amigos são inestimáveis.

Ser amado por aqueles que você deseja que o amem é inestimável.

Felicidade é inestimável.

E a melhor maneira de manter essas coisas é saber a hora de parar de correr riscos que possam ameaçá-las. É saber quando você tem o suficiente.

A boa notícia é que a ferramenta mais poderosa para se ter o suficiente é muito simples, e não exige colocar em risco o que é inestimável para você. O próximo capítulo trata disso.





4.


Compostos e confusos




Dos 84,5 bilhões de dólares do patrimônio líquido de Warren Buffett, 81,5 bilhões foram ganhos depois que ele já tinha 65 anos. Nossas mentes não possuem as ferramentas para lidar com tais absurdos.





LIÇÕES DE UM determinado campo de estudo muitas vezes podem nos ensinar algo importante sobre campos não relacionados. Vejamos a história das eras glaciais, que compreende bilhões de anos, para entender o que as eras nos ensinam sobre como fazer o seu dinheiro se multiplicar.

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Nosso conhecimento científico sobre a Terra é mais recente do que você imagina. Para compreender como o planeta funciona, muitas vezes temos que fazer perfurações profundas e não éramos capazes de fazer isso até bem pouco tempo atrás. Isaac Newton calculou o movimento das estrelas centenas de anos antes de entendermos alguns dos princípios básicos do nosso próprio planeta.

Foi apenas no século XIX que os cientistas chegaram a um consenso em relação ao fato de que a Terra ficou coberta de gelo em diversas ocasiões. [ 15 ] O volume de evidências era grande demais para que isso fosse negado. Ao redor de todo o mundo havia impressões digitais de um planeta outrora congelado: pedras imensas que foram parar em locais inesperados, leitos de rocha reduzidos a finas camadas. As evidências deixavam claro que não houvera apenas uma era glacial, mas cinco, distintas, que éramos capazes de presumir.

A quantidade de energia necessária para congelar o planeta, fazê-lo derreter de volta e congelá-lo mais uma vez é impressionante. O que, afinal, poderia ter causado esses ciclos? Deveria ser a força mais poderosa da Terra.

E era. Mas não da maneira que todos imaginavam.

Havia diversas teorias sobre por que ocorreram as eras glaciais. Para explicar sua enorme influência na geologia, as teorias eram igualmente grandiosas. Alguns acreditavam que o surgimento das cadeias de montanhas podia ter provocado uma mudança nos ventos capaz de alterar o clima. Outros defendiam a ideia de que o estado natural da Terra seria o gelo, interrompido por grandes erupções vulcânicas que nos aqueciam.

Contudo, nenhuma dessas teorias conseguia explicar o ciclo das glaciações. O surgimento de cadeias de montanhas ou algum vulcão enorme poderiam responder por uma era do gelo, mas não pela repetição cíclica de cinco.

No início do século XX, um cientista sérvio chamado Milutin Milanković estudou a posição da Terra em relação a outros planetas e formulou a teoria das eras glaciais que hoje sabemos estar correta: a atração gravitacional do sol e da lua afetam ligeiramente o movimento e a inclinação da Terra em direção ao astro. Durante alguns momentos deste ciclo — que pode durar dezenas de milhares de anos —, cada um dos hemisférios da Terra recebe um pouco mais ou um pouco menos de radiação solar do que o normal.

E é aí que começa a ficar divertido.

A princípio, a teoria de Milanković presumiu que uma leve inclinação nos hemisférios provocou invernos bastante rigorosos, frios o suficiente para congelar o planeta. Porém, um meteorologista russo chamado Wladimir Köppen se aprofundou no trabalho de Milanković e descobriu uma nuance incrível.

Verões mais frescos, e não invernos mais rigorosos, eram os responsáveis pelo congelamento. Tudo começa quando o verão não é quente o suficiente para derreter a neve do inverno anterior. A base de gelo que se mantém favorece o acúmulo de neve no inverno seguinte, o que aumenta as chances de a neve permanecer no outro verão e provoca um acúmulo ainda maior no inverno subsequente. Essa neve perpétua reflete uma proporção maior da radiação solar, o que intensifica o resfriamento, traz mais neve, e assim por diante. Dentro de algumas centenas de anos, uma camada de neve sazonal se transforma em uma camada de gelo continental, e por aí vai.

O mesmo acontece no sentido oposto. Uma inclinação orbital que permite a entrada de mais luz solar derrete um volume maior da camada de neve do inverno; ela então passa a refletir menos luz nos anos seguintes, provocando aumento das temperaturas, o que previne a formação de neve no ano seguinte, e assim por diante. Esse é o ciclo.

O incrível aqui é que algo tome tamanha proporção a partir de uma mudança relativamente pequena nas condições climáticas. Você começa com uma fina camada de neve que sobrou de um verão mais fresco com o qual ninguém se importaria, e então, em um piscar de olhos em termos geológicos, a Terra inteira está coberta por uma camada de gelo de quilômetros de espessura. Como disse a glaciologista Gwen Schultz: “Não é, necessariamente, a quantidade de neve que provoca a formação de camadas de gelo, mas o fato de que a neve permaneça, por menor que seja o seu volume.”

A grande lição da era do gelo é que você não precisa de uma força fora do comum para criar resultados fora do comum.

Se algo começa a se compor — se um pequeno crescimento serve como combustível para o crescimento futuro —, uma base inicial pode levar a resultados tão extraordinários que parecem desafiar a lógica. Esse desafio à lógica pode ser tão forte que você passa a subestimar o que é possível no fim das contas, de onde vem o crescimento e até onde ele pode levar.

Com o dinheiro, funciona da mesma maneira.

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Existem mais de 2 mil livros que falam sobre como Warren Buffett construiu sua fortuna. Muitos são maravilhosos. Contudo, poucos prestam atenção à coisa mais simples de todas: a fortuna de Buffett não se deve apenas ao fato de ele ser um bom investidor, mas, sim, ao fato de ele ser um bom investidor desde que era, literalmente, criança.

Enquanto escrevo essas linhas, o patrimônio líquido de Warren Buffett é de 84,5 bilhões de dólares. Desse total, 84,2 bilhões foram ganhos depois de ele completar 50 anos. E 81,5 bilhões vieram na casa dos 60, quando ele se tornou elegível para a aposentadoria.

Warren Buffett é um investidor fenomenal. No entanto, ao vincularmos todo o seu êxito à perspicácia dele em relação a investimentos, deixamos passar um ponto fundamental. Esse ponto é o fato de que ele tem sido um investidor fenomenal há três quartos de século. Se ele tivesse começado a investir quando estava na casa dos 30 anos e se aposentado aos 60, poucos teriam ouvido falar dele.

Façamos um pequeno exercício de imaginação.

Buffett começou a investir com seriedade aos 10 anos de idade. Aos 30, ele tinha um patrimônio líquido de 1 milhão de dólares, ou 9,3 milhões em valores de hoje, corrigidos pela inflação. [ 16 ]

Mas e se ele fosse uma pessoa mais comum, passando a adolescência e seus 20 anos explorando o mundo em busca de suas paixões, e aos 30 seu patrimônio líquido fosse de, digamos, 25 mil dólares?

E digamos que, mesmo assim, ele tivesse tido os retornos extraordinários que consegue gerar (22% ao ano) nos seus investimentos, mas tivesse parado de investir e se aposentado aos 60, para jogar golfe e passar mais tempo com os netos.

Qual seria uma estimativa aproximada de seu patrimônio líquido hoje? Não, não seria de 84,5 bilhões de dólares.

Seria de 11,9 milhões.

Ou seja, 99,9% menos do que o patrimônio líquido real dele.

Em termos práticos, todo o sucesso monetário de Warren Buffett pode ser vinculado à base financeira que ele construiu na adolescência e à longevidade que ele manteve durante a terceira idade.

Sua habilidade é saber investir, mas seu segredo é o tempo.

É assim que a composição funciona.

Vejamos isso de outra forma. Buffett é o investidor mais rico de todos os tempos. Mas ele não é propriamente o melhor — pelo menos não em termos da média de retornos anuais.

Jim Simons, chefe do fundo de hedge Renaissance Technologies, tem ganhos a uma taxa de 66% ao ano desde 1988. Ninguém chega perto desse recorde. Como acabamos de ver, Buffett acumula cerca de 22% ao ano, um terço desse valor.

Enquanto escrevo, o patrimônio líquido de Simons é de 21 bilhões de dólares. Ele é — e eu sei o quanto isso soa ridículo, dados os números com os quais estamos lidando — 75% menos rico do que Buffett.

Por que a diferença, se Simons é um investidor melhor? Porque Simons só assumiu esse ritmo de investimento depois dos 50 anos. Ele teve menos da metade do tempo que Buffett para fazer seus investimentos renderem. Se James Simons viesse mantendo seu percentual anual de retorno de 66% por setenta anos, que é o período em que Buffett construiu sua riqueza, a fortuna dele seria de — por favor, respire fundo — sessenta e três quintilhões novecentos quatrilhões setecentos e oitenta e um trilhões setecentos e oitenta bilhões setecentos e quarenta e oito milhões cento e sessenta mil dólares.

Essa cifra é impressionante e inacreditável. Mas é fato que coisas que parecem ser pequenas mudanças nas premissas de crescimento podem levar a números impressionantes e inacreditáveis. Assim, quando estamos estudando os motivos pelos quais algo se tornou tão poderoso — seja por que uma era do gelo se formou ou por que Warren Buffett é tão rico —, com frequência ignoramos os principais fatores que impulsionam o sucesso.

Já ouvi muitas pessoas dizerem que, quando viram uma tabela de juros compostos pela primeira vez — ou ouviram uma daquelas histórias sobre como você teria bem mais dinheiro ao se aposentar se começasse a economizar na casa dos 20, em vez de fazê-lo na dos 30 —, aquilo provocou uma mudança na vida delas. Mas, provavelmente, não. O que talvez aquilo tenha provocado foi uma surpresa, porque, intuitivamente, os resultados não pareciam estar certos. O pensamento linear é bem mais intuitivo do que o pensamento exponencial. Se eu pedir que você calcule de cabeça 8+8+8+8+8+8+8+8+8, você pode fazer isso em alguns segundos (dá 72). Só que se eu pedir que você calcule 8×8×8×8×8×8×8×8×8, sua cabeça vai entrar em parafuso (dá 134.217.728).

A IBM desenvolveu um disco rígido de 3,5 megabytes na década de 1950. Na década de 1960, as coisas começaram a passar para algumas dezenas de megabytes. Na década seguinte, o Winchester da IBM tinha setenta megabytes. Então, os discos ficaram exponencialmente menores em termos de tamanho, mas com maior capacidade de armazenamento. Um PC típico do início da década de 1990 tinha de duzentos a quinhentos megabytes.

E então… bum! A coisa toda disparou.

1999 — O iMac, da Apple, passou a vir com um disco rígido de seis gigabytes.

2003 — 120 gigabytes no Power Mac.

2006 — 250 gigabytes no novo iMac.

2011 — O primeiro disco rígido de quatro terabytes.

2017 — Discos rígidos de sessenta terabytes.

2019 — Discos rígidos de cem terabytes.

Recapitulando: de 1950 a 1990, ganhamos 296 megabytes. De 1990 até hoje, ganhamos 100 milhões de megabytes.

Se você fosse um otimista em relação à tecnologia na década de 1950, poderia ter previsto que o armazenamento se tornaria mil vezes maior. Talvez 10 mil vezes maior, fazendo uma estimativa bem ousada. Poucos teriam dito “30 milhões de vezes maior, e eu vou estar aqui para ver isso”. Mas foi o que aconteceu.

A natureza contraintuitiva da composição leva até o mais inteligente de nós a ignorar o seu poder. Em 2004, Bill Gates criticou o recém-lançado Gmail, questionando a necessidade de um gigabyte de armazenamento. O jornalista Steven Levy escreveu: “Apesar de sua familiaridade com tecnologias de ponta, a mentalidade de Gates estava ancorada no antigo paradigma do armazenamento como uma mercadoria que deve ser conservada.” As pessoas nunca se acostumam com a rapidez com a qual as coisas mudam.

O perigo aqui é que, quando a composição não é intuitiva, nós muitas vezes ignoramos o seu potencial e nos concentramos em outras formas de solucionar os problemas. Não porque estejamos racionalizando demais, mas porque quase nunca paramos para refletir sobre o potencial da composição.

Nenhum dos 2 mil livros que esmiúçam o sucesso de Buffett é intitulado Esse cara tem investido consistentemente durante três quartos de século. Mas sabemos que essa é a chave para a maior parte do sucesso dele. Essa matemática só é difícil de ser assimilada pelo fato de não ser intuitiva.

Existem livros sobre ciclos econômicos, estratégias de negociação e apostas setoriais. No entanto, o livro mais poderoso e importante deveria se chamar Cale a boca e espere. Teria apenas uma página, com um gráfico de crescimento econômico de longo prazo.

Em termos práticos, a conclusão é que a natureza contraintuitiva da composição pode ser responsável pela maior parte das negociações frustradas, das estratégias ruins e das tentativas de investimento bem-sucedidas.

Não se pode culpar as pessoas por dedicar todo o seu esforço — de fazer e de aprender — para tentarem obter os retornos mais altos nos seus investimentos. Intuitivamente, parece a forma mais certa de enriquecer.

No entanto, obter os retornos mais altos não faz com que um investimento seja obrigatoriamente bom, porque os retornos mais altos tendem a ser sucessos únicos que não se repetem. Um bom investimento está relacionado à obtenção de retornos excelentes que podem ser mantidos e repetidos por um longo período. É nesses casos que a composição faz o seu melhor.

O oposto disso — obter retornos altíssimos que não podem ser mantidos — provoca histórias trágicas. Vamos ver algumas delas no capítulo seguinte.





5.


Ficar rico versus continuar rico




Um bom investimento não tem a ver necessariamente com tomar boas decisões, mas, sim, com ser consistente em não errar.





HÁ UM MILHÃO de formas de ficar rico e um monte de livros sobre como fazer isso.

Mas só existe uma forma de continuar rico: um misto de frugalidade e paranoia.

E esse é um assunto que não é debatido com frequência.

Vamos começar com uma breve história sobre dois investidores que nunca chegaram a se conhecer, mas cujos caminhos se cruzaram de uma forma interessante quase um século atrás.

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Jesse Livermore foi o maior operador de ações da sua época. Nascido em 1877, ele se tornou um operador profissional antes mesmo que a maioria das pessoas soubesse que essa atividade existia. Aos 30 anos, a fortuna dele era equivalente a 100 milhões de dólares em valores atualizados.

Em 1929, Jesse Livermore havia se tornado um dos investidores mais famosos do mundo. A Quebra da Bolsa de Nova York, naquele ano, marcou o início da Grande Depressão e consolidou seu legado na história.

Mais de um terço do valor do mercado de ações evaporou no intervalo de uma semana do outubro de 1929, cujos dias foram posteriormente chamados de Segunda-Feira Negra, Terça-Feira Negra e Quinta-Feira Negra.

Dorothy, a esposa de Livermore, temeu o pior quando seu marido voltou para casa no dia 29 de outubro. Relatos de que especuladores de Wall Street estariam cometendo suicídio tinham começado a se espalhar em Nova York. Ela e seus filhos receberam Jesse à porta de casa aos prantos, enquanto a mãe dela estava tão perturbada que se fechou em um quarto e começou a gritar.

Jesse, de acordo com o biógrafo Tom Rubython, ficou confuso por um instante, até perceber o que estava acontecendo.

Ele então deu a notícia para a família: em um golpe de genialidade e de sorte, ele havia feito uma série de vendas a descoberto, na aposta de que o preço das ações ia despencar.

“Quer dizer que não estamos falidos?”, perguntou Dorothy.

“Não, querida, esse foi o meu melhor dia de transações de todos os tempos — estamos absurdamente ricos e podemos fazer o que tivermos vontade”, respondeu Jesse.

Dorothy correu até a mãe e disse que ela podia parar de gritar.

Em um único dia, Jesse Livermore ganhou o equivalente a mais de 3 bilhões de dólares.

Durante um dos piores meses da história do mercado de ações, ele se tornou um dos homens mais ricos do mundo.

Enquanto a família de Livermore comemorava seu sucesso improvável, outro homem vagava pelas ruas de Nova York em desespero.

Abraham Germansky era um incorporador imobiliário multimilionário que havia feito fortuna durante a agitada década de 1920. Diante do boom econômico, ele fez o que praticamente todos os nova-iorquinos de sucesso fizeram no final dos anos 1920: apostou pesado no crescente mercado de ações.

Em 26 de outubro de 1929, o The New York Times publicou um artigo que, em dois parágrafos, retratava um final trágico:

Bernard H. Sandler, advogado situado no número 225 da Broadway, foi contactado na manhã de ontem pela sra. Abraham Germansky, de Mount Vernon, que pedia ajuda para encontrar o marido, desaparecido desde a manhã de quinta-feira. Germansky, que tem 50 anos e é operador imobiliário no lado leste da cidade, havia investido pesadamente em ações, segundo Sandler.

Ainda de acordo com Sandler, uma amiga da sra. Germansky disse ter visto o marido dela na noite de quinta-feira perto da Bolsa de Valores, na Wall Street. De acordo com a informante, o sr. Germansky estava rasgando uma tira de fita telegráfica e jogando os pedaços pela calçada enquanto andava em direção à Broadway.

E, até onde sabemos, foi esse o fim de Abraham Germansky.

Há um contraste aqui.

A Quebra da Bolsa de Nova York, ocorrida em outubro de 1929, fez de Jesse Livermore um dos homens mais ricos do mundo, e, ao mesmo tempo levou Abraham Germansky à ruína, tendo talvez lhe custado a vida.

Mas avancemos quatro anos, e essas duas histórias se cruzam de novo. Depois do golpe de sorte em 1929, Livermore, transbordando de confiança, começou a fazer apostas cada vez maiores. Ele acumulou dívidas, foi arrastado para um estado de tensão além do que conseguia suportar e acabou perdendo tudo na bolsa.

Falido e envergonhado, o homem desapareceu por dois dias em 1933. Sua esposa o procurou. “Jesse L. Livermore, o operador do mercado de ações, residente no número 1.100 da Park Avenue, está desaparecido e não foi visto desde as três horas da tarde de ontem”, escreveu o The New York Times na ocasião.

Ele reapareceu, mas seu destino estava traçado. Livermore acabou tirando a própria vida.

As circunstâncias não foram as mesmas, mas Germansky e Livermore tinham um traço de personalidade em comum: ambos eram muito bons em ficar ricos e igualmente ruins em continuar ricos.

Ainda que “rico” não seja uma palavra que você usaria para descrever a si mesmo, as lições da frase a seguir se aplicam a todos, em todos os graus de rendimento.

Ganhar dinheiro é uma coisa. Mantê-lo é outra.

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Se eu tivesse que sintetizar o sucesso financeiro em uma única palavra, essa palavra seria “sobrevivência”.

Como veremos no Capítulo 6, 40% das empresas que se tornam tão bem-sucedidas a ponto de terem seu capital aberto na bolsa de valores acabam por perder todo o seu valor ao longo do tempo. A lista Forbes 400 dos americanos mais ricos tem, em média, cerca de 20% de rotatividade por década devido a fatores que não estão relacionados à morte ou à transferência de dinheiro para outro membro da família. [ 17 ]

O capitalismo é selvagem. Mas isso acontece, em parte, porque saber ganhar dinheiro e saber mantê-lo são duas competências distintas.

Ganhar dinheiro requer correr riscos, ser otimista, se expor.

Mas manter o dinheiro requer o oposto de correr riscos. Requer humildade e o medo de que o que você conquistou possa ser tirado de você com a mesma rapidez. Requer frugalidade e a aceitação do fato de que pelo menos parte do que você conquistou pode ser atribuído à sorte; logo, não se pode confiar que os sucessos passados vão se repetir para sempre.

O apresentador Charlie Rose perguntou a Michael Moritz, o bilionário diretor da Sequoia Capital, por que a Sequoia era tão bem-sucedida. Moritz falou de longevidade, chamando atenção para o fato de que algumas empresas de capital de risco são bem-sucedidas por cinco ou dez anos, mas a Sequoia vinha prosperando havia quatro décadas. Rose questionou por que aquilo acontecia.

Moritz: Acho que sempre tivemos medo de falir.

Rose: Sério? Então é medo? Só os paranoicos sobrevivem?

Moritz: Há uma boa dose de verdade aí… Nós presumimos que o amanhã não será como o ontem. Não podemos nos dar ao luxo de dormir sobre os louros colhidos. Não podemos ser complacentes. Não podemos presumir que o sucesso do passado se traduz na boa sorte do futuro.

Aqui está ela de novo, a sobrevivência.

Não é “crescimento”, “cérebro” nem “visão”. A capacidade de permanecer ativo por muito tempo, sem se apagar ou ser forçado a desistir, é o que faz diferença de verdade. Esta deve ser a base da sua estratégia, seja nos investimentos, na sua carreira ou no seu negócio.

Existem duas razões pelas quais a mentalidade de sobrevivência é tão importante na relação com as finanças.

A primeira é óbvia: poucos ganhos são tão grandes a ponto de valer a pena a gente se desgastar por eles.

A outra, como vimos no Capítulo 4, é a matemática contraintuitiva da composição.

A composição só funciona se você puder dar anos e anos a um ativo para que ele cresça. É como plantar um carvalho: um ano não trará muito progresso, dez podem fazer uma diferença significativa e cinquenta são capazes de criar algo extraordinário.

No entanto, obter e manter esse crescimento extraordinário requer sobreviver a todos os altos e baixos imprevisíveis que todo mundo, invariavelmente, experimenta ao longo do tempo.

Podemos passar anos tentando descobrir como Buffett conseguiu o retorno que seus investimentos garantem: como descobriu as melhores empresas, as ações mais baratas, os melhores administradores. Isso é difícil. Um pouco mais fácil, mas igualmente importante, é se debruçar sobre o que ele não fez.

Ele não se atolou em dívidas.

Ele não entrou em pânico e vendeu tudo em nenhuma das catorze recessões que atravessou.

Ele não manchou a sua reputação empresarial.

Ele não se prendeu a uma única estratégia, uma única visão de mundo ou a uma única moda passageira.

Ele não dependia do dinheiro de terceiros (administrar investimentos por meio de uma empresa de capital aberto significa que os investidores não podem retirar seu capital).

Ele não se deixou esgotar e desistiu. Ele não se aposentou.

Ele sobreviveu. A sobrevivência deu a ele a longevidade. E a longevidade — investir de forma consistente dos 10 aos 89 anos, pelo menos — é o que faz maravilhas pelo trabalho da composição. Esse único ponto é o mais importante na hora de descrever o sucesso de Buffett.

Para ilustrar o que estou dizendo, vejamos a história de Rick Guerin.

Warren Buffett e seu braço direito Charlie Munger são uma dupla que muito provavelmente todo mundo conhece. No entanto, quarenta anos atrás, havia um terceiro membro no grupo: Rick Guerin.

Warren, Charlie e Rick fizeram investimentos e entrevistaram gerentes de negócios juntos. Então, Rick desapareceu, pelo menos em comparação ao sucesso de Buffett e Munger. O investidor Mohnish Pabrai certa vez perguntou a Buffett o que havia acontecido com Rick. Mohnish conta:

[Warren disse que] “Charlie e eu sempre soubemos que nos tornaríamos incrivelmente ricos. Não tínhamos pressa; sabíamos que isso ia acontecer. Rick era tão inteligente quanto nós, mas estava com pressa.”

O que aconteceu foi que os investimentos de Rick durante a recessão de 1973-1974 haviam sido feitos à base de empréstimos que tinham as próprias ações como garantia. E o mercado de ações caiu quase 70% naqueles dois anos, de modo que ele precisou apresentar novas garantias. Então, ele vendeu suas ações da Berkshire para Warren — Warren de fato disse “Eu comprei a parte de Rick na Berkshire” — por menos de 40 dólares cada. Rick foi forçado a vendê-las por causa dos empréstimos. [ 18 ]

Charlie, Warren e Rick eram igualmente hábeis em enriquecer. Mas Warren e Charlie também sabiam como continuar com dinheiro. E, com o tempo, essa é a habilidade que mais importa.

Nassim Nicholas Taleb resumiu isso da seguinte forma: “Ter uma ‘vantagem’ e sobreviver são duas coisas diferentes: a primeira não existe sem a segunda. É preciso evitar a ruína. A todo custo.”

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Aplicar a mentalidade de sobrevivência ao mundo real se resume a estar atento a três coisas.

1. Mais do que grandes retornos, o que quero é ser à prova de falências. E, se eu for à prova de falências, de fato acredito que vou ter os maiores retornos, porque serei capaz de permanecer no jogo por tempo suficiente para que a composição faça maravilhas.

Ninguém quer ficar com dinheiro parado durante uma alta do mercado. Todo mundo quer comprar ativos que estão se valorizando. Você parece, e se sente, conservador ao não sair gastando durante uma alta, porque está perfeitamente ciente do volume de retorno do qual está abrindo mão por não deter aquelas ações. Digamos que o dinheiro renda 1% ao ano enquanto as ações rendem 10%. Essa diferença de 9% consome você por dentro, dia após dia.

No entanto, se esse dinheiro impedir que você tenha que vender suas ações durante uma baixa, o verdadeiro retorno que você teve com ele não é de 1% ao ano — pode ser bem maior, porque evitar a venda desesperada e inoportuna de ações pode fazer mais pelos seus retornos ao longo do tempo do que comprar uma dezena de ações de momento.

A composição não depende da obtenção de grandes retornos. Retornos meramente bons mantidos de forma ininterrupta pelo máximo de tempo — sobretudo em períodos de caos e destruição — se sairão sempre melhores.

2. Fazer planos é importante, mas a parte mais importante de um plano é ter um plano para quando o plano não estiver saindo de acordo com o plano.

Há um ditado que diz: “Enquanto você faz planos, Deus ri.” Ter um planejamento financeiro e de investimentos é essencial, pois isso permite que você saiba se as suas ações, hoje, estão dentro de uma margem razoável. Porém, poucos planos, de qualquer tipo que sejam, sobrevivem ao primeiro encontro com o mundo real. Se você está projetando os seus rendimentos, o quanto vai poupar e quais serão os retornos do mercado de ações para os próximos vinte anos, pense em todas as coisas que aconteceram nas últimas duas décadas que ninguém poderia ter previsto: o Onze de Setembro, uma bolha imobiliária que fez com que quase 10 milhões de americanos perdessem as casas, uma crise financeira que fez com que quase 9 milhões ficassem desempregados, a recuperação recorde do mercado de ações que veio logo a seguir e um coronavírus que abala o mundo todo enquanto escrevo estas linhas.

Um plano só é útil se for capaz de sobreviver à realidade. E um futuro repleto de incógnitas é a realidade para todos.

Um bom plano não finge que isso não é verdade; ele abraça essa característica e dá margem para erros. Quanto mais você depende de aspectos específicos para que um plano seja verdadeiro, mais frágil se torna a sua vida financeira. Se a margem de erro de sua estimativa de poupança lhe permite dizer “Seria ótimo se o mercado desse 8% de retorno ao ano pelos próximos trinta anos, mas se ele der só 4%, vai ficar tudo bem”, seu plano é ótimo.

Muitas apostas fracassam não porque estavam erradas, mas porque, na maioria das vezes, estavam certas em uma situação que exigia que tudo saísse perfeitamente conforme o esperado. A margem de erro — muitas vezes chamada de margem de segurança — é uma das forças mais subestimadas quando se trata de finanças. Ela se manifesta de diversas formas: um orçamento frugal, um pensamento mais flexível e expectativas mais baixas — qualquer coisa que permita que você tenha êxito diante de uma infinidade de resultados possíveis.

Isso não é a mesma coisa que ser conservador. Ser conservador é evitar um determinado grau de risco. Margem de segurança é aumentar a probabilidade de sucesso dentro de um determinado nível de risco, ampliando suas chances de sobrevivência. A mágica por trás disso é que, quanto maior a sua margem de segurança, menor a vantagem que você precisa ter para conseguir um resultado favorável.

3. Uma personalidade bem-calibrada — otimista quanto ao futuro, mas desconfiada em relação ao que pode impedir esse futuro de chegar — é vital.

Em geral, o otimismo é definido como a crença de que tudo vai correr bem. Mas essa definição é incompleta. O otimismo sensato é a crença de que as probabilidades estão a seu favor, e que, com o tempo, elas vão se estabilizar de maneira positiva, ainda que o que aconteça no meio do caminho seja desesperador. E, na verdade, você sabe que será assim. Você pode estar otimista de que a trajetória de crescimento de longo prazo aponta “para o alto e avante”, mas também pode ter certeza de que o caminho até lá é cheio de armadilhas, porque realmente é. Essas duas atitudes não são excludentes entre si.

A noção de que algo pode valer a pena a longo prazo e ao mesmo tempo ser desesperador a curto prazo não é intuitiva, mas é como muitas coisas funcionam na vida. Aos 20 anos, o ser humano médio pode perder cerca de metade das conexões sinápticas que tinha no cérebro aos 2 anos de idade, à medida que as vias neurais ineficientes e redundantes vão sendo eliminadas. Porém, o ser humano médio de 20 anos de idade é muito mais inteligente do que a criança média de 2 anos. A destruição diante do progresso não é apenas possível — é uma forma eficiente de se livrar do que está sobrando.

Imagine que você tenha um filho e que seja capaz de ver o que acontece no cérebro dele. Assim, a cada manhã, você perceberia que existem menos conexões sinápticas. Você entraria em pânico! Falaria: “Tem algum problema aqui, há muita perda e destruição. Precisamos resolver esse problema. Precisamos ir ao médico!” Mas não é nada disso. O que você está testemunhando é o caminho normal do progresso.

Economias, mercados e carreiras muitas vezes seguem um caminho semelhante — crescimento em meio a perdas.

Veja o desempenho da economia dos Estados Unidos nos últimos 170 anos:





Mas você sabe o que aconteceu nesse período? Ora, por onde começar?

1,3 milhão de americanos morreram enquanto lutavam em nove guerras.

Aproximadamente 99,9% de todas as empresas fecharam as portas.

Quatro presidentes dos Estados Unidos foram assassinados.

675 mil americanos morreram em um único ano devido a uma pandemia de gripe.

Trinta desastres naturais isolados mataram, cada um, pelo menos quatrocentos americanos.

33 recessões que, somadas, duraram 48 anos.

O número de analistas que previram qualquer uma dessas ondas de recessão tende a zero.

O mercado de ações caiu mais de 10% após uma alta em pelo menos 102 ocasiões.

As ações perderam um terço de seu valor em pelo menos doze ocasiões.

A inflação anual excedeu 7% em vinte anos isolados.

A expressão “pessimismo econômico” apareceu nos jornais pelo menos 29 mil vezes, de acordo com o Google.



O padrão de vida dos americanos aumentou vinte vezes nesses 170 anos, mas mal se passou um dia sem motivos palpáveis para o pessimismo.

É complicado sustentar uma mentalidade paranoica e otimista ao mesmo tempo, porque ver as coisas como preto no branco é mais fácil do que aceitar nuances. No entanto, você precisa a paranoia de curto prazo para mantê-lo vivo por tempo suficiente para explorar o otimismo a longo prazo.

Jesse Livermore descobriu isso da maneira mais difícil.

Ele associou bons tempos ao fim de tempos ruins. Ficar rico fez com que ele achasse que continuar rico era inevitável, e que ele era invencível. Depois de ter perdido quase tudo, refletiu:

Às vezes, penso que nenhuma lição é mais valiosa a qualquer especulador do que aprender a não deixar o sucesso subir à cabeça. As derrocadas de muitas pessoas brilhantes podem ser atribuídas diretamente ao fato de o sucesso ter subido à cabeça delas.

“É um mal que cobra seu preço”, disse ele, “em todos os lugares, para todas as pessoas.”

A seguir, veremos outro motivo pelo qual o crescimento diante da adversidade é tão difícil de ser compreendido.





6.


Devagar e sempre




Você pode estar errado metade